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Os Druidas no Mundo Antigo: Aurora e Ocaso

dopsp2016

Palestra apresentada no Dia do Orgulho Pagão de São Paulo (22/10/2016)

Conteúdo

1 Quando os druidas entraram na história?
2 Qual a etimologia da palavra “druida”?
3 O que os druidas faziam?
4 Quando os druidas saíram da história?

1 Quando os druidas entraram na história?

Séc. VI a. C.: Hecateu de Mileto (ca. 546 a.C. – ca. 480 a.C.) usou pela primeira vez a
palavra Keltoi para designar os nativos do atual sul da França, especificamente da região ao redor de Massalia (hoje Marseille).

Séc. V a. C.: usando Hecateu, Heródoto de Halicarnasso (485? – 420 a.C.) demonstrou
pouco saber sobre os Keltoi, localizando-os além das Colunas de Hércules (o Estreito de
Gibraltar) e supondo que o Danúbio tivesse origem no seu território.

Fim do séc. III a. C.: desde essa época, os gregos seguramente estavam cientes da
existência dos druidas, do seu nome e da sua atividade filosófica.

Pseudo-Aristotéles (Aristotéles, 384 – 322 A. C.), Magikos (“Sobre a Magia”) e Sotíon
(séc. II a. C.), Diadokhe ton philosophon (“Sucessão dos Filósofos”) apud Diógenes Laércio
(séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton (“Vida e Opiniões dos
Filósofos Eminentes”).

I, 1: Há alguns que dizem ter o estudo da filosofia iniciado entre os bárbaros. Salientam que os Persas têm seus Magos, os Babilônios ou Assírios seus Caldeus e os Indianos seus Gimnosofistas; e entre os Celtas e os Gauleses há as pessoas chamadas Druidas ou Semnotheoi, citando para essa afirmação a autoridade do “Sobre a Magia” de Aristóteles e de Sotíon no vigésimo terceiro livro da sua “Sucessão dos Filósofos”.Também dizem que Mochus era um Fenício, Zamolxis, um Trácio e Atlas, um Líbio.

I, 6: Entretanto, aqueles que defendem a teoria da origem da filosofia entre os bárbaros prosseguem explicando as diferentes formas que esta assumiu em diferentes países. Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura.

A Diadokhe de Sótion foi uma das primeiras histórias da filosofia. O Magikos e a Diadokhe
são obras hoje desaparecidas que foram parcialmente copiadas por Diógenes Laércio.

Séc. I a. C.: surgem as primeiras informações substanciais sobre os druidas (Caio Júlio
César, Commentarii de Bello Gallico, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, Livro VI).

Para Clemente de Alexandria (c. 150 – 215 d. C.), os Druidas dos Gálatas, os Profetas dos
Egípcios, os Caldeus dos Assírios, os filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas teriam sido
os pioneiros da filosofia.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 70, 1: Alexandre, no seu livro “Sobre os Símbolos Pitagóricos”, relata que Pitágoras foi discípulo de Nazaratus, o Assírio […] e conta ainda que, além desses, Pitágoras foi ouvinte também dos Gálatas e dos Brâmanes.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 71, 3: Assim, a filosofia, ciência da mais alta utilidade, floresceu na antiguidade entre os bárbaros, derramando a sua luz sobre as nações. E mais tarde chegou à Grécia. Os primeiros em suas fileiras foram os Profetas dos Egípcios e os Caldeus entre os Assírios e os Druidas entre os Gauleses e os Samanaioi entre os Báctrios e os Filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas.

Hipólito de Roma (170 – 235 d. C.), Philosophúmena (“Ensinamentos Filosóficos”; título
alternativo: Katà pasôn hairéseon élenkhos/Refutatio Omnium Haeresium, i. e.,“Refutação de Todas as Heresias”), I, 22.

E os druidas célticos exploraram com a máxima minúcia a filosofia pitagórica depois que Zamolxis, trácio de nascimento, um servo de Pitágoras, tornou-se para eles o fomentador dessa doutrina. Eis que, após a morte de Pitágoras, Zamolxis, para lá se dirigindo, tornou-se-lhes o desenvolvedor dessa filosofia. Os celtas consideram-nos profetas e videntes em razão de lhes predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica, a respeito de cujos métodos não ficaremos em silêncio, uma vez que alguns neles encontraram inspiração para heresias; os druidas, no entanto, recorrem também a ritos mágicos.

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Qual a razão da diferença entre essas listas?

Desde o séc. V a. C., circulava uma obra chamada Pythagorica Hypomnemata (“Símbolos Pitagóricos”), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação entre os druidas e a escola pitagórica. Essa obra foi usada por Alexandre de Mileto (dito Polyhístor, “o Erudito”), mencionado no primeiro trecho de Clemente citado acima. Clemente segue uma tradição iniciada no séc. V a. C., oriunda dos próprios pitagóricos, enquanto Diógenes filia-se à tradição aristotélica, representada pelo Pseudo-Aristóteles e Sótion.

Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378 – 444), autor pouco lembrado, na obra “Contra Juliano, o Ateu” repete a lista de Clemente, fazendo a mesma distinção cuidadosa entre Druidas Gauleses e Filósofos Celtas, apenas acrescentando que o número destes era non pauci
(“não poucos”).

Samanaioi (forma plural, seria samanaios no singular) é uma adaptação grega do prácrito (designação geral da grande família de línguas e dialetos falados na Índia antiga que possuíam parentesco com o sânscrito) samaya-, derivado do sânscrito sramanas, “monge budista”, que se tornou sha men em chinês, depois saman em tungus (grupo de línguas do leste da Sibéria) e finalmente sha’man em russo, isto é, “xamã”. O mesmo vocábulo aparece nos Semnotheoi de Diógenes, o plural de *semnotheos, provável deturpação de *samano-theos, “deus xamã, xamã divino”, embora nada realmente autorize supor que a palavra teria na Antiguidade o sentido que hoje se atribui à palavra xamã. O mais provável é que significasse apenas “asceta”.

De todo o exposto, três conclusões podem ser tiradas:

1) Os Druidas emergem para a história em escritos filosóficos onde são tidos como precursores dos pensadores gregos.

2) “Druidas” é a designação que esse grupo dava a si mesmo, não uma denominação tardia ou um apelido dado por observadores contemporâneos.

É, portanto, um termo gaulês nativo cujo significado etimológico precisa ser determinado para a melhor compreensão da natureza e função dos druidas.

3) Estavam presentes entre os gauleses pelo menos quatro séculos antes da invasão romana (ocorrida em meados do séc. I a. C.), talvez antes.

2 Qual a etimologia da palavra “druida”?

A etimologia da palavra “druida” é, não surpreendentemente, um ponto bastante controverso. Concorda-se que seria composta por duas partes: dru- + -uid-.

Os linguistas reconhecem no segundo elemento a raiz proto-indo-europeia *u̯ei̯d-, “ver,
saber”.

Quanto ao primeiro, há três linhas de pensamento sobre a sua interpretação:

1ª. Caio Plínio Segundo, dito “Plínio, o Antigo” (séc. I d. C.), apoiado, entre outros, por
Jubainville, Hubert (séc. XIX) e  Delamarre (séc. XXI): de acordo com Plínio (“História
Natural”, L. XVI, 95), “os druidas não realizam ritos sem as folhas do carvalho, considerando-o importante a ponto de se poder supor que o seu nome venha da palavra grega para carvalho, δρυς”. Para essa linha, os druidas seriam os “sábios dos carvalho” ou “possuidores do conhecimento do carvalho”.

2ª. Thurneysen (séc. XIX), Jullian (séc. XX), Le Roux & Guyonvarc’h (séc. XX): dru- seria
um elemento intensificador, como -dubno- e -māro-, porém usado unicamente como
prefixo. Para essa linha, os druidas seriam “os muito sábios”, “possuidores do conhecimento firme/forte”;

3ª. Benveniste (séc. XX): o nome proto-indo-europeu de[o]ru̯- > dreu̯-, que designava
árvores em geral, deu origem à palavra para carvalho em muitas línguas dessa família,
abrangendo também as noções de força, resistência e fidelidade com o tempo associadas ao
carvalho. O gaulês teria herdado deru̯o- como o nome da árvore carvalho e dru- (presente no adjetivo drutos, -ā, -on, “forte vigoroso”) para as qualidades a ela metaforicamente ligadas. Para essa linha, que de certo modo concilia as duas anteriores, os druidas seriam “os detentores do conhecimento vigoroso que brota do mundo subterrâneo”.

3 O que os druidas faziam?

Caio Júlio César, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, VI, 14: Os druidas obtiveram a
isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão
isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos
espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pompônio Mela, “Descrição do Mundo”, III, 2, 14: Ela [refere-se à costa exterior da Gallia] é habitada por povos orgulhosos, supersticiosos e outrora tão bárbaros que viam os sacrifícios humanos como o gênero de holocausto mais eficaz e o mais agradável aos deuses. Esse costume abominável não mais existe, porém dele ainda restam traços, pois, conquanto agora se abstenham de imolar os homens que escolhem, conduzem-nos ao altar e tiram-lhes um pouco de sangue. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas. Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Estrabão, “Geografia”, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção,
encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os
Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se
ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da
natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais
justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodoro Sículo, “Biblioteca Histórica”, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de
adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o
futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos
lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo”, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [isto é, os “filósofos” e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participavam de guerras (“obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio era livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais
impendem”);
c) eram contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhiam espontaneamente ser druidas ou eram levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) eram professores;
f) atravessavam um longo período de treinamento;
g) eram letrados, embora optassem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinavam geografia (“o tamanho do universo e da terra”), astronomia (“o movimento
das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), mitologia e teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professavam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) eram árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião, por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” teria voltado ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica,
especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não
conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no território dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”.

Desse trecho de César saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

4 Quando os druidas saíram da história?

O Declínio dos Druidas

O declínio dos druidas foi basicamente uma transferência de status, poder e influência ocorrida nos anos que se seguiram à conquista romana, embora com origem remota em fatores internos ao movimento druídico.

Os interesses da elite intelectual gaulesa cedo entraram em conflito com os da nova Roma Imperial, cujo líder ou princeps, Augusto, tinha uma desconfiança extrema do potencial subversivo de astrólogos, adivinhos e profetas. No ano 12 a. C., Augusto ordenou a incineração de 2.000 livros sobre profecias em Roma. Especulações sobre o futuro, especialmente envolvendo a vida do imperador, representavam má sorte por si mesmas. Também proibiu que cidadãos romanos seguissem o ensinamento dos druidas.

Nesse contexto, juntamente com o encorajamento de Roma para que as novas elites adotassem o novo culto imperial, não é difícil entrever a dissolução da elite religiosa nativa, encabeçada pelos druidas.

Várias razões podem ser apontadas para a morte da velha ordem:

1 O fim do monopólio do conhecimento característico do ministério druídico, do qual o famoso “Calendário de Coligny” (do fim do séc. II d. C., segundo P.-Y. Lambert) pode representar um dos últimos legados.

2 A nova divisão administrativa do território gaulês em municipa exigia uma nova ordem religiosa como novas normas legais.

3 A antiga aristocracia foi dizimada nos anos da conquista e a nova, formada por apoiadores dos romanos, mostrava uma sensibilidade mais inclinada à conduta e civilização do Mediterrâneo.

4 Embora seja desconfortável admiti-lo, a própria conquista romana mostrou aos gauleses o caminho de um novo progresso material, incluindo o fim das lutas intertribais que os druidas nunca conseguiram ou mesmo nunca desejaram evitar.

4 O sacerdócio do culto imperial adotou o evergetismo clássico e ofereceu à elite um novo monopólio da autoridade dentro da(s) sociedade(s) galo-romana(s).

6 A nova ordem encontrou uma razão de ser face à progressiva internalização do modelo religioso romano que era parte da conquista e da nova compreensão da realidade por esta trazida.

Em termos simples, os interesses dos druidas eram incompatíveis com os de Roma. É provável que qualquer sinal de rebelião organizada, se porventura existiu, tenha sido marginalizado pelos historiadores romanos ao ponto de parecer insignificante.

Apenas dois sinais de oposição druídica a Roma foram registrados, ambos por Tácito: o primeiro, a resistência infrutífera à invasão de Mona no ano 60, sob o comando do general Suetônio Paulino; o segundo, nove anos mais tarde, quando um incêndio atingiu o templo de Júpiter Capitolino em Roma, o que os druidas teriam interpretado como sinal de iminente passagem do poder das mãos dos romanos para as das nações transalpinas.

Depois disso, os druidas somente voltam a aparecer nos escritos greco-romanos como figuras do passado remoto da Gália já romanizada.

O gradativo desaparecimento dos druidas, acompanhado de confusão quanto a suas antigas funções, pode ser adivinhado pela degeneração visível na própria palavra no correr dos séculos, conforme se verá a seguir.

Formas antigas da palavra “druida”

Séc. I a. C.

Cícero, Da Divinação, 1, 41, 90: druidae.

César, Comentários, 6, 13, 1: druidum; 6, 14, 1: druides; 6, 18, 1: druidibus; 6, 21, 1: druides.

Diodoro Sículo, Biblioteca, 5, 31, 4 : σαρονιδας (var. σαρωνιδας), corrigido δρουιδας (séc. I a. C.- séc. I d. C.). Comentário: certos manuscritos não trazem a forma δρουιδας, que é uma conjetura já antiga e mesmo desnecessária, pois δρουιδας teria sido entendido pelo contexto.

Séc. I a. C.- séc. I d. C.

Estrabão, Geografia, 4, 4, 4: δρυιδαι; 4, 4, 5: δρυιδον.

Séc. I d. C.

Pompônio Mela, Descrição, 3, 2, 18: druidas.

Lucano, Farsália, 1, 450-458: druidae (var. driadae, dryadae).

Comentário: driadae, driades. As variantes dos manuscritos, assim como as dos escólios (dos quais os mais antigos devem remontar ao séc. IV) mostram que a palavra sofreu corrupção rapidamente.

Plínio, História Natural, 16, 249: druidae; 24, 103: druidae; 29, 52: druidae; 29, 54: druidis, 30, 12g: druidas.

Tácito, Anais, 14, 30: druidaeque.

Tácito, Histórias, 4, 54: druidae.

Fim do séc. I d. C. – começo do séc. II d. C.

Suetônio, Cláudio, 25: druidarum (var. druidorum, driadarum, dryadarum, dryidarum).

Dio Crisóstomo, Discursos, 49: δρυιδας.

Fim do séc. II d. C.

Herodiano, o Erudito: δρυιδης.

Fim do séc. II – começo do séc. III d. C.

Pseudo-Aristóteles, fragmento apud Diógenes Laércio, Vidas, Prólogo, 1: δρυιδας.

Clemente de Alexandria, Stromata, 1, 15: δρυιδαι.

Orígenes, Contra Celso, 1, 16: δρυιδας (var. δρυaδας).

Hipólito de Roma, Ensinamentos, 2: δρυιδας; δρυιδαι (var. δρυιδον).

Séc. IV d. C.

Aurélio Vítor, Os Césares, 4, 2: druidarum (var. drysadarum, drysudarum, drysidarum).

Ausônio, Comemoração dos Professores, 5: druidarum; 11: druidum.

Fim do séc. IV d. C.

Timagenes apud Amiano Marcelino, História, 15, 9, 4: drasidae (var. drysidae); 15, 9, 8: drasidas, dryasidae (Timagenes: séc. I a. C.).

Fim do séc. IV d. C. – começo do séc. V. d. C.

História Augusta, Alexandre Severo, 60, 6: dryas.

História Augusta, Numeriano, 14, 2: dryade; 14, 3: dryas; 15, 1: dryade; 15, 5: dryadis.

História Augusta, Aureliano, 44, 4: dryadas; 44, 5: dryadibus.

Séc. V d. C.

Cirilo de Alexandria, Contra Juliano, 4: δρυιδαι.

Séc. VI d. C.

Estevão de Bizâncio: δρυιδαι.

Comentário: Como se pode ver, as formas gregas vão das mais lógicas (“druida”, palavra gaulesa declinada como substantivo grego) às mais aberrantes (saronidas, drasidae, etc.). A atração fonética de dryades é forte e justificada, pois lembra o grego δρυς (drys), “carvalho”. A moral dessa história é bastante simples: os autores gregos e romanos não são fontes confiáveis para a reconstituição do nome original.

Inscrição de Metz, Corpus InscriptionumLatinarum – CIL XIII, 555* (anterior ao séc. III d. C.)

areteinscription

Siluano sacrum et Nymphis loci
Arete Druis Antistita somnia monita dedit

Isto é: Somnia monita, Arete Druis Antistita Siluano et Nymphis loci dedit sacrum (instruída por um sonho, Arete, Druida e Sacerdotisa Principal, a Silvano e às Ninfas do lugar dedicou o monumento.

Essa inscrição, descoberta no séc. XVI e hoje perdida, é por muitos considerada falsa. Apesar disso, ela traz um enigma: como é possível que a palavra druida (druis, que se deve entender como *druu̯iđ) esteja grafada na forma considerada correta pela pesquisa moderna para o singular e que se encontra ausente de todos os textos antigos?

Bellouesus /|\

 

 

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5o. EBDRC

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5o. EBDRC – Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

NAS PEGADAS DOS DEUSES
Mitos e Ritos dos Celtas

Pela primeira vez no Nordeste do Brasil

Recife – PE

18, 19 e 20 de abril de 2014

Onde: Pousada Aldeia dos Camarás (Rua Alcides Maia, 301, Camaragibe, Recife – PE), fone (81) 8923-4065 (falar com Renata Gueiros)

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Valor* das inscrições e formas de pagamento: (hospedagem + refeições + palestras/oficinas):

De 29/11/2013 a 31/12/2013: R$ 282,00 em até 3x de R$ 94,00 (dez/jan/fev).
De 01/01/2014 a 31/01/2014: R$ 312,00 em até 2x de 156,00 (jan/fev).
A partir de 01/02/2014: R$ 342,00 em parcela única.

* Translado das vans incluído.

Refeições: café da manhã (dias 19 e 20), almoço (dias 18, 19 e 20), coffee break (dias 18 e 19) e jantar (dias 18 e 19), num total de 9 refeições.

INSCRIÇÃO

Informações pessoais

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Pertence a algum grupo (nemeton, caer, grove, ordem, coven, outro)?
Nome:

Druidismo? ( )
Reconstrucionismo Celta? ( )
Outro? ( ) Qual? …………………………

Iniciante em Druidismo ( ) Sim ( ) Não
Iniciante em Reconstrucionismo Celta? ( ) Sim ( ) Não

A inscrição somente será efetuada após confirmação do depósito na conta*:

Banco: Bradesco
Agência: 3201-8
Conta-corrente: 0520165-9
Nome: Renata Romero Gueiros

Enviar dados da operação ou comprovante para o e-mail: renatita@gmail.com.

* No caso de parcelamento, após a comprovação do pagamento da última parcela; menores de idade somente acompanhados dos pais.

Cronograma provisório

5ebdrc

1º. dia – 18/04 (sexta-feira)

9:00 às 11:30

Recepção e acomodação

12:00

Almoço

14:00

Abertura do V EBDRC

14:30

Palestra

Belloesus īsarnos

(RS)

A Religião dos Celtas – Inscrições, iconografia,
literatura – O que os próprios celtas disseram e o que os outros disseram
sobre eles

16:00

Palestra

Renata Gueiros

(PE)

O Papel das Mulheres no Druidismo –
Ontem e Hoje

17:00

Coffee break

17:45

Workshop

Bandruir

(RJ)

Clava e Harpa, Corpo e Alma: A Magia
Bárdica nos Rituais

18:45

Intervalo

19:00

Jantar

20:00

Mesa Redonda

Todas as Árvores do Bosque: caminhos e rumos do Druidismo
no Brasil

21:30

Fim das atividades do dia

2º. dia – 19/04 (sábado)

7:00 às 9:30

Café da Manhã

9:30   

Palestra

Druida
do Vento (MS)

A Sacralidade Local e os Ritos Sazonais

10:40

Atividade

Rowena e Endovelicon (SP)

Aquecendo os Caldeirões

12:10

Almoço

14:00 

Palestra

Rafael Corr (SC)

Música Tradicional Irlandesa – Uma
análise interativa de sua temática e influência no cenário folk atual

15:10

Atividade

Wallace William de Souza
(SP)

A Rainha Égua – A Retomada da Soberania.

16:30

Coffee break

17:15

Atividade

Marcela
Badolatto (SP)

Tema a definir

18:30

Intervalo

19:00

Jantar

20:00

 

Oficina

Belloesus īsarnos

 (RS)

1ª parte – Não diga emãcóu.

2ª parte – Técnicas
básicas para a criação e uso de selos mágicos.

21:30

Fim das atividades do dia

3º. dia – 20/04 (domingo)

7:00 às 9:30

Café da Manhã

9:00   

Palestra

Joab Nascimento (PB)

Ritos Sacrificiais e Sacrifícios Rituais: Do Antigo ao Atual

10:10

Atividade

Marcos
Reis (SP)

Confeccionando o Ramo de Prata: tecendo a ligação
entre os Reinos.

11:40

Intervalo

12:00

Almoço

14:00

Visita ao Instituto Ricardo Brennand**

 

Encerramento

** Opcional, R$ 20,00 entrada inteira e R$10,00 a meia.

Edições anteriores:

2010I EBDRC: Florianópolis – SC – Sul
2011II EBDRC: Cotia – SP – Sudeste
2012III EBDRC: Novo Hamburgo – RS – Sul
2013IV EBDRC: Cotia – SP – Sudeste

Fotos AQUI.

Pousada Aldeia dos Camarás

Bellouesus /|\

Aumente a Percepção

Há um livro muito bom chamado “Memórias de Adriano”, escrito por uma francesa, Marguerite Yourcenar. Adriano foi um dos bons governantes que Roma teve. Ele ocupou o trono do Império Romano de 117 a 138 E. C., ou seja na primeira metade do séc. II da Era Cristã. O livro é uma “autobiografia”, no sentido de que a autora penetrou tão profundamente na psicologia do biografado que ela e o imperador tornaram-se indiferenciáveis. É quase uma obra mediúnica.

Em uma passagem desse livro, Adriano, já sexagenário e enfermo (ele morreu de uma moléstia cardíaca, penso eu), com a mobilidade reduzida, relembra que um dos maiores prazeres de sua juventude havia sido a natação, uma atividade que, em seu precário estado de saúde, já não podia praticar. Ele dizia que havia nadado com tal paixão e tamanho prazer que era capaz não apenas de reviver suas sensações ao ver outras pessoas nadarem, mas era também capaz de compreender a sensação da própria onda que o nadador atravessava. Ele podia reviver o prazer de caçar e todas as suas sensações – a atenção, o arco na mão do caçador, o galope do cavalo sob seu corpo – e, ao mesmo tempo, participar do terror da presa, a urgência do instinto de preservação e os mil artifícios de fuga que a mente animal inspira. Graças a suas experiências da juventude, vividas com intensidade e total entrega, ele conseguia participar da natureza do nadador e da onda, do caçador e da caça.

Em um artigo escrito pelo druida norte-americano Searles O’Dubhain, este expõe uma teoria dos elementos na tradição irlandesa. Como você deve saber, os quatro elementos da tradição ocidental mais difundida (água, fogo, terra e ar) têm origem no pensamento grego. O’Dubhain apresenta nove elementos na tradição céltica, que se manifestam no microcosmo, isto é, no ser humano (féinn, “si mesmo”) e no macrocosmo (“bith”, mundo). Ele acredita que, para a magia dos druidas ser efetiva, é necessário que os elementos do Féinn estejam em perfeita harmonia com os do Bith. Esse alinhamento do indivíduo com o mundo foi o que deu origem ao poema Duan Amhairghine, “A Canção de Amhairgin“, que começa assim:

Am gaeth i m-muir
Am tond trethan
Am fuaim mara
Am dam secht ndirend
Am séig i n-aill

Sou o vento sobre o mar
Sou a onda tempestuosa
Sou o som do oceano
Sou o touro com sete chifres
Sou o falcão no despenhadeiro

Graças a essa identificação entre as partes do seu próprio ser e os elementos do mundo, Amhairghin, o primeiro druida gaélico da Irlanda, foi capaz de entrar em contato direto com tudo que compõe a natureza. É algo muito mais profundo do que simples empatia. É a percepção de fazer parte de um todo, de um contínuo de vida com muitos núcleos interligados que interagem constantemente uns com os outros.

Quando essa percepção é alcançada, todas as coisas ficam em seus lugares. Há uma grande quietude e um silêncio musical. É uma sensação rara. Eu a tive poucas vezes.

É necessário estar aberto para o mundo por meio dos sentidos. Quando estiver sentado em um banco de praça, feche os olhos e tente ouvir tudo ao mesmo tempo: os pássaros nas árvores, as vozes das pessoas, os automóveis que passam, a água do chafariz, mas não detenha sua atenção em nada especificamente. Apenas deixe que os sons venham. Faça isso com os outros sentidos, um pouco de cada vez. Os sentidos são as portas pelas quais o mundo entra na consciência. As portas devem estar escancaradas para que o mundo possa entrar.

Bellouesus /|\

Druidismo – Xamanismo 3

Há um certo número de práticas e experiências relativamente comuns no xamanismo que estão em curso de investigação por pesquisadores modernos. Enquanto alguns pesquisadores ignoram as práticas tradicionais, outros começaram a explorar as técnicas mais antigas. A emergência do novo campo da “antropologia da consciência” e o estabelecimento da Psicologia Transpessoal como a “Quarta força” na psicologia abriram à investigação dos pesquisadores a natureza e a história da consciência de modos que não eram antes possíveis. Fora dos círculos acadêmicos, um número crescente de pessoas começou a fazer sérias indagações a respeito das antigas técnicas xamânicas para entrar em estados alterados de consciência.

Os xamãs tradicionais desenvolveram técnicas para obter sonhos lúcidos e também aquilo que hoje se chama “experiência fora do corpo”. Tais métodos para explorar a paisagem interior estão sendo investigados por uma grande variedade de pessoas. Alguns são acadêmicos, alguns vêm de sociedades tradicionais e outros são praticantes modernos do xamanismo não-tradicional ou neo-xamanismo. Juntamente com essas técnicas, as “experiências no limiar da morte” (NDE, near death experiences) desempenharam um papel significativo na prática e iniciação xamânicas por milênios. Isso está extensivamente documentado em estudos etnográficos do xamanismo tradicional. Com o interesse renovado nessas tradições mais antigas, tais métodos xamânicos de trabalhar com sonhos e permanecer consciente e desperto ao sonhar estão recebendo maior atenção.

A capacidade de mover-se conscientemente para além do corpo físico é a especialidade particular do xamã tradicional. Tais jornadas da alma podem levar o xamã aos reinos inferiores, a níveis mais altos da existência, a mundos físicos paralelos ou a outras regiões deste mundo. O “vôo xamânico” é, como ocorre em muitos exemplos, uma experiência não de uma paisagem imaginária, mas é relatado por muitos xamãs como um vôo além dos limites do corpo físico.

Como indicado acima, o “chamado para xamanizar” é muitas vezes relacionado a uma NDE vivida pelo futuro xamã. Entre os exemplos tradicionais contam-se: ser atingido por um raio, cair de uma grande altura, uma doença muito grave ou experiências de sonhos lúcidos em que o candidato morre ou alguns de seus órgãos são consumidos e substituídos, depois do que ele renasce. A sobrevivência a esses encontros iniciais externos e internos com a morte fornece ao xamã experiências pessoais que fortalecem sua capacidade de trabalhar efetivamente com os demais. Tendo ele próprio experimentado algo, é mais provável que um xamã compreenda o que deve ser feito para corrigir uma determinada situação ou condição.

Enquanto o xamanismo pode ser prontamente identificado em muitas sociedades caçadoras e coletoras e em algumas sociedades pastoris tradicionais, identificar grupos específicos de indivíduos que possam ser chamados de xamãs é uma tarefa difícil em sociedades agrícolas e manufatureiras mais estratificadas. Pode-se dizer que uma sociedade é PÓS-XAMÂNICA quando há a presença de motivos xamânicos em seu folclore ou suas práticas espirituais indicam um claro padrão de tradições de ascensão ao céu, descida aos reinos inferiores, movimento entre este mundo e um Outro Mundo paralelo. Tal sociedade ou tradição pode ter se tornado muito especializada e recombinado aspectos de misticismo, profecia e xamanismo em práticas “mais desenvolvidas” e pode tê-las atribuído a funcionários altamente especializados. Quando tais práticas e funcionários estão presentes ou substituíram os xamãs tradicionais encontrados no xamanismo histórico, é então apropriado o uso do termo pós-xamanismo.

Mais especificamente, pode-se dizer que uma sociedade é pós-xamânica quando ao menos 6 das seguintes 8 condições forem encontradas:

a) o êxtase xamânico está ainda presente, mas técnicas de transe leve são usadas para acessar o Outro Mundo;

b) a agricultura e algumas formas de manufatura substituíram a caça e a coleta com bases primárias da vida econômica da comunidade;

c) a sociedade desenvolveu-se numa estrutura altamente estratificada e com ocupações muito especializadas;

d) a religião e a metodologia espiritual tornaram-se mais elaboradas e já não podem ser adequadamente consideradas “arcaicas”. Isso é especialmente importante para os rituais, cerimônias e técnicas extáticas que tinham sido, tradicionalmente, o domínio dos xamãs;

e) o êxtase místico e visões de união tornaram-se experiências e doutrinas esotéricas pelo menos tão importantes quanto o êxtase xamânico, a ascensão e a descida, na vida religiosa da comunidade;

f) o xamã já não é o acompanhante primordial das almas dos mortos (psicopompo) ao lugar que ocuparão no Outro Mundo. Esse papel geralmente passa seja a um sacerdócio ou clero, que o executa através de um ritual, seja oração individual ou grupal, ou se acredita que seja desempenhado pelos Deuses, espíritos guardiães, anjos ou demônios;

g) um clero profissional está presente, regulando a vida religiosa da comunidade;

h) outras formas de cura, divinação e aconselhamento fazem-se presentes e substituíram o xamã como fonte primordial de tais serviços.

Motivos pós-xamânicos podem ser encontrados em muitas sociedades indo-européias, asiáticas, africanas e em alguns povos nativos norte-americanos. O uso da expressão “pós-xamânico” faz mais fácil o exame dessas tradições paralelas e de possíveis sobrevivências de tradições xamânicas primitivas.

Se o/a leitor/a considerar adequadas as considerações acima e, lembrando-se da posição ocupada pelos druidas antigos e do seu sistema de treinamento, responder à pergunta “Era pós-xamânica a religião céltica no período anterior à ocupação romana e à conversão ao Cristianismo?” com um “sim”, teremos então estabelecido as relações entre druidismo e xamanismo de um ponto de vista prático.

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Druidismo – Xamanismo 2

Há um site onde se podem ler boas obras sobre xamanismo (embora um pouco datadas):

Internet Sacred Text Archive

É possível encontrar ali os textos sagrados dos cristãos, budistas, muçulmanos, judeus, parses, mitologia grega, romana, nórdica, céltica (com títulos como “The Faery Faith in Celtic Countries”, do Evans-Wentz, um “must”), Wicca, Thelema, Ufologia, etc., etc., etc. É uma lástima que não exista (até onde sei) nada tão abrangente em português.

Pois bem. Que é, afinal de contas, o tão falado xamanismo?

O xamanismo é classificado pelos antropólogos como um FENÔMENO ARCAICO MÁGICO-RELIGIOSO em que o xamã é o grande mestre do êxtase. O próprio Xamanismo foi definido por Mircea Eliade (Shamanism: Archaic Techniques of Ecstasy; Londres, Arkana, 1989) como uma técnica de êxtase. Um xamã pode demonstrar uma especialidade mágica particular (tal como o controle sobre o fogo, o vento ou o vôo mágico). Quando uma especialização está presente, a mais comum é a capacidade curadora. O caractere distintivo do xamanismo é seu foco no estado de transe extático em que se acredita que a alma do xamã deixe seu corpo e suba ao céu ou desça para dentro da terra (mundo inferior). O xamã utiliza espíritos auxiliares, com os quais ele se comunica, mantendo durante todo o tempo o controle sobre sua própria consciência. Ocorrem exemplos de possessão, porém são mais exceções do que regra. É também importante notar que, enquanto muitos xamãs nas sociedades tradicionais são homens, tanto homens quanto mulheres podem se tornar e tornam-se xamãs.

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Druidismo – Xamanismo: observações

Erynn Laurie escreveu esse texto há vários anos, logo que começou a lista de discussão Nemeton-L (em 1997, eu acho), uma das primeiras, senão a primeira entre as dedicadas ao Reconstrucionismo Celta. O texto dela merece reparos.

Vou citar apenas um: os romanos enviavam os seus filhos aos druidas da Gália para que aprendessem oratória. Qualquer um que se tenha dado ao trabalho de estudar a história sabe que, já em meados do séc. I d. C., o governo imperial tinha promulgado decretos que proibiam a prática do druidismo sob pena de morte. Antes disso, Augusto já tinha proibido que cidadãos romanos participassem do culto dos druidas. Então como se explica que lhes enviassem os filhos como alunos?

A autora na verdade se refere (pelo menos assim espero) aos professores de retórica que lecionavam nas universidades de Burdigala (Bordeaux) e Lugdunum (Lyon), na Gália, muitos dos quais, como o Phoebicius citado por Ausonius, seriam descendentes de druidas. Mas isso já nos sécs. III e IV d. C., uma época em que o poder dos druidas gauleses era só uma lembrança remota. Quanto à posição que ela atribui aos xamãs… Ela confunde viver fora de um núcleo urbano com estar à margem da sociedade, para dizer o mínimo.

Bellouesus /|\

Druidismo – Xamanismo

Esta é a tradução que fiz de um artigo do druida Brendan “Cathbad” Myers, onde ele cita as opiniões de outros dois estudiosos a respeito da relação entre xamanismo e druidismo. Um deles (uma reconstrucionista, a culta Erynn Laurie) opina que o druidismo não é xamânico; o outro (Searles O’Dubhain) diz que os druidas eram xamãs e Cathbad encerra dizendo que nem tanto ao céu, nem tanto à terra, o druidismo apresenta características de práticas xamânicas, extáticas, e de uma religião não-xamânica, votiva.

Aqui começa o artigo.

“19. Eram os druidas xamãs?

“Essa é uma matéria de debate extremamente controvertida, sobretudo porque questões célticas e xamanismo são agora muito populares e uma síntese das duas foi buscada por muitos autores de ficção e alguns estudiosos. O druidismo realmente apresenta algumas características semelhantes às do xamanismo, particularmente em alguns dos feitos mágicos que se diz terem os druidas realizado. É a opinião deste autor que uma questão mais significativa é se os druidas eram semelhantes aos xamãs (e a resposta é, provavelmente, sim), porque os druidas evoluíram de uma cultura indo-europeia que tinha o xamanismo. Mas eles eram também algo mais. Para responder a questão, eu cederei a duas pessoas que sabem mais do que eu, as quais acredito representarem os dois lados do problema .

“De: Erynn Laurie, citado com permissão. Sua posição: Não, os druidas não eram xamãs.

“Os celtas tinham algumas palavras muito específicas para os seus funcionários religiosos e seus visionários. “Xamã” não era uma dessas palavras. Há algo errado com os termos que nossos ancestrais usavam, de modo que tenhamos de sair e procurar novas palavras com que rotular nossos videntes e poetas? Os druidas são, firmemente, uma parte da ordem social e classe governante nobres, ao invés de estarem às margens da sociedade. Os poetas com mais freqüência viviam à margem, como fazem os xamãs. Os druidas podiam barrar e barravam pessoas da participação nos sacrifícios e ritos comunitários. Não acredito que isso fosse parte de uma prática xamânica.

“O treinamento formal por muitos anos em escolas de druidas ou poetas não parece ser uma parte do padrão xamânico, embora eu possa estar errada a esse respeito. O xamanismo é comumente ensinado seja sob um único mestre com um ou poucos estudantes, ou pelos próprios espíritos. Os druidas e poetas são descritos com se reunindo em números consideráveis em “colégios” com o propósito de instrução em muitas matérias, particularmente nas cidades da Gália.

“Os druidas e os filidh eram considerados oradores formais muito bem treinados pelos romanos, que, às vezes, enviavam seus jovens filhos para serem treinados em oratória pelos druidas gauleses. Os gregos e os romanos pensavam nos druidas como filósofos naturais pitagóricos, com uma firme e delicada percepção da matemática. Não acredito que os xamãs altaicos sejam conhecidos por seu domínio da matemática, nem acredito que tenham uma compreensão dos ciclos metônicos do sol e da lua. Os druidas gauleses tinham um calendário muito complexo que está preservado nos fragmentos de Coligny. Jamais vi qualquer referência de os xamãs terem calendários com essa complexidade. Eu poderia estar simplesmente perdendo alguma coisa aqui.

“Muitos contos de “viagens ao Outro Mundo” célticos são sobre pessoas que foram até lá contra sua vontade e sem qualquer controle sobre a experiência. O xamã é um mestre do controle e sempre decide quando e onde ele/ela irá ou não irá aos outros mundos. Os xamãs não podem ser raptados contra sua própria vontade.

“As sociedades célticas eram sociedades letradas. Embora se diga que os druidas não anotassem coisas importantes, eles eram capazes e desejavam manter outros registros na escrita, usando o grego para muitas finalidades. Conta-se que Patrício queimou “centenas de livros druídicos” durante sua conversão da Irlanda. Os druidas e poetas são descritos escrevendo contos e poemas em bastões. Nenhuma das sociedades xamânicas que eu conheço era letrada. Muitas ainda não têm linguagens escritas. Isso não quer dizer que todas as sociedades pré-letradas fosse, portanto, xamânicas.

“No xamanismo, há um tema comum de ascensão aos mundos superiores ou reinos celestes, enquanto eu não conheço nenhum conto céltico restante a respeito de quem quer que fosse subindo aos mundos superiores para confrontar Deuses ou espíritos. Sim, os Deuses vêm de lá, mas quais humanos vão até lá? O “vôo do espírito” através dos reinos intermediários para espionar os inimigos ou o vôo sobre as copas das árvores na floresta não são exatamente a mesma coisa. Conheço apenas um relato que pode ser considerado como um conto de crise e doença xamânicas (a Doença de Cuchulainn), mas Cuchulainn envia o condutor de sua carruagem ao reino do Sidhe para investigá-lo antes que ele próprio vá até lá. O xamã em crise cura a si mesmo. Cuchulainn foi curado pela mesma mulher fada que o atingiu em primeiro lugar.

“Enquanto temos um certo número de elementos xamânicos aparecendo na mitologia céltica, geralmente não temos mais do que dois ou três temas no mesmo conto. É a minha compreensão que a maioria dos temas têm de aparecer na mesma pessoa para que ela seja vista como xamã. Isso pode ser o meu próprio preconceito quanto a essa matéria. E, outra vez, é inteiramente possível ter um espírito guardião animal, ter visões e fazer viagens para outros mundos sem ser um xamã. Isso acontece todo o tempo em muitas sociedades tribais. Dormir numa caverna, comer bagas e salmão e vestir pele também não transformam uma pessoa num urso.

“De Searles O’Dubhain, citado com permissão. Sua posição: Sim, os druidas eram xamãs.

“Os druidas eram mestres do fogo. Eram eles que criavam as fogueiras rituais. Eram eles que velavam pelas chamas sagradas dos Deuses. Eles até mesmo tinham seus próprios “fogos druídicos” com os quais travavam batalhas. Muitos druidas podiam “voar magicamente”. Os druidas Ciothruadh e Mogh Ruith voaram nas nuvens para lutar uma batalha xamânica. Para realizar esse ‘vôo mágico’, eles iriam vestir coberturas de cabeça de penas de pássaros e couros de touro e subir no calor, chamas e fumaça de seus próprios fogos druídicos mágicos. Mogh Ruith era fisicamente cego, embora ele ascendesse às nuvens para ‘ver’ o inimigo. Essa ‘visão’ implica no uso do ‘terceiro olho’ e em deixar o corpo. A cerimônia do ‘Tarb Feis’ é muito semelhante a uma jornada xamânica. O druida iria deitar-se sob o couro de um touro sacrificial e ‘sonhar’ um sonho profético. Quatro outros druidas iriam posicionar-se nos quatro ‘quadrantes’ e dedicar-se à execução de cantos mágicos.

“Os druidas freqüentemente se deitavam ou dormiam em sepulturas para comunicar-se e/ou invocar os espíritos dos mortos. ‘Como o Táin foi Redescoberto’ é somente um exemplo dessa técnica.

“Os druidas não ‘canalizavam’ seus deuses ou falavam com as vozes de Entidades como fazem os “canalizadores” e wiccanos da atualidade [como no ritual wiccano ‘Drawing Dawn the Moon’ – Cathbad]. Os druidas iam a seus Deuses durante ‘amruns’, períodos de cantos mágicos quando eles conversavam e aprendiam com os Deuses. Esses ‘amruns’ eram períodos de êxtase! Os druidas eram também capazes de caminhar nos caminhos dos sonhos e até mesmo no próprio Outro Mundo. Eram também mestres da natureza. Quem iria discutir que os druidas eram capazes de falar com os espíritos da natureza, árvores e fontes? Qual druida não sentiria o pulso da terra e o bater do coração da natureza? Qual druida não leria os escritos do destino nas nuvens do céu? Os druidas eram os Mestres da Magia. Eram os guardiães do Poder Místico. Viviam com um pé neste mundo e no Outro. Eram os poetas, curadores, advogados e magos dos celtas.

“Os druidas eram também os supremos juízes dos povos célticos, primordialmente porque podiam ver claramente a realidade (toda ela). Esperava-se que um druida visse o passado, o presente e o futuro de qualquer pessoa, objeto ou situação dados. É por isso que eles eram os conselheiros escolhidos dos reis. É por isso que eles se sentavam à direita do rei. É por isso que lhes era confiado o bem-estar mágico da tribo. É por isso que eles ensinavam as tradições e técnicas do povo em seus nemetons.

“O cerne da questão parece estar em se o druidismo é essencialmente uma religião votiva ou uma religião extática. Uma religião votiva é aquela que tenta comunicar-se e influenciar os poderes divinos por meio de oferendas, preces, sacrifícios, tabus rituais e outros meios físicos. Uma religião extática tenta comunicar-se e influenciar os poderes divinos por meio de transes, possessões espirituais, visões e encontro não-intelectual direto com os espíritos. Por exemplo, a experiência cristã fundamentalista de ‘ser salvo’ ou ‘nascer de novo’ é extática, enquanto a partilha ritual do pão e sua distribuição, tal como praticadas por cristãos católicos e protestantes, são votivas. Com relação ao druidismo, há elementos de ambas. A prática moderna do druidismo oscila através do espectro. A visão mágica que se esperava os druidas possuíssem é, provavelmente, extática, ao passo que suas responsabilidades legais e intelectuais são claramente votivas, na medida em que são minimamente religiosas.”

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