O Corte do Visco

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O Corte do Visco

Non est omittenda in hac re et Galliarum admiratio. Nihil habent Druidae — ita suos appellant magos — uisco et arbore, in qua gignatur, si modo sit robur, sacratius. Iam per se roborum eligunt lucos nec ulla sacra sine earum fronde conficiunt, ut inde appellati quoque interpretatione Graeca possint Druidae uideri. Enimuero quidquid adgnascatur illis e caelo missum putant signumque esse electae ab ipso deo arboris. Est autem id rarum admodum inuentu et repertum magna religione petitur et ante omnia sexta luna, quae principia mensum annorumque his facit et saeculi post tricesimum annum, quia iam uirium abunde habeat nec sit sui dimidia. Omnia sanantem appellant suo uocabulo. Sacrificio epulisque rite sub arbore conparatis duos admouent candidi coloris tauros, quorum cornua tum primum uinciantur. Sacerdos candida ueste cultus arborem scandit, falce aurea demetit, candido id excipitur sago. tum deinde victimas immolant praecantes, suum donum deus prosperum faciat iis quibus dederit. Fecunditatem eo poto dari cuicumque animalium sterili arbitrantur, contra uenena esse omnia remedio. Tanta gentium in rebus friuolis plerumque religio est.

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas – pois é assim que chamam os seus magos – não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se crescesse somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” [a palavra grega para carvalho]. E sem dúvida pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em carvalhos. Não obstante, procuram-no com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua, chamam o visco por um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos, conduzindo dois touros brancos cujos chifres são então amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda seu próprio dom àqueles a que ofereceram. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Gaius Plinius Secundus (Naturalis Historia, XVI, 249-251, séc. I d. C.)

Tradução: Bellouesus Isarnos

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Druidesas da Gália

Druidesas da Gália

Bellou̯esus Īsarnos

druidesas1As primeiras referências a druidesas vêm de uma obra bem pouco confiável chamada Historia Augusta, do séc. IV d. C., que narra as biografias dos imperadores romanos dos sécs. II e III d. C. (de 117 a 284) e contém muito material sabidamente inventado.

Essas referências a druidesas (plural druiades no texto latino, druias no singular) aparecem nas biografias dos imperadores Seuerus Alexander e Diocletianus.

Historia Augusta, “Seuerus Alexander” (autor: Aelius Lampridius), III, 60,6: mulier Druias eunti exclamauit Gallico sermone, “Vadas nec victoriam speres nec te militi tuo credas.”

Além disso, ao partir para a guerra, uma profetisa druida gritou na língua gaulesa: “Vai, mas não esperes a vitória e não confies em teus soldados”.

druidesas2Historia Augusta, “Carus et Carinus et Numerianus” (autor: Flauius Vopiscus), 14-15: Curiosum non puto neque satis uulgare fabellam de Diocletiano Augusto ponere hoc conuenientem loco, quae illi data est ad omen imperii. Auus meus mihi rettulit ab ipso Diocletiano compertum. “Cum,” inquit, “Diocletianus apud Tungros in Gallia in quadam caupona moraretur, in minoribus adhuc locis militans, et cum Druiade quadam muliere rationem conuictus sui cottidiani faceret, atque illa diceret, ‘Diocletiane, nimium auarus, nimium parcus es,’ ioco non serio Diocletianus respondisse fertur, ‘Tunc ero largus, cum fuero imperator.’ Post quod uerbum Druias dixisse fertur, ‘Diocletiane, iocari noli, nam eris imperator cum Aprum occideris’. ” Semper in animo Diocletianus habuit imperii cupiditatem, idque Maximiano conscio atque auo meo, cui hoc dictum a Druiade ipse rettulerat. Denique, ut erat altus, risit et tacuit. Apros tamen in uenatibus, ubi fuit facultas, manu sua semper occidit.

Não considero muito penoso ou ainda excessivo em relação ao usual inserir uma história sobre Diocletianus Augustus que não parece deslocada aqui – um incidente que ele considerava como um presságio do seu governo futuro. Esta história foi-me contada por meu avô depois de tê-la ouvido do próprio Diocletianus. “Quando Diocletianus”, disse ele, “ainda servindo em um posto menor, foi parar em uma certa taverna na terra dos Tungri na Gália e estava fazendo o seu acerto da conta diária com uma mulher que era druidesa, esta disse-lhe, “Diocletianus, és muito ganancioso e muito mesquinho”, ao que respondeu Diocletianus não a sério, diz-se, mas só de brincadeira, ‘”Serei generoso o bastante quando me tornar imperador”. Nesse momento a druidesa disse, segundo meu avô, “Não caçoes, Diocletianus, pois tornar-te-ás imperador quando tiveres matado um Javali [Aper].” Eis que Diocletianus sempre teve em sua mente o desejo de governar, como sabia Maximianus e também meu avô, a quem ele mesmo disse essas palavras da druidesa. Então, no entanto, reticente como era seu costume, ele riu e não disse nada. Porém, na caçada, toda vez que havia oportunidade, ele sempre matava o javali com sua própria mão.

Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

Locusta

Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

Bellou̯esus Īsarnos

Uma herdeira da ciência dos vates na Roma do séc. I?

Locusta nasceu no séc. I E. C. na Gália romana. Em seus primeiros anos, Locusta aparentemente aprendeu muito sobre as ervas de seu país. Ao chegar a Roma, Locusta descobriu que as pessoas em seu círculo eram gananciosas e cheias de cobiça. Naqueles dias, havia muitas pessoas em Roma que desejavam apressar a morte de seus rivais ou de parentes ricos; tais mortes, contudo, teriam de parecer naturais. Locusta forneceu-lhes os meios para atingir seus objetivos – tornou-se uma envenenadora profissional. Embora tenha sido presa por outras atividades, possuía alguns clientes influentes que a ajudavam a sair da prisão rapidamente.

Por volta do ano 54 E. C., Locusta foi chamada em segredo pela imperatriz Agripina, quarta mulher do imperador Claudius. Agripina tinha desejos muito claros: Nero, seu filho de um casamento anterior, deveria ser o imperador de Roma. Assim, Claudius, então com 64 anos, tinha de morrer. É nessa parte que Locusta entra.

Agripina sabia que Claudius adorava cogumelos. Também sabia que o imperador tinha provadores. As duas mulheres elaboraram um plano. Certa tarde, quando o auxiliar mais chegado do imperador estava doente, Agripina subornou o provador para ficar fora do caminho e Locusta envenenou uma grande porção de cogumelos. Depois de servir ao imperador muito vinho, Agripina trouxe ela própria os cogumelos envenenados a Claudius. Sem suspeitar de nada, Claudius devorou as guloseimas envenenadas.

Logo, o imperador estava se dobrando com dores de estômago, falta de ar e sem conseguir falar. Agripina, esposa dedicada, agitava-se freneticamente a sua volta com fingida preocupação. Poderia o amado imperador ter comido algo que não caísse bem? Locusta havia pensado numa segunda arma que Agripina iria então usar, uma pena com outra dose letal de veneno. Em sua aparente agitação para ajudar o marido tomado de dores, Agripina meteu a pena envenenada em sua garganta, com a falsa intenção de fazê-lo expelir do estômago a substância tóxica.

Em 13 de outubro do ano 54 E. C., o imperador Claudius morreu e Nero, então com 16 anos, foi nomeado imperador. Agripina estava mais do que satisfeita. Quanto a Locusta, foi jogada ao cárcere e recebeu sentença de morte.

Nero, entretanto, possuía seus próprios rivais e medos. Claudius tinha um filho de 14 anos de um casamento anterior, chamado Britannicus. Nero sabia que Britannicus também tinha pretensões ao trono e precisava certificar-se de que Britannicus não iria atrapalhá-lo. Sorrateiramente, poucos meses depois de tornar-se imperador, Nero ordenou que Locusta fosse libertada da prisão e imaginou um novo plano para as habilidades da envenenadora.

Num jantar de família ao entardecer, o vinho foi trazido e derramado nos cálices. Os provadores de comida testaram a bebida das taças e passaram-nas aos convidados. Nero, Agripina, sua mãe, vários outros parentes e o jovem Britannicus, estavam todos completamente ignorantes quanto ao estratagema. Quando Britannicus tomou um bole de vinho, devolveu o cálice ao provador, reclamando que a bebida estava muito quente. O provador de comida adicionou um pouco de água fria ao vinho e devolveu-o ao menino. Dessa vez, porém, o provador tinha esquecido de provar a água fria e limpa que fora adicionada à taça de Britannicus – e foi ali que Locusta tinha vertido sua poção venenosa.

Assim que Britannicus caiu em convulsões, Nero calmamente lembrou aos convidados que Britannicus sofria de epilepsia e recusou-se a chamar qualquer ajuda para o rapaz que estertorava. A ansiedade de Agripina era terrível! Ela sabia exatamente o que seu filho estava fazendo, pois reconheceu a armação e compreendeu que tudo tinha sido feito sem consultá-la. Ela começou a comer seu jantar com calma, tendo cuidado para não denunciar em seu rosto o terror que enchia seu coração, pois sabia que poderia ser o próximo alvo. Os demais membros da família logo aceitaram a calma de Nero e retornaram cautelosamente à refeição vespertina, enquanto o garoto rastejava e torcia-se no chão. Ninguém teve a coragem ou foi tolo o bastante para fazer qualquer coisa em favor de Britannicus contra o desejo do imperador.

Por fim, Nero chamou os escravos para removerem Britannicus do aposento. O pretenso rival do imperador morreu poucas horas depois e foi apressadamente sepultado naquela mesma noite, apesar de uma grande tempestade e dos boatos que se espalharam de uma ponta a outra de Roma.

Tendo o imperador Nero como um de seus clientes satisfeitos, Locusta desfrutou do rápido crescimento de sua reputação e riqueza. O imperador cumulou-a com terras, dinheiro, presentes e o perdão completo por todos os envenenamentos de que fora acusada em anos passados. Houve outras recomendações do palácio e mais encomendas. Locusta estava muito ocupada com seu trabalho de envenenadora de aluguel e chegou a abrir uma escola para passar a outras seu conhecimento de ervas e toxinas, realizando testes em animais e criminosos condenados.

Com o patrocínio do imperador, Locusta gozou de um período de grande sucesso comercial. Isso até o Senado Romano finalmente ter a coragem de condenar Nero à morte em 68 E. C. Locusta previdentemente fornecera a Nero um kit de envenenamento para si mesmo, contudo, na confusão do momento, Nero perdeu-o. Antes que pudesse ser trazido ante o Senado para ser julgado pela multidão de seus crimes, Nero encontrou a morte com sua própria adaga.

Locusta, após a queda de Nero, tentou continuar sua atividade com a maior discreção. Porém, devido a sua enorme reputação como envenenadora profissional não mais apoiada pelo favor do soberano, a gaulesa foi executada pouco depois, naquele mesmo ano.

A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

A crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma interpretatio graeca e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (funera sunt […] magnifica et sumptuosa), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, uita altera ad manes). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena ([…] sed ab aliis post mortem transire ad alios). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (regit idem spiritus artus orbe alio). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [síd] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [áes síde]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. Teatro Selecto de Calderón de la Barca. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). Ética a Eudemo, III, 1, 22-25 e Ética a Nicômaco, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). Alexándrou Anábasis, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), Commentarii de Bello Gallico, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). De Chorographia, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. Commentarii de Bello Gallico, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (olim, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. De Chorographia, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), Bibliotheca histórica, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – ca. 24 EC). Rerum Geographicarum Libri XVII, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). Factorum et Dictorum Memorabilium, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). De Bello Ciuili uel Pharsaliae, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). De Vita Pythagorica, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos rishis indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton, I, 6.

16) Pythagorica Hypomnemata.

17) Hippolytus (170–235 EC). Refutatio Omnium Haeresium, I, 22.

18) Stromata, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) Aduersus Iulianum.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), Punicorum Libri Septemdecim, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). Descriptio Graeciae, X, 21, 6.

22) Echtra Condla, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

Anotações Druídicas I

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Anotações Druídicas I: a posição social dos druidas comparada à dos ἱερῆες homéricos ou onde estão os bardos e vates?

Bellou̯esus Īsarnos

Existia, no mundo céltico e no mundo homérico, uma espécie de “burguesia”, uma categoria de homens que ocupavam um lugar intermediário entre os proprietários ricos – na Gália, os cavaleiros, *epates (latim equites) – e os proletários, simples trabalhadores. Essa burguesia compreendia os adivinhos, μάντεις, mánteis (gaulês *u̯ātīs, *u̯elētes), os ἀοιδόι, aóidoi, ou bardos (*bardoi), os médicos, os operários cujo ofício exigisse um aprendizado, tais como os carpinteiros, os ferreiros, os esmaltadores. Na Irlanda e na Gália, incluía-se nessa burguesia o soldado profissional, que era desconhecido de Homero; entretanto, o comerciante não integrava a burguesia nem na Gália independente nem na Irlanda épica nem entre os helenos da “Ilíada” e da “Odisseia”.

O druida, proveniente da Grã-Bretanha em época mais recente (dando-se crédito a César [1]), não se posicionou nessa burguesia; elevou-se acima dela e, novamente segundo o general romano, atingiu quase o mesmo nível dos cavaleiros. A informação trazida por César está de acordo com a literatura épica da Irlanda.

Os druidas eram homens de posição muito superior à dos sacerdotes, ἱερῆες (hierēes), da “Ilíada”. Estes formavam um grupo à parte, distinto simultaneamente da burguesia e da aristocracia, porém sem grande influência; encontramos o equivalente na Gália Cisalpina no relato sobre o ano 216 aEC, na menção aos templi antistites que, entre os boios, bebiam no cálice feito do crânio do cônsul romano Lucius Posthumius (2); eram simplesmente os ministros de um templo, como o ἱερεύς (hieréus) homérico.

Abaixo dos druidas, os u̯ātīs e os bardoi ocupavam lugar análogo ao dos adivinhos, μάντεις, mánteis e ἀοιδόι, aoidói, na literatura homérica, onde a posição dos μάντεις era intermediária entre a aristocracia e a plebe, isto é, entre os ἄριστοι, áristoi, e os homens do povo, δῆμος, dēmos. Em Homero, formavam duas classes do importante grupo dos operários possuidores de um ofício que necessitasse de longo aprendizado e que, não possuindo fortuna própria, viviam de oferecer os seus serviços ao público, δημιοεργοί, dēmioergói. Tais operários, nos poemas homéricos, dividiam-se em cinco classes: 1a., os adivinhos; 2a. os homens que trabalham a madeira, os metais, a pedra, τέκτονες, téktones; 3a. os médicos; 4a. os aedos e 5a. os arautos (3).

César lançou na plebe gaulesa todo esse grupo de profissionais; não lhe era possível integrá-los às duas classes superiores: 1a. cavaleiros, equites; 2a. sacerdotes ou druidas, que, passado o período romano, reaparecem ambas na Idade Média (como nobreza guerreira e “príncipes” da Igreja Católica). César não concebia uma categoria intermediária entre a plebe e essa aristocracia meio militar, meio religiosa. Sendo ele próprio membro da aristocracia romana e pontífice, podia entender a posição do cavaleiro e do druida gauleses; para a “burguesia” gaulesa, entretanto, não tinha senão desprezo.

Há uma passagem de um dos livros perdidos de Posidônio de Apameia (c. 135 aEC – c. 51 EC) que justifica, de certo modo, a atitude de César ao menos em relação aos bardos: Louernius, pai do rei Bituitus, ofereceu ouro e um banquete público que durou vários dias a fim de ganhar o favor do povo. Certo bardo, chegando tarde para aproveitar a generosidade de Louernius, cantou um poema em que louvava a grandeza deste e se lamentava por seu atraso. Encantado, enquanto partia em sua carruagem, Louernius jogou ao bardo uma bolsa cheia de ouro. O poeta seguiu correndo ao lado do veículo a entoar louvores às marcas deixadas pelas rodas que “traziam áureos benefícios aos homens” (4).

Mais tarde, Bituitus, então rei dos alóbroges, enviou uma embaixada aos salúvios . Um bardo fazia parte do cortejo que acompanhou o embaixador, tendo como função cantar louvores ao rei Bituitus, aos alóbroges e ao embaixador, cujo nobre nascimento, bravura e riqueza elogiava ao acompanhamento da lira (6). Posidônio também descreveu os bardos como “companheiros de mesa e parasitas (isto é, aduladores) dos reis” (7). Assim, é compreensível que um “grande senhor” como César tenha relegado os bardos à plebe comum e não se tenha dignado a falar deles.

A respeito dos adivinhos, silêncio. Ficamos reduzidos às informações que nos foram prestadas pelos autores gregos, isto é, Diodoro Sículo, Timagenes e Estrabão. De acordo com Diodoro, todo o povo obedecia aos adivinhos (8). Para Estrabão, todas as tribos gaulesas reconheciam a honravam excepcionalmente três grupos de homens: os bardos, os vates e os druidas. Os bardos, cantores de hinos e poetas; os vates, que fazem sacrifícios e interpretam a natureza para adivinhar o futuro, e os druidas, que se ocupam da interpretação da natureza com idêntica finalidade e também com a filosofia moral (9). Dessa filosofia moral pouco se sabe. Diógenes Laércio, contudo, preservou um dos aforismos druídicos: “Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura” (10). Os druidas, graças a sua reputação de “os mais justos dos homens” (Estrabão), chegaram a inspirar nas tribos uma tal confiança na equidade dos seus pareceres que o julgamento de todos os processos públicos e privados, sobretudo os casos de homicídio, era frequentemente entregue ao seu julgamento.

Se o testemunho de César fosse aceito literalmente, os druidas teriam julgado todos os processos (11). Existe nesse ponto, contudo, um exagero que fica evidente à simples leitura dos “Comentários”. Certas disputas entre os gauleses mencionadas em “Sobre a Guerra da Gália” não são julgadas pelos druidas, mas pelas assembleias tribais ou por magistrados eleitos. A verdade a esse respeito encontra-se em Diodoro, que reproduz com mais fidelidade o texto de Posidônio: “Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens [os druidas] e a seus poetas cantores [os bardos] e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; frequentemente, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas” (12). Observe-se a presença do advérbio “frequentemente” (πολλάκις, pollákis, no original) indicando que a arbitragem druídica não se dava em todos os casos, mas de forma recorrente. Desse modo, percebemos que os druidas gauleses possuíam uma grande influência política, embora não fossem homens de guerra, como os cavaleiros. Essa é a principal causa para a proeminência que César lhes atribuiu no Livro VI dos “Comentários”, totalmente desconsiderando bardos e vates.

Outrossim, já vimos que havia certa sobreposição entre as funções dos vates e as dos druidas. Na verdade, a ascendência moral dos druidas tornou-os indispensáveis à comunicação com os deuses por meio dos ritos sacrificiais, como ensinou Diodoro (13). A influência política e o poder religioso dos druidas permitiram a César (e a seus leitores) equipará-los aos pontífices, funcionários da mais alta importância para o estado romano e entre os quais o próprio César tinha lugar (14). É compreensível que tenham chamado especialmente a atenção do general romano.

Havia na Gália uma regra que teria contribuído muito para dar aos druidas a influência poderosa de que desfrutavam em detrimento dos u̯ātīs ou u̯elētes. Admitiu-se o princípio de que era impossível a realização de um sacrifício sem o concurso dos druidas. Essa parece ter sido uma lei absoluta, ainda que César nos fale somente da parte que ligava os druidas aos sacrifícios humanos (15). A consequência dessa lei era a impossibilidade, para os u̯ātīs, de proceder à divinação pelo sacrifício sem a cooperação dos druidas, o que os colocaria em posição de dependência destes quando se recorresse ao modo de divinação que parece ter sido o mais importante na Gália, a divinação pelo sacrifício humano. Eis, novamente, a razão pela qual César considerou os adivinhos gauleses como algo sem importância e deles não se ocupou.

A necessidade da intervenção dos druidas para a validade dos sacrifícios parece indicar que eram sobretudo sacerdotes. Apesar disso, seria grave equívoco igualar o druida gaulês ao ἱερεύς homérico.

O ἱερεύς homérico adivinha o futuro como o μάντις. Visto desse modo, assemelha-se ao druida, que adivinha o futuro como o u̯elēđ. Mas o ἱερεύς não está associado a uma corporação, como estavam os druidas. Ele liga-se a um templo, consagrado a uma divindade especial, e o ἱερεύς tem por única função o cuidado desse templo e o culto que nele recebe o deus. Assim aparece no Canto I da “Ilíada” o sacerdote de Apolo, Crises, cuja filha Agamênon captura e que vem a ser restituída graças à proteção do deus de que o sacerdote é servidor. No Canto V do mesmo poema, surge Dares, sacerdote de Hefesto, que tem dois filhos. Um destes é morto pelo heroi grego Diômedes; o outro escapa, evitando, pela proteção de Hefesto, a morte que Diômedes lhe daria. Hefesto desejava poupar ao velho pai o pesar doloroso que lhe causaria a perda dos dois filhos.

Na Grécia homérica, os ἱερῆες podiam auferir vantagens econômicas do seu ofício (16), o mesmo aplicando-se aos druidas da Gália, que, para começar, estavam isentos do serviço militar e do pagamento de quaisquer obrigações tributárias (17). Todavia, o ἱερεύς não ocupava a mesma posição de importância que o druida. A sua intervenção não era necessária à regularidade dos sacrifícios. Nenhum sacerdote intervém nos sacrifícios oferecidos pelos gregos. O exército grego não contava com capelães. É o rei supremo, Agamênon, que, antes da primeira batalha, oferece em sacrifício ao todo-poderoso filho de Cronos um boi gordo de cinco anos; é ele que, acompanhado de outros sete reis, dirige uma prece solene em nome das tropas ao grande Zeus. Nessa época, cada guerreiro em particular fazia, por seu interesse pessoal, um sacrifício ao deus pelo qual tivesse especial devoção. Quando se celebrou entre troianos e gregos um tratado que previa a solução do conflito entre as duas nações a um combate singular entre Páris e Menelau, foi mais uma vez Agamênon que, cercado por outros reis, invocou Zeus e cortou as gargantas dos cordeiros sacrificiais.

Da mesma forma, em Roma, sob a realeza, o soberano era o primeiro-ministro da religião e, ao mesmo tempo, o primeiro magistrado do estado. Ainda depois da queda da monarquia, o respeito ao rito primitivo conservou o título de rex sacrorum ou rex sacrificiorum (“rei dos sacrifícios”).

Vemos assim que, entre os gregos homéricos bem como entre os romanos do período mais antigo, a autoridade política do soberano misturava-se à autoridade religiosa. Para os gregos, à figura e atuação do ofício sacerdotal exclusivo faltava o peso da força política, ao passo que, para os gauleses, com a autoridade política e religiosa separadas, o ato sacrificial não poderia ser realizado senão pelo u̯ātīs com a participação do druida, ficando vedada a sua prática válida pelo magistrado supremo, fosse este hereditário ou eleito.

Cabia ao druida decidir quem poderia se comunicar com os deuses, sendo essa uma das principais fontes do seu poder.

Notas

1) Caio Júlio César (100 aEC – 44 aEC), Commentarii de Bello Gallico, VI, 13.

2) Tito Lívio (c. 59 aEC — 17 EC), Ab Vrbe Condita Libri, XXIII, 24: Ibi Postumius omni ui ne caperetur dimicans occubuit. Spolia corporis caputque praecisum ducis Boii ouantes templo quod sanctissimum est apud eos intulere. Purgato inde capite, ut mos iis est, caluam auro caelauere, idque sacrum uas iis erat quo sollemnibus libarent poculumque idem sacerdoti esset ac templi antistitibus (ali Posthumius caiu, lutando com toda a sua força para não ser capturado. Os boios cortaram a sua cabeça, e carregaram-na e aos espólios que roubaram de seu corpo em triunfo ao mais sagrado templo que possuíam. Depois disso, limparam a cabeça de acordo com seu costume e, tendo coberto o crânio com ouro batido, usaram-no como cálice para libações em seus festivais solenes e taça de beber para seus altos sacerdotes e outros ministros do templo).

3) Homero, Odisseia, XVII, 383-385: […] ἄλλον γ᾽, εἰ μὴ τῶν οἳ δημιοεργοὶ ἔασι, / μάντιν ἢ ἰητῆρα κακῶν ἢ τέκτονα δούρων, / ἢ καὶ θέσπιν ἀοιδόν, ὅ κεν τέρπῃσιν ἀείδων; ([…] a menos que seja um daqueles que são mestres de algum ofício público, / um profeta, ou um curador de enfermidades, ou um construtor, / sim, ou um sublime intérprete, que oferece deleite com o seu cantar?).

4) Citado por Ateneu de Náucratis, Deipnosophistaí, L. IV, 152e.

5) No ano 121 aEC.

6) Apiano de Alexandria (c. 95 – c. 165 EC), Fragmenta de Rebus Gallicis, XII.

7) Diodoro Sículo (séc. I a EC), Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes.

8) Estrabão (64/63 aEC – 24 EC), Geōgraphiká, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objeto de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas.

9) Diógenes Laércio (séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton, I, 6.

10) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

11) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

12) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31.

13) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31: […] e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo” [isto é, um druida], pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens que, pensam eles, do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas […]

14) César deteve a posição de Pontífice Máximo de Roma de 63 aEC até a sua morte, 19 anos mais tarde.

15) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 16: Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então lhes põem fogo, perecendo todos nas chamas. Acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses, mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

16) V. Odisseia, IX, 193-205; 346-396, onde se mencionam as riquezas de Marão, sacerdote de Apolo.

17) César, Comentarii de Bello Gallico, VI, 14.

 

Então você acha que os deuses não mudam?

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Então você acha que os deuses não mudam?

Bellou̯esus Īsarnos

Aos 19 anos eu tinha muitas certezas. Acreditava que qualquer descontrole era desprezível, que não sorrir e não chorar eram sinais de força interior. Que todas as coisas eram totalmente brancas ou unicamente pretas, sem nenhum matiz possível. Se Amy Winehouse tivesse morrido quando eu estava com 19 anos, sem dúvida nenhuma isto passaria pela minha cabeça: “Bêbada e viciada, esse fim foi o que ela buscou… e encontrou”.

Aos 19 anos eu acreditava em coisas imutáveis. O supra-sumo da imutabilidade, claro, eram os deuses. Impassíveis, inalteráveis, imunes a qualquer inquietação, desconhecedores de toda ansiedade ou preocupação, a existência dos deuses, pensava eu, era paralela à transitoriedade humana, paralela e sem possibilidade de convergência. Isso eu disse durante anos para mim mesmo e para quem mais quisesse ouvir.

Pois bem, descobri que as coisas não se passam desse modo. Os deuses não são imutáveis. Como cheguei a esse conhecimento? As duas senhoras que estão ali em cima deram-se ao trabalho de me informar. Sem grandes explicações, porém de forma a não deixar dúvidas quanto à essência da mensagem: os deuses não são imutáveis. Elas vieram num sonho do qual me lembro em detalhes, embora quase duas décadas tenham se passado desde então.

Nesse sonho, entrei em uma loja. Era um lugar altamente tecnológico e automatizado, com atendentes robôs em forma de pequenas esferas com braços. Havia uma multidão de fregueses ensandecidos, todos falando ao mesmo tempo – talvez fosse dia de liquidação – e era muito óbvio que os robozinhos não estavam conseguindo suprir a demanda. A confusão era uma coisa lamentável. Naquele momento, pensei algo como: “Que lástima, tanto tecnologia e os velhos problemas de sempre”.

Atravessei a loja até o fundo e encontrei ali, meio escondida entre prateleiras e mostradores, uma porta de madeira que abri. Era totalmente outro mundo o que essa passagem escondia. Em muitos sentidos, um mundo bem mais familiar.

Uma cidade meio arruinada, com ruas calçadas de pedra, colunas quebradas, deserta exceto pelas sombras do próprio passado. Andei durante algum tempo, reconheci dos livros a paisagem e, com a lógica própria dos sonhos, somente achei um pouco estranho que Pompeia, a cidade sepultada pelo Vesúvio no ano 79 E. C., estivesse no quintal de um shopping center.

Havia um banco de pedra junto a uma parede com um larário bem conservado e uma fonte. Pela posição do sol, já era o meio da tarde de um dia bastante quente. Sentei para descansar e pensei em procurar uma taberna. “Será que eles têm uma Coca bem gelada? Claro que sim. Isso tem em toda parte. Como se pede Coca-Cola em latim? Cocam habesne?” A lógica dos sonhos.

Enquanto devaneava sobre a possibilidade de encontrar o máximo símbolo do capitalismo em uma cidade romana de 2.000 anos, escutei o som de pessoas se aproximando. Vinham pela rua duas mulheres fazendo cooper. Uma delas, a mais velha, loira e robusta, com uma coroa de espigas de trigo na cabeça, uma camiseta branca com uma serpente estampada, calça de moleton e tênis. A outra, uma moça de cabelo escuro, bonita mas de rosto fino e pálido, a cabeça enfeitada com papoulas, uma romã aberta na camiseta preta e uma bermuda de lycra da mesma cor. Reconheci ambas intuitivamente: Deméter e Perséfone. Decepcionado com a situação e com o figurino (acho que mais com o figurino), virei o rosto para o lado e afetei não ter visto nada. Um jornal apareceu nas minhas mãos e fingi que estava lendo.

Quem já passou por um terremoto sabe o quanto é surpreendente a sensação do tremor. Estamos acostumados a ter a terra sob nossos pés, sempre quieta e estável. Quando a terra se mexe e se abre, é como se a ordem da natureza se rompesse da forma mais absurda. A voz das deusas era assim, como um terremoto. Um tremor desde a primeira sílaba, um cataclisma no meio da frase, a conflagração total dos elementos no ponto final. “Ge:s paî kaì ouránou aste:roentos” (“ó filho da terra e do céu estrelado”), ela chamou. No final da primeira palavra, eu já estava encolhido no chão com o jornal na cabeça. Tive a ousadia de olhar e vi que as duas fundiam-se em uma só, dando razão aos antigos que afirmavam serem Deméter e Perséfone a mesma divindade. Dizer como era esse rosto está além da minha capacidade.

“Então você acha que os deuses não mudam?”, ela me perguntou diretamente. Tomado de pavor e quase engolindo minha língua, eu não conseguia fazer nada além de tentar enterrar a cabeça no chão. “VOCÊ ACHA?”, ela insistiu. “Não, senhora”, eu disse, já imaginando qual seria meu lugar no Hades. Ela riu um riso de tsunami, uma risada de vento e onda, pegou a serpente da camiseta e lançou contra mim.

Apenas duas vezes em minha vida acordei gritando. Essa foi a primeira. Deméter/Perséfone não me deu nenhuma grande explicação teórica, nenhum arrazoado que possa ser colocado em palavras e transformado em tese. Ela me proporcionou uma epifania e deu a entender que os deuses mudam e por algum motivo é importante não pensar o contrário.

É um erro fazer afirmações categóricas sobre os deuses e pretender que se encaixem em nossas teorias. É um erro colocar a vida dentro de um modelo pré-concebido. Se a vida for maior do que o modelo, o que você vai fazer? Cortar partes dela para que o resto caiba na caixa?

Quando Amy Winehouse morreu, eu pensei: “Que pena. Era talentosa, mesmo com tantos problemas. Vai ficar pra outra vez.”

Santuários Gauleses

sanctuaire de Gournay-sur-Aronde

Reconstituição hipotética do santuário gaulês de Gournay-sur-Aronde (Oise).

Aquarela de Jean-Claude Blanchet.

Santuários Gauleses

Bellou̯esus Īsarnos

Jamais a pá de um arqueólogo escavou uma sepultura que pudesse, sem sombra de dúvida, ser atribuída a um druida. Contudo, as descobertas realizadas nos antigos santuários da Gália céltica nos últimos 30 anos permitiram conhecer os locais onde se desenrolava uma parte significativa de suas atividades e mudaram sensivelmente as concepções sobre a religião dos celtas gauleses.

Antes desses achados, ignorava-se que os gauleses possuíssem locais de culto construídos por mão humana. Consoante um mito persistente, imaginava-se o gaulês como o “bom selvagem”, que sacrificava no coração da floresta e contentava-se com locais de culto naturais análogos aos utilizados na pré-história, tais como as alturas e as cavernas.

Muitos de seus santuários, na verdade, eram construções elaboradas e geralmente obedeciam a orientação astronômica. Conforme a região, poderiam variar as manifestações do culto; sabe-se, porém, que os gauleses praticavam uma religião materialmente rica que nada devia em complexidade à de seus contemporâneos do Mediterrâneo, embora não tivesse o viés filosófico ou o impulso escatológico dos gregos.

A religião céltica permanecia muito próxima da natureza, de onde retirava seus fundamentos. Sua origem (provavelmente mais oriental do que grega) refletia-se nas divindades, comumente sem forma humana. O panteão gaulês não estava hierarquizado, tendo cada tribo divindades tutelares próprias. A divisão em tribos, algumas mais, outras menos importantes, e todas nômades em certo grau, foi uma característica da Gália céltica que influiu na variação geográfica do culto.

Os vestígios arquitetônicos mais impressionantes são exatamente os dos grandes santuários célticos, como o de Ribemont-sur-Ancre (Somme), escavado a partir de 1985. Mas esses santuários, sempre cercados por uma paliçada ou vala, não existem em todos os lugares na Gália. As práticas que neles se realizavam também se desenvolveram ao longo do tempo. Entre os gauleses da Bélgica, que possuíam fortes ligações com os germanos, o culto apresentava traços arcaicos, com importantes sacrifícios animais e oferendas de armas. Mais ao sul, na Borgonha e na Gália Lugdunense, a influência romana se fez sentir desde o séc. II a. E. C.: os depósitos, em lugar de armas, constituíam-se de ânforas e cerâmicas.

Esse enfraquecimento dos sinais guerreiros testemunha a substituição da sociedade guerreira gaulesa pela sociedade mercantilista galo-romana e também se reflete no elenco das deidades gaulesas feito por Caesar (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, VI, 17, a famosa interpretatio romana), em que Mercúrio ocupa a primeira posição e Marte, a última.