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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma “interpretatio graeca” e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (“funera sunt […] magnifica et sumptuosa”), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, “uita altera ad manes”). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena (“[…] sed ab aliis post mortem transire ad alios”). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (“regit idem spiritus artus orbe alio”). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [‘síd’] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [‘áes síde’]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. “Teatro Selecto de Calderón de la Barca”. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25 e “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). “Alexándrou Anábasis”, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). “De Chorographia”, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (“olim”, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. “De Chorographia”, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), “Bibliotheca histórica”, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – c. 24 EC). “Rerum Geographicarum Libri XVII”, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). “Factorum et Dictorum Memorabilium”, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). “De Bello Ciuili uel Pharsaliae”, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). “De Vita Pythagorica”, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos “rishis” indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). “Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton”, I, 6.

16) “Pythagorica Hypomnemata”.

17) Hippolytus (170–235 EC). “Refutatio Omnium Haeresium”, I, 22.

18) “Stromata”, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) “Aduersus Iulianum”.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), “Punicorum Libri Septemdecim”, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). “Descriptio Graeciae”, X, 21, 6.

22) “Echtra Condla”, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

 

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A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

Druida e drui

anglesey-druids

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, III, 15: Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, VI, 14: Os druidas obtiveram a isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os  druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pomponius Mela, De Chorographia, III, 14-15: Restam ainda traços de costumes atrozes não mais praticados e, conquanto agora se abstenham de matança aberta, ainda derramam o sangue de vítimas levadas ao altar. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas.

Strabon, Geographica, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participam de guerras (” obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio é livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais impendem”);
c) são contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhem espontaneamente ser druidas ou são levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) são professores;
f) atravessam um longo período de treinamento;
g) são letrados, embora optem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinam geografia (“o tamanho e a forma do mundo”), astronomia (“o movimento das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” voltou ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica, especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”. Desse trecho de Caesar saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

Bellouesus /|\

Bardos, Vates e Druidas na Geōgraphikā de Strábōn

bardosStrábōn de Amáseia, historiador, geógrafo e filósofo grego (64/63 a. C. – c. 24 A. D.), escreveu (Geōgraphikā, Livro  IV, Capítulo 4, §4) que entre todos os povos da Gália havia, de modo geral, três classes de homens que recebiam especial reverência (tría phula tōn timōménōn diapheróntōs estí): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai). Strábōn imediatamente acrescenta que os bardos são cantores e poetas, os vates, adivinhos e filósofos naturais, enquanto os druidas ocupam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral. Afirma então que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas.

Essa é uma passagem muito interessante. Uma boa parte de seu conteúdo perde-se na tradução para o português e para outras línguas modernas (consultei uma tradução em português, outra em inglês e mais uma em francês), ao passo que os termos gregos originais mostram que o autor tinha uma visão um pouco melhor das “especializações” dessas três classes tidas em especial honra pela tribos gaulesas.

No dizer de Strábōn, os bardos (bardoi) são humnētaí kaì poiētaí, compositores de hinos e poetas. Hinos (húmnoi), para o autor grego, são canções geralmente de cunho religioso, escritas com o fim de louvar, adorar ou orar, dirigidas em regra a uma ou mais  deidades, ou a uma figura histórica/mitológica de grande importância. Ao escrever que os bardoi são humnētaí kaì poiētaí, Strábōn quer dizer que, além de produtores de poesia para entreter e informar, os bardoi eram também os criadores da poesia sacra (e aqui me ocorre lembrar que o termo scél < *sketlo- designa em irlandês medieval todos os gêneros literários, sem distinção).

Quanto aos vates (ouáteis), estes são hieropoioí kaì phusiológoi. “Filósofos naturais” é uma tradução passável para phusiológoi, mas “adivinhos” não corresponde a hieropoioí.

Os hieropoioí eram em Atenas, assim como nas outras póleis helênicas, os supervisores dos templos, seus tesouros e demais propriedades, responsáveis pela demonstração anual de suas receitas e despesas, e encarregados das funções menores dos ritos sagrados, como a realização física dos sacrifícios sob a supervisão dos sacerdotes (hiereis). Hieropoios não significa “adivinho”.

“Filosofia natural” é uma tradução do latim philosophia naturalis, que por sua vez traduz o grego phusiología < phusis (natureza, origem) + lógos (palavra, ciência), “estudo das origens, ciência da natureza”. “Filosofia natural”, expressão atualmente obsoleta, era o estudo objetivo da natureza e do universo físico, designando a reunião de astronomia, física, química e biologia e estreitamente ligada à “teologia natural”, que sustenta o conhecimento do Divino por meio da razão e da experiência ordinária  do mundo e opõe-se à “teologia revelada” (fundada em uma escritura).

Assim, quando Strábōn escreve que os ouáteis eram hieropoioí kaì phusiológoi, é possível compreender com mais clareza a que espécie de conhecimento refere-se o autor grego. Coincidentemente, o romano Marcus Tullius Cicero registrou (De Diuinatione, I, 90) que o éduo Diuiciacus afirmava possuir o conhecimento da natureza chamado “phusiología” entre os gregos, tendo assim a possibilidade de fazer previsões por meio de augúrios e conjeturas.

Por fim, os druidas, que, conforme Strábōn, além de phusiológoi (fisiólogos, isto é, filósofos naturais, como recém visto) estudavam também a ēthiká philosophía (filosofia ética ou filosofia moral), dirigida às questões da moralidade: o exame dos conceitos de bom e mau, certo e errado, nobre e desprezível, justo e injusto, virtude e vício. Enquanto a phusiología, philosophia naturalis, pesquisava o significado do mundo externo, objetivo, a ēthiká philosophía dos druidas versava sobre o plano interno, o conhecimento  de alguma forma relacionado à vida humana, que socraticamente interpreto como auto-conhecimento.

Em um único parágrafo, Strábo:n nomeia os grandes blocos que compunham o conjunto de conhecimentos cuja posse era o privilégio da elite céltica:

I Humnōidia (poesia sacra): bardoi
II Poíēsis (outros gêneros literários): bardoi
III  Hieropoia (administração/supervisão dos elementos do culto): ouáteis
IIII Phusiología (estudo amplo da natureza): ouáteis kaì druídai
V Philosophiá ēthiká (filosofia moral*): druídai

Através da poesia, os bardos registravam e descreviam a realidade objetiva ou manifestavam seu universo interior para que outros pudessem dele partilhar. Esse era seu domínio, comunicar, conservar, transmitir.

Mas por que havia uma sobreposição entre vates e druidas quando se tratava de filosofia natural (phusiología)? Porque vates e druidas precisavam conhecer objetivamente os fenômenos naturais. Os primeiros, para interpretar ao próprio mundo os sinais que os Deuses enviam por meio da natureza. Os segundos, para refletir e interpretar o que esses sinais e prodígios significam e podem ensinar a cada um.

* Abrangendo, além da moral e da ética, a teoria do conhecimento, a psicologia, a sociologia, a política, a estética, etc.

Bellouesus /|\

A Lei Céltica no Final da Pré-História: Noções Introdutórias

lei

apresentado no II EBDRC

(Cotia – SP, 15 a 17/11/2011)

Dligeton Keltākon
Komreχtus Keltākos

1 A Lei Céltica original
1.1 Período histórico
1.2 Definição
1.3 Fontes
2 Princípios
2.1 Parentesco natural
2.2 Parentesco artificial
2.3 Posição social
2.4 Contratos
2.5 Crime e punição
2.6 Procedimento legal
3 Posição do estrangeiro
4 Evolução da lei céltica

1 A Lei Céltica original

1.1 Período histórico: alguns princípios podem recuar ao Neolítico, à Idade do Bronze Antiga; outros podem ser mais tardios, fruto de contatos com civilizações mediterrâneas (exs.: Grécia, Etrúria, Roma) no fim da Idade do Ferro.

Período Céltico Comum (PCC, c. séc. X a. C.): termos cognatos para práticas semelhantes no período medieval irlandês antigo e nas leis galesas podem indicar que pertencem ao PCC. Terminologia não-cognata: leis célticas específicas.

1.2 Definição:  a lei céltica original…

… é uma reconstrução.
… é uma generalização que não reflete com exatidão as antigas práticas legais, porém mostra princípios gerais provavelmente presentes em muitas das antigas leis célticas (embora talvez não em todas).

Lei céltica é qualquer lei dada comumente em língua céltica: foco na linguagem face à quase inexistência de características que não possam ser encontradas em leis de outras culturas.

1.3 Fontes: as fontes textuais mais antigas para as leis célticas datam do fim da Idade do Ferro (c. dois últimos sécs. a. C.).

Caius Iulius Caesar, De Bello Gallico (DBG):

1.11-20, 6.13.4-10, 6.16.4, 6.19-20
1.4, 7.2.2-3
6.13.6, 7.2.2
1.4.1, 1.18.3

Inscrições celtibéricas:

Tabletes de bronze (Contrebia Belaisca)
Tesserae hospitales (tabletes de hospitalidade)
Arqueologia: fontes arqueológicas são abundantes, porém de difícil interpretação quanto a seu sentido jurídico.

2 Princípios

Podem ser reconstruídos com razoável grau de probabilidade, apresentando possível foco em parentesco e relações contratuais.

Também é possível deduzir algo sobre a lei criminal e os procedimentos legais.

Princípios semelhantes podem ser encontrados nas leis romanas, germânicas e em outras culturas indo-europeias, permitindo que sejam considerados reconstruções razoavelmente acuradas, embora carentes de detalhes.

2.1 Parentesco natural

O parentesco desempenhava um papel de grande importância nas sociedades célticas da pré-história tardia.

Evidência

Autores clássicos. Ex.: Caesar (DBG, 6.15.2); Diodorus Siculus (5.29.5).

Arqueologia: em determinadas áreas e períodos, os cuidados dispensados aos sepultamentos.

Reconstrução das estruturas de parentesco célticas

É possível reconstruir importantes princípios legais relativos a relações de parentesco externas:

Relativamente forte evidência da exigência habitual de apoio mútuo entre parentes na vida quotidiana e em disputas legais (DBG, 1.4.2, 6.11.3-4; leis antigas da Irlanda e de Gales).

Propriedade privada: associada ao parentesco, especialmente em relação à terra e recursos. O acesso diferenciado  à propriedade e recursos  para grupos distintos na sociedade evidencia-se na arqueologia (distintos graus de riqueza em sepultamentos; relativa consistência no cercamento do espaço de assentamentos populacionais).

Direitos de acesso baseados ao menos parcialmente em parentesco/descendência (leis antigas irlandesas e galesas; tb. leis romanas e germânicas).

Posse individual (passível de herança) da terra e recursos, permanecendo a propriedade legal com a família mais ampla: forma mais provável para regular o acesso diferenciado à propriedade e recursos nas sociedades célticas da pré-história tardia.

Uniões sexuais e reprodução

A herança parece ter sido transferida primordialmente pela linha paterna. A clareza nas relações entre os parceiros, com muita probabilidade membros de diferentes grupos familiares, assumia grande importância.

Grande semelhança entre as mais antigas leis irlandesas e galesas a respeito das uniões sexuais.

Semelhança da mais importante forma de união com o casamento gaulês descrito por Caesar (DBG, 6.19.1-3): indica concepções semelhantes na Europa Ocidental da pré-história tardia ao período medieval.

Poliginia: prática disseminada entre a nobreza da Gália (DBG, 1.53.4; 6.19.3), da Irlanda antiga e provavelmente também em Gales no período anterior à redação dos textos legais.

Principal foco da lei irlandesa antiga em relação às uniões sexuais: contribuição e divisão dos recursos em caso de divórcio e as responsabilidades em relação às crianças nascidas dessas uniões. Forte possibilidade de que semelhante regramento já estivesse presente no período da lei céltica.

Igual contribuição de recursos” (DBG, 6.19.1): Caesar pressupõe que o homem contribuiu com mais bens do que a mulher; possibilidade de diferentes uniões, algumas com contribuição maior ou menor pela mulher, ou contribuição nenhuma.

Não existe evidência direta de que o divórcio fosse possível na lei céltica, mas a possibilidade é indicada pela ênfase no registro conjunto de contribuições e lucros durante o “casamento” (DBG, 6.19.2).

Outras possíveis áreas: adoção; expulsão de familares em razão de comportamento antissocial; herança de linhagens totalmente extintas – não há evidência, exceto algumas semelhanças entre as leis antigas da Irlanda e de Gales.

2.2 Parentesco artificial

Parentesco: elemento essencial nos sistemas legais célticos antigos.

Parentesco artificial: assumia provavelmente a forma de adoção.

Evidência: a troca de crianças como reféns é comum nas fontes históricas (ex.: DBG 5.4.2; 5.27.2); muitos gauleses enviavam seus filhos para estudar druidismo junto aos druidas e na Grã-Bretanha, suposto local de sua origem (DBG 6.13.11; 14.3); os gauleses não toleravam ser vistos em público com seus filhos (DBG 6.18.3). A adoção era um instituto importante nas sociedades irlandesa e galesa do começo da Idade Média.

Terminologia cognata permite reconstruir as palavras proto-célticas *altros (“nutridor, pai adotivo”) e *komaltros (“alimentado junto, criado junto”).

Os laços criados pela adoção, ao estabelecer parentesco artificial e redes de troca de informação e influência política, podem explicar alguns aspectos da cultura material céltica, como a difusão da arte no estilo La Tène.

2.3 Posição social

A importância da posição social parece ter sido um princípio muito disseminado nas leis célticas antigas. Porém, não é possível determinar se, no PCC, encontrava-se tão minuciosamente regulamentado quanto na Irlanda no começo da Idade Média. A declaração de Caesar em DBG 6.15.2, contudo, resume de forma bastante aproximada os requisitos estabelecidos pelo texto jurídico irlandês Crith Gablach  para os diferentes graus da nobreza, assim permitindo supor que a posição social seria um elemento importante no direito costumeiro gaulês da Idade do Ferro.

Não é possível atualmente determinar as vantagens trazidas pela posição social, mas convém considerar DBG 6.11.3. Uma posição social superior talvez trouxesse também um tratamento diferenciado quanto aos procedimentos legais.

2.4 Contratos

A importância da regulamentação das relações contratuais era aumentada pela ausência de um estado central forte, ficando a coerção das decisões legais na dependência do grupo familiar.

O número de semelhanças e de termos cognatos entre a pré-história tardia e as leis antigas de Gales e da Irlanda é maior no campo dos contratos, abrangendo, p. ex., garantias (ou fianças), promessas (ou penhores) e confisco, estendendo-se ocasionalmente à terminologia legal germânica, o que demonstra os laços estreitos entre as sociedades célticas e germânicas nesse período. Tais elementos estão também presentes em outros sistemas legais indo-europeus antigos.

1 Irlandês antigo 2 Galês 3 Alemão 4 Proto-céltico

garantia: 1 macc 2 mach 3 — 4 *makkos
promessa: 1 gell 2 gwystl 3 Geisel 4 *gistlon
confisco: 1 athgabáil 2 atafaeliad 3 Anfall 4 *ategabaglā

Asseguravam os contratos: promessas (*gistlā) ou garantias (*makkoy). Evidência: DBG, 7.2.2.

Dois principais tipos de contratos: a) de curto prazo ou de exigibilidade imediata (de baixo risco); b) de longo prazo ou de relação semi-permanente (de alto risco).

Contratos de exigibilidade imediata (baixo risco): assegurados por garantias.

Contratos de relação semi-permanente (alto risco): assegurados por garantias e promessas.

Tipos de penhores (ou promessas): penhores menores e reféns.

Tipos de garantias (ou fianças): a) um indivíduo que aparecia como substituto do contratante original caso este falhasse em cumprir suas obrigações; b) um indivíduo que teria o direito de impor o cumprimento das obrigações ao contratante que não as satisfizesse espontaneamente.

Possível importância das relações contratuais na economia de subsistência comum: as leis antigas de Gales e da Irlanda apresentam paralelos bastante próximos na regulamentação de atividades agrícolas desenvolvidas em conjunto, sobretudo lavouras realizadas em cooperação, com base em contratos celebrados entre pequenos fazendeiros, individualmente não possuidores de bois suficientes para  uma junta com capacidade para arar os solos pesados  da Gallia Cisalpina ou das regiões mais ao norte. Assim, é altamente provável que regulamentações semelhantes estivessem em vigor no final do período pré-histórico, sendo *komarom (“lavoura em comum”) seu nome em céltico antigo reconstruído.

Estabelecimento de relações de longa duração ou semipermanentes entre indivíduos de posições sociais diferentes (contratos de clientela): repetição da semelhança hiberno-gaulesa na instauração da nobreza (responsabilidades mútuas entre patrono nobre e cliente plebeu).

Evidência: relato de Caesar sobre Dumnorix, o Éduo (DBG, 1.18.3). Até a relação entre os nobres e o estado baseava-se em contratos (fundamento no modelo geral da clientela) nas organizações políticas da Gália na pré-história tardia, abrangendo o acesso à propriedade ou recursos em troca de pagamento.

2.5 Crime e punição

Para o período em questão, é escassa a evidência para o que seriam crimes e quais as punições adequadas. O texto de Caesar permite reconstruir princípios gerais e aponta especificamente homicídio (DBG, 6.13.5), furto e roubo (DBG, 6.16.5), o que se coaduna às leis antigas da Irlanda e de Gales, bem como infrações específicas de algumas sociedades gaulesas, como a usurpação da realeza entre os Heluetii (DBG, 1.4.1).

Punição: de acordo, com Caesar, a punição mais severa entre os gauleses era a interdição aos ritos religiosos (DBG, 6.13.6-8). Havia também a pena de morte (DBG, 1.4.1; 6.16. 4-5), mais rara que a imposição de multas (praemia poenasque, “compensações e multas”, DBG, 6.13.5).

Indicação da possível existência de dois tipos de multas, semelhantes à multa corpórea (corp díre)/restituição (aithgin) e preço da honra (eneclú/lóg n-enech) das leis irlandesa e galesa, em que o banimento e a imposição de penalidades pecuniárias eram as formas mais disseminadas de punição.

2.6 Procedimento legal

Evidência direta muito escassa.

Caesar (DBG, 6.13.5): os druidas são os juízes em questões legais civis (menciona heranças e disputas sobre limites) e criminais.

Druidas são filósofos morais (Strabo, Geográphika, 4.4.4): indicação de que alguns poderiam ser treinados como juristas profissionais.

Possível sequência do procedimento legal:

1) Reclamante (a própria vítima ou um representante legal – parente) apresenta uma queixa: 1.a) ao responsável pela aplicação da justiça (talvez um druida ou um oficial), 1.b) ou a um nobre (seu próprio patrono  ou do ofensor) ou ainda 1.c) ao próprio ofensor.

2) Se o ofensor não concordasse em comparecer diante da corte, talvez pudesse ser levado à força pelo reclamante (prática atestada nas leis antigas da Irlanda e de Gales, nas antigas leis germânicas e mesmo no direito romano primitivo).

3) Designação de um dia para a apresentação do pleito (DBG, 1.4) e oferecimento de cauções (*gistlā) ou garantias (*makkoy) de que o ofensor compareceria, com 3.1) reclamante e ofensor proferindo um juramento de que a queixa ou relato dos fatos correspondiam ao que realmente ocorrera e 3.2) apoiadores das partes (parentes, associados ou quaisquer outros) pronunciando juramentos semelhantes como testemunhas abonadoras do reclamante e do ofensor.

4) Não há evidência sobre a forma de cumprimento das sentenças, nem sobre a existência de recursos. Possivelmente, seria designado um dia para que a parte condenada pagasse quaisquer multas e compensações. Caso não pagasse, é bastante provável que o requerente vencedor pudesse apossar-se de bens do derrotado e assim recuperar o valor equivalente às multas ou compensações não pagas. Outras formas de punição: provavelmente seriam executadas de imediato no local do julgamento.

3 Posição do estrangeiro

Novamente, não há evidência direta sobre o tratamento dispensado aos estrangeiros no mundo céltico da pré-história tardia. As tesserae hospitales (placas de hospitalidade) da Celtibéria e a prática comum nos sistemas legais da Europa antiga de considerar estrangeiros sem um anfitrião local como carentes de qualquer proteção legal indicam que seria essa a situação na lei céltica da pré-história tardia.

Estrangeiros sem parentes na localidade seriam considerados como passíveis de agressão; entretanto, é possível que, ao menos em algumas comunidades célticas, certos indivíduos pudessem conceder proteção legal a estrangeiros (convidados), o que corresponde à situação na Irlanda e em Gales ao começar a Idade Média. Não há como dizer quais seriam esses indivíduos, porém as tesserae hospitales indicam que essa possibilidade não se limitava aos membros das famílias governantes das comunidades maiores, mas encontrava-se mais disseminado ao menos em nível local, outra vez concordando com os usos insulares.

4 Evolução da lei céltica

Leis são dinâmicas, mudam constantemente para adequar-se às necessidades das sociedades que regulam.

Os princípios legais que regulavam as sociedades célticas aparentemente permaneceram semelhantes durante muitos séculos.

Possível razão: as exigências políticas, econômicas e sociais permaneceram similares por largo período de tempo e alcançando uma área muito ampla, tornando desnecessária sua modificação radical.

Foco: relações interfamiliares e contratos, dando a entender que surgiram das necessidades de sociedades baseadas no grupo familiar. Esses princípios mostraram-se úteis mesmo quando a organização social mudou sua orientação do grupo familiar para o território.

Embora obedecendo a princípios gerais, a evolução das leis célticas ocorreu em nível local ou, no máximo, regional.

Bellouesus /|\

Sacrifício Humano

wickerO sacrifício humano praticado pelos druidas é tão comum na literatura antiga quanto é rara sua comprovação arqueológica. A afirmação dessa prática, negregada peculiaridade da religião gaulesa, além de notável demonstração de hipocrisia e xenofobia, é de natureza ideológica. Ainda antes de Gaius Iulius Caesar, foi Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), um dos maiores escritores da língua latina, quem qualificou os gauleses, literalmente, de “terríveis bárbaros que não hesitam em manchar seus altares com sangue humano”.

O detalhe não lembrado é que Cicero era um advogado e usou essa forte imagem exatamente no discurso de defesa de um certo Marcus Fonteius. Esse Fonteius fora legado romano na Gallia Narbonensis por três anos e estava sendo acusado de corrupção (receber propina) ante o Senado de Roma. O povo da província era representado pelo nobre treviro (anti-romano) Indutiomaros, sogro e inimigo político de outro notável treviro chamado Cingetorix (pró-romano). Cicero nunca teve envolvimento pessoal com Fonteius e aceitou fazer a defesa apenas por “corporativismo”: ambos pertenciam à classe dos equites (cavaleiros) e Cicero foi pressionado por outros colegas a fazer a defesa, registrada na Oratio pro M. Fonteio. O resultado foi que os gauleses, na mentalidade romana, tornaram-se desde então (meados do séc. I a. C.) famigerados sacrificadores de seres humanos em cerimônias religiosas.

Entretanto, seria rematada falsidade afirmar que a Gália não conheceu sacrifícios humanos. Importa determinar sua frequência e natureza. Dois tipos de sacrifícios são bem atestados em numerosas civilizações antigas (incluindo-se as do Mediterrâneo), onde possuem, de modo geral, duas finalidades: apaziguar os deuses ou agradecer por alguma graça recebida.

As descrições literárias que possuímos de sua realização entre os gauleses são bastante convincentes. Contudo, são bem outros seus objetivos. Encontramos com os celtas da Gália: 1) o sacrifício humano de substituição; 2) o divinatório e 3) o “judicial”, isto é, a aplicação da pena capital sob o disfarce de um sacrifício.

1 – Sacrifício de substituição

O sacrifício de substituição é mencionado por Caesar (Commentarii de Bello Gallico, VI, 16): “a nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […]”.

2 – Sacrifício divinatório

Diodorus Siculus relata o sacrifício divinatório em Bibliotheca Historica, V, 31: “os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias”. Strabôn conta a realização de um sacrifício desse tipo pelos gálatas antes da batalha contra Antígonos II Gonatás em 277 a. C. Vítimas humanas foram imoladas, consultando-se suas entranhas em um tipo de haruspício.

3 – Sacrifício “judicial”

O terceiro tipo de sacrifício, dito judicial, é registrado por Caesar na mesma passagem citada acima: “[…] Outros possuem figuras de enorme tamanho, cujos membros são construídos com vime, que enchem de homens vivos, os quais, tendo sido incendiados, perecem os homens envolvidos pelas chamas. Consideram que o sacrifício desses que foram apanhados cometendo furto, latrocínio ou qualquer outro crime é mais agradável aos deuses imortais; porém, havendo falta de vítimas desse tipo, chegarão mesmo a sacrificar inocentes”. Strabôn (Geographiká, IV, 4, 5) acrescenta: “gado, animais selvagens e todo tipo de seres humanos”. Note que Caesar usa a palavra “outros” (allii). Isso significa que algumas tribos usariam, outras não, as ditas “figuras de enorme tamanho”.

Esses autores, Caesar, Diodorus e Strabôn, são os que entraram mais profundamente na imaginação popular. Dão-nos, realmente, muito o que pensar.

O sacrifício judicial, como todos que já assistiram o filme devem ter percebido, é a fonte do impressionante Wicker Man (“Homem de Vime”). É necessário salientar que os homens colocados dentro dele são criminosos condenados, ao menos preferencialmente, e ali estão porque cometeram um ato detestável cuja punição vão enfrentar. Afirmar que sua morte seria “mais agradável aos deuses imortais” é a mesma justificativa que a religião, em sua qualidade de vetor do controle social, tem usado para tudo através dos séculos, druidas e padres e imãs e rabinos igualmente.

De resto, não existe absolutamente nenhuma evidência física de que essa cerimônia da execução no Colosso de Vime fizesse parte do repertório sacro costumeiro da Gália. Pelo contrário, um outro ponto contribui para que desconfiemos dessa descrição: ossadas de animais selvagens jamais foram encontradas nos santuários gauleses. Bovinos, ovinos, equinos e aves sim, todos animais domésticos, até cães, mas não animais selvagens. Existe uma lógica por trás dessa ausência que não poderia ter escapado aos sacerdotes antigos: os animais da natureza já são propriedade dos deuses, como oferecer-lhes o que já lhes pertence? Ser desonesto com os deuses é sinal de forte estupidez.

Existe um eco distante dessa ideia no Audacht Morainn. O  juiz Morann manda dizer ao rei Feradach: “Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório”, ou seja, que ele não tente se mostrar generoso fazendo simplesmente aquilo que tem obrigação de fazer, pois isso não é generosidade nem mérito, mas somente dever. Se você quiser demonstrar generosidade, faça algo que não é sua obrigação. Se você quiser dar algo aos deuses, não lhes ofereça o que, por direito, já é deles.

Passemos ao sacrifício divinatório. Primeiramente, terminarei a citação de Diodorus, que havia ficado pela metade. Retomo-a exatamente do ponto em que tinha parado: “E é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas”. Maravilhoso, não?

Duas classes de homens aparecem nesse trecho: 1) os ‘filósofos’, presença obrigatória nos sacrifícios, responsáveis por falar com os deuses, pois são eles que possuem “experiência com o divino” e “falam a língua dos deuses”, de forma que “apenas por seu intermédio as bençãos podem ser buscadas” e 2) os “poetas cantores” que operam junto aos “filósofos”.

O filósofo e o poeta-cantor não “sujam as mãos” nos sacrifícios. Quem o faz? Ora, o adivinho, de quem Diodorus havia falado imediatamente antes. Aí temos as “três classes de homens excepcionalmente honrados (tría phûla to:n timo:méno:n diapherónto:s estí) em toda a Gália”, de que Strabôn falou na Geographiká (IV, 4, 4): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai), explicando que os bardos são cantores e poetas (humne:taí kaì poie:taí), os vates, adivinhos e filósofos naturais (hieropoioí [“fazedores do sagrado”] kaì phusiológoi), enquanto os druidas ocupavam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral (phusiológoi kaì e:thikoi philosóphoi). Afirmou a seguir que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas – o que os liga ao julgamento e condenação pela prática de delitos, como visto acima.

A ideia de que druida, vate e bardo são todos, de alguma forma, druidas, vem de Caesar, que não fala senão dos druidas. Os autores gregos mencionam-nos separadamente e em momento algum dão a entender que vate e bardo são druidas. Mas esse não é exatamente o ponto, não neste momento.

A questão agora é o sacrifício divinatório. Cabe ao druida avaliar a sua adequação ética e decidir se pode ou não ocorrer, pois os druidas são “os mais justos dos homens”, mas não será ele, druida, a empunhar a lâmina sacrificial. Isso cabe ao adivinho, vate, que domina a técnica sacrificial desde uma época em que os druidas ainda não existiam. Ao poeta-cantor, o bardo, cabe o aspecto teatral, de fundamental importância em toda cerimônia religiosa e tão visível no cerimonial da Igreja Romana. Ao druida não importam o sangue do sacrifício nem a técnica sacrificial. Ao druida importam a compreensão teológica e a justificação social do ato.

“[…] desde uma época em que os druidas ainda não existiam.” Isso explica perfeitamente porque o druidismo gaulês e o irlandês são diferentes e também porque Caesar afirmou que o druidismo teve origem na Grã-Bretanha e ainda porque certos personagens da lenda irlandesa, como Fedlimid, do Táin, vão ali estudar as artes mágicas. Caesar não fazia diferença entre druida, vate e bardo. Quando ele diz “druida”, não há como saber a quem se refere.

Para encerrar este tópico, o sacrifício divinatório é o remédio dos gauleses “quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância”. Talvez pudéssemos acrescentar o que diz Caesar: “para propósitos públicos”. Necessariamente, não se tratava de algo frequente.

No terceiro tipo de sacrifício humano (ou primeiro, comecei de trás para diante), o sacrifício de substituição, que também se poderia chamar terapêutico, um indivíduo seriamente enfermo, ou em outra situação de grave perigo, sacrifica ou promete sacrificar aos deuses alguém que o substitua. Existe nisso uma contradição. Os autores antigos sabiam (o próprio Caesar o diz) que o ensinamento que os druidas mais ardentemente desejavam inculcar era a sobreviência da alma, o renascimento em uma outra vida (não entro no mérito de ser neste ou em outro mundo). Os autores antigos registraram com espanto o destemor insano dos celtas diante da morte.

Como se explicaria então esse pavor que leva alguém a barganhar com os deuses oferecendo uma vida humana em troca da sua? Como, se a promessa é o renascimento em outro mundo sem mal, sem doença, sem velhice, sem mentira (aceitando-se a imagem feita pelos irlandeses)?

A resposta não é tão difícil: estamos outra vez olhando para uma crença céltica anterior ao druidismo. O movimento druídico representou para a religião céltica o mesmo que o orfismo e o pitagorismo para a religião grega, introduzindo o conceito de imortalidade da alma, que não fazia parte das mais antigas concepções gregas (tampouco indo-europeias, de modo geral), tais como se encontram, por exemplo, em Homero.  Não tenho certeza, pois não é minha área, mas parece-me ter lido que essa ideia era estranha também ao judaísmo primitivo.

Gregos e romanos dificilmente poderiam ter visto os ritos que relataram em seus escritos. No caso dos celtas, sabe-se há décadas, graças aos estudos filológicos, que escritores como Caesar, Strabôn, Diodorus, Diógenes e Athenaios copiaram, com maior ou menor fidelidade, algumas vezes intencionalmente deformando-a (Caesar), a  obra de um autor mais antigo, Poseidônios (cerca de 60 anos antes de Caesar), que usou observações pessoais e, para aquilo que não pôde ver, copiou ele também de escritores mais antigos, como Éphoros e Timagenes, cujos trabalhos desapareceram há séculos – o mesmo aplicando-se aos de Poseidônios.

Quando lemos o que os autores clássicos escreveram sobre os celtas, devemos estar cientes de que eles frequentemente citam obras duzentos ou trezentos anos anteriores a sua própria época e registram, como se as houvessem testemunhado, coisas que há muito não mais existiam. É exatamente o que ocorre em relação aos druidas. É necessário discernir camadas.

Assim como a implantação do cristianismo na Irlanda não varreu totalmente a religião nativa, também os druidas, ao atingirem a posição de proeminência que ocuparam na Gália, não destruíram o que antes deles havia existido. A marca do druidismo gaulês foi a construção de uma religio publica, não dessemelhante à romana, em substituição às práticas majoritariamente privadas que formavam a religião das tribos célticas no período anterior.

Mas essas práticas não foram probidas nem seus especialistas (possivelmente os vates) impedidos de exercer seu ministério. E, quando o druidismo saiu de cena, foram esses especialistas que tomaram o lugar e o nome prestigioso dos druidas e são eles que aparecem com a denominação “druidas” nas crônicas romanas tardias.

A questão do sacrifício pode parecer essencial quando se considera bardo, vate e druida como diferentes funções de um grupo único. Quando se compreende que esse não é o caso, percebe-se que o sacrifício (como técnica) importa ao vate, sendo apenas correlato ao druida e ao bardo.

Os druidas restringiram enormemente o sacrifício humano, substitutindo-o, sempre que possível, pelo animal, que a arqueologia comprova sobejamente e de que as fontes clássicas, de forma muita estranha, não fazem menção. O sacrifício humano foi conservado para situações de grande stress coletivo, sua realização subordinada à aprovação dos druidas. Fora isso, a atribuição druídica de organizar a sociedade por meio da aplicação do direito canalizou o sacrifício humano para a Justiça, o que seria previsível numa época em que o crime, no sentido jurídico, e a ofensa aos deuses não estavam claramente separados.

Uma coisa é certa: os gauleses não sacrificavam seres humanos para dar aos deuses algo de que estes precisasem ou quisessem. Quando derramavam sangue humano em seus altares, faziam-no em benefício próprio conscientemente. Os deuses nunca necessitaram de sangue humano, embora alguns deles possam apreciá-lo. Eles mudam muito mais devagar do que nós e acho realmente difícil que tenham passado a sentir necessidade de sangue humano, essa substância tão instável, nos últimos 1.500 anos.

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Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Στράϐων

Γεωγραφικά

L. IV, Cap. 4, §4. Παρὰ πᾶσι δ’ ὡς ἐπίπαν τρία φῦλα τῶν τιμωμένων διαφερόντως ἐστί, Βάρδοι τε καὶ Οὐάτεις καὶ Δρυίδαι· Βάρδοι μὲν ὑμνηταὶ καὶ ποιηταί, Οὐάτεις δὲ ἱεροποιοὶ καὶ φυσιολόγοι, Δρυίδαι δὲ πρὸς τῇ φυσιολογίᾳ καὶ τὴν ἠθικὴν φιλοσοφίαν ἀσκοῦσι· δικαιότατοι δὲ νομίζονται καὶ διὰ τοῦτο πιστεύονται τάς τε ἰδιωτικὰς κρίσεις καὶ τὰς κοινάς, ὥστε καὶ πολέμους διῄτων πρότερον καὶ παρατάττεσθαι μέλλοντας ἔπαυον, τὰς δὲ φονικὰς δίκας μάλιστα τούτοις ἐπετέτραπτο δικάζειν. Ὅταν τε φορὰ τούτων ᾖ, φορὰν καὶ τῆς χώρας νομίζουσιν ὑπάρχειν. Ἀφθάρτους δὲ λέγουσι καὶ οὗτοι καὶ οἱ ἄλλοι τὰς ψυχὰς καὶ τὸν κόσμον, ἐπικρατήσειν δέ ποτε καὶ πῦρ καὶ ὕδωρ.

Estrabão

Geografia

L. IV, Cap. 4, §4. Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos (τρία φῦλα) que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos (Βάρδοι), os Vates (Οὐάτεις) e os Druidas (Δρυίδαι), ou seja, Bardos, os cantores sagrados (ὑμνηταὶ) e poetas (ποιηταί), Vates, os que se ocupam das coisas do culto (ἱεροποιοὶ) e estudam a natureza (φυσιολόγοι), Druidas, que, além do estudo da natureza (φυσιολογίᾳ), ocupam-se também da filosofia ética (ἠθικα φιλοσοφία). Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente (πρότερον), até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Comentário: Diodoro Sículo repete quase que a mesma informação dada por este autor e sabe-se que ambos usaram a obra perdida de Posidônio de Apameia sobre os gauleses. César usou a mesma fonte, mas simplificou o quadro de Posidônio, mencionando unicamente os druidas. Posidônio não escreveu (nem o fizeram Estrabão ou Diodoro) sobre bardos-druidas, vates-druidas e druidas-druidas. O entendimento de que todos são druidas veio da leitura do reducionista César apenas, assim como veio do mesmo escritor a informação de que os druidas gauleses achavam-se todos sob o governo de um só, que exercia sua autoridade sobre a “corporação” inteira. O druidismo centralizado e com um arquidruida liderando uma fraternidade de druidas, vates e bardos, modelo que se firmou com o Renascimento Druídico, é gaulês e totalmente saído dos Comentários de César. Um pormenor geralmente esquecido desta passagem de Estrabão é o uso do advérbio “antigamente” (próteron), pois dá a entender que, na época em que Posidônio (morto cerca de meio século antes da Guerra Gaulesa) discorreu sobre os celtas, o poder de que dispunham os druidas para abortar batalhas era já coisa do passado. Diodoro Sículo acrescenta ainda outra informação sobre o mesmo ponto: os druidas não iam sozinhos postar-se entre os exércitos beligerantes, mas faziam-se acompanhar “de seus cantores”.

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