Anotações Druídicas IV

TESOUROS

Anotações Druídicas IV: Direções e Atribuições

Bellou̯esus Īsarnos

Em “A Fundação do Domínio de Temuir” (Suidiugud Tellaich Temra), o ancião Fintan mac Bóchra, o Sábio, tem como missão mostrar que Temuir era e deveria continuar a ser a sede da Realeza Suprema da Irlanda. Ele conta o seguinte:

Uma vez estávamos fazendo uma grande assembleia dos homens da Irlanda ao redor de Conaing Bec-eclach, Rei da Irlanda. Certo dia, então, vimos nessa assembleia um grande herói, belo e poderoso, aproximando-se de nós e vindo do oeste, da direção do pôr-do-sol. Maravilhamo-nos grandemente com a magnitude de sua forma. Tão alto quanto uma árvore era o topo de seus ombros, o céu e o sol visíveis entre suas pernas em razão do seu tamanho e beleza. Um véu de brilhante cristal sobre ele, como uma veste de linho precioso. Sandálias em seus pés e não se sabe de que material eram. Cabelo amarelo-dourado caindo em cachos até a altura de suas coxas. Tábuas de pedra na sua mão esquerda, um ramo com três frutos em sua mão direita e eram estes os frutos que nele estavam, nozes e maçãs e bolotas do mês de maio: e não maduro estava cada fruto. Com passos largos ele caminhou para trás de nós, ao redor da assembleia, com seu ramo dourado de muitas cores de madeira do Líbano atrás de si e um de nós lhe disse: “Vem aqui e conversa com o rei Conaing Bec-eclach”. Ele respondeu e disse: “Que desejais de mim?” “Saber de onde vieste”, disseram eles, “e para onde vais e quais são teu nome e sobrenome.” “Sem dúvida eu vim”, disse ele, “do pôr-do-sol e estou indo para o nascer-do-sol e meu nome é Trefuilngid Tre-eochair”. “Por que te foi dado esse nome?”, disseram eles. “Fácil dizer”, disse ele. “Porque sou eu quem provoca o nascer-do-sol e o seu poente.

Trefuilngid Tre-eochair (“Tríplice Portador da Chave Tripla”), então, é quem provoca a aurora e o poente. Ele fez um pedido: que todos os irlandeses fossem reunidos naquele lugar. Depois que todos estavam presentes, ele perguntou se havia alguém que conhecesse toda a história da ilha. Quando se descobriu que não, ele escolheu um dos presentes para se tornar o depositário desse conhecimento. O escolhido foi Fintan. Fintan depois declarou que Trefuilngid Tre-eochair era “um anjo ou o próprio Deus”.
Um detalhe interessante é que, quando Trefuilngid Tre-eochair pediu que o povo fosse reunido, o rei Conaing Bec-eclach disse que isso poderia ser feito, embora eles não fossem poucos, mas seria difícil para os irlandeses sustentá-lo durante o tempo em que permanecesse com eles. O gigante então declarou que podia se sustentar somente com o aroma do ramo que trazia. Esse ramo merece A nossa atenção. É um ramo dourado, de muitas cores, de madeira do Líbano, com três “frutos” diferentes: nozes, maçãs e bolotas (de carvalho).

Na tradição irlandesa, o ouro não é particularmente significativo, ao contrário da prata, que representa autoridade. A cor dourada indica apenas que o ramo é brilhante e precioso. Já “muitas cores” tem um significado importante: um manto de várias cores representa o próprio druidismo, objetos ou criaturas multicoloridos possuem origem sobrenatural. O ramo é de madeira do Líbano, isto é, cedro. É uma árvore muitas vezes mencionada no Antigo Testamento. Não há cedros na Irlanda, de modo que a referência a essa árvore indica genericamente uma madeira rara e valiosa.

A árvore de que foi retirado esse ramo combina as qualidades de seus frutos. A noz não é necessariamente a proveniente da nogueira, pois, em gaélico medieval, a palavra cno indica ao mesmo tempo a noz e a avelã. Seja como for, essa noz representa sabedoria, poesia, magia, florestas. A maçã é o amor e a felicidade. A bolota é a abundância, enquanto o carvalho indica hospitalidade, tradição e lei. É com o aroma desse ramo que o gigante se alimenta.

A roupa que ele usa é um véu de cristal. Encontramos na lenda céltica barcos de cristal e edifícios de cristal (casas, fortalezas, castelos). Nesse caso, o cristal representa uma técnica e uma perfeição inacessíveis às habilidades humanas, bens que não podem ser comprados por nenhum soberano deste mundo.

Na minha opinião, Trefuilngid Tre-eochair é o deus do tempo gaélico. Além de ser o conhecedor de toda a história, é ele quem regula o curso do sol (aurora e poente). Estou mencionando tudo isso porque é ele próprio quem faz, nesse mesmo conto, as únicas atribuições direcionais seguras existentes na tradição irlandesa (mas as fortalezas e celebrações vêm de Foras Feasa ar Éirinn, “Fundação do Conhecimento sobre a Irlanda” ou simplesmente “História da Irlanda”, de Seathrún Céitinn):

SIAR, oeste (província: Connacht; fortaleza real: Uisnech; Beltaine) – Conhecimento e Magia – Caldeirão do Dagda

Sabedoria, alicerce, ensinamento, pacto, julgamento, crônicas, conselhos, relatos, histórias, ciência, decoro, eloquência, beleza, modéstia, generosidade, abundância, riqueza.

THUAIDH, norte (província: Ulaid, Ulster; fortaleza real: Tailtiu; Lughnasadh) – Batalha e Determinação – Pedra de Fail

Batalhas, disputas, audácia, locais incultos, lutas, arrogância, inutilidade, orgulho, capturas, ataques, severidade, guerras, conflitos.

OITHEAR, leste (província: Laighin, Leinster; fortaleza real: Temuir; festim de Temuir a cada três anos) – Prosperidade e Mudança – Espada de Nuada

Prosperidade, suprimentos, colmeias, torneios, feitos de armas, chefes de família, nobres, prodígios, bom costume, boas maneiras, esplendor, abundância, dignidade, força, riqueza, administração da casa, muitas artes, muitos tesouros, cetim, sarja, seda, trajes, hospitalidade.

DESS, sul (província: Mumhan, Munster; fortaleza real: Tlachtgha; Samhain) – Música e Poesia – Lança de Lugh

Cachoeiras, feiras, nobres, saqueadores, conhecimento, sutileza, ofício dos músicos, melodia, ofício dos menestréis, sabedoria, honra, música, aprendizagem, ensino, ofício dos guerreiros, jogo de fidchell, veemência, ferocidade, arte poética, advocacia, modéstia, código, séquito, fertilidade.

MIDE, centro (província: Mide, Meath)

Realeza Reis, mordomos, dignidade, primazia, estabilidade, instituições, esteios, destruições, ofício de guerreiros, ofício de condutores de carruagens, soldadesca, principados, grandes reis, ofício dos mestres-poetas, hidromel, generosidade, cerveja, renome, grande fama, prosperidade.

Geralmente, encontramos nos livros que a Taça (e, em consequência, o Caldeirão) localiza-se no oeste. Mas esse Caldeirão é o Caldeirão do Dagda, cuja propriedade característica é que ninguém dele se afaste sem estar saciado. É, portanto, um caldeirão nutridor, denotando abundância, fertilidade e comensalidade, isto é, que as pessoas se reúnam ao redor dele para obter alimento. Os textos irlandeses dizem que o poder do Dagda era a capacidade de controlar o clima, influenciando no desenvolvimento das plantações. Tudo isso combina com as atribuições do leste: prosperidade, suprimentos, etc. Mais adiante na lista, encontramos também “boas maneiras”, um imperativo nas refeições feitas em conjunto. Parece bastante adequado que o Caldeirão da Abundância fique no leste, a direção da Prosperidade, não no oeste.

Vamos olhar as atribuições do oeste. “Sabedoria, alicerce, julgamento, eloquência, generosidade, riqueza”: esses são os atributos do REI céltico. Ele precisa ser sábio para fazer sempre o julgamento correto, pois, se ele pronunciar uma sentença injusta, todo o seu reino pagará por isso. Os animais param de se reproduzir, as árvores não produzem mais frutos, as plantações morrem, os peixes desaparecem dos rios e lagos. A injustiça desperta a indignação da Esposa Divina do rei, a Deusa da Soberania (Fláith Érenn, “Soberania da Irlanda”). Além de justo, o rei precisa de riqueza para ser generoso. Quando lhe pedem um dom, ele tem de concordar em concedê-lo de acordo com a categoria do pretendente, sem mesmo perguntar o que este deseja. É o modo de demonstrar um “desapego” heroico aos bens materiais. Desse modo, a lança da realeza fica melhor no oeste que no sul.

A pedra, que “canta” sob cada rei predestinado, deve ser atribuída à música e ao sul, enquanto a espada do guerreiro deve ficar no norte, cuja atribuição principal é “batalha” – parece que a Irlanda do Norte já tinha problemas na época antiga.
Então, combinando as indicações de “A Segunda Batalha de Magh Tuireadh” (que enumera os Quatro Tesouros, as Cidades, os Mestres e os Deuses) e de “A Fundação do Domínio de Temuir” (que dá as atribuições direcionais), é possível fazer as seguintes relações:

SABEDORIA – oeste – terra (talam) – lança (gae) – cidade: Goria (de gor, calor moderado, incubação) – mestre: Esras (“Passagem”) – Soberania sacerdotal e guerreira – Lug

BATALHA – norte – ar (aer) – espada (claideb) – cidade: Findias (de find, branco, brilhante) – mestre: Uscias (“Água Fresca”) – Realeza – Nuada

PROSPERIDADE – leste – água (dobur) – caldeirão (coire) – cidade: Muirias (de muir, mar) – mestre: Semias (“Sutil”) – Abundância, Ressurreição, Regeneração – O Dagda

MÚSICA – sul – fogo (teine) – pedra (lía) – cidade: Falias (de fail, destino; nome simbólico da Irlanda: Inis Fail, Innisfal, “Ilha do Destino”) – mestre: Morfesa (“Grande Ciência”) – Todos os aspectos da Soberania – Bem indivisível de todos os Deuses

REALEZA – centro – éter/névoa (ceó) – Vazio/Plenitude – Expressa a precipitação dos quatro elementos em seu movimento e transformação.

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Moí Coire Coir Goiriath

3caldeiroes

Moí Coire Coir Goiriath

O Caldeirão da Poesia

Atribuído a Amhairghin Glúingeal

Um antigo poema atribuído ao próprio druida Amhairghin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema (datado do começo do séc. VIII, para as partes em verso, e do séc. X, para as partes em prosa, em razão de certas formas gramaticais) recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

Moí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad.
Os mé Amargen glúngel garrglas grélíath,
gním mo goriath crothaib condelgib indethar
– dath nád inonn airlethar Día do cach dóen,
de thoíb, ís toíb, úas toíb –
nemshós, lethshós, lánshós,
do h-Ébiur Dunn dénum do uath aidbsib ilib ollmarib;
i moth, i toth, i tráeth,
i n-arnin, i forsail, i ndínin-díshail,
sliucht as-indethar altmod mo choiri.

Meu perfeito caldeirão do aquecimento
por Deus foi retirado do abismo misterioso dos elementos,
perfeita verdade que do âmago do ser enobrece,
que verte uma aterradora correnteza de palavras.
Amhairghin Joelho-Branco sou,
de pele pálida e cabelo cinzento,
minha incubação poética realizando em formas adequadas,
em cores diversas.
Deus não concede a todos a mesma sabedoria:
inclinado, invertido, na posição correta.
Conhecimento nenhum, meio conhecimento, conhecimento completo
para Eber Donn, criação de temível poesia,
de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente,
No masculino, no feminino e no neutro, os sinais das letras duplas, vogais longas e vogais breves,
O modo pelo qual se declara a natureza do meu caldeirão*.

* […] para Eber Donn, criação de temível poesia, / de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente, […]: o texto foi composto para Eber e Donn, irmãos do druida Amhairghin. Eber foi um dos reis dos Mac Miledh e Donn, tendo sido o primeiro humano a morrer na Irlanda, tornou-se uma divindade tutelar dos mortos, recebendo os descendentes de Mil na Teach Duinn (“Casa de Donn”) depois da morte. Comumente, essa casa é localizada em um rochedo do mesmo nome em algum lugar no mar a sudoeste da Irlanda.

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa*.

* Onde se encontra a raiz da poesia: na alma ou no corpo? “Na alma, pois sem esta nada pode o corpo”. Essa parece ser a atitude eclesiástica. “No corpo, pois é herdada dos ancestrais”. Essa parece ser a atitude das classes instruídas nativas, que colocavam grande ênfase na necessidade de que o pai e o avô tivessem sido filí para que um indivíduo pudesse ser considerado file ele próprio. O autor do texto não contradiz um ponto de vista nem o outro, apresentando um terceiro, isto é, afirmando que o potencial existe em cada um, mas realiza-se apenas em uns poucos. O objetivo do autor, ao propor um modelo tão – como se verá – complexo quanto o dos três caldeirões, talvez tenha sido superar o conflito entre a posição eclesiástica e a dos nativos, abrangendo três categorias de pessoas: o clérigo instruído, a pessoa versada na tradição nativa e um terceiro grupo, que poderia ser identificado ao amador talentoso. A metáfora do caldeirão, com os seus extremos de Aquecimento e Sabedoria, tendo a transição no Caldeirão do Movimento, ilustraria os vários níveis e tipos de conhecimento (especialmente gramática, métrica e escrita), cujos graus de competência seriam indicados pela posição de cada caldeirão.

Caite didiu bunad ind archetail 7 cach sois olchenae? Ní ansae; gainitir tri coiri i cach duiniu .i. coire goriath 7 coire érmai 7 coire sois.

O que é, então, a raiz da poesia e de toda outra sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa – o caldeirão do aquecimento, o caldeirão do movimento e o caldeirão da sabedoria.

Coire goiriath, is é-side gainethar fóen i nduiniu fo chétóir. Is as fo dálter soas do doínib i n-ógoítu.

O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo*. Distribui sabedoria às pessoas em sua juventude*/**.

* A posição em pé de Coire Goiriath no começo da vida representa um caso ideal, o do indivíduo que atinge o grau mais alto de instrução. Tal pessoa necessita que o seu Caldeirão do Aquecimento esteja em pé desde o princípio. Outrossim, a passagem anterior que diz dath nád inonn airlethar Día do cach dóen (“Deus não concede a todos a mesma sabedoria”) refere-se aos graus mais baixos dos poetas , aos bardos e às pessoas totalmente sem instrução. Assim, não há contradição entre essas afirmações.

** O primeiro caldeirão chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sofhis (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar. Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Coire érmai, immurgu, iarmo-bí impúd moigid; is é-side gainethar do thoib i nduiniu.

O caldeirão do movimento, entretanto, aumenta depois de virar. Isso quer dizer que nasce inclinado para um dos lados, crescendo interiormente*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente inclinado em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria”, o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Coire sois, is é-side gainethar fora béolu 7 is as fo-dáilter soes cach dáno olchenae cenmo-thá airchetal.

O caldeirão da sabedoria nasce invertido e distribui sabedoria na poesia e em toda outra arte*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/[…] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amhrán Mór, que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

Coire érmai dano, cach la duine is fora béolu atá and .i. n-áes dois. Lethchlóen i n-áer bairdne 7 rand. Is fóen atá i n-ánshruithaib sofhis 7 airchetail. Conid airi didiu ní dénai cach óeneret, di h-ág is fora béolu atá coire érmai and coinid n-impoí brón nó fáilte*.

O caldeirão do movimento, então, em todas as pessoas sem arte está invertido. Está inclinado para o lado em pessoas do ofício bárdico e de pequeno talento poético. Está na posição correta nos maiores dentre os poetas, que são grandes correntezas de sabedoria*. Nem todo poeta o possui na posição correta, pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria*/**.

* Os caldeirões são três, podendo também cada um deles assumir três diferentes posições: fóen ou uas toíb (em pé, isto é, na posição correta); de thoíb ou lethchlóen (inclinado); fora béolu ou for béolu ou ainda is toib (invertido). A posição em pé é a considerada ideal; a invertida é a menos desejável; a posição inclinada é um estado intermediário. Essas posições correspondem: fóen/uas toíb – o caldeirão está cheio; de thoíb/lethchlóen – o caldeirão está meio cheio; fora béolu/for béolu/is toib – o caldeirão está vazio.

** Este trecho deve ser analisado em conjunto com o que diz “O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo”, pois é na verdade um comentário sobre a natureza de Coire Goiriath. Coire Érmai está invertido em todas as pessoas sem arte, ou seja, ignorantes, e meramente inclinado nos bardos. Naqueles que são os maiores dentre os poetas, grandes correntezas de sabedoria (implicitamente os ollúna, grau mais alto dos filí), Coire Érmai mostra-se com a boca para cima. Desse modo, o Caldeirão do Movimento deve ser entendido como continuação do Caldeirão do Aquecimento. Nos ollúna, Coire Érmai é simplesmente Coire Goiriath em qualquer posição que este antes se encontrasse, sem que nada lhe fosse acrescentado. Coloca-se uma oposição entre os ollúna, de um lado, e os anruthanna (segundo grau dos filí), descendo toda a hierarquia dos poetas até chegar aos baird e às pessoas sem instrução, do outro. Como se dá então que o Caldeirão do Movimento possa ser cheio e “virado pela tristeza ou pela alegria”? Não se trata de contradição, pois esse é um processo dinâmico. O Caldeirão do Movimento é a transição entre o Caldeirão do Aquecimento e o Caldeirão da Sabedoria, ocorrendo entre eles uma sequência de esvaziamentos e enchimentos contínuos. Coire Goiriath começa com a boca para cima, Coire Érmai inicia no estágio em que o esvaziamento já começou (inclinado). Este processo se completa e, quando Coire Érmai é cheio novamente, converte-se em Coire Sofhis.

Ceist, cis lir foldai fil forsin mbrón imid-suí? Ní ansae; a cethair: éolchaire, cumae 7 brón éoit 7 ailithre ar dia 7 is medón ata-tairberat inna cethair-se cíasu anechtair fo-fertar.

Pergunta: quantas divisões de tristeza viram os caldeirões dos sábios? Não é difícil. Quatro: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. Essas quatro são suportadas internamente, virando os caldeirões, embora sua causa seja exterior.

Atáat dano dí fhodail for fíilte ó n-impoíther i coire sofhis, .i. fáilte déodea 7 fáilte dóendae.

Há duas divisões de alegria que viram o caldeirão da sabedoria: a alegria divina e a alegria humana.

Ind fháilte dóendae, atáat cethéoir fodlai for suidi .i. luud éoit fuichechtae 7 fáilte sláne 7 nemimnedche, imbid bruit 7 biid co feca in duine for bairdni 7 fáilte fri dliged n-écse iarna dagfhrithgnum 7 fáilte fri tascor n-imbias do-fuaircet noí cuill cainmeso for Segais i sídaib, conda thochrathar méit motchnaí iar ndruimniu Bóinde frithroisc luaithiu euch aige i mmedón mís mithime dia secht mbliadnae beos.

Há quatro divisões da alegria humana entre os sábios: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Estas se lançam em grandes quantidades, como um rebanho de carneiros nas margens do Bóinn, movendo-se mais depressa que cavalos de corrida conduzidos no solstício de verão a cada sete anos.

Fáilte déoldae, immurugu, tórumae ind raith déodai dochum in choiri érmai conid n-impoí fóen, conid de biit fáidi déodai 7 dóendai & tráchtairi raith 7 frithgnamo imale, conid íarum labrait inna labarthu raith 7 do-gniat inna firthu, condat fásaige 7 bretha a mbríathar, condat desimrecht do cach cobrai. Acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar*.

Deus toca as pessoas por meio de alegrias divinas e humanas para que sejam capazes de pronunciar poemas proféticos e realizar portentos, dando julgamentos sábios com precedentes e bençãos em resposta a cada pedido. E a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior*.

* O impulso para produzir poesia vem de dentro do indivíduo como resposta a circunstâncias externas, ou a habilidade para produzi-la já existe internamente no indivíduo, mas necessita do impulso de circunstâncias externas para manifestar-se, o que é confirmado pelo que está abaixo, faillsigther tri brón, “que é revelado por meio da tristeza”. No caso da alegria (dividida em humana e divina, fáilte déodea 7 fáilte dóendae), o caso é inverso: acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar, “e a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior”. Neste caso, a habilidade poética não está presente no indivíduo, mas precisa ser fornecida, e o impulso não vem de dentro da pessoa, mas do exterior. Isso é confirmado pela frase tórumae ind raith déodai, que fala da chegada da graça divina ao caldeirão, fazendo-o virar à posição correta. As quatro alegrias humanas antes mencionadas referem-se aos estágios sucessivos na carreira do poeta: chegada à adolescência, aprendizado exitoso com um mestre, aquisição das prerrogativas da poesia depois do estudo e a final aquisição do imbas.

Ara-caun coire sofhis
sernar dliged cach dáno
dia moiget moín
móras cach ceird coitchiunn
con-utaing duine dán.

Canto o caldeirão da sabedoria,
que concede a natureza de cada arte
por meio da qual a riqueza aumenta,
que engrandece cada artesão,
que edifica uma pessoa por meio de seu dom.

Ar-caun coire n-érmai
intlechtaib raith
rethaib sofhis
srethaib imbais
indber n-ecnai
ellach suíthi
srúnaim n-ordan
indocbáil dóer
domnad insce
intlecht ruirthech
rómnae roiscni
sáer comgni
cóemad felmac
fégthar ndliged
deligter cíalla
cengar sési
sílaigther sofhis
sonmigter soír
sóerthar nád shóer,
ara-utgatar anmann
ad-fíadatar moltae
modaib dliged
deligthib grád
glanmesaib soíre
soinscib suad
srúamannaib suíthi,
sóernbrud i mberthar
bunad cach sofhis
sernar iar ndligiud
drengar iar frithgnum
fo-nglúaisi imbas
inme-soí fáilte
faillsigther tri brón;
búan bríg
nád díbdai dín.
Ar-caun coire n-érmai.

Canto o caldeirão do movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
inspiração poética fluente como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o caldeirão do movimento.

Coire érmai,
ernid ernair,
mrogaith mrogthair,
bíathaid bíadtair,
máraid márthair,
áilith áiltir,
ar-cain ar-canar,
fo-rig fo-regar,
con-serrn con-serrnar
fo-sernn fo-sernnar*.

O caldeirão do movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado*.

* Observe-se que Coire Érmai, que pode ser considerado o mais importante dos três caldeirões, embora não haja menção de que distribua nenhum tipo de conhecimento (sofhis); sua peculiaridade é iarmo-bí impúd moigid, “aumenta depois de virar”, ou seja, torna-se Coire Sofhis. Coire Érmai representa um estágio intermediário entre Coire Goiriath e Coire Sofhis; este apresenta a característica de receber acréscimos, mas nunca sofrer diminuições; esses acréscimos são as “alegrias e tristezas” mencionadas no texto; veja-se adiante o seu significado.

Fó topar tomseo*,
fó atrab n-insce**,
fó comair coimseo***,
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo*,
boa é a aquisição da fala,**
boa é a confluência do poder**,
que edifica a força.

* .I. is maith in coiri asa toimsidhher fri fidh 7 deach, “isto é, bom é o caldeirão graças ao qual se mede por letra e metros poéticos”, isto é, o conhecimento da gramática, da escrita e da métrica, que obviamente era um prerrequisito necessário a qualquer pessoa instruída.

** “Boa é a aquisição da fala”, isto é, a aquisição do poder de compor poesia, ou ser inspirado .i. is maith in coiri a fuil in tein fesa, “isto é, bom é o caldeirão em que se encontra o ‘fogo do conhecimento’ (tein fesa)”; assim, as tristezas e alegrias antes mencionadas são tipos diferentes de inspiração.

*** .I. is maith in coiri asa comainsidhther so uile, “isto é, bom é o caldeirão do qual tudo isso é obtido”.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Vejamos agora outro texto irlandês (Codex Clarend, v.XV, fol. 7,p. 1, col. “a”, Londres, British Library, MS Additional 4783/03-07, fim do séc. XV) que fala sobre a composição do Adão bíblico de um modo que curiosamente faz lembrar o Adam Kadmon (“homem original”) do Zohar e do Talmud.

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do uiii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e seu semblante; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

Portanto, Adão foi feito de oito partes:

1) terra (corpo, isto é, a carne);
2) mar (sangue);
3) o sol (rosto e semblante);
4) as nuvens (ilegível);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) Espírito Santo (alma) e
8) luz do mundo (devoção).

Dessa lista de correspondências, podemos concluir que há uma simetria entre Adão e o Mundo: a carne de Adão é a terra do Mundo; o mar do Mundo é o sangue de Adão.

Vimos que há três caldeirões no homem, isto é, em Adão: Aquecimento, Movimento e Sabedoria e a cada um deles atribuirei igual número de elementos. Isso exige que a relação seja emendada, acrescentando-se níab* (“força vital”) ao fim e trocando o Espírito Santo por um elemento natural que está claramente ausente: a lua.

* Irlandês antigo níab, “vigor, essência” < proto-céltico *neibos, galês nwyf, “vigor, energia”, nwyfre,“firmamento, força vital”.

O rol de elementos ficará assim:

1) terra (carne);
2) mar (sangue);
3) sol (rosto);
4) nuvens (mente);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) lua (alma) e
8) luz do mundo (devoção)
9) níab (espírito)

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Sabedoria

IX – influência, irradiação
VIII – valorização
VII – comunicação

Movimento

VI – independência, rigidez, egocentrismo
V – robustez, resistência
IV – gravidade, seriedade, confiabilidade

Aquecimento

III – beleza, saúde
II – estabilidade, constância, equilíbrio
I – vigor, vitalidade, dinamismo

Bellou̯esus Īsarnos

Árdath/erdath

tsunami

Árdath/erdath

Bellou̯esus Īsarnos

Estava a escavar no Codex Ardmachanus (Livro de Armagh) informações para um artigo sobre mitologia irlandesa (um tormento encontrar a nota na biografia de Patrício em que Tírechán glosou síde com o latim dei terreni), quando me deparo com este trecho interessantíssimo:

Nam Neel pater meus non siniuit mihi credere, sed ut sepeliar in cacuminibus Temro quasi uiris consistentibus in bello (quia utuntur gentiles in sepulcris armati prumptis armis) facie ad faciem usque ad diem erdathe (apud magos, id est iudicii diem Domini), ego filius Neill et filius Dúnlinge Immaistin in campo Liphi pro duritate odiui ut est hoc.

Meu pai, Níall, não me permitiu aceitar a fé, porém me rogou que eu fosse sepultado nas colinas de Tara; eu, filho de Níall, e o filho de Dúnlang em Maistiu em Mag Liphi, face a face um contra o outro à maneira de homens em batalha (pois os pagãos, armados em suas tumbas, têm suas armas à mão) até o dia de árdath/erdath (como chamam-no os magos, ou seja, o dia do Julgamento do Senhor), por causa da ferocidade do nosso ódio mútuo.

Pois bem, magi (magos) são os druid (plural de drui); árdath/erdath (as duas leituras são possíveis), o nome dado pelos magos ao dia do fim do mundo (dies iudicii Domini, “o dia do juízo do Senhor”).

ard < PCelt. *ardo-: alto, elevado.

áth < PCelt. *i̯ātu-: vau (numa corrente de água, é um ponto raso o bastante para que se possa passar a pé ou a cavalo, local comum de combates nos textos mitológicos irlandeses); em sentido figurado, um espaço aberto ou vazio entre dois objetos.

Talvez os combatentes no vau elevado sejam o Fogo e a Água, como escreveu Strábon na Geografia.

Árdath/erdath < PCelt. *ardoi̯ātus (eni latiū ardoi̯ātous, Ir. i lá árdathe, “no dia do fim do mundo”).

Cath Dédenach Maige Tuired

lugh_the_Il_Dana

Lugh, the Ildána (Jim Fitzpatrick, 1979)

Cath Dédenach Maige Tuired
A Última Batalha de Mag Tuired

também conhecida como

Cath Tánaiste Maige Tuired
A Segunda Batalha de Mag Tuired

e ainda

Cath Maighe Tuireadh Thúaidh
A Batalha de Mag Tuired do Norte

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

§1 Batar Tuathai De Danonn i n-indsib tuascertachaib an domuin aig foglaim fesa ocus fithnasachta ocus druidechtai ocus amaidechtai ocus amainsechta, combtar fortilde for suthib cerd ngenntlichtae.

§1 As Tuatha Dé Danann estavam nas ilhas do norte do mundo, aprendendo a sabedoria e a feitiçaria e as ciências ocultas dos druidas e os encantamentos femininos e a perícia em magia, até que ultrapassaram os sábios das artes do mundo pagão.

§2 Ceitri cathrachai ir-rabatar og fochlaim fhesai ocus eolais ocus diabuldanachtai .i. Falias ocus Goirias, Murias & Findias.

§2 Havia quatro cidades em que estavam aprendendo sabedoria e ciência e artes diabólicas, a saber, Falias e Gorias, Murias e Findias.

§3 A Falias tucad an Lia Fail bui a Temraig. Nogesed fo cech rig nogebad Erinn.

§3 De Falias foi trazida a Pedra de Fál, que ficava em Temuir. Ela costumava estrondear sob cada rei que devesse tomar o reino de Ériu.

§4 A Gorias tucad an tsleg boi ac Lug. Ni gebtea cath fria no frisinti an bidh il-laimh.

§4 De Gorias foi trazida a Lança que Lugh possuía. Contra ela ou contra o que a tivesse em sua mão jamais batalha alguma foi vencida.

§5 A Findias tucad claidiub Nuadot. Ni terládh nech dei o dobirthe asa idntiuch bodhuha, & ni gebtai fris.

§5 De Findias foi trazida a espada de Nuada. Quando ela era desembainhada de sua bainha mortal, ninguém jamais dela escapava e ela era irresistível.

§6 A Murias tucad coiri an Dagdai. Ni tegedh dam dimdach uadh.

§6 De Murias foi trazido o Caldeirão do Dagda. Jamais uma comitiva dele se separou insatisfeita.

§7 Cetri druid isna cetri cathrachaib-sin. Mor-fesae bai a Falias. Esras boi hi nGorias. Uiscias boi a Findias. Semias bai a Murias. It iad sin na cetri filid ocar’ foglaindsit Tuata De fios & eolas.

§7 Nessas quatro cidades havia quatro magos. Mórfesae estava em Falias; Esras estava em Gorias; Uscias estava em Findias; Semias estava em Murias. Esses são os quatro poetas de quem as Tuatha Dé aprenderam conhecimento inquisitivo e sabedoria secreta.

§8 Gnisit iarum Tuatha De caratrad fri Fomorib, & debert Balar ua Néit a ingin .i. Ethne, de Cen mac Dien cecht. Gonad i-side ruc an gein mbuadha .i. Lucc.

§8 Eis que as Tuatha Dé fizeram uma aliança com os Fomoirí e Balor, neto Nét, deu a sua filha Ethne a Cian, filho de Dian cecht, e ela gerou a criança abençoada, o próprio Lugh.

§9 Tangatar Tuad Dei morloinges mor d’indsaigid Erionn dia gabail arecin for Feraib Bolc. Roloiscset a mbaraca focetoir iar torrachtain crice Corcu-Belgatan .i. Conmaicne mara andiu, eatsen, conapedh a n-aire for teiched cucu, gur rolion an dei & an céu tanaic denaib loggaib an ferodn & an aer robe comfocus doib. Conid assin rogabad a tichtain a nelaip ciach.

§9 As Tuath Dé vieram com uma grande frota a Ériu para tomá-la à força dos Fir Bolg. Queimaram os seus barcos todos de uma vez só ao chegar à região de Corcu Belgatan, isto é, hoje Conmacne Mara, para que sequer pudessem pensar em recuar diante deles e o fumo e a névoa que vieram das naus encheram a terra e o ar dali próximos. Por essa razão, imaginou-se que tivessem chegado em nuvens de névoa.

§10 Fectha cath Muighe Tuired etorra & Fir Bolc, & maite for Feraib Bolc, & marbthar cét mile diib am Eochaig mac n-Eirc immon righ.

§10 A primeira batalha de Maige Tuired foi travada entre elas e os Fir Bolg; e os Fir Bolg foram derrotados e cem mil deles foram mortos, incluindo-se o seu rei, Eochaid, filho de Erc.

§11 Isen cath sin dno robenad a lamh de Nuadaid .i. Sregg mac Sengaidn rophen dei hí, go tarad Dien-cecht an liaigh laim airgid foair co luth cecai láma, & Credhne in cerd ag cungnam fris.

§11 Ademais, nessa batalha a mão de Nuada foi cortada; foi Sreng, filho de Sengann, que a cortou dele, então Dian cecht, o curandeiro, pôs-lhe uma mão de prata com o movimento de toda mão normal; e Credne, o artífice em bronze, foi o auxiliar do curandeiro.

§12 Cid Tuath Dei Dononn dno derocratar gomar isin cath im Edleo mac nAllai & am Ernmus, am Fhióchraig & im Turild Bicreo.

§12 Eis que as Tuath Dé Danonn perderam muitos homens na batalha, incluindo-se Edleo, filho de Alla, e Ernmas e Fiachra e Turill Bicreo.

§13 Doneoch immorro terla de Feraib Bolc asin cath lotar ar teched de saigid na Fomore, gor’ gabsad a n-Arainn & and Íle & a Manaidn & a Rachraind.

§13 Porém, aqueles dos Fir Bolg que escaparam da batalha fugiram para os Fomoirí e estabeleceram-se em Arran e em Ìle e em Mann e em Rathlin.

§14 Bai imcosnum flathae fher n-Erenn itir Tuaid De & a mná, ar nirb’ inrighae Nuadoo iar mbeim a laime de. Adpertutar ba cumdigh doip rige do Pres mac Elathan, díe ngormac fesin, & co snaidhmfed caratrad Fomure fria an rige de tabairt dósin, ar ba ri Fomore a athair, edon Elotha mac Delbaeth.

§14 Uma controvérsia quanto à soberania dos homens de Ériu ergueu-se entre as Tuath Dé e as suas mulheres; pois Nuada, depois que a sua mão fora cortada, ficara desqualificado para ser rei. Elas disseram que lhes seria mais adequado conferir o reino a Bres, filho de Elatha, ao seu próprio filho adotivo; e que conferir-lhe o reino firmaria a aliança dos Fomoirí com eles. Pois o seu pai, o próprio Elatha, filho de Delbaeth, era um rei dos Fomoirí.

Trabalho em andamento.

Ecos do Paganismo Popular na Alta Idade Média

 

ecos

Ecos do Paganismo Popular na Alta Idade Média

Bellou̯esus Īsarnos

Texto 1

Algumas observâncias da religião popular na Galícia do séc. VI d. C.

Martinus Dumiensis (ca. 515 – 579/80), De Correctione Rusticorum (“Sobre a Correção dos Campônios”).

I. Determinadas árvores eram objeto de especial veneração, pois se acreditava fossem habitadas por espíritos benignos.
II. Jogar pão nas fontes (para aliviar doenças, aumentar a fertilidade?).
III. Reverenciar certas pedras como sagradas, nelas acendendo velas, bem como em encruzilhadas e em determinadas fontes e árvores.
IV. Murmurar encantamentos e nomes de deuses sobre ervas e fazer amarrações.
V. Oferecer frutas e vinho a um tronco de árvore (em uma lareira?).
VI. Cerimônias domésticas de purificação realizadas por especialistas.
VII. Borrifar as paredes de uma casa recém-construída com o sangue de uma ave sacrificada.
VIII. Colocar um ramo de loureiro na entrada da casa.
IX. Invocar a deusa dos ofícios durante a realização destes.
X. Encantamentos para prejudicar uma pessoa por meio de dano a algo que com ela tivesse estado em contato.
XI. Observar com que pé uma pessoa adentra um recinto e disso retirar um presságio.
XII. Retirar presságios do voo dos pássaros e de espirros.
XIII. Celebrar o primeiro dia de cada mês como sagrado para Juno.
XIV. Mulheres esperarem até a quinta-feira para casar.
XV. Recorrer à astrologia para determinar os melhores dias para iniciar a construção de uma casa, uma plantação e casar.
XVI. Começar o ano no 1º. de janeiro, venerando ratos e traças nessa ocasião e honrando os deuses com alimentos dispostos em uma mesa, para que retribuíssem com abundância no resto do ano.
XVII. Mascarar-se de animais em 1º. de janeiro.
XVIII. Venerar Mercúrio na quarta-feira e fazer pilhas de pedras nas encruzilhadas, lançando uma pedra a cada vez que se passa pelo local, e dedicando-as a Mercúrio.
XIX. Adorar os espíritos do mar, fontes e florestas.
XX. Não trabalhar na quinta-feira em honra a Júpiter.

Texto 2

Indiculum Superstitionum et Paganiarum (“Pequeno Índice das Superstições e Práticas Pagãs”)

É uma coleção de capitulares (atos administrativos e legislativos emanados da corte dos francos nas dinastias merovíngia e carolíngia, especialmente na época de Carlos Magno, 742/747/748 – 814; eram formalmente divididas em capitula, plural de capitulum) que identificavam e condenavam crenças pagãs no norte da Gália e entre os saxões à época de sua subjugação e conversão por Carlos Magno durante as Guerras Saxônicas (772-804).

I. Dos sacrilégios junto aos túmulos dos mortos.
II. Dos sacrilégios com relação aos mortos, isto é dadsisas (valgaldr?).
III. Dos ritos pagãos (spurcalia, “profanações”) celebrados em fevereiro.
IV. Das cabanas ou pequenos templos.
V. Dos sacrilégios nas igrejas.
VI. Dos santuários nos bosques a que chamam nimidas.
VII. Do que está sendo feito nas pedras.
VIII. Dos sacrifícios a Mercurius (Woden) ou Iuppiter (Donar).
IX. Dos serviços sacrificiais para certos entes tidos como sagrados.
X. Do uso de amuletos e ligaduras.
XI. Dos sacrifícios nas fontes.
XII. Sobre os encantamentos (galdr).
XIII. Dos augúrios ou predições pelo esterco ou espirros das aves, dos cavalos e do gado (völva ou spákona).
XIV. Dos videntes e adivinhos.
XV. Do fogo da madeira friccionada, isto é, nodfyr (need-fire).
XVI. Dos cérebros de animais.
XVII. Sobre a observação pagã do fogo ou no início de cada coisa.
XVIII. Sobre lugares duvidosos que consideram como sagrados (nemeta).
XIX. Das invocações que os bem intencionados dizem ser de Santa Maria.
XX. Das celebrações que fazem para Iuppiter (Donar) ou Mercurius (Woden).
XXI. Do eclipse da lua, que chamam uinceluna.
XXII. Das tempestades e chifres de touros e lesmas.
XXIII. Dos sulcos ao redor das herdades.
XXIV. Do costume pagão a que chamam frias (ou yrias), roupas rasgadas ou calçados.
XXV. Daqueles que consideram ser santos todos os mortos.
XXVI. Da imagem feita com farinha espalhada.
XXVII. Da imagem feita com pano.
XXVIII. Da imagem que carregam pelos campos.
XXIX. Da oferenda de mãos e pés de madeira conforme o rito pagão.
XXX. Daqueles que acreditam que as mulheres que podem encantar a lua possam tomar os corações dos homens conforme os pagãos.

Texto 3

Regínão de Prüm (morto em 915 EC), Sobre as Disciplinas aos Eclesiásticos e a Religião Cristã, II, 5. Sobre as Disciplinas é uma coleção de cânones, isto é, uma coletânea de leis e princípios jurídicos voltados à regulamentação da organização externa e do governo da Igreja Romana.

42. Deve-se inquirir se [existem na região] magos, feiticeiros, adivinhos, encantadores.

43. Se alguém fizer promessas perto de árvores, fontes, pedras como se fossem altares, se depositar uma vela ou quaisquer presentes como se fosse esse um lugar sagrado onde se pudesse determinar o bem ou o mal. Se qualquer pastor, pastor ou o caçador disser encantamentos diabólicos sobre o pão e as ervas e ligaduras ímpias, se os esconder em uma árvore ou jogá-los nas encruzilhadas, a fim de livrar os animais da doença ou destruir os do seu vizinho.

46. Se alguém bebeu sangue ou comeu algo morto e dilacerado por uma fera.

48. Se alguém tiver bebido o líquido em que uma doninha, rato ou qualquer animal impuro tenha se afogado.

51. Se alguém seguir o costume das calendas de janeiro, que é uma invenção pagã; se observar os dias, a lua, os meses, as horas e se acreditar que isso lhes trará o bem ou o mal.

52. Se alguém, começando a trabalhar, pronunciar palavras ou fizer gestos mágicos, e não, como o Apóstolo determina, fizer tudo em nome do Senhor. Não devemos invocar os demônios em nosso auxílio, mas Deus. Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor, nada mais.

55. Se alguém entoar à noite canções diabólicas sobre os túmulos e parecer alegrar-se com a morte e se alguém fizer vigílias fúnebres fora da igreja.

86. É preciso conhecer as ações das irmandades e confrarias que existem na paróquia.

87. Se alguém se atrever a cantar e dançar nas proximidades das igrejas.

88. Se alguém, ao entrar na igreja, tiver o hábito de tagarelar, não ouvir atentamente as palavras divinas e deixar a igreja antes do fim da missa.

Comentário

Temos três textos:

1) o Sobre a Correção dos Campônios (práticas pagãs no noroeste da Ibéria, séc. VI);
2) o Pequeno Índice (práticas pagãs no norte da Gália e Saxônia, fim do séc. VIII);
3) o Sobre as Disciplinas (práticas pagãs e/ou tidas como desviantes na Lotaríngia, fim do séc. IX).

Comparando-os, certos elementos recorrentes podem ser pinçados:

a) veneração a certas árvores (1.1, 1.19, 2.6, 3.43);
b) veneração a certas pedras (1.3, 2.7, 3.43);
c) realização de oferendas (1.2, 1.6,3.43; pão 1.2,3.43, velas 1.3, 3.43, frutas e vinho 1.5);
d) veneração às fontes (1.2, 2.11, 3,43);
e) existência de especialistas nos ritos mágicos (1.6, 2.14, 3.42);
f) o poder dos encantamentos (1.4, magia de contato 1.10, 2.12, 3.43, 3.52);
g) observação de presságios (1.11,1.12, 2.13);
h) crença na influência dos astros (1.15, 1.18, 1.20, 3.51);
i) sacralidade do fogo (velas, letra “c”; 2.15, 2.17);
j) uso de amuletos e amarrações (1.4, 2.10);
k) relação diferenciada com os mortos (2.1, 2.2, 2.3, 2.25, 3.55). Quanto a este ponto, é interessante recordar o que Tertuliano, citando Nicandro de Cólofon, escreveu no “Sobre a Alma” (57.10): “Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones [uma tribo gaulesa] recebem oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem. Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma Nicandro”;
l) lugares de adoração fora dos padrões cristãos (1.3, 2.4, 2.6, onde nimidas é uma forma tardia do gaulês antigo nemeton; 2.18, 3.43);
m) atos sacrificiais (1.7, 2.9, 2.11; cérebros de animais 2.16, seria referência a um tipo de extispício?);
n) invocação a deidades do passado pagão (1.13, 1.18, 1.20, 2.8, 2.20, 3.52).

Esse mosaico possui razoável extensão cronológica (meados do séc. VI ao fim do séc. IX) e amplitude geográfica (do noroeste ibérico à Europa setentrional). Apesar disso, oferece de modo razoável os contornos da velha religião popular que o cristianismo lutava para substituir, ocasionalmente mantendo práticas consagradas pela tradição sob uma maquiagem cristã. Um exemplo desse expediente pode ser percebido em 3.52 (“Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor”). Anteriormente, em lugar do Pater Noster, talvez o procedimento envolvesse uma prece semelhante à Precatio Omnium Herbarum (“Oração a Todas as Ervas”), ainda que menos elaborada.

A Religião Céltica: Fontes, Deuses e Mitos

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A Religião Céltica: Fontes, Deuses e Mitos

Bellou̯esus Īsarnos

1 Fontes para o Estudo

Durante muito tempo, o estudo da religião céltica viu-se paralisado por dois consideráveis obstáculos: de um lado, o abuso de interpretações fundadas unicamente sobre a iconografia com a exclusão dos textos, resultando em ignorância ou recusa das fontes insulares galesas e hibérnicas; de outra parte, não empregando um método coerente, a maior parte dos intérpretes limitava-se à avaliação da religião céltica de acordo com critérios quer clássicos, quer primitivistas.

A matéria exige, ao contrário, que os dados insulares e continentais sejam comparados continuamente. A natureza mítica dos documentos disponíveis mostra que o estudo da ideologia religiosa e da estrutura social apresenta mais vantagens do que o método histórico puro. Tal ideologia e tal estrutura, no caso dos celtas, situam-se na área indo-europeia, consoante os critérios classificatórios e funcionais estabelecidos pelos trabalhos de Georges Dumézil. Os testemunhos continentais sobre a religião dos antigos celtas abrangem:

a) fontes contemporâneas indiretas (gregas e romanas);
b) a epigrafia e a iconografia celtibérica, céltico-itálica, galo-romana e céltico-oriental;
c) não comportam fonte literária nativa.

As Ilhas Britânicas e Ériu (Irlanda), em contrapartida, oferecem um vasto repertório de textos mitológicos e épicos redigidos nas línguas indígenas medievais, o irlandês e o galês. Esses textos são fontes diretas, embora posteriores à cristianização, mas não comportam informação iconográfica.

As fontes continentais e as fontes insulares são separadas cronologicamente por vários séculos, o que serviu muitas vezes como argumento contra a utilização destas. Contudo, o arcaísmo das fontes insulares está fora de questionamento. Ériu jamais foi romanizada e converteu-se diretamente de sua religião nacional para o cristianismo. Os monges e bispos da cristandade céltica da ilha registraram e transmitiram as lendas e velhos anais como se fossem a história nacional, esforçando-se para conciliá-los com as escrituras cristãs.

Foi assim que, paradoxalmente, a herança mitológica irlandesa salvou-se pela cristianização da ilha.

2 Os Deuses

Em uma conhecida passagem dos Commentarii de Bello Gallico (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, VI, 17), Gaius Iulis Caesar define com precisão os deuses gauleses. Dirigindo-se a um público romano, Caesar emprega teônimos romanos para indicar as funções e campos de atividade das divindades da Gália:

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que é o inventor de todas as artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Abaixo dele, adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da guerra.

Esse texto do séc. I aEC. deve ser interpretado à luz da narrativa arcaica irlandesa chamada Cath Maige Tuired (“Batalha da Planície dos Pilares”), que descreve os deuses hibérnicos ou chefes das Tuatha Dé Danann (“Tribos da Deusa Danu”?), permitindo a criação de uma tabela de correspondências (especulativas) entre estes e alguns teônimos gauleses conhecidos.

Caesar

Gália Ériu

Mercúrio

Lugus Lug

Apolo

Belenos Dian Cécht
Marte Ogmios

Ogma

Júpiter Taranis

Dagda

Minerva Brigindu

Brigit

Todos os deuses são soberanos, isto é, dividem-se entre as funções sacerdotal (Júpiter) e guerreira (Marte), enquanto a terceira função (artesanal e produtiva) coloca-se sob o domínio comum. É por essa razão que Caesar, ao não nomear nenhum deus artesão, atribui a Minerva (que o arcaísmo céltico não diferenciava de Juno e Vênus) a aprendizagem das técnicas artesanais, enquanto, em Ériu, Goibniu era o ferreiro divino e seus irmãos, Luchta e Credne, dominavam respectivamente a carpintaria e a ourivesaria. Não obstante, Caesar atribui a Apolo a medicina, ligada à terceira função.

Isso também explica porque o Dagda, que forma com Ogma, seu irmão, a grande divindade soberana dupla (luminosa e sombria, como o par Mitra/Varuna na Índia védica), possui entre seus atributos o caldeirão da abundância, a maça que dá a vida e a morte e a roda solar (aceitando-se, ocasionalmente, sua identificação a Taranis como controlador do clima).

Porém, o correspondente céltico de Mercúrio é Lugus, o deus supremo do panteão gaulês. Lugus, no topo da hierarquia, está além de qualquer classificação, pois transcende todas as outras funções dos demais deuses. Quanto às centenas de teônimos gauleses e irlandeses, apenas expressariam sinônimos ou aspectos de alguma das cinco grandes divindades soberanas.

Quando se mostra uma flutuação no sincretismo galo-romano, como se dá com um teônimo como Teutates (que é ora atribuído a Marte, ora a Mercúrio), isso revela que a percepção gaulesa não era capaz de identificar exatamente a qual deidade romana oficial uma das suas divindades correspondia. É necessário considerar igualmente o aviltamento funcional trazido pela pax romana (que suprimiu a classe guerreira) e a desintegração da organização político-religiosa da sociedade céltica.

3 Mitologia

3.1 Gália

As fontes antigas nos transmitem somente fragmentos da mitologia gaulesa, testemunhos e reminiscências muitas vezes mal interpretados pelos autores antigos. Os gregos falam de modo muito vago da passagem de Hércules por Alésia e de sua união com a filha de um certo rei Bretannos, Keltinē, que lhe dá um filho, Keltos (ou Galátes), que deu nome a toda a raça céltica:

Relata-se que Hēraklēs, depois de haver arrebatado o gado de Geryon de Erythea, vagueava pelo país dos celtas e chegou à morada de Bretannos, que tinha uma filha chamada Keltinē. Keltinē apaixonou-se por Hēraklēs e escondeu o gado, recusando-se a devolvê-lo a não ser que ele antes a satisfizesse. É certo que Hēraklēs estava muito ansioso para levar o gado em segurança para casa, porém estava muito mais impressionado pela beleza da jovem e concordou com seus desejos. E então, quando se completou o tempo, nasceu-lhes um filho chamado Keltos, de quem toda a raça céltica recebeu o nome.

Parthénios de Nikaia, gramático e poeta grego do séc. I a. E. C., Erotica Pathemata (“Das Aflições do Amor”), II, 30.

Titus Liuius, um pouco mais preciso, evoca o mito de Ambigatus, “imperador” e príncipe dos bitúriges (“reis do mundo”), que envia seus dois sobrinhos, Segouesus e Bellouesus, à conquista da Floresta Herciniana e do norte da Itália, onde será fundada a cidade de Mediolanum (Milão). Porém, sempre que Liuius cita um lenda céltica, transforma-a em história romana.

Recebemos o seguinte relato sobre a transferência dos gauleses para a Itália. Quando Tarquinius Priscus era o rei de Roma [c. 616-578 aEC.], o supremo poder entre os celtas, que ocupavam uma terça parte de toda a Gália, estava em mãos dos bitúriges, que costumavam indicar o rei para toda a raça céltica [altamente improvável]. Ambigatus era o rei nessa época, um homem célebre por sua coragem pessoal e por sua prosperidade, assim como por seus domínios. Durante seu governo, tão abundantes eram as colheitas e a população cresceu tão rapidamente na Gália que a administração de um tão vasto número de pessoas pareceu impossível. Com essa opinião, ele demonstrou sua intenção de enviar os filhos de sua irmã, Bellouesus e Segouesus, ambos jovens empreendedores, para estabelecer-se em qualquer localidade que os deus lhes indicassem por meio de augúrios. Eles deveriam convidar todos que desejassem acompanhá-los, em número suficiente para impedir que qualquer outra nação repelisse a sua aproximação. Quando foram tomados os auspícios, a floresta Hercínia [região montanhosa e densamente arborizada da Germânia] foi atribuída a Segouesus; a Bellouesus os deuses concederam o muito mais aprazível caminho para a Itália. Ele convidou o excesso populacional das tribos – os bitúriges, os arvernos, os senones, os éduos, os ambarros, os carnutos e os aulercos. Começando com enorme número de homens montados e a pé, ele chegou à região dos tricastinos. Estendia-se além a barreira dos Alpes e não fico de modo algum surpreso de que estes lhes parecessem intransponíveis, pois, até onde pode a memória chegar, não haviam jamais sido transpostos por qualquer trilha, a menos que se escolha acreditar nas fábulas sobre Hércules. Enquanto os cumes das montanhas mantinham os gauleses presos onde se encontravam e estes tudo esquadrinhavam em busca de uma passagem para cruzar os picos que alcançavam o firmamento e, desse modo, entrarem em um novo mundo, foram igualmente impedidos de avançar por um sentimento de obrigação religiosa, pois lhes chegaram notícias de que alguns estranhos em busca de território estavam sendo atacados pelos sálios. Esses eram os massiliotas, que haviam navegado da Fócida. Os gauleses, vendo isso como um presságio de seu próprio destino, foram em seu socorro, permitindo-lhes fortificar o ponto onde haviam desembarcado sem nenhuma interferência dos sálios. Depois de cruzar os Alpes atravessando os desfiladeiros dos taurinos e o vale do Dora, derrotaram os etruscos não longe do Ticino e, ao descobrir que a região onde se haviam estabelecido pertencia aos insubres, nome também trazido por um cantão dos éduos, aceitaram o presságio do lugar a construíram uma cidade que chamaram Mediolanum.

Titu Liuius , historiador romano (c. 59 a. E. C. – 17 E. C.), Ab Vrbe Condita (“Desde a Fundação da Cidade”), V, 34.

A única mitologia céltica coerente é aquela que, abundantemente documentada, encontra-se nos textos mitológicos e épicos irlandeses, bem como, acessoriamente, nos romances galeses da Idade Média, dos quais os principais acham-se nos Mabinogion.

3.2 Irlanda

Os textos irlandeses mais ricos são:

a) o Lebor Gabála Érenn (“Livro das Invasões de Ériu”);
b) as duas versões e as três redações do conto intitulado Cath Maighe Tuireadh (“A Batalha da Planície dos Pilares”);
c) o grupo de textos chamados Tochmarc Etaine (“A Corte a Étain”), Altrom Tighe Da Medar (“Nutrição da Casa do Dois Cálices”), Aislinge Óengusso (“O Sonho de Oengus”);
d) todos os textos do ciclo épico de Ulster, dos quais o principal é o Táin Bó Cúailnge (“Ataque às Vacas de Cuailnge”), juntamente com uma dúzia de remscéla (“contos preliminares” ou “prelúdios”);
e) por fim, embora de menor importância, os textos do mais tardio ciclo de Find mac Cumail (Fiannaidheacht), algumas vezes chamado “Ciclo Ossiânico” (de Oisin ou Ossian, filho do herói Find), que narra as aventuras do Fianna, grupo de cavaleiros seguidores de Find, que viviam à margem da sociedade.

A mitologia irlandesa fundamenta-se nas cinco “invasões” míticas da ilha, que os fili (poetas e eruditos) transformaram em história. Cinco raças ocupam e tomam Ériu, cada uma delas cedendo lugar à seguinte depois de um cataclismo, epidemia ou grande batalha. Desse modo, sucederam-se (1) a raça de Partholon, (2) a de Nemed (“sagrado”), (3) a dos Fir Bolg (“homens de Bolg/Builg/Bolga/Bulga” [relâmpago?]), (4) as Tuatha Dé Danann e, por fim, (5) os Goidil (ancestrais dos atuais irlandeses). Derrotadas em batalha pelos Goidil, as Tuatha Dé Danann refugiam-se nos montes funerários megalíticos (sídhe), nas colinas e sob os lagos de Ériu.

O relato fundamental da mitologia céltica irlandesa é o Cath Maighe Tuireadh (“A Batalha da Planície dos Pilares”), que narra a luta dos deuses hibérnicos, ou Tuatha Dé Danann, contra os gênios opressores e destruidores que são os Fomoiri.

Depois de uma primeira batalha contra os Fir Bolg, que lhes concedeu a soberania, as Tuatha Dé Danann são obrigadas a aceitar um rei meio-fomor, Bres, pois seu próprio rei, Nuada, teve seu braço direito decepado na batalha. Bres, porém, é um mau soberano, sofre a sátira de um file (Cairpre) e é obrigado a devolver a soberania. Esta é entregue a Nuada, que traz agora um braço de prata. Bres chama em sua ajuda os Fomoiri que, provenientes da Escandinávia, invadem Ériu. As Tuatha Dé Danann se salvam graças à intervenção de Lug (também meio-fomor), que organiza o combate, convocando todos os “sábios” de Ériu: druidas, guerreiros, copeiros, poetas, videntes, artesãos, entre outros. Depois de uma enorme batalha, os Fomoiri são derrotados e Bres, para salvar sua vida, devolve a prosperidade a Ériu.

Esse relato, o correspondente céltico da guerra germânica entre Æsir e Vanir ou do conflito grego entre Deuses e Titãs, pode ser considerado um mito sobre a origem do mundo e, ao mesmo tempo, traz uma profecia sobre os últimos tempos. Seu cerne, em essência, é o tema da soberania legitimada por uma conquista violenta e guerreira.

O mesmo tema também inspira o ciclo de Étain (ou Eithne), rainha de Ériu e do Outro Mundo, dividida entre a soberania divina e a soberania humana, depois entre o paganismo e o cristianismo. A guerra, apesar da frequência e da ferocidade das batalhas, não é senão um elemento acessório. Não obstante a pulverização dos motivos mitológicos e a multiplicidade dos nomes divinos, a mitologia irlandesa cristaliza-se fortemente em torno de concepções que se ligam à primazia da autoridade espiritual e da soberania da classe sacerdotal.

Os temas especificamente guerreiros (e também míticos) concentram-se no ciclo épico, cuja principal narrativa, o Táin Bó Cúailnge (“Ataque às Vacas de Cuailnge”), conta a guerra empreendida por Medb, rainha de Connacht, aliada às outras províncias de Ériu, contra Ulaid, pela posse de um touro divino, o Castanho de Cualgne, que lhe fora recusado. O campeão de Ulaid, Cú Chulaind, defende sozinho a fronteira de sua província e impõe à rainha Medb um acordo pelo qual um guerreiro será enviado a cada manhã ao vau que separa as duas províncias. Na maior parte, essa Ilíada irlandesa narra os combates de Cú Chulaind contra um só adversário (combates singulares) e suas vitórias. Assim como Hēraklēs é filho de Zeus, Cú Chulaind é filho de Lug e, embora seja rei dos guerreiros, não é um soberano.

Os escribas cristãos que redigiram os relatos mitológicos alteraram-nos em alguns pontos. Suprimiram quase sempre tudo que dizia respeito ao ritual, aos sacrifícios e às doutrinas contrárias aos ensinamentos bíblicos. Mesmo assim, o episódio que se segue, inserido no conto Siarburcharpat Conculaind (“A Carruagem-Fantasma de Cú Chulaind”) revela o que sentiam os irlandeses cristianizados: quando Pádraig tentou converter Lóegaire, rei de Temhair, este demonstrou uma má-vontade obstinada. Exigiu, para acreditar em Cristo, que o santo lhe fizesse ver Cú Chulaind. E o portento aconteceu: Cú Chulaind aparece, totalmente armado, com sua carruagem, cavalos e cocheiro. O teimoso rei é forçado à conversão pelo herói, que lhe descreve as delícias do Paraíso e os sofrimentos do Inferno.

3.3 Gales

O título Mabinogion foi usado pela primeira vez por Lady Charlotte Guest em sua tradução de doze contos medievais galeses, publicada entre 1838 e 1849.

A forma Mabinogion surge no fim do conto “Pwyll, Príncipe de Dyfed” (Ac yuelly y teruyna y geing hon yma o’r Mabynnogyon, “Aqui termina este ramo dos Mabinogion”, frase que também encerra os demais Ramos), mas comumente se admite que o sentido do termo mabinogi, na origem significando apenas “infância”, tenha depois sido ampliado para abranger um conto sobre a infância de um herói em geral. Mabinogion seria o plural de mabinogi.

Antes das traduções de Lady Guest, somente os quatro primeiros dentre os doze contos eram conhecidos como Pedeir Ceinc y Mabinogi, “Os Quatro Ramos do Mabinogi”. Desde então, a palavra Mabinogion tem sido usada como um termo conveniente para designar todos os contos, com exceção do Hanes Taliesin, “A História de Taliesin”.

Os textos anônimos foram preservados no Llyfr Gwyn Rhydderch (“Livro Branco de Rhyderch”), escrito entre 1300 e 1325, e no Llyfr Coch Hergest (“Livro Vermelho de Hergest”), escrito entre 1375 e 1425, embora fragmentos desses contos já tenham sido encontrados em manuscritos do séc. XIII e acredite-se que tenham existido muito antes sob a forma oral. A questão da data de composição dos Mabinogion é importante, pois pode demonstrar que seja anterior à Historia Regum Britanniae (“História dos Reis da Grã-Bretanha”) de Geoffrey de Monmouth, sendo a evidência de que o folclore e a cultura galeses seriam muito mais antigos e persistentes.

Os Mabinogion, desconhecidos fora de Cymru (Gales) até a época de Lady Charlotte Guest, são parte da longa, consistente e gloriosa tradição poética que é um dos maiores orgulhos da nação galesa.

Os Mabinogion propriamente ditos consistem de quatro lendas, também chamadas “Os Quatro Ramos dos Mabinogion”. Essas lendas são:

1) Pwyll, Pendeuic Dyuet (“Pwyll, Príncipe de Dyfed”, Primeiro Ramo): durante uma caçada, Pwyll encontra Arawn (“Língua Prateada”?), Senhor de Annwn (o Outro Mundo da tradição céltica) e, como compensação por um insulto não intencional, oferece-se para trocar de lugar com Arawn e lutar contra seu inimigo, Hafgan (“Verão Branco”). Pwyll passa um ano sob a forma de Arawn e ganha sua amizade graças a suas boas maneiras e pelo sucesso em sobrepujar Hafgan, assim obtendo o título de Penannwn (“Senhor de Annwn”). Ele se casa com Rhiannon, mas somente depois de derrotar Gwawl, o antigo pretendente. O casal vive feliz até o nascimento de Pryderi;
2) Branwen uerch Lyr (“Branwen, Filha de Llyr”, Segundo Ramo): Branwen casou-se com Matholwch, rei de Ériu, e deu à luz Gwern, mas os irlandeses, que tinham sofrido um grave insulto feito por Efnyssien, meio-irmão de Branwen, quando a comitiva de Matholwch estava na Grã-Bretanha, vingaram-se obrigando Branwen a servir na cozinha do castelo, onde era agredida pelo cozinheiro. Ela criou um pássaro e enviou uma mensagem a Bran, seu irmão, rei da Grã-Bretanha, que veio com uma frota para resgatá-la. Efnyssien lançou Gwern numa fogueira e seguiu-se uma batalha entre britanos e irlandeses; ela morreu de tristeza e foi sepultada num “túmulo de quatro lados” nas margens do rio Alaw, em Anglesey. Seu mito, que tem uma forte semelhança com o de Cordélia, filha de Lear, é um tipo de Soberania, como fica óbvio quando sua história é investigada com profundidade. Quanto a Ériu, ficaram vivas na ilha somente cinco mulheres grávidas, cujos filhos foram os fundadores dos Cinco Reinos;
3) Manawydan uab Llyr (“Manawyddan, Filho de Llyr”, Terceiro Ramo): Manawyddan ap Llyr é mencionado no conto Culhwch e Olwen como um seguidor de Arthur, mas, originalmente, é um deus marinho que corresponde (ao menos linguisticamente) ao irlandês Mánannan mac Lir. Nos Mabinogion, é irmão de Bendigeid Fran (“Bran, o Abençoado”), ficando sem terras depois da morte deste e tornando-se marido de Rhiannon. Ajudou a quebrar os encantamentos lançados por Llwyd sobre Dyfed como vingança pelo tratamento violento dado a Gwawl por Pwyll, primeiro marido de Rhiannon. Manawyddan é um homem engenhoso e um mestre artesão, capaz de ganhar seu sustento enquanto a terra está enfeitiçada. Como instrutor e homem de poder, ele fica no lugar do pai de Pryderi e herda as qualidades de Pwyll;
4) Math uab Mathonwy (“Math, Filho de Mathonwy”, Quarto Ramo): o filho de Mathonwy é tio de Gwydion, Gilfaethwy e Arianrhod e irmão de Penardun. Ele era onisciente, possuindo, entre outras habilidades, o estranho dom de ouvir tudo que era dito em seus domínios tão logo as palavras fossem transportadas pelos ventos. Era muito sábio, um grande rei. Neste conto, ele somente pode viver enquanto seus pés estiverem no colo de uma virgem, Goewin, a não ser em tempo de guerra. Como Gwydion provoca uma guerra entre Math e Pryderi, Math deixa-a temporariamente, sendo Goewin violada por Gilfaethwy, que nutria por ela uma paixão secreta. Para aliviar a vergonha da jovem, Math casa-se com ela e pune seus sobrinhos, Gilfaethwy e Gwydion, transformando-os em vários animais. É com a ajuda de Gwydion que Math cria Blodeuwedd com flores como noiva para Llew Llaw Gyffes, seu sobrinho-neto.

Sete outros contos foram associados aos “Quatro Ramos”:

a) O Sonho de Macsen Wledig: um imperador romano, Magnus Maximus (383-388 EC.), conhecido na tradição galesa como Macsen Wledig. Geoffrey de Monmouth, que o chama Maximianus, diz que ele fez de Conan Meriadoc o governante da Bretanha Menor, na atual França. Neste conto, o imperador sonha com uma mulher desconhecida por quem fica apaixonado. Por fim, mensageiros finalmente informam que esta realmente existe em Cymru, de forma que Macsen deixa Roma para casar-se com ela. Seu nome é Elen. O Maximus histórico, subjacente à lenda, realmente serviu na Grã-Bretanha, mas levou muitas tropas da ilha em sua luta contra Gratianus, imperador do Ocidente, assim deixando a Grã-Bretanha sem proteção. Traços dos fatos permanecem nas lendas: os galeses retiveram seu nome, que aparece em várias genealogias de famílias nobres como uma conexão imperial. Os soldados romanos que partiam tomaram esposas estrangeiras, mas, conta a lenda, cortaram suas línguas para que não pudessem corromper o idioma britânico de seus filhos. Vemos assim como é antiga e poderosa a devoção dos Cymry (galeses) ao seu idioma;
b) Lludd e Llefelys: Lludd é filho de Beli e irmão de Llefelys. Foi o rei da Grã-Bretanha que reconstruiu a cidade de Londres, cujo nome vem do rei: Caer Lludd, Caer London. Três pragas caíram sobre a ilha: uma raça chamada Coranianos (genedyl y Coraneit, “a raça dos Coranianos”), que podia saber tudo que era dito; um grito que era ouvido a cada Véspera de Maio e que fazia murcharem as lavouras, matava os animais e crianças e deixava as mulheres estéreis e o desaparecimento dos mantimentos do rei. Lludd procurou conselhos junto a seu irmão, Llefelys, que lhe disse que os Coranianos seriam vencidos depois de beberem uma infusão de insetos esmagados em água; que o grito era provocado por dragões que seriam vencidos depois de se embebedarem com hidromel forte, sendo necessário enterrá-los exatamente no centro da Grã-Bretanha, e que o ladrão das provisões era um homem de poder capaz de lançar um feitiço de sono sobre a corte e, então, roubar toda a comida. Lludd venceu as três pragas e a paz da ilha foi restabelecida;
c) Culhwch e Olwen: Culhwch é o filho de Celyddon Wledig e sobrinho de Arthur. Sua mãe, Goleuddydd (“Dia Brilhante”), deu-o à luz depois de ficar apavorada com a visão de uma vara de porcos, de modo que ele foi chamado Culhwch, ou “Chiqueiro”. Seu pai casou-se outra vez depois da morte de Goleuddydd. A madrasta de Culhwch lançou um feitiço sobre ele para que não pudesse casar-se senão com Olwen (“A dos Rastros Brancos”), filha de Yspaddaden Pencawr (“Espinheiro, Chefe dos Gigantes”), o gigante. Na corte de Yspaddaden, Culhwch recebeu trinta e nove anoethu, ou tarefas impossíveis, que deveriam ser cumpridas antes de casar-se com Olwen, todas as quais foram realizadas com a ajuda dos cavaleiros de Arthur. A principal tarefa era caçar o Twrch Trwyth, um javali gigante, para o que seria necessário o auxílio de vários cavalos específicos, cães de caça e homens, incluindo Mabon, um jovem miraculoso, cujo encontro é narrado nesse conto. Outras missões incluem a viagem de Arthur ao Outro Mundo para obter alguns dos Objetos Sagrados, ou Treze Tesouros da Grã-Bretanha – um feito que é também relatado num poema galês do séc. IX, o Preiddeu Annwn, “Espólios de Annwn”, atribuído ao bardo Taliesin. O poder de Yspaddaden é vencido e Culhwch casa-se com Olwen;
d) O Sonho de Rhonabwy: Rhonabwy adormece a sonha que Arthur e Owain estão jogando gwyddbwyll (um jogo de tabuleiro céltico) ante um campo de batalha. Durante o jogo, os cavaleiros de Arthur lutam com os corvos de Owain, mas os jogadores apenas continuam com seu passatempo, até que Arthur, impaciente por começar a perder, esmaga as peças. O jogo talvez simbolizasse uma batalha pela soberania.

Os contos “Culhwch e Olwen” e “O Sonho de Rhonabwy” despertaram o interesse dos estudiosos por preservarem tradições mais antigas do que o material arturiano. A narração de “O Sonho de Macsen Wledig” é uma história romântica sobre o imperador romano Magnus Maximus.

Três dos contos são versões galesas de romances arturianos que também aparecem no trabalho de Chrétien (ou Chréstien) de Troyes. Os críticos do séc. XIX acreditavam que os contos baseavam-se nos próprios poemas de Chrétien, mas as opiniões mais recentes inclinam-se a afirmar que as duas coleções são independentes, mas têm um ancestral comum:

e) A Dama da Fonte: Owain, inspirado pelo conto de Cynon (na tradição galesa, o filho de Clydno – um dos guerreiros de Arthur – e amante de Morfudd, irmã gêmea de Owain), sai em busca do Castelo da Fonte, que era guardado pelo Cavaleiro Negro. Ele atravessou o mais belo vale e viu um brilhante castelo numa colina. Depois de entrar nesse lugar sobrenatural, Owain derrota o Cavaleiro Negro e casa com sua viúva. Após um começo difícil, ele vence ressentimento desta e guarda o reino até que sua sede por aventuras o faz partir, deixando para trás a esposa. “Dama da Fonte” é também o título da condessa misteriosa no “Yvain”, de Chrétien de Troyes;
f) Peredur, Filho de Efrawg: na mitologia galesa, Peredur era o sétimo filho de Efrawg e o único do sexo masculino a sobreviver. Seu pai e irmãos morreram antes que ele atingisse a maioridade. Isso não impediu Peredur de tornar-se um dos cavaleiros de Arthur e suas muitas aventuras formaram a base para o Sir Percival posterior. Talvez por causa de sua posição como sétimo filho, Peredur era particularmente adepto de matar bruxas, que, em Cymru, compareciam ao campo de batalha trajando armaduras completas. No fim de seu conto nos Mabinogion, Peredur enfrenta a “líder das bruxas” e, com sua espada, rompe elmo e armadura em duas partes, enquanto as demais feiticeiras fogem;
g) Gereint, Filho de Erbin: Gereint é o rei de Dumnonia (reino que, no, período pós-romano, abrangia Devon, a Cornualha e outras áreas do sudoeste da Inglaterra), cujas aventuras são contadas nesta narrativa. No romance francês, o herói deste conto é Erec, mas, como este não é comumente conhecido em Cymru, substituíram-no por Gereint. Este pode ser uma figura histórica, um primo de Arthur. Embora seja listado como contemporâneo desse rei, pode ter pertencido a uma geração anterior, pois o conto “O Sonho de Rhonabwy” diz que Cadwy, seu filho, era um contemporâneo de Arthur. O nome do pai de Gereint é citado como Erbin, mas, na “Vida de São Cyby”, Erbin é chamado seu filho. Em “Culhwch e Olwen”, encontramos os nomes de dois de seus irmãos, Ermid e Dywel. Gereint, suspeitando que sua esposa é infiel, força-a a acompanhá-lo numa exaustiva jornada de aventuras para testar seu amor e obediência a cada passo do caminho. Como outras fortes heroínas célticas, ela suporta calmamente sua provação, permanecendo leal e amorosa durante todo o tempo. Gereint finalmente sentiu “duas tristezas”, do remorso por ter desconfiado de sua esposa e por tratá-la tão mal.

Lady Guest também incluiu em sua tradução um oitavo conto (removido das traduções inglesas posteriores, que, no entanto, continuam a usar o termo Mabinogion), não encontrado nem no “Livro Branco de Rhyderch”, nem no “Livro Vermelho de Hergest”, mas em um manuscrito do séc. XVII. Esse texto é o Hanes Taliesin (“A História de Taliesin”). O nome Taliesin significa “Testa Brilhante”. Ele foi um bardo galês e, de acordo com o mito, a primeira pessoa a adquirir a habilidade da profecia.

Em uma versão da história, era ele o servo da feiticeira Cerridwen, uma deusa da fertilidade, mãe de Afagddu, o homem mais feio do mundo, e chamava-se Gwion Bach. Cerridwen preparava uma beberagem mágica que, depois de um ano fervendo, produziria três gotas que dariam a quem as bebesse toda a sabedoria do mundo. Essa pessoa conheceria todos os segredos do passado, do presente e do futuro. Ela queria dá-las a Afagddu como compensação por sua feiúra.

Enquanto Gwion Bach cuidava do fogo sob o caldeirão, uma parte do líquido quente caiu em seu dedo e ele a sorveu ao sentir a dor. Eram as três gotas da sabedoria. Todo o líquido restante era veneno. A furiosa Cerridwen empregou todos os seus poderes mágicos para perseguir o menino. Durante a caçada, ele se transformou numa lebre, num peixe e num grão de trigo, que Cerridwen, metamorfoseada em galinha, engoliu, descobrindo-se então grávida. Mais tarde, Gwion, renascido de Cerridwen, foi jogado ao mar e apanhado numa armadilha para peixes, quando passou a chamar-se Taliesin por causa de sua testa brilhante.

Os “Quatro Ramos” são, essencialmente, histórias medievais e seus personagens comportam-se, falam e vivem de modo muito semelhante a sua audiência do séc. XIV. Suas maneiras são (em geral) corteses e refinadas, invocam frequentemente o deus cristão e suas roupas incluem brocados, sedas, toucados e outros itens medievais. Contudo, ainda que sejam produto de uma sociedade cristã da Idade Média, os “Quatro Ramos” baseiam-se também numa visão de mundo profundamente pagã, proveniente de tradições e crenças das culturas neolíticas e da Idade do Bronze, bem como da Idade do Ferro céltica e da era romano-britânica.