Arquivo da categoria: xavier delamarre

Oração antes dos Estudos

cropped-nemeton_beleni_banner

A recitação desta prece deve sempre anteceder o estudos, meditações e quaisquer práticas ligadas às atividades do Nemeton Belenī, por mais corriqueiras e banais que pareçam, e ser acompanhada pelo gesto da Aveleira.

Coll, a Aveleira, representa o Conhecimento e a Inspiração que devem ser buscados pelo estudante a cada momento. Faça do seu tempo de estudo uma oferenda aos Deuses, dedicada a refletir a respeito deles e honrá-los.

antesdosestudos1

Gaulês Antigo

Molātūs Dedmē Ollodagāi Krundyūi!

Ā Lugus, Ilukerdānon Magale,
Ā Belene, Andeu̯ātis U̯eri̯akkī,
Ā Brigindū, Mātīr Ouξamā Rou̯iđđous,
Ā Taranus, Bremī Nemomarkāke,
Ā Toutatis, Au̯ete Rii̯otātos Eξobne.
Bii̯etū sin su̯adū Komenonāi Dēu̯obok ollobo en Bitubi Tribi.

Gaulês Moderno

Mólath A Rhéith hOldhái In Olvithu!

Lúi, Maial Cerdhlé Élu
Bélen, Gwáth Már ach Gwir’iach
Brín, Máthir hUcham Gwísu Már
Taran, Marchis Nemeth en Gharghar
Tóthath, Diadhrethíath Riúas Echovn
O bí sin súadh a Wenvethan Dhéach ach a Dhéié ol en in Trí Bithúé

Tradução

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste de Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos (1).

Comentários

a) Lugus

Lugus, também chamado Lug ou Lugh (proto-céltico: *luco-, “lince/lobo” ou *leuk-, “claro, brilhante”), é um dos principais deuses da antiga religião dos povos célticos. Provavelmente, é a divindade que Iulius Caesar identificou ao romano Mercurius (o Hermes helênico). Seu culto foi difundido em todo o antigo mundo céltico, e o seu nome ocorre como elemento de muitos topônimos na Europa continental e nas Ilhas Britânicas, tais como Lyon, Laon, Leiden e Carlisle (antigamente Luguuallium, “Forte no deus Lugus”).

De acordo com a tradição irlandesa, Lug Lámfota (“Lug do Braço Longo”) foi o único sobrevivente de trigêmos com o mesmo nome. Pelo menos três dedicatórias a Lugus na forma plural, Lugoues, são conhecidas da Europa continental e a afinidade dos celtas com formas tríplices sugere que três deuses foram da mesma forma contemplados nessas dedicatórias. O filho de Lug, ou o próprio Lug renascido (de acordo com a crença irlandesa), foi o grande herói de Uladh, Cúchulainn (“Cão de Culann”).

Em Gales, como Lleu Llaw Gyffes (“Lleu da Mão Hábil”), acreditava-se também que ele tivera um nascimento estranho. Sua mãe era a deusa virgem Aranrot (2) (“Roda de Prata”). Quando o tio dela, o grande mágico Math, testou a sua virgindade por meio de uma vara mágica, ela em seguida deu à luz um menino que foi imediatamente levado por seu tio Gwydion e criado por ele. Aranrot então procurou repetidamente destruir o seu filho, mas sempre foi impedida pela magia poderosa de Gwydion; ela foi forçada a dar um nome ao menino e proporcionar-lhe armas; finalmente, como sua mãe lhe negasse uma esposa, Gwydion e Math criaram para Lleu uma mulher feita de flores.

Lug também era conhecido na tradição irlandesa como Samildánach (“hábil em todas as artes”). A variedade de seus atributos e a grandeza com que o seu festival, Lughnasadh (fixado a 1º. de agosto), era comemorado na Irlanda e na Grã-Bretanha indicam que Lugus é uma das mais poderosas e impressionantes de todas as antigas divindades célticas.

b) Belenos

antesdosestudos2

Primeiramente, apesar das associações do seu nome com o fogo ou o Sol, Belenos não era um deus solar. Na verdade, não há evidência de que o Sol tenha sido adorado como tal pelos celtas, ainda que o seu uso na iconografia religiosa fosse frequente. Mais de três dezenas de dedicatórias testemunham o culto a Belenos, um número incomumente elevado para uma religião notável pelo número e diversidade dos nomes e epítetos das suas deidades. O culto de Belenos foi praticado na Itália setentrional (Gália Cisalpina), Noricum (3), Alpes Orientais, Gália meridional e provavelmente na Grã-Bretanha.

Analisando a etimologia do nome de Belenos, o eminente Xavier Delamarre o traduz como “Senhor do Poder”:

belo-, bello-, “forte, poderoso”

Termos e tema frequente em NP [noms de personne, “nomes pessoais, teo-/antropônimos”]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, “nomes de rio, hidrônimos”] Bienne e Biel (Suíça) remontam a *Belenā. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade “solar”, levou a que essa designação fosse compreendida como “o luminoso, o brilhante”, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- “brilhar” (há um *ĝwelH- “queimar”, nicht ganz sicher [“não muito seguro”] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos “branco”, armênio bal “palidez”, sânscrito balâkâ “guindaste”, gótico bala “cinzento”, letão báltas, “branco”, eslavo antigo belo “id.”, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhēl- / *bhǝl- [*bheh1l- / *bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante “branco, cinzento, pálido”, porém não “brilhante”; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet “relâmpago”, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, “força, forte”: sânscrito bálîyân, “mais forte”, bálisthah “o mais forte” (= balisamo- com a divisão dialetal regular do sufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíōn, béltistos “melhor, mais” (por *belíōn, bélistos), latim dē-bilis “baixo”, eslavo antigo boljiji “maior”, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como “A Muito Poderosa” e não como “A Muito Brilhante”, Belinos “O Senhor do Poder” (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – “Forte e Bom” (4).

Embora não seja possível afirmá-lo com total certeza. Belenos é também a divindade associada ao festival gaélico chamado Beltane (5) (1º. de maio), tido como celebração da fertilidade, mas que era na realidade uma cerimônia de proteção realizada pelos druidas, como se entende deste trecho do Sanas Chormaic (6):

Belltaine .i. bil tene .i. tene soinmech .i. dáthene dognítis druidhe triathaircedlu (no cotinchetlaib) móraib combertis nacethrai arthedmannaib cacha bliadna cusnaténdtibsin [na margem esquerda: .[l]eictis nacethra etarru].

Belltaine, isto é, bil-tene, isto é, “fogo afortunado”, isto é, dois fogos que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos e eles costumavam trazer o gado como uma proteção contras doenças de cada ano a esses fogos [na margem esquerda: costumavam conduzir o gado entre eles.

Ligado à luz e ao poder de curar, Belenos é provavelmente o deus gaulês que Iulius Caesar identificou a Apolo, porém não o deus esteta dos helenos, o Apolo Muságeta (“condutor das musas”). Caesar explica a ideia que os gauleses faziam de Apolo: “Apolo afasta as doenças”. O Apolo gaulês é iátros (“médico”) e mântis (“adivinho”), o deus da cura e da profecia.

c) Brigindū

O que foi dito sobre Brigit nos Comentários ao Texto 2, letra “h” (7), pode ser extrapolado para Brigindū/Brigindonā/Brigantyā, porém com aspectos guerreiros mais pronunciados face à identificação com Victoria (a grega Nikē), personificação da vitória na guerra, em jogos atléticos e também sobre a morte, e Minerua (a grega Athēnā), deusa da sabedoria e protetora das artes (incluindo-se a magia, quando Brigindū passa a chamar-se Briχtā, “Magia, Encantamento”) e ofícios, do comércio e da estratégia.

d) Taranus/Taranis

O deus do trovão, adorado sobretudo na Gália, na Gallaecia (8), nas Ilhas Britânicas, na Renânia e no vale do Danúbio. O poeta romano Lucanus (9), na obra Pharsalia, citou Taranis como parte de uma tríade divina, cujos outros integrantes eram Esus e Toutatis.

Assim como o ciclope Brontes (“Trovão”) da mitologia grega, Taranis estava associado à roda. Iconograficamente, Taranis era representado em imagens provenientes da Gália como um homem barbado, carregando um raio numa das mãos e uma roda na outra. É claro o sincretismo com o deus romano Iuppiter.

O nome, tal como registrado por Lucanus, não possui atestação epigráfica, mas variantes, como Tanarus, Taranucno-, Taranuo- e Taraino- são conhecidas. Conforme informação prestado por Máksimos de Tyros (10) (Lógoi, “Discursos”, VIII, 8) o Zeus gaulês era adorado não sob a forma humana, mas como um carvalho: Κελτοὶ σέβὅσι μέν Δία, ἄγαλμα δὲ Διὸϛ Κελτὶκὸν ὑψηλὴ δρῦϛ (“os celtas sem dúvida adoram Zeus, porém honram-no sob a forma de um alto carvalho”).

e) Toutatis/Teutatis

“Deus da Tribo” (teuta/touta). Toutatis, como dito anteriormente, integra uma trindade de deuses mencionados pelo poeta romano Lucanus, juntamente a Esus e Taranus/Taranis. O comentador medieval de Lucanus (nos Commenta Bernensia [11] ) identifica Toutatis a Mercurius, Esus a Mars e Taranis a Dispater (Pluto). Caesar, no entanto, menciona (Commentarii de Bello Gallico, VI, 17) cinco deuses como sendo os mais importantes para os gauleses: Mercurius (Lugus, Lugh?), seguido de Apollo (Maponos, Esus, Belenos?), Mars (Toutatis?), Iuppiter (Taranis) e Minerua (Brigindu, Brigantia, Brigit?).

Considerando que são deuses de culturas diferentes, apresentando apenas certos traços em comum (o que teria permitido a aproximação), é difícil pretender uma identificação completa. Mesmo entre os deuses gregos e romanos havia discrepâncias.

O nome Toutatis deriva de *teutā (proto-céltico)/toutā (gaulês), “tribo, povo”, equivalente ao irlandês tuath, ao galês tud e origem do alemão Deutsch. Se correta a equivalência com Mars, Toutatis é um deus da guerra (protetor das fronteiras tribais) e da fertilidade (faz crescer as lavouras). Também pode ser um título para diferentes deuses tribais (cada tribo teria o seu Toutatis).

f) Komenonā

Divindade alegórica, é a personificação da Memória (12). Corresponde à grega Mnēmosýnē, deusa da memória e da lembrança, inventora da palavra e da linguagem, mãe das Musas.

Em uma cultura como a céltica, onde a transmissão do conhecimento se dava pela oralidade, Komenonā representa a qualidade fundamental para a preservação dos relatos históricos, das sagas dos heróis e dos mitos divinos. Desse modo, além de ser a Memória Divina, Komenonā é também a Senhora do Tempo e do Conhecimento.

g) Os Três Mundos, a Árvore do Mundo

Um dos conceitos mais importantes na mitologia pré-cristã indo-europeia (onde se inserem os celtas) era a “Árvore do Mundo” (13) (o carvalho ou alguma espécie de pinheiro). Os três níveis do Universo localizavam-se na árvore: o céu em sua copa, reino das divindades e corpos celestiais; o reino dos mortais em seu tronco; o reino dos mortos nas raízes. Esse era o eixo vertical da Árvore do Mundo.

O eixo vertical tinha seu paralelo na organização horizontal (ou geográfica) do mundo. O mundo dos deuses e mortais situava-se no centro da terra (considerada achatada), cercada pelo mar, além do qual se estendia a terra dos mortos, para onde as aves voavam no inverno e de onde retornavam na primavera. É importante observar que essa concepção encerrava a ideia de que uma massa de água devia ser atravessada para chegar-se ao reino dos mortos.

O eixo horizontal dividia-se nos quatro pontos cardeais, representando os quatro ventos principais. A Árvore do Mundo unia os dois eixos, o vertical (Mundo Superior, Médio e Inferior) e o horizontal (norte, leste, sul e oeste).

Cosmologias semelhantes podem ser encontradas entre outras culturas indo-europeias (como os germânicos e eslavos), possivelmente entre os celtas também. Mas, no caso destes, tal conclusão depende de analogia e interpretação, uma vez que não há nenhum testemunho direto endógeno (dos próprios celtas) ou exógeno (de outra cultura contemporânea) a respeito.

Textos medievais permitem entrever que, os irlandeses concebiam uma divisão tripla do Cosmo: Neamh (Céu), Talamh (Terra) e Mor (Mar) (14).

O Céu

Está associado aos corpos celestes: o Sol, a Lua, as estrelas. É o reino onde habitam os Deuses e Deusas e liga-se aos ciclos e padrões celestes. Os corpos celestes não eram considerados deidades em si mesmos, mas reflexos de tipos de poder associados a divindades específicas. Os fogos do Sol estavam associados à forja e à inspiração. O Céu traz prenúncios do futuro. O Espírito da Criação reside em Magh Mór (a Grande Planície ou Mundo Celeste), ou seja, Neamh (o Céu). Quatro maighne (planícies) são as suas divisões, isto é, …

1 Magh Findargat (Planície da Prata Brilhante), fonte de Luz e de Esperança;
2 Magh Mell (Planície das Delícias), nascedouro da Inspiração e da Criatividade;
3 Magh Iongnadh (Planície dos Milagres), abundante em Maravilhas e Espantos;
4 Sen Magh (Planície Antiga), sede das Origens e da Sabedoria.

A Terra

O mundo terrestre, ocupado pelos vivos, contém reflexos do Mundo Celeste e do Mundo Inferior. Essas influências podem ser imaginadas como três zonas (sendo três um número sagrado): a zona superior associada ao clima, ao voo dos pássaros, augúrios celestes e aos elementos e poderes do Ar, a zona intermediária divide-se nas Quatro Direções e Quadrantes cada um com seus Poderes e Guardiães) e a zona inferior, contendo as profundezas do mar, cavernas montes sepulcrais, colinas ocas e fontes sagradas. Essa zona é a morada dos Sídhe e dos Espíritos ligados aos Portais do Mundo Inferior. Para os celtas, as influências do Céu e do Mundo Inferior mesclavam-se em suas vidas sobre a Terra Média. O Espírito do Ser reside em Bith (Mundo), isto é, Mide (o Mundo Médio), ou seja, Talamh cé (“esta Terra”). Quatro arda (direções) são as suas divisões, isto é, …

1 Airthis (leste), fonte de Prosperidade (Bláth) e Mudança;
2 Teissus (sul), nascedouro de Música (Séiss) e Poesia;
3 Íaruss (oeste) abundante em Conhecimento (Fis) e Magia;
4 Tuadus (norte), sede da Batalha (Cath) e da Determinação.

O Mar

O Mundo Inferior é o reino dos Ancestrais e de Divindades ligadas ao mistério da vida surgindo da morte. O Espírito dos Ancestrais reside em Tír Andomain (o Mundo Inferior), ou seja, Mor (o Mar). Quatro tíortha (territórios) são as suas divisões, isto é, …

1 Tír na mBeo (Terra dos Vivos), fonte de Eternidade e Conhecimento Antigo;
2 Tír na mBan (Terra das Mulheres), nascedouro de Beleza e Prazer;
3 Tír fo Thuinn (Terra sob as Ondas), abundante em Temor e Percepção;
4 Tír na nÓg (Terra da Juventude), sede dos Anseios e da Renovação.

antesdosestudos3

Bilí (“árvores sagradas” em irlandês antigo, bile no singular) eram grandes árvores associadas a locais onde ocorriam as cerimônias de entronização dos reis irlandeses, sendo elas próprias simbólicas da autoridade do monarca, uma vez que de seus ramos provavelmente era cortada a slat na righe (“bastão da realeza”) durante a sagração do rei.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Notas:

1) Áudio disponível em <https://soundcloud.com/user197250276/oracao-antes-dos-estudos>. Acesso em 22 dez. 2015.

2) “Roda de Prata” é a tradução mais comum do nome Arianrhod. A grafia antiga do nome, usada acima (Aranrot), mostra que se trata de uma hipótese equivocada, pois arian(t), “prata”, não é o elemento que se acha no nome da mãe de Lleu, e sim aran, que se traduz deste modo: “Aran, s. f. – pl. t. au (ar) A high place; alp. It is the name of several of the highest mountains in Britain” (Owen, William. A Dictionary of the Welsh Language, Explained in English. Londres, 1803, v. I, p. 279). Portanto, aran rot é “montanha da roda ou monte circular/redondo” e não “roda de prata” (arian rhod).

3) Província romana que incluía a Áustria e parte da Eslovênia modernas.

4) Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

5) Lá Bealtaine (gaélico irlandês), Là Bealltainn (gaélico escocês), Laa Boaltinn/Boaldyn (manês) e ainda Beltaine e Beltine.

6) Sanas Chormaic (“Narrativa/Glossário de Cormac”), atribuído a Cormac Ua Cuileannáin (séc. X), bispo e rei de Caisel (Cashel, Co. Tipperary), é um glossário irlandês antigo que explica as etimologias de mais de 1.400 palavras que, na época de sua composição, já estavam obsoletas ou eram de difícil interpretação.

7) O texto em questão é o seguinte:

Brigit .i. banfile ingen inDagdai. iseiside Brigit baneceas (no be neicsi) .i. Brigit bandee noadradís filid. arba romor 7 baroán afrithgnam. isairesin ideo eam (deam) vocant poetarum hoc nomine cujus sorores erant Brigit be legis Brigit bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena inDagdai insin. de quarum nominibus pene omnes Hibernenses dea Brigit vocabatur. Brigit din .i. breo-aigit no breo-shaigit.

Brigit isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Essa é Brigit, a sábia [mulher da sabedoria], isto é, Brigit, a deusa a quem os poetas adoravam, pois muito grande e muito famosa era a proteção que concedia. Assim, é por essa razão que chamam sua deusa dos poetas por esse nome, cujas três irmãs eram Brigit, a médica [mulher da arte da cura], Brigit, a ferreira [mulher da forja], de cujos nomes todos os irlandeses denominavam uma deusa Brigit. Brigit, breo-aigit ou breo-shaigit [“seta flamejante”].

Seu nome é grafado de várias formas: Brigid, Brighid, Bríg, Bride. Como indica o texto acima, Brigit é uma deusa da poesia, da metalurgia e da arte de curar (baneceas, be legis, bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in Dagdai, “mulher da sabedoria, mulher da cura, mulher da forja, isto é, uma deusa, ou seja, três filhas do Dagda”, bandee noadradís filid, “deusa a quem os poetas adoravam”). A forma do nome em proto-céltico seria *Briganti, significando “A Sublime”, “A Enaltecida”, “A Elevada”, derivada do adjetivo indo-europeu *bhergh, “alto”. É equivalente à Brigantia romano-céltica, deusa tutelar da federação de tribos conhecida como Brigantes, que dominou o norte da atual Inglaterra e foi identificada a Victoria Caelestis e Minerua. Na Gália, seu nome era Brigindo ou Brigandu. No conto “A Segunda Batalha de Mag Tuired”, Brigit é a esposa de Bres mac Elathan, o rei meio fomoir que veio a governar as Tuatha Dé e acabou deposto em razão de sua mesquinhez. O casal teve um filho, Ruadán, que, combatendo pelos Fomoirí, foi morto ao tentar matar o deus ferreiro Goibniu. O lamento de Brigit por seu filho teria sido o primeiro keening ouvido na Irlanda. O festival chamado Imbolc (1o. de fevereiro), que celebra a estação do nascimento e do aleitamento dos cordeiros, está associado a Brigit em seu papel como deusa da fertilidade. Ela se liga também ao fogo, tanto em sentido concreto (o fogo da lareira) como metafórico (o fogo da inspiração). Brigit era a deusa tutelar dos Laighin, o grupo de tribos que deu nome ao Cúige Laighean e é nessa região que a “Geografia” de Ptolomeu situou os Brigantes da Irlanda. Santa Brighid, importantíssima santa irlandesa (chamada “mãe adotiva de Cristo” e “Maria dos gaélicos”), parece ter herdado muitos atributos da antiga deusa: o mesmo nome; celebração no mesmo dia; ambas padroeiras dos poetas, ferreiros e curadores, ambas ligadas a aspectos da fertilidade e da agricultura (Santa Brighid é protetora do gado e suas vacas produziam enormes quantidades de leite), além de uma forte ligação com o fogo.

8) Gallaecia ou Callaecia em latim (Galécia em português) é o nome da região localizada no noroeste da antiga Hispania romana, território que corresponde aproximadamente ao da moderna região norte de Portugal, somado à Galícia, Astúrias e Leão na Espanha.

9) Marcus Annaeus Lucanus, poeta romano (03/11/39 – 30/04/65 d. C.).

10) Máksimos de Tyros, retórico e filósofo grego, viveu na época dos Antoninos e do imperador Commodus (fim do séc. II d. C.).

11) Também conhecidos como “Escólios de Berna”, são comentários ou notas escritos nas margens de um manuscrito do séc. X preservado na Burgerbibliothek de Berna, Suíça. Esses comentários relacionam-se a textos latinos clássicos, incluindo o De Bello Ciuili (Lucanus), as Eclogae e os Georgicā (Vergilius). O comentário elabora uma referência de Lucanus aos sacrifícios humanos realizados pelos druidas a Toutatis (Mercurius), Esus (Mars) e Taranis (Iuppiter), explicando que as vítimas de Toutatis eram afogadas num caldeirão (cena que pode ser vista no “Caldeirão de Gundestrup”), ao passo que as vítimas de Esus eram enforcadas numa árvore e as de Taranis, queimadas.

12) Galo-britônico koman, komenos (subst. neutro de tema em nasal), cf. irlandês antigo cuimne, irlandês moderno cuimhne, galês cof, córnico kov, bretão koun.

13) Prennon Bitous (gaulês antigo), Pren in Bithu (gaulês moderno).

14) Esta é um interpretação altamente especulativa.

Anúncios

Os Druidas no Mundo Antigo: Aurora e Ocaso

dopsp2016

Palestra apresentada no Dia do Orgulho Pagão de São Paulo (22/10/2016)

Conteúdo

1 Quando os druidas entraram na história?
2 Qual a etimologia da palavra “druida”?
3 O que os druidas faziam?
4 Quando os druidas saíram da história?

1 Quando os druidas entraram na história?

Séc. VI a. C.: Hecateu de Mileto (ca. 546 a.C. – ca. 480 a.C.) usou pela primeira vez a
palavra Keltoi para designar os nativos do atual sul da França, especificamente da região ao redor de Massalia (hoje Marseille).

Séc. V a. C.: usando Hecateu, Heródoto de Halicarnasso (485? – 420 a.C.) demonstrou
pouco saber sobre os Keltoi, localizando-os além das Colunas de Hércules (o Estreito de
Gibraltar) e supondo que o Danúbio tivesse origem no seu território.

Fim do séc. III a. C.: desde essa época, os gregos seguramente estavam cientes da
existência dos druidas, do seu nome e da sua atividade filosófica.

Pseudo-Aristotéles (Aristotéles, 384 – 322 A. C.), Magikos (“Sobre a Magia”) e Sotíon
(séc. II a. C.), Diadokhe ton philosophon (“Sucessão dos Filósofos”) apud Diógenes Laércio
(séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton (“Vida e Opiniões dos
Filósofos Eminentes”).

I, 1: Há alguns que dizem ter o estudo da filosofia iniciado entre os bárbaros. Salientam que os Persas têm seus Magos, os Babilônios ou Assírios seus Caldeus e os Indianos seus Gimnosofistas; e entre os Celtas e os Gauleses há as pessoas chamadas Druidas ou Semnotheoi, citando para essa afirmação a autoridade do “Sobre a Magia” de Aristóteles e de Sotíon no vigésimo terceiro livro da sua “Sucessão dos Filósofos”.Também dizem que Mochus era um Fenício, Zamolxis, um Trácio e Atlas, um Líbio.

I, 6: Entretanto, aqueles que defendem a teoria da origem da filosofia entre os bárbaros prosseguem explicando as diferentes formas que esta assumiu em diferentes países. Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura.

A Diadokhe de Sótion foi uma das primeiras histórias da filosofia. O Magikos e a Diadokhe
são obras hoje desaparecidas que foram parcialmente copiadas por Diógenes Laércio.

Séc. I a. C.: surgem as primeiras informações substanciais sobre os druidas (Caio Júlio
César, Commentarii de Bello Gallico, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, Livro VI).

Para Clemente de Alexandria (c. 150 – 215 d. C.), os Druidas dos Gálatas, os Profetas dos
Egípcios, os Caldeus dos Assírios, os filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas teriam sido
os pioneiros da filosofia.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 70, 1: Alexandre, no seu livro “Sobre os Símbolos Pitagóricos”, relata que Pitágoras foi discípulo de Nazaratus, o Assírio […] e conta ainda que, além desses, Pitágoras foi ouvinte também dos Gálatas e dos Brâmanes.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 71, 3: Assim, a filosofia, ciência da mais alta utilidade, floresceu na antiguidade entre os bárbaros, derramando a sua luz sobre as nações. E mais tarde chegou à Grécia. Os primeiros em suas fileiras foram os Profetas dos Egípcios e os Caldeus entre os Assírios e os Druidas entre os Gauleses e os Samanaioi entre os Báctrios e os Filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas.

Hipólito de Roma (170 – 235 d. C.), Philosophúmena (“Ensinamentos Filosóficos”; título
alternativo: Katà pasôn hairéseon élenkhos/Refutatio Omnium Haeresium, i. e.,“Refutação de Todas as Heresias”), I, 22.

E os druidas célticos exploraram com a máxima minúcia a filosofia pitagórica depois que Zamolxis, trácio de nascimento, um servo de Pitágoras, tornou-se para eles o fomentador dessa doutrina. Eis que, após a morte de Pitágoras, Zamolxis, para lá se dirigindo, tornou-se-lhes o desenvolvedor dessa filosofia. Os celtas consideram-nos profetas e videntes em razão de lhes predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica, a respeito de cujos métodos não ficaremos em silêncio, uma vez que alguns neles encontraram inspiração para heresias; os druidas, no entanto, recorrem também a ritos mágicos.

sabiosbarbaros

Qual a razão da diferença entre essas listas?

Desde o séc. V a. C., circulava uma obra chamada Pythagorica Hypomnemata (“Símbolos Pitagóricos”), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação entre os druidas e a escola pitagórica. Essa obra foi usada por Alexandre de Mileto (dito Polyhístor, “o Erudito”), mencionado no primeiro trecho de Clemente citado acima. Clemente segue uma tradição iniciada no séc. V a. C., oriunda dos próprios pitagóricos, enquanto Diógenes filia-se à tradição aristotélica, representada pelo Pseudo-Aristóteles e Sótion.

Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378 – 444), autor pouco lembrado, na obra “Contra Juliano, o Ateu” repete a lista de Clemente, fazendo a mesma distinção cuidadosa entre Druidas Gauleses e Filósofos Celtas, apenas acrescentando que o número destes era non pauci
(“não poucos”).

Samanaioi (forma plural, seria samanaios no singular) é uma adaptação grega do prácrito (designação geral da grande família de línguas e dialetos falados na Índia antiga que possuíam parentesco com o sânscrito) samaya-, derivado do sânscrito sramanas, “monge budista”, que se tornou sha men em chinês, depois saman em tungus (grupo de línguas do leste da Sibéria) e finalmente sha’man em russo, isto é, “xamã”. O mesmo vocábulo aparece nos Semnotheoi de Diógenes, o plural de *semnotheos, provável deturpação de *samano-theos, “deus xamã, xamã divino”, embora nada realmente autorize supor que a palavra teria na Antiguidade o sentido que hoje se atribui à palavra xamã. O mais provável é que significasse apenas “asceta”.

De todo o exposto, três conclusões podem ser tiradas:

1) Os Druidas emergem para a história em escritos filosóficos onde são tidos como precursores dos pensadores gregos.

2) “Druidas” é a designação que esse grupo dava a si mesmo, não uma denominação tardia ou um apelido dado por observadores contemporâneos.

É, portanto, um termo gaulês nativo cujo significado etimológico precisa ser determinado para a melhor compreensão da natureza e função dos druidas.

3) Estavam presentes entre os gauleses pelo menos quatro séculos antes da invasão romana (ocorrida em meados do séc. I a. C.), talvez antes.

2 Qual a etimologia da palavra “druida”?

A etimologia da palavra “druida” é, não surpreendentemente, um ponto bastante controverso. Concorda-se que seria composta por duas partes: dru- + -uid-.

Os linguistas reconhecem no segundo elemento a raiz proto-indo-europeia *u̯ei̯d-, “ver,
saber”.

Quanto ao primeiro, há três linhas de pensamento sobre a sua interpretação:

1ª. Caio Plínio Segundo, dito “Plínio, o Antigo” (séc. I d. C.), apoiado, entre outros, por
Jubainville, Hubert (séc. XIX) e  Delamarre (séc. XXI): de acordo com Plínio (“História
Natural”, L. XVI, 95), “os druidas não realizam ritos sem as folhas do carvalho, considerando-o importante a ponto de se poder supor que o seu nome venha da palavra grega para carvalho, δρυς”. Para essa linha, os druidas seriam os “sábios dos carvalho” ou “possuidores do conhecimento do carvalho”.

2ª. Thurneysen (séc. XIX), Jullian (séc. XX), Le Roux & Guyonvarc’h (séc. XX): dru- seria
um elemento intensificador, como -dubno- e -māro-, porém usado unicamente como
prefixo. Para essa linha, os druidas seriam “os muito sábios”, “possuidores do conhecimento firme/forte”;

3ª. Benveniste (séc. XX): o nome proto-indo-europeu de[o]ru̯- > dreu̯-, que designava
árvores em geral, deu origem à palavra para carvalho em muitas línguas dessa família,
abrangendo também as noções de força, resistência e fidelidade com o tempo associadas ao
carvalho. O gaulês teria herdado deru̯o- como o nome da árvore carvalho e dru- (presente no adjetivo drutos, -ā, -on, “forte vigoroso”) para as qualidades a ela metaforicamente ligadas. Para essa linha, que de certo modo concilia as duas anteriores, os druidas seriam “os detentores do conhecimento vigoroso que brota do mundo subterrâneo”.

3 O que os druidas faziam?

Caio Júlio César, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, VI, 14: Os druidas obtiveram a
isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão
isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos
espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pompônio Mela, “Descrição do Mundo”, III, 2, 14: Ela [refere-se à costa exterior da Gallia] é habitada por povos orgulhosos, supersticiosos e outrora tão bárbaros que viam os sacrifícios humanos como o gênero de holocausto mais eficaz e o mais agradável aos deuses. Esse costume abominável não mais existe, porém dele ainda restam traços, pois, conquanto agora se abstenham de imolar os homens que escolhem, conduzem-nos ao altar e tiram-lhes um pouco de sangue. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas. Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Estrabão, “Geografia”, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção,
encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os
Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se
ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da
natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais
justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodoro Sículo, “Biblioteca Histórica”, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de
adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o
futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos
lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo”, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [isto é, os “filósofos” e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participavam de guerras (“obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio era livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais
impendem”);
c) eram contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhiam espontaneamente ser druidas ou eram levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) eram professores;
f) atravessavam um longo período de treinamento;
g) eram letrados, embora optassem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinavam geografia (“o tamanho do universo e da terra”), astronomia (“o movimento
das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), mitologia e teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professavam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) eram árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião, por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” teria voltado ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica,
especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não
conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no território dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”.

Desse trecho de César saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

4 Quando os druidas saíram da história?

O Declínio dos Druidas

O declínio dos druidas foi basicamente uma transferência de status, poder e influência ocorrida nos anos que se seguiram à conquista romana, embora com origem remota em fatores internos ao movimento druídico.

Os interesses da elite intelectual gaulesa cedo entraram em conflito com os da nova Roma Imperial, cujo líder ou princeps, Augusto, tinha uma desconfiança extrema do potencial subversivo de astrólogos, adivinhos e profetas. No ano 12 a. C., Augusto ordenou a incineração de 2.000 livros sobre profecias em Roma. Especulações sobre o futuro, especialmente envolvendo a vida do imperador, representavam má sorte por si mesmas. Também proibiu que cidadãos romanos seguissem o ensinamento dos druidas.

Nesse contexto, juntamente com o encorajamento de Roma para que as novas elites adotassem o novo culto imperial, não é difícil entrever a dissolução da elite religiosa nativa, encabeçada pelos druidas.

Várias razões podem ser apontadas para a morte da velha ordem:

1 O fim do monopólio do conhecimento característico do ministério druídico, do qual o famoso “Calendário de Coligny” (do fim do séc. II d. C., segundo P.-Y. Lambert) pode representar um dos últimos legados.

2 A nova divisão administrativa do território gaulês em municipa exigia uma nova ordem religiosa como novas normas legais.

3 A antiga aristocracia foi dizimada nos anos da conquista e a nova, formada por apoiadores dos romanos, mostrava uma sensibilidade mais inclinada à conduta e civilização do Mediterrâneo.

4 Embora seja desconfortável admiti-lo, a própria conquista romana mostrou aos gauleses o caminho de um novo progresso material, incluindo o fim das lutas intertribais que os druidas nunca conseguiram ou mesmo nunca desejaram evitar.

4 O sacerdócio do culto imperial adotou o evergetismo clássico e ofereceu à elite um novo monopólio da autoridade dentro da(s) sociedade(s) galo-romana(s).

6 A nova ordem encontrou uma razão de ser face à progressiva internalização do modelo religioso romano que era parte da conquista e da nova compreensão da realidade por esta trazida.

Em termos simples, os interesses dos druidas eram incompatíveis com os de Roma. É provável que qualquer sinal de rebelião organizada, se porventura existiu, tenha sido marginalizado pelos historiadores romanos ao ponto de parecer insignificante.

Apenas dois sinais de oposição druídica a Roma foram registrados, ambos por Tácito: o primeiro, a resistência infrutífera à invasão de Mona no ano 60, sob o comando do general Suetônio Paulino; o segundo, nove anos mais tarde, quando um incêndio atingiu o templo de Júpiter Capitolino em Roma, o que os druidas teriam interpretado como sinal de iminente passagem do poder das mãos dos romanos para as das nações transalpinas.

Depois disso, os druidas somente voltam a aparecer nos escritos greco-romanos como figuras do passado remoto da Gália já romanizada.

O gradativo desaparecimento dos druidas, acompanhado de confusão quanto a suas antigas funções, pode ser adivinhado pela degeneração visível na própria palavra no correr dos séculos, conforme se verá a seguir.

Formas antigas da palavra “druida”

Séc. I a. C.

Cícero, Da Divinação, 1, 41, 90: druidae.

César, Comentários, 6, 13, 1: druidum; 6, 14, 1: druides; 6, 18, 1: druidibus; 6, 21, 1: druides.

Diodoro Sículo, Biblioteca, 5, 31, 4 : σαρονιδας (var. σαρωνιδας), corrigido δρουιδας (séc. I a. C.- séc. I d. C.). Comentário: certos manuscritos não trazem a forma δρουιδας, que é uma conjetura já antiga e mesmo desnecessária, pois δρουιδας teria sido entendido pelo contexto.

Séc. I a. C.- séc. I d. C.

Estrabão, Geografia, 4, 4, 4: δρυιδαι; 4, 4, 5: δρυιδον.

Séc. I d. C.

Pompônio Mela, Descrição, 3, 2, 18: druidas.

Lucano, Farsália, 1, 450-458: druidae (var. driadae, dryadae).

Comentário: driadae, driades. As variantes dos manuscritos, assim como as dos escólios (dos quais os mais antigos devem remontar ao séc. IV) mostram que a palavra sofreu corrupção rapidamente.

Plínio, História Natural, 16, 249: druidae; 24, 103: druidae; 29, 52: druidae; 29, 54: druidis, 30, 12g: druidas.

Tácito, Anais, 14, 30: druidaeque.

Tácito, Histórias, 4, 54: druidae.

Fim do séc. I d. C. – começo do séc. II d. C.

Suetônio, Cláudio, 25: druidarum (var. druidorum, driadarum, dryadarum, dryidarum).

Dio Crisóstomo, Discursos, 49: δρυιδας.

Fim do séc. II d. C.

Herodiano, o Erudito: δρυιδης.

Fim do séc. II – começo do séc. III d. C.

Pseudo-Aristóteles, fragmento apud Diógenes Laércio, Vidas, Prólogo, 1: δρυιδας.

Clemente de Alexandria, Stromata, 1, 15: δρυιδαι.

Orígenes, Contra Celso, 1, 16: δρυιδας (var. δρυaδας).

Hipólito de Roma, Ensinamentos, 2: δρυιδας; δρυιδαι (var. δρυιδον).

Séc. IV d. C.

Aurélio Vítor, Os Césares, 4, 2: druidarum (var. drysadarum, drysudarum, drysidarum).

Ausônio, Comemoração dos Professores, 5: druidarum; 11: druidum.

Fim do séc. IV d. C.

Timagenes apud Amiano Marcelino, História, 15, 9, 4: drasidae (var. drysidae); 15, 9, 8: drasidas, dryasidae (Timagenes: séc. I a. C.).

Fim do séc. IV d. C. – começo do séc. V. d. C.

História Augusta, Alexandre Severo, 60, 6: dryas.

História Augusta, Numeriano, 14, 2: dryade; 14, 3: dryas; 15, 1: dryade; 15, 5: dryadis.

História Augusta, Aureliano, 44, 4: dryadas; 44, 5: dryadibus.

Séc. V d. C.

Cirilo de Alexandria, Contra Juliano, 4: δρυιδαι.

Séc. VI d. C.

Estevão de Bizâncio: δρυιδαι.

Comentário: Como se pode ver, as formas gregas vão das mais lógicas (“druida”, palavra gaulesa declinada como substantivo grego) às mais aberrantes (saronidas, drasidae, etc.). A atração fonética de dryades é forte e justificada, pois lembra o grego δρυς (drys), “carvalho”. A moral dessa história é bastante simples: os autores gregos e romanos não são fontes confiáveis para a reconstituição do nome original.

Inscrição de Metz, Corpus InscriptionumLatinarum – CIL XIII, 555* (anterior ao séc. III d. C.)

areteinscription

Siluano sacrum et Nymphis loci
Arete Druis Antistita somnia monita dedit

Isto é: Somnia monita, Arete Druis Antistita Siluano et Nymphis loci dedit sacrum (instruída por um sonho, Arete, Druida e Sacerdotisa Principal, a Silvano e às Ninfas do lugar dedicou o monumento.

Essa inscrição, descoberta no séc. XVI e hoje perdida, é por muitos considerada falsa. Apesar disso, ela traz um enigma: como é possível que a palavra druida (druis, que se deve entender como *druu̯iđ) esteja grafada na forma considerada correta pela pesquisa moderna para o singular e que se encontra ausente de todos os textos antigos?

Bellouesus /|\

 

 

A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

Sorcier et sorcellerie en Gaulois (traduzido)

Sorcier et sorcellerie en Gaulois

Bruxo e bruxaria em gaulês

liciati(a), lidsati(a), ‘noms de sorcières’

liciati(a), lidsati(a), ‘nomes de bruxas’

Mots qui, dans le plomb du Larzac, servent d’épithètes à des noms de femmes, 1a4-5: Seuerim Tertionicnim lidssatim, 2a9-10: Seuerim lissatim liciatim, 2b10-11: Seu[er]im Tertio lissatim; cf aussi 2b2-3 liđatias et 2b5 liciatia. On a aussi en 1b7-8 lissina[ue] Seuerim licinaue Tertioni[cnim], PML 13-19, LG 161-63. Liciatim et lidsatim sont des acc. sing. de liciata et lidsata, liđatias le gén. sing. et liciatia l’instrum. sing.; le nominatif de ces mots, qui n’est pas attesté, peut être également liciati(s), -ia et lidsati(s), -ia. P.-Y. Lambert, LG 166, rapproche liciati- du latin licium ‘fil de chaîne’ (utilisé dans un scène de défixion présentée par Ovide ‘cantata licia’ = ‘fils de chaîne ensorcelés’) et liđati- de latin littera (*littesā), et propose de voir en liciati- ‘la sorcière opérant avec le licium’ et en liđati- ‘la sorcière opérant avec l’écriture’. Les dérivés lissina et licina seraient les noms correspondant à ces activités, cf le NP Lissinia Galla, H2 240. W. Meid, Inscriptions 45, traduit lissa ta par ‘spell-bound’ et liciata par ‘fettered with bonds (“fascinated” in its litteral sense)’.

Palavras que, no chumbo de Larzac [i. e., na placa de chumbo descoberta em Larzac], servem como epítetos a nomes de mulheres, 1a4-5: Seuerim Tertionicnim lidssatim, 2a9-10: Seuerim lissatim liciatim, 2b10-11: Seu[er]im Tertio lissatim; cf. também 2b2-3 liđatias e 2b5 liciatia. Temos também  em 1b7-8 lissina[ue] Seuerim licinaue Tertioni[cnim], PML 13-19, LG 161-63. Liciatim e lidsatim são ac. sing. de liciata e lidsata, liđatias o gen. sing. e liciatia o instrum. sing.; o nominativo dessas palavras, que não está atestado, pode ser igualmente liciati(s), -ia e lidsati(s), -ia. P.-Y. Lambert, LG 166, aproxima liciati- do latin licium ‘fio de corrente’ (utilizado em uma cena de maldição apresentada por Ovidius ‘cantata licia’ = ‘fios de corrente enfeitiçados’) e liđati- do latim littera (*littesā), e sugere que se veja em liciati- ‘a bruxa que opera com o licium’ e em liđati- ‘a bruxa que opera com a escrita’. Os derivados lissina e licina seriam os nomes correspondentes a essas atividades, cf. o nome de pessoa Lissinia Galla, H2 240. W. Meid, Inscriptions 45, traduz lissata como ‘presa pelo feitiço’ e liciata como ‘agrilhoada com laços (“fascinada” no sentido literal)’.

licina, lissina, ‘sorcellerie’

licina, lissina, ‘feitiçaria’

uidlua, ‘voyante, magicienne’

uidlua, ‘vidente, maga’

Plomb du Larzac, ligne 1a3: … brictom uidluias uidlu[- … PML 13, LG 161. Rapproché par les premiers commentateurs (Fleuriot PML 57 et Lambert PML 64) de la racine *ṷeid- ‘voir, savoir’ qui donne le nom du ‘sage’ ou du ‘voyant’ / ‘sorcier’ : gaul. dru-wid-s, voir à ce mot’, gall. gwyddon ‘sorcière’, skr. viduráḥ ‘sage’, et surtout de la prophétesse de la Tain Fedelm dont le prototype *ṷidlmā pourrait donner régulièrement uidlua en gaulois selon Lambert, avec lénition du m, comme anuana < *anmana. Uidluias serait le génitif de uidlua; traduction par Lambert, LG 167, de briecom uidluias uidlu[as] / tigontias so ‘ceci est un charme de sorcière ensorcelant des sorcières’, avec restitution de uidlu[as] à l’acc. plur. Sens retenu par K.-H. Schmidt, Fs Hamp 18, ‘[ist] dies (so) der Zauber der Magien / Zaubereien (uidlu[a] = Alde Pl.) stechenden (tigontias) Vidluia (Gen. Sg.)’, et par Meid, GAS 43, ‘[ist] dies der (Gegen)zauber der (geheimes) Wissen praktizierenden (wörtlich : “stechenden”) wei sen Frau”. L. Fleuriot, PML 57, avait attiré l’attention sur l’existence d’un NP Udlu-gesus avec réduction de l’initiale ui- à u- (*Uidluo-gaisos ‘Lance-Magique’) ; pt ê. aussi Uedl-souna ‘Sommeil-agique’, voir à sounos.

[Placa de] chumbo de Larzac, ligne 1a3: … brictom uidluias uidlu[- … PML 13, LG 161. Aproximado pelos primeiros comentadores (Fleuriot PML 57 e Lambert PML 64) da raiz *ṷeid- ‘ver, saber’ que resulta no nome do ‘sábio’ ou do ‘vidente’ / ‘bruxo’ : gaulês dru-wid-s, veja-se esse verbete, galês gwyddon ‘bruxo’, sânscrito viduráḥ ‘sábio’, e sobretudo a profetisa do Táin, Fedelm, cujo protótipo *ṷidlmā poderia regularmente dar uidlua em gaulês, segundo Lambert, com enfraquecimento do m, como anuana < *anmana. Uidluias seria o genitivo de uidlua; tradução por Lambert, LG 167, de briecom uidluias uidlu[as] / tigontias so ‘este é um encantamento de bruxa enfeitiçando bruxas’, com restauração de uidlu[as] no ac. plur. Sentido conservado por K.-H. Schmidt, Fs Hamp 18, ‘[ist] dies (so) der Zauber der Magien / Zaubereien (uidlu[a] = Alde Pl.) stechenden (tigontias) Vidluia (Gen. Sg.)’, e por Meid, GAS 43, ‘[ist] dies der (Gegen)zauber der (geheimes) Wissen praktizierenden (wörtlich : “stechenden”) wei sen Frau”. L. Fleuriot, PML 57, despertou a atenção para a existência de um nome de pessoa Udlu-gesus, com redução do inicial ui- à u- (*Uidluo-gaisos ‘Lança-Mágica’) ; talvez também Uedl-souna ‘Sono-Mágico’, veja-se no verbete ‘sounos’.

Delamarre, Xavier. Dictionaire de la langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. Errance, Paris, 2003, p. 202, 319. ISBN: 2 87772 237 6. ISSN: 0982-2720.

Delamarre, Xavier. Dicionário da Língua Gaulesa; uma aproximação linguística do céltico antigo continental. Errance, Paris, 2003, p. 202, 319. ISBN: 2 87772 237 6. ISSN: 0982-2720.

Comentário: Se os gauleses tinham palavras para “bruxo/a”, sinto-me forçado a concluir que os celtas antigos sabiam bem o que era bruxaria.

Tradução: Bellouesus /|\

belo-, bello-, ‘forte, poderoso’

belo-, bello-, ‘forte, poderoso’

Termos e tema frequente em NP [‘noms de personne’, nomes pessoais, teo-/antropônimos]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, nomes de rio, hidrônimos] Bienne e Biel (Suiça) remontam a *Belenâ. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade ‘solar’, levou a que essa designação fosse compreendida como ‘o luminoso, o brilhante’, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- ‘brilhar’ (há um ^gwelH- ‘queimar’, “nicht ganz sicher” [não muito seguro] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos ‘branco’, armênio bal ‘palidez’, sânscrito balâkâ ‘guindaste’, gótico bala ‘ cinzento’, letão báltas, ‘branco, eslavo antigo belo ‘id.’, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhêl- / “bhel- [*bheh1l- * bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante ‘branco, cinzento, pálido, porém não ‘brilhante’; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet ‘relâmpago’, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, ‘força, forte’: sânscrito bálîyân, ‘mais forte’, bálisthah ‘o mais forte’ (=balisamo- com a divisão dialetal regular do dufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíôn, béltistos ‘melhor, mais’ (por *belíôn, bélistos), latim dê-bilis ‘baixo’, eslavo antigo boljiji ‘maior’, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como ‘A Muito Poderosa’ e não como ‘A Muito Brilhante’, Belinos ‘O Senhor do Poder’ (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – ‘Forte e Bom’.

Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

Tradução: Bellouesus /|\