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Ancient Celts

Ancient Celts from Hallstatt (7th c. BC) up to the Lords of the Isles (14th c. AD). All pictures: Newark, Tim & McBride, Angus. Ancient Celts.

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Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

locustaUma herdeira da ciência dos vates na Roma do séc. I?

Locusta nasceu no séc. I E. C. na Gália romana. Em seus primeiros anos, Locusta aparentemente aprendeu muito sobre as ervas de seu país. Ao chegar a Roma, Locusta descobriu que as pessoas em seu círculo eram gananciosas e cheias de cobiça. Naqueles dias, havia muitas pessoas em Roma que desejavam apressar a morte de seus rivais ou de parentes ricos; tais mortes, contudo, teriam de parecer naturais. Locusta forneceu-lhes os meios para atingir seus objetivos – tornou-se uma envenenadora profissional. Embora tenha sido presa por outras atividades, possuía alguns clientes influentes que a ajudavam a sair da prisão rapidamente.

Por volta do ano 54 E. C., Locusta foi chamada em segredo pela imperatriz Agripina, quarta mulher do imperador Claudius. Agripina tinha desejos muito claros: Nero, seu filho de um casamento anterior, deveria ser o imperador de Roma. Assim, Claudius, então com 64 anos, tinha de morrer. É nessa parte que Locusta entra.

Agripina sabia que Claudius adorava cogumelos. Também sabia que o imperador tinha provadores. As duas mulheres elaboraram um plano. Certa tarde, quando o auxiliar mais chegado do imperador estava doente, Agripina subornou o provador para ficar fora do caminho e Locusta envenenou uma grande porção de cogumelos. Depois de servir ao imperador muito vinho, Agripina trouxe ela própria os cogumelos envenenados a Claudius. Sem suspeitar de nada, Claudius devorou as guloseimas envenenadas.

Logo, o imperador estava se dobrando com dores de estômago, falta de ar e sem conseguir falar. Agripina, esposa dedicada, agitava-se freneticamente a sua volta com fingida preocupação. Poderia o amado imperador ter comido algo que não caísse bem? Locusta havia pensado numa segunda arma que Agripina iria então usar, uma pena com outra dose letal de veneno. Em sua aparente agitação para ajudar o marido tomado de dores, Agripina meteu a pena envenenada em sua garganta, com a falsa intenção de fazê-lo expelir do estômago a substância tóxica.

Em 13 de outubro do ano 54 E. C., o imperador Claudius morreu e Nero, então com 16 anos, foi nomeado imperador. Agripina estava mais do que satisfeita. Quanto a Locusta, foi jogada ao cárcere e recebeu sentença de morte.

Nero, entretanto, possuía seus próprios rivais e medos. Claudius tinha um filho de 14 anos de um casamento anterior, chamado Britannicus. Nero sabia que Britannicus também tinha pretensões ao trono e precisava certificar-se de que Britannicus não iria atrapalhá-lo. Sorrateiramente, poucos meses depois de tornar-se imperador, Nero ordenou que Locusta fosse libertada da prisão e imaginou um novo plano para as habilidades da envenenadora.

Num jantar de família ao entardecer, o vinho foi trazido e derramado nos cálices. Os provadores de comida testaram a bebida das taças e passaram-nas aos convidados. Nero, Agripina, sua mãe, vários outros parentes e o jovem Britannicus, estavam todos completamente ignorantes quanto ao estratagema. Quando Britannicus tomou um bole de vinho, devolveu o cálice ao provador, reclamando que a bebida estava muito quente. O provador de comida adicionou um pouco de água fria ao vinho e devolveu-o ao menino. Dessa vez, porém, o provador tinha esquecido de provar a água fria e limpa que fora adicionada à taça de Britannicus – e foi ali que Locusta tinha vertido sua poção venenosa.

Assim que Britannicus caiu em convulsões, Nero calmamente lembrou aos convidados que Britannicus sofria de epilepsia e recusou-se a chamar qualquer ajuda para o rapaz que estertorava. A ansiedade de Agripina era terrível! Ela sabia exatamente o que seu filho estava fazendo, pois reconheceu a armação e compreendeu que tudo tinha sido feito sem consultá-la. Ela começou a comer seu jantar com calma, tendo cuidado para não denunciar em seu rosto o terror que enchia seu coração, pois sabia que poderia ser o próximo alvo. Os demais membros da família logo aceitaram a calma de Nero e retornaram cautelosamente à refeição vespertina, enquanto o garoto rastejava e torcia-se no chão. Ninguém teve a coragem ou foi tolo o bastante para fazer qualquer coisa em favor de Britannicus contra o desejo do imperador.

Por fim, Nero chamou os escravos para removerem Britannicus do aposento. O pretenso rival do imperador morreu poucas horas depois e foi apressadamente sepultado naquela mesma noite, apesar de uma grande tempestade e dos boatos que se espalharam de uma ponta a outra de Roma.

Tendo o imperador Nero como um de seus clientes satisfeitos, Locusta desfrutou do rápido crescimento de sua reputação e riqueza. O imperador cumulou-a com terras, dinheiro, presentes e o perdão completo por todos os envenenamentos de que fora acusada em anos passados. Houve outras recomendações do palácio e mais encomendas. Locusta estava muito ocupada com seu trabalho de envenenadora de aluguel e chegou a abrir uma escola para passar a outras seu conhecimento de ervas e toxinas, realizando testes em animais e criminosos condenados.

Com o patrocínio do imperador, Locusta gozou de um período de grande sucesso comercial. Isso até o Senado Romano finalmente ter a coragem de condenar Nero à morte em 68 E. C. Locusta previdentemente fornecera a Nero um kit de envenenamento para si mesmo, contudo, na confusão do momento, Nero perdeu-o. Antes que pudesse ser trazido ante o Senado para ser julgado pela multidão de seus crimes, Nero encontrou a morte com sua própria adaga.

Locusta, após a queda de Nero, tentou continuar sua atividade com a maior discreção. Porém, devido a sua enorme reputação como envenenadora profissional não mais apoiada pelo favor do soberano, a gaulesa foi executada pouco depois, naquele mesmo ano.

Bellouesus /|\

A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

Um trecho de “De Excidio et Conquestu Britanniae”

GILDASGildas (c. 500 – 570 E. C.), denominado Sapiens (o Sábio), foi um clérigo britânico cuja obra De Excidio et Conquestu Britanniae (Sobre a Ruína e Conquista da Britânia) é a única fonte concreta para a história britânica no período que se seguiu à partida dos romanos.

Gildas viveu em uma época na qual os restos do passado romano estariam ainda muito visíveis, uma época em que a capacidade técnica (ou até mesmo o interesse) em reparar as antigas construções (fóruns, teatros, termas) estava cada vez mais além do repertório dos operários e artesão disponíveis. Entretanto, a familiaridade com os restos da arte clássica permite compreender a característica (“expressões rígidas e deformadas”) que ele atribui às estátuas dos deuses nativos que se deterioravam em templos abandonados. Trata-se provavelmente de obras de artistas/artesãos locais dentro da tradição céltica, onde, como se sabe, a representação fiel da figura humana não era um valor central. Gildas declara que nada dirá sobre a multidão dos ídolos cultuados pelos britanos antes da cristianização nem sobre as honras divinas dispensadas pelo povo a montes, fontes, colinas e rios:

4, 2-3: Igitur omittens priscos illos communesque cum omnibus gentibus errores, quibus ante aduentum Christi in carne omne humanum genus obligabatur astrictum, nec enumaerans patriae portenta ipsa diabolica paene numero aegyptiaca uincentia, quorum nonnulla liniamentis adhuc deformibus intra uel extra deserta moenia solito mores rigentia toruis uultibus intuemur, neque nominatum inclamitans montes ipsos aut colles uel fluuios olim exitiabiles, nunc uero humanis usibus utiles, quibus diuinus honor a caeco tunc populo cumulabatur.

4, 2-3: Devo, portanto, omitir os erros antigos comuns a todas as nações da terra, em que, antes de Cristo vir em carne, toda a humanidade incidiu; nem devo enumerar os ídolos diabólicos do meu país, que quase ultrapassaram em número os do Egito, e dos quais ainda vemos alguns mofando dentro ou fora dos templos desertos, com expressões rígidas e deformadas como era costumeiro. Tampouco mencionarei os montes, fontes, ou colinas, ou os rios, que agora são subservientes ao uso dos homens, mas que no passado foram para estes uma abominação e destruição, e aos quais o povo prestava honra divina.

Tradução: Bellouesus /|\

A Origem da Jurisdição dos Druidas

imagesapresentado no III EBDRC
(Novo Hamburgo – RS, 15 a 17/11/2012)

1 Origem das instituições político-judiciárias

1.1 Homero (sec. VIII/VII a. C.):

a) Ciclopes;
b) ausência de leis ou de assembleias deliberativas (Odisseia, Canto IX, v. 105-112).
c) adotada por Platão (424/423 – 348/347 a. C.; Leis, III, 112-113).

1.2 Titus Lucretius Carus (ca. 99-55 a. C.):

a) barbárie ainda maior.
b) a família somente teve origem com a arte de construir habitações: o casamento surgiu depois da marcenaria; o acaso aproximou as cabanas e a linguagem e as primeiras noções de direito provêm das relações entre seus habitantes (De Natura Rerum, I).

1.3 Aristóteles (384 – 322 a. C.):

a) a ideia de “homem” é inseparável da noção de sociedade política;
b) a noção de cidade é um dos elementos indispensáveis para constituir a noção completa da natureza humana;
c) a cidade ou estado existe naturalmente. A natureza quer que o homem viva na sociedade política, cujo vínculo é a palavra;
d) a sociedade política ou cidade precedeu a casa ou a família e o indivíduo. O todo necessariamente precede a parte; a mão e o pé não podem sobreviver ao homem (Política, I, 1, §§ 9-12).

2 Objeto deste estudo

As culturas célticas (especialmente as da Idade do Ferro tardia) analisadas:

a) por meio das línguas célticas;
b) por meio de testemunhos a seu respeito produzidos em língua céltica (referências endógenas) ou em outras línguas (referências exógenas).

3 Origem da Jurisdição dos Druidas

3.1 Desde sua entrada na história, os celtas estavam constituídos em sociedades com magistrados e assembleias políticas.
3.1. Analogia com a tese de Aristóteles.
3.2 Origem dos tribunais e das leis: “A justiça pertence ao domínio do político, pois o julgamento é o resultado de uma instituição da sociedade política […] o julgamento consiste no discernimento da justiça” (Política, I, 1, §12).
3.3 Em caso de urgência, o magistrado tribal supremo (uergobretos, rix) substituiria a assembleia ausente. Exs.: Celtillos,Cauarinos.
3.3.1 Na reunião da assembleia nacional, ao magistrado supremo cabia pronunciar a sentença. Ex.: Indutiomaros.
3.3.2 Um general podia julgar o soldado sob suas ordens ou enviá-lo à assembleia dos cidadãos. Exs.: Dumnorix.
3.3.3 Papel dos magistrados no julgamento: acusadores e presidentes. Em casos excepcionais, poderiam pronunciar e executar até uma sentença de morte. Ex.: Vercingetorix.
3.3.4 Condenação por crimes políticos ou contra a segurança do estado: morte no fogo.

4 Na Grécia

4.1 Os tribunais que julgavam crimes entre particulares surgiram no séc. IV a. C. Persistiram lembranças da época anterior em que:

a) somente os crimes políticos submetiam-se à jurisdição pública;
b) as famílias que tinham crimes a vingar somente podiam recorrer às armas.

Ref.: Isócrates, Panegírico, §40.

4.2 Permissão de fuga para o acusado: a lei protegia-o até atingir a fronteira. Além desse limite, a família do morto podia
persegui-lo e matá-lo, se tivesse meios ou assim julgasse conveniente.
4.3 Τά ὑποφόνια (tá hypophónia, “a voz suave”): na lei de Atenas, era o sistema de composição decorrente de homicídio, conhecido também entre os germânicos. Em caso de homicídio culposo, abriam-se duas possibilidades:

a) após a condenação, o acusado aceita a composição e a ação se extingue ou…
b) após a condenação, a família do morto rejeita qualquer indenização e o juiz determina o exílio do condenado. Nesse caso, a família do morto não tem mais direito à vingança privada.

4.3.1 Sobre esse instituto, pode-se observar:

a) remonta à época homérica (mencionada na Ilíada, Canto XVIII, v. 497-508, descrição do escudo de Aquiles).
b) a composição extinguia o direito à vingança.
c) se a família do morto não queria fazer acordo, ou se era mais poderosa que a do acusado, o único meio de escapar à vingança era a fuga, v. Odisseia, Canto XV, v. 271-277.

5 Na Roma Antiga

5.1 Período arcaico: no direito anterior a Numa Pompilius, segundo rei de Roma (regnauit 715-673 a. C.), há sinais de que a aceitação do homicídio como crime público era admitida por alguns e rejeitada por outros. Ref.: Plutarchus, Vitae Parallelae (“Vidas Paralelas”), Romulus, XXX, XXXI, trad. francesa D. Richard, 1830.
5.1.1 Lei atribuída ao rei Numa (Festus, séc. II d. C., De Verborum Significatione) considerava parricida aquele que intencionalmente tirasse a vida de um homem livre. Outra disposição legislativa, também atribuída a Numa, fixava em um carneiro a indenização devida aos agnatos do morto em caso de homicídio involuntário.
5.1.2 Na “Lei das Doze Tábuas” (Lex Duodecim Tabularum, séc. V a. C.): lesões corporais não ensejavam ação pública, mas davam direito de indenização à vítima. A própria lei fixava a base pecuniária do acordo.
5.1.3 Resto de guerra privada: se o culpado não quisesse ou não pudesse pagar a indenização, o parente mais próximo da vítima tinha o direito de infligir-lhe o mesmo ferimento, não tendo o culpado direito de oferecer nenhuma resistência.
5.2 Ponto em comum com a lei céltica e a germânica: evitava-se a guerra privada pelo pagamento de uma composição proporcional à dignidade do ofendido.

6 Direito germânico

6.1 Lei sálica (lei dos francos sálios, Pactus Legis Salicae, “Pacto da Lei Sálica”, escrita em latim no séc. VI d. C.): apresentava ao menos uma característica mais avançada que o direito romano.
6.1.1 Quando o agressor e a vítima (ou os familiares desta) chegavam a um acordo quanto ao valor da compensação, dois terços (faida) desse valor cabiam ao ofendido, um terço (fredum) era entregue ao magistrado como representante da autoridade real, pois considerava-se que o estado, assim como a vítima, também havia sofrido um dano, fazendo jus à indenização.
6.1.2 Existia a mesma regra na lei de Gales.
6.1.2 Na Irlanda medieval, assim como na Roma antiga, o valor da composição pertencia totalmente à vítima, pois o estado não se considerava atingido pela infração cometida.

7 De volta a Roma

7.1 Actiones in rem (“ações sobre a coisa”): tinham por objeto não uma dívida, mas a propriedade de bem móvel ou imóvel. Conservavam uma lembrança do direito antigo, do período em que vigorava a autotutela.
7.2 Procedimento da rei adprehensio:

a) combate fictício;
b) intervenção de um magistrado;
c) julgamento.
d) a guerra privada entre os oponentes, que ocorria de fato no período anterior à organização do estado, ficou cristalizada como uma formalidade do procedimento legal.

7.3 Semelhança com o Senchus Mór.

8 Na Céltica

8.1 Recorria-se às armas:

a) para solucionar ações pessoais (sobretudo as decorrentes de homicídio);
b) para solucionar ações reais mobiliárias (p. ex., envolvendo escravos, rebanhos);
c) para solucionar ações reais imobiliárias (p. ex., determinar as fronteiras de um território ou os limites de um campo).

8.2 Os druidas intervinham como árbitros para pacificar questões de que o estado tribal não se ocupava, assim evitando um conflito entre particulares que poderia transformar-se em guerra civil e deixar a tribo exposta ao ataque externo. Assim, a origem da jurisdição dos druidas foi a omissão do estado tribal em solucionar conflitos entre os indivíduos, evitando que o mais forte sempre impusesse seu interesse.
8.3 Evitar o conflito entre indivíduos: semelhança com a narrativa do Senchus Mór e com o direito romano.
8.4 Diferença em relação ao magistrado romano: a autoridade do druida é desprovida de sanção, pois a corporação druídica não integrava as instituições políticas da tribo.
8.5 Semelhança com os fili irlandeses: quando as decisões destes não eram acatadas, somente poderiam declarar o recalcitrante como eluthach (“fugitivo da lei”) e a partir de então este ficaria impossibilitado de ajuizar qualquer ação diante deles, perdendo assim toda proteção legal.

Bellouesus /|\

Sobre Celtas e Druidas

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Sópatro (fim do séc. IV a. C.) (via Ateneu, 4.160):

Entre eles há o costume de, sempre que vitoriosos em batalha, sacrificar seus prisioneiros aos deuses. Assim, eu,
como os celtas, prometi aos divinos poderes queimar esses três falsos dialéticos como oferenda.

Timeu (começo do séc. III a. C.) (via Diodoro Sículo, 4.56):

Os historiadores apontam que os celtas que vivem às margens do Oceano honram os Dióscuros acima dos outros
deuses. Pois há uma antiga tradição entre eles de que esses deuses vieram do Oceano até eles.

Eudoxo de Rodes (fim do séc. III a. C.) (via Heliano, “Sobre os Animais”, 17.19):

Eudoxo diz que os celtas fazem o seguinte (e, se alguém pensar que seu relato é crível, deixai-o acreditar; se não,
deixai-o ignorá-lo). Quando nuvens de gafanhotos invadem seu país e danificam as colheitas, os celtas evocam
certas orações e oferecem sacrifícios com feitiços a pássaros – e os pássaros ouvem essas orações, chegam em bandos
e destroem os gafanhotos. Se, entretanto, um deles capturar um desses pássaros, sua punição, de acordo com ass leis
do país, é a morte. Se ele for perdoado e libertado, isso enfurece os pássaros e, para vingar a ave capturada, eles não
respondem se forem chamados outra vez.

Artemidoro de Éfeso (fim do séc. II a. C.) (via Estrabão, 4.4.6):

O seguinte relato, que Artemidoro contou sobre os corvos, é inacreditável. Há um certo porto na costa que, de
acordo com ele, chama-se “Dois Corvos”. Nesse porto, são vistos dois corvos, com suas asas direitas um pouco
brancas. Homens que estão em disputa sobre certas questões vão até lá, colocam uma prancha num lugar elevado e
então cada homem, separadamente, atira bolos de cevada. As aves voam e comem alguns dos bolos, mas espalham
outros. O homem cujos bolos foram espalhados vence a disputa. Embora essa história seja implausível, sua narração
sobre as deusas Deméter e Corê é mais crível. Ele diz que há uma ilha perto da Britânia onde sacrifícios são
realizados como aqueles na Samotrácia, para Deméter e Corê.

Tito Lívio (séc. I a. C.) (23.24):

(216 a. C.) Postúmio morreu lutando com todas as suas forças para não ser capturado vivo. Os gauleses
despojaram-no de todos os seus espólios e os boios levaram sua cabeça decepada em procissão ao mais sagrado de
seus templos. Lá ela foi limpa e o crânio nu foi adornado com ouro, de acordo com o costume deles. Foi usado
desde então como um vaso sagrado em ocasiões especiais e como uma taça ritual por seus sacerdotes e oficiais do
templo.

Nicandro de Cólofon (séc. II a. C.) (via Tertuliano, “Sobre a Alma”, 57.10):

Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones recebem
oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem.
Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma
Nicandro.

Posidônio (séc. I a. C.) (via Diodoro Sículo, 5.28):

O ensinamento de Pitágoras prevalece entre os gauleses, de que as almas dos humanos são imortais e de que, após
um certo número de anos, eles viverão outra vez, com a alma passando a um outro corpo. Por causa dessa crença,
algumas pessoas nos funerais irão lançar cartas na pira fúnebre, de forma que os que morreram possam lê-las.

(via Diodoro Sículo, 5.31):

Os gauleses têm certos homens sábios e especialistas sobre os deuses chamados Druidas, bem como uma classe de
videntes altamente respeitados. Por meio de augúrios e sacrifícios de animais esses videntes predizem o futuro e
ninguém ousa escarnecer deles. Eles têm um método de adivinhação especialmente estranho e inacreditável para as
questões mais importantes. Tendo consagrado uma vítima humana, eles a golpeiam com uma faquinha na região
acima do diafragma. Quando o homem desfalece por causa do ferimento, eles interpretam o futuro pela observação
da natureza de sua queda, da convulsão de seus membros e, especialmente, do padrão do seu esguicho de sangue.
Nesse tipo de adivinhação, os videntes depositam grande confiança numa antiga tradição de observação.

É costume entre os gauleses jamais realizar um sacrifício sem que alguém perito nos caminhos divinos esteja
presente. Dizem que os que sabem a respeito da natureza dos deuses devem oferecer-lhes agradecimentos e fazer-
lhes pedidos, como se essas pessoas falassem a mesma língua dos deuses. Os gauleses, amigos e inimigos do mesmo
modo, obedecem a lei dos sacerdotes e bardos não somente em tempo de paz, mas também durante as guerras.
Frequentemente ocorre que, ao se aproximarem dois exércitos com espadas desembainhadas e lanças prontas, os
druidas andem entre os dois lados e parem a luta, como se tivessem lançado um encantamento sobre bestas
selvagens. Assim, mesmo entre os bárbaros mais selvagens, a fúria cede à sabedoria e o deus da guerra respeita as
Musas.

(via Diodoro Sículo, 5.32):

É de acordo com sua brutalidade e natureza selvagem que eles realizam práticas religiosas particularmente
ofensivas. Eles manterão alguns criminosos sob guarda por cinco anos, empalando-os então numa estaca em honra
de seus deuses, seguindo-se a incineração deles numa enorme pira, juntamente com muitas outras primícias.
Também usam prisioneiros de guerra como sacrifícios aos deuses. Alguns dos gauleses sacrificarão até mesmo os
animais capturados na guerra, seja matando-os, queimando-os ou abatendo-os com algum outro tipo de tortura.

(via Estrabão, 4.4.4-5):

Falando de modo geral, há entre os gauleses três grupos que são singularmente honrados: os Bardos, os Vates e os
Druidas. Os Bardos são cantores e poetas, enquanto os Vates supervisionam o ritos e examinam os fenômenos
naturais. Os Druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade também. Os
gauleses consideram os Druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das
disputas públicas e privadas. No passado, eles até mesmo paravam batalhas que estavam a ponto de começar e
punham fim às guerras. Casos de homicídio especialmente são entregues aos Druidas para julgamento. Eles
acreditam que, quando houver muitos criminosos condenados disponíveis para o sacrifício, então a terra irá
prosperar. Os Druidas e outros dizem que a alma humana e o universo são ambos indestrutíveis, mas, no fim,
apenas o fogo e a água prevalecerão.

(via Estrabão, 4.4.6):

Posidônio também diz que há uma pequena ilha no Oceano Atlântico, na foz do rio Loire, habitada por mulheres
da tribo dos Samnitae. Elas são possuídas por Dioniso e apaziguam esse deus por meio de cerimônias misteriosas e
outros tipos de rituais sagrados. Jamais homem algum vai a essa ilha, mas as mulheres velejam para o continente
para ter sexo com os homens, voltando então. A cada ano, as mulheres demolem o teto de um templo e
constroem-no outra vez antes do anoitecer, cada mulher levando uma carga para acrescentar ao telhado. Quem
quer que derrube sua carga é despedaçada pelas outras. Elas então carregam seus pedaços ao redor do templo
proferindo gritos de bacanal até que seu frenesi louco desapareça. E sempre acontece que aquela que está destinada
a sofrer esse destino seja derrubada por alguém.

Júlio César (séc. I a. C) (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, 6.13-14, 16-19):

Através de toda a Gália, há duas classes de pessoas que são tratadas com dignidade e honra. Isso não inclui as
pessoas comuns, que são pouco melhores do que escravos e nunca têm voz nos conselhos. Muitos desses alinham-se
voluntariamente com um patrono, seja por causa de um débito ou um pesado tributo ou por medo de um castigo de
alguma outra pessoa poderosa. Uma vez que tenham feito isso, terão abandonado todos os direitos e são pouco
mehores do que servos. As duas poderosas classe mencionadas acima são os Druidas e os guerreiros. Os Druidas
ocupam-se de questões religiosas, sacrifícios públicos e privados e divinação.

Uma grande quantidade de rapazes vem aos Druidas para instrução, tendo-os em grande respeito. Sem dúvida, os
Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer
homicídio foiperpetrado, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições. Se qualquer um ignorar sua decisão, essa pessoa é banida de
todos os sacrifícios – uma punição extremamente severa entre os gauleses. Aqueles que são assim condenados são
considerados criminosos detestáveis. Todos se afastam deles e não lhes falarão, temendo algum dano por causa do
contato com eles e não recebem justiça nem honra por qualquer feito digno.

Entre todos os Druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre
o Druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma
eleição por todos os Druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do
ano, todos os Druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos Carnutes, cuja terra é considerada o
centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos
Druidas. Diz-se que o movimento druídico começou na Britânia e foi então levado para a Gália. Ainda hoje,
aqueoles que desejam estudar seus ensinamentos com mais aplicação usualmente viajam para a Britânia.

Os Druidas são isentos do serviço militar e do pagamento de contribuições de guerra, ao contrário dos outros
gauleses. Tentados por tais vantagens, muitos jovens de boa vontade dedicam-se aos estudos druídicos, enquanto
outros são enviados por seus pais. Diz-se que, nas escolas dos Druidas, eles aprendem um grande número de versos,
tantos, na verdade, que alguns estudantes levam vinte anos em treinamento. Não é permitido escrever nenhum
desses ensinamentos sagrados, apesar de outras transações públicas e privadas serem muitas vezes registradas com
letras gregas. Acredito que eles praticam essa tradição oral por duas razões: primeira, para que o povo comum não
tenha acesso aos seus segredos e segundo, para fortalecer a faculdade da memória. Na verdade, a escrita muitas
vezes enfraquece a aplicação da pessoa em aprender e reduz a habilidade de memorizar. O ensinamento principal
dos Druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse
ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas. Eles
têm também um grande número de outros ensinamentos que passam aos jovens a respeito de coisas como o
movimento das estrelas, o tamanho dos universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses
imortais.

Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença
terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os
Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida
pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para
os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então põem-lhes fogo, perecendo
todos nas chamas. Eles acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses,
mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que ele é o inventor de todas as
artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele,
adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros
povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da
guerra. Antes de uma grande batalha, eles frequentemente dedicarão os espólios a Marte. Se obtiverem sucesso,
sacrificarão todas as coisas vivas que tiverem capturado e os outros espólios que eles reúnem num só lugar. Entre
muitas tribos, você pode ver esses espólios reunidos num local consagrado. E é uma ocasião muito rara que alguém
ouse perturbar esses bens valiosos e ocultá-los em sua casa. Se isso acontecer, o perpetrador é torturado e punido
das piores formas imagináveis.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis, e confirmam que esse é o
ensinamento dos Druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários
e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

Os funerais dos gauleses são magníficos e extravagantes. Tudo que era querido pelo falecido é lançado na fogueira,
inclundo-se os animais. Num passado recente, eles iriam queimar também escravos fiéis e subordinados amados no
ponto culminante do funeral.

Cícero (séc. I a. C.) (“Sobre a Divinação”, 1.90):

A prática da divinação não é negligenciada mesmo pelos bárbaros. Eu sei que há Druidas na Gália porque eu
mesmo conheci um deles – Divicíaco da tribo dos Aedui, que era vosso convidado e altamente vos louvava. Ele
reclamava um conhecimento da natureza derivado do que os gregos chamam “physiologia” – a inquirição acerca das
causas e fenômenos naturais. Ele predizia o futuro usando o augúrio e outras formas de interpretação.

Plínio (séc. I d. C.) (“História Natural”, 16.249, 24.103-4, 29.52, 30.13):

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas (que é o nome de seus homens
santos) não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se ela crescesse
somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que
um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” (a palavra
grega para “carvalho”). E, sem dúvida, eles pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um
sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em
carvalhos. Não obstante, eles o procuram com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo
lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a
lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua,
chamam o visco de um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos,
conduzindo dois touros brancos cujos chifres são amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco
então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então
sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda próprio dom àqueles a quem ele o
deu. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio
contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Semelhante à erva sabina é a planta chamada “selago”. Deve ser colhida sem instrumento de ferro, passando-se a
mão direita através da abertura da manga esquerda, como se a estivesses roubando. O colhedor, tendo primeiro
oferecido pão e vinho, deve vestir-se de branco e estar com os pés descalços e limpos. É levada num pedaço de
tecido novo. Os Druidas da Gália dizem que deve ser usada como proteção contra todo perigo e que a fumaça da
queima do “selago” é boa para as doenças dos olhos. Os Druidas também recolhem dos charcos uma planta
chamada “samolus”, que deve ser colhida com a mãe esquerda durante um período de jejum. É boa para as doenças
das vacas, mas aquele que a colhe não deve olhar para trás, nem colocá-la em lugar algum senão no cocho em os
animais bebem água.

Há um tipo de ovo que é muito famoso na Gália, mas ignorado pelos escritores gregos. Nos meses de verão, um
grande número de cobras se juntará numa bola que é mantida junta por sua saliva e uma secreção de seus corpos.
Os Druidas dizem que elas produzem esses objeto oval, chamado “anguinum”, que as cobras sibilantes lançam para
o ar. Ele deve ser apanhado, assim dizem eles, num manto antes de alcançar o chão. Mas seria melhor que você
tivesse um cavalo preparado, porque as cobras irão caçar você até que sejam impedidas por algum curso de água.
Um “anguinum” genuíno flutuará contra a correnteza, mesmo se coberto de ouro. Porém, como é usual para os
homens santos do mundo, os Druidas dizem que ele somente pode ser apanhado durante uma fase da lua
específica, como se as pessoas pudessem fazer a lua e as serpentes trabalharem juntas. Eu próprio vi um desses ovos
– era uma pequena coisa arredondada, como uma maçã, com uma superfície cheia de indentações semelhantes às
dos braços de um polvo. Os Druidas valorizam-no grandemente. Dizem que é um grande auxílio nas ações judiciais
e ajudará a ganhar a boa vontade de um governante. Que isso é uma total falsidade mostra-se por um homem da
tribo gaulesa dos Vocontii, um cavaleiro romano, que manteve um escondido em seu manto durante um julgamento
ante o imperador Cláudio e foi executado, até onde posso saber, unicamente por esse motivo.

Ritos bárbaros eram encontrados na Gália até uma época de que eu mesmo posso lembrar. Pois foi então que o
imperador Tibério passou um decreto por meio do Senado colocando fora da lei os seus Druidas e essas espécies de
adivinhos e médicos. Mas por quê menciono isso a respeito de uma prática que cruzou o mar e alcançou os confins
da terra? Pois mesmo hje a Britânia realiza ritos com tal cerimônia que você poderia achar que foram eles a fonte
dos extravagantes persas. É maravilhoso como povos distantes são tão semelhantes em tais práticas. Mas podemos,
ao menos, ficar satisfeitos de que os romanos tenham eliminado o culto assassino dos Druidas, que ensinavam
serem o sacrifício humano e o canibalismo ritual o mais elevado tipo de devoção religiosa.

Suetônio (“Cláudio”, 25):

Cláudio destruiu a horrível e inumana religião dos Druidas gauleses, que havia sido apenas proibida aos cidadãos
romanos sob Augusto. (41-54 d. C.)

Lucano (séc. I d. C.) (“Guerra Civil”, 1.444-46, 450-58):

Cruel Teutates, deleitado pelo sangue temível, horrível Esus com seus altares bárbaros,
e Taranis, mais cruel que a Diana Cítica.
ó Druidas, agora que a guerra acabou
retornais a vossos ritos bárbaros e modos sinistros.
Somente vós conheceis os caminhos dos deuses e poderes celestes, ou talvez o ignoreis totalmente.
Vós, que habitais nos bosques escuros e remotos,
dizeis que os mortos não procuram o reino silencioso de Érebo ou o pálido domínio de Plutão,
mas o mesmo espírito vive outra vez em um outro mundo
e a morte, se vossas canções são verdadeiras, não é senão o meio de uma longa vida.

Sílio Itálico (séc. I a. C.) (“Púnica”, 3.340-43):

Os celtas conhecidos como “hiberi” também vieram.
Para eles é glorioso cair em combate,
mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo.
Eles acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo,
jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto.

História Augusta” (séc. IV d. C.)

(Alexandre Severo 59.5): A Druidesa exclamou para ele quando ele chegava, “Vai em frente, mas não esperes a
vitória ou deposites confiança em teus soldados.” (235 d. C.)

(Numeriano 14): Enquanto Diocleciano era ainda um jovem soldado, ele estava hospedado numa taverna na terra
dos tongri, na Gália. Todo dia ele tinha de acertar as contas com sua senhoria, uma Druidesa. Um dia ela disse:
“Dicleciano, tu és ganancioso e sovina!” Zombeteiramente, ele lhe respondeu: “Então eu serei mais generoso
quando for imperador.” “Não rias”, ela disse, “pois será imperador depois de matares o javali.”

(Aureliano 43.4): Em certas ocasiões, Aureliano consultava as druidesas gaulesas para descobrir se os seus
descendentes continuariam a governar ou não. Elas disseram-lhe que nome algum seria mais famoso que os da
linha de Cláudio. E, sem dúvida, o atual imperador, Constâncio, é um descendente dele. (270 d. C.)

Ausônio (fim do séc. IV d. C.) (4.7-10, 10.22-30):

Descendes dos Druidas de Bayeux, se verdadeiras são as histórias a teu respeito,
e traças tua sacra ancestralidade e renome do templo de Belenus.
Tampouco esquecerei o ancião
com o nome de Febício.
Embora ele fosse sacerdote do deus Belenus, não recebeu qualquer vantagem da posição. Mas, apesar disso, esse,
que descende, diz-se, dos Druidas da Bretanha, recebeu uma cátedra em Bordeaux com a ajuda de seu filho.

Inscrição de Botorrita (fim do séc. II, começo do séc. I a. C.):

A Eniorosis e Tiato de Tiginos dedicamos trecaias e a Lugus dedicamos arainom.
A Eniorosis e a Equaesos, ogris erige coberturas de olga e a Lugus erige coberturas de tiasos.

Inscrição de Chamalières (c. 50 d. C.):

Invoco o deus Maponos arueriitis. Por meio da magia dos deuses do Mundo Inferior.
C. Lucios Floros, Nigrinos, o orador, Aemilios Paterinos, Claudios Legitumos, Caelios Pelignos, Claudios Pelignos,
Marcios Victorinos e Asiaticos, filho de Adsedillos…
O juramento jurarão – o pequeno se tornará grande, o curvado se tornará reto, e, embora cego, eu verei. Com esta
tábua de encantamento isso será…
luge dessummiiis luge dessumiis luge dessumiiis luxe.

Inscrição de Larzac (c. 90 a. C.):

Olhai:
– um encantamento mágico de mulheres
– o ritual deles, nomes do Mundo Inferior
– a profecia da vidente que tece este encantamento
A deusa Adsagsona devolve Severa e Tertionicna enfeitiçadas e amarradas.

Patrício (séc. V a. C.), “Confissão”:

É notável que os irlandeses tornaram-se, sem dúvida, um povo do Senhor e filhos de Deus. Essas pessoas que, até
agora, não tinham conhecimento de Deus, mas adoravam ídolos e seguiam práticas religiosas repulsivas.

Irlanda alto-medieval

– séc. VI d. C.: Juramentos serão proferidos em presença dos druidas (“druid”, em irlandês antigo)
– séc. VII d. C.: Somente o druida tem os mesmos direitos de um “boaire” (um nobre, proprietário de grandes
rebanhos)
– séc. VIII d. C.: Protege-me dos encantamentos de mulheres, ferreiros e druidas…

Bellouesus /|\ (compilação)

Pagãos, gentios, apóstatas

Isidorus Hispalensis (São Isidoro de Sevilha, c. 560 – 04/04/636). Trecho de sua obra Etymologiae (ou Origines):ISIDORUS

L. VIII, C. X, §§ i-v: De paganis

Pagani ex pagis Atheniensium dicti, ubi exorti sunt. Ibi enim in locis agrestibus et pagis gentiles lucos idolaque statuerunt, et a tali initio vocabulum pagani sortiti sunt. Gentiles sunt qui sine lege sunt, et nondum crediderunt. Dicti autem gentiles, quia ita sunt ut fuerunt geniti, id est, sicut in carne descenderunt sub peccato, scilicet idolis servientes et necdum regenerati. Proinde gentiles primitus nuncupantur: ipsi dicuntur Graece Ethnici. Ethnici ex Graeco in Latinum interpretantur gentiles. Éthnos enim Graece gens dicitur. Post fidem autem non debere vocari gentes sive gentiles eos qui ex gentibus credunt; sicut post fidem dici iam non potest Iudaeus, testante Paulo Apostolo et dicente iam Christianis: “Quoniam cum gentes essetis”, hoc est, infideles. Apostatae dicuntur, qui post baptismum Christi susceptum ad idolorum cultum et sacrificiorum contaminationem revertuntur. Est autem nomen Graecum.

L. 8, C. 10, §§ 1-5: Sobre os pagãos

Os pagãos chamam-se pagani em razão das vilas, pagi, de Atenas (1), onde se originaram. Lá, em localidades do interior e vilas, os gentios formaram bosques e ídolos. Assim iniciando, os pagãos obtiveram seu nome. Gentios são aqueles que existem sem a Lei e ainda não acreditaram. São chamados gentiles porque são tal como nasceram, geniti, isto é, por servirem ídolos haviam caído sob o pecado na carne e não haviam ainda renascido. Os gentios são chamados ethnici em grego, pois em grego éthnos significa gens, uma nação ou povo. Depois de obter a fé, os povos ou nações não devem ser chamados gentes ou gentiles (2); assim como, após obter a fé, um indivíduo não mais pode ser chamado “judeu”, como testifica o apóstolo Paulo ao falar daqueles que se converteram ao cristianismo: quoniam cum gentes essetis (“desde quando éreis pagãos”, I Cor., 12, 2), isto é, infiéis. Apóstatas, apostatae, retornam à adoração dos ídolos e à contaminação do sacrifício depois de ter recebido o batismo de Cristo. É um nome grego (3).

(1) É do latim, não do grego, o termo paganus < pagus, uma localidade do interior, derivado do verbo pangere, fixar-se firmemente, demarcar fronteiras.
(2) Gentiles < L. gens + -ilis, relativo ou pertencente a uma gens romana; gens, raça tribo.
(3) Gr. apostátēs, desertor.

Uma curiosidade: Isidoro, arcebispo de Sevilha, é o santo padroeiro da Internet.

Bellouesus /|\