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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma “interpretatio graeca” e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (“funera sunt […] magnifica et sumptuosa”), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, “uita altera ad manes”). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena (“[…] sed ab aliis post mortem transire ad alios”). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (“regit idem spiritus artus orbe alio”). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [‘síd’] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [‘áes síde’]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. “Teatro Selecto de Calderón de la Barca”. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25 e “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). “Alexándrou Anábasis”, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). “De Chorographia”, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (“olim”, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. “De Chorographia”, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), “Bibliotheca histórica”, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – c. 24 EC). “Rerum Geographicarum Libri XVII”, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). “Factorum et Dictorum Memorabilium”, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). “De Bello Ciuili uel Pharsaliae”, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). “De Vita Pythagorica”, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos “rishis” indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). “Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton”, I, 6.

16) “Pythagorica Hypomnemata”.

17) Hippolytus (170–235 EC). “Refutatio Omnium Haeresium”, I, 22.

18) “Stromata”, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) “Aduersus Iulianum”.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), “Punicorum Libri Septemdecim”, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). “Descriptio Graeciae”, X, 21, 6.

22) “Echtra Condla”, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

 

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5o. EBDRC

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5o. EBDRC – Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta

NAS PEGADAS DOS DEUSES
Mitos e Ritos dos Celtas

Pela primeira vez no Nordeste do Brasil

Recife – PE

18, 19 e 20 de abril de 2014

Onde: Pousada Aldeia dos Camarás (Rua Alcides Maia, 301, Camaragibe, Recife – PE), fone (81) 8923-4065 (falar com Renata Gueiros)

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Valor* das inscrições e formas de pagamento: (hospedagem + refeições + palestras/oficinas):

De 29/11/2013 a 31/12/2013: R$ 282,00 em até 3x de R$ 94,00 (dez/jan/fev).
De 01/01/2014 a 31/01/2014: R$ 312,00 em até 2x de 156,00 (jan/fev).
A partir de 01/02/2014: R$ 342,00 em parcela única.

* Translado das vans incluído.

Refeições: café da manhã (dias 19 e 20), almoço (dias 18, 19 e 20), coffee break (dias 18 e 19) e jantar (dias 18 e 19), num total de 9 refeições.

INSCRIÇÃO

Informações pessoais

Nome completo:
RG:
CPF:
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Fone para contato:
E-mail:
Nome para o crachá:

Pertence a algum grupo (nemeton, caer, grove, ordem, coven, outro)?
Nome:

Druidismo? ( )
Reconstrucionismo Celta? ( )
Outro? ( ) Qual? …………………………

Iniciante em Druidismo ( ) Sim ( ) Não
Iniciante em Reconstrucionismo Celta? ( ) Sim ( ) Não

A inscrição somente será efetuada após confirmação do depósito na conta*:

Banco: Bradesco
Agência: 3201-8
Conta-corrente: 0520165-9
Nome: Renata Romero Gueiros

Enviar dados da operação ou comprovante para o e-mail: renatita@gmail.com.

* No caso de parcelamento, após a comprovação do pagamento da última parcela; menores de idade somente acompanhados dos pais.

Cronograma provisório

5ebdrc

1º. dia – 18/04 (sexta-feira)

9:00 às 11:30

Recepção e acomodação

12:00

Almoço

14:00

Abertura do V EBDRC

14:30

Palestra

Belloesus īsarnos

(RS)

A Religião dos Celtas – Inscrições, iconografia,
literatura – O que os próprios celtas disseram e o que os outros disseram
sobre eles

16:00

Palestra

Renata Gueiros

(PE)

O Papel das Mulheres no Druidismo –
Ontem e Hoje

17:00

Coffee break

17:45

Workshop

Bandruir

(RJ)

Clava e Harpa, Corpo e Alma: A Magia
Bárdica nos Rituais

18:45

Intervalo

19:00

Jantar

20:00

Mesa Redonda

Todas as Árvores do Bosque: caminhos e rumos do Druidismo
no Brasil

21:30

Fim das atividades do dia

2º. dia – 19/04 (sábado)

7:00 às 9:30

Café da Manhã

9:30   

Palestra

Druida
do Vento (MS)

A Sacralidade Local e os Ritos Sazonais

10:40

Atividade

Rowena e Endovelicon (SP)

Aquecendo os Caldeirões

12:10

Almoço

14:00 

Palestra

Rafael Corr (SC)

Música Tradicional Irlandesa – Uma
análise interativa de sua temática e influência no cenário folk atual

15:10

Atividade

Wallace William de Souza
(SP)

A Rainha Égua – A Retomada da Soberania.

16:30

Coffee break

17:15

Atividade

Marcela
Badolatto (SP)

Tema a definir

18:30

Intervalo

19:00

Jantar

20:00

 

Oficina

Belloesus īsarnos

 (RS)

1ª parte – Não diga emãcóu.

2ª parte – Técnicas
básicas para a criação e uso de selos mágicos.

21:30

Fim das atividades do dia

3º. dia – 20/04 (domingo)

7:00 às 9:30

Café da Manhã

9:00   

Palestra

Joab Nascimento (PB)

Ritos Sacrificiais e Sacrifícios Rituais: Do Antigo ao Atual

10:10

Atividade

Marcos
Reis (SP)

Confeccionando o Ramo de Prata: tecendo a ligação
entre os Reinos.

11:40

Intervalo

12:00

Almoço

14:00

Visita ao Instituto Ricardo Brennand**

 

Encerramento

** Opcional, R$ 20,00 entrada inteira e R$10,00 a meia.

Edições anteriores:

2010I EBDRC: Florianópolis – SC – Sul
2011II EBDRC: Cotia – SP – Sudeste
2012III EBDRC: Novo Hamburgo – RS – Sul
2013IV EBDRC: Cotia – SP – Sudeste

Fotos AQUI.

Pousada Aldeia dos Camarás

Bellouesus /|\

O Homem Universal???

homunBum yn lliaws rith
Kyn bum kisgyfrith.

Estive numa multiplicidade de formas
Antes de assumir um aspecto constante.

De: Kat Godeu (“A Batalha das Árvores”), Llyfr Taliesin, VIII (“Livro
de Taliesin”, 8)

Gvolychaf vyn tat.
Vyn duw vyn neirthat.
A dodes trwy vy iat
Eneit ym pwyllat.
Am goruc yn gwylat.
Vy seith llafanat.
O tan a dayar.
A dwfyr ac awyr.
A nywl a blodeu
A gwynt godeheu.
Eil synhwyr pwyllat
Ym pwyllwys vyn tat.
Vn yw a rynnyaf.
A deu a tynaf.
A thri a wedaf.
A phetwar a vlassaaf.
A phymp a welaf.
A chwech a glywaf.
A seith a arogleuaf.

Adorarei meu pai,
meu Deus, meu fortalecedor,
que introduziu por minha cabeça
uma alma para guiar-me,
que para mim fez no discernimento
minhas sete faculdades.
Do fogo e da terra,
da água e do ar,
de brumas e flores
e do vento meridional.
Outros sentidos da consciência
para mim teu pai criou.
Um é o instinto,
com o segundo eu toco,
com o terceiro chamo,
com o quarto saboreio,
com o quinto vejo,
com o sexto ouço,
com o sétimo cheiro.

De: Kanu y Byt Mawr (“A Canção do Macrocosmo”), Llyfr Taliesin, LV (“Livro de Taliesin”, 55)

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do viii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e sua compostura; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

De: Códice Clarend, vol. XV, fol. 7., p. 1, col. a, manuscrito do Museu Britânico (catalogado como Additional, 4783)

Na Introdução do Senchus Mór (um texto jurídico composto na época de Lóegaire, o último rei pagão da Irlanda) está escrito:

Ina diaig sin Connla Cainbrethach, sui Connacht; do roiscridhe do feraib Erenn i ngais, os e co rath in Spiruta naoim; is é do-gne conflicht na Druidhe, asberddissidhe badur et do dena nem ocus talam ocus muir, 7rl (depois dela veio Connla Cainbrethach, grande sábio de Connacht; ele ultrapassava todos os homens de Ériu em sabedoria, pois era um “file” com a graça do Espírito Santo; ele costumava discutir com os Druidas, que diziam terem feito o céu e a terra e o mar etc.).

O Satapatha Brahmana, texto indiano que descreve detalhes dos ritos védicos, dá as instruções para o Purushamedha (Parte V, 13:6:1 a 13:6:11). Purushamedha significa literalmente “sacrifício humano”. Purusha é o ser humano primordial, um gigante cósmico sacrificado pelos próprios deuses para dar início à criação do universo.

Se os celtas possuíam uma versão do Purusha védico (comparável ao Adam Kadmon, Homem da Terra, da Cabala, ao Ánthropos da Gnose e ao gigante Ymir ou Aurgelmir da mitologia nórdica), isso seria uma explicação possível para o sacrifício humano entre os celtas e para a afirmação dos druidas irlandeses que o Senchus Mór registra: o sacrifício humano reconstitui o ato de criação do universo pelo sacrifício do homem arquetípico, com os sacerdotes desempenhando o papel dos deuses e reencenando periodicamente (ou sazonalmente) a criação do mundo pela morte de uma vítima que representa o gigante do começo dos tempos.

Na concepção indiana do Vedanta, janmādy asya yatah, a verdade absoluta de que tudo emana, tem sua personificação em Purusha, que é pura consciência e contrasta com Prakrti, o mundo material.

Contudo, o Purushamedha védico era originalmente um ato simbólico.

Bellouesus /|\

A Epifania de Ísis no “Asno de Ouro” de Lucius Apuleius

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4. Per intextam extremitatem et in ipsa eius planitie stellae dispersae coruscabant earumque media semenstris luna flammeos spirabat ignes. Quaqua tamen insignis illius pallae perfluebat ambitus, individuo nexu corona totis floribus totisque constructa pomis adhaerebat. Nam dextra quidem ferebat aereum crepitaculum, cuius per angustam lamminam in modum baltei recurvatam traiectae mediae aucae virgulae, crispante brachio trigeminos iactus, reddebant argutum sonorem. Laevae vero cymbium dependebat aureum, cuius ansulae, qua parte conspicua est, insurgebat aspis caput extollens arduum cervicibus late tumescentibus. Pedes ambroseos tegebant soleae palmae victricis foliis intextae. Talis ac tanta, spirans Arabiae felicia germina, divina me voce dignata est:

Aqui e ali viam-se estrelas e no meio delas localizava-se uma lua que brilhava como uma labareda de fogo. Havia ao redor do manto uma coroa ou guirlanda de flores e frutas. Em sua mão direita, tinha um sistro de bronze que produzia um som agradável, portava em sua mão esquerda uma taça de ouro e desta uma áspide erguia sua cabeça com uma goela que inchava. Seus pés fragrantes estavam cobertos com calçados entrelaçados e forjados com a palma da vitória. Desse modo a forma divina, exalando o aroma aprazível da fértil Arábia, dignou-se falar-me:

5. “En adsum tuis commota, Luci, precibus, rerum naturae parens, elementorum omnium domina, saeculorum progenies initialis, summa numinum, regina manium, prima caelitum, deorum dearumque facies uniformis, quae caeli luminosa culmina, maris salubria flamina, inferum deplorata silentia nutibus meis dispenso: cuius numen unicum multiformi specie, ritu vario, nomine multiiugo totus veneratus orbis. Inde primigenii Phryges Pessinuntiam deum matrem, hinc autochthones Attici Cecropeiam Minervam, illinc fluctuantes Cyprii Paphiam Venerem, Cretes sagittiferi Dictynnam Dianam, Siculi trilingues Stygiam Proserpinam, Eleusinii vetusti Actaeam Cererem, Iunonem alii, Bellonam alii, Hecatam isti, Rhamnusiam illi, et qui nascentis dei Solis <et occidentis inclinantibus> inlustrantur radiis Aethiopes utrique priscaque doctrina pollentes Aegyptii caerimoniis me propriis percolentes appellant vero nomine reginam Isidem. Adsum tuos miserata casus, adsum favens et propitia. Mitte iam fletus et lamentationes omitte, depelle maerorem; iam tibi providentia mea inlucescit dies salutaris. Ergo igitur imperiis istis meis animum intende sollicitum. Diem, qui dies ex ista nocte nascetur, aeterna mihi nuncupavit religio, quo sedatis hibernis tempestatibus et lenitis maris procellosis fluctibus navigabili iam pelago rudem dedicantes carinam primitias commeatus libant mei sacerdotes. Id sacrum nec sollicita nec profana mente debebis opperiri.

“Vê, Lucius, eis-me aqui! Teu pranto e orações moveram-me a socorrer-te. Sou aquela que é a mãe natural de todas as coisas, rainha do céu! Sou a principal entre os deuses celestiais, a luz dos deuses e deusas. À minha vontade os planetas dos céus, todos os ventos dos mares e os silêncios dos Infernos ordenam-se. Meu nome e minha divindade são adorados conforme vários costumes e sob muitos nomes. Os frígios chamam-me a mãe dos deuses. Os atenienses, Minerva. Os cíprios, Vênus. Os cretenses, Diana. Os sicilianos, Proserpina. Os eleusínios, Ceres. Alguns chamam-me Juno, outros, Bellona, e ainda outros, Hécate. E os etíopes sobretudo, que no Oriente habitam, e os egípcios, que são excelentes em toda espécie de ensinamento antigo e por suas cerimônias adequadas estão acostumados a cultuar-me, chamam-me Rainha Ísis. Vê, vim para compadecer-me de teu infortúnio e tribulação. Vê, fiz-me presente para favorecer-te e ajudar-te. Deixa tuas lágrimas e lamentos, afasta tua tristeza. Percebe, pois, que o dia determinado por minha providência acaba de chegar. Portanto, que estejas pronto para atender meu comando. O dia que chegará depois desta noite está consagrado ao meu serviço por uma religião eterna. Meus sacerdotes e ministros costumam, depois de cessar as tempestades marítimas, oferecer em meu nome um novo navio como primícia de minha navegação. Ordeno-te não profaneres ou desprezares o sacrifício de qualquer forma.”

6. Nam meo monitu sacerdos in ipso procinctu pompae roseam manu dextera sistro cohaerentem gestabit coronam. Incunctanter ergo dimotis turbulis alacer continuare pompam mea volentia fretus et de proximo clementer velut manum sacerdotis osculabundus rosis decerptis pessimae mihique iam dudum detestabilis belvae istius corio te protinus exue. Nec quicquam rerum mearum reformides ut arduum. Nam hoc eodem momento, quo tibi venio, simul et ibi praesens, quae sunt sequentia, sacerdoti meo per quietem facienda praecipio. Meo iussu tibi constricti comitatus decedent populi, nec inter hilares caerimonias et festiva spectacula quisquam deformem istam quam geris faciem perhorrescet vel figuram tuam repente mutatam sequius interpretatus aliquis maligne criminabitur. Plane memineris et penita mente conditum semper tenebis mihi reliqua vitae tuae curricula adusque terminos ultimi spiritus vadata. Nec iniurium, cuius beneficio redieris ad homines, ei totum debere, quod vives. Vives autem beatus, vives in mea tutela gloriosus, et cum spatium saeculi tui permensus ad inferos demearis, ibi quoque in ipso subterraneo semirutundo me, quam vides, Acherontis tenebris interlucentem Stygiisque penetralibus regnantem, campos Elysios incolens ipse, tibi propitiam frequens adorabis. Quodsi sedulis obsequiis et religiosis ministeriis et tenacibus castimoniis numen nostrum promerueris, scies ultra statuta fato tuo spatia vitam quoque tibi prorogare mihi tantum licere.”

“Ao seguir a procissão, o grande sacerdote nesse dia levará, por minha exortação, uma guirlanda de rosas junto ao sistro em sua mão direita. Segue tu entre o povo a minha procissão e, quando te aproximares do sacerdote, faze como se fosses beijar sua mão. Mas abocanha as rosas, pois assim descartarei o couro e a forma de um asno. Essa espécie de animal é-me de há muito abominável e desprezível. Porém, acima de tudo, cuida para não duvidares ou demonstrares temor dessas coisas como sendo duras e difíceis de suportar. Pois, no mesmo momento em que vim a ti, ordenei ao meu sacerdote, numa visão, o que deverá fazer. E todas as pessoas, por minha ordem, serão obrigadas a dar-te lugar e nada dizer! Além disso, penso que, entre cerimônias tão belas e alegres e em tão boa companhia, qualquer pessoa detestará tua figura mal-favorecida e deformada, ou que qualquer homem não será atrevido o bastante para culpar-te e reprovar tua súbita restauração à forma humana. Sobre tal feito não formularão qualquer sombrio conceito. E toma isto por certo: pelo resto de tua vida, até a hora da morte, estarás ligado e sujeito a mim! E não acredites ser um mal ficar a mim sujeito, eis que por meus recursos e benefício tornar-te-ás humano. Abençoado viverás neste mundo, por minha orientação e proteção viverás gloriosamente. E, quando desceres aos Infernos, hás de ver-me refulgir naquela subterrânea paragem, brilhando, como agora me vês, na escuridão do Aqueronte, reinando na profundeza abissal do Estige, habitando os próprios Campos Elíseos. Ali me adorarás como a alguém que te foi favorável. E, se eu perceber que foste submisso ao meu comando, zeloso em meu ministério e digno de minha graça divina, fica ciente de que prolongarei teus dias além do tempo que te foi apontado pelos fados e ordenado pelos planetas celestiais.”

7. Sic oraculi venerabilis fine prolato numen invictum in se recessit. […]

Tendo pronunciado esse oráculo venerável, o numa insuperado desapareceu. […]

Lucius Apuleius, Asinus Aureus siue Metamorphoseon, L. XI, 4-7

Lucius Apuleius, “Asno de Ouro ou Metamofoses”, Livro XI, 4-7

Tradução: Bellouesus /|\

Sobre o renascimento 4

Como os celtas não acreditavam em pecado ou na necessidade de ajustar contas morais, eles não tinham porque admitir que as pessoas voltassem a este mundo como regra geral e para o resgate de débitos passados. Se admito a reencarnação eu tenho, portanto, de imaginar para ela outra classe de justificativa. Esse é, para mim, o único senão.

Se pensarmos bem, a partir do momento em que não se admite a reencarnação, pode-se entender que o espírito é criado ao mesmo tempo que o corpo. Se o espírito é criado ao mesmo tempo que o corpo, não existem experiências prévias, não há sabedoria anteriormente adquirida, ninguém é mais sábio (mais velho, mais experiente) do que ninguém. Isso vale tanto para o homem como para os animais. Se os animais têm algum conhecimento especial, esse somente poderia ser o da espécie como um todo. Porém, como isso não se mostra no ser humano, não pode ser o caso. A não ser que o ente humano fosse uma espécie separada dentro (ou mesmo fora) da Natureza, o que é muito mais difícil de admitir.

Existiria a possibilidade da transmissão genética do conhecimento. Mas nós vemos muitas pessoas inteligentes e laboriosas que têm descendentes totalmente imprestáveis. Isso não se dá entre os animais. O ser humano então seria, mais uma vez, exceção.

Quaisquer que sejam as questões que nos coloquemos ante o problema da reencarnação, esta permanece uma possibilidade aceita no ensinamento antigo. Como é a mais contrária à Igreja Romana e somente permaneceu em duas menções na mitologia irlandesa (e referências obscuras em Gales) e era lembrada por algumas pessoas como ensino tradicional na época em que Evans-Wentz escrevia seu excelente The Faerie Faith in Celtic Countries, talvez essa tenha sido uma crença muito difundida num passado distante. Portanto, aceitá-la não me provoca dores de consciência. Ou seja, é um desenvolvimento que a tradição permite, que está dentro do que ela oferece.

Não penso que tenhamos de acreditar em tudo que os antigos acreditavam ou procurar fazer as coisas exatamente como eles faziam. Tenho algumas cabeças de cerâmica no meu altar, mas elas são apenas simbólicas. Nunca imaginaria dizer: “Ah, que saudade daqueles tempos em que ornávamos com crânios verdadeiros os portais dos santuários, aquilo sim era devoção!” Muitas das crenças dos celtas eram mera superstição, barulhenta e insossa, e os druidas antigos seguramente sabiam disso, mas respeitavam as inclinações do povo entre o qual viviam e ao qual deveriam servir. Deviam lucrar com isso. Jamais tento fazer dos druidas figuras míticas. Já ressaltei mais de uma vez, acho, que eles trabalhavam para viver e gostavam de ser bem pagos.

Admitindo que a reencarnação não seja obrigatória, ela se torna uma questão que envolve o principal dom que o Universo deu ao ser humano: o livre-arbítrio. Uma vez que tenhamos eliminado a reencarnação compulsória (como necessidade de purificação), a única razão para que uma alma retorne a este mundo é o exercício do seu livre-arbítrio, por motivos que apenas ela bem conhece. A Viagem de Bran Mac Febal e a Viagem de Máel Dúin mostram isso. Nos dois casos, grupos de homens escolhidos atravessam o oceano para chegar a um lugar de perfeição, o qual acabam abandonando unicamente por sua própria vontade. Eles não são expulsos, não são coagidos a partir de forma alguma. Eles o fazem porque assim desejam, porque não estão ainda prontos para habitar no estado de absoluta tranquilidade que encontraram. Quando a sua inquietação chega ao máximo, eles entram no barco e vêm dar às praias deste mundo. Eles não precisariam fazer isso. Mas fazem assim mesmo. Porque sentem uma necessidade íntima.

Essa é a diferença entre a reencarnação céltica e, digamos, a espírita: na primeira não há uma ênfase na necessidade de fazer reparações. O importante é a vontade de voltar para realizar outras coisas, provar a própria força, passar por novas experiências, aprender mais. A alma é impulsionada à frente pelo desejo. Sem este, haveria apenas uma eternidade apática e vazia no Outro Mundo. Seria algo como a noção que vulgarmente se tem do Céu cristão: você é um pessoa boa, morre, sua alma vai para o Céu e você passa o resto da eternidade vestindo uma camisola e tocando harpa com os anjos. Que noção assustadora esse descanso eterno!

Além disso, considere a alternância que se apresenta em todos os aspectos da compreensão céltica do tempo: meio ano de escuridão (de Samhain a Beltane), meio ano de luz (o inverso), cada mês com uma metade escura e outra luminosa, cada quinzena formada por uma sucessão de dias propícios e nefastos, cada noite com seu dia… Como seria possível conceber que a mente céltica – operando com ciclos de manifestação e de retorno ao não-manifesto – criasse a idéia de uma ida sem volta? E as ovelhas do conto de Peredur ab Efrawg (Peredur, filho de York), um dos romances galeses arturianos associados aos Mabinogi? Ali está escrito:

E ele foi em direção a um vale, pelo meio do qual corria um rio. E as extremidades do vale eram cobertas de árvores e, em cada lado do rio, havia campinas planas. E, num lado do rio, ele viu um rebanho de carneiros brancos e, no outro lado, um rebanho de carneiros negros. E, sempre que um dos carneiros brancos balia, um dos carneiros negros atravessava o rio e tornava-se branco; e, quando um dos carneiro negros balia, um dos carneiros brancos atravessava o rio e tornava-se negro. E ele viu uma alta árvore ao lado do rio, uma metade da qual estava em chamas da raiz à copa e a outra metade era verdejante e cheia de folhas. E, perto desse lugar, ele viu um jovem sentado numa colina e dois galgos de peitos brancos e malhados, em coleiras, lado a lado. E ele estava certo de jamais ter visto um jovem de aspecto tão nobre como esse. E, na floresta do outro lado, Peredur escutou galgos perseguindo uma manada de cervos. E Peredur saudou o jovem e o jovem cumprimentou-o em retribuição. E havia três estradas que partiam da colina; duas delas eram estradas largas e a terceira era mais estreita. E Peredur perguntou ao jovem aonde as estradas levavam. ‘Uma delas vai ao meu palácio’, disse o jovem, ‘e aconselho-te que faças uma de duas coisas: ou prosseguires até meu palácio, que está à tua frente e onde encontrarás minha esposa, ou permaneceres aqui para veres os galgos perseguindo os cervos espantados da floresta à planície. E verás os melhores cães de caça que jamais contemplaste (e os mais corajosos numa caçada) abaterem-nos perto da água ao nosso lado; e, quando chegar a hora da refeição, virá meu pajem com meu cavalo encontrar-me e descansarás em meu palácio nesta noite.’

‘Que o Céu te recompense, mas não posso demorar-me, pois devo seguir adiante.’

‘A outra estrada conduz à cidade que fica perto daqui e onde comida e bebida podem ser compradas. E a estrada que é mais estreita que as outras vai em direção à caverna do Addanc.’

Abrindo parênteses: o Addanc é um monstro lacustre da mitologia de Gales. Sua descrição varia: às vezes é um crocodilo, um castor ou uma criatura semelhante a um gnomo. O lago em que ele mora também varia: alguns dizem que seria Llyn Llion, ou Llyn Barfog, perto da Ponte Brynberian, ou Llyr yr Afanc (que recebeu o nome do monstro), perto de Betws-y-Coed (significa casa de oração na floresta, uma cidadezinha no vale do Conwy, no noroeste de Gales).

A grafia do nome também varia em galês moderno, dependendo da fonte. O galês medieval usava avanc, o moderno usa afanc, que agora significa apenas castor. A forma avanc/afanc é usada no Livro Vermelho de Hergest. No conto de Peredur (galês médio), do Livro Branco de Rhydderch, a criatura da caverna, como se viu, é chamada Addanc. A grafia mais comum, de longe, é afanc. Parênteses fechados.

Aí está o intercâmbio das almas entre os mundos. É possível ser mais claro? Não, porque a Igreja Romana teria proibido o livro. Mesmo assim…

Na Irlanda, o mesmo tema foi tratado de forma semelhante, como se vê em Immram Curaig Maele Duin (“A Viagem de Barco de Máel Dúin”):

Cedo, na manhã do terceiro dia depois disso, avistam uma outra ilha, com uma paliçada de bronze no meio que dividia a ilha em duas partes e ali percebem ao longe grandes rebanhos de carneiros, um negro no lado de cá do cercado e um rebanho branco no lado mais distante. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava um carneiro branco por cima da cerca deste lado para os carneiros negros, ele se tornava subitamente preto. Assim, quando ele lançava um carneiro negro sobre a cerca do lado mais distante, ele se tornava subitamente branco. ‘Isto que seria bom nós fazermos:’, disse Máel Dúin, ‘lancemos dois bastões na ilha. Se eles mudarem de cor, também decidiremos se desceremos à terra ou não.’ Assim, atiraram um bastão de casca preta no lado onde estavam os carneiros brancos e ele se tornou imediatamente branco. Então, lançaram um bastão descascado no lado onde estavam os carneiros negros e ele se tornou imediatamente preto.

‘Não afortunada foi essa experiência’, disse Máel Dúin. ‘Não desçamos à ilha. Sem dúvida, nossas cores não se sairiam melhor do que os bastões.’

Nos contos dos Mabinogi (Primeiro e Segundo Ramos), encontra-se um personagem chamado Pendaran Dyfed. No fim do mabinog de Pwyll, ele é um dos que estão à mesa do príncipe no momento em que Teyrnion Twrif Fliant devolve Pryderi a seus pais. Pwyll nomeia Pendaran pai adotivo de Pryderi. No Segundo Ramo, Pryderi é um dos que acompanham Bran, o Abençoado, à Irlanda, na expedição contra o rei Matholwch por causa dos maus-tratos infligidos a Branwen. Ao partirem, Bran nomeia sete ministros para que tomem conta da Ilha da Britânia enquanto ele estiver fora. Ora, o narrador afirma que Pendaran Dyfed permaneceu com esses sete como um jovem pajem. Depois, quando os guerreiros (apenas sete sobreviventes) voltam da batalha na Irlanda e descobrem que a Britânia tinha sido tomada por um usurpador e que não sobrevivera nenhum dos ministros do rei Bran, o narrador novamente diz que Pendaran Dyfed, que tinha permanecido como um jovem pajem entre eles, conseguiu escapar da matança realizada por Caraddawc entre os seguidores de Bran fugindo para a floresta. Não há menções posteriores a ele.

No Primeiro Ramo, Pendaran é importante o bastante para ocupar um lugar à mesa de Pwyll, íntimo e experiente o suficiente para que o príncipe lhe confiasse a educação do próprio filho. No Segundo Ramo, Pryderi já está crescido o bastante para ir à guerra, mas Pendaran é um jovem pajem (um menino ou adolescente) na corte do Grande Rei. Como se explica a contradição, o que ela quer mostrar? Como se explica que, no Primeiro Ramo, Pendaran fosse um homem maduro ou idoso, mas um menino no Segundo Ramo? Você já imagina a resposta. É possível ser mais claro? Não, porque a Igreja Romana teria proibido o livro. Mesmo assim… Jesus disse que era preciso ser uma criancinha para ganhar o Reino do Céu.

Jesus também disse que o Reino do Céu está dentro de nós. Essa é igualmente a posição da tradição céltica: se houver inquietude dentro de você, se a harmonia não estiver ali solidamente estabelecida, você não conseguirá permanecer para sempre no lugar da harmonia. E isso não é nenhum tipo de punição – os Deuses não julgam, por isso não perdoam, nem punem -, mas uma lei natural.

Nem todas as almas que fazem a viagem alcançam a Terra da Juventude, Tír na n-Óg. Algumas ficam presas nas ilhas intermediárias e somente aquelas que voltam da Terra da Juventude para este mundo conseguem tirá-las de lá. Uma das funções da instrução espiritual (para não empregar o termo iniciação) é fornecer um mapa do caminho e ensinar a evitar os perigos da jornada. Por esse motivo é ela mais fácil para aqueles que já possuem esse conhecimento. Os demais podem passar por grandes dificuldades lutando contra os demônios de suas próprias mentes, jamais avançando além de um ponto em que serão libertados pelos que estiverem fazendo o caminho do retorno. Essas são as pessoas que não têm a oportunidade de usar o livre-arbítrio, aquelas para as quais a reencarnação é compulsória (no sentido de que não tiveram a oportunidade de fazer uma escolha, enquanto os que voltam da Terra da Juventude fazem-no voluntariamente).

Penso que considerar a escolha como fator determinante na questão do renascimento concilie as opiniões conflitantes, a saber, se o renascimento é neste mundo ou no Outro Mundo. Apenas no Outro Mundo, se a alma se achar pronta para isso. Neste também, se a alma, não suportando indefinidamente o contato com a perfeição (e a Verdade) ou por outro motivo, achar necessário que seja assim.

Bellouesus /|\

Parte 1
Parte 2
Parte 3

Sobre o renascimento 3

Vamos então ver, na medida do possível, em que acreditavam os druidas antigos usando algumas fontes que estão acessíveis.

A imortalidade da alma postula uma existência pós-humana do indivíduo, mas não é em hipótese alguma a afirmação do retorno do homem ao nosso mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos serão felizes eternamente num Outro Mundo encantado. Não resta dúvida de que a única doutrina druida tradicional foi a crença absoluta na imortalidade, que prometia a vida eterna no Outro Mundo. (BARROS, Maria Nazareth Alvim de. Uma Luz sobre Avallon; celtas e druidas, Mercuryo, p. 95)

Outro rei, Mongan, que nada tinha de mítico, pois viveu na época histórica e morreu em 615, teve também três pais, dos quais dois deuses. Seu pai legal, o Rei Fiachna, partira para guerrear em Alba (Escócia), contra os Saxões. Deixou na Irlanda a esposa. Esta recebe a visita de um homem imponente que lhe revela que seu marido será morto em combate no dia seguinte, a menos que ela consinta que ele lhe dê um filho. Para salvar o marido, a esposa consente e o marido é miraculosamente salvo!

A criança veio ao mundo e, quando tinha três dias, o imponente personagem, que outro não era senão o deus Manannan, veio procurá-lo para criá-lo em seu reino, a Terra da Promessa, até que ele chegasse à juventude.

Uma outra versão pretende que, a despeito das aparências, Mongan era a reencarnação do herói Fionn Mac Cumhaill, mas que não queria que o soubessem. Advirta-se que este desenvolvimento, tão lisonjeiro para Mongan, ocorria em plena era cristã! (LAUNAY, Olivier. A Civilização dos Celtas, Otto Pierre Editores Ltda. , p. 108-109)

Em quase todas as lendas irlandesas encontramos, por exemplo, o fenômeno celta da mutação de forma, realidade que, para os irlandeses, é tão natural quanto, para nós, são as estruturas moleculares: essa era, simplesmente, a condição do mundo. Mutação de forma era a capacidade que determinado ser possuía de se transformar, algo que, em muito, transcendia a metamorfose causada pelo ‘espasmo-disforme’. Vemos um exemplo esplêndido de mutação de forma no poema do pioneiro Amhairghin: inicialmente, é um estuário, depois uma onda, depois o mar, depois um touro, depois um falcão, etc. E, embora, hoje em dia, o leitor possa entender tais gestos como metáforas, os irlandeses acreditavam que deuses, druidas, poetas e outros indivíduos em sintonia com o mundo da fantasia podiam viver experiências de mutação de forma. (O’CAHILL, Thomas. Como os Irlandeses Salvaram a Civilização, Objetiva Ltda., p. 145)

Entre as doutrinas filosóficas, ou, digamos teológicas, ensinadas pelos druidas, a que mais parece haver tocado os antigos é a da imortalidade da alma. ‘Aquilo de que os druidas querem persuadir-nos em primeiro lugar’, diz Iulius Caesar, ‘é que as almas não morrem e que de um corpo, após a morte, elas passam a um outro’. Essa segunda vida, os defuntos a encontravam em um mundo diferente daquele em que haviam vivido. Segundo vós, ó Druidas, diz Lucanus, os mortos não vão às moradas silenciosas do Érebo, aos reinos profundos e descoloridos de Plutão; é em outro mundo que a alma do morto reina sobre novos membros e, se sabeis o que ensinam os versos que cantais, a morte é o caminho para uma longa vida.

Mais tarde:

Condla era um dos dois filhos do rei supremo Conn, apelidado Cetchathaig, ou seja, capaz de enfrentar sozinho cem guerreiros, o que não o impede de ser morto pelo rei de Ulster. Anteriormente a esse desastre, a deusa da morte vem roubar Condla da afeição paterna. Ela se apresenta sob a forma de uma jovem e linda mulher. ‘O país de onde venho’, diz ela, ‘é a terra dos vivos, ninguém morre e passamos a vida em festins contínuos que não temos trabalho para preparar. Lá reina um rei vitorioso, Téthra, em cujos estados não há jamais queixa nem dor. Ver-te-emos todos os dias em meio à assembléia de teus pais, no meio daqueles que conheces e que te amam’. Levado pela sedutora deusa, Condla, que estava às margens do Oceano, saltou com ela em uma barca de vidro que ela trouxera; viu-se pouco a pouco se afastarem, até que estavam tão longe que não se podia mais percebê-los: jamais foram vistos de novo. Condla fora ao outro mundo, orbis alius, como diz Lucanus, ad Manes para empregar a expressão de Mela.

Depois:

Segundo a doutrina egípcia, a admissão definitiva nesse país maravilhoso não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto. Esta doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos Celtas, tendo sido introduzido na Irlanda pelo cristianismo e o esforço necessário para obter sua aceitação explica a praga de São Patrício: ‘Meu Deus de julgamento!’, em galês do século V: mo dê brôt!

No capítulo seguinte:

Os Celtas acreditavam na imortalidade da alma, mas não admitiam, como os pitagóricos, que, como regra geral, as almas dos mortos, deixando o corpo que habitaram, ficavam nesse mundo para animar um novo corpo. (JUBAINVILLE, D’Arbois de. Os Druidas, Madras, p. 94-95, 103)

Jubainville cita como exceções a essa regra geral (op. cit., p. 103-106):

1) o nascimento de Mongan (que já vimos): a reencarnação do herói Finn como Mongan, por intermédio do deus Mánannan;

2) o nascimento de Etain, filha de Etar: antes de ser a filha de Etar, Etain já tinha sido a fillha de Aillil (mil e doze anos antes) e, depois disso, numa outra vida, tinha sido a esposa do deus Midir. Quando renasceu como filha de Etar, Etain se tornou esposa de Eochaid Airem, rei supremo da Irlanda, mas Midir, lembrando-se de sua antiga companheira, reclamou-a para si e levou-a consigo para o Outro Mundo.

Assim, de acordo com os autores citados (e tive o cuidado de mencionar apenas autores publicados no Brasil, embora pudesse trazer o testemunho de muitos outros estudiosos), as possibilidades de “mudança de estado” para o ser humano, de acordo com o ensinamento druídico, são:

1) metamorfose (o que não é uma reencarnação);

2) renascimento num outro mundo mais perfeito do que este e onde já habitam os Ancestrais do defunto e também os Deuses, sem a ocorrência de nenhum tipo de julgamento divino;

3) renascimento numa forma humana, para certos indivíduos em casos excepcionais.

Em uma obra ainda não publicada no Brasil, o mesmo autor cita novamente o nascimento de Mongan (JUBAINVILLE, H. d’Arbois de. Le Cycle Mythologique Irlandais et La Mythologie Celtique. Ernest Thorin, Éditeur, Paris, 1884):

Chapitre XIV

(Capítulo XIV)

La merveilleuse naissance de Mongân et le rôle que joue dans sa légende le dieu Manannân mac Lir ne sont pas les seuls points sur lesquels ce récit mythique nous fait connâitre les croyances fondamentales de la religion celtique. Il y a dans cette légende deux points que méritent également un étude attentive. L’un est que Find, tué à la fin du troisième siècle, n’avait cependant pas cessé de vivre, qu’il avait conservé sa personalité et qu’il revint en ce monde plus de deus siècles aprés sa mort, ayant, par une seconde naissance, pris um corps nouveau.

(O maravilhoso nascimento de Mongan e o papel que desempenha em sua lenda o deus Manannan mac Lir não são os únicos pontos sobre os quais esse relato mítico nos faz conhecer as crenças fundamentais da religião céltica. Há nessa lenda dois pontos que merecem igualmente um estudo atento. Um é que Find, morto no fim do terceiro século, não tinha, nesse entremeio, deixado de viver, tinha conservado sua personalidade e que ele retorna a este mundo dois séculos após sua morte, tendo obtido, por meio de seu segundo nascimento, um novo corpo.)

Le second point est l’apparition de Cailté. Celui-ci n’est pas né une seconde fois. On ne s’explique pas de prime abord comment, ayant à son décès laisse son corps dans la tombe en Irlande, il revient du pays des morts avec une forme physique que rien ne distingue de celle du reste des humains. Ce qu’il y a de certain, c’est que suivant la légende irlandaise, il en est revenu visible à tous les yeux, parlant une langue que tous ont comprise. Or cette légende n’a pas pour base une croyance spéciale aux Irlandais, puisqu’en France, encore aujourd’hui, dans le peuple, persist na crainte de revenants. La croyance aux revenants est donc une doctrine celtique, et un peu plus loin nous donnerons là-dessus quelques développements.

(O segundo ponto é a aparição de Cailte. Este não nasceu uma segunda vez. Não fica inicialmente claro como, tendo com a morte deixado seu corpo na tumba na Irlanda, ele volta do país dos mortos com uma forma física que ninguém diferencia daquela do restante dos humanos. O que há de certo é que, de acordo com a lenda irlandesa, ele voltou para cá visível a todos os olhos, falando uma língua que todos entenderam. Ou essa lenda não tem por base uma crença peculiar dos irlandeses, pois na França, ainda hoje, entre o povo, persiste o temor dos espectros. A crença nos fantasmas é então uma doutrina céltica e um pouco mais adiante indicaremos alguns desenvolvimentos.)

Em seu livro bem conhecido, O’Donohue diz (O’DONOHUE, John. Anam Chara; um livro de sabedoria celta, Rocco, p. 205):

Meu pai costumava contar-nos uma história acerca de um vizinho que era muito amigo do padre da região. Na Irlanda, há toda uma mitologia sobre druidas e padres possuírem poder especial. Esse homem e o padre costumavam dar longos passeios. Um dia, o homem perguntou ao padre: ‘Onde estão os mortos?’ O padre disse-lhe para não lhe fazer perguntas como essa. Mas o homem insistiu, e, por fim, o padre disse: ‘Vou mostrar-te, mas não deves nunca contar a ninguém.’ É escusado dizer que o homem não cumpriu a palavra. O padre ergueu a mão direita. O homem olhou sob a mão erguida e avistou as almas dos falecidos em toda parte, tão cerradamente quanto o orvalho nas folhas de grama. Com frequência, a nossa solidão e segregação são o resultado de uma deficiência de imaginação espiritual. Esquecemos que não existe algo semelhante a espaço vazio. Todo espaço está repleto de presença, particularmente da presença daqueles que estão agora sob a invisível forma eterna.

As manifestações dos Deuses como animais são apenas demonstrações do seu polimorfismo, isto é, de que não possuem formas fixas, podendo assumir a aparência que desejarem de acordo com o momento.

Talvez eu esteja me repetindo aqui, mas isso serve para mostrar que essas não são crenças pessoais minhas. Na verdade, sou menos restritivo do que os autores cujas conclusões podem ser lidas acima.

Se não contemplei a possibilidade de uma alma humana reencarnar num corpo animal ou vice-versa, é porque esse ensinamento pode ser nativo americano, hinduísta, budista ou qualquer outra coisa, mas – ainda que pareça muito adequado – não é céltico (é ABSOLUTAMENTE necessário saber separar as coisas). Não conheço estudioso sério que o subscreva nesse contexto. Fecho os ouvidos a hipóteses esotéricas infundadas e aos argumentos espúrios de outros que, por interesse comercial ou conhecimento insuficiente, apresentam as coisas celtas de forma diluída e/ou bastarda.

Os celtas não são criaturas de um passado distante. Eles estão conosco, lutando no extremo ocidental da Europa para manter vivos seus idiomas e tradições nativos – ou, em alguns casos, até recuperá-los.

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Sobre o renascimento 2

Leio com frequência que os antigos celtas ensinavam que a alma de uma pessoa reencarnaria dentro do seu próprio clã. Ou então que seria possível renascer como um elemento da paisagem, uma pedra, uma árvore, ou um animal qualquer. Não compro nenhuma dessa ideias e acho que tenho motivos para duvidar delas.

Primeiramente, lembro-me no momento de apenas duas passagens que corroborariam a crença num “renascimento” dentro do próprio clã a que uma pessoa pertence. A primeira está num poema chamado Coirí Filidechta, atribuído ao druida Amhairghin, e diz que o conhecimento se transmite pelas linhas de sangue, embora não se manifeste igualmente em todos os descendentes. Mas é uma passagem de difícil interpretação:

Onde está a raiz da poesia numa pessoa, no corpo ou na alma? Dizem que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Outros dizem que está no corpo, onde as artes são aprendidas, passadas através dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a sede do que permanece na raiz da poesia e o bom conhecimento na ancestralidade de cada pessoa não passa para todos, mas passa a cada outra pessoa.

A outra passagem relevante vem, se me não falha a memória, do Táin. É um trecho em que os Ultu discutem a respeito de Cúchulainn não ter ainda uma esposa. Declaram explicitamente que, se ele não tiver um filho, não haverá possibilidade de que volte para eles depois da morte, ou seja, reencarnado em um dos seus descendentes. Mas a interpretação também pode ser de que suas habilidades guerreiras passariam geneticamente ao filho. Parece-me que as duas passagens se referem à transferência das habilidades e não da individualidade de alguém.

De qualquer modo, estamos falando em termos humanos. Talvez eu faça uma interpretação muito literal dos termos da questão, mas como se supõe, por exemplo, que uma pessoa possa “renascer” como uma pedra? Qual fenômeno geológico determinaria o surgimento de uma pedra para abrigar um espírito errante? Ou não é necessário que seja um nova pedra e o espírito poderia simplesmente passar a habitar um mineral já existente? Como se daria isso? Voluntariamente? Pelo concurso de uma vontade alheia?

Se voluntariamente, eu, por exemplo, ao perceber que a vitalidade de meu corpo está se esgotando, determino que meu espírito se dirija à pedra, onde passará a habitar. Mas também pode ser que eu tome essa decisão já no estado de erraticidade. Se eu fosse dirigido por uma vontade alheia, essa vontade possuiria recursos que lhe permitiriam ligar-me à pedra, o que eu não faria de forma espontânea.

E quanto tempo deve durar esse estado? Para sempre ou por um número determinado de anos? Ou eu devo permanecer na pedra até que se verifique um dado evento? Até que a erosão a destrua, até que vire pó?

Seja qual for o caso, é perceptível que não se trata da simples continuidade da existência. Na passagem da alma humana a um objeto inanimado (voluntária ou não) interferem as ações de uma ciência obscura.

Renascer como animal é ainda mais difícil. Simplesmente por um motivo: o espírito humano é diferente da alma animal. Por maior que seja o conhecimento de um animal, esse é o saber possuído pela sua espécie e, quando cessar sua vida, essa experiência vai enriquecer o todo do seu grupo, não permanecer como um patrimônio individual. Os animais não são criaturas individualizadas. O ser humano é, pois adquiriu um corpo causal que lhe permite reconhecer-se como distinto daquilo que o cerca. Essa característica não é compatível com a vida simplesmente animal. O contrário também é verdade: não é possível que a essência vital de um touro anime uma forma humana. Por um simples motivo: a Natureza não dá saltos, não passa de um a outro estágio sem uma fase intermediária. Todo o processo evolutivo mostra esse princípio.

Antes que alguém me acuse (não há de faltar quem o faça) de estar afirmando a superioridade humana, devo dizer que o pé não é menos importante do que a mão, mas a função do pé não é igual à função da mão. Pelos olhos do ser humano, todos os elementos do mundo contemplam e refletem sobre si mesmos usando instrumentos que outras formas de vida não desenvolveram, ainda que partilhem da mesma origem que a humana e estejam sujeitas a ciclos existenciais semelhantes.

Levando em conta que a religião céltica não continha a noção de pecado e conseqüente julgamento, cabe questionar qual seria, do seu ponto de vista, a necessidade de renascer neste mundo.

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