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Hino de Aset

ISISEncontrado na Biblioteca de Nag Hammadi (desenterrada em 1945 no Egito), este trecho do texto gnóstico Trovão, a Mente Perfeita tem sido comumente associado à grande deusa Aset, uma vez que compartilha muitas das características ligadas a essa divindade. O louvor ao misterioso Divino Feminino, que perpassa todo o texto, evoca Aset em suas múltiplas manifestações.

Sou o Começo e o Fim.
Sou homenageada e desprezada.
Sou a prostituta e a santa.
Sou a casada e a donzela.
Sou a mãe e a filha.
Sou os membros de minha mãe.
Sou estéril e meus filhos são muitos.
Sou aquela que se casou com magnificência e não tenho marido.
Sou aquela que traz filhos e não gero filhos.
Sou o alívio das aflições do trabalho.
Sou a noiva e o noivo e meu marido originou-me.
Sou a mãe de meu pai e a irmã de meu marido e ele é meu filho.
Sou o silêncio incompreensível e a ideia amiúde trazida à mente.
Sou a voz que ressoa pelo mundo e a palavra que surge em todo lugar.
Sou do meu próprio nome o soar, eis que sou conhecimento e ignorância.
Sou vergonha e valentia.
Sou despudorada; sou pudica.
Sou poder e sou apreensão.
Sou luta e paz.
Escutai-me, pois sou a ultrajante e a esplêndida.

Bellouesus /|\

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A Epifania de Ísis no “Asno de Ouro” de Lucius Apuleius

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4. Per intextam extremitatem et in ipsa eius planitie stellae dispersae coruscabant earumque media semenstris luna flammeos spirabat ignes. Quaqua tamen insignis illius pallae perfluebat ambitus, individuo nexu corona totis floribus totisque constructa pomis adhaerebat. Nam dextra quidem ferebat aereum crepitaculum, cuius per angustam lamminam in modum baltei recurvatam traiectae mediae aucae virgulae, crispante brachio trigeminos iactus, reddebant argutum sonorem. Laevae vero cymbium dependebat aureum, cuius ansulae, qua parte conspicua est, insurgebat aspis caput extollens arduum cervicibus late tumescentibus. Pedes ambroseos tegebant soleae palmae victricis foliis intextae. Talis ac tanta, spirans Arabiae felicia germina, divina me voce dignata est:

Aqui e ali viam-se estrelas e no meio delas localizava-se uma lua que brilhava como uma labareda de fogo. Havia ao redor do manto uma coroa ou guirlanda de flores e frutas. Em sua mão direita, tinha um sistro de bronze que produzia um som agradável, portava em sua mão esquerda uma taça de ouro e desta uma áspide erguia sua cabeça com uma goela que inchava. Seus pés fragrantes estavam cobertos com calçados entrelaçados e forjados com a palma da vitória. Desse modo a forma divina, exalando o aroma aprazível da fértil Arábia, dignou-se falar-me:

5. “En adsum tuis commota, Luci, precibus, rerum naturae parens, elementorum omnium domina, saeculorum progenies initialis, summa numinum, regina manium, prima caelitum, deorum dearumque facies uniformis, quae caeli luminosa culmina, maris salubria flamina, inferum deplorata silentia nutibus meis dispenso: cuius numen unicum multiformi specie, ritu vario, nomine multiiugo totus veneratus orbis. Inde primigenii Phryges Pessinuntiam deum matrem, hinc autochthones Attici Cecropeiam Minervam, illinc fluctuantes Cyprii Paphiam Venerem, Cretes sagittiferi Dictynnam Dianam, Siculi trilingues Stygiam Proserpinam, Eleusinii vetusti Actaeam Cererem, Iunonem alii, Bellonam alii, Hecatam isti, Rhamnusiam illi, et qui nascentis dei Solis <et occidentis inclinantibus> inlustrantur radiis Aethiopes utrique priscaque doctrina pollentes Aegyptii caerimoniis me propriis percolentes appellant vero nomine reginam Isidem. Adsum tuos miserata casus, adsum favens et propitia. Mitte iam fletus et lamentationes omitte, depelle maerorem; iam tibi providentia mea inlucescit dies salutaris. Ergo igitur imperiis istis meis animum intende sollicitum. Diem, qui dies ex ista nocte nascetur, aeterna mihi nuncupavit religio, quo sedatis hibernis tempestatibus et lenitis maris procellosis fluctibus navigabili iam pelago rudem dedicantes carinam primitias commeatus libant mei sacerdotes. Id sacrum nec sollicita nec profana mente debebis opperiri.

“Vê, Lucius, eis-me aqui! Teu pranto e orações moveram-me a socorrer-te. Sou aquela que é a mãe natural de todas as coisas, rainha do céu! Sou a principal entre os deuses celestiais, a luz dos deuses e deusas. À minha vontade os planetas dos céus, todos os ventos dos mares e os silêncios dos Infernos ordenam-se. Meu nome e minha divindade são adorados conforme vários costumes e sob muitos nomes. Os frígios chamam-me a mãe dos deuses. Os atenienses, Minerva. Os cíprios, Vênus. Os cretenses, Diana. Os sicilianos, Proserpina. Os eleusínios, Ceres. Alguns chamam-me Juno, outros, Bellona, e ainda outros, Hécate. E os etíopes sobretudo, que no Oriente habitam, e os egípcios, que são excelentes em toda espécie de ensinamento antigo e por suas cerimônias adequadas estão acostumados a cultuar-me, chamam-me Rainha Ísis. Vê, vim para compadecer-me de teu infortúnio e tribulação. Vê, fiz-me presente para favorecer-te e ajudar-te. Deixa tuas lágrimas e lamentos, afasta tua tristeza. Percebe, pois, que o dia determinado por minha providência acaba de chegar. Portanto, que estejas pronto para atender meu comando. O dia que chegará depois desta noite está consagrado ao meu serviço por uma religião eterna. Meus sacerdotes e ministros costumam, depois de cessar as tempestades marítimas, oferecer em meu nome um novo navio como primícia de minha navegação. Ordeno-te não profaneres ou desprezares o sacrifício de qualquer forma.”

6. Nam meo monitu sacerdos in ipso procinctu pompae roseam manu dextera sistro cohaerentem gestabit coronam. Incunctanter ergo dimotis turbulis alacer continuare pompam mea volentia fretus et de proximo clementer velut manum sacerdotis osculabundus rosis decerptis pessimae mihique iam dudum detestabilis belvae istius corio te protinus exue. Nec quicquam rerum mearum reformides ut arduum. Nam hoc eodem momento, quo tibi venio, simul et ibi praesens, quae sunt sequentia, sacerdoti meo per quietem facienda praecipio. Meo iussu tibi constricti comitatus decedent populi, nec inter hilares caerimonias et festiva spectacula quisquam deformem istam quam geris faciem perhorrescet vel figuram tuam repente mutatam sequius interpretatus aliquis maligne criminabitur. Plane memineris et penita mente conditum semper tenebis mihi reliqua vitae tuae curricula adusque terminos ultimi spiritus vadata. Nec iniurium, cuius beneficio redieris ad homines, ei totum debere, quod vives. Vives autem beatus, vives in mea tutela gloriosus, et cum spatium saeculi tui permensus ad inferos demearis, ibi quoque in ipso subterraneo semirutundo me, quam vides, Acherontis tenebris interlucentem Stygiisque penetralibus regnantem, campos Elysios incolens ipse, tibi propitiam frequens adorabis. Quodsi sedulis obsequiis et religiosis ministeriis et tenacibus castimoniis numen nostrum promerueris, scies ultra statuta fato tuo spatia vitam quoque tibi prorogare mihi tantum licere.”

“Ao seguir a procissão, o grande sacerdote nesse dia levará, por minha exortação, uma guirlanda de rosas junto ao sistro em sua mão direita. Segue tu entre o povo a minha procissão e, quando te aproximares do sacerdote, faze como se fosses beijar sua mão. Mas abocanha as rosas, pois assim descartarei o couro e a forma de um asno. Essa espécie de animal é-me de há muito abominável e desprezível. Porém, acima de tudo, cuida para não duvidares ou demonstrares temor dessas coisas como sendo duras e difíceis de suportar. Pois, no mesmo momento em que vim a ti, ordenei ao meu sacerdote, numa visão, o que deverá fazer. E todas as pessoas, por minha ordem, serão obrigadas a dar-te lugar e nada dizer! Além disso, penso que, entre cerimônias tão belas e alegres e em tão boa companhia, qualquer pessoa detestará tua figura mal-favorecida e deformada, ou que qualquer homem não será atrevido o bastante para culpar-te e reprovar tua súbita restauração à forma humana. Sobre tal feito não formularão qualquer sombrio conceito. E toma isto por certo: pelo resto de tua vida, até a hora da morte, estarás ligado e sujeito a mim! E não acredites ser um mal ficar a mim sujeito, eis que por meus recursos e benefício tornar-te-ás humano. Abençoado viverás neste mundo, por minha orientação e proteção viverás gloriosamente. E, quando desceres aos Infernos, hás de ver-me refulgir naquela subterrânea paragem, brilhando, como agora me vês, na escuridão do Aqueronte, reinando na profundeza abissal do Estige, habitando os próprios Campos Elíseos. Ali me adorarás como a alguém que te foi favorável. E, se eu perceber que foste submisso ao meu comando, zeloso em meu ministério e digno de minha graça divina, fica ciente de que prolongarei teus dias além do tempo que te foi apontado pelos fados e ordenado pelos planetas celestiais.”

7. Sic oraculi venerabilis fine prolato numen invictum in se recessit. […]

Tendo pronunciado esse oráculo venerável, o numa insuperado desapareceu. […]

Lucius Apuleius, Asinus Aureus siue Metamorphoseon, L. XI, 4-7

Lucius Apuleius, “Asno de Ouro ou Metamofoses”, Livro XI, 4-7

Tradução: Bellouesus /|\