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A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

Echtra Cormaic i Tír Tairngire

A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

Leabhar Buidhe Lecain, “Livro Amarelo de Lecan”, col. 889, l. 26, p. 181; Irlanda, c. 1391 – c. 1401.

Tradução: Bellouesus

manannan2-2x4Certa vez em que Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas, estava em Liathdruim, ele viu um rapaz no campo diante de sua fortaleza, tendo na mão um cintilante ramo encantado com nove maçãs de ouro vermelho. E era esta a propriedade desse ramo, que, quando qualquer um o agitasse, homens e mulheres feridos seriam acalentados pelo som da dulcíssima música mágica que as maçãs emanavam e outra propriedade era que ninguém na terra manteria no pensamento qualquer preocupação, pesar ou tristeza na alma quando o ramo lhe fosse balançado e, com o sacudir do ramo, ninguém se lembraria de qualquer mal que pudesse ter ocorrido. Cormac disse ao jovem: “É teu esse ramo?” “Certamente é meu”, disse o rapaz. “Tu o venderias?”, perguntou Cormac. “Vendê-lo-ia”, falou o jovem, “pois nunca tive nada que eu não vendesse”. “O que pedirias por ele?”, disse Cormac. “O preço que a minha boca disser”, disse o rapaz. “De mim o receberás”, disse Cormac, “e dize o teu preço”. “A tua esposa, o teu filho e a tua filha”, respondeu o rapaz, “isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Terás a todos”, disse Cormac.

Depois disso, o rapaz entregou o ramo e Cormac levou-o a sua própria casa, a Ailbhe, a Eithne e a Cairbre. “Belo é o tesouro que tens”, disse Ailbhe. “Isso não me espanta”, respondeu Cormac, “pois paguei bom preço por ele”. “O que deste por ele ou que troca fizeste?”, perguntou Ailbhe. “Cairbre, Eithne e tu mesma, ó Ailbhe”. “Isso é uma lástima”, falou Eithne, “ainda que não seja verdade, pois pensamos que não haja na face da terra tesouro pelo qual nos trocarias”. “Dou a minha palavra”, disse Cormac, “de que vos dei por este tesouro”. Tristeza e pesar encheram os seus corações ao saber que aquilo era verdade e Eithne disse: “É uma barganha muito dispendiosa entregar-nos em troca de qualquer ramo no mundo”.

Quando Cormac percebeu que a tristeza e o pesar haviam invadido os seus corações, agitou o ramo contra eles e, ao ouvirem a suave e doce música do ramo não mais pensaram em qualquer mal ou preocupação que os tivesse atingido e saíram para encontrar o rapaz. “Aqui”, disse Cormac, “tens o preço que pediste pelo ramo”. “Bem cumpriste a tua promessa”, disse o rapaz, “e recebeste votos de vitória e bençãos em atenção à tua veracidade”. E deixou Cormac com desejos de prosperidade e saúde e ele e os seus companheiros seguiram o seu caminho.

Cormac foi para a sua casa e, quando essas notícias foram ouvidas em toda a Ériu, altos clamores de pranto e lamentação ergueram-se em cada parte dela e sobretudo em Liathdruim. Quando Cormac escutou os estrondosos clamores em Temhair, sacudiu o ramo entre eles, de modo que não houve mais tristeza ou pesar nos corações de ninguém.

Ele assim continuou durante todo aquele ano, até dizer: “Hoje faz um ano que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram tomados de mim e segui-los-ei pelo mesmo caminho por onde foram”.

Então Cormac saiu para procurar o caminho pelo qual vira partir o rapaz e uma escura névoa mágica levantou-se ao seu redor e ocorreu que ele chegou a uma admirável e maravilhosa planície. Era assim essa planície: havia ali uma soberba e grandíssima legião de cavaleiros e a atividade que estavam a realizar era cobrir uma casa com um telhado de penas de pássaros exóticos e, ao terminar de cobrir metade da casa, saíam a procurar penas de aves para a outra e, quanto à metade da casa que já haviam coberto, sobre ela não encontravam uma só pena ao retornar. Cormac ficou longo tempo a observá-los nesse mister e assim falou: “Não mais vos observarei, pois percebo que nisso vos esforçareis do começo ao fim do mundo”.

Cormac seguiu o seu caminho e estava a perambular pela planície quando viu um jovem de estranha aparência a caminhar por ali e o seu ofício era este: ele arrancava do chão uma enorme árvore e partia-a entre a raiz e a copa e com ela fazia uma grande fogueira e saía a procurar outra árvore e, ao retornar, não encontrava diante de si sequer um restolho da primeira árvore que não estivesse queimado e consumido. Por um grande lapso de tempo esteve Cormac a observá-lo naquele dilema e por fim disse: “Certamente te deixarei a partir deste momento, pois, ficasse eu a olhar-te para sempre, estarias na mesma até o fim dos tempos”.

Depois disso, Cormac começou a percorrer a planície até divisar três imensas fontes nas extremidades da planície e assim eram essas fontes: nelas havia três cabeças. Cormac achegou-se à fonte que estava mais próxima de si e assim era a cabeça que nela estava: uma correnteza fluía para sua boca e duas correntezas dela fluíam. Cormac avançou para a segunda fonte e a cabeça que estava nessa fonte era assim: uma correnteza para ela fluía e outra correnteza dela fluía. Ele avançou para a terceira fonte e assim era a cabeça que nela estava: para sua boca três correntezas fluíam e somente uma correnteza dela fluía. Com isso foi Cormac tomado de grande assombro e disse: “Não mais estarei a observar-vos, pois jamais encontrarei homem que me conte as vossas histórias e acredito que descobriria bom ensinamento nos vossos significados se os compreendesse”.

O rei de Ériu seguiu o seu caminho e não havia caminhado muito quando viu um vasto campo diante de si e uma casa no meio do campo. E Cormac aproximou-se da casa e nela entrou. E o rei de Ériu saudou os que dentro estavam. Um casal muito alto com vestes multicoloridas, que dentro estava, respondeu-lhe e rogou-lhe que permanecesse. “Quem quer que sejas, ó jovem, pois já não é hora de viajares a pé”.

Assim, Cormac, filho de Art, sentou-se e ficou certamente satisfeito por encontrar hospitalidade naquela noite. “Levanta-te, ó homem da casa”, disse a mulher, “pois há um honesto e bem-apessoado viajante em nossa casa e como poderias saber se não é algum honrado nobre entre os homens do mundo? E, se tiveres algum tipo de comida ou carne da melhor qualidade, que me sejam trazidos”.

Ao escutá-la ergueu-se o jovem e deste modo voltou até eles, isto é, com um enorme javali selvagem nas costas e uma tora em sua mão e jogou a tora e o suíno no chão e disse: “Aqui tendes a carne e cozinhai-a para vós mesmos”. “Como devo fazê-lo?”, perguntou Cormac. “Ensinar-te-ei”, disse o jovem, “ou seja, racha esta grande tora que tenho e dela faze quatro peças e joga um quarto do javali e um quarto da tora embaixo dele e conta um conto verdadeiro e o javali será cozido”.

Disse Cormac: “Narra tu mesmo o primeiro conto e então a tua esposa e depois disso será a minha vez”. “Falas acertadamente”, disse o jovem, “e penso que tens a eloquência de um príncipe e para começar contar-te-ei um caso. Aquele suíno que eu trouxe”, ele continuou, “não tenho senão sete desses porcos e com eles eu poderia alimentar o mundo inteiro, pois, dentre esses porcos o que for morto, tens apenas de colocar os seus ossos de volta no chiqueiro e na manhã seguinte ele será encontrado vivo”. Esse caso era verdadeiro e o quarto do porco ficou cozido. “Conta tu uma história agora, ó mulher da casa”, disse o jovem. “Contarei”, ela falou, “e põe tu ali um quarto do javali selvagem e sob ele um quarto da tora”. Assim foi feito.

Disse ela: “Tenho sete vacas brancas e elas enchem as sete cubas com leite todos os dias e dou minha palavra que elas produziriam leite suficiente para satisfazer todos os homens do mundo caso estes estivessem a bebê-lo na planície”. Esse caso era verdadeiro e, por conseguinte, o quarto do porco ficou cozido.

Disse Cormac: “Se verdadeiras foram as vossas narrativas, és por certo Manannán e ela é tua esposa, pois ninguém na face da terra possui tais tesouros senão Manannán, eis que foi a Tír Tairngire que ele foi em busca dessa mulher e obteve com ela essas sete vacas e sobre elas tossiu até aprender os miraculosos poderes da sua ordenha, ou seja, que elas poderiam encher sete cubas de uma vez só”. “Com total acerto nô-lo disseste, ó jovem”, disse o homem da casa, “e conta-nos um caso a teu próprio respeito agora”.

Disse Cormac: “Contarei e põe tu um quarto da tora sob o caldeirão até que eu te conte um conto verdadeiro”. Assim foi feito e Cormac disse: “Seguramente estou em uma busca, pois hoje se completou um ano desde que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram levados de mim”. “Quem os tomou de ti?”, perguntou o homem da casa. “Um jovem veio a mim”, disse Cormac, “que segurava em sua mão um ramo encantado e surgiu em mim grande desejo por esse ramo, de modo que lhe concedi por ele qualquer preço que pedisse e ele exigiu-me o cumprimento da minha palavra e a recompensa que de mim extorquiu foram a minha mulher, o meu filho e a minha filha, isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Se é veraz quanto dizes”, falou o homem da casa, “és por certo Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas”. “Deveras sou”, disse Cormac, “e é à procura deles que agora estou”. Verdadeiro era o relato e o quarto do porco ficou cozido.

Disse o jovem: “Agora come a tua refeição”. “Jamais consumi uma refeição”, disse Cormac, “com somente duas pessoas em minha companhia”. “Comerias com três outras, ó Cormac?”, perguntou o jovem. “Comeria, se me fossem queridas”, disse Cormac.

O homem da casa levantou-se e abriu a porta mais próxima da casa e saiu e trouxe para dentro aqueles a quem Cormac buscava e então ânimo e júbilo tomaram Cormac.

Manannán então veio a ele em sua forma verdadeira e assim falou: “Fui eu quem os levou de ti e fui eu quem te deu esse ramo e foi a fim de trazer-te a esta casa que os tomei de ti e agora aqui está a tua carne e come a comida”, disse Manannán. “Assim farei”, disse Cormac, “se puder compreender os enigmas que hoje vi”. “Irás compreendê-los”, disse Manannán, “e fui eu quem te trouxe até eles para que os pudesses ver. A legião de cavaleiros que te apareceu a cobrir a casa com as penas de pássaros, que, conforme lograssem eles cobrir uma metade da casa, costumavam dali desaparecer, saindo então em busca das penas de outras aves para o restante, tal assemelha-se aos poetas e às pessoas que buscam a sorte, pois, ao partirem, tudo o que deixam para trás em suas casas é consumido e assim continuam para sempre. O rapaz que viste a acender o fogo e que partia a árvore entre a raiz e a copa e depois encontrava-a consumida enquanto ia alhures em busca de outra árvore, o que isso representa são aqueles que distribuem comida enquanto todos os demais estão sendo servidos, eles próprios preparando-a e todos os outros disso tirando proveito. As fontes que viste, nas quais havia três cabeças, assemelham-se aos três que no mundo há. Tais são eles: a cabeça que viste com uma correnteza a fluir para si e duas correntezas a fluir de si, seu significado é o homem que dá mais do que recebe do mundo. A cabeça que possui uma correnteza fluindo para si e uma correnteza de si fluindo é o homem que dá do mundo na mesma medida em que deste recebe. A cabeça que viste com três correntezas a fluir para sua boca e uma correnteza a fluir desta é o homem que recebe muito e dá pouco e é o pior dos três. E agora come a tua refeição, ó Cormac”, disse Manannán.

Depois disso, Cormac, Cairbre, Ailbhe e Eithne sentaram-se e uma toalha foi estendida diante deles. “É algo de muito precioso isto que se encontra diante de ti, Cormac”, disse Manannán, “pois não há comida, por mais refinada que seja, que lhe possa ser solicitada que não seja certamente recebida”. “Isso é bom”, disse Cormac.

Depois disso, Manannán levou a mão a seu cinturão e trouxe dali um cálice e mostrou-o em sua palma. “É das virtudes desta taça”, disse Manannán, “que, ao ser dito diante dela um relato falso, quebre-se em quatro partes e, quando um relato verdadeiro for narrado diante dela, ficará inteira outra vez”. “Que seja demonstrado”, disse Cormac. “Isso será feito”, disse Manannán. “Essa mulher que levei de ti teve outro homem desde que a trouxe comigo”. Então o cálice quebrou-se em quatro partes. “Isso é uma mentira”, disse a esposa de Manannán, “digo que eles não viram homem nem mulher a não ser a si mesmos desde que te deixaram”. Esse relato era verdadeiro e o cálice ficou inteiro novamente.

Disse Cormac: “São coisas muito preciosas estas que possuis, ó Manannán”. “Seriam boas para ti”, respondeu Manannán, “portanto, todas as três serão tuas, ou seja, o cálice, o ramo e a toalha, em respeito à tua caminhada e à tua jornada neste dia. E come agora a tua refeição, pois, ainda que houvesse uma legião e uma multidão, neste lugar mesquinhez não encontrarias. E gentilmente vos saúdo a todos, pois fui eu quem sobre vós lançou um encantamento para que em amizade estivésseis comigo nesta noite.

Depois disso, ele comeu a sua refeição e boa foi essa refeição, pois não havia tipo de carne em que pensassem que não fosse encontrado na mesa nem tipo de bebida que imaginassem que não fosse encontrado na taça e profusamente agradeceram a Manannán. Contudo, quando eles haviam consumido a sua refeição, isto é, Cormac, Eithne, Albhe e Cairbre, um divã lhes foi preparado e foram dormir e dormiram docemente e onde acordaram foi na aprazível Liathdruim, com a sua toalha, a sua taça e o seu ramo.

E essa foi a peregrinação de Cormac e como ele obteve o seu ramo.

Leia também As Instruções de Cormac (Tecosca Cormaic).

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A Religião Céltica 3: Mitologia (Parte 2: Irlanda)

clip2_118dOs textos irlandeses mais ricos são:

a) o  Lebor Gabála Érenn (“Livro das Invasões de Ériu”);
b) as duas versões e as três redações do conto intitulado Cath Maighe Tuireadh (“A Batalha da Planície dos Pilares”);
c) o grupo de textos chamados Tochmarc Etaine (“A Corte a Étain”), Altrom Tighe Da Medar (“Nutrição da Casa do Dois Cálices”), Aislinge Óengusso (“O Sonho de Oengus”);
d) todos os textos do ciclo épico de Ulster, dos quais o principal é o Táin Bó Cúailnge (“Ataque às Vacas de Cuailnge”), juntamente com uma dúzia de remscéla (“contos preliminares” ou “prelúdios”);
e) por fim, embora de menor importância, os textos do mais tardio ciclo de Find mac Cumail (Fiannaidheacht), algumas vezes chamado “Ciclo Ossiânico” (de Oisin ou Ossian, filho do herói Find), que narra as aventuras do Fianna, grupo de cavaleiros seguidores de Find que viviam à margem da sociedade.

A mitologia irlandesa fundamenta-se nas cinco “invasões” míticas da ilha, que os fili transformaram em história. Cinco raças ocupam e tomam Ériu, cada uma delas cedendo lugar à seguinte depois de um cataclismo, epidemia ou grande batalha. Desse modo, sucederam-se (1) a raça da Partholon, (2) a de Nemed (“sagrado”), (3) a dos Fir Bolg (“homens de Bolg/Builg/Bolga/Bulga” [relâmpago?]), (4) as Tuatha Dé Danann e, por fim, (5) os Goidil (ancestrais dos atuais irlandeses).  Derrotadas em batalha pelos Goidil, as Tuatha Dé Danann refugiam-se nos montes funerários megalíticos, nas colinas e sob os lagos de Ériu.

O relato fundamental da mitologia céltica irlandesa é o Cath Maighe Tuireadh (“A Batalha da Planície dos Pilares”), que narra a luta dos deuses hibérnicos, ou Tuatha Dé Danann,  contra os gênios opressores e destruidores que são os Fomoiri.

Depois de uma primeira batalha contra os Fir Bolg, que lhes concedeu a soberania, as Tuatha Dé Danann são obrigadas a aceitar um rei meio-fomor, Bres, pois seu próprio rei, Nuada, teve seu braço direito decepado na batalha. Bres, porém, é um mau soberano, sofre a sátira de um file (Cairpre) e é obrigado a devolver a soberania. Esta é entregue a Nuada, que traz agora um braço de prata. Bres chama em sua ajuda os Fomoiri que, provenientes da Escandinávia, invadem Ériu. As Tuatha Dé Danann se salvam graças à intervenção de Lug (também meio-fomor), que organiza o combate, convocando todos  os “sábios” de Ériu: druidas, guerreiros, copeiros, poetas, videntes, artesãos, entre outros. Depois de uma enorme batalha, os Fomoiri são derrotados e Bres, para salvar sua vida, devolve a prosperidade a Ériu.

Esse relato, o correspondente céltico da guerra germânica entre Æsir e Vanir ou do conflito grego entre Deuses e Titãs, pode ser considerado um mito sobre a origem do mundo e, ao mesmo tempo, traz uma profecia sobre os últimos tempos. Seu cerne, em essência, é o tema da soberania legitimada por uma conquista violenta e guerreira.

O mesmo tema também inspira o ciclo de Étain (ou Eithne), rainha de Ériu e do Outro Mundo, dividida entre a soberania divina e a soberania humana, depois entre o paganismo e o cristianismo. A guerra, apesar da frequência e da ferocidade das batalhas, não é senão um elemento acessório. Não obstante a pulverização dos motivos mitológicos e a multiplicidade dos nomes divinos, a mitologia irlandesa cristaliza-se fortemente em torno de concepções que se ligam à primazia da autoridade espiritual e da soberania da classe sacerdotal.

Os temas especificamente guerreiros (e também míticos) concentram-se no ciclo épico, cuja principal narrativa, o Táin Bó Cúailnge (“Ataque às Vacas de Cuailnge”), conta a guerra empreendida por Medb, rainha de Connacht, aliada às outras províncias de Ériu, contra Ulaid, pela posse de um touro divino, o Castanho de Cualgne, que lhe fora recusado. O campeão de Ulaid, Cú Chulaind, defende sozinho a fronteira de sua província e impõe à rainha Medb um acordo pelo qual um guerreiro será enviado a cada manhã ao vau que separa as duas províncias. Na maior parte, essa Ilíada irlandesa narra os combates de Cú Chulaind contra um só adversário (combates singulares) e suas vitórias. Assim como Hêraklês é filho de Zeus, Cú Chulaind é filho de Lug e, embora seja rei dos guerreiros, não é um soberano.

Os escribas cristãos que redigiram os relatos mitológicos alteraram-nos em alguns pontos. Suprimiram quase sempre tudo que dizia respeito ao ritual, aos sacrifícios e às doutrinas contrárias aos ensinamentos bíblicos. Mesmo assim, o episódio que se segue, inserido no conto Siarburcharpat Conculaind (“A Carruagem-Fantasma de Cú Chulaind”) revela o que sentiam os irlandeses cristianizados: quando Pádraig tentou converter Lóegaire, rei de Temhair, este demonstrou um má-vontade obstinada. Exigiu, para acreditar em Cristo, que o santo lhe fizesse ver Cú Chulaind.  E o portento aconteceu: Cú Chulaind aparece, totalmente armado, com sua carruagem, cavalos e cocheiro. O teimoso rei é forçado à conversão pelo herói, que lhe descreve as delícias do Paraíso e os sofrimentos do Inferno.

Bellouesus /|\

Imram: etimologia

Immram, imrama (plural), iomramh (irlandês moderno)

A palavra se compõe de dois elementos: imm- e ram.

Imm-/imb- (irlandês antigo), um-, im-, mu; am- (galês); am-/em- (cónico, bretão), ambi/mbi (gaulês); amphí (grego). Preposição: ao redor de, em torno de. Usada como prefixo, tem valor intensivo.

Ram, um remo, rámha (irlandês moderno), ráme (irlandês antigo), *ra:mo- (irlandês primitivo); rhaw (uma pá, galês); re:mus (latim); eretmós (um remo, grego).

Assim, viagem não é uma tradução exata de “imram”, que significa a ação de remar intensamente, uma *remação forte.

Bellouesus /|\

Sobre o renascimento 4

Como os celtas não acreditavam em pecado ou na necessidade de ajustar contas morais, eles não tinham porque admitir que as pessoas voltassem a este mundo como regra geral e para o resgate de débitos passados. Se admito a reencarnação eu tenho, portanto, de imaginar para ela outra classe de justificativa. Esse é, para mim, o único senão.

Se pensarmos bem, a partir do momento em que não se admite a reencarnação, pode-se entender que o espírito é criado ao mesmo tempo que o corpo. Se o espírito é criado ao mesmo tempo que o corpo, não existem experiências prévias, não há sabedoria anteriormente adquirida, ninguém é mais sábio (mais velho, mais experiente) do que ninguém. Isso vale tanto para o homem como para os animais. Se os animais têm algum conhecimento especial, esse somente poderia ser o da espécie como um todo. Porém, como isso não se mostra no ser humano, não pode ser o caso. A não ser que o ente humano fosse uma espécie separada dentro (ou mesmo fora) da Natureza, o que é muito mais difícil de admitir.

Existiria a possibilidade da transmissão genética do conhecimento. Mas nós vemos muitas pessoas inteligentes e laboriosas que têm descendentes totalmente imprestáveis. Isso não se dá entre os animais. O ser humano então seria, mais uma vez, exceção.

Quaisquer que sejam as questões que nos coloquemos ante o problema da reencarnação, esta permanece uma possibilidade aceita no ensinamento antigo. Como é a mais contrária à Igreja Romana e somente permaneceu em duas menções na mitologia irlandesa (e referências obscuras em Gales) e era lembrada por algumas pessoas como ensino tradicional na época em que Evans-Wentz escrevia seu excelente The Faerie Faith in Celtic Countries, talvez essa tenha sido uma crença muito difundida num passado distante. Portanto, aceitá-la não me provoca dores de consciência. Ou seja, é um desenvolvimento que a tradição permite, que está dentro do que ela oferece.

Não penso que tenhamos de acreditar em tudo que os antigos acreditavam ou procurar fazer as coisas exatamente como eles faziam. Tenho algumas cabeças de cerâmica no meu altar, mas elas são apenas simbólicas. Nunca imaginaria dizer: “Ah, que saudade daqueles tempos em que ornávamos com crânios verdadeiros os portais dos santuários, aquilo sim era devoção!” Muitas das crenças dos celtas eram mera superstição, barulhenta e insossa, e os druidas antigos seguramente sabiam disso, mas respeitavam as inclinações do povo entre o qual viviam e ao qual deveriam servir. Deviam lucrar com isso. Jamais tento fazer dos druidas figuras míticas. Já ressaltei mais de uma vez, acho, que eles trabalhavam para viver e gostavam de ser bem pagos.

Admitindo que a reencarnação não seja obrigatória, ela se torna uma questão que envolve o principal dom que o Universo deu ao ser humano: o livre-arbítrio. Uma vez que tenhamos eliminado a reencarnação compulsória (como necessidade de purificação), a única razão para que uma alma retorne a este mundo é o exercício do seu livre-arbítrio, por motivos que apenas ela bem conhece. A Viagem de Bran Mac Febal e a Viagem de Máel Dúin mostram isso. Nos dois casos, grupos de homens escolhidos atravessam o oceano para chegar a um lugar de perfeição, o qual acabam abandonando unicamente por sua própria vontade. Eles não são expulsos, não são coagidos a partir de forma alguma. Eles o fazem porque assim desejam, porque não estão ainda prontos para habitar no estado de absoluta tranquilidade que encontraram. Quando a sua inquietação chega ao máximo, eles entram no barco e vêm dar às praias deste mundo. Eles não precisariam fazer isso. Mas fazem assim mesmo. Porque sentem uma necessidade íntima.

Essa é a diferença entre a reencarnação céltica e, digamos, a espírita: na primeira não há uma ênfase na necessidade de fazer reparações. O importante é a vontade de voltar para realizar outras coisas, provar a própria força, passar por novas experiências, aprender mais. A alma é impulsionada à frente pelo desejo. Sem este, haveria apenas uma eternidade apática e vazia no Outro Mundo. Seria algo como a noção que vulgarmente se tem do Céu cristão: você é um pessoa boa, morre, sua alma vai para o Céu e você passa o resto da eternidade vestindo uma camisola e tocando harpa com os anjos. Que noção assustadora esse descanso eterno!

Além disso, considere a alternância que se apresenta em todos os aspectos da compreensão céltica do tempo: meio ano de escuridão (de Samhain a Beltane), meio ano de luz (o inverso), cada mês com uma metade escura e outra luminosa, cada quinzena formada por uma sucessão de dias propícios e nefastos, cada noite com seu dia… Como seria possível conceber que a mente céltica – operando com ciclos de manifestação e de retorno ao não-manifesto – criasse a idéia de uma ida sem volta? E as ovelhas do conto de Peredur ab Efrawg (Peredur, filho de York), um dos romances galeses arturianos associados aos Mabinogi? Ali está escrito:

E ele foi em direção a um vale, pelo meio do qual corria um rio. E as extremidades do vale eram cobertas de árvores e, em cada lado do rio, havia campinas planas. E, num lado do rio, ele viu um rebanho de carneiros brancos e, no outro lado, um rebanho de carneiros negros. E, sempre que um dos carneiros brancos balia, um dos carneiros negros atravessava o rio e tornava-se branco; e, quando um dos carneiro negros balia, um dos carneiros brancos atravessava o rio e tornava-se negro. E ele viu uma alta árvore ao lado do rio, uma metade da qual estava em chamas da raiz à copa e a outra metade era verdejante e cheia de folhas. E, perto desse lugar, ele viu um jovem sentado numa colina e dois galgos de peitos brancos e malhados, em coleiras, lado a lado. E ele estava certo de jamais ter visto um jovem de aspecto tão nobre como esse. E, na floresta do outro lado, Peredur escutou galgos perseguindo uma manada de cervos. E Peredur saudou o jovem e o jovem cumprimentou-o em retribuição. E havia três estradas que partiam da colina; duas delas eram estradas largas e a terceira era mais estreita. E Peredur perguntou ao jovem aonde as estradas levavam. ‘Uma delas vai ao meu palácio’, disse o jovem, ‘e aconselho-te que faças uma de duas coisas: ou prosseguires até meu palácio, que está à tua frente e onde encontrarás minha esposa, ou permaneceres aqui para veres os galgos perseguindo os cervos espantados da floresta à planície. E verás os melhores cães de caça que jamais contemplaste (e os mais corajosos numa caçada) abaterem-nos perto da água ao nosso lado; e, quando chegar a hora da refeição, virá meu pajem com meu cavalo encontrar-me e descansarás em meu palácio nesta noite.’

‘Que o Céu te recompense, mas não posso demorar-me, pois devo seguir adiante.’

‘A outra estrada conduz à cidade que fica perto daqui e onde comida e bebida podem ser compradas. E a estrada que é mais estreita que as outras vai em direção à caverna do Addanc.’

Abrindo parênteses: o Addanc é um monstro lacustre da mitologia de Gales. Sua descrição varia: às vezes é um crocodilo, um castor ou uma criatura semelhante a um gnomo. O lago em que ele mora também varia: alguns dizem que seria Llyn Llion, ou Llyn Barfog, perto da Ponte Brynberian, ou Llyr yr Afanc (que recebeu o nome do monstro), perto de Betws-y-Coed (significa casa de oração na floresta, uma cidadezinha no vale do Conwy, no noroeste de Gales).

A grafia do nome também varia em galês moderno, dependendo da fonte. O galês medieval usava avanc, o moderno usa afanc, que agora significa apenas castor. A forma avanc/afanc é usada no Livro Vermelho de Hergest. No conto de Peredur (galês médio), do Livro Branco de Rhydderch, a criatura da caverna, como se viu, é chamada Addanc. A grafia mais comum, de longe, é afanc. Parênteses fechados.

Aí está o intercâmbio das almas entre os mundos. É possível ser mais claro? Não, porque a Igreja Romana teria proibido o livro. Mesmo assim…

Na Irlanda, o mesmo tema foi tratado de forma semelhante, como se vê em Immram Curaig Maele Duin (“A Viagem de Barco de Máel Dúin”):

Cedo, na manhã do terceiro dia depois disso, avistam uma outra ilha, com uma paliçada de bronze no meio que dividia a ilha em duas partes e ali percebem ao longe grandes rebanhos de carneiros, um negro no lado de cá do cercado e um rebanho branco no lado mais distante. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava um carneiro branco por cima da cerca deste lado para os carneiros negros, ele se tornava subitamente preto. Assim, quando ele lançava um carneiro negro sobre a cerca do lado mais distante, ele se tornava subitamente branco. ‘Isto que seria bom nós fazermos:’, disse Máel Dúin, ‘lancemos dois bastões na ilha. Se eles mudarem de cor, também decidiremos se desceremos à terra ou não.’ Assim, atiraram um bastão de casca preta no lado onde estavam os carneiros brancos e ele se tornou imediatamente branco. Então, lançaram um bastão descascado no lado onde estavam os carneiros negros e ele se tornou imediatamente preto.

‘Não afortunada foi essa experiência’, disse Máel Dúin. ‘Não desçamos à ilha. Sem dúvida, nossas cores não se sairiam melhor do que os bastões.’

Nos contos dos Mabinogi (Primeiro e Segundo Ramos), encontra-se um personagem chamado Pendaran Dyfed. No fim do mabinog de Pwyll, ele é um dos que estão à mesa do príncipe no momento em que Teyrnion Twrif Fliant devolve Pryderi a seus pais. Pwyll nomeia Pendaran pai adotivo de Pryderi. No Segundo Ramo, Pryderi é um dos que acompanham Bran, o Abençoado, à Irlanda, na expedição contra o rei Matholwch por causa dos maus-tratos infligidos a Branwen. Ao partirem, Bran nomeia sete ministros para que tomem conta da Ilha da Britânia enquanto ele estiver fora. Ora, o narrador afirma que Pendaran Dyfed permaneceu com esses sete como um jovem pajem. Depois, quando os guerreiros (apenas sete sobreviventes) voltam da batalha na Irlanda e descobrem que a Britânia tinha sido tomada por um usurpador e que não sobrevivera nenhum dos ministros do rei Bran, o narrador novamente diz que Pendaran Dyfed, que tinha permanecido como um jovem pajem entre eles, conseguiu escapar da matança realizada por Caraddawc entre os seguidores de Bran fugindo para a floresta. Não há menções posteriores a ele.

No Primeiro Ramo, Pendaran é importante o bastante para ocupar um lugar à mesa de Pwyll, íntimo e experiente o suficiente para que o príncipe lhe confiasse a educação do próprio filho. No Segundo Ramo, Pryderi já está crescido o bastante para ir à guerra, mas Pendaran é um jovem pajem (um menino ou adolescente) na corte do Grande Rei. Como se explica a contradição, o que ela quer mostrar? Como se explica que, no Primeiro Ramo, Pendaran fosse um homem maduro ou idoso, mas um menino no Segundo Ramo? Você já imagina a resposta. É possível ser mais claro? Não, porque a Igreja Romana teria proibido o livro. Mesmo assim… Jesus disse que era preciso ser uma criancinha para ganhar o Reino do Céu.

Jesus também disse que o Reino do Céu está dentro de nós. Essa é igualmente a posição da tradição céltica: se houver inquietude dentro de você, se a harmonia não estiver ali solidamente estabelecida, você não conseguirá permanecer para sempre no lugar da harmonia. E isso não é nenhum tipo de punição – os Deuses não julgam, por isso não perdoam, nem punem -, mas uma lei natural.

Nem todas as almas que fazem a viagem alcançam a Terra da Juventude, Tír na n-Óg. Algumas ficam presas nas ilhas intermediárias e somente aquelas que voltam da Terra da Juventude para este mundo conseguem tirá-las de lá. Uma das funções da instrução espiritual (para não empregar o termo iniciação) é fornecer um mapa do caminho e ensinar a evitar os perigos da jornada. Por esse motivo é ela mais fácil para aqueles que já possuem esse conhecimento. Os demais podem passar por grandes dificuldades lutando contra os demônios de suas próprias mentes, jamais avançando além de um ponto em que serão libertados pelos que estiverem fazendo o caminho do retorno. Essas são as pessoas que não têm a oportunidade de usar o livre-arbítrio, aquelas para as quais a reencarnação é compulsória (no sentido de que não tiveram a oportunidade de fazer uma escolha, enquanto os que voltam da Terra da Juventude fazem-no voluntariamente).

Penso que considerar a escolha como fator determinante na questão do renascimento concilie as opiniões conflitantes, a saber, se o renascimento é neste mundo ou no Outro Mundo. Apenas no Outro Mundo, se a alma se achar pronta para isso. Neste também, se a alma, não suportando indefinidamente o contato com a perfeição (e a Verdade) ou por outro motivo, achar necessário que seja assim.

Bellouesus /|\

Parte 1
Parte 2
Parte 3

A Viagem de Bran Mac Febal (Imram Brain maic Febail)

Texto original aqui.

Aqui embaixo a Viagem de Bran, filho de Febal, e sua Expedição

Foram cinquenta estrofes que a mulher de terras desconhecidas cantou no chão da casa de Bran, filho de Febal, quando a casa real estava cheia de reis, que não sabiam de onde viera a mulher, uma vez que as fortificações estavam fechadas.

Este é o começo da história. Certo dia, nas vizinhanças de sua fortaleza, Bran perambulava sozinho quando ouviu uma música atrás dele. Sempre que ele olhava para trás, era ainda atrás dele que a música estava. Por fim, ele caiu adormecido com a música, tal era sua suavidade. Quando ele despertou do sono, viu perto de si um ramo de prata com flores brancas e não era fácil distinguir suas flores do ramo. Bran então levou o ramo na mão para sua casa real.

Quando as multidões estavam na casa real, viram uma mulher em estranha vestimenta no chão da casa. Foi então que ela cantou as cinquenta estrofes para Bran, enquanto a multidão a escutava e todos contemplavam a mulher.

E ela disse:

“Um ramo da macieira de Emain
eu trago, como aqueles que se conhecem,
galhos de alva prata nele estão,
pontas cristalinas com florações.

“Há uma ilha distante
ao redor da qual cavalos-marinhos resplendem,
um percurso razoável contra brancas ondas que se erguem,
quatro pilares a sustentam.

“Uma delícia dos olhos, um glorioso espaço,
é a planície onde a multidão realiza jogos:
barcos combatem contra carruagem
na meridional Mag Findargat.

“Sob ela pés de bronze branco
brilhando através de belos séculos.
Terra adorável durante a vida do mundo
na qual pendem muitas flores.

“Há uma árvore antiga com flores
em que os pássaros chamam as horas:
é em harmonia que é seu costume
chamarem juntos cada hora.

“Esplendores de toda cor reluzem
pelas planícies de vozes gentis,
conhecida é a alegria, difundida com a música,
na meridional Mag Argatnél.

“Ignorados são o lamento ou a traição
na bem conhecida terra cultivada,
nada há bruto ou ríspido,
porém doce música atingindo o ouvido.

“Sem mágoa, sem tristeza, sem morte,
sem qualquer doença, sem debilidade,
esse é o sinal de Emain,
incomum é igual maravilha.

“Beleza de uma terra extraordinária,
cujos aspectos são encantadores,
cuja vista é um país luminoso,
incomparável é sua bruma.

“Então, se Aircthech for vista,
onde pedras-do-dragão e cristais abundam,
o mar atira a onda contra a terra,
fios de cristal caem de sua crina.

“Riqueza, tesouros de toda espécie,
estão em Ciuin, uma beleza de viço,
ouvindo a doce música,
bebendo o melhor dos vinhos.

“Carruagens douradas em Mag Réin,
subindo com o curso do Sol,
carruagens de prata em Mag Mon
e de bronze sem defeito.

“Corcéis de amarelo dourado na relva lá estão,
outros corcéis de coloração carmim,
outros com lã em seus lombos,
toda azul da cor do céu.

“Ali na aurora virá
um homem brilhante iluminando as terras baixas,
ele cavalga na bela planície banhada pelo mar,
ele agita o oceano até virar sangue.

“Uma multidão virá através do mar claro,
à terra mostram sua expedição,
eles então remam para a pedra notável
de que se eleva uma centena de melodias.

“Ela canta uma melodia para a multidão
durante longas eras, não é triste,
sua música aumenta com coros de centenas,
eles não procuram nem decadência, nem morte.

“Emne de muitas formas perto do mar,
quer esteja perto, quer esteja longe,
na qual estão muitos milhares de mulheres de várias cores
que o claro mar circunda.

“Se ele escutou a voz da música,
o coral dos passarinhos de Imchiuin,
um pequeno grupo de mulheres virá de um cume
à planície de divertimentos em que ele está.

“Virá felicidade com riqueza
para a terra onde ressoam gargalhadas,
para Imchiuin em cada estação
virá a alegria perene.

“É um dia de duradouro bom tempo
que derrama prata sobre as terras,
um rochedo de puro branco à margem do mar
que do Sol recebe seu calor.

“A corrida da multidão ao longo de Mag Mon,
um belo jogo, nada fraco,
na terra de muitas cores sobre uma quantidade de beleza,
eles não procuram por decadência, nem morte.

“Ouvindo a música à noite
e indo para Ildathach,
o esplendor de uma terra multi-colorida num diadema de beleza,
de onde reluz a branca nuvem.

“Há três vezes cinqüenta ilhas distantes
no oceano a oeste de nós;
maiores do que Éire duas vezes
ou três é cada uma delas.

“Depois de eras um grande nascimento ocorrerá,
que não será num lugar elevado,
o filho de uma mulher cujo companheiro não será
conhecido, ele tomará o governo dos muitos milhares.

“Um governo sem começo, sem fim,
ele criou o mundo, de modo que é perfeito,
dele são a terra e o mar,
ai daquele que recair sob sua ira!

“Foi ele quem fez os céus,
feliz o que tem um coração branco,
ele purificará multidões sob a água pura,
é ele quem curará tuas doenças.

“Não para todos vós é meu discurso,
embora sua grande maravilha tenha se tornado conhecida:
que Bran escute dentre a multidão do mundo
aquilo de sabedoria que lhe foi dito.

“Não caias num leito de indolência,
não permitas que a intoxicação te sobrepuje,
começa uma jornada pelo claro mar
se porventura desejares alcançar a Terra das Mulheres.”

Em seguida, a mulher partiu do meio deles, enquanto eles não sabiam de onde ela viera. E ela levou seu ramo consigo.

O ramo saltou da mão de Bran para a mão da mulher e não havia força na mão de Bran para segurar o ramo.

Então, no dia seguinte, Bran saiu para o mar. O número de seus homens era três companhias de nove. Um de seus irmãos adotivos e companheiros foi colocado no comando de cada grupo de nove. Quando ele havia estado no mar por dois dias e duas noites, viu um homem numa carruagem vindo em sua direção pelo mar, Esse homem também cantou-lhe trinta estrofes e apresentou-se-lhe e disse que era Manannan, o filho de Lir, e disse que lhe cabia ir à Irlanda depois de longos séculos e que um filho lhe nasceria, o próprio Mongan, filho de Fiachna – esse era o nome que ele teria.

Assim, cantou-lhe estas trinta estrofes:

“Bran julga uma admirável beleza
em seu barquinho pelo mar:
enquanto para mim, em minha carruagem que vem de longe,
é um campo florido em que ele viaja.

“O que é um evidente mar
para o leve barco com proa em que Bran está,
que é uma feliz campina com profusão de flores
para mim da carruagem de duas rodas.

“Bran vê
a quantidade de ondas quebrando pelo mar límpido:
eu próprio vejo em Mag Mon
flores de pétalas vermelhas sem defeito.

“Cavalos marinhos resplendem no verão
até onde Bran estendeu seu olhar:
rios vertem de uma torrente de mel
na terra de Manannan, filho de Lír.

“O reflexo do alto-mar onde estás,
o branco matiz do mar onde remas,
amarelo e anil estão espalhados,
é terra e não é acidentada.

“O salpicado salmão salta do ventre
do branco mar para onde olhas:
são novilhos, são cordeiros,
com amizade, sem mútua matança.

“Embora (somente) um auriga seja visto
em Mag Mell de muitas flores,
há muitos corcéis em sua superfície,
ainda que não vejas.

“O tamanho da planície, o número da multidão,
cores resplendem com pura glória,
um claro fluxo de prata, tecidos de ouro,
proporcionam bom acolhimento com toda abundância.

“Um belo jogo, maximamente agradável,
eles jogam, sentados sob a exuberante vinha,
homens e amáveis mulheres sob um arbusto,
sem pecado, sem crime.

“Ao longo do alto de uma árvore flutuou
teu barco através de cumes,
há uma árvore de belo fruto
sob a proa de teu barquinho.

“Uma árvore com flor e fruto
onde está o genuíno perfume do vinho,
uma árvore sem decadência, sem defeito,
onde há folhas de matiz dourado.

“Somos do princípio da criação,
sem velhice, sem o acabamento da terra,
por isso não esperamos que haja fraqueza,
o pecado não veio para nós.

“Um mau dia em que a Serpente chegou
ao pai em sua cidade!
Ela perverteu os tempos neste mundo,
assim veio a dissolução, que não era original.

“Pela ganância e luxúria ele nos matou,
Por meio dos quais ele arruinou sua nobre raça:
O corpo sem vida partiu para o recôncavo do tormento
E perene morada da tortura.

“É uma lei do orgulho neste mundo
acreditar nas criaturas, esquecer Deus,
a destruição por doenças e velhice,
a devastação da alma pela ilusão.

“Uma nobre salvação virá
do Rei que nos criou,
uma alva lei virá pelos mares;
além de ser Deus, ele será homem.

“Esta forma que tu vês
virá a tuas terras;
cabe-me viajar à casa dela,
à mulher em Line-Mag.

“Pois é Manannan, filho de Lír,
da carruagem na forma de um homem,
de sua descendência virá em pouquíssimo tempo
um brilhante homem num corpo de branca argila.

“Manannan, o descendente de Lír, será
um potente companheiro de leito para Caintigern:
ele será chamado a seu filho no belo mundo,
Fiachna o reconhecerá como seu filho.

“Ele será a delícia dos habitantes de cada monte encantado,
será o predileo de cada terra agrdável,
tornará conhecidos segredos – uma rota de sabedoria –
no mundo, sem ser temido.

“Ele ficará na forma de cada animal,
no mar azul e na terra.
Será um dragão ante exércitos na batalha,
será um lobo de toda grande floresta.

“Será um cervo com chifres de prata
na terra onde carruagens são conduzidas,
será um salmão salpicado num lago cheio,
será uma foca, será um cisne branco brilhante.

“Ele atravessará longos séculos
e centenas de anos em bela realeza,
ele derrubará batalhões – uma cova duradoura -,
ele avermelhará escudos, uma roda na estrada.

“Será próximo a reis com um campeão
que ele será conhecido como valente herói,
nas fortalezas de uma terra nas alturas
De Inslay enviarei um fim estabelecido.

“Alto eu o colocarei com príncipes,
ele será sobrepujado por um filho do erro;
Manannan, filho de Lír,
será seu pai, seu mentor.

“Ele ficará – curto será seu tempo –
cinqüenta anos neste mundo:
uma pedra-do-dragão do mar o matará
na luta em Sen Labor.

“Ele pedirá uma bebida de Loch Ló,
enquanto olha a torrente de sangue,
a branca multidão o tomará sob uma roda de nuvens
para a assembléia onde não há tristeza.

“Rapidamente, então, que Bran reme,
não distante da Terra das Mulheres,
Emain com nuances de hospitalidade
alcançarás antes do ocaso.”

Logo após, Bran o deixou. E ele viu uma ilha. Remou em volta dela e uma grande multidão estava olhando embasbacada e rindo. Estavam todos olhando para Bran e seus companheiros, mas não paravam para conversar com eles. Continuavam a explodir em risos diante deles. Bran enviou um do seu povo à ilha. Ele se misturou aos outros e ficou rindo deles como os outros homens da ilha. Ele continuou a remar ao redor da ilha. Sempre que seu companheiro passava por Bran, seus camaradas o chamavam. Mas ele não conversava com eles, somente os olhava e ficava boquiaberto. O nome dessa Ilha é Ilha da Alegria. Após isso, deixaram-no ali.

Não muito depois, chegaram à Terra das Mulheres. Viram a líder das mulheres no porto. Disse a chefe das mulheres: “Vem até aqui e, ó Bran, filho de Febal, bem-vinda é tua chegada!” Bran não se aventurou a ir até a margem. A mulher lançou uma bola de fio bem no rosto de Bran. Bran pôs sua mão na bola, que grudou na palma. O fio da bola estava na mão da mulher e ela puxou o barco em direção ao porto. Depois, eles entraram numa casa grande, onde havia uma cama para cada casal, três vezes nove camas. A comida que era colocada em cada prato não desaparecia dele. Pareceu-lhes que havia um ano que estavam ali – ocorre que fazia muitos anos. Nenhum gosto lhes fazia falta.

A saudade de casa tomou um deles, o próprio Nechtan, filho de Collbran. Seus parentes insistiram em pedir a Bran que voltasse à Irlanda com eles. A mulher disse que sua partida lhes traria arrependimento. Entretanto, eles foram e a mulher disse que nenhum deles deveria tocar a terra e que eles deveriam ir e apanhar o homem que haviam deixado na Ilha da Alegria.

Então, eles viajaram até chegarem a uma aglomeração de pessoas em Srub Brain. Os homens lhes perguntaram quem vinha pelo mar. Disse Bran: “Sou Bran, filho de Febal”, falou ele. Porém, os outros disseram: “Não sabemos quem é esse, mas a Viagem de Bran está em nossos antigos relatos.”

Nechtan então saltou do barco onde estavam. Assim que tocou a terra da Irlanda, imediatamente virou um monte de cinzas, como se houvesse estado dentro da terra por muitas centenas de anos.

“Para o filho de Collbran, grande foi a tolice
de erguer sua mão contra o tempo,
sem ninguém para lançar uma onda de pura água
sobre Nechtan, filho de Collbran.”

Depois disso, às pessoas na aglomeração Bran contou todas as suas aventuras, desde o começo até aquele momento. E ele escreveu essas estrofes em Ogham e disse-lhes adeus. E, a partir dessa hora, suas perambulações são desconhecidas.

Tradução: Bellouesus /|\