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Os Druidas no Mundo Antigo: Aurora e Ocaso

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Palestra apresentada no Dia do Orgulho Pagão de São Paulo (22/10/2016)

Conteúdo

1 Quando os druidas entraram na história?
2 Qual a etimologia da palavra “druida”?
3 O que os druidas faziam?
4 Quando os druidas saíram da história?

1 Quando os druidas entraram na história?

Séc. VI a. C.: Hecateu de Mileto (ca. 546 a.C. – ca. 480 a.C.) usou pela primeira vez a
palavra Keltoi para designar os nativos do atual sul da França, especificamente da região ao redor de Massalia (hoje Marseille).

Séc. V a. C.: usando Hecateu, Heródoto de Halicarnasso (485? – 420 a.C.) demonstrou
pouco saber sobre os Keltoi, localizando-os além das Colunas de Hércules (o Estreito de
Gibraltar) e supondo que o Danúbio tivesse origem no seu território.

Fim do séc. III a. C.: desde essa época, os gregos seguramente estavam cientes da
existência dos druidas, do seu nome e da sua atividade filosófica.

Pseudo-Aristotéles (Aristotéles, 384 – 322 A. C.), Magikos (“Sobre a Magia”) e Sotíon
(séc. II a. C.), Diadokhe ton philosophon (“Sucessão dos Filósofos”) apud Diógenes Laércio
(séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton (“Vida e Opiniões dos
Filósofos Eminentes”).

I, 1: Há alguns que dizem ter o estudo da filosofia iniciado entre os bárbaros. Salientam que os Persas têm seus Magos, os Babilônios ou Assírios seus Caldeus e os Indianos seus Gimnosofistas; e entre os Celtas e os Gauleses há as pessoas chamadas Druidas ou Semnotheoi, citando para essa afirmação a autoridade do “Sobre a Magia” de Aristóteles e de Sotíon no vigésimo terceiro livro da sua “Sucessão dos Filósofos”.Também dizem que Mochus era um Fenício, Zamolxis, um Trácio e Atlas, um Líbio.

I, 6: Entretanto, aqueles que defendem a teoria da origem da filosofia entre os bárbaros prosseguem explicando as diferentes formas que esta assumiu em diferentes países. Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura.

A Diadokhe de Sótion foi uma das primeiras histórias da filosofia. O Magikos e a Diadokhe
são obras hoje desaparecidas que foram parcialmente copiadas por Diógenes Laércio.

Séc. I a. C.: surgem as primeiras informações substanciais sobre os druidas (Caio Júlio
César, Commentarii de Bello Gallico, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, Livro VI).

Para Clemente de Alexandria (c. 150 – 215 d. C.), os Druidas dos Gálatas, os Profetas dos
Egípcios, os Caldeus dos Assírios, os filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas teriam sido
os pioneiros da filosofia.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 70, 1: Alexandre, no seu livro “Sobre os Símbolos Pitagóricos”, relata que Pitágoras foi discípulo de Nazaratus, o Assírio […] e conta ainda que, além desses, Pitágoras foi ouvinte também dos Gálatas e dos Brâmanes.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 71, 3: Assim, a filosofia, ciência da mais alta utilidade, floresceu na antiguidade entre os bárbaros, derramando a sua luz sobre as nações. E mais tarde chegou à Grécia. Os primeiros em suas fileiras foram os Profetas dos Egípcios e os Caldeus entre os Assírios e os Druidas entre os Gauleses e os Samanaioi entre os Báctrios e os Filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas.

Hipólito de Roma (170 – 235 d. C.), Philosophúmena (“Ensinamentos Filosóficos”; título
alternativo: Katà pasôn hairéseon élenkhos/Refutatio Omnium Haeresium, i. e.,“Refutação de Todas as Heresias”), I, 22.

E os druidas célticos exploraram com a máxima minúcia a filosofia pitagórica depois que Zamolxis, trácio de nascimento, um servo de Pitágoras, tornou-se para eles o fomentador dessa doutrina. Eis que, após a morte de Pitágoras, Zamolxis, para lá se dirigindo, tornou-se-lhes o desenvolvedor dessa filosofia. Os celtas consideram-nos profetas e videntes em razão de lhes predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica, a respeito de cujos métodos não ficaremos em silêncio, uma vez que alguns neles encontraram inspiração para heresias; os druidas, no entanto, recorrem também a ritos mágicos.

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Qual a razão da diferença entre essas listas?

Desde o séc. V a. C., circulava uma obra chamada Pythagorica Hypomnemata (“Símbolos Pitagóricos”), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação entre os druidas e a escola pitagórica. Essa obra foi usada por Alexandre de Mileto (dito Polyhístor, “o Erudito”), mencionado no primeiro trecho de Clemente citado acima. Clemente segue uma tradição iniciada no séc. V a. C., oriunda dos próprios pitagóricos, enquanto Diógenes filia-se à tradição aristotélica, representada pelo Pseudo-Aristóteles e Sótion.

Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378 – 444), autor pouco lembrado, na obra “Contra Juliano, o Ateu” repete a lista de Clemente, fazendo a mesma distinção cuidadosa entre Druidas Gauleses e Filósofos Celtas, apenas acrescentando que o número destes era non pauci
(“não poucos”).

Samanaioi (forma plural, seria samanaios no singular) é uma adaptação grega do prácrito (designação geral da grande família de línguas e dialetos falados na Índia antiga que possuíam parentesco com o sânscrito) samaya-, derivado do sânscrito sramanas, “monge budista”, que se tornou sha men em chinês, depois saman em tungus (grupo de línguas do leste da Sibéria) e finalmente sha’man em russo, isto é, “xamã”. O mesmo vocábulo aparece nos Semnotheoi de Diógenes, o plural de *semnotheos, provável deturpação de *samano-theos, “deus xamã, xamã divino”, embora nada realmente autorize supor que a palavra teria na Antiguidade o sentido que hoje se atribui à palavra xamã. O mais provável é que significasse apenas “asceta”.

De todo o exposto, três conclusões podem ser tiradas:

1) Os Druidas emergem para a história em escritos filosóficos onde são tidos como precursores dos pensadores gregos.

2) “Druidas” é a designação que esse grupo dava a si mesmo, não uma denominação tardia ou um apelido dado por observadores contemporâneos.

É, portanto, um termo gaulês nativo cujo significado etimológico precisa ser determinado para a melhor compreensão da natureza e função dos druidas.

3) Estavam presentes entre os gauleses pelo menos quatro séculos antes da invasão romana (ocorrida em meados do séc. I a. C.), talvez antes.

2 Qual a etimologia da palavra “druida”?

A etimologia da palavra “druida” é, não surpreendentemente, um ponto bastante controverso. Concorda-se que seria composta por duas partes: dru- + -uid-.

Os linguistas reconhecem no segundo elemento a raiz proto-indo-europeia *u̯ei̯d-, “ver,
saber”.

Quanto ao primeiro, há três linhas de pensamento sobre a sua interpretação:

1ª. Caio Plínio Segundo, dito “Plínio, o Antigo” (séc. I d. C.), apoiado, entre outros, por
Jubainville, Hubert (séc. XIX) e  Delamarre (séc. XXI): de acordo com Plínio (“História
Natural”, L. XVI, 95), “os druidas não realizam ritos sem as folhas do carvalho, considerando-o importante a ponto de se poder supor que o seu nome venha da palavra grega para carvalho, δρυς”. Para essa linha, os druidas seriam os “sábios dos carvalho” ou “possuidores do conhecimento do carvalho”.

2ª. Thurneysen (séc. XIX), Jullian (séc. XX), Le Roux & Guyonvarc’h (séc. XX): dru- seria
um elemento intensificador, como -dubno- e -māro-, porém usado unicamente como
prefixo. Para essa linha, os druidas seriam “os muito sábios”, “possuidores do conhecimento firme/forte”;

3ª. Benveniste (séc. XX): o nome proto-indo-europeu de[o]ru̯- > dreu̯-, que designava
árvores em geral, deu origem à palavra para carvalho em muitas línguas dessa família,
abrangendo também as noções de força, resistência e fidelidade com o tempo associadas ao
carvalho. O gaulês teria herdado deru̯o- como o nome da árvore carvalho e dru- (presente no adjetivo drutos, -ā, -on, “forte vigoroso”) para as qualidades a ela metaforicamente ligadas. Para essa linha, que de certo modo concilia as duas anteriores, os druidas seriam “os detentores do conhecimento vigoroso que brota do mundo subterrâneo”.

3 O que os druidas faziam?

Caio Júlio César, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, VI, 14: Os druidas obtiveram a
isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão
isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos
espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pompônio Mela, “Descrição do Mundo”, III, 2, 14: Ela [refere-se à costa exterior da Gallia] é habitada por povos orgulhosos, supersticiosos e outrora tão bárbaros que viam os sacrifícios humanos como o gênero de holocausto mais eficaz e o mais agradável aos deuses. Esse costume abominável não mais existe, porém dele ainda restam traços, pois, conquanto agora se abstenham de imolar os homens que escolhem, conduzem-nos ao altar e tiram-lhes um pouco de sangue. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas. Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Estrabão, “Geografia”, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção,
encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os
Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se
ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da
natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais
justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodoro Sículo, “Biblioteca Histórica”, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de
adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o
futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos
lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo”, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [isto é, os “filósofos” e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participavam de guerras (“obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio era livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais
impendem”);
c) eram contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhiam espontaneamente ser druidas ou eram levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) eram professores;
f) atravessavam um longo período de treinamento;
g) eram letrados, embora optassem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinavam geografia (“o tamanho do universo e da terra”), astronomia (“o movimento
das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), mitologia e teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professavam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) eram árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião, por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” teria voltado ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica,
especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não
conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no território dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”.

Desse trecho de César saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

4 Quando os druidas saíram da história?

O Declínio dos Druidas

O declínio dos druidas foi basicamente uma transferência de status, poder e influência ocorrida nos anos que se seguiram à conquista romana, embora com origem remota em fatores internos ao movimento druídico.

Os interesses da elite intelectual gaulesa cedo entraram em conflito com os da nova Roma Imperial, cujo líder ou princeps, Augusto, tinha uma desconfiança extrema do potencial subversivo de astrólogos, adivinhos e profetas. No ano 12 a. C., Augusto ordenou a incineração de 2.000 livros sobre profecias em Roma. Especulações sobre o futuro, especialmente envolvendo a vida do imperador, representavam má sorte por si mesmas. Também proibiu que cidadãos romanos seguissem o ensinamento dos druidas.

Nesse contexto, juntamente com o encorajamento de Roma para que as novas elites adotassem o novo culto imperial, não é difícil entrever a dissolução da elite religiosa nativa, encabeçada pelos druidas.

Várias razões podem ser apontadas para a morte da velha ordem:

1 O fim do monopólio do conhecimento característico do ministério druídico, do qual o famoso “Calendário de Coligny” (do fim do séc. II d. C., segundo P.-Y. Lambert) pode representar um dos últimos legados.

2 A nova divisão administrativa do território gaulês em municipa exigia uma nova ordem religiosa como novas normas legais.

3 A antiga aristocracia foi dizimada nos anos da conquista e a nova, formada por apoiadores dos romanos, mostrava uma sensibilidade mais inclinada à conduta e civilização do Mediterrâneo.

4 Embora seja desconfortável admiti-lo, a própria conquista romana mostrou aos gauleses o caminho de um novo progresso material, incluindo o fim das lutas intertribais que os druidas nunca conseguiram ou mesmo nunca desejaram evitar.

4 O sacerdócio do culto imperial adotou o evergetismo clássico e ofereceu à elite um novo monopólio da autoridade dentro da(s) sociedade(s) galo-romana(s).

6 A nova ordem encontrou uma razão de ser face à progressiva internalização do modelo religioso romano que era parte da conquista e da nova compreensão da realidade por esta trazida.

Em termos simples, os interesses dos druidas eram incompatíveis com os de Roma. É provável que qualquer sinal de rebelião organizada, se porventura existiu, tenha sido marginalizado pelos historiadores romanos ao ponto de parecer insignificante.

Apenas dois sinais de oposição druídica a Roma foram registrados, ambos por Tácito: o primeiro, a resistência infrutífera à invasão de Mona no ano 60, sob o comando do general Suetônio Paulino; o segundo, nove anos mais tarde, quando um incêndio atingiu o templo de Júpiter Capitolino em Roma, o que os druidas teriam interpretado como sinal de iminente passagem do poder das mãos dos romanos para as das nações transalpinas.

Depois disso, os druidas somente voltam a aparecer nos escritos greco-romanos como figuras do passado remoto da Gália já romanizada.

O gradativo desaparecimento dos druidas, acompanhado de confusão quanto a suas antigas funções, pode ser adivinhado pela degeneração visível na própria palavra no correr dos séculos, conforme se verá a seguir.

Formas antigas da palavra “druida”

Séc. I a. C.

Cícero, Da Divinação, 1, 41, 90: druidae.

César, Comentários, 6, 13, 1: druidum; 6, 14, 1: druides; 6, 18, 1: druidibus; 6, 21, 1: druides.

Diodoro Sículo, Biblioteca, 5, 31, 4 : σαρονιδας (var. σαρωνιδας), corrigido δρουιδας (séc. I a. C.- séc. I d. C.). Comentário: certos manuscritos não trazem a forma δρουιδας, que é uma conjetura já antiga e mesmo desnecessária, pois δρουιδας teria sido entendido pelo contexto.

Séc. I a. C.- séc. I d. C.

Estrabão, Geografia, 4, 4, 4: δρυιδαι; 4, 4, 5: δρυιδον.

Séc. I d. C.

Pompônio Mela, Descrição, 3, 2, 18: druidas.

Lucano, Farsália, 1, 450-458: druidae (var. driadae, dryadae).

Comentário: driadae, driades. As variantes dos manuscritos, assim como as dos escólios (dos quais os mais antigos devem remontar ao séc. IV) mostram que a palavra sofreu corrupção rapidamente.

Plínio, História Natural, 16, 249: druidae; 24, 103: druidae; 29, 52: druidae; 29, 54: druidis, 30, 12g: druidas.

Tácito, Anais, 14, 30: druidaeque.

Tácito, Histórias, 4, 54: druidae.

Fim do séc. I d. C. – começo do séc. II d. C.

Suetônio, Cláudio, 25: druidarum (var. druidorum, driadarum, dryadarum, dryidarum).

Dio Crisóstomo, Discursos, 49: δρυιδας.

Fim do séc. II d. C.

Herodiano, o Erudito: δρυιδης.

Fim do séc. II – começo do séc. III d. C.

Pseudo-Aristóteles, fragmento apud Diógenes Laércio, Vidas, Prólogo, 1: δρυιδας.

Clemente de Alexandria, Stromata, 1, 15: δρυιδαι.

Orígenes, Contra Celso, 1, 16: δρυιδας (var. δρυaδας).

Hipólito de Roma, Ensinamentos, 2: δρυιδας; δρυιδαι (var. δρυιδον).

Séc. IV d. C.

Aurélio Vítor, Os Césares, 4, 2: druidarum (var. drysadarum, drysudarum, drysidarum).

Ausônio, Comemoração dos Professores, 5: druidarum; 11: druidum.

Fim do séc. IV d. C.

Timagenes apud Amiano Marcelino, História, 15, 9, 4: drasidae (var. drysidae); 15, 9, 8: drasidas, dryasidae (Timagenes: séc. I a. C.).

Fim do séc. IV d. C. – começo do séc. V. d. C.

História Augusta, Alexandre Severo, 60, 6: dryas.

História Augusta, Numeriano, 14, 2: dryade; 14, 3: dryas; 15, 1: dryade; 15, 5: dryadis.

História Augusta, Aureliano, 44, 4: dryadas; 44, 5: dryadibus.

Séc. V d. C.

Cirilo de Alexandria, Contra Juliano, 4: δρυιδαι.

Séc. VI d. C.

Estevão de Bizâncio: δρυιδαι.

Comentário: Como se pode ver, as formas gregas vão das mais lógicas (“druida”, palavra gaulesa declinada como substantivo grego) às mais aberrantes (saronidas, drasidae, etc.). A atração fonética de dryades é forte e justificada, pois lembra o grego δρυς (drys), “carvalho”. A moral dessa história é bastante simples: os autores gregos e romanos não são fontes confiáveis para a reconstituição do nome original.

Inscrição de Metz, Corpus InscriptionumLatinarum – CIL XIII, 555* (anterior ao séc. III d. C.)

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Siluano sacrum et Nymphis loci
Arete Druis Antistita somnia monita dedit

Isto é: Somnia monita, Arete Druis Antistita Siluano et Nymphis loci dedit sacrum (instruída por um sonho, Arete, Druida e Sacerdotisa Principal, a Silvano e às Ninfas do lugar dedicou o monumento.

Essa inscrição, descoberta no séc. XVI e hoje perdida, é por muitos considerada falsa. Apesar disso, ela traz um enigma: como é possível que a palavra druida (druis, que se deve entender como *druu̯iđ) esteja grafada na forma considerada correta pela pesquisa moderna para o singular e que se encontra ausente de todos os textos antigos?

Bellouesus /|\

 

 

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Sobre Celtas e Druidas

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Sópatro (fim do séc. IV a. C.) (via Ateneu, 4.160):

Entre eles há o costume de, sempre que vitoriosos em batalha, sacrificar seus prisioneiros aos deuses. Assim, eu,
como os celtas, prometi aos divinos poderes queimar esses três falsos dialéticos como oferenda.

Timeu (começo do séc. III a. C.) (via Diodoro Sículo, 4.56):

Os historiadores apontam que os celtas que vivem às margens do Oceano honram os Dióscuros acima dos outros
deuses. Pois há uma antiga tradição entre eles de que esses deuses vieram do Oceano até eles.

Eudoxo de Rodes (fim do séc. III a. C.) (via Heliano, “Sobre os Animais”, 17.19):

Eudoxo diz que os celtas fazem o seguinte (e, se alguém pensar que seu relato é crível, deixai-o acreditar; se não,
deixai-o ignorá-lo). Quando nuvens de gafanhotos invadem seu país e danificam as colheitas, os celtas evocam
certas orações e oferecem sacrifícios com feitiços a pássaros – e os pássaros ouvem essas orações, chegam em bandos
e destroem os gafanhotos. Se, entretanto, um deles capturar um desses pássaros, sua punição, de acordo com ass leis
do país, é a morte. Se ele for perdoado e libertado, isso enfurece os pássaros e, para vingar a ave capturada, eles não
respondem se forem chamados outra vez.

Artemidoro de Éfeso (fim do séc. II a. C.) (via Estrabão, 4.4.6):

O seguinte relato, que Artemidoro contou sobre os corvos, é inacreditável. Há um certo porto na costa que, de
acordo com ele, chama-se “Dois Corvos”. Nesse porto, são vistos dois corvos, com suas asas direitas um pouco
brancas. Homens que estão em disputa sobre certas questões vão até lá, colocam uma prancha num lugar elevado e
então cada homem, separadamente, atira bolos de cevada. As aves voam e comem alguns dos bolos, mas espalham
outros. O homem cujos bolos foram espalhados vence a disputa. Embora essa história seja implausível, sua narração
sobre as deusas Deméter e Corê é mais crível. Ele diz que há uma ilha perto da Britânia onde sacrifícios são
realizados como aqueles na Samotrácia, para Deméter e Corê.

Tito Lívio (séc. I a. C.) (23.24):

(216 a. C.) Postúmio morreu lutando com todas as suas forças para não ser capturado vivo. Os gauleses
despojaram-no de todos os seus espólios e os boios levaram sua cabeça decepada em procissão ao mais sagrado de
seus templos. Lá ela foi limpa e o crânio nu foi adornado com ouro, de acordo com o costume deles. Foi usado
desde então como um vaso sagrado em ocasiões especiais e como uma taça ritual por seus sacerdotes e oficiais do
templo.

Nicandro de Cólofon (séc. II a. C.) (via Tertuliano, “Sobre a Alma”, 57.10):

Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones recebem
oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem.
Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma
Nicandro.

Posidônio (séc. I a. C.) (via Diodoro Sículo, 5.28):

O ensinamento de Pitágoras prevalece entre os gauleses, de que as almas dos humanos são imortais e de que, após
um certo número de anos, eles viverão outra vez, com a alma passando a um outro corpo. Por causa dessa crença,
algumas pessoas nos funerais irão lançar cartas na pira fúnebre, de forma que os que morreram possam lê-las.

(via Diodoro Sículo, 5.31):

Os gauleses têm certos homens sábios e especialistas sobre os deuses chamados Druidas, bem como uma classe de
videntes altamente respeitados. Por meio de augúrios e sacrifícios de animais esses videntes predizem o futuro e
ninguém ousa escarnecer deles. Eles têm um método de adivinhação especialmente estranho e inacreditável para as
questões mais importantes. Tendo consagrado uma vítima humana, eles a golpeiam com uma faquinha na região
acima do diafragma. Quando o homem desfalece por causa do ferimento, eles interpretam o futuro pela observação
da natureza de sua queda, da convulsão de seus membros e, especialmente, do padrão do seu esguicho de sangue.
Nesse tipo de adivinhação, os videntes depositam grande confiança numa antiga tradição de observação.

É costume entre os gauleses jamais realizar um sacrifício sem que alguém perito nos caminhos divinos esteja
presente. Dizem que os que sabem a respeito da natureza dos deuses devem oferecer-lhes agradecimentos e fazer-
lhes pedidos, como se essas pessoas falassem a mesma língua dos deuses. Os gauleses, amigos e inimigos do mesmo
modo, obedecem a lei dos sacerdotes e bardos não somente em tempo de paz, mas também durante as guerras.
Frequentemente ocorre que, ao se aproximarem dois exércitos com espadas desembainhadas e lanças prontas, os
druidas andem entre os dois lados e parem a luta, como se tivessem lançado um encantamento sobre bestas
selvagens. Assim, mesmo entre os bárbaros mais selvagens, a fúria cede à sabedoria e o deus da guerra respeita as
Musas.

(via Diodoro Sículo, 5.32):

É de acordo com sua brutalidade e natureza selvagem que eles realizam práticas religiosas particularmente
ofensivas. Eles manterão alguns criminosos sob guarda por cinco anos, empalando-os então numa estaca em honra
de seus deuses, seguindo-se a incineração deles numa enorme pira, juntamente com muitas outras primícias.
Também usam prisioneiros de guerra como sacrifícios aos deuses. Alguns dos gauleses sacrificarão até mesmo os
animais capturados na guerra, seja matando-os, queimando-os ou abatendo-os com algum outro tipo de tortura.

(via Estrabão, 4.4.4-5):

Falando de modo geral, há entre os gauleses três grupos que são singularmente honrados: os Bardos, os Vates e os
Druidas. Os Bardos são cantores e poetas, enquanto os Vates supervisionam o ritos e examinam os fenômenos
naturais. Os Druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade também. Os
gauleses consideram os Druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das
disputas públicas e privadas. No passado, eles até mesmo paravam batalhas que estavam a ponto de começar e
punham fim às guerras. Casos de homicídio especialmente são entregues aos Druidas para julgamento. Eles
acreditam que, quando houver muitos criminosos condenados disponíveis para o sacrifício, então a terra irá
prosperar. Os Druidas e outros dizem que a alma humana e o universo são ambos indestrutíveis, mas, no fim,
apenas o fogo e a água prevalecerão.

(via Estrabão, 4.4.6):

Posidônio também diz que há uma pequena ilha no Oceano Atlântico, na foz do rio Loire, habitada por mulheres
da tribo dos Samnitae. Elas são possuídas por Dioniso e apaziguam esse deus por meio de cerimônias misteriosas e
outros tipos de rituais sagrados. Jamais homem algum vai a essa ilha, mas as mulheres velejam para o continente
para ter sexo com os homens, voltando então. A cada ano, as mulheres demolem o teto de um templo e
constroem-no outra vez antes do anoitecer, cada mulher levando uma carga para acrescentar ao telhado. Quem
quer que derrube sua carga é despedaçada pelas outras. Elas então carregam seus pedaços ao redor do templo
proferindo gritos de bacanal até que seu frenesi louco desapareça. E sempre acontece que aquela que está destinada
a sofrer esse destino seja derrubada por alguém.

Júlio César (séc. I a. C) (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, 6.13-14, 16-19):

Através de toda a Gália, há duas classes de pessoas que são tratadas com dignidade e honra. Isso não inclui as
pessoas comuns, que são pouco melhores do que escravos e nunca têm voz nos conselhos. Muitos desses alinham-se
voluntariamente com um patrono, seja por causa de um débito ou um pesado tributo ou por medo de um castigo de
alguma outra pessoa poderosa. Uma vez que tenham feito isso, terão abandonado todos os direitos e são pouco
mehores do que servos. As duas poderosas classe mencionadas acima são os Druidas e os guerreiros. Os Druidas
ocupam-se de questões religiosas, sacrifícios públicos e privados e divinação.

Uma grande quantidade de rapazes vem aos Druidas para instrução, tendo-os em grande respeito. Sem dúvida, os
Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer
homicídio foiperpetrado, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições. Se qualquer um ignorar sua decisão, essa pessoa é banida de
todos os sacrifícios – uma punição extremamente severa entre os gauleses. Aqueles que são assim condenados são
considerados criminosos detestáveis. Todos se afastam deles e não lhes falarão, temendo algum dano por causa do
contato com eles e não recebem justiça nem honra por qualquer feito digno.

Entre todos os Druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre
o Druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma
eleição por todos os Druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do
ano, todos os Druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos Carnutes, cuja terra é considerada o
centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos
Druidas. Diz-se que o movimento druídico começou na Britânia e foi então levado para a Gália. Ainda hoje,
aqueoles que desejam estudar seus ensinamentos com mais aplicação usualmente viajam para a Britânia.

Os Druidas são isentos do serviço militar e do pagamento de contribuições de guerra, ao contrário dos outros
gauleses. Tentados por tais vantagens, muitos jovens de boa vontade dedicam-se aos estudos druídicos, enquanto
outros são enviados por seus pais. Diz-se que, nas escolas dos Druidas, eles aprendem um grande número de versos,
tantos, na verdade, que alguns estudantes levam vinte anos em treinamento. Não é permitido escrever nenhum
desses ensinamentos sagrados, apesar de outras transações públicas e privadas serem muitas vezes registradas com
letras gregas. Acredito que eles praticam essa tradição oral por duas razões: primeira, para que o povo comum não
tenha acesso aos seus segredos e segundo, para fortalecer a faculdade da memória. Na verdade, a escrita muitas
vezes enfraquece a aplicação da pessoa em aprender e reduz a habilidade de memorizar. O ensinamento principal
dos Druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse
ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas. Eles
têm também um grande número de outros ensinamentos que passam aos jovens a respeito de coisas como o
movimento das estrelas, o tamanho dos universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses
imortais.

Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença
terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os
Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida
pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para
os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então põem-lhes fogo, perecendo
todos nas chamas. Eles acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses,
mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que ele é o inventor de todas as
artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele,
adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros
povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da
guerra. Antes de uma grande batalha, eles frequentemente dedicarão os espólios a Marte. Se obtiverem sucesso,
sacrificarão todas as coisas vivas que tiverem capturado e os outros espólios que eles reúnem num só lugar. Entre
muitas tribos, você pode ver esses espólios reunidos num local consagrado. E é uma ocasião muito rara que alguém
ouse perturbar esses bens valiosos e ocultá-los em sua casa. Se isso acontecer, o perpetrador é torturado e punido
das piores formas imagináveis.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis, e confirmam que esse é o
ensinamento dos Druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários
e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

Os funerais dos gauleses são magníficos e extravagantes. Tudo que era querido pelo falecido é lançado na fogueira,
inclundo-se os animais. Num passado recente, eles iriam queimar também escravos fiéis e subordinados amados no
ponto culminante do funeral.

Cícero (séc. I a. C.) (“Sobre a Divinação”, 1.90):

A prática da divinação não é negligenciada mesmo pelos bárbaros. Eu sei que há Druidas na Gália porque eu
mesmo conheci um deles – Divicíaco da tribo dos Aedui, que era vosso convidado e altamente vos louvava. Ele
reclamava um conhecimento da natureza derivado do que os gregos chamam “physiologia” – a inquirição acerca das
causas e fenômenos naturais. Ele predizia o futuro usando o augúrio e outras formas de interpretação.

Plínio (séc. I d. C.) (“História Natural”, 16.249, 24.103-4, 29.52, 30.13):

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas (que é o nome de seus homens
santos) não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se ela crescesse
somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que
um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” (a palavra
grega para “carvalho”). E, sem dúvida, eles pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um
sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em
carvalhos. Não obstante, eles o procuram com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo
lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a
lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua,
chamam o visco de um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos,
conduzindo dois touros brancos cujos chifres são amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco
então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então
sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda próprio dom àqueles a quem ele o
deu. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio
contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Semelhante à erva sabina é a planta chamada “selago”. Deve ser colhida sem instrumento de ferro, passando-se a
mão direita através da abertura da manga esquerda, como se a estivesses roubando. O colhedor, tendo primeiro
oferecido pão e vinho, deve vestir-se de branco e estar com os pés descalços e limpos. É levada num pedaço de
tecido novo. Os Druidas da Gália dizem que deve ser usada como proteção contra todo perigo e que a fumaça da
queima do “selago” é boa para as doenças dos olhos. Os Druidas também recolhem dos charcos uma planta
chamada “samolus”, que deve ser colhida com a mãe esquerda durante um período de jejum. É boa para as doenças
das vacas, mas aquele que a colhe não deve olhar para trás, nem colocá-la em lugar algum senão no cocho em os
animais bebem água.

Há um tipo de ovo que é muito famoso na Gália, mas ignorado pelos escritores gregos. Nos meses de verão, um
grande número de cobras se juntará numa bola que é mantida junta por sua saliva e uma secreção de seus corpos.
Os Druidas dizem que elas produzem esses objeto oval, chamado “anguinum”, que as cobras sibilantes lançam para
o ar. Ele deve ser apanhado, assim dizem eles, num manto antes de alcançar o chão. Mas seria melhor que você
tivesse um cavalo preparado, porque as cobras irão caçar você até que sejam impedidas por algum curso de água.
Um “anguinum” genuíno flutuará contra a correnteza, mesmo se coberto de ouro. Porém, como é usual para os
homens santos do mundo, os Druidas dizem que ele somente pode ser apanhado durante uma fase da lua
específica, como se as pessoas pudessem fazer a lua e as serpentes trabalharem juntas. Eu próprio vi um desses ovos
– era uma pequena coisa arredondada, como uma maçã, com uma superfície cheia de indentações semelhantes às
dos braços de um polvo. Os Druidas valorizam-no grandemente. Dizem que é um grande auxílio nas ações judiciais
e ajudará a ganhar a boa vontade de um governante. Que isso é uma total falsidade mostra-se por um homem da
tribo gaulesa dos Vocontii, um cavaleiro romano, que manteve um escondido em seu manto durante um julgamento
ante o imperador Cláudio e foi executado, até onde posso saber, unicamente por esse motivo.

Ritos bárbaros eram encontrados na Gália até uma época de que eu mesmo posso lembrar. Pois foi então que o
imperador Tibério passou um decreto por meio do Senado colocando fora da lei os seus Druidas e essas espécies de
adivinhos e médicos. Mas por quê menciono isso a respeito de uma prática que cruzou o mar e alcançou os confins
da terra? Pois mesmo hje a Britânia realiza ritos com tal cerimônia que você poderia achar que foram eles a fonte
dos extravagantes persas. É maravilhoso como povos distantes são tão semelhantes em tais práticas. Mas podemos,
ao menos, ficar satisfeitos de que os romanos tenham eliminado o culto assassino dos Druidas, que ensinavam
serem o sacrifício humano e o canibalismo ritual o mais elevado tipo de devoção religiosa.

Suetônio (“Cláudio”, 25):

Cláudio destruiu a horrível e inumana religião dos Druidas gauleses, que havia sido apenas proibida aos cidadãos
romanos sob Augusto. (41-54 d. C.)

Lucano (séc. I d. C.) (“Guerra Civil”, 1.444-46, 450-58):

Cruel Teutates, deleitado pelo sangue temível, horrível Esus com seus altares bárbaros,
e Taranis, mais cruel que a Diana Cítica.
ó Druidas, agora que a guerra acabou
retornais a vossos ritos bárbaros e modos sinistros.
Somente vós conheceis os caminhos dos deuses e poderes celestes, ou talvez o ignoreis totalmente.
Vós, que habitais nos bosques escuros e remotos,
dizeis que os mortos não procuram o reino silencioso de Érebo ou o pálido domínio de Plutão,
mas o mesmo espírito vive outra vez em um outro mundo
e a morte, se vossas canções são verdadeiras, não é senão o meio de uma longa vida.

Sílio Itálico (séc. I a. C.) (“Púnica”, 3.340-43):

Os celtas conhecidos como “hiberi” também vieram.
Para eles é glorioso cair em combate,
mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo.
Eles acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo,
jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto.

História Augusta” (séc. IV d. C.)

(Alexandre Severo 59.5): A Druidesa exclamou para ele quando ele chegava, “Vai em frente, mas não esperes a
vitória ou deposites confiança em teus soldados.” (235 d. C.)

(Numeriano 14): Enquanto Diocleciano era ainda um jovem soldado, ele estava hospedado numa taverna na terra
dos tongri, na Gália. Todo dia ele tinha de acertar as contas com sua senhoria, uma Druidesa. Um dia ela disse:
“Dicleciano, tu és ganancioso e sovina!” Zombeteiramente, ele lhe respondeu: “Então eu serei mais generoso
quando for imperador.” “Não rias”, ela disse, “pois será imperador depois de matares o javali.”

(Aureliano 43.4): Em certas ocasiões, Aureliano consultava as druidesas gaulesas para descobrir se os seus
descendentes continuariam a governar ou não. Elas disseram-lhe que nome algum seria mais famoso que os da
linha de Cláudio. E, sem dúvida, o atual imperador, Constâncio, é um descendente dele. (270 d. C.)

Ausônio (fim do séc. IV d. C.) (4.7-10, 10.22-30):

Descendes dos Druidas de Bayeux, se verdadeiras são as histórias a teu respeito,
e traças tua sacra ancestralidade e renome do templo de Belenus.
Tampouco esquecerei o ancião
com o nome de Febício.
Embora ele fosse sacerdote do deus Belenus, não recebeu qualquer vantagem da posição. Mas, apesar disso, esse,
que descende, diz-se, dos Druidas da Bretanha, recebeu uma cátedra em Bordeaux com a ajuda de seu filho.

Inscrição de Botorrita (fim do séc. II, começo do séc. I a. C.):

A Eniorosis e Tiato de Tiginos dedicamos trecaias e a Lugus dedicamos arainom.
A Eniorosis e a Equaesos, ogris erige coberturas de olga e a Lugus erige coberturas de tiasos.

Inscrição de Chamalières (c. 50 d. C.):

Invoco o deus Maponos arueriitis. Por meio da magia dos deuses do Mundo Inferior.
C. Lucios Floros, Nigrinos, o orador, Aemilios Paterinos, Claudios Legitumos, Caelios Pelignos, Claudios Pelignos,
Marcios Victorinos e Asiaticos, filho de Adsedillos…
O juramento jurarão – o pequeno se tornará grande, o curvado se tornará reto, e, embora cego, eu verei. Com esta
tábua de encantamento isso será…
luge dessummiiis luge dessumiis luge dessumiiis luxe.

Inscrição de Larzac (c. 90 a. C.):

Olhai:
– um encantamento mágico de mulheres
– o ritual deles, nomes do Mundo Inferior
– a profecia da vidente que tece este encantamento
A deusa Adsagsona devolve Severa e Tertionicna enfeitiçadas e amarradas.

Patrício (séc. V a. C.), “Confissão”:

É notável que os irlandeses tornaram-se, sem dúvida, um povo do Senhor e filhos de Deus. Essas pessoas que, até
agora, não tinham conhecimento de Deus, mas adoravam ídolos e seguiam práticas religiosas repulsivas.

Irlanda alto-medieval

– séc. VI d. C.: Juramentos serão proferidos em presença dos druidas (“druid”, em irlandês antigo)
– séc. VII d. C.: Somente o druida tem os mesmos direitos de um “boaire” (um nobre, proprietário de grandes
rebanhos)
– séc. VIII d. C.: Protege-me dos encantamentos de mulheres, ferreiros e druidas…

Bellouesus /|\ (compilação)

Um trecho de Lucanus

lucanus

[…] tu quoque laetatus conuerti proelia, Treuir,
et nunc tonse Ligur, quondam per colla decore
crinibus effusis toti praelate Comatae,
et quibus inmitis placatur sanguine diro
Teutates horrensque feris altaribus Esus
et Taranis Scythicae non mitior ara Dianae.
et uos barbaricos ritus moremque sinistrum
sacrorum, Dryadae, positis repetistis ab armis.
solis nosse deos et caeli numina uobis
aut solis nescire datum; nemora alta remotis
incolitis lucis; uobis auctoribus umbrae
non tacitas Erebi sedes Ditisque profundi
pallida regna petunt: regit idem spiritus artus
orbe alio; longae, canitis si cognita, uitae
mors media est.

[…] também tu, ó Treves,
regozijas-te de que te haja a guerra deixado oportunidades.
Tribos lígures, agora tosqueadas, em dias idos
entre nações de longos cabelos a primeira, em cujos pescoços
abundavam outrora madeixas ruivas com orgulho supremo
e aqueles que com sangue maldito pacificam
o selvagem Teutates, de Esus os santuários hórridos,
e os altares de Taranis, cruéis como aqueles
amados pela Diana dos Citas.
E vós, ó Druidas, depostas as armas,
a ritos bárbaros e a costumes retornais sinistros.
A vós somente os deuses e numes celestes
é dado conhecerdes ou não os conhecerdes; bosques retirados
vossas moradas e florestas longínquas;
se veraz quanto cantais, dos homens as sombras
não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis
os reinos pálidos buscam: dirige-os o sopro da vida
a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais conheceis,
a morte é o meio.

M. Annaeus Lucanus (Pharsalia, I, 441-458)

Tradução: Bellouesus /|\