Druidesas da Gália

Druidesas da Gália

Bellou̯esus Īsarnos

druidesas1As primeiras referências a druidesas vêm de uma obra bem pouco confiável chamada Historia Augusta, do séc. IV d. C., que narra as biografias dos imperadores romanos dos sécs. II e III d. C. (de 117 a 284) e contém muito material sabidamente inventado.

Essas referências a druidesas (plural druiades no texto latino, druias no singular) aparecem nas biografias dos imperadores Seuerus Alexander e Diocletianus.

Historia Augusta, “Seuerus Alexander” (autor: Aelius Lampridius), III, 60,6: mulier Druias eunti exclamauit Gallico sermone, “Vadas nec victoriam speres nec te militi tuo credas.”

Além disso, ao partir para a guerra, uma profetisa druida gritou na língua gaulesa: “Vai, mas não esperes a vitória e não confies em teus soldados”.

druidesas2Historia Augusta, “Carus et Carinus et Numerianus” (autor: Flauius Vopiscus), 14-15: Curiosum non puto neque satis uulgare fabellam de Diocletiano Augusto ponere hoc conuenientem loco, quae illi data est ad omen imperii. Auus meus mihi rettulit ab ipso Diocletiano compertum. “Cum,” inquit, “Diocletianus apud Tungros in Gallia in quadam caupona moraretur, in minoribus adhuc locis militans, et cum Druiade quadam muliere rationem conuictus sui cottidiani faceret, atque illa diceret, ‘Diocletiane, nimium auarus, nimium parcus es,’ ioco non serio Diocletianus respondisse fertur, ‘Tunc ero largus, cum fuero imperator.’ Post quod uerbum Druias dixisse fertur, ‘Diocletiane, iocari noli, nam eris imperator cum Aprum occideris’. ” Semper in animo Diocletianus habuit imperii cupiditatem, idque Maximiano conscio atque auo meo, cui hoc dictum a Druiade ipse rettulerat. Denique, ut erat altus, risit et tacuit. Apros tamen in uenatibus, ubi fuit facultas, manu sua semper occidit.

Não considero muito penoso ou ainda excessivo em relação ao usual inserir uma história sobre Diocletianus Augustus que não parece deslocada aqui – um incidente que ele considerava como um presságio do seu governo futuro. Esta história foi-me contada por meu avô depois de tê-la ouvido do próprio Diocletianus. “Quando Diocletianus”, disse ele, “ainda servindo em um posto menor, foi parar em uma certa taverna na terra dos Tungri na Gália e estava fazendo o seu acerto da conta diária com uma mulher que era druidesa, esta disse-lhe, “Diocletianus, és muito ganancioso e muito mesquinho”, ao que respondeu Diocletianus não a sério, diz-se, mas só de brincadeira, ‘”Serei generoso o bastante quando me tornar imperador”. Nesse momento a druidesa disse, segundo meu avô, “Não caçoes, Diocletianus, pois tornar-te-ás imperador quando tiveres matado um Javali [Aper].” Eis que Diocletianus sempre teve em sua mente o desejo de governar, como sabia Maximianus e também meu avô, a quem ele mesmo disse essas palavras da druidesa. Então, no entanto, reticente como era seu costume, ele riu e não disse nada. Porém, na caçada, toda vez que havia oportunidade, ele sempre matava o javali com sua própria mão.

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Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

Locusta

Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

Bellou̯esus Īsarnos

Uma herdeira da ciência dos vates na Roma do séc. I?

Locusta nasceu no séc. I E. C. na Gália romana. Em seus primeiros anos, Locusta aparentemente aprendeu muito sobre as ervas de seu país. Ao chegar a Roma, Locusta descobriu que as pessoas em seu círculo eram gananciosas e cheias de cobiça. Naqueles dias, havia muitas pessoas em Roma que desejavam apressar a morte de seus rivais ou de parentes ricos; tais mortes, contudo, teriam de parecer naturais. Locusta forneceu-lhes os meios para atingir seus objetivos – tornou-se uma envenenadora profissional. Embora tenha sido presa por outras atividades, possuía alguns clientes influentes que a ajudavam a sair da prisão rapidamente.

Por volta do ano 54 E. C., Locusta foi chamada em segredo pela imperatriz Agripina, quarta mulher do imperador Claudius. Agripina tinha desejos muito claros: Nero, seu filho de um casamento anterior, deveria ser o imperador de Roma. Assim, Claudius, então com 64 anos, tinha de morrer. É nessa parte que Locusta entra.

Agripina sabia que Claudius adorava cogumelos. Também sabia que o imperador tinha provadores. As duas mulheres elaboraram um plano. Certa tarde, quando o auxiliar mais chegado do imperador estava doente, Agripina subornou o provador para ficar fora do caminho e Locusta envenenou uma grande porção de cogumelos. Depois de servir ao imperador muito vinho, Agripina trouxe ela própria os cogumelos envenenados a Claudius. Sem suspeitar de nada, Claudius devorou as guloseimas envenenadas.

Logo, o imperador estava se dobrando com dores de estômago, falta de ar e sem conseguir falar. Agripina, esposa dedicada, agitava-se freneticamente a sua volta com fingida preocupação. Poderia o amado imperador ter comido algo que não caísse bem? Locusta havia pensado numa segunda arma que Agripina iria então usar, uma pena com outra dose letal de veneno. Em sua aparente agitação para ajudar o marido tomado de dores, Agripina meteu a pena envenenada em sua garganta, com a falsa intenção de fazê-lo expelir do estômago a substância tóxica.

Em 13 de outubro do ano 54 E. C., o imperador Claudius morreu e Nero, então com 16 anos, foi nomeado imperador. Agripina estava mais do que satisfeita. Quanto a Locusta, foi jogada ao cárcere e recebeu sentença de morte.

Nero, entretanto, possuía seus próprios rivais e medos. Claudius tinha um filho de 14 anos de um casamento anterior, chamado Britannicus. Nero sabia que Britannicus também tinha pretensões ao trono e precisava certificar-se de que Britannicus não iria atrapalhá-lo. Sorrateiramente, poucos meses depois de tornar-se imperador, Nero ordenou que Locusta fosse libertada da prisão e imaginou um novo plano para as habilidades da envenenadora.

Num jantar de família ao entardecer, o vinho foi trazido e derramado nos cálices. Os provadores de comida testaram a bebida das taças e passaram-nas aos convidados. Nero, Agripina, sua mãe, vários outros parentes e o jovem Britannicus, estavam todos completamente ignorantes quanto ao estratagema. Quando Britannicus tomou um bole de vinho, devolveu o cálice ao provador, reclamando que a bebida estava muito quente. O provador de comida adicionou um pouco de água fria ao vinho e devolveu-o ao menino. Dessa vez, porém, o provador tinha esquecido de provar a água fria e limpa que fora adicionada à taça de Britannicus – e foi ali que Locusta tinha vertido sua poção venenosa.

Assim que Britannicus caiu em convulsões, Nero calmamente lembrou aos convidados que Britannicus sofria de epilepsia e recusou-se a chamar qualquer ajuda para o rapaz que estertorava. A ansiedade de Agripina era terrível! Ela sabia exatamente o que seu filho estava fazendo, pois reconheceu a armação e compreendeu que tudo tinha sido feito sem consultá-la. Ela começou a comer seu jantar com calma, tendo cuidado para não denunciar em seu rosto o terror que enchia seu coração, pois sabia que poderia ser o próximo alvo. Os demais membros da família logo aceitaram a calma de Nero e retornaram cautelosamente à refeição vespertina, enquanto o garoto rastejava e torcia-se no chão. Ninguém teve a coragem ou foi tolo o bastante para fazer qualquer coisa em favor de Britannicus contra o desejo do imperador.

Por fim, Nero chamou os escravos para removerem Britannicus do aposento. O pretenso rival do imperador morreu poucas horas depois e foi apressadamente sepultado naquela mesma noite, apesar de uma grande tempestade e dos boatos que se espalharam de uma ponta a outra de Roma.

Tendo o imperador Nero como um de seus clientes satisfeitos, Locusta desfrutou do rápido crescimento de sua reputação e riqueza. O imperador cumulou-a com terras, dinheiro, presentes e o perdão completo por todos os envenenamentos de que fora acusada em anos passados. Houve outras recomendações do palácio e mais encomendas. Locusta estava muito ocupada com seu trabalho de envenenadora de aluguel e chegou a abrir uma escola para passar a outras seu conhecimento de ervas e toxinas, realizando testes em animais e criminosos condenados.

Com o patrocínio do imperador, Locusta gozou de um período de grande sucesso comercial. Isso até o Senado Romano finalmente ter a coragem de condenar Nero à morte em 68 E. C. Locusta previdentemente fornecera a Nero um kit de envenenamento para si mesmo, contudo, na confusão do momento, Nero perdeu-o. Antes que pudesse ser trazido ante o Senado para ser julgado pela multidão de seus crimes, Nero encontrou a morte com sua própria adaga.

Locusta, após a queda de Nero, tentou continuar sua atividade com a maior discreção. Porém, devido a sua enorme reputação como envenenadora profissional não mais apoiada pelo favor do soberano, a gaulesa foi executada pouco depois, naquele mesmo ano.