Anotações Druídicas V

Anotações Druídicas V: Nuvem Mágica

Bellou̯esus Īsarnos

fiada

A Nuvem da Testemunha (1)

Sobre ti uma nuvem mágica eu coloco,
[Para guardar-te] de cão, de gato,
De vaca, de cavalo,
De homem, de mulher,
De mancebo, de donzela,
E de criancinha,
Até que novamente eu retorne.
Em nome de Esus, Lugus e Maponos (2).

Comentário:

No livro de que este encantamento foi traduzido e adaptado (William Mackenzie, Gaelic Incantations), essa pequena composição traz o título Fath Fithe, traduzido como “Nuvem Mágica”. Mackenzie explica que o Fath Fithe era um dos encantamentos preferidos dos caçadores na Escócia gaélica, pois permitia tornar objetos físicos invisíveis à visão comum. Assim, os caçadores poderiam voltar da floresta carregados com os despojos da caça, mas invisíveis aos seus inimigos. Acreditava-se que até mesmo contrabandistas poderiam servir-se dele para escapar aos funcionários do Fisco! O autor acrescenta que, na sua época (o livro foi publicado nos últimos anos do séc. XIX), as menções ao Fath Fithe eram já muito raras, embora se pudesse considerar que em tempos mais antigos fosse tido como eficiente encantamento de proteção.

A crença no poder de causar invisibilidade, escuridão ou confusão era muito antiga entre os povos célticos e esse pequeno encantamento escocês possui um precedente inegável na tradição irlandesa, pois foi essa mesma névoa mágica que as Tuatha Dé Danann usaram para esconder Ériu dos Filhos de Mil num manto de brumas, não logrando sucesso porque a magia de Amergin Glúingel, file (poeta sagrado) e breitheamh (especialista em questões legais/árbitro), foi mais potente que a dos druidas das Tuatha Dé. A névoa mágica foi dissipada, os Milesianos desembarcaram, derrotaram os antigos senhores da ilha e ocupam Ériu, a Irlanda, até o dia de hoje.

O velho fath fithe da Escócia é realmente a contraparte do irlandês féth fíada (“névoa da maestria ou conhecimento”) ou ceó druídecta (“bruma druídica”), encantamento ensinado por Manannán Mac Lir às Tuatha Dé Danánn para que se ocultassem dos Filhos de Mil. É o domínio da bruma mágica que torna os deuses materialmente distintos dos humanos, pois permite que os deuses vejam uns aos outros, mas não sejam vistos por olhos mortais (3).

Além da sua função como instrumento mágico de ocultação, o féth fíada pode apresentar ocasionalmente um aspecto sinistro, prenúncio da carnificina, manifestando-se como a “bruma guerreira” de três cores (preta, vermelha e verde), que encontramos no conto Tochmarc Ferbe (“A Corte a Ferbe”):

Luid iarom Conchobar, tri choicait laech impu sin, agus ni ruc nech do Ultaib leis, acht sé féin agus a ara .i. Brod agus Imrind in drúi .i. mac Cathbath. Ni bái dana gilla oc neoch díb acht gilla Conchobair, acht a scéith for a munib leo agus allaigne lethanglassa inallámaib agus a claidib tromma tortbullecha for a cressaib. Ni ba lín tra ba mesta forru, bá mór a toilc menman. O ro siachtatar iarom co m-batar ic fegad in dúnaid úathu innund, atchonncatar tromnél dímór uas chind in dúnaid. Cirdub indara cend dó agus dergg a medon agus glass in cend aile. Iarfaigis Conchobar iarsin: Cid co tirchain a Imrind, ar se, in nél út atchiam uasin dunud. Tirchanaid ém, ar Imrind, ág agus urbaid na haidchi innocht.

E Conchobar partiu, estando com ele três vezes cinquenta guerreiros que cercavam esses chefes, e ele não levou consigo nenhum dos Ultu exceto ele próprio e Brod, o seu auriga, e Imrinn, o Druida, que era o filho de Cathbath. E nenhum desses guerreiros tinha um servo consigo, exceto o servo de Conchobar somente, mas traziam os escudos em suas costas e suas brilhantes lanças verdes em suas mãos, e suas pesadas espadas de potentes golpes em seus cinturões. Contudo, eles não deviam ser desprezados por causa de seu número, grande era o orgulho de suas almas. E quando eles chegaram a esse local de onde a fortalza de Greg podia ser por eles vista, contemplaram uma pesada nuvem que pairava sobre o forte. Uma extremidade da nuvem era negra como carvão e o seu meio era vermelho e a outra ponta era verde. Assim, Conchobar falou a Imrinn, o Druida: “Dize-me, ó Imrinn”, ele falou, “que presságio significa essa nuvem que vemos sobre a fortaleza?” “Verdadeiramente”, disse Imrinn, “isso significa um combate que durará a noite toda e a morte nesta noite” (4).

Não obstante sua indissociável ligação com o contexto pagão, a técnica mágico-druídica do féth fíada não desapareceu com a conversão ao cristianismo ou foi por este rejeitada. Ao contrário, passou a ser usada a serviço da nova fé, como fica demonstrado na Bethu Phátraic (“Vida de Pádraig”):

Nír bu cían iarsin róchoggair in rí leis Pátraic forleith, ocus ised roimraid amarbad, ocus ní forchoemnacair. Forfhoilsig Día do Pátraic inní sin. Adrubairt Láogairi fri Pátraic: “Tair im díaidsi, achleirig, do Temraig corochreitiur duit arbélaibh fer nEirenn”. Ocus rosuidigsom calleic etarnais cechbelaig oFherta Fer Féic co Temraig archiunn Pátraic diamhabad. Acht nírocomarleic Día dó. Dodhechaid Pátraic ochtor macccléirech ocus Benén do gillu léu, ocus rosbendach Pátraic réduidecht. Dodechaid dícheltair tairsiu conárárdraig fer dib. Atchoncatar, immorro, na gentlidi batar isna intledaib ocht naige altaige dotecht secu fón sliab, ocus iarndóe innandegaid ocus gaile for agúalaind: Pátraic aochtar, ocus Benén inandegaidh ocus a fholaire for a muin.

Tunc uir sanctus composuit ilium hymnum patrio idiomato conscriptum, qui uulgo Fáed fíada, et ab aliis Lorica Patricii appellatur. Et in summo abinde inter Hibernos habetur pretio, quia creditur, et multa experientia probatur, pie recitantes ab imminentibus animae et corporis praeseruare periculis.

Não muito tempo depois, o rei chamou Pátraic em particular e cogitou matá-lo e isso não veio a acontecer. Deus manifestou isso a Pátraic. Loegaire disse a Pátraic: “Segue-me, ó clérigo, para Temuir, para que eu creia em ti ante todos os homens de Ériu”. E imediatamente ele preparou uma emboscada desde as Tumbas dos Homens de Fíacc até Temuir, diante de Pátraic, para matá-lo. Deus, porém, não permitiu que isso lhe acontecesse. Patraic chegou com oito de seus jovens clérigos e Benén como um noviço com eles e Patraic abençoou-os antes de partir. Um véu de escuridão desceu sobre eles de forma que nenhum desses homens pôde ser visto. Contudo, os pagãos que estavam escondidos nas redes viram oito gamos passar sob a montanha e atrás deles um jovem cervo com um feixe de galhos em seus ombros: esse era Pátraic com os seus oito e Benén atrás deles com suas tabuletas de escrever nas costas.

Então o homem santo compôs aquele hino em sua língua nativa, que é comumente chamado Feth-fiadha e, por outros, Lorica [“Couraça”] de Pátraic; e desde então foi tido pelos irlandeses na mais alta estima, pois acredita-se – o que está comprovado por muitas experiências – que seja capaz de proteger contra perigos que os ameacem na alma e no corpo (5).

O hino acima aludido é a “Couraça de São Patrício” (Lorica Patricii). Essa venerável oração irlandesa não é outra coisa senão a versão cristã de uma técnica mágica do passado pagão da Irlanda.

Lorica Sancti Patricii

A Couraça de São Patrício

Patraicc dorone in nimmun-sa; i naimseir Loegaire meic Néil dorigned; fád a dénma immorror dia diden co na manchaib ar náimdib in báis robátar i netarnid ar na cleircheib. Ocus is luirech hirse inso fri himdegail cuirp ocus anma ar demnaib ocus dúinib ocus dualchib: cech duine nosgéba chech día co ninnithem léir i nDia, ní thairisfet demna fria gnúis, bid dítin dó ar cech neim ocus format, bid comna dó fri dianbas. bid lu’rech dia anmain iar na étsecht. Patraicc rochan so in tan dorata na hetarnaidi ar a chinn ó Loegaire, na disged do silad chreitme co Temraig, conid annsin atchessa fiad lucht na netarnade comtis aige alta ocus iarróe i na ndíaid .i. Benen; ocus “fáeth fiada” a hainm.

Patraicc fez este hino; na época de Loegaire mac Neill foi feito e a causa da sua composição foi a proteção de si mesmo e dos seus monges contra os inimigos mortais que estavam em emboscada contra os clérigos. E é uma couraça de fé para a proteção do corpo e da alma contra demônios e homens e vícios; quando alguém a recitar diariamente com meditação piedosa sobre Deus, os demônios não ousarão enfrentá-lo, será uma proteção para ele contra todo veneno e inveja, será um guarda para ele contra a morte súbita, será uma couraça para a sua alma depois da sua morte. Patraicc cantou-a quando as emboscadas foram posicionadas contra ele por Loegaire, a fim de que ele não fosse a Temuir para semear a fé, de modo que, naquela ocasião, foram vistos como se fossem cervo selvagens diante daqueles que estavam em emboscada, tendo por trás de si um gamo, isto é, Benen; e Fáeth Fiada é o seu nome.

Atomriug índiu
niurt tríun togairm Tríndóite
cretim treodatad
foísitin oendatad
in dúilemon dáil.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Atomriug indiu
niurt gene Chríst co na baithius
niurt crochtho co na adnocul
niurt esséirgi cona fresgabáil
niurt tóniud do brethemnas bratha.

Levanto-me hoje:
o poder do nascimento de Cristo e Seu batismo
o poder de sua crucificação e sepultamento
o poder de sua ressurreição e ascensão
o poder de Sua descida para o Julgamento do Destino.

Atomriug indiu
niurt grád Hiruphin;
i nurlataid aingel
hi frescisin eseirge ar cenn fochraice
i nernaigthib huasalathrach,
i tairchetlaib fatha,
hi praiceptaib apstal,
i nhiresaib fuismedach,
i nendgai nóemingen,
hi ngnímaib fer fírean.

Levanto-me hoje:
poder dos graus dos Querubins
na obediência dos Anjos
no ministério dos Arcanjos
na esperança da ressurreição como recompensa
nas orações dos Patriarcas
nas profecias dos Profetas
nas pregações dos Apóstolos,
na fé dos Confessores
na inocência das Virgens Santas
em ações de homens justos.

Atomriug indiu
niurt nime,
soilse gréne,
etrochta snechtai,
áne thened,
déne lóchet,
luathe gáethe,
fudomna mara,
tairisem talmain,
cobsaidecht ailech.

Levanto-me hoje:
poder do céu
brilho do sol
brancura da neve
esplendor do fogo
velocidade da luz
leveza do vento
profundidade do mar
estabilidade da terra
firmeza do rochedo.

Atomriug indiu
niurt Dé do’m luamaracht,
cumachta Dé do’m chumgabail,
ciall Dé do’mm imthús,
rosc nDé do’m reimcise,
cluas Dé do’m étsecht,
briathar Dé do’m erlabrai,
lám Dé do’m imdegail,
intech Dé do’m remthechtas,
sciath Dé do’m dítin,
sochraite Dé do’mm anucul
ar intledaib demna,
ar aslaigthib dualchae,
ar irnechtaib aicnid,
ar cach nduine mídústhrastar dam
i céin ocus i nocus
i nuathad ocus i sochaide.

Levanto-me hoje:
Poder de Deus para guiar-me
Sabedoria de Deus para minha orientação
Olho de Deus para minha previdência
Ouvido de Deus para minha audição
Palavra de Deus para minha fala
Mão de Deus para minha tutela
Caminho de Deus para o meu trilhar
Escudo de Deus para minha proteção
Amizade de Deus para minha salvação
contra armadilhas de demônios
contra seduções de vícios
contra instigações da natureza
contra toda pessoa que me deseje mal
longe e perto
sozinho e na multidão.

Tocuirius etrum thra na huile nertso,
fri cech nert namnas nétrocar fristí do’m churp ocus do’mm anmain,
fri tairchetla saebḟáthe,
fri dubrechtu gentliuchta,
fri sáibṙechtu heretecda,
fri himcellacht nidlachta,
fri brichta ban ocus goband ocus druad,
fri cech fiss arachuiliu anman duini.

Invoco, portanto, todas essas forças para intervir
entre mim e toda força impiedosa e feroz que possa vir sobre o meu corpo e a minha alma:
contra encantamentos de falsos profetas
contra as leis negras do paganismo
contra as falsas leis da heresia
contra o engano da idolatria
contra feitiços de mulheres e ferreiros e druidas
contra todo conhecimento que seja proibido à alma humana.

Crist do’m imdegail indíu
ar neim, ar loscud,
ar badud, ar guin,
co nomthair ilar fochraice;
Crist lim, Crist rium,
Crist i’m degaid, Crist innium,
Crist íssum, Crist úasum,
Crist dessum, Crist tuathum,
Crist illius, Crist isius, Crist i nérus;
Crist i cridiu cech duine immimrorda,
Crist i ngin cech óen rodomlabrathar
Críst in cech rusc nomdercædar
Críst in cech cluais rodamchloathar.

Cristo para a minha tutela hoje
contra veneno, contra a queima,
contra o afogamento, contra ferimentos,
que possa vir a mim uma multidão de recompensas;
Cristo comigo, Cristo diante de mim
Cristo atrás de mim, Cristo em mim
Cristo sob mim, Cristo sobre mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao deitar, Cristo ao sentar, Cristo ao levantar
Cristo no coração de cada pessoa que pode pensar em mim!
Cristo na boca de todos que possam falar comigo!
Cristo em todos os olhos que possam olhar para mim!
Cristo em todo ouvido que possa me ouvir!

Atomriug indiu
niurt trén togairm trinoit
cretim treodatad
fóisin óendatad
in dúilemain dail.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Dominus est salus, domini est salus, Christi est salus;
salus tua, domine, sit semper nobiscum.

O Senhor é a salvação, do Senhor é a salvação, de Cristo é a salvação;
que a tua salvação, ó Senhor, esteja sempre conosco.

Notas:

1) Testemunha do conhecimento, conhecedor.

2) Adaptado de Mackenzie, William. Gaelic Incantations: charms and blessings of the Hebrides. Northern Counties Newspaper and Printing and Publishing Company, Limited: Inverness, 1895, p. 49.

3) A bruma mágica não era estranha aos helenos. No Canto XXX da “Ilíada”, é ela o expediente de que se serve Posêidon para ocultar Eneias aos olhos de Aquiles. O Canto V especificamente descreve Atena dando a Diômedes a capacidade de ver os deuses: “E removi o filtro dos teus olhos / que antes os escondia, eis que agora / facilmente distinguirás deuses e homens”. Depois disso, Diômedes feriu Afrodite na mão quando essa deusa tentou resgatar Eneias. O próprio Ares quase morreu aprisionado dentro de um grande vaso, mostrando que os deuses gregos, assim como os hibérnicos, não eram invulneráveis à agressão humana. No relato sobre Jasão e os Argonautas, conta-se que, na busca pelo Velo de Ouro, Hera cobriu os heróis com a mesma névoa mágica a fim de que não percebessem o caminho até chegarem às proximidades do palácio do rei Eetes de Cólquida, pai da feiticeira Medeia.

4) Windisch, Ernst & Stokes, Whitley (ed.). Irische Texte mit Übersetzungen und Wörterbuch in Irische Texte. Leipzig: S. Hirzel, 1897, v.3:2, pp. 475-476.

5) Stokes, Whitley (ed.). The Tripartite Life of Patrick. Londres: Eyre & Spotiswoode, 1887, p. 46 e 48.

 

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A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Creative Visualization

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Melita Denning & Osborn Philips

O uso da Visualização Criativa na oração e na adoração provavelmente ocorre com mais frequência e mais facilmente dentre os seguidores de uma religião quase sempre farta em imagens sacras. Para os seguidores de religiões que não se utilizam de imagens, esse processo se torna um pouco mais difícil. De qualquer maneira, o fato de o indivíduo ter uma crença, ter fé, é um ponto positivo no seu processo de desenvolvimento espiritual, mesmo quando sua seita não se utilizar de imagens ou figuras, porque a própria religião já é prova de que a pessoa está muito além dos materialistas, principalmente na questão da Visualização Criativa.

Para se ter uma ideia, nem todos os religiosos praticam a adoração e nem todos rezam. Para essas pessoas, então, algumas das ideias que se seguem podem ser interessantes. Pode ser que elas desejem imaginar ou pensar numa Entidade na qual acreditem. A partir daí, a oração e a adoração passam a ser menos difíceis de ser aceitas ou compreendidas.

“Mas como fazer para rezar? Como começar a orar?”,perguntam alguns. Pode-se começar tal como uma criança começa a falar, com apenas uma palavra. Algumas das mais poderosas e belas orações do mundo têm apenas uma única palavra. Portanto, não existe “maneira apropriada” ou fórmula certa de oração. Nada é tão íntimo, tão singular quanto o relacionamento entre o adorador e sua Divindade e tanto faz se o que você diz é inédito ou se já foi dito milhares de vezes por milhões de outras pessoas. Nada disso é importante. O que realmente importa é que aquela palavra ou todas aquelas palavras são a sua oração naquele momento. E desse momento em diante você terá encontrado uma das mais poderosas fontes de inspiração, de força, de alegria, de confiança e de esclarecimento espiritual em todos os níveis do seu ser. E essa mesma fonte tem sido concedida aos povos de todos os lugares do mundo por todos os séculos.

Com relação à visualização, não se sugere que a pessoa deva superar as dúvidas que porventura tenha quanto à exatidão – ou a possibilidade – de imaginar uma Divindade de forma localizada. Ao mesmo tempo, se a pessoa quiser ampliar os benefícios que irá receber usando a Visualização Criativa em suas preces, é necessário considerar se existe algum Ser Espiritual que possa ser imaginado, seja como recipiente ou como intermediário de suas petições à Divindade.

Para aqueles que conseguem adorar seu Deus, ou seus deuses, à maneira simbólica tradicional, ou para aqueles que creem numa Divindade encarnada, não precisamos acrescentar mais nada com relação ao Ser Divino que elas deveriam visualizar. Se, porventura, o leitor encontrar alguma dificuldade a respeito desse assunto, talvez então seja melhor visualizar o seu Anjo-da-Guarda, ou um Santo conhecido, pedindo que aquele ser seja o portador de suas orações à Divindade. Você pode escolher o santo de sua devoção, ou mesmo um santo ligado ao assunto que você queira resolver. Também esse Ser Divino não precisa ser necessariamente um santo reconhecido pela igreja, ou pela seita que a pessoa frequenta. Pode ser alguém – que já tenha morrido – e que a pessoa amava muito, como a avó, ou o avô, ou algum parente mais distante com o qual a pessoa se sinta intimamente ligada.

Gostaríamos de ressaltar que existem estudos, feitos pelos antigos missionários religiosos enviados à China, de que a “veneração aos ancestrais” e a adoração aos Santos, reconhecidos pelas igrejas, têm as mesmas raízes e fundamentos.
Pode-se, sem dúvida nenhuma, visualizar, então, tanto sua Entidade como seu santo protetor. Esse tipo de visualização se mostrou muito poderoso e eficiente.

Esteja você visualizando uma Divindade de qualquer forma, ou mesmo um Santo ou um Anjo, é bom tomar cuidado para “enxergar” esse Ser da maneira mais positiva possível, ou seja: radiante, poderoso, acolhedor e amoroso. Se for possível, use uma imagem – seja impressa ou esculpida – para auxiliar em sua visualização. Mas lembre-se, você não poderá conferir nenhum poder à imagem materializada propriamente dita. Você não deverá entendê-la como talismã ou mesmo objeto de fetiche. Essa imagem tem apenas o objetivo de auxiliar você na formulação, a mais clara possível, da imagem que você visualizou internamente, e também de evitar para você a dificuldade de rezar “no espaço” com convicção.

Um devoto hindu descreveu certa vez, como – em oração – ele ofereceu luzes e flores com palavras de amor e adoração dirigidas a uma imagem feita à semelhança de sua Divindade. Diz ele: “Mas quando termino minha oração, deixo a imagem de pedra sobre o altar e coloco a imagem verdadeira de volta em meu coração.”

Quanto mais concreta for a imagem real que você construir em seu coração, tanto mais útil e eficaz ela lhe será.

Por esse motivo, sugerimos que você pratique muito suas orações durante algum tempo, antes de começar a pedir alguma coisa por esse método. E mais, se, por algum motivo drástico, uma emergência, você se viu diante da oração, rezando desesperadamente, alertamos que essa prática de adoração não será possível.

Algumas emergências acontecem, e às vezes, pessoas que nunca rezaram começam a fazê-lo; essas pessoas rezam, ou invocam o auxílio de forças para as quais jamais haviam se dirigido, e frequentemente recebem o que pedem. Porém, na emergência, você tem acesso às áreas da sua mente profunda, que normalmente estão fechadas para você em circunstâncias normais e assim, para poder rezar com eficácia em momentos não críticos, é preciso muita prática de oração.

Portanto, se você decidir trilhar o Caminho da Devoção, siga-o com perseverança e com todo o fervor que puder encontrar dentro de si.

Faça um pequeno altar, ou um “cantinho especial” para a sua hora de oração e adoração. Você escolhe a posição: de joelhos, de pé, sentado, tanto faz. Existem posturas tradicionais de oração e a escolha é sua. Se possível, crie o hábito de acender uma ou mais velas para acompanhar o seu período de adoração e oração. Se quiser, acrescente incenso ou flores. Os detalhes ficam por sua conta, porém, não se esqueça de quando rezar, visualizar. Isso é fundamental.

Se você imagina Deus como sendo Luz, então visualize Luz. Se para você a Divina Presença poderia ser algo quase palpável no topo de uma montanha, ou talvez dentro de uma caverna, então visualize que você está no topo de uma montanha ou dentro de uma caverna, antes de começar a rezar.

Sempre que você tiver um objetivo que deseja alcançar através desse modo de oração, os princípios básicos se aplicam sempre, utilizando-se você de um Ser intermediário ou dirigindo-se diretamente à Divindade. Todavia, os detalhes do procedimento variam ligeiramente de caso para caso e, por esse motivo, os relacionamos abaixo:

A. Se você vai visualizar – de qualquer maneira – a Divindade para a qual você dirige suas preces, sem um Ser intermediário, então faça o seguinte:

1. Construa primeiro uma imagem visualizada bem nítida do objetivo que você quer alcançar, seja ele um benefício para o corpo ou para a alma, seja para você ou para outras pessoas. Formule um quadro o mais exatamente possível, por exemplo, a pessoa curada, ou o certificado de um exame, etc. Ou, se o objetivo a ser alcançado for algo visível e material, então formule simplesmente um quadro do objeto propriamente dito, de preferência “enxergando-o” em uso pela pessoa a quem ele se destina, seja essa pessoa você ou não.

2. Visualize sua imagem da Divindade, seja em forma humana ou simplesmente em forma de Luz, cheia de resplendor e generosidade.

3. Faça a adoração, seja nos moldes que você costuma fazer sempre, ou da maneira que está sentindo vontade naquele momento.

4. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga-o sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você se sentir emocionado no momento.

5. “Veja” aquilo que você deseja de maneira radiante pelo contato Divino, sendo oferecido a você pela Divindade. Ou, então, “ouça” e repita para você mesmo as palavras que estão lhe dizendo que o que você tanto deseja irá acontecer. Aceite o presente e dê graças por ele.

6. Faça com que tudo aquilo que você acaba de visualizar desapareça devagar e calmamente de sua consciência.

7. Durante o dia, e durante a noite também, caso você esteja acordado, recorde-se daquilo que ocorreu no item 5, mesmo que apenas por alguns instantes, e em seguida, agradeça novamente.

8. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada.

B. Se você vai fazer o pedido com a ajuda de um intermediário, de um santo protetor — independente de você visualizar ou não uma presença Divina — então proceda da seguinte maneira:

1. Idem ao item 1 do procedimento anterior.

2. Visualize o seu intermediário, o santo protetor ou Ser angelical com quem você já mantém um contato, ou que tem uma relação direta com o assunto que você irá tratar.

3. Reverencie sinceramente este Ser. Depois disso, peça-lhe que leve o seu pedido (que até esse momento você ainda não declarou em todos os detalhes) até a Divindade (a quem você irá indicar de acordo com o título que ela possua). Peça ao seu intermediário para interceder por você – ou para quem quer que você deseja ajudar – no sentido de obter para você – ou para a outra pessoa – o que está precisando. TENHA CERTEZA DE QUE AQUILO QUE VOCÊ ESTÁ PEDINDO SERÁ FEITO.

4. Visualize o seu intermediário se dirigindo até a Divindade para fazer o seu pedido. Pode imaginá-lo andando, voando, enfim, da maneira que você desejar, contanto que o imagine indo até a Divindade. Se você tenciona visualizar a Divindade, então preste atenção para “ver” o seu intermediário levando o seu pedido. Esta parte do procedimento é extremamente potente.

5. Se você pretende visualizar sua Divindade, então, faça-o agora. De qualquer maneira, focalize sua atenção na Divindade, saudando-a e adorando-a diretamente.

6. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você ficar emocionado. Lembre-se também de dizer que o seu santo protetor (nome) está pedindo isso por você também.

7. Desvie um pouco a atenção da presença Divina e “veja” o seu intermediário voltando para você, alegre e radiante, com o seu pedido concedido. “Veja” o objeto sendo oferecido a você, ou “ouça” as palavras que lhe dirão, que aquilo que você quer será realizado. Aceite a graça e dê graças por ela.

8. Faça com que todas as imagens que você acaba de visualizar desapareçam devagar de sua mente.

9. Durante o dia, ou durante a noite, caso você esteja acordado, lembre-se daquilo que aconteceu no item 7, mesmo que seja apenas por alguns instantes, e depois renda graças.

10. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada, e não se esqueça do seu santo protetor.

No Caminho da Devoção, deve-se tomar muito cuidado com uma coisa. Seja o que for que você esteja pedindo por meio da oração, faça-o apenas por esse meio. Evidentemente, se você estiver doente, deve tomar todas as providências normais – médico, remédios, etc. – além de rezar para o seu restabelecimento. Se você quer passar num exame, não basta rezar. Com certeza, você deve estudar muito para isso.

O que estamos querendo dizer aqui é que, se você está buscando algo especial por meio de um procedimento devocional, como o que acabamos de delinear, você não deveria tentar obter “um seguro espiritual” – fora do sistema – para garantir o que você deseja. Ou seja, se você está rezando para Nossa Senhora, tentando obter algo de vital importância para você, não faça esse mesmo pedido para uma estrela cadente, por exemplo.

Você poderá explicar essa necessidade de cuidados, dizendo, tal como diziam as pessoas do Antigo Testamento, que seu Deus tem “ciúme”. Ou, se o conceito de ciúme não se enquadra com sua ideia de Divindade, pode-se explicá-la de outra maneira, que parece indicar, também, a razão de se utilizar meios materiais para obter aquilo que você deseja, e não atrapalhá-lo.

A sua ligação espiritual com o Poder Divino que você invocou, a sua identificação mental com aquele Poder, juntamente com o seu fervor, sua devoção e não de necessidade (e coisas materiais comuns como remédios, dinheiro, etc.) são “neutros” e poderão ser facilmente utilizados pelo Poder Divino como parte do nível material daquele canal.
Entretanto, se você introduzir outros canais menores, particularmente do nível astral, em sua imagem visualizada, você poderá criar um vazamento no seu sistema, como por exemplo, fazendo um furo no canudinho que você bebe, ou pior ainda, provocando um furo no seu pneu. Nesse caso, você estaria voltando para a estaca zero.

Tente imaginar os vários aspectos da Divindade, a partir da descrição feita através dos tempos por parte dos devotos. Imagine as emoções e forma mental também vindas com o tempo e que formam a parte inferior do canal de força. Isso explica os santuários existentes em todas as partes do mundo e que permanecem, ao longo dos séculos, como centros de fé e de milagres.

Lembre-se sempre, por trás da sua visualização, da construção da sua imagem, estará sempre a realidade da Divindade para dar a ela sentido e validade; uma realidade muito maior que qualquer coisa terrena possa oferecer, uma força muito mais poderosa e repleta de amor que extrapola a nossa compreensão. Se pudermos aprender a pedir direito, com toda a confiança e tendo certeza de que aquilo que estamos querendo é exatamente o que estamos pedindo, então, não haverá limites para a abundância, para a fartura, tanto material como espiritual, com a qual seremos abençoados.

Fonte: Denning, Melita & Philips, Osborn (tradução: Anna Maria Dalle Luche). A Visualização Criativa. São Paulo: Siciliano 1989, p. 231-239.

Aos Deuses da Terra

deusesdaterra

Aos Deuses da Terra

Bellou̯esus Īsarnos

Não vos trago incenso, pois incenso já tendes: as folhas e flores que perfumam o ar.
Não vos trago libações, pois libações já tendes: as fontes e correntezas ocultas na fundura da terra.
Não vos trago sacrifícios, pois sacrifícios já tendes: as plantas e animais mortos nos lugares ocultos vos pertencem.
Trago-vos em lugar disso o que não tendes: orações no som da voz humana. Preces são o meu presente para vós, o fino manto invisível da minha palavra.

E isto quem ousará? Quem irá além?

Entrego-vos meu coração como a chama do altar,
Meus ossos e carne como oferendas,
Meu sangue como libação.
Entrego-me a vós e à vida,
Neste dia, em todos os dias,
Com agradecimento e devoção.