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Oração a Selene para qualquer feitiço

XXVII. Oração a Selene para qualquer feitiço (Papyri Graecae Magicae, IV.2785-2890)

Vem a mim, ó senhora amada, Selene de face tripla,
Ouve bondosamente os meus cantos sagrados;
Ornamento da noite, jovem, que luz trazes aos mortais,
Ó filha da aurora que montas touros bravios,
Ó rainha, que tua carruagem diriges num percurso apropriado
Junto a Hélios, que com as formas triplas
Das três Kárites danças em júbilo
Com as estrelas. És a justiça e os fios da Moira:
Klotho e Lakhesis e Átropos
Com três cabeças, és Perséphone, Megaira,
Allekto, das muitas formas, que munes as tuas mãos
Com candeeiros temíveis e sombrios, que agitas as tuas madeixas
De serpes assustadoras na tua fronte, que soas
O urro dos touros das tuas bocas, cujo ventre
Enfeita-se com as escamas de coisas que deslizam
Com fileiras de serpentes venenosas a descer pelas costas,
Tuas costas amarram-se com cadeias horrendas;
Aquela que grita na noite, com face de touro, amante da solidão
Com cabeça de touro, tens olhos de touro, a voz
Dos cães; ocultas as tuas formas em corpos de leões,
Teu tornozelo tem a forma do lobo, cães ferozes são caros
A ti, portanto és chamada Hékate,
A dos muitos nomes, Mene, cortando o ar
Como Ártemis lançadora de dardos, Perséphone,
Abatedora de gamos, a que brilha na noite, a que ressoa triplamente,
De três cabeças, Selene das três vozes,
Das três extremidades, das três faces, dos três pescoços
E Deusa das Vias Triplas, que guardas
Incansável fogo flamejante em cestos triplos
E tu, que frequentemente assombras o caminho triplo
E governas as décadas triplas, a mim
Que te estou chamando sê benigna e com gentileza
Dá-me atenção, tu, que proteges o mundo amplo
À noite, ante quem os demônios estremecem em pavor
E fremem os deuses imortais, deusa que
Exaltas os homens, tu, dos muitos nomes, que trazes
Uma bela prole, dos olhos de touro, com chifres, Mãe dos Deuses
E Homens, Mãe de Todas as Coisas,
Pois frequentas o Olimpo e o abismo
Amplo e ilimitado atravessas. O começo
E o fim tu és e sozinha tudo governas.
Pois todas as coisas vêm de ti e em ti
Todas as coisas, ó Eterna, chegam ao fim.
Como cinturão perene ao redor dos teus templos
Vestes as Correntes de Kronos, inquebráveis
E inamovíveis, e seguras
Em tuas mãos um cetro áureo. Em volta do teu cetro
As letras o próprio Kronos escreveu e deu-te
para usar a fim de que tudo permaneça firme.
Punidora e punida, Mestra da Humanidade
e Mestra do Poder, o Caos também governas.
Salve, ó deusa, e atende aos teus epítetos,
Queimo para ti estes aromas, ó Filha de Zeus,
Lançadora de Dardos, Celestial, Deusa dos Portos,
Tu, que vagueias pelas montanhas, Deusa das Encruzilhadas,
Ó Ctônica e Noturna e Infernal,
Deusa da treva, silenciosa e assustadora,
ò tu que tens o teu repasto entre as tumbas,
Noite, Escuridão, Amplo Caos: a necessidade
és tu, difícil de fugir; és a Moira e
a Erínia, Tormento, Justiça e Destruidora,
E manténs Kérberos acorrentado, com escamas
De serpentes és sombria, ó tu com o cabelo
De serpentes, envolta em serpentes, bebedora de sangue,
Que trazes morte e destruição e que te banqueteias
Com corações, Comedora de Carne, que devoras os mortos
Prematuros e tu que fazes ressoar o pranto
E espalhas a loucura, vem aos meus sacrifícios
E agora pra mim resolve esta questão.

Oferenda para o rito: para fazer o bem, ofereça estoraque, mirra, sálvia, franquincenso, um cesto de frutas; mas, para causar dano, ofereça partes de um cachorro e de um bode malhado (ou, de modo semelhante, de uma virgem morta prematuramente).

Encantamento protetivo para o rito: pega uma magnetita e grava nela uma Hécate de três faces. E a face do meio deve ser a de uma mulher jovem usando chifres e a esquerda, a de um cão e a da direita, a de um bode. Depois de gravar a imagem, limpa-a com natrão e água e mergulha-a no sangue de alguém que tenha morrido uma morte violenta. Faze então uma oferenda de comida e dize o mesmo feitiço no momento do ritual.

Hans Dieter Betz (ed.). The Greek Magical Papyri in Translation Including the Demotic Spells. Chicago: The University of Chicago Press, 1986.

Tradução do inglês: Bellouesus /|\

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O Filelenismo Gaulês – parte 1

ANFIPOLISFilelenismo: interesse ou estima pelas coisas gregas.

As relações culturais e linguísticas entre celtas e gregos eram tão fortes que, ao menos a partir do séc. IV a. C., estes começaram a perguntar-se qual seria o origem desses laços. Diversas hipóteses foram propostas, misturando, como seria de se esperar, a mitologia e a história às primeiras observações etnográficas (1).

Sem sombra de dúvida, a teoria mais popular era aquela que associava o próprio Hēraklēs à Gallia:

Relata-se que Hēraklēs, depois de haver arrebatado o gado de Geryon de Erythea, vagueava pelo país dos celtas e chegou à morada de Bretannos, que tinha uma filha chamada Keltinē. Keltinē apaixonou-se por Hēraklēs e escondeu o gado, recusando-se a devolvê-lo a não ser que ele antes a satisfizesse. É certo que Hēraklēs estava muito ansioso para levar o gado em segurança para casa, porém estava muito mais impressionado pela beleza da jovem e concordou com seus desejos. E então, quando se completou o tempo, nasceu-lhes um filho chamado Keltos, de quem toda a raça céltica recebeu o nome.

Parthénios de Nicaea, gramático e poeta grego do séc. I a. E. C., Erotica Pathemata (“Das Aflições do Amor”, II, 30)

Na mitologia grega, esse heroi surge como um grande colonizador. É ele quem comunica aos bárbaros os valores da civilização. Por todos os lugares onde passa, instauram-se duas instituições principais, fundamentais para a civilização em sentido grego, a “pólis” e o sacrifício animal. Por isso, acreditava-se que Hēraklēs se tivesse aventurado pelas regiões ocidentais, além do mundo conhecido.

Depois de ter ultrapassado o estreito de Gibraltar, onde teria deixado como lembranças as colunas que levam seu nome, foi à conquista dos bois de Geryon para conduzi-los ao Ocidente. Cabe uma observação quanto a esse ponto: os bovinos são animais ligados de modo muito íntimo ao trabalho humano e oferendas agradáveis aos deuses olímpicos. Com sua passagem, esses animais marcam a fundação de vilas, cidades e santuários e a abolição do sacrifício humano.

Na Gallia, Hêraklês teria realizado outros trabalhos e deixado vários traços de sua passagem. O mais significativo é o de ordem amorosa, visto acima. O historiador grego Diódōros Sikeliṓtēs (Bibliotheca Historica, V, 24) acrescenta outras informações ao relato do poeta Parthénios:

Uma vez que temos estabelecido os fatos relativos às ilhas que se encontram nas regiões ocidentais, consideramos que não será estranho para nosso propósito discutir brevemente as tribos da Europa que estão próximas delas e que não mencionamos em nossos livros anteriores. Eis que a Kéltikē foi governada no passado, assim se conta, por um homem de renome, que tinha uma filha de estatura incomum e que de longe excedia em beleza a todas as demais donzelas. Mas ela, por causa de sua força física e beleza maravilhosa, era tão arrogante que se negava a cada homem que pretendia sua mão, pois acreditava que nenhum de seus pretendentes era digno dela. Então, no curso de sua campanha contra os Geryones (2), Hēraklēs visitou a Kéltikē e fundou ali a cidade de Alésia e a jovem, ao ver Hēraklēs, admirou sua intrepidez e superioridade corporal e aceitou seus abraços com toda avidez, os pais dela tendo dado o seu consentimento. Dessa união, ela deu à luz um filho chamado Gálates, que sobrepujou em muito todos os jovens da tribo em presença de espírito e força do corpo. E, quando ele tinha alcançado a idade adulta, subiu ao trono de seus pais, subjugou uma grande parte do território vizinho e realizou grandes feitos de guerra. Tornando-se famoso por sua bravura, ele chamou seus súditos gálatas ou gauleses de seu próprio nome e estes, por sua vez, deram seu nome a todos os da Galátia ou Gallia.

(2) Etnografia: ramo das ciências humanas que tem por objeto o estudo descritivo das etnias.
(3) No plural porque o rei Geryon era um gigante com três cabeças e corpo triplo até a cintura.

A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

Esperando pelos Bárbaros

basilius

Περιμένοντας τους Bαρβάρους

— Τι περιμένουμε στην αγορά συναθροισμένοι;

Είναι οι βάρβαροι να φθάσουν σήμερα.

— Γιατί μέσα στην Σύγκλητο μια τέτοια απραξία;
Τι κάθοντ’ οι Συγκλητικοί και δεν νομοθετούνε;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα.
Τι νόμους πια θα κάμουν οι Συγκλητικοί;
Οι βάρβαροι σαν έλθουν θα νομοθετήσουν.

— Γιατί ο αυτοκράτωρ μας τόσο πρωί σηκώθη,
και κάθεται στης πόλεως την πιο μεγάλη πύλη
στον θρόνο επάνω, επίσημος, φορώντας την κορώνα;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα.
Κι ο αυτοκράτωρ περιμένει να δεχθεί
τον αρχηγό τους. Μάλιστα ετοίμασε
για να τον δώσει μια περγαμηνή. Εκεί
τον έγραψε τίτλους πολλούς κι ονόματα.

— Γιατί οι δυο μας ύπατοι κ’ οι πραίτορες εβγήκαν
σήμερα με τες κόκκινες, τες κεντημένες τόγες·
γιατί βραχιόλια φόρεσαν με τόσους αμεθύστους,
και δαχτυλίδια με λαμπρά, γυαλιστερά σμαράγδια·
γιατί να πιάσουν σήμερα πολύτιμα μπαστούνια
μ’ ασήμια και μαλάματα έκτακτα σκαλιγμένα;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα·
και τέτοια πράγματα θαμπώνουν τους βαρβάρους.

—Γιατί κ’ οι άξιοι ρήτορες δεν έρχονται σαν πάντα
να βγάλουνε τους λόγους τους, να πούνε τα δικά τους;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα·
κι αυτοί βαρυούντ’ ευφράδειες και δημηγορίες.

— Γιατί ν’ αρχίσει μονομιάς αυτή η ανησυχία
κ’ η σύγχυσις. (Τα πρόσωπα τι σοβαρά που εγίναν).
Γιατί αδειάζουν γρήγορα οι δρόμοι κ’ η πλατέες,
κι όλοι γυρνούν στα σπίτια τους πολύ συλλογισμένοι;

Γιατί ενύχτωσε κ’ οι βάρβαροι δεν ήλθαν.
Και μερικοί έφθασαν απ’ τα σύνορα,
και είπανε πως βάρβαροι πια δεν υπάρχουν.

Και τώρα τι θα γένουμε χωρίς βαρβάρους.
Οι άνθρωποι αυτοί ήσαν μια κάποια λύσις.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

Esperando pelos Bárbaros

O que esperamos, reunidos no Forum?

Os bárbaros deveriam estar aqui hoje.

Por que nada está acontecendo no Senado?
Por que ali se assentam  os senadores sem legislar?

Porque os bárbaros estão chegando hoje.
Que leis podem os senadores fazer agora?
Uma vez que aqui estejam os bárbaros, eles farão as leis.

Por que se levantou tão cedo nosso imperador,
e por que no portão principal da cidade senta-se ele
em seu trono, paramentado, usando a coroa?

Porque os bárbaros estão chegando hoje
e o imperador aguarda para recepcionar seu líder.
Até mesmo preparou um pergaminho para dar-lhe,
cheio de títulos, com nomes pomposos.

Por que nossos dois cônsules e pretores hoje saíram
trajando suas togas bordadas, suas togas carmins?
Por que puseram braceletes com tantas ametistas,
e anéis que reluzem com esmeraldas magníficas?
Por que trazem eles bastões elegantes
lindamente trabalhados em prata e ouro?

Porque os bárbaros estão chegando hoje
e coisas assim deslumbram os bárbaros.

Por que não se adiantaram como de costume nossos mais primorosos oradores
a fazer suas arengas, dizer o que têm de dizer?

Porque os bárbaros estão chegando hoje
e aborrecem-nos a oratória e os discursos públicos.

Por que esta inquietação súbita, esta confusão?
(Como ficaram sérios os rostos das pessoas.)
Por que se esvaziam tão rapidamente ruas e praças,
todos indo para casa tão perdidos em pensamentos?

Porque a noite caiu e os bárbaros não vieram.
E alguns que recém voltaram da fronteira contam
que já não há mais bárbaros.

E agora, que nos acontecerá sem bárbaros?
Eles eram, essas pessoas, um tipo de solução.

Constantine P. Cavafy (poeta grego, 29/04/1863 – 29/04/1933)

Tradução: Bellouesus /|\

Ítaca

fat

Ιθάκη

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους·
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·
σε πόλεις Aιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.
Aλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

Ítaca

Ao partires para Ítaca,
esperas que a viagem seja longa,
cheia de aventura, cheia de descobertas.
Lestrigões e Ciclopes,
Posêidon furioso – não os temas:
jamais encontrarás coisas como essas em teu caminho
enquanto mantiveres teus pensamentos para cima,
enquanto uma excitação incomum sacudir teu espírito e teu corpo.
Lestrigões e Ciclopes,
Posêidon bravio – não os encontrarás
a menos que os tragas dentro da tua alma,
a menos que tua alma coloque-os diante de ti.

Esperas que a viagem seja longa.
Que haja muitas manhãs de verão quando,
com tanto prazer, com tanta alegria,
adentrares portos vistos pela primeira vez;
que te detenhas nos postos comerciais fenícios
para comprar finos artigos,
madrepérola e coral, âmbar e ébano,
perfumes sensuais de todos os tipos –
tantos perfumes sensuais quantos puderes;
e que visites muitas cidades egípcias
para encheres depósitos do conhecimento de seus sábios.

Mantém Ítaca sempre em tua mente.
Chegar ali é o que te cabe.
Contudo, de modo algum te apresses na jornada.
Melhor é que ela dure por anos,
para que sejas velho quando quando alcançares a ilha,
rico de tudo o que obtiveste no caminho,
sem esperares que Ítaca te faça rico.

Ítaca proporcionou-te a viagem maravilhosa.
Sem ela, não terias partido.
Nada lhe foi deixado para dar-te agora.

E, se ela parecer-te pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, tão cheio de experiência,
terás então compreendido o que essas Ítacas significam.

Constantine P. Cavafy (poeta grego, 29/04/1863 – 29/04/1933)

Tradução: Bellouesus /|\

Druida e drui

anglesey-druids

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, III, 15: Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, VI, 14: Os druidas obtiveram a isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os  druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pomponius Mela, De Chorographia, III, 14-15: Restam ainda traços de costumes atrozes não mais praticados e, conquanto agora se abstenham de matança aberta, ainda derramam o sangue de vítimas levadas ao altar. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas.

Strabon, Geographica, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participam de guerras (” obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio é livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais impendem”);
c) são contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhem espontaneamente ser druidas ou são levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) são professores;
f) atravessam um longo período de treinamento;
g) são letrados, embora optem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinam geografia (“o tamanho e a forma do mundo”), astronomia (“o movimento das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” voltou ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica, especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”. Desse trecho de Caesar saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

Bellouesus /|\