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Trecho do Fís Adamnáin

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Trecho do Fís Adamnáin (“A Visão de Adamnán”), texto editado por Whitley Stokes (1891)

  1. Acht chena dogniat guin 7* gait 7 adaltras 7 fingalu 7 duinorcain 7 esorcain chell 7 clerech, sáint 7 éthech 7 góei 7 gúbreth 7 coscrad eclasi Dé, draidecht 7 génntlidecht 7 sénairecht, auptha 7 felmasa 7 fidlanna.
  1. Apesar de cometerem agressão e roubo e adultério e parricídios e homicídios e destruição das igrejas e dos clérigos, cobiça e perjúrio e mentiras e falso julgamento e destruição da igreja de Deus, bruxaria [draidecht] e paganismo [génntlidecht] e lidarem com encantamentos [sénairecht], poções [auptha] e feitiços [felmasa] e fidlanna.

Apenas nesse curto trecho do Fís Adamnáin aparecem palavras que designam quatro procedimentos mágicos:

1) Sénairecht: deriva de sénaire, que vem de sén, “encantamento”, genitivo seoin.

2) Auptha, também uptha, “poções/feitiços de amor”. O  nominativo plural plural aipthi é glosado pelo latim ueneficia, “feitiços”.

3) Felmasa é o acusativo plural de felmas, genitivo felmais. Em textos jurídicos, a expressão fromadh felmais é glosada como fromadh ua pisoc, “comprovar feitiços”.

4) Fidlanna é o acusativo plural de fidlann, provavelmente derivado de fid, “madeira” + lann, “placa/chapa”, que pode ser o nome da prática descrita no Tochmarc Etaine (“O Galanteio a Etain”, M. Egerton 1782, fo. 118a2):

Ba tromm immorro laisin druid dicheilt Étainiu fair fri se blíadna, co ndernai iarsin .iiii. flescca ibuir, ocus scripuidh oghumm inntib, 7 foillsigthir dó triana eochraib écsi 7 triana oghumm Etain do bith i Síth Breg Leith iarna breth do Midir inn.

Eis que pareceu penoso ao mago [o druida Dalan] que Etain dele permanecesse oculta por seis anos; assim, eles fez quadro bastões de teixo e neles escreveu o ogham. E por meio das suas chaves do conhecimento e através do ogham foi-lhe revelado que Etain estava no Síd de Bri Leith, para onde fora levada por Midir.

* Nos textos em gaélico antigo e medieval, usava-se um caractere semelhante ao algarismo 7 para representar a conjunção ocus/agus, “e”.

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As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann II

4_jewelsAntes de aportar em Ériu (nome nativo da Irlanda), as Tuatha Dé Danann estiveram nas ilhas ao norte do mundo (i n-insib tūascertachaib in domain) a peregrinar por quatro cidades, ut cecinit poeta, Falias, Gorias, Findias e Murias.

Em cada uma dessas cidades, as Tuatha Dé aprenderam as artes místicas, ou seja, as artes dos druidas (druidecht), conhecimento (fis), profecia (fáistine) e habilidades mágicas (amainsecht) sob a orientação de quatro magos (ceithri fiseda), a saber, Morfessa de Falias, Esras de Gorias, Uiscias de Findias e Semias de Muirias. Cada um desses mestres deu-lhes um talismã.

Morfessa de Falias deu a Lia Fail, ou seja, a Pedra de Fal, que gritaria ao ser pisada pelo rei que legitimamente tomasse a soberania de Ériu (fláith Érenn).

Esras de Gorias deu a Sleg Loga, ou seja, a Lança de Lug, capaz de assegurar a vitória daquele que a empunhasse.

Uiscias de Findias deu a Claideb Nuadat, ou seja, a Espada de Núadu, que, uma vez desembainhada, jamais deixaria de atingir o oponente.

Semias de Muirias deu o Coiri in Dagda, ou seja, o Caldeirão do Dagda, do qual nenhum bando de guerreiros valentes afaster-se-ia sem ter encontrado todo o alimento que desejasse.

Por essa razão, esses presentes foram chamados ceithri haisceda Tuaithi De Danand, os quatro dons das Tuatha Dé Danann.

Leia também: As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann I.

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Mais sobre os Caldeirões

CAULDRONUm antigo poema atribuído ao próprio druida Amergin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

O primeiro chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sois (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar.

Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente invertido em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria” (anruthanna), o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sidhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/ […] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amrán Mór que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

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Certogham

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A Roda da Fortuna e o Deus Gaulês dos Solstícios

A Roda da Fortuna está ligada ao movimento, às mudanças bruscas de comportamento, à terra e à viagem; em termos simbólicos, à viagem do sol. Ela indica também o perigo de a evolução do homem ser interrompida. No deus gaulês que presidia as festas dos solstícios, encontramos a mesma simbologia do movimento circular e a relação roda-sol levante, roda-sol poente. Eis porque o mito desse deus gaulês continuava a viver nesse arcano do tarô.

Ao chegar a esta carta, o Mago deve estabelecer o equilíbrio, tornar-se o piloto dessa roda que se assemelha a um timão.

O Mito do Deus Gaulês dos Solstícios

A roda é um símbolo milenar. Na Índia, o deus Shiva faz girar em torno do seu dedo indicador direito uma roda cósmica, representação do sol. Os primeiros vestígios da roda, símbolo solar, são encontrados na Mesopotâmia. Um hino gravado numa pedra  em caracteres cuneiformes diz o seguinte:

Com a mão direita, sustento o meu disco de fogo.
Com a esquerda, seguro o meu disco de morte.
O sol, de cinquenta faces, a arma erguida da minha divindade,
Eu o sustento.
O valente que atravessa as montanhas, o sol,
Cuja ação não cessa, eu o sustento.
A arma que, com a sua força imensa, enche o país de terror.
Em minha mão direita, poderosamente, o projétil de ouro
E de ônix, eu o sustento.

O ouro e o ônix, o sol e a pedra, símbolo da terra, misturam-se nesse antiquíssimo canto.

No Egito, uma roda girava nos templos. Os caleidoscópios tibetanos de orações têm a forma de rodas. Os gregos conheciam a Roda da Fortuna; a ela se prendia um pássaro, ou a sua representação, e em seguida girava-se a roda com toda a velocidade para que dela emanassem, entre outras, virtudes afrodisíacas. Em Roma, a festa da Roda da Fortuna ocorria no dia 24 de junho. Ela homenageava os viajantes e tinha como símbolo um timão.

Na Gália, um pequeno deus barbudo, atarracado, de pernas tortas e pés calçados solidamente fincados na terra, tinha na mão direita uma roda, que ele erguia bem acima da cabeça, e parecia proteger um pequeno ser frágil, mulher ou criança, agachado à sua esquerda. Sua espessa cabeleira descia-lhe até os ombros. Às vezes, um pássaro apoiava-se a seus pés. Sua roda possuía seis raios. Foram encontradas algumas estatuetas desse deus em Allier; elas podem ser vistas no museu de Saint-Germain, no Louvre e no museu Calvet, em Avignon.

As festas presididas por esse deus ocorriam nos solstícios de inverno e de verão, “as portas do Norte e do Sul”, uma espécie de cerimônias agrárias do fogo celebradas em toda a Europa primitiva. Nos calendários rúnicos, o dia 25 de dezembro era caracterizado por uma roda. As festas que marcavam o solstício de inverno, a porta do Norte, tinham início no dia 25 de dezembro e duravam doze dias, encerrando-se a 6 de janeiro. No decorrer desse período, imobilizavam-se todas as rodas, os carros não circulavam mais. Todas as representações do sol deviam ser imóveis. Os viajantes interrompiam sua jornada durante todo esse período Pegavam-se as ervas colhidas na época de São João e faziam-se com elas tisanas que agissem sobre a circulação do sangue. Os camponeses observavam com atenção o comportamento do tempo nesses doze dias e previam o do ano seguinte, cada dia correspondendo a um mês. Se houvera chuva no terceiro dia, março seria um mês chuvoso etc. Os reis, representantes do astro solar na terra, não deviam mostrar-se, sendo substituídos por suas efígies.

Durante esse período do ano, todos ficavam atentos aos caprichos da natureza. O décimo segundo dia era o cenário da festa propriamente dita. Comia-se uma bolacha de farinha de cereais e favas. Nos outros dias do ano, esse alimento estava reservado aos mortos, mas, no dia 6 de janeiro, os vivos festejavam com seus finados a partida do sol para o portal do Sul. Giravam-se as rodas com muita velocidade e acendiam-se grandes fogueiras; de modo geral, essa era tarefa de responsabilidade dos pastores e dos ferreiros. Era preciso levantar-se cedo para ver o sol subir no horizonte; depois vestia-se uma roda de palha e de ramagens, roda que era girada como uma coroa na ponta de um grande bastão. Todos os assistentes, formando uma roda, giravam no sentido inverso. No início do séc. XX, na Polônia, nessa data de 6 de janeiro, apagavam-se todos os fogos; em seguida, fixava-se um roda numa estaca e os jovens da cidade giravam-na até que surgisse fogo do atrito da madeira tenra da roda com a madeira mais dura da estaca.

Na Bretanha, a roda muitas vezes era substituída por um timão que em seguida era guardado até a festa de São João.

No séc. VII, Santo Elói insurgiu-se contra as festas do solstício. Para desviar o sentido dessa cerimônia de inverno, a Igreja instaurou, na mesma data, a Epifania; mas a imaginação popular misturou os reis magos, a bolacha, a roda, as favas e as danças, e a comemoração da visita dos três reis magos manteve sempre um pequeno lado pagão.

No momento do solstício de verão, como as horas em que o sol brilha iriam diminuir, acompanhava-se o astro à porta do Sul através de festas dignas do seu reinado. Na véspera, antes da meia-noite, as velhas e os curandeiros colhiam as ervas sagradas. No norte da Gália, tratava-se da drosera [Drosera rotundifolia; tb. chamada rorela e sundew], que cresce nas turfeiras e à margem dos pântanos, planta antiespasmódica; do feto macho que, colhido em São João, tinha o poder de tornar invisível; e da Artemísia, que protegia da epilepsia. No sul, tratava-se do hissopo, considerado uma panaceia; da betônica, do alho selvagem, do tomilho, do alecrim e do orégano. As folhas eram separadas dos talos e das raízes; as primeiras eram reservadas aos males da alma; os últimos, aos males do corpo.

No dia de São João, acendiam-se grandes fogueiras nas colinas, e assim, de topo em topo, os braseiros se correspondiam. Eles deviam durar o maior tempo possível, já que sua extinção significava o fim dos festejos. Jogavam-se neles a roda do inverno e a árvore de maio; depois, fabricava-se outra roda, maior, enrolada em palha e estopa e guarnecida de flores de cores vivas. Toda iluminada, ela era lançada de certa altura, e os jovens a perseguiam. Esse costume ainda existia no começo do século e, no sul, a roda era denominada estrela dos pastores. O senhor Tessier, subprefeito de Thionville, escreveu no dia 23 de junho de 1822: “Uma velha roda, estragada e fora de uso. Ela é enrolada com palha e estopa, que a ocultam. É levado ao cume de uma montanha ou de uma colina, caso o país seja plano; ateia-se fogo e ela é rolada com violência. Se em determinado ano a roda flamejante é negligenciada, os animais, em movimentos convulsivos, dançam nos estábulos, seu sangue apodrece e torna-os loucos. Cada habitante tem um archote e segue a roda; há um guia com uma tocha e grandes gritos são emitidos. É preciso chegar ao Mosela e aí apagar o que resta; devem-se evitar as cavidades. Se os guias afastam a roda dos vinhedos e conseguem desviar-se deles, isso é sinal de boa colheita” (Mémoires de la Societé des Antiquaires de France, 1823, vol. V, B. N).

Em vão a igreja tentou apropriar-se dessa festa, que permaneceu mágica e pagã. Se meio proibia os casamentos, junho tomava-os sob sua proteção. As velhas davam às jovens um talo de hissopo e um pouco de orégano. Estas colocavam-nos sob o travesseiro e recitavam antes de adormecer:

Suplico ao bem-aventurado São João
E à lua e seu crescente
Que em sonhos me deixem ver
Aquele que em minha vida desposarei
E o ofício que ele sabe fazer
Que o venha executar diante de mim.

Após acrescentarem, com educação, um “Obrigada, São João”, elas adormeciam rapidamente para poderem ver, em sonhos, o futuro marido.

No dia que sucedia à festa de São João, procuravam-se tesouros escondidos pelos gênios, durante a noite, sob grandes pedras; na Bretanha, sob os menires, no sul, sob pedras muito brancas. Algumas vezes, no decorrer da noite, as galinhas eram colocadas do lado de fora para porem ovos de ouro. Recolhia-se também o orvalho da noite, pois ele podia curar tudo.

Resquícios Populares

No séc. VI existia uma fórmula de cura que foi usada até o século X, nas cidades e aldeias. Tomando-se o orvalho recolhido na manhã do dia de São João, a fim de curar as hemorragias, pronunciavam-se estas palavras: “Quando Jesus foi batizado (sinal da cruz) o Jordão recuou, pois Jesus disse a João (sinal da cruz) diz ao Jordão detém-te pois o Senhor veio para o meio de nós e logo as ondas se detiveram (sinal da cruz)”. Parece que isso era infalível.

A Bretanha conservou por muito tempo os antigos costumes. Tristan Corbière, em 1884, fala da cerimônia que era celebrada, uma vez por ano, no solstício de verão, na capela de Pouldavid, em Saint-Théogonec. Existem testemunhos semelhantes acerca de uma igreja em Douarnenez. Os fiéis entravam na capela para assistirem à missa solene. Durante o ofício, uma grande roda, ou um timão fixado na abóbada, era manobrada pelo cura graças a uma corda presa à mão direita da estátua em granito do santo Tu-Pé-Du. A roda era guarnecida de uma sineta colorida. O sacerdote mandava que todos girassem essa roda da fortuna e isso custava a cada um dois vinténs. O consulente devia ter refletido bastante sobre a pergunta que desejava formular. Com um movimento impresso à corda, a roda começava a girar, sendo depois parada com um bastão pelo sacerdote. De acordo com a posição da sineta, à direita ou à esquerda do santo, a resposta era afirmativa ou negativa. Teria o pequeno deus gaulês se reencarnado no Tu-Pé-Du bretão?

Hoje, na Grécia, no dia 1º. de maio, todos os habitantes da aldeias e das cidades vão ao campo para colher flores com as quais tecer coroas. Eles as colocam na parte de cima de suas portas de entrada. Depois, no dia de São João,  lançam essas coroas ao fogo para purificarem o ar e impedirem a propagação da malária pelos mosquitos.

No dia da Epifania, na maioria das ilhas, uma procissão conduzida pelo déspota ortodoxo percorre o quebra-mar. Depois, o pope solta uma pomba e joga a cruz nas águas do porto. Os pescadores mergulham para recuperá-la. Há pouco tempo, o homem que resgatara a cruz caminhava pela aldeia ostentando-a numa bandeja coberta de flores. Os habitantes depositavam nela dinheiro. Mas as autoridades religiosas, constatando que esse dinheiro acabava parando nos bolsos dos donos de botequins, proibiram recentemente o pedido de esmolas. Através dessa cerimônia, a pomba, símbolo da alma que voa, purifica o ar, enquanto a cruz, a matéria, faz o mesmo com a água.

Outras crenças um tanto loucas: os habitantes de Estrasburgo são capazes de jurar que as imagens da sua catedral voam nas noites de São João.

No Var, em Gonfaron, os asnos voam nos dias 26 de dezembro e 23 de junho. Sabiamente, os aldeões esperam, olhando para o alto, na praça principal, onde são servidos sanduíches e bebidas geladas. Eles aguardam para ver passar um desses asnos. Não se desencorajam e são formais: os asnos voam, mas os olhos dos turistas nem sempre são capazes de vê-los!

Fonte: Dicta & Françoise. Mitos e Tarôs: a viagem do mago. São Paulo: Pensamento, 1995, pp. 100-106.

Os Três Círculos da Manifestação

ill-337Os Três Círculos da Manifestação fazem parte do sistema do Barddas, criado no séc. XVIII por Iolo Morganwg e ainda usado por um bom número de ordens druídicas atuais. Os três mundos ou reinos são nele apresentados como círculos concêntricos, que se chamam:

1. Abred (a Criação Material), que possui os círculos interiores de:

1.1.a Annwn (o Abismo Primordial, de onde a vida emana de forma inconsciente);

1.1.b Gobren (a Injustiça ou Provação, onde a vida inconsciente surgida em Annwn enfrenta todos os tipos de provações e descobre o destino ou direção que seguirá no plano seguinte);

1.1.c Kenmil (a Crueldade, onde a vida, que havia surgido inconsciente em Annwn e aprendido a reagir em Gobren, adquire sensibilidade).

Esses três círculos correspondem à existência mineral, vegetal e animal. Formam o mundo chamado 1.1. Ank (Fatalidade), onde a vida encontra-se submetida ao destino.

O aspecto invisível de Ank manifesta-se como 1.2. Ankou ou Ankoun, incorporando todos os fenômenos da vida subconsciente. Corresponde ao Plano Astral do ocultismo.

Além de Abred, está 3. Gwynfyd, o Mundo Branco, o reino celestial dos espíritos e divindades acima de nós e/ou na fronteira externa do círculo de Abred, o lar da humanidade. Se a vida, saída de Annwn, que adquiriu sua individualidade no círculo de Abred, não estiver pronta para adentrar Gwynfyd, não possuindo afinidade com as condições de vida nesse plano, obrigatoriamente continuará a viajar pelos círculos de Abred, submetida a Ank.

Na fronteira exterior de Gwynfyd está 3. Ceugant, o Mundo Vazio, onde se encontra exclusivamente a Existência Primordial, que reúne todos os opostos (Ser/Não-Ser, Vida/Morte) e onde nenhum outro ser pode entrar, uma vez que a ninguém é dado, simultaneamente, existir e não existir.

O esquema dos Três Mundos ou Círculos é assim:

1 Abred

1.1 Ank

1.1.a Annwn
1.1.b Gobren
1.1.c Kenmil

1.2 Ankou

2 Gwynfyd

3 Ceugant

O Barddas descreve a viagem espiritual da alma como uma migração que inicia em Annwn, o Mundo Inferior, atravessando Abred, onde experimenta a vida de todas as espécies de criaturas vivas, de fungos a insetos, plantas e animais, tornando-se finalmente um ser humano.

Como humanos, podemos avançar para Gwynfyd e nos tornarmos divinos ou retornar à forma pré-humana e repetir a tentativa. Talvez essa ideia tenha surgido da observação feita por Caesar: “Aqueles [i. e., os druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte” (Commentarii de Bello Gallico, VI, 14).

Esses três círculos correspondem também ao meio-ambiente físico: o céu acima de nós, a terra onde estamos, a água do mar que se estende para as profundezas. O céu e o sol são obviamente o reino celestial, pois encontram-se acima de nós. Na mitologia irlandesa, os deuses chegam em barcos que voam pelo ar e o mar comumente estava associado ao Mundo Inferior e a passagens de/para Tír na nÓg.

Há narrativas que contam viagens de barco para as ilhas do Outro Mundo, chamadas imramma, como a de Bran, filho de Febal. O poeta galês Taliesin descreve a viagem marítima de Arthur em busca do caldeirão de Annwn. Na Irlanda, é necessário cruzar o rio Bóinne para alcançar Sí an Bhrú, partindo de Temair na Rí. O mundo físico, desse modo, replica a cosmologia. Igualmente o entendimento científico da evolução conta, a seu próprio modo, o mesmo relato sobre nossa migração espiritual: nossos ancestrais pré-humanos emergiram do mar, na terra assumiram a forma humana e agora, graças à tecnologia, somos capazes de voar pelo céu.

Quando os três círculos encontram-se alinhados, como se dá na câmara de Brú na Bóinne no solstício de inverno pela interação entre a luz do sol, a terra e o próprio síd, o tempo renova-se e a vida, graças à crescente energia do sol, recebe o poder de continuar. Esse evento não é isolado e permanente, porém cíclico, essencialmente uma repetição do ato original da criação, repetição pela qual esta se torna um processo contínuo e em permanente realização.

Bellouesus /|\ (Druidismo Brasil, # 20.707, 28/07/2012)