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Dian Cecht e Miach

No final do relato da “Primeira Batalha de Mag Tuired” (Cét-chath Maige Tuired ou Cath Maighe dianTuireadh Cunga, “A Batalha de Mag Tuired em Cong”), conta-se que Nuada perdeu uma das mãos durante a luta. Por isso, não pôde mais governar as Túatha Dé Dánann, cujo monarca tinha de ser fisicamente perfeito. Foi então que o médico Dian Cecht lhe pôs uma mão artificial feita de prata, o que deu a Nuada a alcunha Argetlám (“Mão de Prata”). Essa mão tinha todos os movimentos de um membro natural, mas Nuada não estava satisfeito com ela. Assim, Miach, filho de Dian Cecht e também médico, usando seu conhecimento terapêutico formou para Nuada uma nova mão de carne e osso.  Dian Cecht, enciumado por encontrar no próprio filho um rival de suas habilidades, atacou-o. Miach conseguiu curar-se dos ferimentos provocados pelos três primeiros golpes, mas o quarto, atingindo o cérebro, não teve cura e Miach morreu.

O conto da “Segunda Batalha de Mag Tuired” (Cath Maighe Tuireadh Theas, “A Batalha de Mag Tuired do Sul”) detalha o episódio:

Boi dno Nuadae oga uothras 7 dobreth laim n-argait foair lioa Dien-cecht go lucht cecha lamha indte. Nir’ uo maith dno liaa mac-sium sen .i. le Miach. Atreracht sim don laim 7 atbert ‘ault fri halt di, & feith fri feth,’ 7 icuis fri teorai nomaidhe. In cetna nómad immuscuirid comair a taeib 7 rotonigestar. An-dómad tanisde immascuirid aro brundib. An tres nomad dobidced gel sgai di boc-sibnibh dubhoib o ro dubtis a ten.

“Eis que Nuada estava sendo tratado e Dian Cecht lhe pôs uma mão de prata que se movia como qualquer outra. Porém, Miach, seu filho, não gostou disso. Ele [Miach] foi a essa mão e disse: “Articulação com articulação, tendão com tendão” e curou-a em nove dias e nove noites. Nos três primeiros dias, ele [Nuada] levou-a [imóvel] a seu lado e ela se cobriu com pele. Nos três dias seguintes, ele a teve contra seu peito. Nos três últimos dias, ele lançava brilhantes punhados de juncos pretos depois de terem sido enegrecidos em uma fogueira.”

Ba holc lia Dien-cecht an freapaid sin. Duleicc claidimh a mullach a meic go rotend a tuidn fri feoil a cinn. Icais an gillai tre inndeld a eladon. Atcomaic aithurrach go ro teind a feoil corrodic cnaimh. Icais an gilde den indel cétnae. Bissis an tres bein co ranic srebonn a inchinde. Icais dno an gille don indell cétnae. Bisius dno an cethramad mbein co nderba an inchind, conid apu Mioach, 7 atbert Dien-cecht nach n-icfad lieig badesin ontslaithe sin.

“Dian Cecht não gostou dessa cura. Ele atingiu com uma espada o alto da cabeça de seu filho e cortou sua pele até a carne. O rapaz curou-se por meio de sua perícia. Ele golpeou-o novamente e cortou sua carne até chegar ao osso. O jovem curou-se da mesma forma. Ele desferiu o terceiro golpe e alcançou a membrana de seu cérebro. O moço remediou isso do mesmo modo. Então, ele desferiu o quarto golpe e cortou o cérebro, com o que Miach morreu. E Dian Cecht disse que nenhum médico poderia curá-lo desse golpe.”

Iarsin rohadhnocht lia Dien-cecht Mioach, & asaid coic lube sescut ar tri cétuib tresin athnocul, fo líon a altai 7 fethe. Is iarsin scarais Airmedh a prat & decechla na lube sin iarna techtai. Tosarluid Dien-cect 7 conmesc side na lube, cona fesai a frepai cori manis-tecaisceth an Spirut iartain. Ocus atbert Den-cecht: ‘Mane pé Mioach meraidh Airmeth’.

“Depois disso, Miach foi enterrado por Dian Cecht e trezentas e sessenta e cinco ervas cresceram de sua cova, combinando com o número de suas articulações e tendões. Airmed em seguida estendeu seu manto e arrancou essas ervas conforme suas propriedades. Dian Cecht foi até ela e misturou as ervas, a fim de que ninguém conhecesse suas exatas virtudes curativas, a menos que o Espírito [Santo] posteriormente as revelasse.”

Esse ato de Dian Cecht é incompreensível para quase todo mundo e não poderia ser de outra forma. Existiam seguramente partes do conto que não estão registradas nos manuscritos hoje conhecidos.

A morte de Miach ocorre depois da primeira batalha de Mag Tuired (Tuatha Dé Danann x Fir Bolg), mas antes da segunda (Tuatha Dé Danann x Fomoráig) e é contada nesta narrativa.  Lá pelo meio do texto, aparece o seguinte:

Is edh dono doberiud bruith isna hogaib nogontais ann, comtar aniu iarnauárach, fobíth roboi Dien-cecht 7 a dí mac 7 a ingen .i. Ochttriuil 7 Airmedh 7 Miach, oc dicetul for an tibrait .i. Slaine a hainm. Focertdidis a n-athgoite indte immorro airlestis. Bótar bi notegdis esde. Bati slan a n-athgoite tre nert an dicetail na cethri lege robatar immon tibrait.

“Eis que era isto o que se usava para incitar os guerreiros que eram feridos [naquela batalha] para se mostrarem mais ardentes no dia seguinte: Dian Cecht, seus dois filhos, Ochtriuil e Miach, e sua filha, Airmed, ficavam entoando encantamentos sobre a fonte chamada Slaine. Dentro dela lançavam os homens mortalmente feridos depois de serem atingidos e, ao saírem, estes se mostravam vigorosos. Seus homens mortalmente feridos eram curados pelo poder do encantamento dos quatro médicos (tre nert an dicetail na cethri lege) que ficavam ao redor da fonte.”

Miach foi morto e sepultado pelo pai antes do começo do combate. No curso da guerra, ele reaparece trabalhando com Dian Cecht e os irmãos para reanimar os guerreiros mortos na contenda.

Teria sido a morte de Miach apenas aparente? E qual o significado disso? Em caso negativo, qual o momento de sua volta à vida? Quem realizou e em quais condições ocorreu essa ressurreição? Seria Dian Cecht, que não podia recuperar uma mão, capaz de insuflar nova vida no corpo do filho morto?

É sabido que os deuses tinham a capacidade de reanimar os mortos, o que não é o mesmo que ressuscitá-los. Isso fica claro nesta passagem de “A Perseguição de Diarmuid e Gráinne” (Tóraigheacht Dhiarmada agus Ghráinne), em que Óengus Óg somente pode enviar uma alma para dentro do falecido Diarmuid, seu filho adotivo, fazendo dele uma espécie de zumbi:

“Depois da canção, Óengus perguntou aos domésticos de Gráinne por qual motivo haviam chegado àquele lugar. Disseram-lhe que Gráinne os enviara em busca do corpo de Diarmuid para que o levassem a ela em Ráth Graínne. Óengus disse que não lhes permitiria levar o corpo de Diarmuid, porém ele próprio o transportaria a Brú na Bóinne.
– E, uma vez que não o posso trazer de volta à vida – disse Óengus -, enviarei uma alma para dentro dele, a fim de que possa conversar comigo todos os dias.
Em seguida, Óengus fez com que o corpo fosse mantido num ataúde dourado, com seus [de Diarmuid] dardos em cima dele, apontando para baixo, e ele foi para Brú na Bóinne.”

Ao estudarmos a mitologia céltica, devemos estar conscientes do estado fragmentário de muitos relatos ou de sua total inexistência, no que concerne aos celtas continentais. Em alguns momentos, não haverá resposta segura simplesmente. Precisamos fazer as pazes com o desconhecido.

Bellouesus /|\

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