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A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

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“Gynaikôn Aretái” (“De Mulierum Virtutibus”, Sobre as Virtudes das Mulheres)

Plútarkhos de Khairôneia (46 – 120 d. C.), “Êthiká” (“Moralia”, Hábitos e Costumes) – trechos

VI. As Mulheres Célticas

Antes de os celtas atravessarem os Alpes e estabelecerem-se naquela parte da Itália que agora é seu lar [Bellouesus: refere-se à Gallia Cisalpina, “Gália aquém dos Alpes”, em latim, ou seja, o norte da atual República Italiana], uma terrível e persistente discórdia entre facções irrompeu entre eles, a qual prosseguiu ao ponto de uma guerra civil. As mulheres, no entanto, interpuseram-se entre as forças armadas e, assumindo as controvérsias, arbitraram e decidiram-nas com tão impecável justiça que uma extraordinária amizade de todos para com todos surgiu entre os Estados e as famílias. Como resultado disso, continuaram a consultar-se com as mulheres a respeito da guerra e da paz e a decidir através delas quaisquer negócios controvertidos com seus aliados. Em todas as ocasiões, em seu tratado com Haníbal eles escreveram a cláusula de que, se os celtas reclamassem contra os cartagineses, os governadores e generais dos cartagineses deveriam ser os juízes e, se os cartagineses reclamassem contra os celtas, os juízes deveriam ser as mulheres célticas [Bellovesos: a fonte de Plútarkhos – neste trecho e no seguinte, sobre Camma – é outro historiador grego, Polyainos, na obra “Stratêgêmata”, Artifícios da Guerra, VII, 50].

XX. Kamma

Havia na Galácia dois dos mais poderosos tetrarcas [Bellovesos: um príncipe subordinado ou dependente, um soberano inferior, como Herodes Antipas na Palestina romana], remotamente aparentados um ao outro. Um destes, Sinatus, tinha se casado com uma jovem de nome Camma, notável por suas formas e beleza, porém ainda mais admirada por suas virtudes. Não apenas era ela modesta e apaixonada por seu marido, mas também espirituosa e de nobre caráter e notavelmente amável para com seus subalternos por causa de sua afabilidade e benevolência. Uma coisa que a levou a maior proeminência foi o fato de que ela era a sacerdotisa de Ártemis, a quem os gálatas reverenciam especialmente, e era vista magnificamente trajada em ligação com as procissões e sacrifícios.

Assim, Sinorix apaixonou-se por ela e, não sendo capaz de convencê-la fosse pela persuasão ou pela força enquanto seu marido vivia, ele realizou uma ação horrível e, traiçoeiramente, matou Sinatus. Então, sem deixar que decorresse muito tempo, começou a cortejar Camma, que passava o tempo no templo e, tolerava a ilegal violação de Sinorix de modo não lamentoso, nem miserável, mas com um ânimo que demonstrava sagacidade e esperava pelo momento propício. Ele era persistente em seu galanteio e de forma alguma parecia estar confundido por discussões que tivessem alguma plausibilidade no sentido de que, em todos os aspectos, ele se mostrara um homem melhor do que Sinatus e o matara por amor a Camma e não por qualquer outra intenção execrável.

Inicialmente, as recusas da mulher não foram muito categóricas e, mais tarde, pouco a pouco, ela pareceu abrandar-se, pois seus parentes e amigos também a pressionavam, a fim de obsequiarem e favorecerem Sinorix, que possuía tamanho poder, e tentavam persuadí-la e forçá-la. Finalmente, ela se rendeu e mandou uma mensagem para que ele a procurasse, com a condição de que o consentimento e o compromisso ocorressem na presença da deusa. Quando ele chegou, ela o recebeu gentilmente, e, tendo-o conduzido ao altar, verteu uma libação de um vaso, então ela mesma bebeu uma parte e disse-lhe que bebesse o resto; era uma mistura envenenada de leite e mel. Quando viu que ele tinha bebido, ela soltou um distinto grito de alegria e, prostrando-se ante a deusa, disse “Chamo-te a testemunhares, deusa muito reverenciada, que, por causa deste dia, continuei a viver após o assasínio de Sinatus, e, durante todo esse tempo, não obtive da vida nenhum consolo, senão a esperança de justiça; e, agora que a justiça é minha, desço a meu marido. Porém, quanto a ti, mais perverso de todos os homens, que teus parentes preparem uma sepultura em lugar de um quarto nupcial e um casamento.”

Quando o gálata ouviu essas palavras e sentiu o veneno já agindo e criando uma perturbação em seu corpo, ele subiu numa carruagem como se tentasse sacudir-se e balançar-se para obter alívio, mas saiu quase que imediatamente, mudou-se para uma liteira e, ao entardecer, morreu. Camma resistiu durante a noite e, ao ouvir que ele chegara ao seu fim, morreu satisfeita e feliz.

XXI. Stratonikê

A Galácia produziu também Stratonikê, a esposa de Deiotarus, e Khiomara, a esposa de Ortiagon, mulheres que merecem ser lembradas.

Stratonikê, sabendo bem que seu marido desejava filhos dela para sucederem-no no reino, mas não tendo filhos ela própria, convenceu-o a ter um filho com outra mulher e a considerá-lo como se fosse dela mesma. Deiotarus pensou muito sobre a idéia e tudo fez de acordo com o julgamento dela e ela obteve uma donzela graciosa entre as prisioneiras, de nome Electra, e guardou-a para Deiotarus. As crianças que nasceram, ela as criou com atenção amorosa e em condição real, como se tivessem sido dela própria.

XXII. Khiomara

Ocorreu que Khiomara, a esposa de Ortiagon, foi feita prisioneira de guerra junto com o resto das mulheres na época em que os romanos comandados por Gnaeus venceram-nos em batalha na Ásia [Bellouesus: refere-se ao general Gnaeus Manlius Vulso; essa batalha ocorreu em 189 a. C.]. O oficial que obteve a posse dela usou sua boa sorte como os soldados fazem e desonrou-a. Ele era, naturalmente, um homem ignorante sem auto-controle quando se tratava de prazer ou dinheiro. Entretanto, caiu vítima de seu amor ao dinheiro e, quando uma grande quantia de ouro tinha sido mutuamente combinada como o preço pela mulher, ele a trouxe para trocá-la pelo resgate num lugar onde um rio, atravessando-o, fazia uma fronteira. Quando os gálatas tinham atravessado e dado o dinheiro e recebido Khiomara, ela, com um aceno de cabeça, indicou a um homem que ele deveria golpear o romano enquanto este carinhosamente a deixava partir. E, quando o homem obedientemente decepou a cabeça do romano, ela a recolheu, e, enrolando-a nas dobras de suas vestes, partiu. Quando chegou a seu marido e lançou a cabeça no chão diante dele, ele disse aturdido: “Uma nobre coisa, querida esposa, é a fidelidade.” “Sim”, disse ela, “mas uma coisa mais nobre é que apenas um único homem vivo tenha tido intimidade comigo.”

Tradução: Bellouesus /|\