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A Religião Céltica 3: Mitologia (Parte 3: Gales)

clip2_118eO título Mabinogion foi usado pela primeira vez por Lady Charlotte Guest em sua tradução de doze contos medievais galeses publicada entre 1838 e 1849.

A forma Mabinogion surge no fim do conto “Pwyll, Príncipe de Dyfed” (Ac yuelly y teruyna y geing hon yma o’r Mabynnogyon, “Aqui termina este ramo do Mabinogion”, frase que também encerra os demais Ramos), mas comumente se admite que o sentido do termo mabinogi, na origem significando apenas “infância”, tenha depois sido ampliado para abranger um conto sobre a infância de um herói em geral. Mabinogion seria o plural de mabinogi.

Antes das traduções de Lady Guest, somente os quatro primeiros dentre os doze contos eram conhecidos como Pedeir Ceinc y Mabinogi, “Os Quatro Ramos do Mabinogi”. Desde então, a palavra Mabinogion tem sido usada como um termo conveniente para designar todos os contos, com exceção de Hanes Taliesin, “A História de Taliesin”.

Os textos anônimos foram preservados no Llyfr Gwyn Rhydderch (“Livro Branco de Rhyderch”), escrito entre 1300 e 1325, e no Llyfr Coch Hergest (“Livro Vermelho de Hergest”), escrito entre 1375 e 1425, embora fragmentos desses contos já tenham sido encontrados em manuscritos do séc. XIII e acredite-se que tenham existido muito antes sob a forma  oral. A questão da data de composição do Mabinogion é importante, pois pode demonstrar que é anterior à Historia Regum Britanniae (“História dos Reis da Grã-Bretanha”) de Geoffrey de Monmouth, sendo a evidência de que o folclore e a cultura galeses seriam muito mais antigos e resistentes.

O Mabinogi, desconhecido fora de Cymru (Gales) até a época de Lady Charlotte Guest, é uma parte da longa, consistente e gloriosa tradição da poesia que é um dos maiores orgulhos da nação galesa.

O Mabinogi propriamente dito consiste de quatro lendas, também chamadas “Os Quatro Ramos do Mabinogi”. Essas lendas são:

1) Pwyll, Pendeuic Dyuet (“Pwyll, Príncipe de Dyfed”, Primeiro Ramo): durante uma caçada, Pwyll encontra Arawn (“Língua Prateada”), Senhor de Annwn (o Outro Mundo da tradição céltica) e, como compensação por um insulto não intencional, oferece-se para trocar de lugar com Arawn e lutar contra seu inimigo, Hafgan (“Verão Branco”). Pwyll passa um ano sob a forma de Arawn e ganha sua amizade graças a suas boas maneiras e pelo sucesso em sobrepujar Hafgan, assim obtendo o título de Penannwn (“Senhor de Annwn”). Ele se casa com Rhiannon, mas somente depois de derrotar Gwawl, o antigo pretendente. O casal vive feliz até o nascimento de Pryderi;
2) Branwen uerch Lyr (“Branwen, Filha de Llyr”, Segundo Ramo): Branwen casou-se com Matholwch, rei de Ériu, e deu à luz Gwern, mas os irlandeses, que tinham sofrido um grave insulto feito por Efnyssien, meio-irmão de Branwen, quando a comitiva de Matholwch estava na Grã-Bretanha, vingaram-se obrigando Branwen a servir na cozinha do castelo, onde era agredida pelo cozinheiro. Ela criou um pássaro e enviou uma mensagem a Bran, seu irmão, rei da Grã-Bretanha, que veio com uma frota para resgatá-la. Efnyssien lançou Gwern numa fogueira e seguiu-se uma batalha entre britanos e irlandeses; ela morreu de tristeza e foi supultada num “túmulo de quatro lados” nas margens do rio Alaw, em Anglesey. Seu mito, que tem uma forte semelhança com o de Cordélia, filha de Lear, é um tipo de Soberania, como fica óbvio quando sua história é investigada com profundidade. Quanto a Ériu, ficaram vivas na ilha somente cinco mulheres grávidas, cujos filhos foram os fundadores dos Cinco Reinos;
3) Manawydan uab Llyr (“Manawyddan, Filho de Llyr”, Terceiro Ramo): Manawyddan ap Llyr é mencionado no conto Culhwch e Olwen como um seguidor de Arthur, mas, originalmente, é um deus marinho que corresponde (ao menos linguisticamente) ao irlandês Mánannan mac Lir. No Mabinogion, é irmão de Bendigeid Fran (“Bran, o Abençoado”), ficando sem terras depois da morte deste e tornando-se marido de Rhiannon. Ajudou a quebrar os encantamentos lançados por Llwyd sobre Dyfed como vingança pelo tratamento violento dado a Gwawl por Pwyll, primeiro marido de Rhiannon. Manawyddan é um homem engenhoso e um mestre artesão, capaz de ganhar seu sustento enquanto a terra está enfeitiçada. Como instrutor e homem de poder, ele fica no lugar do pai de Pryderi e herda as qualidades de Pwyll;
4) Math uab Mathonwy (“Math, Filho de Mathonwy”, Quarto Ramo): o filho de Mathonwy é tio de Gwydion, Gilfaethwy e Arianrhod e irmão de Penardun. Ele era onisciente, possuindo, entre outras habilidades, o estranho dom de ouvir tudo que era dito em seus domínios tão logo as palavras fossem transportadas pelos ventos. Era muito sábio, um grande rei. Neste conto, ele somente pode viver enquanto seus pés estiverem no colo de uma virgem, Goewin, a não ser em tempo de guerra. Como Gwydion provoca uma guerra entre Math e Pryderi, Math deixa-a temporariamente, sendo Goewin violada por Gilfaethwy, que nutria por ela uma paixão secreta. Para aliviar a vergonha da jovem, Math casa-se com ela e pune seus sobrinhos, Gilfaethwy e Gwydion, transformando-os em vários animais. É com a ajuda de Gwydion que Math cria Blodeuwedd com flores como noiva para Llew Llaw Gyffes, seu sobrinho-neto.

Sete outros contos foram associados aos Quatro Ramos:

a) O Sonho de Macsen Wledig: um imperador romano, Magnus Maximus (383-388 d. C.), conhecido na tradição galesa como Macsen Wledig. Geoffrey de Monmouth, que o chama Maximianus, diz que ele fez de Conan Meriadoc o governante da Bretanha Menor, na atual França. Neste conto,  o imperador sonha com uma mulher desconhecida por quem fica apaixonado. Por fim, mensageiros finalmente informam que esta realmente existe em Cymru, de forma que Macsen deixa Roma para casar-se com ela. Seu nome é Elen. O Maximus histórico, subjacente à lenda, realmente serviu na Grã-Bretanha, mas levou muitas tropas da ilha em sua luta contra Gratianus, imperador do Ocidente, assim deixando a Grã-Bretanha sem proteção. Traços dos fatos permanecem nas lendas: os galeses retiveram seu nome, que aparece em várias genealogias de famílias nobres como uma conexão imperial. Os soldados romanos que partiam tomaram esposas estrangeiras, mas, conta a lenda, cortaram suas línguas para que não pudessem corromper o idioma britânico de seus filhos. Vemos assim como é antiga e poderosa a devoção dos Cymry (galeses) a sua linguagem;
b) Lludd e Llefelys: Lludd é filho de Beli e irmão de Llefelys. Foi o rei da Grã-Bretanha que reconstruiu a cidade de Londres, cujo nome vem do rei: Caer Lludd, Caer London. Três pragas caíram sobre a ilha: uma raça chamada Coranianos (genedyl y Coraneit, “a raça dos Coranianos”), que podia saber tudo que era dito; um grito que era ouvido a cada Véspera de Maio e que fazia murcharem as lavouras, matava os animais e crianças e deixava as mulheres estéreis e o desaparecimento dos mantimentos do rei. Lludd procurou conselhos junto a seu irmão, Llefelys, que lhe disse que os Coranianos seriam vencidos depois de beberem uma infusão de insetos esmagados em água; que o grito era provocado por dragões que seriam vencidos depois de se embebedarem com hidromel forte, sendo necessário enterrá-los exatamente no centro da Grã-Bretanha, e que o ladrão das provisões era um homem de poder capaz de lançar um feitiço de sono sobre a corte e, então, roubar toda a comida. Lludd venceu as três pragas e a paz da ilha foi restabelecida;
c) Culhwch e Olwen: Culhwch é o filho de Celyddon Wledig e sobrinho de Arthur. Sua mãe, Goleuddydd (“Dia Brilhante”), deu-o à luz depois de ficar apavorada com a visão de uma vara de porcos, de modo que ele foi chamado Culhwch, ou “Chiqueiro”. Seu pai casou-se outra vez depois da morte de Goleuddydd. A madrasta de Culhwch lançou um feitiço sobre ele para que não pudesse casar-se senão com Olwen (“A dos Rastros Brancos”), filha de Yspaddaden Pencawr (“Espinheiro, Chefe dos Gigantes”), o gigante. Na corte de Yspaddaden, Culhwch recebeu trinta e nove anoethu ou tarefas impossíveis, que deveriam ser cumpridas antes de casar-se com Olwen, todas as quais foram realizadas com a ajuda dos cavaleiros de Arthur. A principal tarefa era caçar o Twrch Trwyth, um javali gigante, para o que seria necessário o auxílio de vários cavalos específicos, cães de caça e homens, incluindo Mabon, um jovem miraculoso, cujo encontro é narrado nesse conto. Outras missões incluem a viagem de Arthur ao Outro Mundo para obter alguns dos Objetos Sagrados, ou Treze Tesouros da Grã-Bretanha – um feito que é também relatado num poema galês do séc. IX, o Preiddeu Annwn, “Espólios de Annwn”, atribuído ao bardo Taliesin. O poder de Yspaddaden é vencido e Culhwch casa-se com Olwen;
d) O Sonho de Rhonabwy: Rhonabwy adormece a sonha que Arthur e Owain estão jogando gwyddbwyll (um jogo de tabuleiro céltico) ante um campo de batalha. Durante o jogo, os cavaleiros de Arthur lutam com os corvos de Owain, mas os jogadores apenas continuam com seu passatempo, até que Arthur, impaciente por começar a perder, esmaga as peças. O jogo talvez simbolizasse uma batalha pela soberania.

Os contos “Culhwch e Olwen” e “O Sonho de Rhonabwy” despertaram o interesse dos estudiosos por preservarem tradições mais antigas do que o material arturiano. A narração de “O Sonho de Macsen Wledig” é uma história romântica sobre o imperador romano Magnus Maximus.

Três dos contos são versões galesas de romances arturianos que também aparecem no trabalho de Chrétien (ou Chréstien) de Troyes. Os críticos do séc. XIX acreditavam que os contos baseavam-se nos próprios poemas de Chrétien, mas as opiniões mais recentes inclinam-se a afirmar que as duas coleções são independentes, mas têm um ancestral comum:

e) A Dama da Fonte: Owain, inspirado pelo conto de Cynon (na tradição galesa, o filho de Clydno – um dos guerreiros de Arthur – e  amante de Morfudd, irmã gêmea de Owain), sai em busca do Castelo da Fonte, que era guardado pelo Cavaleiro Negro. Ele atravessou o mais belo vale e viu um brilhante castelo numa colina. Depois de entrar nesse lugar sobrenatural, Owain derrota o Cavaleiro Negro e casa com sua viúva. Após um começo difícil, ele vence  ressentimento desta e guarda o reino até que sua sede por aventuras o faz partir, deixando para trás a esposa. Dama da Fonte é também o título da condessa misteriosa no Yvain, de Chrétien de Troyes.
f) Peredur, Filho de Efrawg: na mitologia galesa, Peredur era o sétimo filho de Efrawg e o único do sexo masculino a sobreviver. Seu pai e irmãos morreram antes que ele atingisse a maioridade. Isso não impediu Peredur de tornar-se um dos cavaleiros de Arthur e suas muitas aventuras formaram a base para o Sir Percival posterior. Talvez por causa de sua posição como sétimo filho, Peredur era particularmente adepto de matar bruxas, que, em Cymru, compareciam ao campo de batalha trajando armaduras completas. No fim de seu conto no Mabinogion, Peredur enfrenta a “líder das bruxas” e, com sua espada, rompe elmo e armadura em duas partes, enquanto as demais feiticeiras fogem;
g) Gereint, Filho de Erbin: Gereint é o rei de Dumnonia (reino que, no, período pós-romano, abrangia Devon, a Cornualha e outras áreas do sudoeste da Inglaterra) cujas aventuras são contadas nesta narrativa. No romance francês, o herói deste conto é Erec, mas, como este não é comumente conhecido em Cymru, substituíram-no por Gereint. Este pode ser uma figura histórica, um primo de Arthur. Embora seja listado como contemporâneo desse rei, pode ter pertencido a uma geração anterior, pois o conto “O Sonho de Rhonabwy” diz que Cadwy, seu filho, era um contemporâneo de Arthur. O nome do pai de Gereint é citado como Erbin, mas, na Vida de São Cyby, Erbin é chamado seu filho. Em “Culhwch e Olwen”, encontramos os nomes de dois de seus irmãos, Ermid e Dywel.  Gereint, suspeitando que sua esposa é infiel, força-a a acompanhá-lo numa exaustiva jornada de aventuras para testar seu amor e obediência a cada passo do caminho. Como outras fortes heroínas célticas, ela suporta calmamente sua provação, permanecendo leal e amorosa durante todo o tempo. Gereint finalmente sentiu “duas tristezas”, do remorso por ter desconfiado de sua esposa  e por tratá-la tão mal.

Lady Guest também incluiu em sua tradução um oitavo conto (removido das traduções inglesas posteriores, que, no entanto, continuam a usar o termo Mabinogion), não encontrado nem no “Livro Branco de Rhyderch”, nem no “Livro Vermelho de Hergest”, mas em um manuscrito do séc. XVII. Esse texto é o Hanes Taliesin (“A História de Taliesin”). O nome Taliesin significa “Testa Brilhante”. Ele foi um bardo galês  e, de acordo com o mito, a primeira pessoa a adquirir a habilidade da profecia.

Em uma versão da história era ele o servo da feiticeira Cerridwen, uma deusa da fertilidade, mãe de Afagddu, o homem mais feio do mundo, e chamava-se Gwion Bach. Cerridwen preparava uma beberagem mágica que, depois de um ano fervendo, produziria três gotas que dariam a quem as bebesse toda a sabedoria do mundo. Essa pessoa conheceria todos os segredos do passado, do presente e do futuro. Ela queria dá-las a Afagddu como compensação por sua feiúra.

Enquanto Gwion Bach cuidava do fogo sob o caldeirão, uma parte do líquido quente caiu em seu dedo e ele a sorveu ao sentir a dor. Eram as três gotas da sabedoria.  Todo o líquido restante era veneno. A furiosa Cerridwen empregou todos os seus poderes mágicos para perseguir o menino. Durante a caçada, ele se transformou numa lebre, num peixe e num grão de trigo, que Cerridwen, metamorfoseada em galinha, engoliu, descobrindo-se então grávida. Mais tarde, Gwion, renascido de Cerridwen, foi jogado ao mar e apanhado numa armadilha para peixes, quando passou a chamar-se Taliesin por causa de sua testa brilhante.

Os “Quatro Ramos” são, essencialmente, histórias medievais e seus personagens comportam-se, falam e vivem de modo muito semelhante a sua audiência do séc. XIV. Suas maneiras são (em geral) corteses e refinadas, invocam frequentemente o deus cristão e suas roupas incluem brocados, sedas, toucados e outros itens medievais. Contudo, ainda que sejam produto de uma sociedade cristã da Idade Média, os Quatro Ramos baseiam-se também numa visão de mundo profundamente pagã, proveniente de tradições e crenças das culturas neolíticas e da Idade do Bronze, bem como da Idade do Ferro céltica e da era romano-britânica.

Bellouvesus /|\

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A Religião Céltica 3: Mitologia (Parte 1)

clip2_118cAs fontes antigas nos transmitem somente fragmentos da mitologia gaulesa, testemunhos e reminiscências muitas vezes mal interpretados pelos autores antigos. Os gregos falam de modo muito vago da passagem de Hércules por Alésia e de sua união com a filha de um certo rei Bretannos, Celtine, que lhe dá um filho, Celtos (ou Galátes), que deu nome a toda a raça céltica:

Relata-se que Hêraklês, depois de haver arrebatado o gado de Geryon de Erythea, vagueava pelo país dos celtas e chegou à morada de Bretannos, que tinha uma filha chamada Keltinê. Keltinê apaixonou-se por Hêraklês e escondeu o gado, recusando-se a devolvê-lo a não ser que ele antes a satisfizesse. É certo que Hêraklês estava muito ansioso para levar o gado em segurança para casa, porém estava muito mais impressionado pela beleza da jovem e concordou com seus desejos. E então, quando se completou o tempo, nasceu-lhes um filho chamado Keltos, de quem toda a raça céltica recebeu o nome.

Parthénios de Nicaea, gramático e poeta grego do séc. I a. E. C., Erotica Pathemata (“Das Aflições do Amor”), II, 30.

Titus Liuius, um pouco mais preciso, evoca o mito de Ambigatus, “imperador” e príncipe dos bitúriges (“reis do mundo”), que envia seus dois sobrinhos, Segouesus e Bellouesus, à conquista da Floresta Herciniana e do norte da Itália, onde será fundada a cidade de Mediolanum (Milão). Porém, sempre que Liuius cita um lenda céltica, transforma-a em história romana.

Recebemos o seguinte relato sobre a transferência dos gauleses para a Itália. Quando  Tarquinius Priscus era o rei de Roma [c. 616-578 a. E. C.], o supremo poder entre os celtas, que ocupavam uma terça parte de toda a Gália, estava em mãos dos bitúriges, que costumavam indicar o rei para toda a raça céltica [altamente improvável].  Ambigatus era o rei nessa época, um homem célebre por sua coragem  pessoal e por sua prosperidade, assim como por seus domínios. Durante seu governo, tão abundantes eram as colheitas e a população cresceu tão rapidamente na Gália que a administração de um tão vasto número de pessoas pareceu impossível. Com essa opinião, ele demonstrou  sua intenção de enviar os filhos de sua irmã, Bellouesus e Segouesus, ambos jovens empreendedores, para estabelecerem-se em qualquer localidade que os deus lhes indicasssem por meio de augúrios. Eles deveriam convidar todos que desejassem acompanhá-los, em número suficiente para impedir que qualquer outra nação repelisse  sua aproximação. Quando foram tomados os auspícios, a floresta Hercínia [região montanhosa e densamente arborizada da Germânia]  foi atribuída a Segouesus; a Bellouesus os deuses concederam o muito mais aprazível caminho para a Itália. Ele convidou o excesso populacional das tribos – os bitúriges, os arvernos, os senones, os éduos, os ambarros, os carnutos e os aulercos. Começando com enorme número de homens montados e a pé, ele chegou à reião dos tricastinos. Estendia-se além a barreira dos Alpes e não fico de modo algum surpreso de que estes lhes parecessem intransponíveis, pois, até onde pode a memória chegar, não haviam jamais sido transpostos por qualquer trilha, a menos que se escolha acreditar nas fábulas sobre Hércules. Enquanto os cumes das montanhas mantinham os gauleses presos onde se encontravam e estes tudo esquadrinhavam em busca de uma passagem para cruzar os picos que alcançavam o firmamento e desse modo entrarem em um novo mundo, foram igualmente impedidos de avançar por  um sentimento de obrigação religiosa, pois lhes chegaram notícias de que alguns estranhos em busca de território estavam sendo atacados pelos sálios. Esses eram os massiliotas, que haviam navegado da Fócida. Os gauleses, vendo isso como um presságio de seu próprio destino, foram em seu socorro, permitindo-lhes fortificar o ponto onde haviam desembarcado sem nenhuma interferência dos sálios. Depois de cruzarem os Alpes atravessando os desfiladeiros dos taurinos e o vale do Dora, derotaram os etruscos não longe do Ticino e, ao descobrirem que a região onde se haviam estabelecido pertencia aos insubres, nome também trazido por um cantão dos éduos, aceitaram o presságio do lugar a construíram uma cidade que chamaram Mediolanum.

Titu Liuius , historiador romano (c. 59 a. E. C. – 17 E. C.), Ab Vrbe Condita (“Desde a Fundação da Cidade”), V, 34.

A única mitologia céltica coerente é aquela que, abundantemente documentada, encontra-se nos textos mitológicos e épicos irlandeses, bem como, acessoriamente, nos romances galeses da Idade Média, dos quais os principais acham-se no Mabinogi.

Bellouesus /|\

Cerridwen

clip2-116O nome da bem conhecida deusa galesa (também chamada Ceridwen e Caridwen, Kyrridven em galês medieval) que surge na Ystoria Taliesin tem várias possíveis etimologias:

 caru – amar

 cerdd – poema

caer – fortaleza

cerri – caldeirão

A terminação feminina -wen significa, literalmente, “branco”, porém, em nomes de divindades, o sentido é “sagrado”. Desse modo, e considerando a associação de Cerridwen com a inspiração (awen), uma possível tradução de seu nome é “Poema (ou Canto) Sagrado”.

Uma outra importante palavra vem de cerdd: é cerddor “cantor (ou músico)” que é cerddorion no plural.

Bellouesus /|\

Sobre o renascimento 4

Como os celtas não acreditavam em pecado ou na necessidade de ajustar contas morais, eles não tinham porque admitir que as pessoas voltassem a este mundo como regra geral e para o resgate de débitos passados. Se admito a reencarnação eu tenho, portanto, de imaginar para ela outra classe de justificativa. Esse é, para mim, o único senão.

Se pensarmos bem, a partir do momento em que não se admite a reencarnação, pode-se entender que o espírito é criado ao mesmo tempo que o corpo. Se o espírito é criado ao mesmo tempo que o corpo, não existem experiências prévias, não há sabedoria anteriormente adquirida, ninguém é mais sábio (mais velho, mais experiente) do que ninguém. Isso vale tanto para o homem como para os animais. Se os animais têm algum conhecimento especial, esse somente poderia ser o da espécie como um todo. Porém, como isso não se mostra no ser humano, não pode ser o caso. A não ser que o ente humano fosse uma espécie separada dentro (ou mesmo fora) da Natureza, o que é muito mais difícil de admitir.

Existiria a possibilidade da transmissão genética do conhecimento. Mas nós vemos muitas pessoas inteligentes e laboriosas que têm descendentes totalmente imprestáveis. Isso não se dá entre os animais. O ser humano então seria, mais uma vez, exceção.

Quaisquer que sejam as questões que nos coloquemos ante o problema da reencarnação, esta permanece uma possibilidade aceita no ensinamento antigo. Como é a mais contrária à Igreja Romana e somente permaneceu em duas menções na mitologia irlandesa (e referências obscuras em Gales) e era lembrada por algumas pessoas como ensino tradicional na época em que Evans-Wentz escrevia seu excelente The Faerie Faith in Celtic Countries, talvez essa tenha sido uma crença muito difundida num passado distante. Portanto, aceitá-la não me provoca dores de consciência. Ou seja, é um desenvolvimento que a tradição permite, que está dentro do que ela oferece.

Não penso que tenhamos de acreditar em tudo que os antigos acreditavam ou procurar fazer as coisas exatamente como eles faziam. Tenho algumas cabeças de cerâmica no meu altar, mas elas são apenas simbólicas. Nunca imaginaria dizer: “Ah, que saudade daqueles tempos em que ornávamos com crânios verdadeiros os portais dos santuários, aquilo sim era devoção!” Muitas das crenças dos celtas eram mera superstição, barulhenta e insossa, e os druidas antigos seguramente sabiam disso, mas respeitavam as inclinações do povo entre o qual viviam e ao qual deveriam servir. Deviam lucrar com isso. Jamais tento fazer dos druidas figuras míticas. Já ressaltei mais de uma vez, acho, que eles trabalhavam para viver e gostavam de ser bem pagos.

Admitindo que a reencarnação não seja obrigatória, ela se torna uma questão que envolve o principal dom que o Universo deu ao ser humano: o livre-arbítrio. Uma vez que tenhamos eliminado a reencarnação compulsória (como necessidade de purificação), a única razão para que uma alma retorne a este mundo é o exercício do seu livre-arbítrio, por motivos que apenas ela bem conhece. A Viagem de Bran Mac Febal e a Viagem de Máel Dúin mostram isso. Nos dois casos, grupos de homens escolhidos atravessam o oceano para chegar a um lugar de perfeição, o qual acabam abandonando unicamente por sua própria vontade. Eles não são expulsos, não são coagidos a partir de forma alguma. Eles o fazem porque assim desejam, porque não estão ainda prontos para habitar no estado de absoluta tranquilidade que encontraram. Quando a sua inquietação chega ao máximo, eles entram no barco e vêm dar às praias deste mundo. Eles não precisariam fazer isso. Mas fazem assim mesmo. Porque sentem uma necessidade íntima.

Essa é a diferença entre a reencarnação céltica e, digamos, a espírita: na primeira não há uma ênfase na necessidade de fazer reparações. O importante é a vontade de voltar para realizar outras coisas, provar a própria força, passar por novas experiências, aprender mais. A alma é impulsionada à frente pelo desejo. Sem este, haveria apenas uma eternidade apática e vazia no Outro Mundo. Seria algo como a noção que vulgarmente se tem do Céu cristão: você é um pessoa boa, morre, sua alma vai para o Céu e você passa o resto da eternidade vestindo uma camisola e tocando harpa com os anjos. Que noção assustadora esse descanso eterno!

Além disso, considere a alternância que se apresenta em todos os aspectos da compreensão céltica do tempo: meio ano de escuridão (de Samhain a Beltane), meio ano de luz (o inverso), cada mês com uma metade escura e outra luminosa, cada quinzena formada por uma sucessão de dias propícios e nefastos, cada noite com seu dia… Como seria possível conceber que a mente céltica – operando com ciclos de manifestação e de retorno ao não-manifesto – criasse a idéia de uma ida sem volta? E as ovelhas do conto de Peredur ab Efrawg (Peredur, filho de York), um dos romances galeses arturianos associados aos Mabinogi? Ali está escrito:

E ele foi em direção a um vale, pelo meio do qual corria um rio. E as extremidades do vale eram cobertas de árvores e, em cada lado do rio, havia campinas planas. E, num lado do rio, ele viu um rebanho de carneiros brancos e, no outro lado, um rebanho de carneiros negros. E, sempre que um dos carneiros brancos balia, um dos carneiros negros atravessava o rio e tornava-se branco; e, quando um dos carneiro negros balia, um dos carneiros brancos atravessava o rio e tornava-se negro. E ele viu uma alta árvore ao lado do rio, uma metade da qual estava em chamas da raiz à copa e a outra metade era verdejante e cheia de folhas. E, perto desse lugar, ele viu um jovem sentado numa colina e dois galgos de peitos brancos e malhados, em coleiras, lado a lado. E ele estava certo de jamais ter visto um jovem de aspecto tão nobre como esse. E, na floresta do outro lado, Peredur escutou galgos perseguindo uma manada de cervos. E Peredur saudou o jovem e o jovem cumprimentou-o em retribuição. E havia três estradas que partiam da colina; duas delas eram estradas largas e a terceira era mais estreita. E Peredur perguntou ao jovem aonde as estradas levavam. ‘Uma delas vai ao meu palácio’, disse o jovem, ‘e aconselho-te que faças uma de duas coisas: ou prosseguires até meu palácio, que está à tua frente e onde encontrarás minha esposa, ou permaneceres aqui para veres os galgos perseguindo os cervos espantados da floresta à planície. E verás os melhores cães de caça que jamais contemplaste (e os mais corajosos numa caçada) abaterem-nos perto da água ao nosso lado; e, quando chegar a hora da refeição, virá meu pajem com meu cavalo encontrar-me e descansarás em meu palácio nesta noite.’

‘Que o Céu te recompense, mas não posso demorar-me, pois devo seguir adiante.’

‘A outra estrada conduz à cidade que fica perto daqui e onde comida e bebida podem ser compradas. E a estrada que é mais estreita que as outras vai em direção à caverna do Addanc.’

Abrindo parênteses: o Addanc é um monstro lacustre da mitologia de Gales. Sua descrição varia: às vezes é um crocodilo, um castor ou uma criatura semelhante a um gnomo. O lago em que ele mora também varia: alguns dizem que seria Llyn Llion, ou Llyn Barfog, perto da Ponte Brynberian, ou Llyr yr Afanc (que recebeu o nome do monstro), perto de Betws-y-Coed (significa casa de oração na floresta, uma cidadezinha no vale do Conwy, no noroeste de Gales).

A grafia do nome também varia em galês moderno, dependendo da fonte. O galês medieval usava avanc, o moderno usa afanc, que agora significa apenas castor. A forma avanc/afanc é usada no Livro Vermelho de Hergest. No conto de Peredur (galês médio), do Livro Branco de Rhydderch, a criatura da caverna, como se viu, é chamada Addanc. A grafia mais comum, de longe, é afanc. Parênteses fechados.

Aí está o intercâmbio das almas entre os mundos. É possível ser mais claro? Não, porque a Igreja Romana teria proibido o livro. Mesmo assim…

Na Irlanda, o mesmo tema foi tratado de forma semelhante, como se vê em Immram Curaig Maele Duin (“A Viagem de Barco de Máel Dúin”):

Cedo, na manhã do terceiro dia depois disso, avistam uma outra ilha, com uma paliçada de bronze no meio que dividia a ilha em duas partes e ali percebem ao longe grandes rebanhos de carneiros, um negro no lado de cá do cercado e um rebanho branco no lado mais distante. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava um carneiro branco por cima da cerca deste lado para os carneiros negros, ele se tornava subitamente preto. Assim, quando ele lançava um carneiro negro sobre a cerca do lado mais distante, ele se tornava subitamente branco. ‘Isto que seria bom nós fazermos:’, disse Máel Dúin, ‘lancemos dois bastões na ilha. Se eles mudarem de cor, também decidiremos se desceremos à terra ou não.’ Assim, atiraram um bastão de casca preta no lado onde estavam os carneiros brancos e ele se tornou imediatamente branco. Então, lançaram um bastão descascado no lado onde estavam os carneiros negros e ele se tornou imediatamente preto.

‘Não afortunada foi essa experiência’, disse Máel Dúin. ‘Não desçamos à ilha. Sem dúvida, nossas cores não se sairiam melhor do que os bastões.’

Nos contos dos Mabinogi (Primeiro e Segundo Ramos), encontra-se um personagem chamado Pendaran Dyfed. No fim do mabinog de Pwyll, ele é um dos que estão à mesa do príncipe no momento em que Teyrnion Twrif Fliant devolve Pryderi a seus pais. Pwyll nomeia Pendaran pai adotivo de Pryderi. No Segundo Ramo, Pryderi é um dos que acompanham Bran, o Abençoado, à Irlanda, na expedição contra o rei Matholwch por causa dos maus-tratos infligidos a Branwen. Ao partirem, Bran nomeia sete ministros para que tomem conta da Ilha da Britânia enquanto ele estiver fora. Ora, o narrador afirma que Pendaran Dyfed permaneceu com esses sete como um jovem pajem. Depois, quando os guerreiros (apenas sete sobreviventes) voltam da batalha na Irlanda e descobrem que a Britânia tinha sido tomada por um usurpador e que não sobrevivera nenhum dos ministros do rei Bran, o narrador novamente diz que Pendaran Dyfed, que tinha permanecido como um jovem pajem entre eles, conseguiu escapar da matança realizada por Caraddawc entre os seguidores de Bran fugindo para a floresta. Não há menções posteriores a ele.

No Primeiro Ramo, Pendaran é importante o bastante para ocupar um lugar à mesa de Pwyll, íntimo e experiente o suficiente para que o príncipe lhe confiasse a educação do próprio filho. No Segundo Ramo, Pryderi já está crescido o bastante para ir à guerra, mas Pendaran é um jovem pajem (um menino ou adolescente) na corte do Grande Rei. Como se explica a contradição, o que ela quer mostrar? Como se explica que, no Primeiro Ramo, Pendaran fosse um homem maduro ou idoso, mas um menino no Segundo Ramo? Você já imagina a resposta. É possível ser mais claro? Não, porque a Igreja Romana teria proibido o livro. Mesmo assim… Jesus disse que era preciso ser uma criancinha para ganhar o Reino do Céu.

Jesus também disse que o Reino do Céu está dentro de nós. Essa é igualmente a posição da tradição céltica: se houver inquietude dentro de você, se a harmonia não estiver ali solidamente estabelecida, você não conseguirá permanecer para sempre no lugar da harmonia. E isso não é nenhum tipo de punição – os Deuses não julgam, por isso não perdoam, nem punem -, mas uma lei natural.

Nem todas as almas que fazem a viagem alcançam a Terra da Juventude, Tír na n-Óg. Algumas ficam presas nas ilhas intermediárias e somente aquelas que voltam da Terra da Juventude para este mundo conseguem tirá-las de lá. Uma das funções da instrução espiritual (para não empregar o termo iniciação) é fornecer um mapa do caminho e ensinar a evitar os perigos da jornada. Por esse motivo é ela mais fácil para aqueles que já possuem esse conhecimento. Os demais podem passar por grandes dificuldades lutando contra os demônios de suas próprias mentes, jamais avançando além de um ponto em que serão libertados pelos que estiverem fazendo o caminho do retorno. Essas são as pessoas que não têm a oportunidade de usar o livre-arbítrio, aquelas para as quais a reencarnação é compulsória (no sentido de que não tiveram a oportunidade de fazer uma escolha, enquanto os que voltam da Terra da Juventude fazem-no voluntariamente).

Penso que considerar a escolha como fator determinante na questão do renascimento concilie as opiniões conflitantes, a saber, se o renascimento é neste mundo ou no Outro Mundo. Apenas no Outro Mundo, se a alma se achar pronta para isso. Neste também, se a alma, não suportando indefinidamente o contato com a perfeição (e a Verdade) ou por outro motivo, achar necessário que seja assim.

Bellouesus /|\

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Gwynn ap Nudd e Arawn

Na tradição céltica britânica, há dois nomes que vamos encontrar relacionados à soberania do Outro Mundo dos Mortos e do Povo das Fadas: Gwynn ap Nudd e Arawn.

Existe um conto do Mabinogion, a obra-prima da literatura galesa medieval, chamado Culhwch e Olwen, ou o Twrch Trwyth. Nesse conto, Gwynn ap Nudd é mencionado na seguinte passagem:

Um pouco antes disso, Creiddylad, a filha de Llud Llaw Ereint, e Gwythyr, o filho de Greidawl, estavam prometidos. Antes que ela se tornasse sua noiva, Gwynn ap Nudd veio e raptou-a pela força; e Gwythyr, o filho de Greidawl, reuniu seus homens e foi lutar com Gwyn ap Nudd. Mas Gwynn superou-o e capturou Greid, o filho de Eri, e Glinneu, o filho de Taran, e Gwrgwst Ledlwn e Dynarth, seu filho. E ele capturou Penn, o filho de Nethawg, e Nwython e Cyledyr Wyllt, seu filho. E ele matou Nwython e arrancou seu coração e obrigou Cyledyr a comer o coração de seu pai. E a partir daí Cyledyr tornou-se louco. Quando Arthur ouviu falar a esse respeito, ele foi para o norte e convocou Gwynn ap Nudd a comparecer perante ele e libertar os nobres que havia aprisionado e a fazer a paz entre Gwyn ap Nudd e Gwythir, o filho de Greidawl. E esta foi a paz feita: a donzela permaneceria na casa de seu pai sem vantagem para qualquer deles e Gwynn ap Nudd e Gwythyr, o filho de Greidawl, lutariam a cada primeiro de maio, daquela data até o Dia do Julgamento, e qualquer deles que fosse então o vencedor obteria a donzela.

Vamos examinar alguns desses personagens. Mirella Faur (Anuário da Grande Mãe, Ed. Gaia, 1999) apresenta Creiddylad (Cordélia) como uma deusa da terra e da natureza. Já vi (mas não me lembro onde) o seu nome citado como deusa do amor.

Lludd Llaw Ereint é mais interessante. Llaw Ereint significa Mão de Prata. Assim, ele é o correspondente do irlandês Nuada Argetlamh, pois Argetlamh também quer dizer “Mão de Prata”. A lenda conta que Lludd era o filho de Beli (que passa por ser o deus da morte) e foi um dos antigos reis da Grã-Bretanha, como seu pai. Aliás, foi ele quem construiu Londres, cujo antigo nome galês é Caer Lludd, ou seja, o Castelo de Lludd, como se narra em Lludd e Llefelys, dos Mabinogi. London ou Lwndrys (de onde vem o português Londres) foi o nome que os saxões mais tarde deram a essa cidade. Ainda existe em Londres um lugar chamado Ludgate, o portal de Llud, onde a tradição diz que foram colocadas as cinzas desse soberano. Entretanto, o Lludd britânico e o Nuada gaélico são ambos transformações de uma divindade mais antiga, Nodens, um deus da cura, cujos cães mágicos também se acreditava fossem capazes de curar os doentes. As ruínas de um grande templo dedicado a ele, datando do período da ocupação romana, foram encontradas nas proximidades do rio Severn (Arthur Cotterell, The Encyclopedia of Mithology, Lorenz Books, New York, 1999). Veja que interessante: Nodens – Nuada (Irlanda) – Lludd (Grã-Bretanha). O outro nome de Lludd é Nudd (Nodens). Desse modo, ele próprio é o pai de Gwynn, a não ser, é claro, que exista um outro Nudd. Mas penso que não.

Glineu ap Taran, Glineu, filho (ou descendente) de Taran. Essa é uma das raras passagens da literatura céltica britânica em que uma divindade dos celtas continentais é lembrada. Geralmente, deuses continentais surgem de forma muito modificada na literatura insular (na Irlanda, Connall Cernach, por exemplo, experimentalmente identificado com Cernunnos), desempenhando funções muito secundárias ou então apenas seus nomes são mencionados, como é o caso aqui. Taran é Taranis, o Trovejante, deus gaulês do céu, das tempestades e raios, que os romanos equipararam ao seu Júpiter. Seus símbolos são a roda e o tridente, ou lança de três pontas.

Por fim, o próprio Gwynn ap Nudd. Gwynn foi o deus galês da caça, ou seja, o guardião da vida selvagem, aquele que permite aos humanos alimentarem-se do seu rebanho e providencia para que a vida sempre se renove. Ele é o deus caçador e o deus a quem oravam os caçadores ao penetrarem na floresta, domínio de Gwynn, para buscarem a carne que iria sustentá-los e às suas famílias, as peles com que se cobririam nos meses frios de inverno. Porém, se um dia é do caçador, o outro é da caça… Lembra-se do mito de Adônis, que foi morto por um javali? O mesmo terá acontecido a muitos caçadores célticos. Nesse caso, o deus exigiu um sacrifício pelos dons que foram concedidos em outras ocasiões. Gwynn é um deus selvagem e poderoso, daí a crueza do seu comportamento, tal como registrado no conto dos Mabinogi. Também por isso foi ele escolhido, ao firmar-se o cristianismo, como aquele que é capaz de controlar os demônios e mantê-los dentro de certos limites. Sua capacidade de tomar as vidas dos caçadores como tributo é lembrada em seu papel de líder da Wild Hunt, a Caçada Selvagem, em que, diz-se, Gwynn ap Nudd lidera as forças do mal e do caos numa busca frenética de viajantes solitários cujas almas serão capturadas e levadas ao inferno. Mas fique isto claro: Gwynn não é o deus que governa o mundo dos mortos, ele é uma divindade guardiã, um protetor dos limites. Não é incomum, em grupos mágicos que trabalham numa orientação céltica, que Gwyn ap Nudd seja invocado para guardar o exterior do círculo mágico.

Quem é, então, o deus que efetivamente governa o Além? Na tradição irlandesa, a Terra da Juventude (Tir na n-Óg) é governada pelo Senhor das Brumas, Manannán mac Lir. Na tradição galesa, por Arawn, o Rei de Annwfyn. Como estamos tratando de temas galeses, é neste que me deterei.

Arawn (Língua Prateada?) é mencionado também nos Mabinogi, no assim chamado Primeiro Ramo, a história de Pwyll, Pendeuig Dyfed, Pwyll, Príncipe de Dyfed. Certa vez, Pwyll saiu para caçar. Ele se distanciou de seus companheiros e viu um veado numa clareira, sendo encurralado por cães puramente brancos de orelhas vermelhas (Cwn Annwn, Cães de Annwn).”

Ele espantou esses cães e atiçou os seus próprios sobre o veado. Surgiu então Arawn, um cavaleiro montando um cavalo cinzento e vestindo roupas de caçar cinzentas, com um chifre de soprar ao redor do pescoço. Arawn censurou Pwyll pela sua falta de cortesia, depois se apresentando como um soberano de Annwfyn [an-nú-vin), isto é, o Outro Mundo. Pwyll lhe pede que indique um modo de desculpar-se pelo seu procedimento grosseiro e Arawn diz que o perdoará se ele enfrentar Hafgan (Verão Branco), um outro soberano do Além que todos os anos o desafia. Mas adverte Pwyll de que Hafgan tem de ser derrotado com um único golpe, pois, se for golpeado uma segunda vez, recuperará todo o seu vigor. Pwyll acompanha Arawn até o seu reino sobrenatural e lá eles trocam de forma: Arawn retorna a Dyfed (a região sul de Gales) com a aparência de Pwyll, enquanto este reinará sobre Annwfyn por um ano com a aparência de Arawn, compartilhando inclusive do leito da esposa dele (embora o autor da versão atual do conto, a fim de poupar a decência cristã, esclareça que nunca houve nada entre eles). É assim que Annwfyn é descrito nesse conto:

Assim, Arawn conduziu-o até avistarem o palácio e suas habitações. “Vede”, disse Arawn, “a Corte e o reino em vosso poder. Entrai na Corte, ninguém lá vos reconhecerá e, quando virdes os serviços lá feitos, sabereis quais são seus costumes.”

Pwyll então se adiantou para a Corte e, quando entrou, contemplou dormitórios e salões e câmaras e os mais belos edifícios jamais vistos. Ele entrou no salão para desmontar, vindo jovens e pajens auxiliá-lo, os quais os saudaram ao adentrarem as dependências do palácio. Vieram dois cavaleiros e tiraram-lhes as roupas de caça, vestindo-o com uma túnica de seda e ouro. O salão estava preparado e Pwyll viu a mansão e o anfitrião que nela entrava. Este era o mais gracioso dos anfitriões e o mais bem equipado que Pwyll havia conhecido. Com eles entrou igualmente a rainha e ele nunca vira mulher tão formosa. Ela trajava uma túnica de brilhante cetim amarelo. Eles se lavaram, foram para a mesa e sentaram-se, a rainha a um lado de Pwyll e do outro um que parecia ser um conde.

Ele começou a conversar com a rainha e pensou, em razão de suas palavras, que ela era a senhora mais decente e de mais nobre conversação, bem como a mais alegre que já houvera. Partilharam a carne e a bebida, cantando e festejando. De todas as Cortes na terra, era esta a melhor provida de comida e bebida e recipientes de ouro e joias reais.

Quando chegou a hora de dormir, Pwyll e sua rainha foram para o leito. Ele virou seu rosto para a beira da cama e deu-lhe as costas, não lhe dizendo palavra alguma antes que amanhecesse. No dia seguinte, o carinho e a afeição voltavam à conversação deles, embora durante o ano que se seguiu noite alguma fosse diferente da primeira.

Essa é uma das descrições que os celtas britânicos faziam do Outro Mundo, nada diferente dos Sídhe da tradição irlandesa, as colinas ocas (hollow hills) onde as Tuatha Dé Danann, derrotados pelos mortais gaélicos, refugiaram-se para levar uma existência encantada e de onde saíam em cavalgada na noite de Beltane para juntar-se aos humanos e, talvez, levar consigo uns poucos escolhidos que desfrutariam da mesma vida mágica, sem doenças ou velhice, dos Filhos de Danu.

Arawn é também mencionado em duas importantes obras do bardo Taliesin (séc. VI d. C.). O poema Cadd Goddeu, A Batalha das Árvores, e Preiddeu Annwn, Os Espólios de Annwn. O primeiro narra o combate movido por Arawn contra Amaethon ap Don, que lhe havia roubado um pássaro, um cão e um cervo. Nesse combate, o mago Gwydion ap Don usou seus poderes para transformar árvores em guerreiros, daí o nome do poema. Em Os Espólios de Annwn, Taliesin conta a viagem de Arthur e companheiros ao Outro Mundo (aí chamado Caer Sidi) para conseguirem o caldeirão mágico possuído por Arawn.

Já sabemos, então, quem é Gwynn ap Nudd, quem é Arawn e qual a descrição de Annwn ou Annwfyn. Resta apenas dizer que, de acordo com alguns estudiosos, Gwynn e Arawn são o mesmo. De acordo com outros, Gwyn seria o deus do Além em uma parte de Gales, enquanto na outra seria Arawn. E, de acordo com uma terceira corrente, “Arawn” seria apenas um título que poderia ser aplicado a mais de um personagem mítico. Se alguém me perguntasse o que penso, eu diria: dado o aspecto predominantemente local da maioria dos cultos e divindades célticos, o mais provável é que as três posições estejam corretas (ou nenhuma delas!!!), dependendo do celta a quem você perguntasse.