A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Creative Visualization

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Melita Denning & Osborn Philips

O uso da Visualização Criativa na oração e na adoração provavelmente ocorre com mais frequência e mais facilmente dentre os seguidores de uma religião quase sempre farta em imagens sacras. Para os seguidores de religiões que não se utilizam de imagens, esse processo se torna um pouco mais difícil. De qualquer maneira, o fato de o indivíduo ter uma crença, ter fé, é um ponto positivo no seu processo de desenvolvimento espiritual, mesmo quando sua seita não se utilizar de imagens ou figuras, porque a própria religião já é prova de que a pessoa está muito além dos materialistas, principalmente na questão da Visualização Criativa.

Para se ter uma ideia, nem todos os religiosos praticam a adoração e nem todos rezam. Para essas pessoas, então, algumas das ideias que se seguem podem ser interessantes. Pode ser que elas desejem imaginar ou pensar numa Entidade na qual acreditem. A partir daí, a oração e a adoração passam a ser menos difíceis de ser aceitas ou compreendidas.

“Mas como fazer para rezar? Como começar a orar?”,perguntam alguns. Pode-se começar tal como uma criança começa a falar, com apenas uma palavra. Algumas das mais poderosas e belas orações do mundo têm apenas uma única palavra. Portanto, não existe “maneira apropriada” ou fórmula certa de oração. Nada é tão íntimo, tão singular quanto o relacionamento entre o adorador e sua Divindade e tanto faz se o que você diz é inédito ou se já foi dito milhares de vezes por milhões de outras pessoas. Nada disso é importante. O que realmente importa é que aquela palavra ou todas aquelas palavras são a sua oração naquele momento. E desse momento em diante você terá encontrado uma das mais poderosas fontes de inspiração, de força, de alegria, de confiança e de esclarecimento espiritual em todos os níveis do seu ser. E essa mesma fonte tem sido concedida aos povos de todos os lugares do mundo por todos os séculos.

Com relação à visualização, não se sugere que a pessoa deva superar as dúvidas que porventura tenha quanto à exatidão – ou a possibilidade – de imaginar uma Divindade de forma localizada. Ao mesmo tempo, se a pessoa quiser ampliar os benefícios que irá receber usando a Visualização Criativa em suas preces, é necessário considerar se existe algum Ser Espiritual que possa ser imaginado, seja como recipiente ou como intermediário de suas petições à Divindade.

Para aqueles que conseguem adorar seu Deus, ou seus deuses, à maneira simbólica tradicional, ou para aqueles que creem numa Divindade encarnada, não precisamos acrescentar mais nada com relação ao Ser Divino que elas deveriam visualizar. Se, porventura, o leitor encontrar alguma dificuldade a respeito desse assunto, talvez então seja melhor visualizar o seu Anjo-da-Guarda, ou um Santo conhecido, pedindo que aquele ser seja o portador de suas orações à Divindade. Você pode escolher o santo de sua devoção, ou mesmo um santo ligado ao assunto que você queira resolver. Também esse Ser Divino não precisa ser necessariamente um santo reconhecido pela igreja, ou pela seita que a pessoa frequenta. Pode ser alguém – que já tenha morrido – e que a pessoa amava muito, como a avó, ou o avô, ou algum parente mais distante com o qual a pessoa se sinta intimamente ligada.

Gostaríamos de ressaltar que existem estudos, feitos pelos antigos missionários religiosos enviados à China, de que a “veneração aos ancestrais” e a adoração aos Santos, reconhecidos pelas igrejas, têm as mesmas raízes e fundamentos.
Pode-se, sem dúvida nenhuma, visualizar, então, tanto sua Entidade como seu santo protetor. Esse tipo de visualização se mostrou muito poderoso e eficiente.

Esteja você visualizando uma Divindade de qualquer forma, ou mesmo um Santo ou um Anjo, é bom tomar cuidado para “enxergar” esse Ser da maneira mais positiva possível, ou seja: radiante, poderoso, acolhedor e amoroso. Se for possível, use uma imagem – seja impressa ou esculpida – para auxiliar em sua visualização. Mas lembre-se, você não poderá conferir nenhum poder à imagem materializada propriamente dita. Você não deverá entendê-la como talismã ou mesmo objeto de fetiche. Essa imagem tem apenas o objetivo de auxiliar você na formulação, a mais clara possível, da imagem que você visualizou internamente, e também de evitar para você a dificuldade de rezar “no espaço” com convicção.

Um devoto hindu descreveu certa vez, como – em oração – ele ofereceu luzes e flores com palavras de amor e adoração dirigidas a uma imagem feita à semelhança de sua Divindade. Diz ele: “Mas quando termino minha oração, deixo a imagem de pedra sobre o altar e coloco a imagem verdadeira de volta em meu coração.”

Quanto mais concreta for a imagem real que você construir em seu coração, tanto mais útil e eficaz ela lhe será.

Por esse motivo, sugerimos que você pratique muito suas orações durante algum tempo, antes de começar a pedir alguma coisa por esse método. E mais, se, por algum motivo drástico, uma emergência, você se viu diante da oração, rezando desesperadamente, alertamos que essa prática de adoração não será possível.

Algumas emergências acontecem, e às vezes, pessoas que nunca rezaram começam a fazê-lo; essas pessoas rezam, ou invocam o auxílio de forças para as quais jamais haviam se dirigido, e frequentemente recebem o que pedem. Porém, na emergência, você tem acesso às áreas da sua mente profunda, que normalmente estão fechadas para você em circunstâncias normais e assim, para poder rezar com eficácia em momentos não críticos, é preciso muita prática de oração.

Portanto, se você decidir trilhar o Caminho da Devoção, siga-o com perseverança e com todo o fervor que puder encontrar dentro de si.

Faça um pequeno altar, ou um “cantinho especial” para a sua hora de oração e adoração. Você escolhe a posição: de joelhos, de pé, sentado, tanto faz. Existem posturas tradicionais de oração e a escolha é sua. Se possível, crie o hábito de acender uma ou mais velas para acompanhar o seu período de adoração e oração. Se quiser, acrescente incenso ou flores. Os detalhes ficam por sua conta, porém, não se esqueça de quando rezar, visualizar. Isso é fundamental.

Se você imagina Deus como sendo Luz, então visualize Luz. Se para você a Divina Presença poderia ser algo quase palpável no topo de uma montanha, ou talvez dentro de uma caverna, então visualize que você está no topo de uma montanha ou dentro de uma caverna, antes de começar a rezar.

Sempre que você tiver um objetivo que deseja alcançar através desse modo de oração, os princípios básicos se aplicam sempre, utilizando-se você de um Ser intermediário ou dirigindo-se diretamente à Divindade. Todavia, os detalhes do procedimento variam ligeiramente de caso para caso e, por esse motivo, os relacionamos abaixo:

A. Se você vai visualizar – de qualquer maneira – a Divindade para a qual você dirige suas preces, sem um Ser intermediário, então faça o seguinte:

1. Construa primeiro uma imagem visualizada bem nítida do objetivo que você quer alcançar, seja ele um benefício para o corpo ou para a alma, seja para você ou para outras pessoas. Formule um quadro o mais exatamente possível, por exemplo, a pessoa curada, ou o certificado de um exame, etc. Ou, se o objetivo a ser alcançado for algo visível e material, então formule simplesmente um quadro do objeto propriamente dito, de preferência “enxergando-o” em uso pela pessoa a quem ele se destina, seja essa pessoa você ou não.

2. Visualize sua imagem da Divindade, seja em forma humana ou simplesmente em forma de Luz, cheia de resplendor e generosidade.

3. Faça a adoração, seja nos moldes que você costuma fazer sempre, ou da maneira que está sentindo vontade naquele momento.

4. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga-o sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você se sentir emocionado no momento.

5. “Veja” aquilo que você deseja de maneira radiante pelo contato Divino, sendo oferecido a você pela Divindade. Ou, então, “ouça” e repita para você mesmo as palavras que estão lhe dizendo que o que você tanto deseja irá acontecer. Aceite o presente e dê graças por ele.

6. Faça com que tudo aquilo que você acaba de visualizar desapareça devagar e calmamente de sua consciência.

7. Durante o dia, e durante a noite também, caso você esteja acordado, recorde-se daquilo que ocorreu no item 5, mesmo que apenas por alguns instantes, e em seguida, agradeça novamente.

8. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada.

B. Se você vai fazer o pedido com a ajuda de um intermediário, de um santo protetor — independente de você visualizar ou não uma presença Divina — então proceda da seguinte maneira:

1. Idem ao item 1 do procedimento anterior.

2. Visualize o seu intermediário, o santo protetor ou Ser angelical com quem você já mantém um contato, ou que tem uma relação direta com o assunto que você irá tratar.

3. Reverencie sinceramente este Ser. Depois disso, peça-lhe que leve o seu pedido (que até esse momento você ainda não declarou em todos os detalhes) até a Divindade (a quem você irá indicar de acordo com o título que ela possua). Peça ao seu intermediário para interceder por você – ou para quem quer que você deseja ajudar – no sentido de obter para você – ou para a outra pessoa – o que está precisando. TENHA CERTEZA DE QUE AQUILO QUE VOCÊ ESTÁ PEDINDO SERÁ FEITO.

4. Visualize o seu intermediário se dirigindo até a Divindade para fazer o seu pedido. Pode imaginá-lo andando, voando, enfim, da maneira que você desejar, contanto que o imagine indo até a Divindade. Se você tenciona visualizar a Divindade, então preste atenção para “ver” o seu intermediário levando o seu pedido. Esta parte do procedimento é extremamente potente.

5. Se você pretende visualizar sua Divindade, então, faça-o agora. De qualquer maneira, focalize sua atenção na Divindade, saudando-a e adorando-a diretamente.

6. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você ficar emocionado. Lembre-se também de dizer que o seu santo protetor (nome) está pedindo isso por você também.

7. Desvie um pouco a atenção da presença Divina e “veja” o seu intermediário voltando para você, alegre e radiante, com o seu pedido concedido. “Veja” o objeto sendo oferecido a você, ou “ouça” as palavras que lhe dirão, que aquilo que você quer será realizado. Aceite a graça e dê graças por ela.

8. Faça com que todas as imagens que você acaba de visualizar desapareçam devagar de sua mente.

9. Durante o dia, ou durante a noite, caso você esteja acordado, lembre-se daquilo que aconteceu no item 7, mesmo que seja apenas por alguns instantes, e depois renda graças.

10. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada, e não se esqueça do seu santo protetor.

No Caminho da Devoção, deve-se tomar muito cuidado com uma coisa. Seja o que for que você esteja pedindo por meio da oração, faça-o apenas por esse meio. Evidentemente, se você estiver doente, deve tomar todas as providências normais – médico, remédios, etc. – além de rezar para o seu restabelecimento. Se você quer passar num exame, não basta rezar. Com certeza, você deve estudar muito para isso.

O que estamos querendo dizer aqui é que, se você está buscando algo especial por meio de um procedimento devocional, como o que acabamos de delinear, você não deveria tentar obter “um seguro espiritual” – fora do sistema – para garantir o que você deseja. Ou seja, se você está rezando para Nossa Senhora, tentando obter algo de vital importância para você, não faça esse mesmo pedido para uma estrela cadente, por exemplo.

Você poderá explicar essa necessidade de cuidados, dizendo, tal como diziam as pessoas do Antigo Testamento, que seu Deus tem “ciúme”. Ou, se o conceito de ciúme não se enquadra com sua ideia de Divindade, pode-se explicá-la de outra maneira, que parece indicar, também, a razão de se utilizar meios materiais para obter aquilo que você deseja, e não atrapalhá-lo.

A sua ligação espiritual com o Poder Divino que você invocou, a sua identificação mental com aquele Poder, juntamente com o seu fervor, sua devoção e não de necessidade (e coisas materiais comuns como remédios, dinheiro, etc.) são “neutros” e poderão ser facilmente utilizados pelo Poder Divino como parte do nível material daquele canal.
Entretanto, se você introduzir outros canais menores, particularmente do nível astral, em sua imagem visualizada, você poderá criar um vazamento no seu sistema, como por exemplo, fazendo um furo no canudinho que você bebe, ou pior ainda, provocando um furo no seu pneu. Nesse caso, você estaria voltando para a estaca zero.

Tente imaginar os vários aspectos da Divindade, a partir da descrição feita através dos tempos por parte dos devotos. Imagine as emoções e forma mental também vindas com o tempo e que formam a parte inferior do canal de força. Isso explica os santuários existentes em todas as partes do mundo e que permanecem, ao longo dos séculos, como centros de fé e de milagres.

Lembre-se sempre, por trás da sua visualização, da construção da sua imagem, estará sempre a realidade da Divindade para dar a ela sentido e validade; uma realidade muito maior que qualquer coisa terrena possa oferecer, uma força muito mais poderosa e repleta de amor que extrapola a nossa compreensão. Se pudermos aprender a pedir direito, com toda a confiança e tendo certeza de que aquilo que estamos querendo é exatamente o que estamos pedindo, então, não haverá limites para a abundância, para a fartura, tanto material como espiritual, com a qual seremos abençoados.

Fonte: Denning, Melita & Philips, Osborn (tradução: Anna Maria Dalle Luche). A Visualização Criativa. São Paulo: Siciliano 1989, p. 231-239.

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Corrguinecht & Glám dícenn

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Corrguinecht & Glám dícenn

Bellou̯esus Īsarnos

Corrguinecht .i. beith for leth-cois 7 for leth-laimh 7 for lethsuil ag denam na glaime dícinn.

Feitiçaria [ou ‘magia da garça’], isto é, ficar numa só perna e com uma só mão e com um só olho ao fazer a glám dícenn (“sátira perene”).

Glám dícenn era uma composição ou ritual satírico. O ofendido (drui ou file), juntamente com um grupo de seis estudantes, que representavam os sete graus da iniciação poética, subiriam ao topo de uma colina onde houvesse um espinheiro-branco (úath/sceach gheal/H) antes do nascer do sol. Todos ficariam em pé, de costas para o espinheiro, cada um deles com um ramo da planta na mão. O drui (ou file) levaria consigo uma imagem de barro representando o ofensor e, quando o vento norte (direção da batalha) soprasse, recitaria a sátira e perfuraria a imagem com os espinhos. Para que o procedimento fosse perfeito, contudo, seria obrigatório observar as prescrições legais:

Benair aibghitir oghaim. blf. agus aibgitir ua .i. tiasca ai i nainm de; agus is e a greim-so .i. cros, agus a cur isin .c. drumaind ar son apaid; doberar ainm cinadh isin drumaind eile, agus ainm cintaigh isin tres drumainn, agus moladh isin cethramad drumaind; agus in flesc do sadhudh i forba .x. maide don filidh trefocail, no conadh a forba .x. maide apaid ma rosechmaill a flesg agus dorinde air, is eraic airi uadh; massa athgabaal rogob, is fiach indligid athgabala uadh.

Os caracteres ogâmicos são gravados, -,-,,-,,,-, e o alfabeto da poesia isto é, ‘inicio a poesia em nome de Deus’, e é assim que isso surte efeito, a saber, numa cruz e isso colocado no primeiro braço como um aviso e o nome da ofensa no segundo braço e o nome do culpado no terceiro braço e um louvor no quarto braço e o bastão é fincado no chão pelo poeta ao fim do período de dez dias do trefhocal [três palavras/afirmações], ou melhor, ao fim do período de dez dias do aviso. Se ele ignorou seu bastão e fez a sátira, a compensação pela sátira é devida por ele; se ele já realizou uma apreensão, a penalidade por apreensão é devida por ele”). Pois a sátira é realizada ao cabo de três períodos de nove dias ou de três períodos de dez dias, isto é, um período de aviso, um período para a composição do trefhocal e um período final para que o ofensor ofereça garantias. Somente então pode a sátira ser feita com pleno direito. E o nome de Deus e o nome da ofensa e o nome do culpado e seu louvor em Ogham ebhadhach. Trefhocal é o louvor misturado à advertência pela ofensa, que antecede a pronúncia da sátira.

Fidh ebhadh

>-X-

Ogham ebhadhach

>-,-X-,,-X-,,,X–,,,,X–,,,,,X–‘-X-”-X-”’-X-””-X-””’-X–/-X-//-X-///-X-////-X-/////-X–|-X-||–|||-X-||||-X-|||||-X-

>-,-X-/////-X-|-X-,,,,,-X-, bran

O mal, a morte e vida curta para Caíar,
Lanças de batalha terão matado Caíar,
Que Caíar morra, que Caíar parta – Caíar!
Caíar sob a terra, sob os aterros, sob as pedras!

Glám Dícenn

Is amhlaidh dogníthe isidhe, troscadh for fearand in righ dia ndenta in duan ocus comorle .xxx. laech ocus xxx. espoc ocus xxx filedh im air do dhenum iartain, ocus robo cin doib tairmeosc na hairi iar femedh na duaisi. Cid fil and tra acht in file fodesin do dul moirseser .i. sessear imaille fris fein fora mbetis se gráda filedh ocus ite annso a n-anmand .i. fochloc, mac fuirmedh, doss, cana, clí, anrad, ollam .i. in moirseisidh .i. a dul re turcbail ngréne co mullach nobhiadh a coicrich .uii. ferunn ocus aighidh gách graidh dibh for a ferunn, ocus aigidh inn olloman ann for ferann in righ no egnaighfed, ocus a ndromanna uile re sciaigh nobiadh ar mullach na tulcha, ocus in ghaeth atuaidh, ocus cloch throthail ocus dealg don sciaigh illaim gach fir, ocus rann for in aisdi-sea gach fir dibh do gabhail intib andis don righ, ocus in t-ollam do gabhail raind rompu ardus, ocus siat sum a n-aenfecht iarsin do gabail a rand, ocus cach do chur a chloichi ocus a delge fo bun na sciach, ocus diamad iatson bad chintach ann talumh na tulchi dia slugadh; diamadh é in righ im morro bud cintach, talam dia slogud ocus a bhen ocus a mac ocus a each ocus a arm ocus a erriudh ocus a chu.

Glamh in meic furmid ar in coin, glamh in fochlocon ar in erridh, glamh in duis ar in glamh in chanad ar in mnai, glamh in cli ar in mac, glamh in anradh for in fearunn, glamh in olloman for in ríg.

Sátira Perene

Assim isso foi feito: houve jejum na terra do rei para quem o poema fora composto, e um concílio de trinta leigos e trinta bispos e trinta poetas quanto a fazer-se uma sátira depois disso; e era para eles um crime impedir a sátira depois que o prêmio pelo poema fora recusado. Contudo, o próprio poeta tinha então que ir acompanhado por sete – isto é, seis outros além de si mesmo – aos quais os seis graus dos poetas tivessem sido conferidos, e estes são os seus nomes, a saber, fochloc, mac fuirmid, doss, cana, clí, anrad, ollam, ou seja, o sétimo deveria ir ao alto de uma colina ao nascer do sol, a qual deveria estar na divisa de sete regiões e a face de cada grau voltada para essas regiões, e a face do ollam ali presente em direção à terra do rei que ele iria satirizar, e as costas de todos eles voltadas para um espinheiro branco que deveria estar no alto da colina, e o vento soprando do norte, e uma pedra de atiradeira e um espinho do espinheiro na mão de cada homem, e cada um deles cantaria um bastão [isto é, uma composição escrita em Ogham num bastão] neste tipo de metro sobre as duas pedras de atiradeira e o espinho contra o rei, o ollam cantando o seu bastão antes dos outros, e eles depois cantando os seus bastões um por vez, e cada um deles pondo a sua pedra e o seu espinho ao pé do espinheiro. E se fossem eles que estivessem em erro, a terra da colina os engoliria. Porém, se fosse o rei que estivesse em erro, a terra o engoliria e a sua esposa e o seu filho e o seu cavalo e as suas armas e as suas vestes e o seu cão.

A maldição do Mac furmid caía sobre o cão: a maldição do fochloc, sobre as vestes: a maldição do doss, sobre as armas: a maldição do cano, sobre a esposa: a maldição do cli, sobre o filho: a maldição do anradh, sobre a terra: a maldição do ollam, sobre o rei.

Fontes: Sanas Chormaic, Uraicecht Na Ríar & Lebhair Bhaile an Mhotta

Protocolo

Drui/file
Representantes dos graus da iniciação poética
Alto de uma colina
Espinheiro-branco
Antes da aurora
Drui/file com imagem representando o ofensor
De costas para o espinheiro
Todos com uma pedra e um espinho na mão
Vento norte
Recita a sátira
Perfura a imagem com espinhos

Procedimento:

1. Criar o objeto imediato do trabalho (cruz com inscrições ogâmicas)

2. Identificar os meios da realização do trabalho (louvor+censura, ofensa, ofensor)

3. Jurar a pureza da intenção e a justiça da sátira: 3.1 Pelos Reinos; 3.2 Pelos Elementos; 3.3 Pelos Deuses.

4. Invocar o poder dos Reinos, Elementos e Deuses contra o ofensor.

5. Encerrar a circunambulação do corrguinecht ao redor da cruz e do bastão a fim de precipitar o destino do ofensor.

Porém, cuidado. A honra dos Deuses será ofendida se forem chamados para operar a injustiça. Do mesmo modo, a observância dos prazos para o arrependimento do ofensor é parte essencial do rito, que se voltará contra o oficiante se aqueles forem desrespeitados ou usado injustamente. Além de rito mágico, a glám dícenn também era um procedimento legal.

Anotações Druídicas IV

TESOUROS

Anotações Druídicas IV: Direções e Atribuições

Bellou̯esus Īsarnos

Em “A Fundação do Domínio de Temuir” (Suidiugud Tellaich Temra), o ancião Fintan mac Bóchra, o Sábio, tem como missão mostrar que Temuir era e deveria continuar a ser a sede da Realeza Suprema da Irlanda. Ele conta o seguinte:

Uma vez estávamos fazendo uma grande assembleia dos homens da Irlanda ao redor de Conaing Bec-eclach, Rei da Irlanda. Certo dia, então, vimos nessa assembleia um grande herói, belo e poderoso, aproximando-se de nós e vindo do oeste, da direção do pôr-do-sol. Maravilhamo-nos grandemente com a magnitude de sua forma. Tão alto quanto uma árvore era o topo de seus ombros, o céu e o sol visíveis entre suas pernas em razão do seu tamanho e beleza. Um véu de brilhante cristal sobre ele, como uma veste de linho precioso. Sandálias em seus pés e não se sabe de que material eram. Cabelo amarelo-dourado caindo em cachos até a altura de suas coxas. Tábuas de pedra na sua mão esquerda, um ramo com três frutos em sua mão direita e eram estes os frutos que nele estavam, nozes e maçãs e bolotas do mês de maio: e não maduro estava cada fruto. Com passos largos ele caminhou para trás de nós, ao redor da assembleia, com seu ramo dourado de muitas cores de madeira do Líbano atrás de si e um de nós lhe disse: “Vem aqui e conversa com o rei Conaing Bec-eclach”. Ele respondeu e disse: “Que desejais de mim?” “Saber de onde vieste”, disseram eles, “e para onde vais e quais são teu nome e sobrenome.” “Sem dúvida eu vim”, disse ele, “do pôr-do-sol e estou indo para o nascer-do-sol e meu nome é Trefuilngid Tre-eochair”. “Por que te foi dado esse nome?”, disseram eles. “Fácil dizer”, disse ele. “Porque sou eu quem provoca o nascer-do-sol e o seu poente.

Trefuilngid Tre-eochair (“Tríplice Portador da Chave Tripla”), então, é quem provoca a aurora e o poente. Ele fez um pedido: que todos os irlandeses fossem reunidos naquele lugar. Depois que todos estavam presentes, ele perguntou se havia alguém que conhecesse toda a história da ilha. Quando se descobriu que não, ele escolheu um dos presentes para se tornar o depositário desse conhecimento. O escolhido foi Fintan. Fintan depois declarou que Trefuilngid Tre-eochair era “um anjo ou o próprio Deus”.
Um detalhe interessante é que, quando Trefuilngid Tre-eochair pediu que o povo fosse reunido, o rei Conaing Bec-eclach disse que isso poderia ser feito, embora eles não fossem poucos, mas seria difícil para os irlandeses sustentá-lo durante o tempo em que permanecesse com eles. O gigante então declarou que podia se sustentar somente com o aroma do ramo que trazia. Esse ramo merece A nossa atenção. É um ramo dourado, de muitas cores, de madeira do Líbano, com três “frutos” diferentes: nozes, maçãs e bolotas (de carvalho).

Na tradição irlandesa, o ouro não é particularmente significativo, ao contrário da prata, que representa autoridade. A cor dourada indica apenas que o ramo é brilhante e precioso. Já “muitas cores” tem um significado importante: um manto de várias cores representa o próprio druidismo, objetos ou criaturas multicoloridos possuem origem sobrenatural. O ramo é de madeira do Líbano, isto é, cedro. É uma árvore muitas vezes mencionada no Antigo Testamento. Não há cedros na Irlanda, de modo que a referência a essa árvore indica genericamente uma madeira rara e valiosa.

A árvore de que foi retirado esse ramo combina as qualidades de seus frutos. A noz não é necessariamente a proveniente da nogueira, pois, em gaélico medieval, a palavra cno indica ao mesmo tempo a noz e a avelã. Seja como for, essa noz representa sabedoria, poesia, magia, florestas. A maçã é o amor e a felicidade. A bolota é a abundância, enquanto o carvalho indica hospitalidade, tradição e lei. É com o aroma desse ramo que o gigante se alimenta.

A roupa que ele usa é um véu de cristal. Encontramos na lenda céltica barcos de cristal e edifícios de cristal (casas, fortalezas, castelos). Nesse caso, o cristal representa uma técnica e uma perfeição inacessíveis às habilidades humanas, bens que não podem ser comprados por nenhum soberano deste mundo.

Na minha opinião, Trefuilngid Tre-eochair é o deus do tempo gaélico. Além de ser o conhecedor de toda a história, é ele quem regula o curso do sol (aurora e poente). Estou mencionando tudo isso porque é ele próprio quem faz, nesse mesmo conto, as únicas atribuições direcionais seguras existentes na tradição irlandesa (mas as fortalezas e celebrações vêm de Foras Feasa ar Éirinn, “Fundação do Conhecimento sobre a Irlanda” ou simplesmente “História da Irlanda”, de Seathrún Céitinn):

SIAR, oeste (província: Connacht; fortaleza real: Uisnech; Beltaine) – Conhecimento e Magia – Caldeirão do Dagda

Sabedoria, alicerce, ensinamento, pacto, julgamento, crônicas, conselhos, relatos, histórias, ciência, decoro, eloquência, beleza, modéstia, generosidade, abundância, riqueza.

THUAIDH, norte (província: Ulaid, Ulster; fortaleza real: Tailtiu; Lughnasadh) – Batalha e Determinação – Pedra de Fail

Batalhas, disputas, audácia, locais incultos, lutas, arrogância, inutilidade, orgulho, capturas, ataques, severidade, guerras, conflitos.

OITHEAR, leste (província: Laighin, Leinster; fortaleza real: Temuir; festim de Temuir a cada três anos) – Prosperidade e Mudança – Espada de Nuada

Prosperidade, suprimentos, colmeias, torneios, feitos de armas, chefes de família, nobres, prodígios, bom costume, boas maneiras, esplendor, abundância, dignidade, força, riqueza, administração da casa, muitas artes, muitos tesouros, cetim, sarja, seda, trajes, hospitalidade.

DESS, sul (província: Mumhan, Munster; fortaleza real: Tlachtgha; Samhain) – Música e Poesia – Lança de Lugh

Cachoeiras, feiras, nobres, saqueadores, conhecimento, sutileza, ofício dos músicos, melodia, ofício dos menestréis, sabedoria, honra, música, aprendizagem, ensino, ofício dos guerreiros, jogo de fidchell, veemência, ferocidade, arte poética, advocacia, modéstia, código, séquito, fertilidade.

MIDE, centro (província: Mide, Meath)

Realeza Reis, mordomos, dignidade, primazia, estabilidade, instituições, esteios, destruições, ofício de guerreiros, ofício de condutores de carruagens, soldadesca, principados, grandes reis, ofício dos mestres-poetas, hidromel, generosidade, cerveja, renome, grande fama, prosperidade.

Geralmente, encontramos nos livros que a Taça (e, em consequência, o Caldeirão) localiza-se no oeste. Mas esse Caldeirão é o Caldeirão do Dagda, cuja propriedade característica é que ninguém dele se afaste sem estar saciado. É, portanto, um caldeirão nutridor, denotando abundância, fertilidade e comensalidade, isto é, que as pessoas se reúnam ao redor dele para obter alimento. Os textos irlandeses dizem que o poder do Dagda era a capacidade de controlar o clima, influenciando no desenvolvimento das plantações. Tudo isso combina com as atribuições do leste: prosperidade, suprimentos, etc. Mais adiante na lista, encontramos também “boas maneiras”, um imperativo nas refeições feitas em conjunto. Parece bastante adequado que o Caldeirão da Abundância fique no leste, a direção da Prosperidade, não no oeste.

Vamos olhar as atribuições do oeste. “Sabedoria, alicerce, julgamento, eloquência, generosidade, riqueza”: esses são os atributos do REI céltico. Ele precisa ser sábio para fazer sempre o julgamento correto, pois, se ele pronunciar uma sentença injusta, todo o seu reino pagará por isso. Os animais param de se reproduzir, as árvores não produzem mais frutos, as plantações morrem, os peixes desaparecem dos rios e lagos. A injustiça desperta a indignação da Esposa Divina do rei, a Deusa da Soberania (Fláith Érenn, “Soberania da Irlanda”). Além de justo, o rei precisa de riqueza para ser generoso. Quando lhe pedem um dom, ele tem de concordar em concedê-lo de acordo com a categoria do pretendente, sem mesmo perguntar o que este deseja. É o modo de demonstrar um “desapego” heroico aos bens materiais. Desse modo, a lança da realeza fica melhor no oeste que no sul.

A pedra, que “canta” sob cada rei predestinado, deve ser atribuída à música e ao sul, enquanto a espada do guerreiro deve ficar no norte, cuja atribuição principal é “batalha” – parece que a Irlanda do Norte já tinha problemas na época antiga.
Então, combinando as indicações de “A Segunda Batalha de Magh Tuireadh” (que enumera os Quatro Tesouros, as Cidades, os Mestres e os Deuses) e de “A Fundação do Domínio de Temuir” (que dá as atribuições direcionais), é possível fazer as seguintes relações:

SABEDORIA – oeste – terra (talam) – lança (gae) – cidade: Goria (de gor, calor moderado, incubação) – mestre: Esras (“Passagem”) – Soberania sacerdotal e guerreira – Lug

BATALHA – norte – ar (aer) – espada (claideb) – cidade: Findias (de find, branco, brilhante) – mestre: Uscias (“Água Fresca”) – Realeza – Nuada

PROSPERIDADE – leste – água (dobur) – caldeirão (coire) – cidade: Muirias (de muir, mar) – mestre: Semias (“Sutil”) – Abundância, Ressurreição, Regeneração – O Dagda

MÚSICA – sul – fogo (teine) – pedra (lía) – cidade: Falias (de fail, destino; nome simbólico da Irlanda: Inis Fail, Innisfal, “Ilha do Destino”) – mestre: Morfesa (“Grande Ciência”) – Todos os aspectos da Soberania – Bem indivisível de todos os Deuses

REALEZA – centro – éter/névoa (ceó) – Vazio/Plenitude – Expressa a precipitação dos quatro elementos em seu movimento e transformação.

Anotações Druídicas III

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Anotações Druídicas III: Toutouercia Beleni (A Liturgia de Belenos)

Bellou̯esus Īsarnos

1 Rac Uedian Runa
Runa antes da Prece
2 Litus Pempegenii
Ritual do Pentagrama
3 Toutouercia Beleni
A Liturgia de Belenos
3.1 Nigon (Limpeza)
3.2 Uedia (Oração)
3.3 Adberta (Sacrifício)
3.4 Lindon (Libação)
3.2.a Ops Nemesos: Comarcon Sauele
O Olho do Céu: Saudação ao Sol
4 Repita 2 (Litus Pempegenii)

1 Rac Uedian Runa

A runa (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Lamas mon ouxgabiu Sucelli me deluassetio uo rodarcu,
Lugous me riios urexteio uo rodarcu,
Maponi me glanos urexteio uo rodarcu,
In caranti lubic.
Snus lanobitun in trougi anson rodate:
Eponas sercan,
Brigindonos carantian,
Circii uissun,
Nantosueltas raton,
Nemetonas obnun,
Nodentos suanton
Ad in Bitu Triion urextun
Deuoi Senisteroi samali in Albiie uregont.
In scatu loucetuc papu, papu in diiu noxtic
Snus maronerton anextlon sueson rodate.

Runa antes da Oração

Ergo minhas mãos sob o olhar do Sucellos que me formou,
Sob o olhar de Lugus que me fez livre,
Sob o olhar de Maponos que me fez puro, em amizade e alegria.
Dai-me prosperidade em minha necessidade:
O amor de Epona,
A amizade de Brigindu,
A sabedoria de Circios,
A bênção de Nantosuelta.
O temor de Nemetona,
A vontade de Nodens,
Para que no Mundo do Três eu faça como os Deuses e os Ancestrais fazem em Albiios.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite, dai-me o vosso poder e proteção.

2 Litus Pempegenii

Exregontu, exregontu! Adgabiontu, adgabiontu!

Extigariu, a calge/a tute! Biuotus to mi, iacca to mi, sutani biiont molatoues suesron in mon cantlu. Catubodua Agrorigani, Sextansuesores, a Nox, Maguni Pritunixtomagesos, a Nemos ac Talamu!

Tigernos Cagnes are mi,
Tigernos Suissous eron mi,
Tigernos Andedubni dexsiue mon,
Tigernos Aratri toute mon,
Tigernos Nemesos uxi mi,
Talamu Deuia uo mi,
Tigernos Dubron Dubnon tri mi,
Uxmonios Maros Nemesos,
Uotaios Maros Talamonos.

Extigariu, a calge/a tute! Biuotus to mi, iacca to mi, sutani biiont molatoues suesron in mon cantlu.

Ritual do Pentagrama

[Caminha em círculo na direção dos ponteiros do relógio. Agita tuas mãos como se estivesses espantando pássaros.] SAÍ, SAÍ! PARA FORA, PARA FORA! [Também podes usar uma adaga. Repete as frases anteriores até sentires que o espaço está limpo, porém não mais de 7 vezes. Se usaste uma adaga, coloca-a em sua bainha ou no chão, fora do caminho.]

[Com os dedos de tua mão dominante juntos, tocando tua testa entre os olhos, dize:]
EU TE INVOCO [a força vital, nebos, ergue-se do teu coração; desce a tua mão à área genital:], Ó PÊNIS/Ó VULVA [de acordo com o teu gênero; o nebos desce internamente da tua testa através da coluna vertebral e alcança a área genital]! [Toca teu ombro direito:] VIDA PARA MIM [o nebos ergue-se dos genitais de volta ao teu coração e de lá para o teu ombro direito], [toca teu ombro esquerdo:] SAÚDE PARA MIM [o nebos cruza para o teu ombro esquerdo], [entrelaçando tuas mãos na altura do coração, dize:]. QUE VOSSOS LOUVORES ESTEJAM SEMPRE EM MEU CANTAR [imagina um globo de luz radiante com centro no teu coração e preenchendo todo o teu corpo, iluminando o espaço onde estás]. [Avança para o leste ou fica em pé onde estás e imagina um pentagrama em tua testa. Desenha-o ou lança-o para os limites do teu círculo, dizendo:] Ó CATUBODUA, RAINHA DA BATALHA [o nebos flui da tua mão e forma uma estrela diante de ti; ela permanece ali], [volta-te para o norte, em sentido anti-horário, e dize:], Ó SETE IRMÃS [as Plêiades; visualiza a estrela e sente-a como antes], [volta-te para o oeste e dize:], Ó NOITE [visualiza da mesma forma que antes], [de frente para o sul dize:], VIRGEM DO CAMPO DE TRIGO [visualiza da mesma forma que antes], [outra vez de frente para o leste, ergue o braço acima de sua cabeça e desenha o pentagrama ou lança-o para o alto, dizendo:], Ó CÉU [visualiza a estrela num ponto com o dobro de tua altura acima de ti] [olha para baixo de desenha o pentagrama na terra ou lança-o ao chão, dizendo] E TERRA [imagina o pentagrama abaixo de ti numa profundidade com o dobro da tua altura]!

Em pé, com teus braços abertos em forma de cruz, dize:

O SENHOR DA LEI DIANTE DE MIM,
O SENHOR DO CONHECIMENTO ATRÁS DE MIM,
O SENHOR DAS PROFUNDEZAS À MINHA DIREITA,
O SENHOR DO ARADO À MINHA ESQUERDA,
O SENHOR DO CÉU ACIMA DE MIM,
A TERRA DIVINA SOB MIM,
O SENHOR DAS ÁGUAS PROFUNDAS ATRAVÉS DE MIM,
O GRANDE PILAR DO CÉU,
O GRANDE ALICERCE DA TERRA.

Cercado pelas estrelas, agora brilhas com uma luz ponderosa. Linhas de luz provenientes das estrelas convergem no teu coração.

Repete a primeira parte:

EU TE INVOCO, Ó PÊNIS/Ó VULVA! VIDA PARA MIM, SAÚDE PARA MIM, QUE VOSSOS LOUVORES ESTEJAM SEMPRE EM MEU CANTAR.

3 Toutourcia Beleni (A Liturgia de Belenos)

A prece formal (couariuedia) é ritualizada e consiste em quatro partes básicas (petura uidodarna):

3.1 limpeza (nigon)
3.2 oração (uedia)
3.3 sacrifício (adberta)
3.4 libação (lindon)

3.1 Nigon

Nigi tou dui lamai ac eias arduosagietario.

Limpeza

Lava as tuas mãos e ergue-as.

3.2 Uedia

Argisame entar Deuus, Rix andeuoreti, Uatis ac Slani, ad me uerte tou ope. Larogenos immi, birroi senti in bitu mon nerton latiac, extos tou trexia exsanamis diuerbiiet papan meblan. A Belene noibisame, tigerne uerboudice, cleue mon uepus etic erna moi tou raton.

Oração

Ó brilhantíssimo entre os Deuses, Rei que concede grande ajuda, Profeta e Curador, volta para mim os teus olhos. Sou um filho da terra, curtos são meu poder e dias no mundo, mas tua força sem falhas sobrepuja todo mal. Santíssimo Belenos, senhor muito vitorioso, ouve minhas palavras e dá-me a tua benção.

3.2.a Ops Nemesos: Comarcon Sauele

Ops Deui mari,
Ops Deui Clutas,
Ops Rigos Budinas,
Ops Rigos Biuon,
Uer snis exsemaunos
Papa uaxtia ac tratun.
Uer snis exsemaunos
Coimu boudilanuc.
Cluta ti suesin,
A Sauelis clute.
Cluta ti suesin, a Sauelis,
Enepon Deui Biuotutos.

O Olho do Céu: Saudação ao Sol

O olho do grande Deus,
O olho do Deus da glória,
O olho do Rei dos exércitos,
O olho do Rei dos Vivos.
Vertendo sobre nós
A todo momento e estação.
Vertendo sobre nós
gentil e generosamente.
Glória a ti,
Tu, Sol glorioso,
Glória a ti mesmo, ó Sol,
Face do Deus da Vida.

3.3 Adberta

A Belene Agesilobere, sin aretoiberu are tou anextlon. Cardatosagiumi toi raton lauenias ollas uer mon mapus, ciliian, carantas etic mon toutan. Ac suemoi, essi maruon di me consamali mon biuotutan.

Sacrifício

Ó Belenos, Portador de Saúde, ofereço-te isto por causa de tua proteção. Imploro-te que concedas toda felicidade a meus filhos, esposa, amigos e ao meu povo. E para mim mesmo, que eu morra do modo como tenho vivido.

3.4 Lindon

Belene Areopsi,
Belene Argantogaise,
Belene Brani,
Belene Deuocaile,
Belene Drucouerte.

Belene Atir, toi molatus biietu [lindon seme dubri].

Belene Iaccitobere,
Belene Iessine,
Belene Toncetouede,
Belene Touissace,
Belene Uorete.

Belene Atir, toi molatus biietu [lindon seme meles].

Libação

Belenos previdente,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de água).

Belenos portador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos guia do destino,
Belenos líder,
Belenos auxiliador.
Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de mel).

4 Repete 2 (Litus Pempegenii).

Aos Deuses da Terra

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Aos Deuses da Terra

Bellou̯esus Īsarnos

Não vos trago incenso, pois incenso já tendes: as folhas e flores que perfumam o ar.
Não vos trago libações, pois libações já tendes: as fontes e correntezas ocultas na fundura da terra.
Não vos trago sacrifícios, pois sacrifícios já tendes: as plantas e animais mortos nos lugares ocultos vos pertencem.
Trago-vos em lugar disso o que não tendes: orações no som da voz humana. Preces são o meu presente para vós, o fino manto invisível da minha palavra.

E isto quem ousará? Quem irá além?

Entrego-vos meu coração como a chama do altar,
Meus ossos e carne como oferendas,
Meu sangue como libação.
Entrego-me a vós e à vida,
Neste dia, em todos os dias,
Com agradecimento e devoção.

Sacrifício Humano

Sacrifício Humano

Bellou̯esus Īsarnos

sacrificiohumanoO sacrifício humano praticado pelos druidas é tão comum na literatura antiga quanto é rara sua comprovação arqueológica. A afirmação dessa prática, negregada peculiaridade da religião gaulesa, além de notável demonstração de hipocrisia e xenofobia, é de natureza ideológica. Ainda antes de Gaius Iulius Caesar, foi Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), um dos maiores escritores da língua latina, quem qualificou os gauleses, literalmente, de “terríveis bárbaros que não hesitam em manchar seus altares com sangue humano”.

O detalhe não lembrado é que Cicero era um advogado e usou essa forte imagem exatamente no discurso de defesa de um certo Marcus Fonteius. Esse Fonteius fora legado romano na Gallia Narbonensis por três anos e estava sendo acusado de corrupção (receber propina) ante o Senado de Roma. O povo da província era representado pelo nobre treviro (anti-romano) Indutiomaros, sogro e inimigo político de outro notável treviro chamado Cingetorix (pró-romano). Cicero nunca teve envolvimento pessoal com Fonteius e aceitou fazer a defesa apenas por “corporativismo”: ambos pertenciam à classe dos equites (cavaleiros) e Cicero foi pressionado por outros colegas a fazer a defesa, registrada na Oratio pro M. Fonteio. O resultado foi que os gauleses, na mentalidade romana, tornaram-se desde então (meados do séc. I a. C.) famigerados sacrificadores de seres humanos em cerimônias religiosas.

Entretanto, seria rematada falsidade afirmar que a Gália não conheceu sacrifícios humanos. Importa determinar sua frequência e natureza. Dois tipos de sacrifícios são bem atestados em numerosas civilizações antigas (incluindo-se as do Mediterrâneo), onde possuem, de modo geral, duas finalidades: apaziguar os deuses ou agradecer por alguma graça recebida.

As descrições literárias que possuímos de sua realização entre os gauleses são bastante convincentes. Contudo, são bem outros seus objetivos. Encontramos com os celtas da Gália: 1) o sacrifício humano de substituição; 2) o divinatório e 3) o “judicial”, isto é, a aplicação da pena capital sob o disfarce de um sacrifício.

1 – Sacrifício de substituição

O sacrifício de substituição é mencionado por Caesar (Commentarii de Bello Gallico, VI, 16): “a nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […]”.

2 – Sacrifício divinatório

Diodorus Siculus relata o sacrifício divinatório em Bibliotheca Historica, V, 31: “os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias”. Strabôn conta a realização de um sacrifício desse tipo pelos gálatas antes da batalha contra Antígonos II Gonatás em 277 a. C. Vítimas humanas foram imoladas, consultando-se suas entranhas em um tipo de haruspício.

3 – Sacrifício “judicial”

O terceiro tipo de sacrifício, dito judicial, é registrado por Caesar na mesma passagem citada acima: “[…] Outros possuem figuras de enorme tamanho, cujos membros são construídos com vime, que enchem de homens vivos, os quais, tendo sido incendiados, perecem os homens envolvidos pelas chamas. Consideram que o sacrifício desses que foram apanhados cometendo furto, latrocínio ou qualquer outro crime é mais agradável aos deuses imortais; porém, havendo falta de vítimas desse tipo, chegarão mesmo a sacrificar inocentes”. Strabôn (Geographiká, IV, 4, 5) acrescenta: “gado, animais selvagens e todo tipo de seres humanos”. Note que Caesar usa a palavra “outros” (allii). Isso significa que algumas tribos usariam, outras não, as ditas “figuras de enorme tamanho”.

Esses autores, Caesar, Diodorus e Strabôn, são os que entraram mais profundamente na imaginação popular. Dão-nos, realmente, muito o que pensar.

O sacrifício judicial, como todos que já assistiram o filme devem ter percebido, é a fonte do impressionante Wicker Man (“Homem de Vime”). É necessário salientar que os homens colocados dentro dele são criminosos condenados, ao menos preferencialmente, e ali estão porque cometeram um ato detestável cuja punição vão enfrentar. Afirmar que sua morte seria “mais agradável aos deuses imortais” é a mesma justificativa que a religião, em sua qualidade de vetor do controle social, tem usado para tudo através dos séculos, druidas e padres e imãs e rabinos igualmente.

De resto, não existe absolutamente nenhuma evidência física de que essa cerimônia da execução no Colosso de Vime fizesse parte do repertório sacro costumeiro da Gália. Pelo contrário, um outro ponto contribui para que desconfiemos dessa descrição: ossadas de animais selvagens jamais foram encontradas nos santuários gauleses. Bovinos, ovinos, equinos e aves sim, todos animais domésticos, até cães, mas não animais selvagens. Existe uma lógica por trás dessa ausência que não poderia ter escapado aos sacerdotes antigos: os animais da natureza já são propriedade dos deuses, como oferecer-lhes o que já lhes pertence? Ser desonesto com os deuses é sinal de forte estupidez.

Existe um eco distante dessa ideia no Audacht Morainn. O juiz Morann manda dizer ao rei Feradach: “Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório”, ou seja, que ele não tente se mostrar generoso fazendo simplesmente aquilo que tem obrigação de fazer, pois isso não é generosidade nem mérito, mas somente dever. Se você quiser demonstrar generosidade, faça algo que não é sua obrigação. Se você quiser dar algo aos deuses, não lhes ofereça o que, por direito, já é deles.

Passemos ao sacrifício divinatório. Primeiramente, terminarei a citação de Diodorus, que havia ficado pela metade. Retomo-a exatamente do ponto em que tinha parado: “E é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellou̯esus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas”. Maravilhoso, não?

Duas classes de homens aparecem nesse trecho: 1) os ‘filósofos’, presença obrigatória nos sacrifícios, responsáveis por falar com os deuses, pois são eles que possuem “experiência com o divino” e “falam a língua dos deuses”, de forma que “apenas por seu intermédio as bençãos podem ser buscadas” e 2) os “poetas cantores” que operam junto aos “filósofos”.

O filósofo e o poeta-cantor não “sujam as mãos” nos sacrifícios. Quem o faz? Ora, o adivinho, de quem Diodorus havia falado imediatamente antes. Aí temos as “três classes de homens excepcionalmente honrados (tría phûla tōn timōménōn diapheróntōs estí) em toda a Gália”, de que Strabôn falou na Geographiká (IV, 4, 4): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai), explicando que os bardos são cantores e poetas (humnētaí kaì poiētaí), os vates, adivinhos e filósofos naturais (hieropoioí [“fazedores do sagrado”] kaì phusiológoi), enquanto os druidas ocupavam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral (phusiológoi kaì ēthikoi philosóphoi). Afirmou a seguir que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas – o que os liga ao julgamento e condenação pela prática de delitos, como visto acima.

A ideia de que druida, vate e bardo são todos, de alguma forma, druidas, vem de Caesar, que não fala senão dos druidas. Os autores gregos mencionam-nos separadamente e em momento algum dão a entender que vate e bardo são druidas. Mas esse não é exatamente o ponto, não neste momento.

A questão agora é o sacrifício divinatório. Cabe ao druida avaliar a sua adequação ética e decidir se pode ou não ocorrer, pois os druidas são “os mais justos dos homens”, mas não será ele, druida, a empunhar a lâmina sacrificial. Isso cabe ao adivinho, vate, que domina a técnica sacrificial desde uma época em que os druidas ainda não existiam. Ao poeta-cantor, o bardo, cabe o aspecto teatral, de fundamental importância em toda cerimônia religiosa e tão visível no cerimonial da Igreja Romana. Ao druida não importam o sangue do sacrifício nem a técnica sacrificial. Ao druida importam a compreensão teológica e a justificação social do ato.

“[…] desde uma época em que os druidas ainda não existiam.” Isso explica perfeitamente porque o druidismo gaulês e o irlandês são diferentes e também porque Caesar afirmou que o druidismo teve origem na Grã-Bretanha e ainda porque certos personagens da lenda irlandesa, como Fedlimid, do Táin, vão ali estudar as artes mágicas. Caesar não fazia diferença entre druida, vate e bardo. Quando ele diz “druida”, não há como saber a quem se refere.

Para encerrar este tópico, o sacrifício divinatório é o remédio dos gauleses “quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância”. Talvez pudéssemos acrescentar o que diz Caesar: “para propósitos públicos”. Necessariamente, não se tratava de algo frequente.

No terceiro tipo de sacrifício humano (ou primeiro, comecei de trás para diante), o sacrifício de substituição, que também se poderia chamar terapêutico, um indivíduo seriamente enfermo, ou em outra situação de grave perigo, sacrifica ou promete sacrificar aos deuses alguém que o substitua. Existe nisso uma contradição. Os autores antigos sabiam (o próprio Caesar o diz) que o ensinamento que os druidas mais ardentemente desejavam inculcar era a sobreviência da alma, o renascimento em uma outra vida (não entro no mérito de ser neste ou em outro mundo). Os autores antigos registraram com espanto o destemor insano dos celtas diante da morte.

Como se explicaria então esse pavor que leva alguém a barganhar com os deuses oferecendo uma vida humana em troca da sua? Como, se a promessa é o renascimento em outro mundo sem mal, sem doença, sem velhice, sem mentira (aceitando-se a imagem feita pelos irlandeses)?

A resposta não é tão difícil: estamos outra vez olhando para uma crença céltica anterior ao druidismo. O movimento druídico representou para a religião céltica o mesmo que o orfismo e o pitagorismo para a religião grega, introduzindo o conceito de imortalidade da alma, que não fazia parte das mais antigas concepções gregas (tampouco indo-europeias, de modo geral), tais como se encontram, por exemplo, em Homero. Não tenho certeza, pois não é minha área, mas parece-me ter lido que essa ideia era estranha também ao judaísmo primitivo.

Gregos e romanos dificilmente poderiam ter visto os ritos que relataram em seus escritos. No caso dos celtas, sabe-se há décadas, graças aos estudos filológicos, que escritores como Caesar, Strabôn, Diodorus, Diógenes e Athenaios copiaram, com maior ou menor fidelidade, algumas vezes intencionalmente deformando-a (Caesar), a obra de um autor mais antigo, Poseidônios (cerca de 60 anos antes de Caesar), que usou observações pessoais e, para aquilo que não pôde ver, copiou ele também de escritores mais antigos, como Éphoros e Timagenes, cujos trabalhos desapareceram há séculos – o mesmo aplicando-se aos de Poseidônios.

Quando lemos o que os autores clássicos escreveram sobre os celtas, devemos estar cientes de que eles frequentemente citam obras duzentos ou trezentos anos anteriores a sua própria época e registram, como se as houvessem testemunhado, coisas que há muito não mais existiam. É exatamente o que ocorre em relação aos druidas. É necessário discernir camadas.

Assim como a implantação do cristianismo na Irlanda não varreu totalmente a religião nativa, também os druidas, ao atingirem a posição de proeminência que ocuparam na Gália, não destruíram o que antes deles havia existido. A marca do druidismo gaulês foi a construção de uma religio publica, não dessemelhante à romana, em substituição às práticas majoritariamente privadas que formavam a religião das tribos célticas no período anterior.

Mas essas práticas não foram probidas nem seus especialistas (possivelmente os vates) impedidos de exercer seu ministério. E, quando o druidismo saiu de cena, foram esses especialistas que tomaram o lugar e o nome prestigioso dos druidas e são eles que aparecem com a denominação “druidas” nas crônicas romanas tardias.

A questão do sacrifício pode parecer essencial quando se considera bardo, vate e druida como diferentes funções de um grupo único. Quando se compreende que esse não é o caso, percebe-se que o sacrifício (como técnica) importa ao vate, sendo apenas correlato ao druida e ao bardo.

Os druidas restringiram enormemente o sacrifício humano, substitutindo-o, sempre que possível, pelo animal, que a arqueologia comprova sobejamente e de que as fontes clássicas, de forma muita estranha, não fazem menção. O sacrifício humano foi conservado para situações de grande stress coletivo, sua realização subordinada à aprovação dos druidas. Fora isso, a atribuição druídica de organizar a sociedade por meio da aplicação do direito canalizou o sacrifício humano para a Justiça, o que seria previsível numa época em que o crime, no sentido jurídico, e a ofensa aos deuses não estavam claramente separados.

Uma coisa é certa: os gauleses não sacrificavam seres humanos para dar aos deuses algo de que estes precisassem ou quisessem. Quando derramavam sangue humano em seus altares, faziam-no em benefício próprio conscientemente. Os deuses nunca necessitaram de sangue humano, embora alguns deles possam apreciá-lo. Eles mudam muito mais devagar do que nós e acho realmente difícil que tenham passado a sentir necessidade de sangue humano, essa substância tão instável, nos últimos 1.500 anos.

Anotações Druídicas I

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Anotações Druídicas I: a posição social dos druidas comparada à dos ἱερῆες homéricos ou onde estão os bardos e vates?

Bellou̯esus Īsarnos

Existia, no mundo céltico e no mundo homérico, uma espécie de “burguesia”, uma categoria de homens que ocupavam um lugar intermediário entre os proprietários ricos – na Gália, os cavaleiros, *epates (latim equites) – e os proletários, simples trabalhadores. Essa burguesia compreendia os adivinhos, μάντεις, mánteis (gaulês *u̯ātīs, *u̯elētes), os ἀοιδόι, aóidoi, ou bardos (*bardoi), os médicos, os operários cujo ofício exigisse um aprendizado, tais como os carpinteiros, os ferreiros, os esmaltadores. Na Irlanda e na Gália, incluía-se nessa burguesia o soldado profissional, que era desconhecido de Homero; entretanto, o comerciante não integrava a burguesia nem na Gália independente nem na Irlanda épica nem entre os helenos da “Ilíada” e da “Odisseia”.

O druida, proveniente da Grã-Bretanha em época mais recente (dando-se crédito a César [1]), não se posicionou nessa burguesia; elevou-se acima dela e, novamente segundo o general romano, atingiu quase o mesmo nível dos cavaleiros. A informação trazida por César está de acordo com a literatura épica da Irlanda.

Os druidas eram homens de posição muito superior à dos sacerdotes, ἱερῆες (hierēes), da “Ilíada”. Estes formavam um grupo à parte, distinto simultaneamente da burguesia e da aristocracia, porém sem grande influência; encontramos o equivalente na Gália Cisalpina no relato sobre o ano 216 aEC, na menção aos templi antistites que, entre os boios, bebiam no cálice feito do crânio do cônsul romano Lucius Posthumius (2); eram simplesmente os ministros de um templo, como o ἱερεύς (hieréus) homérico.

Abaixo dos druidas, os u̯ātīs e os bardoi ocupavam lugar análogo ao dos adivinhos, μάντεις, mánteis e ἀοιδόι, aoidói, na literatura homérica, onde a posição dos μάντεις era intermediária entre a aristocracia e a plebe, isto é, entre os ἄριστοι, áristoi, e os homens do povo, δῆμος, dēmos. Em Homero, formavam duas classes do importante grupo dos operários possuidores de um ofício que necessitasse de longo aprendizado e que, não possuindo fortuna própria, viviam de oferecer os seus serviços ao público, δημιοεργοί, dēmioergói. Tais operários, nos poemas homéricos, dividiam-se em cinco classes: 1a., os adivinhos; 2a. os homens que trabalham a madeira, os metais, a pedra, τέκτονες, téktones; 3a. os médicos; 4a. os aedos e 5a. os arautos (3).

César lançou na plebe gaulesa todo esse grupo de profissionais; não lhe era possível integrá-los às duas classes superiores: 1a. cavaleiros, equites; 2a. sacerdotes ou druidas, que, passado o período romano, reaparecem ambas na Idade Média (como nobreza guerreira e “príncipes” da Igreja Católica). César não concebia uma categoria intermediária entre a plebe e essa aristocracia meio militar, meio religiosa. Sendo ele próprio membro da aristocracia romana e pontífice, podia entender a posição do cavaleiro e do druida gauleses; para a “burguesia” gaulesa, entretanto, não tinha senão desprezo.

Há uma passagem de um dos livros perdidos de Posidônio de Apameia (c. 135 aEC – c. 51 EC) que justifica, de certo modo, a atitude de César ao menos em relação aos bardos: Louernius, pai do rei Bituitus, ofereceu ouro e um banquete público que durou vários dias a fim de ganhar o favor do povo. Certo bardo, chegando tarde para aproveitar a generosidade de Louernius, cantou um poema em que louvava a grandeza deste e se lamentava por seu atraso. Encantado, enquanto partia em sua carruagem, Louernius jogou ao bardo uma bolsa cheia de ouro. O poeta seguiu correndo ao lado do veículo a entoar louvores às marcas deixadas pelas rodas que “traziam áureos benefícios aos homens” (4).

Mais tarde, Bituitus, então rei dos alóbroges, enviou uma embaixada aos salúvios . Um bardo fazia parte do cortejo que acompanhou o embaixador, tendo como função cantar louvores ao rei Bituitus, aos alóbroges e ao embaixador, cujo nobre nascimento, bravura e riqueza elogiava ao acompanhamento da lira (6). Posidônio também descreveu os bardos como “companheiros de mesa e parasitas (isto é, aduladores) dos reis” (7). Assim, é compreensível que um “grande senhor” como César tenha relegado os bardos à plebe comum e não se tenha dignado a falar deles.

A respeito dos adivinhos, silêncio. Ficamos reduzidos às informações que nos foram prestadas pelos autores gregos, isto é, Diodoro Sículo, Timagenes e Estrabão. De acordo com Diodoro, todo o povo obedecia aos adivinhos (8). Para Estrabão, todas as tribos gaulesas reconheciam a honravam excepcionalmente três grupos de homens: os bardos, os vates e os druidas. Os bardos, cantores de hinos e poetas; os vates, que fazem sacrifícios e interpretam a natureza para adivinhar o futuro, e os druidas, que se ocupam da interpretação da natureza com idêntica finalidade e também com a filosofia moral (9). Dessa filosofia moral pouco se sabe. Diógenes Laércio, contudo, preservou um dos aforismos druídicos: “Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura” (10). Os druidas, graças a sua reputação de “os mais justos dos homens” (Estrabão), chegaram a inspirar nas tribos uma tal confiança na equidade dos seus pareceres que o julgamento de todos os processos públicos e privados, sobretudo os casos de homicídio, era frequentemente entregue ao seu julgamento.

Se o testemunho de César fosse aceito literalmente, os druidas teriam julgado todos os processos (11). Existe nesse ponto, contudo, um exagero que fica evidente à simples leitura dos “Comentários”. Certas disputas entre os gauleses mencionadas em “Sobre a Guerra da Gália” não são julgadas pelos druidas, mas pelas assembleias tribais ou por magistrados eleitos. A verdade a esse respeito encontra-se em Diodoro, que reproduz com mais fidelidade o texto de Posidônio: “Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens [os druidas] e a seus poetas cantores [os bardos] e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; frequentemente, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas” (12). Observe-se a presença do advérbio “frequentemente” (πολλάκις, pollákis, no original) indicando que a arbitragem druídica não se dava em todos os casos, mas de forma recorrente. Desse modo, percebemos que os druidas gauleses possuíam uma grande influência política, embora não fossem homens de guerra, como os cavaleiros. Essa é a principal causa para a proeminência que César lhes atribuiu no Livro VI dos “Comentários”, totalmente desconsiderando bardos e vates.

Outrossim, já vimos que havia certa sobreposição entre as funções dos vates e as dos druidas. Na verdade, a ascendência moral dos druidas tornou-os indispensáveis à comunicação com os deuses por meio dos ritos sacrificiais, como ensinou Diodoro (13). A influência política e o poder religioso dos druidas permitiram a César (e a seus leitores) equipará-los aos pontífices, funcionários da mais alta importância para o estado romano e entre os quais o próprio César tinha lugar (14). É compreensível que tenham chamado especialmente a atenção do general romano.

Havia na Gália uma regra que teria contribuído muito para dar aos druidas a influência poderosa de que desfrutavam em detrimento dos u̯ātīs ou u̯elētes. Admitiu-se o princípio de que era impossível a realização de um sacrifício sem o concurso dos druidas. Essa parece ter sido uma lei absoluta, ainda que César nos fale somente da parte que ligava os druidas aos sacrifícios humanos (15). A consequência dessa lei era a impossibilidade, para os u̯ātīs, de proceder à divinação pelo sacrifício sem a cooperação dos druidas, o que os colocaria em posição de dependência destes quando se recorresse ao modo de divinação que parece ter sido o mais importante na Gália, a divinação pelo sacrifício humano. Eis, novamente, a razão pela qual César considerou os adivinhos gauleses como algo sem importância e deles não se ocupou.

A necessidade da intervenção dos druidas para a validade dos sacrifícios parece indicar que eram sobretudo sacerdotes. Apesar disso, seria grave equívoco igualar o druida gaulês ao ἱερεύς homérico.

O ἱερεύς homérico adivinha o futuro como o μάντις. Visto desse modo, assemelha-se ao druida, que adivinha o futuro como o u̯elēđ. Mas o ἱερεύς não está associado a uma corporação, como estavam os druidas. Ele liga-se a um templo, consagrado a uma divindade especial, e o ἱερεύς tem por única função o cuidado desse templo e o culto que nele recebe o deus. Assim aparece no Canto I da “Ilíada” o sacerdote de Apolo, Crises, cuja filha Agamênon captura e que vem a ser restituída graças à proteção do deus de que o sacerdote é servidor. No Canto V do mesmo poema, surge Dares, sacerdote de Hefesto, que tem dois filhos. Um destes é morto pelo heroi grego Diômedes; o outro escapa, evitando, pela proteção de Hefesto, a morte que Diômedes lhe daria. Hefesto desejava poupar ao velho pai o pesar doloroso que lhe causaria a perda dos dois filhos.

Na Grécia homérica, os ἱερῆες podiam auferir vantagens econômicas do seu ofício (16), o mesmo aplicando-se aos druidas da Gália, que, para começar, estavam isentos do serviço militar e do pagamento de quaisquer obrigações tributárias (17). Todavia, o ἱερεύς não ocupava a mesma posição de importância que o druida. A sua intervenção não era necessária à regularidade dos sacrifícios. Nenhum sacerdote intervém nos sacrifícios oferecidos pelos gregos. O exército grego não contava com capelães. É o rei supremo, Agamênon, que, antes da primeira batalha, oferece em sacrifício ao todo-poderoso filho de Cronos um boi gordo de cinco anos; é ele que, acompanhado de outros sete reis, dirige uma prece solene em nome das tropas ao grande Zeus. Nessa época, cada guerreiro em particular fazia, por seu interesse pessoal, um sacrifício ao deus pelo qual tivesse especial devoção. Quando se celebrou entre troianos e gregos um tratado que previa a solução do conflito entre as duas nações a um combate singular entre Páris e Menelau, foi mais uma vez Agamênon que, cercado por outros reis, invocou Zeus e cortou as gargantas dos cordeiros sacrificiais.

Da mesma forma, em Roma, sob a realeza, o soberano era o primeiro-ministro da religião e, ao mesmo tempo, o primeiro magistrado do estado. Ainda depois da queda da monarquia, o respeito ao rito primitivo conservou o título de rex sacrorum ou rex sacrificiorum (“rei dos sacrifícios”).

Vemos assim que, entre os gregos homéricos bem como entre os romanos do período mais antigo, a autoridade política do soberano misturava-se à autoridade religiosa. Para os gregos, à figura e atuação do ofício sacerdotal exclusivo faltava o peso da força política, ao passo que, para os gauleses, com a autoridade política e religiosa separadas, o ato sacrificial não poderia ser realizado senão pelo u̯ātīs com a participação do druida, ficando vedada a sua prática válida pelo magistrado supremo, fosse este hereditário ou eleito.

Cabia ao druida decidir quem poderia se comunicar com os deuses, sendo essa uma das principais fontes do seu poder.

Notas

1) Caio Júlio César (100 aEC – 44 aEC), Commentarii de Bello Gallico, VI, 13.

2) Tito Lívio (c. 59 aEC — 17 EC), Ab Vrbe Condita Libri, XXIII, 24: Ibi Postumius omni ui ne caperetur dimicans occubuit. Spolia corporis caputque praecisum ducis Boii ouantes templo quod sanctissimum est apud eos intulere. Purgato inde capite, ut mos iis est, caluam auro caelauere, idque sacrum uas iis erat quo sollemnibus libarent poculumque idem sacerdoti esset ac templi antistitibus (ali Posthumius caiu, lutando com toda a sua força para não ser capturado. Os boios cortaram a sua cabeça, e carregaram-na e aos espólios que roubaram de seu corpo em triunfo ao mais sagrado templo que possuíam. Depois disso, limparam a cabeça de acordo com seu costume e, tendo coberto o crânio com ouro batido, usaram-no como cálice para libações em seus festivais solenes e taça de beber para seus altos sacerdotes e outros ministros do templo).

3) Homero, Odisseia, XVII, 383-385: […] ἄλλον γ᾽, εἰ μὴ τῶν οἳ δημιοεργοὶ ἔασι, / μάντιν ἢ ἰητῆρα κακῶν ἢ τέκτονα δούρων, / ἢ καὶ θέσπιν ἀοιδόν, ὅ κεν τέρπῃσιν ἀείδων; ([…] a menos que seja um daqueles que são mestres de algum ofício público, / um profeta, ou um curador de enfermidades, ou um construtor, / sim, ou um sublime intérprete, que oferece deleite com o seu cantar?).

4) Citado por Ateneu de Náucratis, Deipnosophistaí, L. IV, 152e.

5) No ano 121 aEC.

6) Apiano de Alexandria (c. 95 – c. 165 EC), Fragmenta de Rebus Gallicis, XII.

7) Diodoro Sículo (séc. I a EC), Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes.

8) Estrabão (64/63 aEC – 24 EC), Geōgraphiká, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objeto de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas.

9) Diógenes Laércio (séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton, I, 6.

10) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

11) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

12) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31.

13) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31: […] e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo” [isto é, um druida], pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens que, pensam eles, do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas […]

14) César deteve a posição de Pontífice Máximo de Roma de 63 aEC até a sua morte, 19 anos mais tarde.

15) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 16: Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então lhes põem fogo, perecendo todos nas chamas. Acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses, mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

16) V. Odisseia, IX, 193-205; 346-396, onde se mencionam as riquezas de Marão, sacerdote de Apolo.

17) César, Comentarii de Bello Gallico, VI, 14.