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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma “interpretatio graeca” e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (“funera sunt […] magnifica et sumptuosa”), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, “uita altera ad manes”). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena (“[…] sed ab aliis post mortem transire ad alios”). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (“regit idem spiritus artus orbe alio”). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [‘síd’] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [‘áes síde’]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. “Teatro Selecto de Calderón de la Barca”. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25 e “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). “Alexándrou Anábasis”, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). “De Chorographia”, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (“olim”, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. “De Chorographia”, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), “Bibliotheca histórica”, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – c. 24 EC). “Rerum Geographicarum Libri XVII”, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). “Factorum et Dictorum Memorabilium”, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). “De Bello Ciuili uel Pharsaliae”, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). “De Vita Pythagorica”, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos “rishis” indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). “Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton”, I, 6.

16) “Pythagorica Hypomnemata”.

17) Hippolytus (170–235 EC). “Refutatio Omnium Haeresium”, I, 22.

18) “Stromata”, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) “Aduersus Iulianum”.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), “Punicorum Libri Septemdecim”, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). “Descriptio Graeciae”, X, 21, 6.

22) “Echtra Condla”, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

 

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Oração a Selene para qualquer feitiço

XXVII. Oração a Selene para qualquer feitiço (Papyri Graecae Magicae, IV.2785-2890)

Vem a mim, ó senhora amada, Selene de face tripla,
Ouve bondosamente os meus cantos sagrados;
Ornamento da noite, jovem, que luz trazes aos mortais,
Ó filha da aurora que montas touros bravios,
Ó rainha, que tua carruagem diriges num percurso apropriado
Junto a Hélios, que com as formas triplas
Das três Kárites danças em júbilo
Com as estrelas. És a justiça e os fios da Moira:
Klotho e Lakhesis e Átropos
Com três cabeças, és Perséphone, Megaira,
Allekto, das muitas formas, que munes as tuas mãos
Com candeeiros temíveis e sombrios, que agitas as tuas madeixas
De serpes assustadoras na tua fronte, que soas
O urro dos touros das tuas bocas, cujo ventre
Enfeita-se com as escamas de coisas que deslizam
Com fileiras de serpentes venenosas a descer pelas costas,
Tuas costas amarram-se com cadeias horrendas;
Aquela que grita na noite, com face de touro, amante da solidão
Com cabeça de touro, tens olhos de touro, a voz
Dos cães; ocultas as tuas formas em corpos de leões,
Teu tornozelo tem a forma do lobo, cães ferozes são caros
A ti, portanto és chamada Hékate,
A dos muitos nomes, Mene, cortando o ar
Como Ártemis lançadora de dardos, Perséphone,
Abatedora de gamos, a que brilha na noite, a que ressoa triplamente,
De três cabeças, Selene das três vozes,
Das três extremidades, das três faces, dos três pescoços
E Deusa das Vias Triplas, que guardas
Incansável fogo flamejante em cestos triplos
E tu, que frequentemente assombras o caminho triplo
E governas as décadas triplas, a mim
Que te estou chamando sê benigna e com gentileza
Dá-me atenção, tu, que proteges o mundo amplo
À noite, ante quem os demônios estremecem em pavor
E fremem os deuses imortais, deusa que
Exaltas os homens, tu, dos muitos nomes, que trazes
Uma bela prole, dos olhos de touro, com chifres, Mãe dos Deuses
E Homens, Mãe de Todas as Coisas,
Pois frequentas o Olimpo e o abismo
Amplo e ilimitado atravessas. O começo
E o fim tu és e sozinha tudo governas.
Pois todas as coisas vêm de ti e em ti
Todas as coisas, ó Eterna, chegam ao fim.
Como cinturão perene ao redor dos teus templos
Vestes as Correntes de Kronos, inquebráveis
E inamovíveis, e seguras
Em tuas mãos um cetro áureo. Em volta do teu cetro
As letras o próprio Kronos escreveu e deu-te
para usar a fim de que tudo permaneça firme.
Punidora e punida, Mestra da Humanidade
e Mestra do Poder, o Caos também governas.
Salve, ó deusa, e atende aos teus epítetos,
Queimo para ti estes aromas, ó Filha de Zeus,
Lançadora de Dardos, Celestial, Deusa dos Portos,
Tu, que vagueias pelas montanhas, Deusa das Encruzilhadas,
Ó Ctônica e Noturna e Infernal,
Deusa da treva, silenciosa e assustadora,
ò tu que tens o teu repasto entre as tumbas,
Noite, Escuridão, Amplo Caos: a necessidade
és tu, difícil de fugir; és a Moira e
a Erínia, Tormento, Justiça e Destruidora,
E manténs Kérberos acorrentado, com escamas
De serpentes és sombria, ó tu com o cabelo
De serpentes, envolta em serpentes, bebedora de sangue,
Que trazes morte e destruição e que te banqueteias
Com corações, Comedora de Carne, que devoras os mortos
Prematuros e tu que fazes ressoar o pranto
E espalhas a loucura, vem aos meus sacrifícios
E agora pra mim resolve esta questão.

Oferenda para o rito: para fazer o bem, ofereça estoraque, mirra, sálvia, franquincenso, um cesto de frutas; mas, para causar dano, ofereça partes de um cachorro e de um bode malhado (ou, de modo semelhante, de uma virgem morta prematuramente).

Encantamento protetivo para o rito: pega uma magnetita e grava nela uma Hécate de três faces. E a face do meio deve ser a de uma mulher jovem usando chifres e a esquerda, a de um cão e a da direita, a de um bode. Depois de gravar a imagem, limpa-a com natrão e água e mergulha-a no sangue de alguém que tenha morrido uma morte violenta. Faze então uma oferenda de comida e dize o mesmo feitiço no momento do ritual.

Hans Dieter Betz (ed.). The Greek Magical Papyri in Translation Including the Demotic Spells. Chicago: The University of Chicago Press, 1986.

Tradução do inglês: Bellouesus /|\

O Filelenismo Gaulês – parte 1

ANFIPOLISFilelenismo: interesse ou estima pelas coisas gregas.

As relações culturais e linguísticas entre celtas e gregos eram tão fortes que, ao menos a partir do séc. IV a. C., estes começaram a perguntar-se qual seria o origem desses laços. Diversas hipóteses foram propostas, misturando, como seria de se esperar, a mitologia e a história às primeiras observações etnográficas (1).

Sem sombra de dúvida, a teoria mais popular era aquela que associava o próprio Hēraklēs à Gallia:

Relata-se que Hēraklēs, depois de haver arrebatado o gado de Geryon de Erythea, vagueava pelo país dos celtas e chegou à morada de Bretannos, que tinha uma filha chamada Keltinē. Keltinē apaixonou-se por Hēraklēs e escondeu o gado, recusando-se a devolvê-lo a não ser que ele antes a satisfizesse. É certo que Hēraklēs estava muito ansioso para levar o gado em segurança para casa, porém estava muito mais impressionado pela beleza da jovem e concordou com seus desejos. E então, quando se completou o tempo, nasceu-lhes um filho chamado Keltos, de quem toda a raça céltica recebeu o nome.

Parthénios de Nicaea, gramático e poeta grego do séc. I a. E. C., Erotica Pathemata (“Das Aflições do Amor”, II, 30)

Na mitologia grega, esse heroi surge como um grande colonizador. É ele quem comunica aos bárbaros os valores da civilização. Por todos os lugares onde passa, instauram-se duas instituições principais, fundamentais para a civilização em sentido grego, a “pólis” e o sacrifício animal. Por isso, acreditava-se que Hēraklēs se tivesse aventurado pelas regiões ocidentais, além do mundo conhecido.

Depois de ter ultrapassado o estreito de Gibraltar, onde teria deixado como lembranças as colunas que levam seu nome, foi à conquista dos bois de Geryon para conduzi-los ao Ocidente. Cabe uma observação quanto a esse ponto: os bovinos são animais ligados de modo muito íntimo ao trabalho humano e oferendas agradáveis aos deuses olímpicos. Com sua passagem, esses animais marcam a fundação de vilas, cidades e santuários e a abolição do sacrifício humano.

Na Gallia, Hêraklês teria realizado outros trabalhos e deixado vários traços de sua passagem. O mais significativo é o de ordem amorosa, visto acima. O historiador grego Diódōros Sikeliṓtēs (Bibliotheca Historica, V, 24) acrescenta outras informações ao relato do poeta Parthénios:

Uma vez que temos estabelecido os fatos relativos às ilhas que se encontram nas regiões ocidentais, consideramos que não será estranho para nosso propósito discutir brevemente as tribos da Europa que estão próximas delas e que não mencionamos em nossos livros anteriores. Eis que a Kéltikē foi governada no passado, assim se conta, por um homem de renome, que tinha uma filha de estatura incomum e que de longe excedia em beleza a todas as demais donzelas. Mas ela, por causa de sua força física e beleza maravilhosa, era tão arrogante que se negava a cada homem que pretendia sua mão, pois acreditava que nenhum de seus pretendentes era digno dela. Então, no curso de sua campanha contra os Geryones (2), Hēraklēs visitou a Kéltikē e fundou ali a cidade de Alésia e a jovem, ao ver Hēraklēs, admirou sua intrepidez e superioridade corporal e aceitou seus abraços com toda avidez, os pais dela tendo dado o seu consentimento. Dessa união, ela deu à luz um filho chamado Gálates, que sobrepujou em muito todos os jovens da tribo em presença de espírito e força do corpo. E, quando ele tinha alcançado a idade adulta, subiu ao trono de seus pais, subjugou uma grande parte do território vizinho e realizou grandes feitos de guerra. Tornando-se famoso por sua bravura, ele chamou seus súditos gálatas ou gauleses de seu próprio nome e estes, por sua vez, deram seu nome a todos os da Galátia ou Gallia.

(2) Etnografia: ramo das ciências humanas que tem por objeto o estudo descritivo das etnias.
(3) No plural porque o rei Geryon era um gigante com três cabeças e corpo triplo até a cintura.

A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

Esperando pelos Bárbaros

basilius

Περιμένοντας τους Bαρβάρους

— Τι περιμένουμε στην αγορά συναθροισμένοι;

Είναι οι βάρβαροι να φθάσουν σήμερα.

— Γιατί μέσα στην Σύγκλητο μια τέτοια απραξία;
Τι κάθοντ’ οι Συγκλητικοί και δεν νομοθετούνε;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα.
Τι νόμους πια θα κάμουν οι Συγκλητικοί;
Οι βάρβαροι σαν έλθουν θα νομοθετήσουν.

— Γιατί ο αυτοκράτωρ μας τόσο πρωί σηκώθη,
και κάθεται στης πόλεως την πιο μεγάλη πύλη
στον θρόνο επάνω, επίσημος, φορώντας την κορώνα;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα.
Κι ο αυτοκράτωρ περιμένει να δεχθεί
τον αρχηγό τους. Μάλιστα ετοίμασε
για να τον δώσει μια περγαμηνή. Εκεί
τον έγραψε τίτλους πολλούς κι ονόματα.

— Γιατί οι δυο μας ύπατοι κ’ οι πραίτορες εβγήκαν
σήμερα με τες κόκκινες, τες κεντημένες τόγες·
γιατί βραχιόλια φόρεσαν με τόσους αμεθύστους,
και δαχτυλίδια με λαμπρά, γυαλιστερά σμαράγδια·
γιατί να πιάσουν σήμερα πολύτιμα μπαστούνια
μ’ ασήμια και μαλάματα έκτακτα σκαλιγμένα;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα·
και τέτοια πράγματα θαμπώνουν τους βαρβάρους.

—Γιατί κ’ οι άξιοι ρήτορες δεν έρχονται σαν πάντα
να βγάλουνε τους λόγους τους, να πούνε τα δικά τους;

Γιατί οι βάρβαροι θα φθάσουν σήμερα·
κι αυτοί βαρυούντ’ ευφράδειες και δημηγορίες.

— Γιατί ν’ αρχίσει μονομιάς αυτή η ανησυχία
κ’ η σύγχυσις. (Τα πρόσωπα τι σοβαρά που εγίναν).
Γιατί αδειάζουν γρήγορα οι δρόμοι κ’ η πλατέες,
κι όλοι γυρνούν στα σπίτια τους πολύ συλλογισμένοι;

Γιατί ενύχτωσε κ’ οι βάρβαροι δεν ήλθαν.
Και μερικοί έφθασαν απ’ τα σύνορα,
και είπανε πως βάρβαροι πια δεν υπάρχουν.

Και τώρα τι θα γένουμε χωρίς βαρβάρους.
Οι άνθρωποι αυτοί ήσαν μια κάποια λύσις.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

Esperando pelos Bárbaros

O que esperamos, reunidos no Forum?

Os bárbaros deveriam estar aqui hoje.

Por que nada está acontecendo no Senado?
Por que ali se assentam  os senadores sem legislar?

Porque os bárbaros estão chegando hoje.
Que leis podem os senadores fazer agora?
Uma vez que aqui estejam os bárbaros, eles farão as leis.

Por que se levantou tão cedo nosso imperador,
e por que no portão principal da cidade senta-se ele
em seu trono, paramentado, usando a coroa?

Porque os bárbaros estão chegando hoje
e o imperador aguarda para recepcionar seu líder.
Até mesmo preparou um pergaminho para dar-lhe,
cheio de títulos, com nomes pomposos.

Por que nossos dois cônsules e pretores hoje saíram
trajando suas togas bordadas, suas togas carmins?
Por que puseram braceletes com tantas ametistas,
e anéis que reluzem com esmeraldas magníficas?
Por que trazem eles bastões elegantes
lindamente trabalhados em prata e ouro?

Porque os bárbaros estão chegando hoje
e coisas assim deslumbram os bárbaros.

Por que não se adiantaram como de costume nossos mais primorosos oradores
a fazer suas arengas, dizer o que têm de dizer?

Porque os bárbaros estão chegando hoje
e aborrecem-nos a oratória e os discursos públicos.

Por que esta inquietação súbita, esta confusão?
(Como ficaram sérios os rostos das pessoas.)
Por que se esvaziam tão rapidamente ruas e praças,
todos indo para casa tão perdidos em pensamentos?

Porque a noite caiu e os bárbaros não vieram.
E alguns que recém voltaram da fronteira contam
que já não há mais bárbaros.

E agora, que nos acontecerá sem bárbaros?
Eles eram, essas pessoas, um tipo de solução.

Constantine P. Cavafy (poeta grego, 29/04/1863 – 29/04/1933)

Tradução: Bellouesus /|\

Ítaca

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Ιθάκη

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους·
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·
σε πόλεις Aιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.
Aλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

Ítaca

Ao partires para Ítaca,
esperas que a viagem seja longa,
cheia de aventura, cheia de descobertas.
Lestrigões e Ciclopes,
Posêidon furioso – não os temas:
jamais encontrarás coisas como essas em teu caminho
enquanto mantiveres teus pensamentos para cima,
enquanto uma excitação incomum sacudir teu espírito e teu corpo.
Lestrigões e Ciclopes,
Posêidon bravio – não os encontrarás
a menos que os tragas dentro da tua alma,
a menos que tua alma coloque-os diante de ti.

Esperas que a viagem seja longa.
Que haja muitas manhãs de verão quando,
com tanto prazer, com tanta alegria,
adentrares portos vistos pela primeira vez;
que te detenhas nos postos comerciais fenícios
para comprar finos artigos,
madrepérola e coral, âmbar e ébano,
perfumes sensuais de todos os tipos –
tantos perfumes sensuais quantos puderes;
e que visites muitas cidades egípcias
para encheres depósitos do conhecimento de seus sábios.

Mantém Ítaca sempre em tua mente.
Chegar ali é o que te cabe.
Contudo, de modo algum te apresses na jornada.
Melhor é que ela dure por anos,
para que sejas velho quando quando alcançares a ilha,
rico de tudo o que obtiveste no caminho,
sem esperares que Ítaca te faça rico.

Ítaca proporcionou-te a viagem maravilhosa.
Sem ela, não terias partido.
Nada lhe foi deixado para dar-te agora.

E, se ela parecer-te pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, tão cheio de experiência,
terás então compreendido o que essas Ítacas significam.

Constantine P. Cavafy (poeta grego, 29/04/1863 – 29/04/1933)

Tradução: Bellouesus /|\