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Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

locustaUma herdeira da ciência dos vates na Roma do séc. I?

Locusta nasceu no séc. I E. C. na Gália romana. Em seus primeiros anos, Locusta aparentemente aprendeu muito sobre as ervas de seu país. Ao chegar a Roma, Locusta descobriu que as pessoas em seu círculo eram gananciosas e cheias de cobiça. Naqueles dias, havia muitas pessoas em Roma que desejavam apressar a morte de seus rivais ou de parentes ricos; tais mortes, contudo, teriam de parecer naturais. Locusta forneceu-lhes os meios para atingir seus objetivos – tornou-se uma envenenadora profissional. Embora tenha sido presa por outras atividades, possuía alguns clientes influentes que a ajudavam a sair da prisão rapidamente.

Por volta do ano 54 E. C., Locusta foi chamada em segredo pela imperatriz Agripina, quarta mulher do imperador Claudius. Agripina tinha desejos muito claros: Nero, seu filho de um casamento anterior, deveria ser o imperador de Roma. Assim, Claudius, então com 64 anos, tinha de morrer. É nessa parte que Locusta entra.

Agripina sabia que Claudius adorava cogumelos. Também sabia que o imperador tinha provadores. As duas mulheres elaboraram um plano. Certa tarde, quando o auxiliar mais chegado do imperador estava doente, Agripina subornou o provador para ficar fora do caminho e Locusta envenenou uma grande porção de cogumelos. Depois de servir ao imperador muito vinho, Agripina trouxe ela própria os cogumelos envenenados a Claudius. Sem suspeitar de nada, Claudius devorou as guloseimas envenenadas.

Logo, o imperador estava se dobrando com dores de estômago, falta de ar e sem conseguir falar. Agripina, esposa dedicada, agitava-se freneticamente a sua volta com fingida preocupação. Poderia o amado imperador ter comido algo que não caísse bem? Locusta havia pensado numa segunda arma que Agripina iria então usar, uma pena com outra dose letal de veneno. Em sua aparente agitação para ajudar o marido tomado de dores, Agripina meteu a pena envenenada em sua garganta, com a falsa intenção de fazê-lo expelir do estômago a substância tóxica.

Em 13 de outubro do ano 54 E. C., o imperador Claudius morreu e Nero, então com 16 anos, foi nomeado imperador. Agripina estava mais do que satisfeita. Quanto a Locusta, foi jogada ao cárcere e recebeu sentença de morte.

Nero, entretanto, possuía seus próprios rivais e medos. Claudius tinha um filho de 14 anos de um casamento anterior, chamado Britannicus. Nero sabia que Britannicus também tinha pretensões ao trono e precisava certificar-se de que Britannicus não iria atrapalhá-lo. Sorrateiramente, poucos meses depois de tornar-se imperador, Nero ordenou que Locusta fosse libertada da prisão e imaginou um novo plano para as habilidades da envenenadora.

Num jantar de família ao entardecer, o vinho foi trazido e derramado nos cálices. Os provadores de comida testaram a bebida das taças e passaram-nas aos convidados. Nero, Agripina, sua mãe, vários outros parentes e o jovem Britannicus, estavam todos completamente ignorantes quanto ao estratagema. Quando Britannicus tomou um bole de vinho, devolveu o cálice ao provador, reclamando que a bebida estava muito quente. O provador de comida adicionou um pouco de água fria ao vinho e devolveu-o ao menino. Dessa vez, porém, o provador tinha esquecido de provar a água fria e limpa que fora adicionada à taça de Britannicus – e foi ali que Locusta tinha vertido sua poção venenosa.

Assim que Britannicus caiu em convulsões, Nero calmamente lembrou aos convidados que Britannicus sofria de epilepsia e recusou-se a chamar qualquer ajuda para o rapaz que estertorava. A ansiedade de Agripina era terrível! Ela sabia exatamente o que seu filho estava fazendo, pois reconheceu a armação e compreendeu que tudo tinha sido feito sem consultá-la. Ela começou a comer seu jantar com calma, tendo cuidado para não denunciar em seu rosto o terror que enchia seu coração, pois sabia que poderia ser o próximo alvo. Os demais membros da família logo aceitaram a calma de Nero e retornaram cautelosamente à refeição vespertina, enquanto o garoto rastejava e torcia-se no chão. Ninguém teve a coragem ou foi tolo o bastante para fazer qualquer coisa em favor de Britannicus contra o desejo do imperador.

Por fim, Nero chamou os escravos para removerem Britannicus do aposento. O pretenso rival do imperador morreu poucas horas depois e foi apressadamente sepultado naquela mesma noite, apesar de uma grande tempestade e dos boatos que se espalharam de uma ponta a outra de Roma.

Tendo o imperador Nero como um de seus clientes satisfeitos, Locusta desfrutou do rápido crescimento de sua reputação e riqueza. O imperador cumulou-a com terras, dinheiro, presentes e o perdão completo por todos os envenenamentos de que fora acusada em anos passados. Houve outras recomendações do palácio e mais encomendas. Locusta estava muito ocupada com seu trabalho de envenenadora de aluguel e chegou a abrir uma escola para passar a outras seu conhecimento de ervas e toxinas, realizando testes em animais e criminosos condenados.

Com o patrocínio do imperador, Locusta gozou de um período de grande sucesso comercial. Isso até o Senado Romano finalmente ter a coragem de condenar Nero à morte em 68 E. C. Locusta previdentemente fornecera a Nero um kit de envenenamento para si mesmo, contudo, na confusão do momento, Nero perdeu-o. Antes que pudesse ser trazido ante o Senado para ser julgado pela multidão de seus crimes, Nero encontrou a morte com sua própria adaga.

Locusta, após a queda de Nero, tentou continuar sua atividade com a maior discreção. Porém, devido a sua enorme reputação como envenenadora profissional não mais apoiada pelo favor do soberano, a gaulesa foi executada pouco depois, naquele mesmo ano.

Bellouesus /|\

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Muirgheal

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“Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

“O Caldeirão do Aquecimento (Coire Goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude.

“O Caldeirão da Vocação (Coire Érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa.

“O Caldeirão da Sabedoria (Coire Sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia”.

Atribuído a Amergin Joelho Brilhante

Muirgheal acomodou-se sob o salgueiro na encosta da colina, a pequena árvore perdida num mar verde. Observou as formas das nuvens até que o espelho de turquesa do céu começasse a tingir-se de vermelho no horizonte. Pela cortina esfarrapada dos ramos pendentes, a menina esquadrinhava a distância e via a terra vestir-se com o manto da noite em muda lucidez.

O dia partiu sem um sussurro, deixando para trás campos castanhos e o salgueiro tristonho de ramos encurvados sob o firmamento inalcançável. O dia partiu em silêncio, escorreu pelas folhas, enquanto Muirgheal fitava o horizonte, sua mente dançando com o vento que não conhece fadiga.

A menina cruzou frouxamente as pernas e endireitou a espinha, observando o ritmo de sua respiração, sem tentar alterá-lo. A simples atenção ao fluxo tornou as inalações mais completas e profundas. Cruzou as mãos sobre seu ventre, cobrindo o Caldeirão do Aquecimento, e sua mente dirigiu a correnteza da respiração para esse ponto, permitindo que vertesse dentro do vaso interno. As inalações e exalações tornaram-se mais rápidas, porém igualmente profundas e plenas, até que não houvesse mais espaço em seus pulmões. Ela sentiu a agitação nas águas do caldeirão e seu vapor subindo.

Levou então as mãos ao centro do peito, à região do coração, onde se posiciona o Caldeirão da Vocação. Os vapores subiam do ventre para esse local sob suas mãos e o córrego de ar agora desaguava ali. Muirgheal viu o grande receptáculo não totalmente emborcado, não completamente em pé, e inalou profundamente, exalando depressa como alguém que suspira. Envolvido pelas emanações do Caldeirão do Aquecimento e recebendo o jato prateado do novo sopro, o vaso do coração aproximava-se da posição ereta. Um fumo tênue já subia de seu conteúdo.

Muirgheal segurou sua cabeça com as duas mãos e deixou que o ar enchesse seu crânio, sede do Caldeirão da Sabedoria. Viu então uma grande luz, o salgueiro envolvido pelo poente e a menina sentada embaixo dele numa pele de veado. E percebeu nesse instante que tinha feito o bastante para um só dia, pois os cenários do seu desejo tinham se sobreposto a sua realidade. Turlach, seu tutor, já a advertira: “Iluminar-se não é contemplar figuras de luz, mas fazer a escuridão consciente”.

Ela sacudiu as pernas, comeu um pedaço de pão e tomou um gole de água do odre em seu alforje. Levantou-se, recolheu a pele que lhe servira de tapete e voltou para ajudar sua mãe adotiva com o jantar.

Bellouesus /|\

Sobre Celtas e Druidas

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Sópatro (fim do séc. IV a. C.) (via Ateneu, 4.160):

Entre eles há o costume de, sempre que vitoriosos em batalha, sacrificar seus prisioneiros aos deuses. Assim, eu,
como os celtas, prometi aos divinos poderes queimar esses três falsos dialéticos como oferenda.

Timeu (começo do séc. III a. C.) (via Diodoro Sículo, 4.56):

Os historiadores apontam que os celtas que vivem às margens do Oceano honram os Dióscuros acima dos outros
deuses. Pois há uma antiga tradição entre eles de que esses deuses vieram do Oceano até eles.

Eudoxo de Rodes (fim do séc. III a. C.) (via Heliano, “Sobre os Animais”, 17.19):

Eudoxo diz que os celtas fazem o seguinte (e, se alguém pensar que seu relato é crível, deixai-o acreditar; se não,
deixai-o ignorá-lo). Quando nuvens de gafanhotos invadem seu país e danificam as colheitas, os celtas evocam
certas orações e oferecem sacrifícios com feitiços a pássaros – e os pássaros ouvem essas orações, chegam em bandos
e destroem os gafanhotos. Se, entretanto, um deles capturar um desses pássaros, sua punição, de acordo com ass leis
do país, é a morte. Se ele for perdoado e libertado, isso enfurece os pássaros e, para vingar a ave capturada, eles não
respondem se forem chamados outra vez.

Artemidoro de Éfeso (fim do séc. II a. C.) (via Estrabão, 4.4.6):

O seguinte relato, que Artemidoro contou sobre os corvos, é inacreditável. Há um certo porto na costa que, de
acordo com ele, chama-se “Dois Corvos”. Nesse porto, são vistos dois corvos, com suas asas direitas um pouco
brancas. Homens que estão em disputa sobre certas questões vão até lá, colocam uma prancha num lugar elevado e
então cada homem, separadamente, atira bolos de cevada. As aves voam e comem alguns dos bolos, mas espalham
outros. O homem cujos bolos foram espalhados vence a disputa. Embora essa história seja implausível, sua narração
sobre as deusas Deméter e Corê é mais crível. Ele diz que há uma ilha perto da Britânia onde sacrifícios são
realizados como aqueles na Samotrácia, para Deméter e Corê.

Tito Lívio (séc. I a. C.) (23.24):

(216 a. C.) Postúmio morreu lutando com todas as suas forças para não ser capturado vivo. Os gauleses
despojaram-no de todos os seus espólios e os boios levaram sua cabeça decepada em procissão ao mais sagrado de
seus templos. Lá ela foi limpa e o crânio nu foi adornado com ouro, de acordo com o costume deles. Foi usado
desde então como um vaso sagrado em ocasiões especiais e como uma taça ritual por seus sacerdotes e oficiais do
templo.

Nicandro de Cólofon (séc. II a. C.) (via Tertuliano, “Sobre a Alma”, 57.10):

Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones recebem
oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem.
Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma
Nicandro.

Posidônio (séc. I a. C.) (via Diodoro Sículo, 5.28):

O ensinamento de Pitágoras prevalece entre os gauleses, de que as almas dos humanos são imortais e de que, após
um certo número de anos, eles viverão outra vez, com a alma passando a um outro corpo. Por causa dessa crença,
algumas pessoas nos funerais irão lançar cartas na pira fúnebre, de forma que os que morreram possam lê-las.

(via Diodoro Sículo, 5.31):

Os gauleses têm certos homens sábios e especialistas sobre os deuses chamados Druidas, bem como uma classe de
videntes altamente respeitados. Por meio de augúrios e sacrifícios de animais esses videntes predizem o futuro e
ninguém ousa escarnecer deles. Eles têm um método de adivinhação especialmente estranho e inacreditável para as
questões mais importantes. Tendo consagrado uma vítima humana, eles a golpeiam com uma faquinha na região
acima do diafragma. Quando o homem desfalece por causa do ferimento, eles interpretam o futuro pela observação
da natureza de sua queda, da convulsão de seus membros e, especialmente, do padrão do seu esguicho de sangue.
Nesse tipo de adivinhação, os videntes depositam grande confiança numa antiga tradição de observação.

É costume entre os gauleses jamais realizar um sacrifício sem que alguém perito nos caminhos divinos esteja
presente. Dizem que os que sabem a respeito da natureza dos deuses devem oferecer-lhes agradecimentos e fazer-
lhes pedidos, como se essas pessoas falassem a mesma língua dos deuses. Os gauleses, amigos e inimigos do mesmo
modo, obedecem a lei dos sacerdotes e bardos não somente em tempo de paz, mas também durante as guerras.
Frequentemente ocorre que, ao se aproximarem dois exércitos com espadas desembainhadas e lanças prontas, os
druidas andem entre os dois lados e parem a luta, como se tivessem lançado um encantamento sobre bestas
selvagens. Assim, mesmo entre os bárbaros mais selvagens, a fúria cede à sabedoria e o deus da guerra respeita as
Musas.

(via Diodoro Sículo, 5.32):

É de acordo com sua brutalidade e natureza selvagem que eles realizam práticas religiosas particularmente
ofensivas. Eles manterão alguns criminosos sob guarda por cinco anos, empalando-os então numa estaca em honra
de seus deuses, seguindo-se a incineração deles numa enorme pira, juntamente com muitas outras primícias.
Também usam prisioneiros de guerra como sacrifícios aos deuses. Alguns dos gauleses sacrificarão até mesmo os
animais capturados na guerra, seja matando-os, queimando-os ou abatendo-os com algum outro tipo de tortura.

(via Estrabão, 4.4.4-5):

Falando de modo geral, há entre os gauleses três grupos que são singularmente honrados: os Bardos, os Vates e os
Druidas. Os Bardos são cantores e poetas, enquanto os Vates supervisionam o ritos e examinam os fenômenos
naturais. Os Druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade também. Os
gauleses consideram os Druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das
disputas públicas e privadas. No passado, eles até mesmo paravam batalhas que estavam a ponto de começar e
punham fim às guerras. Casos de homicídio especialmente são entregues aos Druidas para julgamento. Eles
acreditam que, quando houver muitos criminosos condenados disponíveis para o sacrifício, então a terra irá
prosperar. Os Druidas e outros dizem que a alma humana e o universo são ambos indestrutíveis, mas, no fim,
apenas o fogo e a água prevalecerão.

(via Estrabão, 4.4.6):

Posidônio também diz que há uma pequena ilha no Oceano Atlântico, na foz do rio Loire, habitada por mulheres
da tribo dos Samnitae. Elas são possuídas por Dioniso e apaziguam esse deus por meio de cerimônias misteriosas e
outros tipos de rituais sagrados. Jamais homem algum vai a essa ilha, mas as mulheres velejam para o continente
para ter sexo com os homens, voltando então. A cada ano, as mulheres demolem o teto de um templo e
constroem-no outra vez antes do anoitecer, cada mulher levando uma carga para acrescentar ao telhado. Quem
quer que derrube sua carga é despedaçada pelas outras. Elas então carregam seus pedaços ao redor do templo
proferindo gritos de bacanal até que seu frenesi louco desapareça. E sempre acontece que aquela que está destinada
a sofrer esse destino seja derrubada por alguém.

Júlio César (séc. I a. C) (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, 6.13-14, 16-19):

Através de toda a Gália, há duas classes de pessoas que são tratadas com dignidade e honra. Isso não inclui as
pessoas comuns, que são pouco melhores do que escravos e nunca têm voz nos conselhos. Muitos desses alinham-se
voluntariamente com um patrono, seja por causa de um débito ou um pesado tributo ou por medo de um castigo de
alguma outra pessoa poderosa. Uma vez que tenham feito isso, terão abandonado todos os direitos e são pouco
mehores do que servos. As duas poderosas classe mencionadas acima são os Druidas e os guerreiros. Os Druidas
ocupam-se de questões religiosas, sacrifícios públicos e privados e divinação.

Uma grande quantidade de rapazes vem aos Druidas para instrução, tendo-os em grande respeito. Sem dúvida, os
Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer
homicídio foiperpetrado, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições. Se qualquer um ignorar sua decisão, essa pessoa é banida de
todos os sacrifícios – uma punição extremamente severa entre os gauleses. Aqueles que são assim condenados são
considerados criminosos detestáveis. Todos se afastam deles e não lhes falarão, temendo algum dano por causa do
contato com eles e não recebem justiça nem honra por qualquer feito digno.

Entre todos os Druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre
o Druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma
eleição por todos os Druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do
ano, todos os Druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos Carnutes, cuja terra é considerada o
centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos
Druidas. Diz-se que o movimento druídico começou na Britânia e foi então levado para a Gália. Ainda hoje,
aqueoles que desejam estudar seus ensinamentos com mais aplicação usualmente viajam para a Britânia.

Os Druidas são isentos do serviço militar e do pagamento de contribuições de guerra, ao contrário dos outros
gauleses. Tentados por tais vantagens, muitos jovens de boa vontade dedicam-se aos estudos druídicos, enquanto
outros são enviados por seus pais. Diz-se que, nas escolas dos Druidas, eles aprendem um grande número de versos,
tantos, na verdade, que alguns estudantes levam vinte anos em treinamento. Não é permitido escrever nenhum
desses ensinamentos sagrados, apesar de outras transações públicas e privadas serem muitas vezes registradas com
letras gregas. Acredito que eles praticam essa tradição oral por duas razões: primeira, para que o povo comum não
tenha acesso aos seus segredos e segundo, para fortalecer a faculdade da memória. Na verdade, a escrita muitas
vezes enfraquece a aplicação da pessoa em aprender e reduz a habilidade de memorizar. O ensinamento principal
dos Druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse
ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas. Eles
têm também um grande número de outros ensinamentos que passam aos jovens a respeito de coisas como o
movimento das estrelas, o tamanho dos universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses
imortais.

Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença
terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os
Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida
pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para
os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então põem-lhes fogo, perecendo
todos nas chamas. Eles acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses,
mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que ele é o inventor de todas as
artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele,
adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros
povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da
guerra. Antes de uma grande batalha, eles frequentemente dedicarão os espólios a Marte. Se obtiverem sucesso,
sacrificarão todas as coisas vivas que tiverem capturado e os outros espólios que eles reúnem num só lugar. Entre
muitas tribos, você pode ver esses espólios reunidos num local consagrado. E é uma ocasião muito rara que alguém
ouse perturbar esses bens valiosos e ocultá-los em sua casa. Se isso acontecer, o perpetrador é torturado e punido
das piores formas imagináveis.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis, e confirmam que esse é o
ensinamento dos Druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários
e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

Os funerais dos gauleses são magníficos e extravagantes. Tudo que era querido pelo falecido é lançado na fogueira,
inclundo-se os animais. Num passado recente, eles iriam queimar também escravos fiéis e subordinados amados no
ponto culminante do funeral.

Cícero (séc. I a. C.) (“Sobre a Divinação”, 1.90):

A prática da divinação não é negligenciada mesmo pelos bárbaros. Eu sei que há Druidas na Gália porque eu
mesmo conheci um deles – Divicíaco da tribo dos Aedui, que era vosso convidado e altamente vos louvava. Ele
reclamava um conhecimento da natureza derivado do que os gregos chamam “physiologia” – a inquirição acerca das
causas e fenômenos naturais. Ele predizia o futuro usando o augúrio e outras formas de interpretação.

Plínio (séc. I d. C.) (“História Natural”, 16.249, 24.103-4, 29.52, 30.13):

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas (que é o nome de seus homens
santos) não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se ela crescesse
somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que
um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” (a palavra
grega para “carvalho”). E, sem dúvida, eles pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um
sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em
carvalhos. Não obstante, eles o procuram com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo
lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a
lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua,
chamam o visco de um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos,
conduzindo dois touros brancos cujos chifres são amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco
então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então
sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda próprio dom àqueles a quem ele o
deu. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio
contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Semelhante à erva sabina é a planta chamada “selago”. Deve ser colhida sem instrumento de ferro, passando-se a
mão direita através da abertura da manga esquerda, como se a estivesses roubando. O colhedor, tendo primeiro
oferecido pão e vinho, deve vestir-se de branco e estar com os pés descalços e limpos. É levada num pedaço de
tecido novo. Os Druidas da Gália dizem que deve ser usada como proteção contra todo perigo e que a fumaça da
queima do “selago” é boa para as doenças dos olhos. Os Druidas também recolhem dos charcos uma planta
chamada “samolus”, que deve ser colhida com a mãe esquerda durante um período de jejum. É boa para as doenças
das vacas, mas aquele que a colhe não deve olhar para trás, nem colocá-la em lugar algum senão no cocho em os
animais bebem água.

Há um tipo de ovo que é muito famoso na Gália, mas ignorado pelos escritores gregos. Nos meses de verão, um
grande número de cobras se juntará numa bola que é mantida junta por sua saliva e uma secreção de seus corpos.
Os Druidas dizem que elas produzem esses objeto oval, chamado “anguinum”, que as cobras sibilantes lançam para
o ar. Ele deve ser apanhado, assim dizem eles, num manto antes de alcançar o chão. Mas seria melhor que você
tivesse um cavalo preparado, porque as cobras irão caçar você até que sejam impedidas por algum curso de água.
Um “anguinum” genuíno flutuará contra a correnteza, mesmo se coberto de ouro. Porém, como é usual para os
homens santos do mundo, os Druidas dizem que ele somente pode ser apanhado durante uma fase da lua
específica, como se as pessoas pudessem fazer a lua e as serpentes trabalharem juntas. Eu próprio vi um desses ovos
– era uma pequena coisa arredondada, como uma maçã, com uma superfície cheia de indentações semelhantes às
dos braços de um polvo. Os Druidas valorizam-no grandemente. Dizem que é um grande auxílio nas ações judiciais
e ajudará a ganhar a boa vontade de um governante. Que isso é uma total falsidade mostra-se por um homem da
tribo gaulesa dos Vocontii, um cavaleiro romano, que manteve um escondido em seu manto durante um julgamento
ante o imperador Cláudio e foi executado, até onde posso saber, unicamente por esse motivo.

Ritos bárbaros eram encontrados na Gália até uma época de que eu mesmo posso lembrar. Pois foi então que o
imperador Tibério passou um decreto por meio do Senado colocando fora da lei os seus Druidas e essas espécies de
adivinhos e médicos. Mas por quê menciono isso a respeito de uma prática que cruzou o mar e alcançou os confins
da terra? Pois mesmo hje a Britânia realiza ritos com tal cerimônia que você poderia achar que foram eles a fonte
dos extravagantes persas. É maravilhoso como povos distantes são tão semelhantes em tais práticas. Mas podemos,
ao menos, ficar satisfeitos de que os romanos tenham eliminado o culto assassino dos Druidas, que ensinavam
serem o sacrifício humano e o canibalismo ritual o mais elevado tipo de devoção religiosa.

Suetônio (“Cláudio”, 25):

Cláudio destruiu a horrível e inumana religião dos Druidas gauleses, que havia sido apenas proibida aos cidadãos
romanos sob Augusto. (41-54 d. C.)

Lucano (séc. I d. C.) (“Guerra Civil”, 1.444-46, 450-58):

Cruel Teutates, deleitado pelo sangue temível, horrível Esus com seus altares bárbaros,
e Taranis, mais cruel que a Diana Cítica.
ó Druidas, agora que a guerra acabou
retornais a vossos ritos bárbaros e modos sinistros.
Somente vós conheceis os caminhos dos deuses e poderes celestes, ou talvez o ignoreis totalmente.
Vós, que habitais nos bosques escuros e remotos,
dizeis que os mortos não procuram o reino silencioso de Érebo ou o pálido domínio de Plutão,
mas o mesmo espírito vive outra vez em um outro mundo
e a morte, se vossas canções são verdadeiras, não é senão o meio de uma longa vida.

Sílio Itálico (séc. I a. C.) (“Púnica”, 3.340-43):

Os celtas conhecidos como “hiberi” também vieram.
Para eles é glorioso cair em combate,
mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo.
Eles acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo,
jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto.

História Augusta” (séc. IV d. C.)

(Alexandre Severo 59.5): A Druidesa exclamou para ele quando ele chegava, “Vai em frente, mas não esperes a
vitória ou deposites confiança em teus soldados.” (235 d. C.)

(Numeriano 14): Enquanto Diocleciano era ainda um jovem soldado, ele estava hospedado numa taverna na terra
dos tongri, na Gália. Todo dia ele tinha de acertar as contas com sua senhoria, uma Druidesa. Um dia ela disse:
“Dicleciano, tu és ganancioso e sovina!” Zombeteiramente, ele lhe respondeu: “Então eu serei mais generoso
quando for imperador.” “Não rias”, ela disse, “pois será imperador depois de matares o javali.”

(Aureliano 43.4): Em certas ocasiões, Aureliano consultava as druidesas gaulesas para descobrir se os seus
descendentes continuariam a governar ou não. Elas disseram-lhe que nome algum seria mais famoso que os da
linha de Cláudio. E, sem dúvida, o atual imperador, Constâncio, é um descendente dele. (270 d. C.)

Ausônio (fim do séc. IV d. C.) (4.7-10, 10.22-30):

Descendes dos Druidas de Bayeux, se verdadeiras são as histórias a teu respeito,
e traças tua sacra ancestralidade e renome do templo de Belenus.
Tampouco esquecerei o ancião
com o nome de Febício.
Embora ele fosse sacerdote do deus Belenus, não recebeu qualquer vantagem da posição. Mas, apesar disso, esse,
que descende, diz-se, dos Druidas da Bretanha, recebeu uma cátedra em Bordeaux com a ajuda de seu filho.

Inscrição de Botorrita (fim do séc. II, começo do séc. I a. C.):

A Eniorosis e Tiato de Tiginos dedicamos trecaias e a Lugus dedicamos arainom.
A Eniorosis e a Equaesos, ogris erige coberturas de olga e a Lugus erige coberturas de tiasos.

Inscrição de Chamalières (c. 50 d. C.):

Invoco o deus Maponos arueriitis. Por meio da magia dos deuses do Mundo Inferior.
C. Lucios Floros, Nigrinos, o orador, Aemilios Paterinos, Claudios Legitumos, Caelios Pelignos, Claudios Pelignos,
Marcios Victorinos e Asiaticos, filho de Adsedillos…
O juramento jurarão – o pequeno se tornará grande, o curvado se tornará reto, e, embora cego, eu verei. Com esta
tábua de encantamento isso será…
luge dessummiiis luge dessumiis luge dessumiiis luxe.

Inscrição de Larzac (c. 90 a. C.):

Olhai:
– um encantamento mágico de mulheres
– o ritual deles, nomes do Mundo Inferior
– a profecia da vidente que tece este encantamento
A deusa Adsagsona devolve Severa e Tertionicna enfeitiçadas e amarradas.

Patrício (séc. V a. C.), “Confissão”:

É notável que os irlandeses tornaram-se, sem dúvida, um povo do Senhor e filhos de Deus. Essas pessoas que, até
agora, não tinham conhecimento de Deus, mas adoravam ídolos e seguiam práticas religiosas repulsivas.

Irlanda alto-medieval

– séc. VI d. C.: Juramentos serão proferidos em presença dos druidas (“druid”, em irlandês antigo)
– séc. VII d. C.: Somente o druida tem os mesmos direitos de um “boaire” (um nobre, proprietário de grandes
rebanhos)
– séc. VIII d. C.: Protege-me dos encantamentos de mulheres, ferreiros e druidas…

Bellouesus /|\ (compilação)

Druidesas da Gália

druida1As primeiras referências a druidesas vêm de uma obra bem pouco confiável chamada Historia Augusta, do séc. IV d. C., que narra as biografias dos imperadores romanos dos sécs. II e III d. C. (de 117 a 284) e contém muito material sabidamente inventado. Essas referências a druidesas (plural druiades no texto latino, druias no singular) aparecem nas biografias dos imperadores Severus Alexander e Diocletianus.

Historia Augusta, Severus Alexander (autor: Aelius Lampridius), III, 60,6: mulier Druias eunti exclamavit Gallico sermone, “Vadas nec victoriam speres nec te militi tuo credas.”

Além disso, ao partir para a guerra, uma profetisa druida gritou na língua gaulesa: “Vai, mas não esperes a vitória e não confies em teus soldados”.

Historia Augusta, Carus et Carinus et Numerianus (autor: Flavius Vopiscus), 14-15: Curiosum non druida2puto neque satis vulgare fabellam de Diocletiano Augusto ponere hoc convenientem loco, quae illi data est ad omen imperii. avus meus mihi rettulit ab ipso Diocletiano compertum. “Cum,” inquit, “Diocletianus apud Tungros in Gallia in quadam caupona moraretur, in minoribus adhuc locis militans, et cum Druiade quadam muliere rationem convictus sui cottidiani faceret, atque illa diceret, ‘Diocletiane, nimium avarus, nimium parcus es,’ ioco non serio Diocletianus respondisse fertur, ‘Tunc ero largus, cum fuero imperator.’ Post quod verbum Druias dixisse fertur, ‘Diocletiane, iocari noli, nam eris imperator cum Aprum occideris.’ ” Semper in animo Diocletianus habuit imperii cupiditatem, idque Maximiano conscio atque avo meo, cui hoc dictum a Druiade ipse rettulerat. denique, ut erat altus, risit et tacuit. Apros tamen in venatibus, ubi fuit facultas, manu sua semper occidit.

Não considero muito penoso ou ainda excessivo em relação ao usual inserir uma história sobre Diocletianus Augustus que não parece deslocada aqui – um incidente que ele considerava como um presságio de seu governo futuro. Esta história foi-me contada por meu avô depois de tê-la ouvido do próprio Diocletianus. “Quando Diocletianus”, disse ele, “ainda servindo em um posto menor, foi parar em uma certa taverna na terra dos Tungri na Gália e estava fazendo o seu acerto da conta diária com uma mulher que era um druidesa, esta disse-lhe, “Diocletianus, és muito ganancioso e muito mesquinho”, ao que respondeu Diocletianus não a sério, diz-se, mas só de brincadeira, ‘”Serei generoso o bastante quando me tornar imperador”. Nesse momento a druidesa disse, segundo meu avô, “Não caçoes, Diocletianus, pois tornar-te-ás imperador quando tiveres matado um Javali [Aper].” Eis que Diocletianus sempre teve em sua mente o desejo de governar, como sabia Maximianus e também meu avô. a quem ele mesmo disse essas palavras da druidisa. Então, no entanto, reticente como era seu costume, ele riu e não disse nada. Porém, na caça, toda vez que havia oportunidade, ele sempre matava o javali com sua própria mão.

Bellouesus /|\

O Tesouro de Vix 1

A mais rica descoberta da Gália independente

O Tesouro de Vix

1 Introdução

Todas as quartas-feiras, a venerável Sociedade Nacional dos Antiquários da França, fundada em 1804 e que conta em seu seio com os maiores especialistas em história e em arqueologia, dentre os quais dezesseis membros do Instituto, reúne-se na grande sala, solene e lambrisada, do Conselho dos Museus Nacionais no Palácio do Louvre. A ordem do dia comporta comunicações sobre a Antiguidade e sobre a Idade Média.

No dia 21 de janeiro de 1953, a assembleia ouviu primeiramente uma exposição sobre “a primeira obra de arte egípcia realizada na França no séc. XVIII”, depois uma segunda sobre “as descobertas arqueológicas feitas na região de Mailhac, no Aude”. A hora avançava quando Guy Gaudron, inspetor dos museus e membro da sociedade, foi sentar-se no lugar designado para os autores de comunicações, na extremidade da imensa mesa. No tom pacífico que convém a uma assembleia “essencialmente estudiosa e calma”, como ela mesma gosta de lembrar, ele anunciou que René Joffroy, sócio correspondente nacional, havia descoberto em Vix, próximo a Châtillon-sur-Seine, “um magnífico móvel funerário do período céltico, cuja principal peça consiste em uma imensa cratera de bronze, altura 1,50m, com decoração grega arcaica”. O relatório acrescenta que três membros da sociedade tomaram a palavra em seguida e “concordaram em sublinhar o caráter excepcional do achado, que coloca em pauta de uma só vez problemas de capital importância”.

Foi anunciada assim, pela primeira vez, uma das mais sensacionais descobertas arqueológicas jamais feitas na França. Em 15 de maio seguinte, o próprio René Joffroy compareceu perante a Academia de Inscrições e Letras e apresentou o resultado completo de suas pesquisas. Os céticos renderam-se às evidências. Os amadores de história anedótica teriam podido, de fato, registrar que alguns especialistas, mal informados, haviam por um momento emitido algumas dúvidas sobre essas descobertas que – é necessário reconhecer – transtornavam muitos dos conhecimentos adquiridos.

2 Sobre o monte Lassois, anos de escavações

No entanto, René Joffroy era conhecido por seus trabalhos e seus achados. Como ele se tornou arqueólogo? Dificilmente poderemos saber, pois ele é modesto e discreto sobre seus motivos. Felizmente, sua bonomia, sua sorridente cordialidade, assim como sua indulgência com respeito a seus confrades – que não é regra geral, é necessário dizer, no meio dos arqueólogos – valem-lhe simpatias unânimes e numerosos amigos. E chegamos a saber por intermédio destes que se trata de uma vocação de juventude, de uma notável precocidade. Originário do Alto Marne, quando ainda estava no liceu o jovem Joffroy havia retomado as escavações de um cemitério merovíngio situado próximo a Chaumont, que já havia sido bem explorado. Ele gostava de fazer longos passeios pelos campos, procurando sílices talhados, fazendo coleções, principalmente de entomologia. A familiaridade com a terra e a natureza, o estudo das paisagens são as virtudes primeiras para o arqueólogo.

Todavia, foi em direção à filosofia que se orientou René Joffroy. Ele fez sua licenciatura e, com sua desmobilização em 1940, foi nomeado para o colégio de Châtillon-sur-Seine para fazer uma simples substituição de três meses. Lá permaneceu, no entanto, por dezessete anos, até 1957, data em que foi nomeado conservador adjunto no Museu de Antiguidades Nacionais, em Saint-Germain-en-Laye.

Châtillon-sur-Seine: uma pequena cidade com aproximadamente cinco mil habitantes, uma etapa da rota de Paris a Dijon passando por Troyes, à margem do Sena, que tem sua nascente a uns cinquenta quilômetros de distância e ainda não passa de uma estreita ribeira. A história deixou aí grandes lembranças (foi à sombra de sua igreja de Saint-Vorles que São Bernardo fez seus estudos) e alguns monumentos interessantes. A última guerra, infelizmente, não poupou a encantadora cidade, que teve mais de duzentos prédios destruídos. Devemos sublinhar aqui que a municipalidade, consciente do grandioso passado da cidade e ainda que tendo de fazer face aos encargos acumulados pelas ruínas, conseguiu consagrar três milhões de francos à organização de seu museu. E esse crédito, devemos notar, foi outorgado antes da descoberta do famoso tesouro de Vix, atualmente o mais belo enfeite do museu para o qual atrai visitantes do mundo inteiro.

Por que René Joffroy, vindo apenas por um trimestre a Châtillon-sur-Seine, aí permaneceu por longos anos? A arqueologia o reteve. A esse respeito, a região preenchia seus desejos. A aproximadamente cinco quilômetros de Châtillon existe um extraordinário campo de exploração: o monte Lassois, uma colina que se eleva no vale do Sena.

vix1De 1929 a 1939, um arqueólogo local, J. Lagorgette, havia explorado o sítio e revelou sua importância. Com sua morte, em 1942, René Joffroy retomou o canteiro. Devido à sua posição estratégica, o monte Lassois havia sido ocupado desde a época neolítica e tomou uma enorme importância no fim da primeira Idade do Ferro, há dois mil e quinhentos anos. Um poderoso oppidum aí se erguia, circundado por um fosso de 12m de largura com 5m de profundidade e estendendo-se por mais de 3km; muralhas e enormes levantamentos de terra completavam o sistema defensivo. Uma importante população deve ter-se multiplicado sobre esse sítio, a julgar pela massa de objetos que aí foram recolhidos: armas, utensílios, jóias e pérolas, fivelas, cerâmicas. É tal o número de cacos recolhidos que ultrapassa, e muito, o milhão.

Assim era a colheita arqueológica que fazia René Joffroy, graças a um trabalho incansável, conduzido com um rigoroso método e uma prudente discrição. Todos os objetos recolhidos estavam bem datados e mostravam que o oppidum do monte Lassois atingira o apogeu de sua ocupação no séc. VI a. C.

Rapidamente, o serviço de monumentos históricos interessou-se pelas pesquisas e pelas descobertas de Joffroy e concedeu-lhe créditos. Para a campanha de 1952, ele recebeu 250.000 francos. O inverno chegara e a má estação obrigava-o a abandonar seu canteiro. Mas restavam-lhe alguns milhares de francos e ele decidiu fazer uma última sondagem. De fato, algumas pedras jaziam em um campo próximo e sua natureza geológica provava que elas haviam sido para lá transportadas. Por quê estariam elas lá? René Joffroy quis verificá-lo. Ele pensava fazer uma dessas breves escavações pelas quais se conclui facilmente uma campanha arqueológica, como para testemunhar o pesar de guardar as pás e as enxadas até o retorno dos dias bonitos.

Ora, essa sondagem de última hora acarretaria uma descoberta sensacional. É o caso de crer que os arqueólogos, à força de frequentar os deuses mortos, atraem seus favores secretos e que eles atraem sua mitologia do azar e da sorte…

3 Por uma fria jornada de janeiro

Era, nos primeiros dias de janeiro de 1953, um fim de tarde cinzento e frio. René Joffroy, que devia voltar a Châtillon, acabava de deixar o canteiro, mas seu fiel Moisson queria aproveitar os últimos momentos do dia para escavar um pouco mais, adiantando o trabalho do dia seguinte. Moisson é um camponês do lugar, que começou a trabalhar nas escavações do lugar em 1929, com J. Lagorgette. É um sólido trabalhador que, como tantos habitantes da terra, tem um profundo senso de observação e uma espécie de dom para auscultar a terra. Adquiriu uma verdadeira paixão pela pesquisa e, muito frequentemente, as horas não contam para ele quando o solo revela algum achado interessante.

No dia seguinte pela manhã, Moisson chega muito cedo na casa de René Joffroy. “Ontem à noite”, diz ele, “ao retirar a terra, um grande objeto apareceu”. Logo, de que poderia se tratar? Um grande objeto, quando o monte Lassois só concedera até o presente momento cacos de cerâmica, jóias, pedaços de metal? Moisson é positivo: “Parece muito pesado; dir-se-ia de bronze. É curvo, como uma albarda de mula”.

Joffroy fica ansioso: há aproximadamente dez anos que ele escava e nada parecido se lhe apresentou; ele compreende que o achado é excepcional. Mas, como a hora das aulas é chegada, ele deve apresentar-se no colégio. Nessa manhã, ele tem quatro horas de curso – quatro horas que, ele o confessará, pareceram-lhe terrivelmente longas. Ao meio-dia, ele dispensa a hora do almoço; monta em sua moto e se dirige ao terreno das escavações. Com uma rápida olhadela, avalia a importância da descoberta: o objeto que apareceu é a alça de um vaso (de uma cratera) antigo, mas de tão grandes dimensões que não se conhece um equivalente no mundo.

René Joffroy alerta logo seus amigos arqueólogos da região, que foram sempre bons companheiros em seus trabalhos: René Paris, seu adjunto no museu de Châtillon, e o cônego Moutton. Ele envia telegramas ao diretor da circunscrição arqueológica e a Guy Gaudron, inspetor dos museus – o mesmo que, alguns dias mais tarde, irá comunicar a descoberta à Sociedade dos Antiquários da França. E é nas piores condições que empreendem então o resgate da cratera. Não é necessário fazer uma escavação muito vasta, que deterioraria o sítio e deslocaria os objetos que poderiam encontrar-se nas redondezas. Trata-se de cavar um verdadeiro poço, o mais estreito possível. O tempo está terrível; as pessoas afundam na lama e a cratera aninha-se em uma cloaca. Uma bomba é trazida, mas, por ser aspirante, ela também é às vezes repelida… As páginas do diário de escavações cobrem-se de terra viscosa e será necessário, já de noite, passar-lhes água para que se possa empreender à sua leitura.

Um macaco é instalado sobre três vigas acima do buraco. Menos de quatro dias não bastam para extrair avix2 enorme cratera, que descreveremos mais adiante. Em que triste estado ela aparece! ela fora esmagada; o pescoço e o pé entraram no bojo; as alças devem ser desmontadas, pois se mantêm por intermédio de apenas uma cavilha. Felizmente, constata-se imediatamente que não falta nenhum pedaço de metal e que será possível reconstituir em seu estado original este espantoso e suntuoso recipiente – o maior que a Antiguidade já nos legou.

À medida em que são descobertos, os pedaços são transportados para Châtillon, seja de jipe, seja de charrete, deitados sobre um leito de palha, através dos campos caóticos e dos caminhos cobertos de gelo. À noite, até horas avançadas, Joffroy, sua mulher e seus amigos procedem à limpeza. Toda a lama foi recolhida dentro de caixas, mas, como o frio era grande, ela se transformou em blocos gelados; é necessário esperar que eles se derretam para examiná-los com cuidado.

O rumor de uma grande descoberta espalhou-se e numerosos curiosos acorrem, calcando o terreno, atrapalhando o trabalho. Após resgatar e tirar a cratera, dever-se-á, para afastá-los, afirmar que as pesquisas estão encerradas e que não se pode contar com nenhum outro achado. Alguns dias depois, acompanhado apenas de Moisson, René Joffroy poderá então retomar e continuar a escavação e outros objetos, raros e magníficos, serão descobertos.

4 Um pequeno jazigo

As pedras transportadas, cuja presença no terreno levara a se fazer uma sondagem, pertenciam a uma colina funerária nivelada desde muito tempo. Tais colinas existem aos milhares na França. Há muito tempo elas são o grande recurso dos arqueólogos locais. Mas nenhuma iria conceder um mobiliário tão surpreendente, tão rico como o do monte Lassois.

Esta colina tinha originariamente 42 m de diâmetro e deveria alcançar 5 ou 6m em seu ponto mais alto. À primeira vista, nada fazia suspeitar de sua existência. As pedras das fiadas haviam sido, na época galo-romana, recuperadas para as construções; as que tinham ficado no lugar haviam sido enterradas e, por vezes, os labores traziam-nas à superfície, como foi o caso das que, marcadas por René Joffroy, conduziram-no à sua descoberta. É um verdadeiro milagre que a câmara sepulcral no centro do túmulo tenha permanecido ignorada. Durante mais de dois milênios, os arados passaram e os trigais amadureceram sobre uma terra que ocultava uma prodigiosa peça decorativa.

vix3
O jazigo era, na verdade, relativamente pequeno. formava uma espécie de cubo, cuja base não media mais de nove metros quadrados. A sepultura, em parte escavada em terras de aluvião, havia sido dotada de um madeiramento destinado a evitar os desmoronamentos, e os lados eram revestidos de pranchas. Após a inumação, a sala havia sido recoberta por um teto de madeira sobre o qual as terras foram depositadas. Todo esse dispositivo havia desabado e pesadas pedras haviam se amontoado dentro da sala, esmagando alguns objetos e deslocando outros.

Quando realizava suas escavações, Joffroy deve ter invejado a sorte de seus colegas em arqueologia romana ou egípcia, que, erguendo uma laje, penetraram em uma sala com paredes e abóbadas em pedra, onde tudo permanecera em seu estado original desde que o morto aí fora depositado. No túmulo de Vix, só havia o caos e a desordem. O frio e a água que invadira a escavação atrapalhavam consideravelmente as pesquisas. Foi necessário um total de 170 horas de trabalho para escavar alguns metros cúbicos. A planta do túmulo pôde no entanto ser traçada com uma margem de erro de localização que não passava de 5cm.

Fazendo a mais rica descoberta que já saíra do solo da Gália independente, Joffroy sentia-se recompensado por tantos anos de labor incessante, de pesquisas às vezes vãs, fazendo seu o célebre ditado segundo o qual não é necessário ter esperança para compreender, nem ser bem-sucedido para perseverar. O mundo científico rendeu-lhe as mais calorosas homenagens e Jérôme Carcopino, nosso grande mestre de estudos antigos, proclamava: “Na essência e na forma, ele traz a chancela de um mestre; ele prova, pela extensão da erudição e firmeza do pensamento, que ao autor simplesmente tocou a recompensa que mereciam a clarividência de seu saber e a obstinação de seus esforços.”

O monte Lassois era repentinamente promovido às grandes honras. Nem mesmo se sonhava em contestar esse qualificativo um pouco ousado de “monte”, já que ele é uma simples colina – uma colina-testemunha, como dizem os geógrafos – formada pela erosão do planalto que costeia a margem direita do Sena. Por seu lado, a pequena comunidade de Vix, sobre cujo território foi feita a descoberta, conheceu de um dia para o outro a popularidade. O “tesouro de Vix” – uma bela auréola para uma pobre vila sem riquezas, que não possui mais de cem habitantes. O museu do Louvre organizou com ele, no mesmo ano, uma exposição que fez sensação. A grande imprensa, normalmente tão pouco inclinada a tratar da arqueologia, apoderou-se da questão e nela encontrou matéria para grandes reportagens com títulos sensacionais.

René Joffroy se viu até mesmo qualificado por um hebdomadário de grande tiragem como “Sherlock Holmes da arqueologia”… Ele foi o primeiro a ser surpreendido, senão incomodado, por essa publicidade, que não corresponde ao seu modo de viver.

Fonte: Eydoux, Henri-Paul. A Ressurreição da Gália. Col. Grandes Civilizações Desaparecidas. Otto Pierre Editores Ltda. Rio de Janeiro: 1979, p. 9-35.

Sloinntireachd Bhride (A Genealogia de Bride)

Fonte: Carmicael, Alexander (1900). Carmina Gadelica. T. and A. Constable: Edinburgh, v. I, p. 164.brigit

Sloinneadh na Ban-naomh Bride,
Lasair dhealrach oir, muime chorr Chriosda.
Bride nighinn Dughaill duinn,
Mhic Aoidh, mhic Airt, nitric Cuinn,
Mhic Crearair, mhic Cis, mhic Carmaig, mhic Carruinn.

A genealogia da santa donzela Bride,
Radiante chama de ouro, mãe adotiva de Cristo,
Bride, filha de Dugall, o escuro,
Filho de Aodh, filho de Art, filho de Conn,
Filho de Crearar, filho de Cis, filho de Carmag, filho de Carrun.

Gach la agus gach oidhche
Ni mi sloinntireachd air Bride,
Cha mharbhar mi, cha spuillear mi,
Cha charcar mi, cha chiurar mi,
Cha mhu dh’ fhagas Criosd an dearmad mi.

A cada dia e a cada noite
Em que a genealogia de Bride eu disser
Morto não serei, não sofrerei vexação,
Aprisionado não serei, não serei ferido,
Tampouco deixar-me-á Cristo no esquecimento.

Cha loisg teine, grian, no gealach mi,
Cha bhath luin, li, no sala mi,
Cha reub saighid sithich, no sibhich mi,
Is mi fo chomaraig mo Naomh Muire
Is i mo chaomh mhuime Bride.

Não me queimarão o fogo nem o sol nem a lua,
Lago algum afogar-me-á, nem água nem mar,
Nem flecha de fada nem dardo de duende me hão de ferir
Estarei sob a proteção de minha Santa Maria
E minha bondosa mãe adotiva é minha amada Bride.

Tradução: Bellouesus /|\

Hipácia de Alexandria

No ano 415, Honorius (Flauius Honorius Augustus, imperador romano de 395 a 423 E. C.) promulgou mais uma lei que transferia ao governo a propriedade de todos os templos pagãos no território do Império Romano e ordenava que todos os objetos que tivessem sido consagrados aos sacrifícios pagãos fossem removidos dos lugares públicos. Um importante exemplo do clima antipagão foi o caso da filósofa Hypatía de Aleksándreia, assassinada por uma multidão em 415.

Sôkrátês de Konstantinoúpolis, historiador bizantino cristão do séc. V, descreve Hypatía e narra sua morte na Historia Ecclesiastica:

Havia uma mulher em Aleksándreia chamada Hypatía, filha do filósofo Theon, que fez tão grandes realizações em literatura e ciência a ponto de ultrapassar todos os filósofos de sua própria época. Tendo obtido sucesso nas escolas de Plato e Plotinus, Ela explicava os princípios da filosofia a seus ouvintes, muitos dos quais vinham de grande distância para receber seus ensinamentos. Por causa de sua presença de espírito e do desembaraço de seus modos, que ela adquirira em conseqüência do cultivo de sua mente, não era incomum que ela aparecesse em público na presença dos magistrados. Tampouco se sentia envergonhada ante uma assembléia de homens, pois todos os homens admiravam-na ainda mais por causa de sua extraordinária dignidade e virtude.

Pois até mesmo ela caiu vítima do ciúme político que naquela época prevalecia, uma vez que, tendo ela frequentes conversações com Orestes, caluniosamente se espalhou entre a ralé cristã que fora ela a impedir a reconciliação entre Orestes [o prefeito imperial da cidade] e o bispo [Kyrillos]. Alguns deles, portanto, impelidos por um zelo feroz e intolerante, cujo cabeça era um leitor chamado Petros, emboscaram-na ao voltar para casa e, arrancando-a de sua carruagem, levaram-na à igreja chamada Caesareum, onde a desnudaram completamente e, então, mataram-na ao destroçar sua pele com cacos de telhas e pedaços de conchas. Depois de fazerem seu corpo em pedaços, carregaram seus membros mutilados a um lugar chamado Cinaron e ali os queimaram.

Hypatía escreveu obras sobre aritmética, geometria e astronomia. Criou um mapa celeste e foi inventora do hidrômetro e (de acordo com seu discípulo Synésios de Kyrênê) também do astrolábio.

Bellouesus /|\