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Druida e drui

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Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, III, 15: Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, VI, 14: Os druidas obtiveram a isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os  druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pomponius Mela, De Chorographia, III, 14-15: Restam ainda traços de costumes atrozes não mais praticados e, conquanto agora se abstenham de matança aberta, ainda derramam o sangue de vítimas levadas ao altar. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas.

Strabon, Geographica, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participam de guerras (” obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio é livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais impendem”);
c) são contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhem espontaneamente ser druidas ou são levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) são professores;
f) atravessam um longo período de treinamento;
g) são letrados, embora optem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinam geografia (“o tamanho e a forma do mundo”), astronomia (“o movimento das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” voltou ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica, especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”. Desse trecho de Caesar saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

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Quanto custam os serviços de um druida?

moghruithSe me perguntassem qual o preço do trabalho de um druida… Bem, posso mostrar a tabela de honorários da OAB, mas a tabela de honorários dos druidas, se algum dia existiu, está fora de alcance há muito tempo. No entanto, caro leitor, considerando o que está abaixo você poderá ter uma ideia do quanto precisaria desembolsar pela cooperação de um druida qualificado:

Trecho de O Cerco a Druim Damhghaire (Forbuis Droma Damhghaire, na tradução inglesa chamado The Siege of Knocklong), do Livro de Lios Mór (nome antigo: Leabhar Mhic Cárthaigh Riabhaigh; Irlanda, compilado por volta de 1480).

A ação ocorre no reinado de Cormac Mac Airt (Grande Rei da Irlanda no séc. III d. C.). Cormac deseja cobrar do povo de Mumhan um pesado e injusto imposto. Fiachu Muillethan, o rei provincial, chama o poderoso druida Mogh Ruith em seu auxílio. O emissário pergunta ao druida qual seria o preço do serviço:

“Não que eu não tenha o direito de exercer a realeza [diz o druida]. Porém, não é isso que lhes pedirei se os ajudar. Não penso que estejam sendo atingidos por uma praga de que eu não os possa livrar, pois meu mestre, Síomón mac Guill mac Iargaill, bem como Peadar, prometeram-me que eu nunca falharia em minha arte enquanto vivesse”.

“Dize-me”, falou Dil [o emissário], “qual pagamento e que presente desejas, se te encarregares de levar-lhes socorro?”

“É simples”, diz Mogh Ruith, “cem vacas do rebanho, cuja pelagem seja branca e brilhante e que estejam dando leite; cem porcos bem cevados; cem fortes bois de carga; cem cavalos de corrida; cinquenta belos mantos, brancos e macios; além disso, a filha do mais importante chefe do leste, ou a do que estiver logo abaixo dele, para dar-me filhos, pois eu próprio sou bem nascido pelo lado dos meus pais e quero que meus filhos sejam igualmente bem nascidos pelo lado de sua mãe, embora seja com relação a minha família que se julgará a nobreza dos jovens príncipes de nobre raça; [que tenham] o primeiro lugar no comando da cavalaria do rei de Mumhan, de forma que meu sucessor tenha perpetuamente a posição de rei provincial e que jamais infrinjam essa condição, porém cumpram tudo que me foi prometido; que o rei de Mumhan escolha seu conselheiro e confidente dentre minha descendência. Se seguidos forem seus conselhos, assegurar-lhe-ão a vitória; se ele repetir a quem quer que seja os segredos que lhe confiou o rei sem o consentimento deste, que seja destituído e condenado à morte; que meus descendentes recebam acesso à assembleia, que os três homens que se sentam diante do rei sejam escolhidos entre eles, bem como aquele que fica a sua direita. Que me sejam dadas terras em Mumhan à minha escolha, abarcando toda a superfície que meu servos puderem percorrer em um dia, sem que os reis de Mumhan possam ter representantes, tomar reféns ou exercer a soberania sobre essa terra e sem que possam pedir ao meu sucessor outra garantia além de seu chicote colocado a seu [do rei] serviço ou de o rei de Mumhan fechar a mão em volta de seu tornozelo. Penso que minha estirpe não tenha jamais demonstrado fraqueza ou covardia, porém recomendo-lhe que faça aliança com o rei de Mumhan e por ele combata, a fim de comprometê-lo e de tornar reconhecida sua fidelidade, de modo  a fazer jus ao pagamento que me foi prometido. Se concordarem com tudo isso, que Mogh Corb mac Cormaic Meic Aililla Oluim, bem como Donn Dairine e os outros nobres de  Mumhan venham ao meu encontro em nome da província de Mumhan e que garantam o cumprimento dessas cláusulas. Em pessoa partirei com eles e, pela força de minha palavra, libertá-los-ei desse mal.”

Observações:

1a. Obviamente, Mogh Ruith não é para quem tem somente uma carroça e um pote de barro.

2a. Mogh Ruith diz que teria direito de exercer ele próprio a realeza, mas não pede essa posição como recompensa. Ele pede bens, uma mulher de linhagem real, terras independentes da autoridade do rei provincial e uma posição privilegiada para seus descendentes.

3a. A menção a cláusulas não é gratuita. Esse é um contrato oral, que tem como garantia testemunhas (“Mogh Corb mac Cormaic Meic Aililla Oluim, bem como Donn Dairine e os outros nobres de  Mumhan”) que teriam o compromisso de impor o cumprimento do pacto se este não fosse voluntariamente adimplido pelo contratante. O nome para esse tipo de garantia é macc e é próprio de contratos de longa duração, que estabelecem relações semi-permanentes ou de alto risco.

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A Origem da Jurisdição dos Druidas

imagesapresentado no III EBDRC
(Novo Hamburgo – RS, 15 a 17/11/2012)

1 Origem das instituições político-judiciárias

1.1 Homero (sec. VIII/VII a. C.):

a) Ciclopes;
b) ausência de leis ou de assembleias deliberativas (Odisseia, Canto IX, v. 105-112).
c) adotada por Platão (424/423 – 348/347 a. C.; Leis, III, 112-113).

1.2 Titus Lucretius Carus (ca. 99-55 a. C.):

a) barbárie ainda maior.
b) a família somente teve origem com a arte de construir habitações: o casamento surgiu depois da marcenaria; o acaso aproximou as cabanas e a linguagem e as primeiras noções de direito provêm das relações entre seus habitantes (De Natura Rerum, I).

1.3 Aristóteles (384 – 322 a. C.):

a) a ideia de “homem” é inseparável da noção de sociedade política;
b) a noção de cidade é um dos elementos indispensáveis para constituir a noção completa da natureza humana;
c) a cidade ou estado existe naturalmente. A natureza quer que o homem viva na sociedade política, cujo vínculo é a palavra;
d) a sociedade política ou cidade precedeu a casa ou a família e o indivíduo. O todo necessariamente precede a parte; a mão e o pé não podem sobreviver ao homem (Política, I, 1, §§ 9-12).

2 Objeto deste estudo

As culturas célticas (especialmente as da Idade do Ferro tardia) analisadas:

a) por meio das línguas célticas;
b) por meio de testemunhos a seu respeito produzidos em língua céltica (referências endógenas) ou em outras línguas (referências exógenas).

3 Origem da Jurisdição dos Druidas

3.1 Desde sua entrada na história, os celtas estavam constituídos em sociedades com magistrados e assembleias políticas.
3.1. Analogia com a tese de Aristóteles.
3.2 Origem dos tribunais e das leis: “A justiça pertence ao domínio do político, pois o julgamento é o resultado de uma instituição da sociedade política […] o julgamento consiste no discernimento da justiça” (Política, I, 1, §12).
3.3 Em caso de urgência, o magistrado tribal supremo (uergobretos, rix) substituiria a assembleia ausente. Exs.: Celtillos,Cauarinos.
3.3.1 Na reunião da assembleia nacional, ao magistrado supremo cabia pronunciar a sentença. Ex.: Indutiomaros.
3.3.2 Um general podia julgar o soldado sob suas ordens ou enviá-lo à assembleia dos cidadãos. Exs.: Dumnorix.
3.3.3 Papel dos magistrados no julgamento: acusadores e presidentes. Em casos excepcionais, poderiam pronunciar e executar até uma sentença de morte. Ex.: Vercingetorix.
3.3.4 Condenação por crimes políticos ou contra a segurança do estado: morte no fogo.

4 Na Grécia

4.1 Os tribunais que julgavam crimes entre particulares surgiram no séc. IV a. C. Persistiram lembranças da época anterior em que:

a) somente os crimes políticos submetiam-se à jurisdição pública;
b) as famílias que tinham crimes a vingar somente podiam recorrer às armas.

Ref.: Isócrates, Panegírico, §40.

4.2 Permissão de fuga para o acusado: a lei protegia-o até atingir a fronteira. Além desse limite, a família do morto podia
persegui-lo e matá-lo, se tivesse meios ou assim julgasse conveniente.
4.3 Τά ὑποφόνια (tá hypophónia, “a voz suave”): na lei de Atenas, era o sistema de composição decorrente de homicídio, conhecido também entre os germânicos. Em caso de homicídio culposo, abriam-se duas possibilidades:

a) após a condenação, o acusado aceita a composição e a ação se extingue ou…
b) após a condenação, a família do morto rejeita qualquer indenização e o juiz determina o exílio do condenado. Nesse caso, a família do morto não tem mais direito à vingança privada.

4.3.1 Sobre esse instituto, pode-se observar:

a) remonta à época homérica (mencionada na Ilíada, Canto XVIII, v. 497-508, descrição do escudo de Aquiles).
b) a composição extinguia o direito à vingança.
c) se a família do morto não queria fazer acordo, ou se era mais poderosa que a do acusado, o único meio de escapar à vingança era a fuga, v. Odisseia, Canto XV, v. 271-277.

5 Na Roma Antiga

5.1 Período arcaico: no direito anterior a Numa Pompilius, segundo rei de Roma (regnauit 715-673 a. C.), há sinais de que a aceitação do homicídio como crime público era admitida por alguns e rejeitada por outros. Ref.: Plutarchus, Vitae Parallelae (“Vidas Paralelas”), Romulus, XXX, XXXI, trad. francesa D. Richard, 1830.
5.1.1 Lei atribuída ao rei Numa (Festus, séc. II d. C., De Verborum Significatione) considerava parricida aquele que intencionalmente tirasse a vida de um homem livre. Outra disposição legislativa, também atribuída a Numa, fixava em um carneiro a indenização devida aos agnatos do morto em caso de homicídio involuntário.
5.1.2 Na “Lei das Doze Tábuas” (Lex Duodecim Tabularum, séc. V a. C.): lesões corporais não ensejavam ação pública, mas davam direito de indenização à vítima. A própria lei fixava a base pecuniária do acordo.
5.1.3 Resto de guerra privada: se o culpado não quisesse ou não pudesse pagar a indenização, o parente mais próximo da vítima tinha o direito de infligir-lhe o mesmo ferimento, não tendo o culpado direito de oferecer nenhuma resistência.
5.2 Ponto em comum com a lei céltica e a germânica: evitava-se a guerra privada pelo pagamento de uma composição proporcional à dignidade do ofendido.

6 Direito germânico

6.1 Lei sálica (lei dos francos sálios, Pactus Legis Salicae, “Pacto da Lei Sálica”, escrita em latim no séc. VI d. C.): apresentava ao menos uma característica mais avançada que o direito romano.
6.1.1 Quando o agressor e a vítima (ou os familiares desta) chegavam a um acordo quanto ao valor da compensação, dois terços (faida) desse valor cabiam ao ofendido, um terço (fredum) era entregue ao magistrado como representante da autoridade real, pois considerava-se que o estado, assim como a vítima, também havia sofrido um dano, fazendo jus à indenização.
6.1.2 Existia a mesma regra na lei de Gales.
6.1.2 Na Irlanda medieval, assim como na Roma antiga, o valor da composição pertencia totalmente à vítima, pois o estado não se considerava atingido pela infração cometida.

7 De volta a Roma

7.1 Actiones in rem (“ações sobre a coisa”): tinham por objeto não uma dívida, mas a propriedade de bem móvel ou imóvel. Conservavam uma lembrança do direito antigo, do período em que vigorava a autotutela.
7.2 Procedimento da rei adprehensio:

a) combate fictício;
b) intervenção de um magistrado;
c) julgamento.
d) a guerra privada entre os oponentes, que ocorria de fato no período anterior à organização do estado, ficou cristalizada como uma formalidade do procedimento legal.

7.3 Semelhança com o Senchus Mór.

8 Na Céltica

8.1 Recorria-se às armas:

a) para solucionar ações pessoais (sobretudo as decorrentes de homicídio);
b) para solucionar ações reais mobiliárias (p. ex., envolvendo escravos, rebanhos);
c) para solucionar ações reais imobiliárias (p. ex., determinar as fronteiras de um território ou os limites de um campo).

8.2 Os druidas intervinham como árbitros para pacificar questões de que o estado tribal não se ocupava, assim evitando um conflito entre particulares que poderia transformar-se em guerra civil e deixar a tribo exposta ao ataque externo. Assim, a origem da jurisdição dos druidas foi a omissão do estado tribal em solucionar conflitos entre os indivíduos, evitando que o mais forte sempre impusesse seu interesse.
8.3 Evitar o conflito entre indivíduos: semelhança com a narrativa do Senchus Mór e com o direito romano.
8.4 Diferença em relação ao magistrado romano: a autoridade do druida é desprovida de sanção, pois a corporação druídica não integrava as instituições políticas da tribo.
8.5 Semelhança com os fili irlandeses: quando as decisões destes não eram acatadas, somente poderiam declarar o recalcitrante como eluthach (“fugitivo da lei”) e a partir de então este ficaria impossibilitado de ajuizar qualquer ação diante deles, perdendo assim toda proteção legal.

Bellouesus /|\

Sobre Celtas e Druidas

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Sópatro (fim do séc. IV a. C.) (via Ateneu, 4.160):

Entre eles há o costume de, sempre que vitoriosos em batalha, sacrificar seus prisioneiros aos deuses. Assim, eu,
como os celtas, prometi aos divinos poderes queimar esses três falsos dialéticos como oferenda.

Timeu (começo do séc. III a. C.) (via Diodoro Sículo, 4.56):

Os historiadores apontam que os celtas que vivem às margens do Oceano honram os Dióscuros acima dos outros
deuses. Pois há uma antiga tradição entre eles de que esses deuses vieram do Oceano até eles.

Eudoxo de Rodes (fim do séc. III a. C.) (via Heliano, “Sobre os Animais”, 17.19):

Eudoxo diz que os celtas fazem o seguinte (e, se alguém pensar que seu relato é crível, deixai-o acreditar; se não,
deixai-o ignorá-lo). Quando nuvens de gafanhotos invadem seu país e danificam as colheitas, os celtas evocam
certas orações e oferecem sacrifícios com feitiços a pássaros – e os pássaros ouvem essas orações, chegam em bandos
e destroem os gafanhotos. Se, entretanto, um deles capturar um desses pássaros, sua punição, de acordo com ass leis
do país, é a morte. Se ele for perdoado e libertado, isso enfurece os pássaros e, para vingar a ave capturada, eles não
respondem se forem chamados outra vez.

Artemidoro de Éfeso (fim do séc. II a. C.) (via Estrabão, 4.4.6):

O seguinte relato, que Artemidoro contou sobre os corvos, é inacreditável. Há um certo porto na costa que, de
acordo com ele, chama-se “Dois Corvos”. Nesse porto, são vistos dois corvos, com suas asas direitas um pouco
brancas. Homens que estão em disputa sobre certas questões vão até lá, colocam uma prancha num lugar elevado e
então cada homem, separadamente, atira bolos de cevada. As aves voam e comem alguns dos bolos, mas espalham
outros. O homem cujos bolos foram espalhados vence a disputa. Embora essa história seja implausível, sua narração
sobre as deusas Deméter e Corê é mais crível. Ele diz que há uma ilha perto da Britânia onde sacrifícios são
realizados como aqueles na Samotrácia, para Deméter e Corê.

Tito Lívio (séc. I a. C.) (23.24):

(216 a. C.) Postúmio morreu lutando com todas as suas forças para não ser capturado vivo. Os gauleses
despojaram-no de todos os seus espólios e os boios levaram sua cabeça decepada em procissão ao mais sagrado de
seus templos. Lá ela foi limpa e o crânio nu foi adornado com ouro, de acordo com o costume deles. Foi usado
desde então como um vaso sagrado em ocasiões especiais e como uma taça ritual por seus sacerdotes e oficiais do
templo.

Nicandro de Cólofon (séc. II a. C.) (via Tertuliano, “Sobre a Alma”, 57.10):

Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones recebem
oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem.
Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma
Nicandro.

Posidônio (séc. I a. C.) (via Diodoro Sículo, 5.28):

O ensinamento de Pitágoras prevalece entre os gauleses, de que as almas dos humanos são imortais e de que, após
um certo número de anos, eles viverão outra vez, com a alma passando a um outro corpo. Por causa dessa crença,
algumas pessoas nos funerais irão lançar cartas na pira fúnebre, de forma que os que morreram possam lê-las.

(via Diodoro Sículo, 5.31):

Os gauleses têm certos homens sábios e especialistas sobre os deuses chamados Druidas, bem como uma classe de
videntes altamente respeitados. Por meio de augúrios e sacrifícios de animais esses videntes predizem o futuro e
ninguém ousa escarnecer deles. Eles têm um método de adivinhação especialmente estranho e inacreditável para as
questões mais importantes. Tendo consagrado uma vítima humana, eles a golpeiam com uma faquinha na região
acima do diafragma. Quando o homem desfalece por causa do ferimento, eles interpretam o futuro pela observação
da natureza de sua queda, da convulsão de seus membros e, especialmente, do padrão do seu esguicho de sangue.
Nesse tipo de adivinhação, os videntes depositam grande confiança numa antiga tradição de observação.

É costume entre os gauleses jamais realizar um sacrifício sem que alguém perito nos caminhos divinos esteja
presente. Dizem que os que sabem a respeito da natureza dos deuses devem oferecer-lhes agradecimentos e fazer-
lhes pedidos, como se essas pessoas falassem a mesma língua dos deuses. Os gauleses, amigos e inimigos do mesmo
modo, obedecem a lei dos sacerdotes e bardos não somente em tempo de paz, mas também durante as guerras.
Frequentemente ocorre que, ao se aproximarem dois exércitos com espadas desembainhadas e lanças prontas, os
druidas andem entre os dois lados e parem a luta, como se tivessem lançado um encantamento sobre bestas
selvagens. Assim, mesmo entre os bárbaros mais selvagens, a fúria cede à sabedoria e o deus da guerra respeita as
Musas.

(via Diodoro Sículo, 5.32):

É de acordo com sua brutalidade e natureza selvagem que eles realizam práticas religiosas particularmente
ofensivas. Eles manterão alguns criminosos sob guarda por cinco anos, empalando-os então numa estaca em honra
de seus deuses, seguindo-se a incineração deles numa enorme pira, juntamente com muitas outras primícias.
Também usam prisioneiros de guerra como sacrifícios aos deuses. Alguns dos gauleses sacrificarão até mesmo os
animais capturados na guerra, seja matando-os, queimando-os ou abatendo-os com algum outro tipo de tortura.

(via Estrabão, 4.4.4-5):

Falando de modo geral, há entre os gauleses três grupos que são singularmente honrados: os Bardos, os Vates e os
Druidas. Os Bardos são cantores e poetas, enquanto os Vates supervisionam o ritos e examinam os fenômenos
naturais. Os Druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade também. Os
gauleses consideram os Druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das
disputas públicas e privadas. No passado, eles até mesmo paravam batalhas que estavam a ponto de começar e
punham fim às guerras. Casos de homicídio especialmente são entregues aos Druidas para julgamento. Eles
acreditam que, quando houver muitos criminosos condenados disponíveis para o sacrifício, então a terra irá
prosperar. Os Druidas e outros dizem que a alma humana e o universo são ambos indestrutíveis, mas, no fim,
apenas o fogo e a água prevalecerão.

(via Estrabão, 4.4.6):

Posidônio também diz que há uma pequena ilha no Oceano Atlântico, na foz do rio Loire, habitada por mulheres
da tribo dos Samnitae. Elas são possuídas por Dioniso e apaziguam esse deus por meio de cerimônias misteriosas e
outros tipos de rituais sagrados. Jamais homem algum vai a essa ilha, mas as mulheres velejam para o continente
para ter sexo com os homens, voltando então. A cada ano, as mulheres demolem o teto de um templo e
constroem-no outra vez antes do anoitecer, cada mulher levando uma carga para acrescentar ao telhado. Quem
quer que derrube sua carga é despedaçada pelas outras. Elas então carregam seus pedaços ao redor do templo
proferindo gritos de bacanal até que seu frenesi louco desapareça. E sempre acontece que aquela que está destinada
a sofrer esse destino seja derrubada por alguém.

Júlio César (séc. I a. C) (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, 6.13-14, 16-19):

Através de toda a Gália, há duas classes de pessoas que são tratadas com dignidade e honra. Isso não inclui as
pessoas comuns, que são pouco melhores do que escravos e nunca têm voz nos conselhos. Muitos desses alinham-se
voluntariamente com um patrono, seja por causa de um débito ou um pesado tributo ou por medo de um castigo de
alguma outra pessoa poderosa. Uma vez que tenham feito isso, terão abandonado todos os direitos e são pouco
mehores do que servos. As duas poderosas classe mencionadas acima são os Druidas e os guerreiros. Os Druidas
ocupam-se de questões religiosas, sacrifícios públicos e privados e divinação.

Uma grande quantidade de rapazes vem aos Druidas para instrução, tendo-os em grande respeito. Sem dúvida, os
Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer
homicídio foiperpetrado, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições. Se qualquer um ignorar sua decisão, essa pessoa é banida de
todos os sacrifícios – uma punição extremamente severa entre os gauleses. Aqueles que são assim condenados são
considerados criminosos detestáveis. Todos se afastam deles e não lhes falarão, temendo algum dano por causa do
contato com eles e não recebem justiça nem honra por qualquer feito digno.

Entre todos os Druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre
o Druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma
eleição por todos os Druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do
ano, todos os Druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos Carnutes, cuja terra é considerada o
centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos
Druidas. Diz-se que o movimento druídico começou na Britânia e foi então levado para a Gália. Ainda hoje,
aqueoles que desejam estudar seus ensinamentos com mais aplicação usualmente viajam para a Britânia.

Os Druidas são isentos do serviço militar e do pagamento de contribuições de guerra, ao contrário dos outros
gauleses. Tentados por tais vantagens, muitos jovens de boa vontade dedicam-se aos estudos druídicos, enquanto
outros são enviados por seus pais. Diz-se que, nas escolas dos Druidas, eles aprendem um grande número de versos,
tantos, na verdade, que alguns estudantes levam vinte anos em treinamento. Não é permitido escrever nenhum
desses ensinamentos sagrados, apesar de outras transações públicas e privadas serem muitas vezes registradas com
letras gregas. Acredito que eles praticam essa tradição oral por duas razões: primeira, para que o povo comum não
tenha acesso aos seus segredos e segundo, para fortalecer a faculdade da memória. Na verdade, a escrita muitas
vezes enfraquece a aplicação da pessoa em aprender e reduz a habilidade de memorizar. O ensinamento principal
dos Druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse
ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas. Eles
têm também um grande número de outros ensinamentos que passam aos jovens a respeito de coisas como o
movimento das estrelas, o tamanho dos universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses
imortais.

Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença
terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os
Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida
pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para
os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então põem-lhes fogo, perecendo
todos nas chamas. Eles acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses,
mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que ele é o inventor de todas as
artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele,
adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros
povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da
guerra. Antes de uma grande batalha, eles frequentemente dedicarão os espólios a Marte. Se obtiverem sucesso,
sacrificarão todas as coisas vivas que tiverem capturado e os outros espólios que eles reúnem num só lugar. Entre
muitas tribos, você pode ver esses espólios reunidos num local consagrado. E é uma ocasião muito rara que alguém
ouse perturbar esses bens valiosos e ocultá-los em sua casa. Se isso acontecer, o perpetrador é torturado e punido
das piores formas imagináveis.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis, e confirmam que esse é o
ensinamento dos Druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários
e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

Os funerais dos gauleses são magníficos e extravagantes. Tudo que era querido pelo falecido é lançado na fogueira,
inclundo-se os animais. Num passado recente, eles iriam queimar também escravos fiéis e subordinados amados no
ponto culminante do funeral.

Cícero (séc. I a. C.) (“Sobre a Divinação”, 1.90):

A prática da divinação não é negligenciada mesmo pelos bárbaros. Eu sei que há Druidas na Gália porque eu
mesmo conheci um deles – Divicíaco da tribo dos Aedui, que era vosso convidado e altamente vos louvava. Ele
reclamava um conhecimento da natureza derivado do que os gregos chamam “physiologia” – a inquirição acerca das
causas e fenômenos naturais. Ele predizia o futuro usando o augúrio e outras formas de interpretação.

Plínio (séc. I d. C.) (“História Natural”, 16.249, 24.103-4, 29.52, 30.13):

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas (que é o nome de seus homens
santos) não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se ela crescesse
somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que
um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” (a palavra
grega para “carvalho”). E, sem dúvida, eles pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um
sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em
carvalhos. Não obstante, eles o procuram com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo
lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a
lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua,
chamam o visco de um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos,
conduzindo dois touros brancos cujos chifres são amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco
então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então
sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda próprio dom àqueles a quem ele o
deu. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio
contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Semelhante à erva sabina é a planta chamada “selago”. Deve ser colhida sem instrumento de ferro, passando-se a
mão direita através da abertura da manga esquerda, como se a estivesses roubando. O colhedor, tendo primeiro
oferecido pão e vinho, deve vestir-se de branco e estar com os pés descalços e limpos. É levada num pedaço de
tecido novo. Os Druidas da Gália dizem que deve ser usada como proteção contra todo perigo e que a fumaça da
queima do “selago” é boa para as doenças dos olhos. Os Druidas também recolhem dos charcos uma planta
chamada “samolus”, que deve ser colhida com a mãe esquerda durante um período de jejum. É boa para as doenças
das vacas, mas aquele que a colhe não deve olhar para trás, nem colocá-la em lugar algum senão no cocho em os
animais bebem água.

Há um tipo de ovo que é muito famoso na Gália, mas ignorado pelos escritores gregos. Nos meses de verão, um
grande número de cobras se juntará numa bola que é mantida junta por sua saliva e uma secreção de seus corpos.
Os Druidas dizem que elas produzem esses objeto oval, chamado “anguinum”, que as cobras sibilantes lançam para
o ar. Ele deve ser apanhado, assim dizem eles, num manto antes de alcançar o chão. Mas seria melhor que você
tivesse um cavalo preparado, porque as cobras irão caçar você até que sejam impedidas por algum curso de água.
Um “anguinum” genuíno flutuará contra a correnteza, mesmo se coberto de ouro. Porém, como é usual para os
homens santos do mundo, os Druidas dizem que ele somente pode ser apanhado durante uma fase da lua
específica, como se as pessoas pudessem fazer a lua e as serpentes trabalharem juntas. Eu próprio vi um desses ovos
– era uma pequena coisa arredondada, como uma maçã, com uma superfície cheia de indentações semelhantes às
dos braços de um polvo. Os Druidas valorizam-no grandemente. Dizem que é um grande auxílio nas ações judiciais
e ajudará a ganhar a boa vontade de um governante. Que isso é uma total falsidade mostra-se por um homem da
tribo gaulesa dos Vocontii, um cavaleiro romano, que manteve um escondido em seu manto durante um julgamento
ante o imperador Cláudio e foi executado, até onde posso saber, unicamente por esse motivo.

Ritos bárbaros eram encontrados na Gália até uma época de que eu mesmo posso lembrar. Pois foi então que o
imperador Tibério passou um decreto por meio do Senado colocando fora da lei os seus Druidas e essas espécies de
adivinhos e médicos. Mas por quê menciono isso a respeito de uma prática que cruzou o mar e alcançou os confins
da terra? Pois mesmo hje a Britânia realiza ritos com tal cerimônia que você poderia achar que foram eles a fonte
dos extravagantes persas. É maravilhoso como povos distantes são tão semelhantes em tais práticas. Mas podemos,
ao menos, ficar satisfeitos de que os romanos tenham eliminado o culto assassino dos Druidas, que ensinavam
serem o sacrifício humano e o canibalismo ritual o mais elevado tipo de devoção religiosa.

Suetônio (“Cláudio”, 25):

Cláudio destruiu a horrível e inumana religião dos Druidas gauleses, que havia sido apenas proibida aos cidadãos
romanos sob Augusto. (41-54 d. C.)

Lucano (séc. I d. C.) (“Guerra Civil”, 1.444-46, 450-58):

Cruel Teutates, deleitado pelo sangue temível, horrível Esus com seus altares bárbaros,
e Taranis, mais cruel que a Diana Cítica.
ó Druidas, agora que a guerra acabou
retornais a vossos ritos bárbaros e modos sinistros.
Somente vós conheceis os caminhos dos deuses e poderes celestes, ou talvez o ignoreis totalmente.
Vós, que habitais nos bosques escuros e remotos,
dizeis que os mortos não procuram o reino silencioso de Érebo ou o pálido domínio de Plutão,
mas o mesmo espírito vive outra vez em um outro mundo
e a morte, se vossas canções são verdadeiras, não é senão o meio de uma longa vida.

Sílio Itálico (séc. I a. C.) (“Púnica”, 3.340-43):

Os celtas conhecidos como “hiberi” também vieram.
Para eles é glorioso cair em combate,
mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo.
Eles acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo,
jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto.

História Augusta” (séc. IV d. C.)

(Alexandre Severo 59.5): A Druidesa exclamou para ele quando ele chegava, “Vai em frente, mas não esperes a
vitória ou deposites confiança em teus soldados.” (235 d. C.)

(Numeriano 14): Enquanto Diocleciano era ainda um jovem soldado, ele estava hospedado numa taverna na terra
dos tongri, na Gália. Todo dia ele tinha de acertar as contas com sua senhoria, uma Druidesa. Um dia ela disse:
“Dicleciano, tu és ganancioso e sovina!” Zombeteiramente, ele lhe respondeu: “Então eu serei mais generoso
quando for imperador.” “Não rias”, ela disse, “pois será imperador depois de matares o javali.”

(Aureliano 43.4): Em certas ocasiões, Aureliano consultava as druidesas gaulesas para descobrir se os seus
descendentes continuariam a governar ou não. Elas disseram-lhe que nome algum seria mais famoso que os da
linha de Cláudio. E, sem dúvida, o atual imperador, Constâncio, é um descendente dele. (270 d. C.)

Ausônio (fim do séc. IV d. C.) (4.7-10, 10.22-30):

Descendes dos Druidas de Bayeux, se verdadeiras são as histórias a teu respeito,
e traças tua sacra ancestralidade e renome do templo de Belenus.
Tampouco esquecerei o ancião
com o nome de Febício.
Embora ele fosse sacerdote do deus Belenus, não recebeu qualquer vantagem da posição. Mas, apesar disso, esse,
que descende, diz-se, dos Druidas da Bretanha, recebeu uma cátedra em Bordeaux com a ajuda de seu filho.

Inscrição de Botorrita (fim do séc. II, começo do séc. I a. C.):

A Eniorosis e Tiato de Tiginos dedicamos trecaias e a Lugus dedicamos arainom.
A Eniorosis e a Equaesos, ogris erige coberturas de olga e a Lugus erige coberturas de tiasos.

Inscrição de Chamalières (c. 50 d. C.):

Invoco o deus Maponos arueriitis. Por meio da magia dos deuses do Mundo Inferior.
C. Lucios Floros, Nigrinos, o orador, Aemilios Paterinos, Claudios Legitumos, Caelios Pelignos, Claudios Pelignos,
Marcios Victorinos e Asiaticos, filho de Adsedillos…
O juramento jurarão – o pequeno se tornará grande, o curvado se tornará reto, e, embora cego, eu verei. Com esta
tábua de encantamento isso será…
luge dessummiiis luge dessumiis luge dessumiiis luxe.

Inscrição de Larzac (c. 90 a. C.):

Olhai:
– um encantamento mágico de mulheres
– o ritual deles, nomes do Mundo Inferior
– a profecia da vidente que tece este encantamento
A deusa Adsagsona devolve Severa e Tertionicna enfeitiçadas e amarradas.

Patrício (séc. V a. C.), “Confissão”:

É notável que os irlandeses tornaram-se, sem dúvida, um povo do Senhor e filhos de Deus. Essas pessoas que, até
agora, não tinham conhecimento de Deus, mas adoravam ídolos e seguiam práticas religiosas repulsivas.

Irlanda alto-medieval

– séc. VI d. C.: Juramentos serão proferidos em presença dos druidas (“druid”, em irlandês antigo)
– séc. VII d. C.: Somente o druida tem os mesmos direitos de um “boaire” (um nobre, proprietário de grandes
rebanhos)
– séc. VIII d. C.: Protege-me dos encantamentos de mulheres, ferreiros e druidas…

Bellouesus /|\ (compilação)

Nemeton

nem1A tradução usual da velha palavra céltica nemeton é “bosque sagrado”. Isso é inexato, pois nemeton não é necessariamente um bosque, pode ser também um espaço artificialmente construído. Para descobrir isso, vamos analisar brevemente os significados de nemeto- e de outros termos correlatos.

*nemetonoble
*nemeto(n.) sacred place
*nemosheaven

*nemeto – [adj.] nobre
*nemeto – (subst.) local sagrado
*nemos – céu

De: Proto-Celtic English Dictionary (Prifysgol Cymru/University of Wales)

A Dedicatória de Segomaros, famosa inscrição galo-grega (gaulês em letras gregas)  do séc. III a. E. C., encontrada em Vaison-la-Romaine, Provença, em meados do séc. XIX E. C., diz:

nem2

Segomaros Ouilloneos tooutious Namausatis eiōrou Bēlēsami sosin nemēton

Segomaros [“grande em vitórias”], filho de Willo, toutius [líder tribal] de Namausos [Nîmes, na França] dedicou este santuário a Belisama

Assim, nemeton é algo dedicado, constituído, feito sagrado.

No final da Antiguidade, Venantius Honorius Clementianus Fortunatus (c. 530 – c. 600/609), poeta latino e bispo de Lemonum (Poitiers) escreveu (Carmina, I, ix, 9-10): nomine Vernemetis uoluit uocitare uetustas, quod quasi fanum ingens gallica lingua refert. Acredita-se que a língua gaulesa estivesse em vias de extinção no séc. VI E. C. , mas Venantius Fortunatus ainda sabia o suficiente para explicar que Vernemetis (atual Caumont-sur-Garonne) em gallica lingua (língua gaulesa) significava fanum ingens (enorme, descomunal – ingens em latim, prefixo ver– em gaulês – templo, santuário – fanum em latim, nemetis [forma modificada de nemeton] em gaulês).

É necessário observar aqui a palavra romana que Fortunatus usa para traduzir o gaulês nemetis: fanum. E porque não templum? Por um excelente motivo: templum em latim é o recinto consagrado à tomada de agouros, um amplo espaço descortinado (herança do rito etrusco, a divisão quádrupla do céu) ou até mesmo qualquer lugar de respeito e cerimônia, como a sala de sessões do Senado Romano, enquanto fanum é um pequeno recinto fechado, o que nós chamaríamos capela. Os romanos faziam clara distinção entre templa e fana (os plurais de templum e fanum) sobretudo pelo tamanho. Antes da conquista romana, já a Gália era cravejada de fana e continuou a sê-lo até a implantação do cristianismo, quando cristãos zelosos como Martinho de Tours adquiriram reputação de santidade pelo zelo na destruição desses antigos locais de culto.

De onde vem a ideia tão difundida de que nemeton é bosque sagrado apenas? É praticamente um presente irlandês. E porque traduzido pela metade, um presente grego.

Nemed: formas em gaélico antigonem3

neimed, nemthe nemid, nemhid, nemiud, nemthiu, neimthiu, neimed, senneimedh, Nemed, nemedh, Nimeth

Na Irlanda medieval, a terra ao redor de uma igreja – o terreno que formava sua gleba – era considerado um santuário e chamado nemed (diz-se néveh), significando literalmente celestial ou sagrado, ou então termann, termon, ou seja, limite, divisória, fronteira. O santuário era marcado em suas extremidades por cruzes ou pilares de pedra. Se um fugitivo, esquivando-se de seus perseguidores, tivesse êxito em adentrar os limites do nemed, estaria em segurança por algum tempo, pois era vedado molestá-lo enquanto no santuário. Porém, passada essa ocasião, seria entregue para ser julgado pelos tribunais comuns. Nos textos do Lebor na hUidre (“Livro da Vaca Castanha”, do começo do séc. XII E. C.), aparece frequentemente a espressão coa nemthe nert (“para a proteção do santuário”).

Era muito comum que os fundadores de igrejas plantassem árvores – comumente teixos, mas também carvalhos ou freixos – que oferecessem abrigo e ornamentação na área ao redor da igreja e do cemitério (para chegar a Deus é preciso passar pelo síd) e geralmente dentro do nemed. Esses pequenos bosques (artificiais) alcançaram posteriormente grande veneração e considerava-se terrível sacrilégio cortar qualquer das árvores, ainda que somente um ramo. Tais bosques eram chamados fidnemed (fínneveh), bosque que é sagrado ou bosque do nemed, de fid, madeira ou bosque (outro caso de parte pelo todo, como lareira para representar toda a casa). Fidnemed não é um santuário na floresta. É o contrário, uma floresta num santuário, um bosque plantado dentro dos limites do nemed.

A devoção irlandesa ao fidnemed é registrada numa tríade: trí mairb direnaiter beoaib: aball, coll, fidnemed (três mortos que se pagam com coisas vivas: uma macieira, uma aveleira, um bosque [fid] sagrado [nemed]).

Porque nemed não é igreja? Porque a palavra irlandesa mais comum para igreja era e ainda é cill (kill) do latim cella, o quarto, capela ou nicho num templo, onde se achava a imagem da divindade. Mas várias outras existem, como eclais, obviamente do latim ecclesia, origem igualmente de igreja.

O sentido de nemed em gaélico antigo aparece com clareza na literatura da época. Por exemplo, no poema Fo réir Choluimb, de Bécán mac Luigdech (séc. VII E. C.), que diz: cechaing noib nemed mbled (“ele atravessou em navios o santuário das baleias”), onde o comentarista explica que nemed mbled, “o santuário das baleias”, é o mar. Além disso, a palavra que traduz nemed nos textos latinos medievais é sacellum, “pequeno santuário, capelinha”, não nemus, “bosque, parque sagrado perto de um templo, mato com clareira”.

A confusão toda vem da semelhança do gaulês nemeton com o latim nemus e de uma sucessão de traduções equivocadas, um embaraço que teve começo logo que a Europa redescobriu os celtas e ficou maravilhada de que houvesse no mundo antigo algo além de Grécia e Roma.

Bellouesus /|\

Daltae (aluno, discípulo)

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Daltae (outras formas: dalte, daltai, dalta, daltu): discípulo, aluno, filho adotivo > *daltayos > *de-altyos > de (of, from) + al- (*alet): nutrir, adotar | IrA. ailid (adotar, criar [rear], solicitar); IrA. altram (adoção) > *altrasmus < *altramū, pai adotivo | Gl. athro, Br. aotrou (senhor); *altryū, pai adotivo | IrA. altru; *altramonī, mãe adotiva | Br. itron (senhora)

Tírechán (bispo irlandês do séc. VII), conta que Eithne e Fedelm, duas filhas do rei Lóegaire mac Néill convertidas por Pádraic, eram adotadas e educadas por dois druidas de nomes Mael e Caplait.

“Os druidas eram os professores dos filhos dos nobres”. Acho que todo mundo já leu isso, mas o significado da frase não é que o druida vinha todo dia à casa do aluno ensinar. Ao contrário, o aluno ia viver na casa do mestre, que passaria a ser considerado pai adotivo, com todos os deveres e direitos que a lei irlandesa antiga atribuía a essa instituição (altram).

É esse entendimento (relação entre ensino/filiação adotiva – paternidade espiritual) que explica o motivo de a palavra para “filho adotivo” e “discípulo, aluno” ser a mesma em gaélico antigo (daltae/dalte/daltai/dalta/daltu > PrC. *daltayos, m., *daltayā, f.).

Bellouesus /|\

Célsine

clip2_102cDeriva do irlandês antigo cé(i)le, “amigo, companheiro, servo, vassalo”, cilydd em galês, ambos descendentes do proto-céltico *keylyos.

Por meio da célsine, quase todo homem livre era céile de outro que se encontrava acima dele na escala social e que se tornava seu flaith (“lorde”), sem, no entanto, perder o status de homem livre (soer). Originalmente, a célsine era um contrato estritamente pessoal entre céile e flaith, podendo ser terminado a qualquer tempo ou contestado pela família (fine) do vassalo. Com o avanço do feudalismo, o instituto inclinou-se para a hereditariedade.

Em essência, o mecanismo da célsine era o seguinte: o lorde concedia determinados bens (geralmente gado, ocasionalmente terras) a um indivíduo. Este se tornava seu devedor, tendo de pagar juros ao lorde, bem como seu “companheiro”, posição em que lhe competia prestar homenagem e serviços pessoais ao benfeitor, tendo ainda de acompanhá-lo na guerra e em ocasiões públicas. O céile tinha ainda de oferecer ao flaith o “alojamento por uma noite” (cóe) entre o Dia de Ano Novo e a Terça-Feira Gorda.

Ao flaith, por sua vez, cabia proteger seu céile e apoiá-lo em quaisquer disputas e pendências.

Bellouesus /|\