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Encantamento contra Enfermidades

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bonfire

Prepare-se da forma costumeira. Comece quando sentir que está pronto.

Belenos da longa cabeleira,
Belenos que tudo prevê,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos belos cabelos,
Belenos possuidor da décima parte,
Belenos diante de quem todos são iguais,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Belenos Iluminado, abre-me o caminho! (Libação de água)

Belenos dador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos nascido da luz,
Belenos protetor dos pastores,
Belenos caçador,
Belenos das boas profecias,
Belenos guia do destino,
Belenos comandante,
Belenos auxiliador.

Belenos Iluminado, abre-me o caminho! (Libação de mel)

Fogueira

Tradicionalmente, este encanto se faz com madeira de carvalho.

Acenda a fogueira.

Você vai amarrar um fio roxo de material natural (como lã ou algodão) ao redor da pessoa ou de uma imagem consagrada dela ou de um objeto que tenha estado em contato próximo com ela durante certo tempo. Dê um nó e diga: Eu te amarro para a cura. Desamarre o nó e lance-o ao fogo, dizendo: Ao fogo lanço este mal para que seja consumido como este fio é consumido. Que desapareça na fumaça!

Quando a maior parte da madeira estiver reduzida a pedaços brilhantes de carvão em brasa, apanhe um cuidadosamente com um par de pinças ou uma pá e atire-o imediatamente num riacho ou num pote de água fria. Ele irá chiar e estalar. Enquanto isso, visualize o mal que deixa o corpo da pessoa afetada. Repita a operação mais três vezes.

Bellouesus /|\

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Rito Divinatório

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omago

O estudo de qualquer tema examinado no Nemeton Beleni deve ser precedido pela Oração antes dos Estudos, inclusive este que você agora está lendo. Portanto, pare e recite a oração.

O uso de qualquer ferramenta divinatória pela sistemática adotada pelo Nemeton Beleni abrange necessariamente os seguintes passos:

1o. A Primeira Invocação
2o. Runā antes da Oração
3o. A Invocação do Iluminador
4o. 5 Divinação propriamente dita conforme o método escolhido.

Pela leitura de “A Invocação do Iluminador”, você terá compreendido que a divinação ocorre dentro dela. Quando a ferramenta divinatória possuir um rito próprio, este será realizado dentro do rito divinatório geral (Invocação do Iluminador), “aninhado” dentro dele como uma matriosca dentro da outra.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Oração antes dos Estudos

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A recitação desta prece deve sempre anteceder o estudos, meditações e quaisquer práticas ligadas às atividades do Nemeton Belenī, por mais corriqueiras e banais que pareçam, e ser acompanhada pelo gesto da Aveleira.

Coll, a Aveleira, representa o Conhecimento e a Inspiração que devem ser buscados pelo estudante a cada momento. Faça do seu tempo de estudo uma oferenda aos Deuses, dedicada a refletir a respeito deles e honrá-los.

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Gaulês Antigo

Molātūs Dedmē Ollodagāi Krundyūi!

Ā Lugus, Ilukerdānon Magale,
Ā Belene, Andeu̯ātis U̯eri̯akkī,
Ā Brigindū, Mātīr Ouξamā Rou̯iđđous,
Ā Taranus, Bremī Nemomarkāke,
Ā Toutatis, Au̯ete Rii̯otātos Eξobne.
Bii̯etū sin su̯adū Komenonāi Dēu̯obok ollobo en Bitubi Tribi.

Gaulês Moderno

Mólath A Rhéith hOldhái In Olvithu!

Lúi, Maial Cerdhlé Élu
Bélen, Gwáth Már ach Gwir’iach
Brín, Máthir hUcham Gwísu Már
Taran, Marchis Nemeth en Gharghar
Tóthath, Diadhrethíath Riúas Echovn
O bí sin súadh a Wenvethan Dhéach ach a Dhéié ol en in Trí Bithúé

Tradução

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste de Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos (1).

Comentários

a) Lugus

Lugus, também chamado Lug ou Lugh (proto-céltico: *luco-, “lince/lobo” ou *leuk-, “claro, brilhante”), é um dos principais deuses da antiga religião dos povos célticos. Provavelmente, é a divindade que Iulius Caesar identificou ao romano Mercurius (o Hermes helênico). Seu culto foi difundido em todo o antigo mundo céltico, e o seu nome ocorre como elemento de muitos topônimos na Europa continental e nas Ilhas Britânicas, tais como Lyon, Laon, Leiden e Carlisle (antigamente Luguuallium, “Forte no deus Lugus”).

De acordo com a tradição irlandesa, Lug Lámfota (“Lug do Braço Longo”) foi o único sobrevivente de trigêmos com o mesmo nome. Pelo menos três dedicatórias a Lugus na forma plural, Lugoues, são conhecidas da Europa continental e a afinidade dos celtas com formas tríplices sugere que três deuses foram da mesma forma contemplados nessas dedicatórias. O filho de Lug, ou o próprio Lug renascido (de acordo com a crença irlandesa), foi o grande herói de Uladh, Cúchulainn (“Cão de Culann”).

Em Gales, como Lleu Llaw Gyffes (“Lleu da Mão Hábil”), acreditava-se também que ele tivera um nascimento estranho. Sua mãe era a deusa virgem Aranrot (2) (“Roda de Prata”). Quando o tio dela, o grande mágico Math, testou a sua virgindade por meio de uma vara mágica, ela em seguida deu à luz um menino que foi imediatamente levado por seu tio Gwydion e criado por ele. Aranrot então procurou repetidamente destruir o seu filho, mas sempre foi impedida pela magia poderosa de Gwydion; ela foi forçada a dar um nome ao menino e proporcionar-lhe armas; finalmente, como sua mãe lhe negasse uma esposa, Gwydion e Math criaram para Lleu uma mulher feita de flores.

Lug também era conhecido na tradição irlandesa como Samildánach (“hábil em todas as artes”). A variedade de seus atributos e a grandeza com que o seu festival, Lughnasadh (fixado a 1º. de agosto), era comemorado na Irlanda e na Grã-Bretanha indicam que Lugus é uma das mais poderosas e impressionantes de todas as antigas divindades célticas.

b) Belenos

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Primeiramente, apesar das associações do seu nome com o fogo ou o Sol, Belenos não era um deus solar. Na verdade, não há evidência de que o Sol tenha sido adorado como tal pelos celtas, ainda que o seu uso na iconografia religiosa fosse frequente. Mais de três dezenas de dedicatórias testemunham o culto a Belenos, um número incomumente elevado para uma religião notável pelo número e diversidade dos nomes e epítetos das suas deidades. O culto de Belenos foi praticado na Itália setentrional (Gália Cisalpina), Noricum (3), Alpes Orientais, Gália meridional e provavelmente na Grã-Bretanha.

Analisando a etimologia do nome de Belenos, o eminente Xavier Delamarre o traduz como “Senhor do Poder”:

belo-, bello-, “forte, poderoso”

Termos e tema frequente em NP [noms de personne, “nomes pessoais, teo-/antropônimos”]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, “nomes de rio, hidrônimos”] Bienne e Biel (Suíça) remontam a *Belenā. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade “solar”, levou a que essa designação fosse compreendida como “o luminoso, o brilhante”, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- “brilhar” (há um *ĝwelH- “queimar”, nicht ganz sicher [“não muito seguro”] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos “branco”, armênio bal “palidez”, sânscrito balâkâ “guindaste”, gótico bala “cinzento”, letão báltas, “branco”, eslavo antigo belo “id.”, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhēl- / *bhǝl- [*bheh1l- / *bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante “branco, cinzento, pálido”, porém não “brilhante”; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet “relâmpago”, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, “força, forte”: sânscrito bálîyân, “mais forte”, bálisthah “o mais forte” (= balisamo- com a divisão dialetal regular do sufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíōn, béltistos “melhor, mais” (por *belíōn, bélistos), latim dē-bilis “baixo”, eslavo antigo boljiji “maior”, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como “A Muito Poderosa” e não como “A Muito Brilhante”, Belinos “O Senhor do Poder” (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – “Forte e Bom” (4).

Embora não seja possível afirmá-lo com total certeza. Belenos é também a divindade associada ao festival gaélico chamado Beltane (5) (1º. de maio), tido como celebração da fertilidade, mas que era na realidade uma cerimônia de proteção realizada pelos druidas, como se entende deste trecho do Sanas Chormaic (6):

Belltaine .i. bil tene .i. tene soinmech .i. dáthene dognítis druidhe triathaircedlu (no cotinchetlaib) móraib combertis nacethrai arthedmannaib cacha bliadna cusnaténdtibsin [na margem esquerda: .[l]eictis nacethra etarru].

Belltaine, isto é, bil-tene, isto é, “fogo afortunado”, isto é, dois fogos que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos e eles costumavam trazer o gado como uma proteção contras doenças de cada ano a esses fogos [na margem esquerda: costumavam conduzir o gado entre eles.

Ligado à luz e ao poder de curar, Belenos é provavelmente o deus gaulês que Iulius Caesar identificou a Apolo, porém não o deus esteta dos helenos, o Apolo Muságeta (“condutor das musas”). Caesar explica a ideia que os gauleses faziam de Apolo: “Apolo afasta as doenças”. O Apolo gaulês é iátros (“médico”) e mântis (“adivinho”), o deus da cura e da profecia.

c) Brigindū

O que foi dito sobre Brigit nos Comentários ao Texto 2, letra “h” (7), pode ser extrapolado para Brigindū/Brigindonā/Brigantyā, porém com aspectos guerreiros mais pronunciados face à identificação com Victoria (a grega Nikē), personificação da vitória na guerra, em jogos atléticos e também sobre a morte, e Minerua (a grega Athēnā), deusa da sabedoria e protetora das artes (incluindo-se a magia, quando Brigindū passa a chamar-se Briχtā, “Magia, Encantamento”) e ofícios, do comércio e da estratégia.

d) Taranus/Taranis

O deus do trovão, adorado sobretudo na Gália, na Gallaecia (8), nas Ilhas Britânicas, na Renânia e no vale do Danúbio. O poeta romano Lucanus (9), na obra Pharsalia, citou Taranis como parte de uma tríade divina, cujos outros integrantes eram Esus e Toutatis.

Assim como o ciclope Brontes (“Trovão”) da mitologia grega, Taranis estava associado à roda. Iconograficamente, Taranis era representado em imagens provenientes da Gália como um homem barbado, carregando um raio numa das mãos e uma roda na outra. É claro o sincretismo com o deus romano Iuppiter.

O nome, tal como registrado por Lucanus, não possui atestação epigráfica, mas variantes, como Tanarus, Taranucno-, Taranuo- e Taraino- são conhecidas. Conforme informação prestado por Máksimos de Tyros (10) (Lógoi, “Discursos”, VIII, 8) o Zeus gaulês era adorado não sob a forma humana, mas como um carvalho: Κελτοὶ σέβὅσι μέν Δία, ἄγαλμα δὲ Διὸϛ Κελτὶκὸν ὑψηλὴ δρῦϛ (“os celtas sem dúvida adoram Zeus, porém honram-no sob a forma de um alto carvalho”).

e) Toutatis/Teutatis

“Deus da Tribo” (teuta/touta). Toutatis, como dito anteriormente, integra uma trindade de deuses mencionados pelo poeta romano Lucanus, juntamente a Esus e Taranus/Taranis. O comentador medieval de Lucanus (nos Commenta Bernensia [11] ) identifica Toutatis a Mercurius, Esus a Mars e Taranis a Dispater (Pluto). Caesar, no entanto, menciona (Commentarii de Bello Gallico, VI, 17) cinco deuses como sendo os mais importantes para os gauleses: Mercurius (Lugus, Lugh?), seguido de Apollo (Maponos, Esus, Belenos?), Mars (Toutatis?), Iuppiter (Taranis) e Minerua (Brigindu, Brigantia, Brigit?).

Considerando que são deuses de culturas diferentes, apresentando apenas certos traços em comum (o que teria permitido a aproximação), é difícil pretender uma identificação completa. Mesmo entre os deuses gregos e romanos havia discrepâncias.

O nome Toutatis deriva de *teutā (proto-céltico)/toutā (gaulês), “tribo, povo”, equivalente ao irlandês tuath, ao galês tud e origem do alemão Deutsch. Se correta a equivalência com Mars, Toutatis é um deus da guerra (protetor das fronteiras tribais) e da fertilidade (faz crescer as lavouras). Também pode ser um título para diferentes deuses tribais (cada tribo teria o seu Toutatis).

f) Komenonā

Divindade alegórica, é a personificação da Memória (12). Corresponde à grega Mnēmosýnē, deusa da memória e da lembrança, inventora da palavra e da linguagem, mãe das Musas.

Em uma cultura como a céltica, onde a transmissão do conhecimento se dava pela oralidade, Komenonā representa a qualidade fundamental para a preservação dos relatos históricos, das sagas dos heróis e dos mitos divinos. Desse modo, além de ser a Memória Divina, Komenonā é também a Senhora do Tempo e do Conhecimento.

g) Os Três Mundos, a Árvore do Mundo

Um dos conceitos mais importantes na mitologia pré-cristã indo-europeia (onde se inserem os celtas) era a “Árvore do Mundo” (13) (o carvalho ou alguma espécie de pinheiro). Os três níveis do Universo localizavam-se na árvore: o céu em sua copa, reino das divindades e corpos celestiais; o reino dos mortais em seu tronco; o reino dos mortos nas raízes. Esse era o eixo vertical da Árvore do Mundo.

O eixo vertical tinha seu paralelo na organização horizontal (ou geográfica) do mundo. O mundo dos deuses e mortais situava-se no centro da terra (considerada achatada), cercada pelo mar, além do qual se estendia a terra dos mortos, para onde as aves voavam no inverno e de onde retornavam na primavera. É importante observar que essa concepção encerrava a ideia de que uma massa de água devia ser atravessada para chegar-se ao reino dos mortos.

O eixo horizontal dividia-se nos quatro pontos cardeais, representando os quatro ventos principais. A Árvore do Mundo unia os dois eixos, o vertical (Mundo Superior, Médio e Inferior) e o horizontal (norte, leste, sul e oeste).

Cosmologias semelhantes podem ser encontradas entre outras culturas indo-europeias (como os germânicos e eslavos), possivelmente entre os celtas também. Mas, no caso destes, tal conclusão depende de analogia e interpretação, uma vez que não há nenhum testemunho direto endógeno (dos próprios celtas) ou exógeno (de outra cultura contemporânea) a respeito.

Textos medievais permitem entrever que, os irlandeses concebiam uma divisão tripla do Cosmo: Neamh (Céu), Talamh (Terra) e Mor (Mar) (14).

O Céu

Está associado aos corpos celestes: o Sol, a Lua, as estrelas. É o reino onde habitam os Deuses e Deusas e liga-se aos ciclos e padrões celestes. Os corpos celestes não eram considerados deidades em si mesmos, mas reflexos de tipos de poder associados a divindades específicas. Os fogos do Sol estavam associados à forja e à inspiração. O Céu traz prenúncios do futuro. O Espírito da Criação reside em Magh Mór (a Grande Planície ou Mundo Celeste), ou seja, Neamh (o Céu). Quatro maighne (planícies) são as suas divisões, isto é, …

1 Magh Findargat (Planície da Prata Brilhante), fonte de Luz e de Esperança;
2 Magh Mell (Planície das Delícias), nascedouro da Inspiração e da Criatividade;
3 Magh Iongnadh (Planície dos Milagres), abundante em Maravilhas e Espantos;
4 Sen Magh (Planície Antiga), sede das Origens e da Sabedoria.

A Terra

O mundo terrestre, ocupado pelos vivos, contém reflexos do Mundo Celeste e do Mundo Inferior. Essas influências podem ser imaginadas como três zonas (sendo três um número sagrado): a zona superior associada ao clima, ao voo dos pássaros, augúrios celestes e aos elementos e poderes do Ar, a zona intermediária divide-se nas Quatro Direções e Quadrantes cada um com seus Poderes e Guardiães) e a zona inferior, contendo as profundezas do mar, cavernas montes sepulcrais, colinas ocas e fontes sagradas. Essa zona é a morada dos Sídhe e dos Espíritos ligados aos Portais do Mundo Inferior. Para os celtas, as influências do Céu e do Mundo Inferior mesclavam-se em suas vidas sobre a Terra Média. O Espírito do Ser reside em Bith (Mundo), isto é, Mide (o Mundo Médio), ou seja, Talamh cé (“esta Terra”). Quatro arda (direções) são as suas divisões, isto é, …

1 Airthis (leste), fonte de Prosperidade (Bláth) e Mudança;
2 Teissus (sul), nascedouro de Música (Séiss) e Poesia;
3 Íaruss (oeste) abundante em Conhecimento (Fis) e Magia;
4 Tuadus (norte), sede da Batalha (Cath) e da Determinação.

O Mar

O Mundo Inferior é o reino dos Ancestrais e de Divindades ligadas ao mistério da vida surgindo da morte. O Espírito dos Ancestrais reside em Tír Andomain (o Mundo Inferior), ou seja, Mor (o Mar). Quatro tíortha (territórios) são as suas divisões, isto é, …

1 Tír na mBeo (Terra dos Vivos), fonte de Eternidade e Conhecimento Antigo;
2 Tír na mBan (Terra das Mulheres), nascedouro de Beleza e Prazer;
3 Tír fo Thuinn (Terra sob as Ondas), abundante em Temor e Percepção;
4 Tír na nÓg (Terra da Juventude), sede dos Anseios e da Renovação.

antesdosestudos3

Bilí (“árvores sagradas” em irlandês antigo, bile no singular) eram grandes árvores associadas a locais onde ocorriam as cerimônias de entronização dos reis irlandeses, sendo elas próprias simbólicas da autoridade do monarca, uma vez que de seus ramos provavelmente era cortada a slat na righe (“bastão da realeza”) durante a sagração do rei.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Notas:

1) Áudio disponível em <https://soundcloud.com/user197250276/oracao-antes-dos-estudos>. Acesso em 22 dez. 2015.

2) “Roda de Prata” é a tradução mais comum do nome Arianrhod. A grafia antiga do nome, usada acima (Aranrot), mostra que se trata de uma hipótese equivocada, pois arian(t), “prata”, não é o elemento que se acha no nome da mãe de Lleu, e sim aran, que se traduz deste modo: “Aran, s. f. – pl. t. au (ar) A high place; alp. It is the name of several of the highest mountains in Britain” (Owen, William. A Dictionary of the Welsh Language, Explained in English. Londres, 1803, v. I, p. 279). Portanto, aran rot é “montanha da roda ou monte circular/redondo” e não “roda de prata” (arian rhod).

3) Província romana que incluía a Áustria e parte da Eslovênia modernas.

4) Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

5) Lá Bealtaine (gaélico irlandês), Là Bealltainn (gaélico escocês), Laa Boaltinn/Boaldyn (manês) e ainda Beltaine e Beltine.

6) Sanas Chormaic (“Narrativa/Glossário de Cormac”), atribuído a Cormac Ua Cuileannáin (séc. X), bispo e rei de Caisel (Cashel, Co. Tipperary), é um glossário irlandês antigo que explica as etimologias de mais de 1.400 palavras que, na época de sua composição, já estavam obsoletas ou eram de difícil interpretação.

7) O texto em questão é o seguinte:

Brigit .i. banfile ingen inDagdai. iseiside Brigit baneceas (no be neicsi) .i. Brigit bandee noadradís filid. arba romor 7 baroán afrithgnam. isairesin ideo eam (deam) vocant poetarum hoc nomine cujus sorores erant Brigit be legis Brigit bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena inDagdai insin. de quarum nominibus pene omnes Hibernenses dea Brigit vocabatur. Brigit din .i. breo-aigit no breo-shaigit.

Brigit isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Essa é Brigit, a sábia [mulher da sabedoria], isto é, Brigit, a deusa a quem os poetas adoravam, pois muito grande e muito famosa era a proteção que concedia. Assim, é por essa razão que chamam sua deusa dos poetas por esse nome, cujas três irmãs eram Brigit, a médica [mulher da arte da cura], Brigit, a ferreira [mulher da forja], de cujos nomes todos os irlandeses denominavam uma deusa Brigit. Brigit, breo-aigit ou breo-shaigit [“seta flamejante”].

Seu nome é grafado de várias formas: Brigid, Brighid, Bríg, Bride. Como indica o texto acima, Brigit é uma deusa da poesia, da metalurgia e da arte de curar (baneceas, be legis, bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in Dagdai, “mulher da sabedoria, mulher da cura, mulher da forja, isto é, uma deusa, ou seja, três filhas do Dagda”, bandee noadradís filid, “deusa a quem os poetas adoravam”). A forma do nome em proto-céltico seria *Briganti, significando “A Sublime”, “A Enaltecida”, “A Elevada”, derivada do adjetivo indo-europeu *bhergh, “alto”. É equivalente à Brigantia romano-céltica, deusa tutelar da federação de tribos conhecida como Brigantes, que dominou o norte da atual Inglaterra e foi identificada a Victoria Caelestis e Minerua. Na Gália, seu nome era Brigindo ou Brigandu. No conto “A Segunda Batalha de Mag Tuired”, Brigit é a esposa de Bres mac Elathan, o rei meio fomoir que veio a governar as Tuatha Dé e acabou deposto em razão de sua mesquinhez. O casal teve um filho, Ruadán, que, combatendo pelos Fomoirí, foi morto ao tentar matar o deus ferreiro Goibniu. O lamento de Brigit por seu filho teria sido o primeiro keening ouvido na Irlanda. O festival chamado Imbolc (1o. de fevereiro), que celebra a estação do nascimento e do aleitamento dos cordeiros, está associado a Brigit em seu papel como deusa da fertilidade. Ela se liga também ao fogo, tanto em sentido concreto (o fogo da lareira) como metafórico (o fogo da inspiração). Brigit era a deusa tutelar dos Laighin, o grupo de tribos que deu nome ao Cúige Laighean e é nessa região que a “Geografia” de Ptolomeu situou os Brigantes da Irlanda. Santa Brighid, importantíssima santa irlandesa (chamada “mãe adotiva de Cristo” e “Maria dos gaélicos”), parece ter herdado muitos atributos da antiga deusa: o mesmo nome; celebração no mesmo dia; ambas padroeiras dos poetas, ferreiros e curadores, ambas ligadas a aspectos da fertilidade e da agricultura (Santa Brighid é protetora do gado e suas vacas produziam enormes quantidades de leite), além de uma forte ligação com o fogo.

8) Gallaecia ou Callaecia em latim (Galécia em português) é o nome da região localizada no noroeste da antiga Hispania romana, território que corresponde aproximadamente ao da moderna região norte de Portugal, somado à Galícia, Astúrias e Leão na Espanha.

9) Marcus Annaeus Lucanus, poeta romano (03/11/39 – 30/04/65 d. C.).

10) Máksimos de Tyros, retórico e filósofo grego, viveu na época dos Antoninos e do imperador Commodus (fim do séc. II d. C.).

11) Também conhecidos como “Escólios de Berna”, são comentários ou notas escritos nas margens de um manuscrito do séc. X preservado na Burgerbibliothek de Berna, Suíça. Esses comentários relacionam-se a textos latinos clássicos, incluindo o De Bello Ciuili (Lucanus), as Eclogae e os Georgicā (Vergilius). O comentário elabora uma referência de Lucanus aos sacrifícios humanos realizados pelos druidas a Toutatis (Mercurius), Esus (Mars) e Taranis (Iuppiter), explicando que as vítimas de Toutatis eram afogadas num caldeirão (cena que pode ser vista no “Caldeirão de Gundestrup”), ao passo que as vítimas de Esus eram enforcadas numa árvore e as de Taranis, queimadas.

12) Galo-britônico koman, komenos (subst. neutro de tema em nasal), cf. irlandês antigo cuimne, irlandês moderno cuimhne, galês cof, córnico kov, bretão koun.

13) Prennon Bitous (gaulês antigo), Pren in Bithu (gaulês moderno).

14) Esta é um interpretação altamente especulativa.

Orientações para a Confecção do Bastão Divinatório

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bastao11 A escolha da madeira
2 Desperte o bastão
3 Trabalhando a forma
4 Adornos
5 Proteção
6 Encantando o bastão
6.1 Aterrar e coroar o bastão

1 A escolha da madeira

Madeira caída pode ser usada, mas não é a melhor escolha uma vez que, tendo caído espontaneamente da árvore, trata-se de uma parte que já deve ter começado a apodrecer.

Uma ótima opção seria encontrar um pedaço que tenha se separado da árvore em razão de uma tempestade (madeira de tempestade). Tempestades são momentos em que a natureza desencadeia grandes poderes de mudança.

Se você optar por madeira viva (que você vá cortar de uma árvore), peça permissão à planta simplesmente mentalizando a pergunta e aquietando a sua mente para sentir o “Sim” ou o “Não” da árvore.

Há muito poder em madeira que tenha sido atingida por um raio, porém não é aconselhável a alguém não habituado ao uso de instrumentos mágicos fazer um bastão com madeira de trovão.

Sempre que possível, dê algo em retribuição à floresta ou à árvore que forneceu o seu bastão. Um pequeno cristal, uma moeda (cobre não, pois pode ser danoso às árvores). Até mesmo água serve. As plantas certamente apreciarão.

2 Desperte o bastão

Acorde-o. Segure-o em suas mãos e imagine-o como uma criatura de belas formas como a árvore que o presenteou a você e cuja vida está desperta dentro da madeira e começa a respirar, um pequeno ser cujo único propósito é realizar alegremente a sua tarefa ritual. Veja-o no curso do dia como uma entidade que o segue ou cuja presença seja apenas sentida, ainda que fora da vista. Tente sentir a presença dele. Lembre-se, contudo, desta observação importantíssima: esse ser é um servidor. Não se apegue a ele. Não lhe dê nome, voz ou personalidade.

3 Trabalhando a forma

Talvez você tenha ideia de como quer que o seu bastão se pareça, talvez não. De qualquer modo, comece a trabalhá-lo sem ficar preso à intenção inicial e permita ao bastão escolher a sua própria forma por meio das suas mãos. Trabalhe silenciosamente e com calma. Se tiver uma ideia, use-a e poderá descobrir que ela é capaz de tomar vida própria.

Você não confeccionará um único bastão, mas vários, e usará em cada nova criação as informações obtidas com os bastões anteriores.

Evite, se possível, o uso de ferramentas elétricas para esculpir a madeira. Dê preferência a tornos manuais, raspadeiras, facas, canivetes e lixas.

4 Adornos

O bastão pode ser enfeitado com cristais, conchas, penas, fios de metal, tiras de couro e inscrito com quaisquer símbolos e caracteres. Há somente ume regra e esta é absoluta: qualquer elemento utilizado deve ter um significado definido para o usuário e tal significado não deve restringir-se à estética. O bastão é um instrumento mágico, não uma peça de exibição.

5 Proteção

Física e energeticamente, é útil fazer uma bolsa ou capa para o bastão, de preferência de materiais naturais. As cores azul, púrpura e preta são indicadas, porém a escolha pode levar em consideração a finalidade do bastão. A madeira pode ser impermeabilizada com óleos (como o óleo de tungue, também chamado óleo chinês ou dinamarquês) e ceras (como a de carnaúba).

Até este ponto, a preparação física do bastão.

6 Encantando o bastão

Respire profundamente pelas narinas, encha completamente os pulmões. Retenha por alguns segundos. Expire pela boca até esvaziar completamente os pulmões. Prenda a respiração por alguns segundos.

Repita nove vezes e durante esse tempo não tente bloquear os seus pensamentos, mas não se concentre particularmente em nenhum deles.

Pegue o seu bastão. Imagine-o como uma criança que olha para você e lhe pergunta “O que você quer que eu faça?”. Responda com a verdade do seu coração. Jamais tente enganar os seus instrumentos mágicos.

Com as duas mãos, segura o bastão na altura dos seus lábios e, para que a madeira sinta a vibração da sua voz, sussurre vinte e sete vezes:

SOITON ANDERON BRICTON UXERON (1)

a magia dos de baixo, o encantamento dos de cima

6.1 Aterrar e coroar o bastão

Segure-o com a ponta superior voltada para o céu. Imagine que a base do bastão deita raízes para dentro do chão, raízes cada vez mais grossas e que penetram mais e mais fundo na terra. Imagine que as raízes recolhem energia e faça-a subir pelo corpo do bastão, do mesmo modo que as raízes de uma árvore juntam água e nutrientes do solo e lançam-nos para o tronco. Observe essa energia ser armazenada e subir pelo bastão, jorrando pela ponta na forma de uma corda.

Veja-a subir em direção ao céu, tão alto que se perca no firmamento, onde os Deuses residem, onde há um castelo com um gigante, uma harpa encantada que produz música sozinha e uma ave que põe ovos de ouro. Nesse lugar mágico, prenda a corda de energia por um momento em qualquer suporte, depois a deixe fluir suavemente de volta para o bastão.

Use o instrumento. Direcione a energia da base para a ponta. Se quiser, pode usar outro bastão ou a ponta do seu dedo para dirigir a energia do fundo do bastão para a ponta e além desta.

Bellouesus /|\

1) Áudio: <https://soundcloud.com/user197250276/soiton-anderon>. Data: 15 dez. 2015.

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Runā antes da Oração

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runaantesA runā (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Ergo minhas mãos sob o olhar de Sukellos que me formou,
Sob o olhar de Lugus que me fez livre,
Sob o olhar de Maponos que me fez puro, em amizade e alegria.

Dai-me prosperidade em minha necessidade:

O amor de Eponā,
A amizade de Brigindū,
A sabedoria de Ogmi̯os,
A bênção de Nantosu̯eltā.
O temor de Nemetonā,
A vontade de Nodenđ,

Para que no Mundo do Três eu faça
como fazem em Albii̯os Deuses e Ancestrais.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite,
dai-me vosso poder e proteção.

Comentários

i) Nōdenđ (Nodens)

O caractere final no nome Nōdenđ representa uma letra que os romanos denominaram tau gallicum (“t gaulês”). Na época em que os gauleses escreviam a sua língua usando o alfabeto grego, o som do tau gallicum costumava ser representado por um theta duplo, ΘΘ, ou por um delta, Δ, cortado por uma pequena barra horizontal. Com o alfabeto latino, usava-se um s duplo, SS, cortado por uma barra horizontal, ou um D, cortado por uma barra horizontal.

Na verdade, a grafia era bastante variada:

Latim: t, tt, th, tth, d, dd, d, dd, ts, ds, s, ss, ss, sc, sd, st
Grego: θ, θθ, σ, σσ, σθ, τ, ττ
Etrusco: san, dzeta (também sigma?)

O valor fonético exato do tau gallicum, uma inovação gaulesa para atender uma necessidade da língua gaulesa, não é conhecido com exatidão. A opinião mais aceita atualmente é que o som desse caractere seria o de uma africada geminada, /ts/. Assim, a pronúncia de Nōdenđ seria algo como Noo-dents, genitivo Nōdentos, cf. latim Nodens, Nodentis.

Cultuado na Grã-Bretanha e na Gália, a interpretação romana (interpretatio romana) identificou Nōdenđ a Mars (Marte), deus da guerra, mas também da agricultura (Mars Pater, “Pai Marte”), bem como a Mercurius (Mercúrio) e Neptunus (Netuno). A identificação de Nōdenđ ao romano Mars lembra-nos que o rei guerreiro Nuada Airgetlam dele descende, ao passo que a perda do braço de Nuada tem paralelo na mesma mutilação sofrida pelo germânico Tyr, também identificado a Mars. Assim como Nuada foi sucedido no trono por Lugh, talvez Lugus tenha ocupado uma posição que um dia foi de Nōdenđ.

Uma das interpretações do nome de Nōdenđ é “apanhador”, ligando-o à pesca e à caça. Nas ruínas do seu santuário no complexo de Lydney Park (Gloucestershire, Inglaterra), há mosaicos com imagens de golfinhos, peixes e monstros marinhos. Esse santuário era um edifício imponente em estilo clássico, que a arqueologia tem interpretado como destinado a abrigar peregrinos enfermos que ali dormiriam na esperança de que uma cura lhes fosse revelada em sonho pelo deus. Numerosos objetos encontrados no local (inclusive imagens de cães, associados à cura) atestam que Nōdenđ, além de guerreiro e provedor de alimento, era reverenciado também como deus terapeuta.

Bellouesus /|\

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A Primeira Invocação

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kentugutus

Kentugutus

Senisamonbo in Morī,
Anati̯obo Ambibitous in Tiresi,
Dēu̯obo in Albii̯ē,
Mon kridi̯on,
Mon gutus
Ak mon menman
Ernami.

In Ghuthan Gin

A’n Shenatheré en in Mór,
A’n hAnathé Amvith en in Dír,
A’n Dhéié en in hAlv,
Mó ghrídh,
Mó ghúth
Ach mó wenu
Ióra mi.

A Primeira Invocação

Aos Ancestrais no Mar,
Aos Espíritos da Natureza na Terra,
Aos Deuses no Céu,
Meu coração,
Minha voz,
E meu pensamento
Eu ofereço.

Bellouesus /|\

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Moí coire coir goiriath

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3caldeiroes

Moí Coire Coir Goiriath

O Caldeirão da Poesia

Atribuído a Amhairghin Glúingeal

Um antigo poema atribuído ao próprio druida Amhairghin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema (datado do começo do séc. VIII, para as partes em verso, e do séc. X, para as partes em prosa, em razão de certas formas gramaticais) recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

Moí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad.
Os mé Amargen glúngel garrglas grélíath,
gním mo goriath crothaib condelgib indethar
– dath nád inonn airlethar Día do cach dóen,
de thoíb, ís toíb, úas toíb –
nemshós, lethshós, lánshós,
do h-Ébiur Dunn dénum do uath aidbsib ilib ollmarib;
i moth, i toth, i tráeth,
i n-arnin, i forsail, i ndínin-díshail,
sliucht as-indethar altmod mo choiri.

Meu perfeito caldeirão do aquecimento
por Deus foi retirado do abismo misterioso dos elementos,
perfeita verdade que do âmago do ser enobrece,
que verte uma aterradora correnteza de palavras.
Amhairghin Joelho-Branco sou,
de pele pálida e cabelo cinzento,
minha incubação poética realizando em formas adequadas,
em cores diversas.
Deus não concede a todos a mesma sabedoria:
inclinado, invertido, na posição correta.
Conhecimento nenhum, meio conhecimento, conhecimento completo
para Eber Donn, criação de temível poesia,
de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente,
No masculino, no feminino e no neutro, os sinais das letras duplas, vogais longas e vogais breves,
O modo pelo qual se declara a natureza do meu caldeirão*.

* […] para Eber Donn, criação de temível poesia, / de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente, […]: o texto foi composto para Eber e Donn, irmãos do druida Amhairghin. Eber foi um dos reis dos Mac Miledh e Donn, tendo sido o primeiro humano a morrer na Irlanda, tornou-se uma divindade tutelar dos mortos, recebendo os descendentes de Mil na Teach Duinn (“Casa de Donn”) depois da morte. Comumente, diz-se que a “Casa de Donn” localiza-se num rochedo do mesmo nome em algum lugar no mar a sudoeste da Irlanda.

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia, e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa*.

* Onde se encontra a raiz da poesia: na alma ou no corpo? “Na alma, pois sem esta nada pode o corpo”. Essa parece ser a atitude dos clérigos que formavam a elite cultural irlandesa após a cristianização. “No corpo, pois é herdada dos ancestrais”. Essa parece ser a atitude das classes instruídas nativas, que colocavam grande ênfase na necessidade de que o pai e o avô tivessem sido filí para que um indivíduo pudesse ser considerado file ele próprio. O autor do texto não contradiz um ponto de vista nem o outro, apresentando um terceiro, isto é, afirmando que o potencial existe em cada um, mas realiza-se apenas em uns poucos. O objetivo do autor, ao propor um modelo – como se verá – tão complexo quanto o dos três caldeirões talvez tenha sido superar o conflito entre a posição eclesiástica e a dos nativos, abrangendo três categorias de pessoas: o clérigo instruído, a pessoa versada na tradição nativa e um terceiro grupo, que poderia ser identificado ao amador talentoso. A metáfora do caldeirão, com os seus extremos de Aquecimento e Sabedoria, tendo a transição no Caldeirão do Movimento, ilustraria os vários níveis e tipos de conhecimento (especialmente gramática, métrica e escrita), cujos graus de competência seriam indicados pela posição de cada caldeirão.

Caite didiu bunad ind archetail 7 cach sois olchenae? Ní ansae; gainitir tri coiri i cach duiniu .i. coire goriath 7 coire érmai 7 coire sois.

Que é, então, a raiz da poesia e de toda outra sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa – o caldeirão do aquecimento, o caldeirão do movimento e o caldeirão da sabedoria.

Coire goiriath, is é-side gainethar fóen i nduiniu fo chétóir. Is as fo dálter soas do doínib i n-ógoítu.

O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo*. Distribui sabedoria às pessoas em sua juventude*/**.

* A posição em pé de Coire Goiriath no começo da vida representa um caso ideal, o do indivíduo que atinge o grau mais alto de instrução. Tal pessoa necessita que o seu Caldeirão do Aquecimento esteja em pé desde o princípio. Outrossim, a passagem anterior que diz dath nád inonn airlethar Día do cach dóen (“Deus não concede a todos a mesma sabedoria”) refere-se aos graus mais baixos dos poetas (leia mais AQUI) , aos bardos e às pessoas totalmente sem instrução. Assim, não há contradição entre essas afirmações.

** O primeiro caldeirão chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sofhis (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar. Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Coire érmai, immurgu, iarmo-bí impúd moigid; is é-side gainethar do thoib i nduiniu.

O caldeirão do movimento, entretanto, aumenta depois de virar. Isso quer dizer que nasce inclinado para um dos lados, crescendo interiormente*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente inclinado em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria”, o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Coire sois, is é-side gainethar fora béolu 7 is as fo-dáilter soes cach dáno olchenae cenmo-thá airchetal.

O caldeirão da sabedoria nasce invertido e distribui sabedoria na poesia e em toda outra arte*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/[…] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amhrán Mór, que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

Coire érmai dano, cach la duine is fora béolu atá and .i. n-áes dois. Lethchlóen i n-áer bairdne 7 rand. Is fóen atá i n-ánshruithaib sofhis 7 airchetail. Conid airi didiu ní dénai cach óeneret, di h-ág is fora béolu atá coire érmai and coinid n-impoí brón nó fáilte*.

O caldeirão do movimento, então, em todas as pessoas sem arte está invertido. Está inclinado para o lado em pessoas do ofício bárdico e de pequeno talento poético. Está na posição correta nos maiores dentre os poetas, que são grandes correntezas de sabedoria*. Nem todo poeta o possui na posição correta, pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria*/**.

* Os caldeirões são três, podendo também cada um deles assumir três diferentes posições: fóen ou uas toíb (em pé, isto é, na posição correta); de thoíb ou lethchlóen (inclinado); fora béolu ou for béolu ou ainda is toib (invertido). A posição em pé é a considerada ideal; a invertida é a menos desejável; a posição inclinada é um estado intermediário. Essas posições correspondem: fóen/uas toíb – o caldeirão está cheio; de thoíb/lethchlóen – o caldeirão está meio cheio; fora béolu/for béolu/is toib – o caldeirão está vazio.

** Este trecho deve ser analisado em conjunto com o que diz “O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo”, pois é na verdade um comentário sobre a natureza de Coire Goiriath. Coire Érmai está invertido em todas as pessoas sem arte, ou seja, ignorantes, e meramente inclinado nos bardos. Naqueles que são os maiores dentre os poetas, grandes correntezas de sabedoria (implicitamente os ollúna, grau mais alto dos filí), Coire Érmai mostra-se com a boca para cima. Desse modo, o Caldeirão do Movimento deve ser entendido como continuação do Caldeirão do Aquecimento. Nos ollúna, Coire Érmai é simplesmente Coire Goiriath em qualquer posição que este antes se encontrasse, sem que nada lhe fosse acrescentado. Coloca-se uma oposição entre os ollúna, de um lado, e os anruthanna (segundo grau dos filí), descendo toda a hierarquia dos poetas até chegar aos baird e às pessoas sem instrução, do outro. Como se dá então que o Caldeirão do Movimento possa ser cheio e “virado pela tristeza ou pela alegria”? Não se trata de contradição, pois esse é um processo dinâmico. O Caldeirão do Movimento é a transição entre o Caldeirão do Aquecimento e o Caldeirão da Sabedoria, ocorrendo entre eles uma sequência de esvaziamentos e enchimentos contínuos. Coire Goiriath começa com a boca para cima, Coire Érmai inicia no estágio em que o esvaziamento já começou (inclinado). Este processo se completa e, quando Coire Érmai é cheio novamente, converte-se em Coire Sofhis.

Ceist, cis lir foldai fil forsin mbrón imid-suí? Ní ansae; a cethair: éolchaire, cumae 7 brón éoit 7 ailithre ar dia 7 is medón ata-tairberat inna cethair-se cíasu anechtair fo-fertar.

Pergunta: quantas divisões de tristeza viram os caldeirões dos sábios? Não é difícil. Quatro: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. Essas quatro são suportadas internamente, virando os caldeirões, embora sua causa seja exterior.

Atáat dano dí fhodail for fíilte ó n-impoíther i coire sofhis, .i. fáilte déodea 7 fáilte dóendae.

Há duas divisões de alegria que viram o caldeirão da sabedoria: a alegria divina e a alegria humana.

Ind fháilte dóendae, atáat cethéoir fodlai for suidi .i. luud éoit fuichechtae 7 fáilte sláne 7 nemimnedche, imbid bruit 7 biid co feca in duine for bairdni 7 fáilte fri dliged n-écse iarna dagfhrithgnum 7 fáilte fri tascor n-imbias do-fuaircet noí cuill cainmeso for Segais i sídaib, conda thochrathar méit motchnaí iar ndruimniu Bóinde frithroisc luaithiu euch aige i mmedón mís mithime dia secht mbliadnae beos.

Há quatro divisões da alegria humana entre os sábios: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Estas se lançam em grandes quantidades, como um rebanho de carneiros nas margens do Bóinn, movendo-se mais depressa que cavalos de corrida conduzidos no solstício de verão a cada sete anos.

Fáilte déoldae, immurugu, tórumae ind raith déodai dochum in choiri érmai conid n-impoí fóen, conid de biit fáidi déodai 7 dóendai & tráchtairi raith 7 frithgnamo imale, conid íarum labrait inna labarthu raith 7 do-gniat inna firthu, condat fásaige 7 bretha a mbríathar, condat desimrecht do cach cobrai. Acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar.

Deus toca as pessoas por meio de alegrias divinas e humanas para que sejam capazes de pronunciar poemas proféticos e realizar portentos, dando julgamentos sábios com precedentes e bençãos em resposta a cada pedido. E a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior*.

* O impulso para produzir poesia vem de dentro do indivíduo como resposta a circunstâncias externas, ou a habilidade para produzi-la já existe internamente no indivíduo, mas necessita do impulso de circunstâncias externas para manifestar-se, o que é confirmado pelo que está abaixo, faillsigther tri brón, “que é revelado por meio da tristeza”. No caso da alegria (dividida em humana e divina, fáilte déodea 7 fáilte dóendae), o caso é inverso: acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar, “e a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior”. Neste caso, a habilidade poética não está presente no indivíduo, mas precisa ser fornecida, e o impulso não vem de dentro da pessoa, mas do exterior. Isso é confirmado pela frase tórumae ind raith déodai, que fala da chegada da graça divina ao caldeirão, fazendo-o virar à posição correta. As quatro alegrias humanas antes mencionadas referem-se aos estágios sucessivos na carreira do poeta: chegada à adolescência, aprendizado exitoso com um mestre, aquisição das prerrogativas da poesia depois do estudo e a final aquisição do imbas.

Ara-caun coire sofhis
sernar dliged cach dáno
dia moiget moín
móras cach ceird coitchiunn
con-utaing duine dán.

Canto o caldeirão da sabedoria,
que concede a natureza de cada arte
por meio da qual a riqueza aumenta,
que engrandece cada artesão,
que edifica uma pessoa por meio de seu dom.

Ar-caun coire n-érmai
intlechtaib raith
rethaib sofhis
srethaib imbais
indber n-ecnai
ellach suíthi
srúnaim n-ordan
indocbáil dóer
domnad insce
intlecht ruirthech
rómnae roiscni
sáer comgni
cóemad felmac
fégthar ndliged
deligter cíalla
cengar sési
sílaigther sofhis
sonmigter soír
sóerthar nád shóer,
ara-utgatar anmann
ad-fíadatar moltae
modaib dliged
deligthib grád
glanmesaib soíre
soinscib suad
srúamannaib suíthi,
sóernbrud i mberthar
bunad cach sofhis
sernar iar ndligiud
drengar iar frithgnum
fo-nglúaisi imbas
inme-soí fáilte
faillsigther tri brón;
búan bríg
nád díbdai dín.
Ar-caun coire n-érmai.

Canto o caldeirão do movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
inspiração poética fluente como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o caldeirão do movimento.

Coire érmai,
ernid ernair,
mrogaith mrogthair,
bíathaid bíadtair,
máraid márthair,
áilith áiltir,
ar-cain ar-canar,
fo-rig fo-regar,
con-serrn con-serrnar
fo-sernn fo-sernnar.

O caldeirão do movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado*.

* Observe-se que Coire Érmai, que pode ser considerado o mais importante dos três caldeirões, embora não haja menção de que distribua nenhum tipo de conhecimento (sofhis); sua peculiaridade é iarmo-bí impúd moigid, “aumenta depois de virar”, ou seja, torna-se Coire Sofhis. Coire Érmai representa um estágio intermediário entre Coire Goiriath e Coire Sofhis; este apresenta a característica de receber acréscimos, mas nunca sofrer diminuições; esses acréscimos são as “alegrias e tristezas” mencionadas no texto; veja-se adiante o seu significado.

Fó topar tomseo,
fó atrab n-insce,
fó comair coimseo,
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo*,
boa é a aquisição da fala,**
boa é a confluência do poder***,
que edifica a força.

* .I. is maith in coiri asa toimsidhher fri fidh 7 deach, “isto é, bom é o caldeirão graças ao qual se mede por letra e metros poéticos”, isto é, o conhecimento da gramática, da escrita e da métrica, que obviamente era um prerrequisito necessário a qualquer pessoa instruída.

** “Boa é a aquisição da fala”, isto é, a aquisição do poder de compor poesia, ou ser inspirado .i. is maith in coiri a fuil in tein fesa, “isto é, bom é o caldeirão em que se encontra o ‘fogo do conhecimento’ (tein fesa)”; assim, as tristezas e alegrias antes mencionadas são tipos diferentes de inspiração.

*** .I. is maith in coiri asa comainsidhther so uile, “isto é, bom é o caldeirão do qual tudo isso é obtido”.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Vejamos agora outro texto irlandês* que fala sobre a composição do Adão bíblico de um modo que curiosamente faz lembrar o Adam Kadmon (“homem original”) do Zohar e do Talmud.

* Codex Clarend, v.XV, fol. 7,p. 1, col. “a”, Londres, British Library, MS Additional 4783/03-07 (fim do séc. XV).

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do uiii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e seu semblante; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

Portanto, Adão foi feito de oito partes:

1) terra (corpo, isto é, a carne);
2) mar (sangue);
3) o sol (rosto e semblante);
4) as nuvens (ilegível);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) Espírito Santo (alma) e
8) luz do mundo (devoção).

Dessa lista de correspondências, podemos concluir que há uma simetria entre Adão e o Mundo: a carne de Adão é a terra do Mundo; o mar do Mundo é o sangue de Adão.

Vimos que há três caldeirões no homem, isto é, em Adão: Aquecimento, Movimento e Sabedoria e a cada um deles atribuirei igual número de elementos. Isso exige que a relação seja emendada, acrescentando-se níab* (“força vital”) ao fim e trocando o Espírito Santo por um elemento natural que está claramente ausente: a lua.

* Irlandês antigo níab, “vigor, essência” < proto-céltico *neibos, galês nwyf, “vigor, energia”, nwyfre,“firmamento, força vital”.

O rol de elementos ficará assim:

1) terra (carne) – indolência;
2) mar (sangue) – inconstância;
3) sol (rosto) – beleza, vigor;
4) nuvens (mente) – superficialidade, tolice;
5) vento (respiração) – robustez contra todos;
6) pedras (ossos) – dificilmente dominável, desonestidade, cobiça;
7) lua (alma) – intensidade, boa aparência, tocado pela graça divina;
8) luz do mundo (devoção) – merecedor de amor, sensatez
9) níab (espírito) – engenhosidade, inteligência, vivacidade

Tabela 1

Elementos

 

Caldeirões

Força

Cósmicos

Pessoais

Deidade*

9
Sabedoria
Bua
Lua
Alma
Anu
8
Sabedoria
Bua
Luz do Mundo
Devoção
Manannán
7
Sabedoria
Bua
Níab
Espírito
Dagda
6
Movimento
Brí
Pedras
Ossos
Cailleach
5
Movimento
Brí
Vento
Respiração
Lugh
4
Movimento
Brí
Nuvens
Mente
Brigit
3
Aquecimento
Dán
Sol
Rosto
Ogma
2
Aquecimento
Dán
Mar
Sangue
Morrígu
1
Aquecimento
Dán
Terra
Carne
Macha
 

Caldeirões

Força

Localização

Mundo

Corrente

9
Sabedoria
Bua
Cabeça
Céu
Lunar
8
Sabedoria
Bua
Cabeça
Céu
Lunar
7
Sabedoria
Bua
Cabeça
Céu
Lunar
6
Movimento
Brí
Plexo
Terra
Solar
5
Movimento
Brí
Plexo
Terra
Solar
4
Movimento
Brí
Plexo
Terra
Solar
3
Aquecimento
Dán
Ventre
Mar
Telúrica
2
Aquecimento
Dán
Ventre
Mar
Telúrica
1
Aquecimento
Dán
Ventre
Mar
Telúrica
 * A atribuição destas divindades aos elementos é puramente experimental, sem caráter definitivo.

Tabela 2

VII

Níab

Espírito

VIII

Luz do Mundo

Devoção

 

IX

Lua

Alma

Bua

Céu

Sabedoria

IV

Nuvens

Mente

V

Vento

Respiração 

VI

Pedras

Ossos

Brí

Terra

Movimento

I

Terra

Corpo

II

Mar

Sangue

 

III

Sol

Rosto

Dán

Mar

Aquecimento

Sabedoria

IX – Lua – alma – influência, irradiação
VIII – Luz do Mundo – devoção – valorização
VII – Níab – espírito – comunicação

Movimento

VI – Pedras – ossos – independência, rigidez, egocentrismo
V – Vento – respiração – robustez, resistência
IV – Nuvens – mente – gravidade, seriedade, confiabilidade

Aquecimento

III – Sol – rosto – beleza, saúde
II – Mar – sangue – estabilidade, constância, equilíbrio
I – Terra – corpo – vigor, vitalidade, dinamismo

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