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Cello, ‘ martelo’ ou (‘golpeador’)

SUKELLOSO deus galo-romano Su-cellos é representado, ao lado de sua companheira Nanto-Suelta, portando um martelo ou mais precisamente um malho de cabo comprido (RDG 63; sobre esse deus, veja-se Duval 60-63, De Vries 99-105, Sjoestedt Dieux 36-37, Birkham Kelten 610-11). Compreende-se o seu nome como ‘o bom golpeador’ (H. d’Arbois de Jubainville RC 17 [1896]], 49 n. 2) ou ‘aquele que tem um bom martelo’ (V. Henry, ibid. 66). O prefixo su- ‘bom-, bem-‘ é conhecido e -cellos equivaleria a *kel-do-s com a raiz *kel-d ‘golpear’, empregada como o latim per-cellere (*-kel-de) ‘bater’, grego kláō ‘destruo’, lituano kálti ‘golpear com um martelo, forjar’ e kùlti ‘bater (o trigo)’, IEW 546, DELL 111. J. Zeidler chamou a minha atenção para outra etimologia proposta por W. Borgeaud, IF 74 (1969), 139-46, de Su-cellos por *su-kweslo- com delabialização do kw depois de u (cf. bretão bugel de *bou-colios < *gwou -kwoli̯os) comparável ao antropônimo galês Pwyll (*kwēslo-), bretão poell ‘prudência, sabedoria’, irlandês antigo cíall ‘bom senso, sabedoria’, LEIA C-93; o sentido de Su-cēllos seria ‘Aquele a cuja atenção nada escapa; the well-aware-one‘; talvez então o teônimo Uitio-celus encontrado em Coudoux, AE 1992, 1180, (por Uitu-, porém o irlandês antigo fidchell e o galês gwyddbwyll ‘tipo de jogo de damas’ remontam a *u̯idu-kwēslā, LEIA C-94). A forma Su-caelus deve ser uma variante ortográfica de Su-cel(l)us, a menos que se deve entendê-la como *su-cailos ‘bom presságio’, bretão coel etc. que seria então um nome diferente. Cf. também os antropônimos Ar-cellus DAG 529, So-cellinus 842, Uer-cellius ‘Grande Golpeador’? Ceni-cello ‘golpe distante’? e Su-cella no Noricum (RPS 54 e 155). Há um antropônimo Kellos entre os vênetos itálicos que poderia ser gaulês (Lingua Venetica 118); para os topônimos: Uer-cellae no Piemonte, hoje Vercèlli, Vercel (Doubs, Vercellis, 1148), *Cello-ialon > Cellule (Puy-de-dôme, Cellolio 1230).

Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise (2004), pp. 113-4.

Tradução: Bellouesus /|\

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O Furor do Espectro (Baile in Scáil)

lettercerto dia, Conn estava em Tara, depois de derrotar os reis. De manhã cedo, ele subiu à fortificação real de Tara, antes do nascer do sol, junto com seus três druidas, Mael e Bloc e Bluicne, e seus três fili [poetas], Ethain e Corb e Cesarn. Pois esse grupo costumava levantar-se todo dia para vigiar, não fossem os homens do sídhe [fadas; Tuatha Dé Danann] capturar a Irlanda sem que eles percebessem.

Era para a rampa que ele costumava ir sempre e ele topou com uma pedra sob seus pés e pisou nela. A pedra gritou sob seus pés, de modo que se ouviu em toda a Tara e por Brega. Então, Conn perguntou a seus druidas porque a pedra tinha gritado, qual era o seu nome, de onde viera e para onde iria e porque viera a Tara. O druida disse a Conn que não lhe diria o nome até que se passasem cinquenta e três dias. Quando esse número se completou, Conn perguntou ao druida novamente.

Então o druida disse: “Fál [destino] é o nome da pedra. É da ilha de Fál que ela foi trazida. É em Tara da terra de Fál que ela foi colocada. É na terra de Tailtiu que permanecerá até o Dia do Julgamento. E é nessa terra que haverá uma assembleia festiva durante o tempo em que existir realeza em Tara. E o governante que não a encontrar [ou deixá-la?] no último dia da assembleia será um homem condenado nesse ano. Fál gritou sob teus pés hoje”, disse o druida, “e profetizou. O número dos gritos que a pedra lançou é o número de reis que de tua raça virão até o Dia do Julgamento. Não serei eu quem te dirá seus nomes”, disse o druida.

Então eles viram uma grande névoa ao seu redor, de forma que não sabiam aonde estavam indo por causa da vastidão das trevas que caíram sobre eles. Ouviram o ruído de um cavaleiro aproximando-se deles. “Ai de nós”, disse Conn, “se ele nos levar a uma terra desconhecida!” Então o cavaleiro fez três arremessos de lança contra eles e o último chegou até eles mais rápido que o primeiro. “Está se erguendo para ferir um rei”, disse o druida, “quem quer que faça um arremesso contra Conn em Tara!” Então o cavaleiro cessou seus arremessos e aproximou-se deles e deus as boas-vindas a Conn e convidou-o para acompanhá-lo a sua morada.

Eles então prosseguiram até chegarem a uma planície e ali havia uma árvore dourada. Lá havia uma casa com um poste central de findruine [uma liga metálica branca] com trinta pés de comprimento [914,4 m]. Entraram na casa e viram ali uma jovem e uma coroa de ouro estava em sua cabeça. Havia uma tina de prata com argolas de ouro em volta, cheia de cerveja vermelha. Havia uma caneca de ouro na sua borda e uma taça de ouro diante dela. Viram o próprio scál [espectro] na casa, diante deles em seu trono. Jamais houve em Tara um homem do seu tamanho ou da sua formosura, por causa da beleza de suas formas e da maravilha de sua aparência.

Ele lhes respondeu e disse: “Não sou um fantasma, nem um espectro. Vim por causa de minha fama entre vós, desde a minha morte. E sou da raça de Adão: meu nome é Lugh, filho de Eithliu, filho de Tigernmas. É por este motivo que vim: para relatar-te a duração de teu reinado e de cada rei que haverá em Tara.”

E a garota que se sentava diante deles na casa era a Soberania da Irlanda e foi ela quem deu a Conn sua refeição: a costela de um boi e a costela de um javali. A costela do boi tinha vinte e quatro pés de comprimento e oito pés entre seu arco e o chão. Quando a garota começou a distribuir as bebidas, ela disse: “A quem será dada esta taça?” e o espectro lhe respondeu.

Quando ela tinha nomeado cada governante até o Dia do Julgamento, eles entraram na sombra do espectro, de modo que não viram nem o recinto, nem a casa. A tina e a caneca de ouro e a taça foram deixadas com Conn. E daí vêm os relatos de O Sonho do Espectro e A Aventura e Viagem de Conn.

Texto irlandês

Tadução: Bellouesus /|\

Nota: o texto foi traduzido até a frase Is de sin atá Aisling an Scáil et Egtrai & Targraide Cuind. A partir desse ponto, segue-se uma relação dos reis irlandeses, que foi omitida.

As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann II

4_jewelsAntes de aportar em Ériu (nome nativo da Irlanda), as Tuatha Dé Danann estiveram nas ilhas ao norte do mundo (i n-insib tūascertachaib in domain) a peregrinar por quatro cidades, ut cecinit poeta, Falias, Gorias, Findias e Murias.

Em cada uma dessas cidades, as Tuatha Dé aprenderam as artes místicas, ou seja, as artes dos druidas (druidecht), conhecimento (fis), profecia (fáistine) e habilidades mágicas (amainsecht) sob a orientação de quatro magos (ceithri fiseda), a saber, Morfessa de Falias, Esras de Gorias, Uiscias de Findias e Semias de Muirias. Cada um desses mestres deu-lhes um talismã.

Morfessa de Falias deu a Lia Fail, ou seja, a Pedra de Fal, que gritaria ao ser pisada pelo rei que legitimamente tomasse a soberania de Ériu (fláith Érenn).

Esras de Gorias deu a Sleg Loga, ou seja, a Lança de Lug, capaz de assegurar a vitória daquele que a empunhasse.

Uiscias de Findias deu a Claideb Nuadat, ou seja, a Espada de Núadu, que, uma vez desembainhada, jamais deixaria de atingir o oponente.

Semias de Muirias deu o Coiri in Dagda, ou seja, o Caldeirão do Dagda, do qual nenhum bando de guerreiros valentes afaster-se-ia sem ter encontrado todo o alimento que desejasse.

Por essa razão, esses presentes foram chamados ceithri haisceda Tuaithi De Danand, os quatro dons das Tuatha Dé Danann.

Leia também: As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann I.

Bellouesus /|\

Mais sobre os Caldeirões

CAULDRONUm antigo poema atribuído ao próprio druida Amergin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

O primeiro chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sois (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar.

Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente invertido em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria” (anruthanna), o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sidhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/ […] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amrán Mór que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

Bellouesus /|\

Ar Rannou (As Séries)

Apresentado no VI Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC

Material de apoio

Correspondências Direcionais 1

Correspondências Direcionais 2

Saltair na Rann

Do Ritual

Druida e Drui

Greinobilacon

Segundo Taliesin (Preiddeu Annwfn), y peir pen annwfyn (o caldeirão do chefe de Annwn), o anadyl naw morwyn gochyneuit (pelo alento de nove donzelas era gentilmente aquecido).

Em Pa Gur, diz-se que Cai matou nove bruxas.

Pomponius Mela (séc. I d. C.) escreveu que, na ilha chamada Sena (Enez-Sun), na costa da Bretanha, um grupo de nove sacerdotisas atendia o oráculo de um deus céltico. Além de capacidades divinatórias, essas nove sacerdotisas possuíam poderes de cura, metamorfose e controle do vento e das ondas.

Essas nove sacerdotisas reaparecem como bruxas na biografia de São Sanson (séc. VI), um dos fundadores da igreja bretã, mas vivendo numa floresta remota juntamente com sua mãe.

Estão presentes na Vida de Merlin, de Galfridus Monemutensis. São nove irmãs lideradas por Morgen, especialistas nas artes da cura, habitando na “Insula Pomorum” (Ilha das Maçãs).

As mesmas nove mulheres surgem na lenda de Peredur ab Efrawc. São as “feiticeiras de Gloucester” (Caerloyw < Gloui < Gleuon/Glouvia, “lugar brilhante” < proto-céltico wolugus, “luz”, galês golau, bretão goulou; Gloucester foi o local do encarceramento de Mabon) em cujo palácio Peredur recebeu armas e foi iniciado nos caminhos da cavalaria.

É interessante observar que Peredur recebeu a iniciação guerreira na Cidade da Luz, ao passo que Cúchulainn foi iniciado na Ilha das Sombras. Nos dois casos, a espada veio de mãos femininas. Como as armas de Llew, como a espada de Arthur. Segundo a interpretação de Maria Nazareth Alvim de Barros (Uma Luz sobre Avalon) o motivo recorrente na mitologia céltica da iniciação guerreira conferida por mulheres (humanas ou divinas) seria simbólico de que a força deve ser sempre temperada pela compaixão.

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