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Arekailaχtā Petruprennon – O Oráculo das Quatro Árvores

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litus 5

Arekailaχtā Petruprennon – O Oráculo das Quatro Árvores

Bellou̯esus Īsarnos

Apresentado no IV Encontro Paulista de Druidismo e Reconstrucionismo Céltico – São Paulo/SP – 08/10/2017

Instruções

Oração antes dos Estudos

A recitação desta prece deve sempre anteceder o estudos, meditações e quaisquer práticas ligadas às atividades do Nemeton Belenī, por mais corriqueiras e banais que pareçam, e ser acompanhada pelo gesto da Aveleira.

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Oração antes dos Estudos

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste da Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos.

Coll, a Aveleira, representa o Conhecimento e a Inspiração que devem ser buscados pelo estudante a cada momento. Faça do seu tempo de estudo uma oferenda aos Deuses, dedicada a refletir a respeito deles e honrá-los.

Instruções

§1 Este oráculo pode ser usado para elucidar a mensagem de outra ferramenta divinatória ou independentemente.

§2 Cinco árvores são necessárias para realizar a divinação, havendo um número associado a cada árvore.

§3 Tais árvores e os números a elas associados são: 1 – Betu̯ā, “bétula”: B(eith); 3 – U̯ernos, “amieiro”: F(ern); 4 – Salikos, “salgueiro”: S(ail) e 6 – Outos, “terror” (Skwiiatos, “espinheiro-branco”): H(úath).

§4 Os caracteres que lhes são correspondentes devem ser inscritos em bastões assim confeccionados:

litus 2

litus 3

§5 A extremidade vermelha será considerada como a superior.

§6 Dados comuns de seis faces também podem ser usados; nesse caso, apenas os resultados 1, 3, 4 e 6 serão considerados.

§7 Um só bastão ogâmico pode ser jogado cinco vezes para fornecer as cinco árvores necessárias à divinação; um só dado pode ser jogado cinco vezes para fornecer os cinco números necessários à divinação.

§8 Se dados forem usados e oferecerem os resultados 2 ou 5, deve-se jogá-los novamente até que surja um resultado passível de uso.

§9 Antes da consulta ao oráculo, o Rito Divinatório deve ser realizado. Se o oráculo for usado como meio para esclarecer a mensagem de outra ferramenta divinatória, o Rito Divinatório  será desnecessário. Se o oráculo for usado independentemente, o Rito Divinatório envolverá os bastões/dados.

§10 Lugus e sobretudo Belenos regem este oráculo. Antes de jogar os bastões/dados, acrescente ao Rito Divinatório esta prece:

Belene Arī Lugusk, u̯edete kamman!
Tī, kenχte, sepomos: tause.
U̯esu̯an lubi arekailī.
Belenos Argi̯os roedamēeore,
Sindan eχs senisamonbi arekailāχtan.

Senhor Belenos e Lugus, guiai o caminho!
A ti, que caminhas, dizemos: silencia.
Aproveita a excelência do oráculo.
Deu-o a nós Belenos Brilhante,
Esta arte divinatória dos ancestrais.

Regentes dos jogos oraculares

Belenos: dēu̯os da cura e da profecia.
Lugus: dēu̯os dos juramentos, leis e jogos.
Adsaχsonā: “Intercessora”, dēu̯ā da justiça e da profecia.
Brigindū: dēu̯ā dos ofícios, do conhecimento e da estratégia, controladora dos jogos oraculares em seu aspecto triplo.
Trīs Brigindones (Brigindū Dubus, “Negra”, Brigindū Klou̯odānus, “Famosa-por-seu-Dom”, Brigindū Kēros, “Sorveira”): a dēu̯ā Brigindū em seu aspecto triplo, regente do avispício (presságios tirados do voo ou canto das aves) e dos jogos oraculares.

litus 4

Arekailaχtā Petruprennon

O Oráculo das Quatro Árvores

1 Dados: 1.1.1.1.1 = 5
Deidade: Taranus Ouχsamos (Taranus, o Mais Alto)
Oráculo: Se vês cinco bétulas: Taranus inspirará bons pensamentos à tua mente, peregrino; concederá felicidade ao teu trabalho, pelo que agradecerás. Apazigua antes, porém, Nantosu̯eltā e Lugus.

2 Dados: 1.1.1.1.3 = 7
Deidade: Katubodu̯̯ā (O Corvo da Batalha)
Oráculo: Se vês quatro bétulas e um amieiro: Se evitares a inimizade e a hostilidade, alcançarás o teu prêmio; conseguirás e a dēu̯ā dos olhos vivazes salvar-te-á. A atividade que tens em mente resultará como desejas.

3 Dados: 4.1.1.1.1 = 8
Deidade: Mātres (As Mães)
Oráculo: Se vês um salgueiro e quatro bétulas: Não faças o negócio a que te estás dedicando; o resultado não será bom. Será difícil ou mesmo impossível com alguém que se desgaste totalmente. Contudo, se te afastares por algum tempo, disso não virá nenhum dano.

4 Dados: 3.3.1.1.1 = 9
Deidade: Eriros Taranous (A Águia de Taranus)
Oráculo: Se vês dois amieiros e três bétulas: Uma águia que voa alto à direita do peregrino será um bom presságio; com o auxílio de Taranus Māisamos [“Taranus, o Maior”], atingirás o teu objetivo. Não temas.

5 Dados: 6.1.1.1.1 = 10
Deidade: Dēu̯os Māisamos (O Dēu̯os Maior)
Oráculo: Se vês um espinheiro e quatro bétulas: Será melhor cumprires qualquer voto que tenhas feito ao dēu̯os, caso pretendas realizar o que meditas na tua mente. Rīganī e Taranus salvar-te-ão.

6 Dados: 1.1.1.4.3 = 10
Deidade: Ratus Sukondos (O Destino Previdente)
Oráculo: Se vês três bétulas, um salgueiro e um amieiro: Não faças o negócio que estás prestes a fazer; quanto à própria intenção que tens, os dēu̯oi a estão impedindo, mas libertar-te-ão da fadiga e nenhum dano atingir-te-á.

7 Dados: 3.3.3.1.1 = 11
Deidade: Brigindū Boudikā (Brigindū, a Vitoriosa)
Oráculo: Se vês três amieiros e duas bétulas: Tomarás o que desejas e tudo alcançarás; a dēu̯ā tornar-te-á honrado e sobrepujarás os teus inimigos; o plano que estás prestes a realizar correrá conforme o teu desejo.

8 Dados: 4.4.1.1.1 = 11
Deidade: Boudi Lauēnon (A Vitória Feliz)
Oráculo: Se vês dois salgueiros e três bétulas: Realiza todo o teu empreendimento, pois tudo sairá bem. Os dēu̯oi resgatarão do seu leito aquele que se acha enfermo. O dēu̯os também anuncia que aquele que se encontra noutro país voltará ao lar.

9 Dados: 4.1.1.3.3 = 12
Deidade: Belenos I̯akkos (Belenos, o Curador)
Oráculo: Se vês um salgueiro, duas bétulas e dois amieiros: Uma tempestade atingirá o teu empreendimento, porém este resultará bem. O dēu̯os também anuncia que libertará aquele que está doente em razão do sofrimento e os dēu̯oi trarão em segurança para casa o que se encontra longe.

10 Dados: 1.1.1.6.3 = 12
Deidade: Bou̯indā Belisamā (A Muito Poderosa Bou̯indā)
Oráculo: Se vês três bétulas, um espinheiro e um amieiro: Não te apresses para ir em frente; é impossível avançar. É melhor que esperes. Se te preparas para correr irrefletidamente, causarás grande dano a ti mesmo. Se, entretanto, esperares, o tempo imaculado realizará tudo.

11 Dados: 1.1.1.6.4 = 13
Deidade: Nantosu̯eltā (A Jovem Rainha do Amor e dos Mortos)
Oráculo: Se vês três bétulas e um espinheiro e um salgueiro: veleja para onde desejares, retornarás cheio de contentamento, pois terás encontrado e realizado tudo o que meditaste em teu pensamento; contudo, ora a Nantosu̯eltā e Lugus.

12 Dados: 1.3.3.3.3 = 13
Deidade: Taranus ak Brigindū (Taranus e Brigindū)
Oráculo: Se vês uma bétula e quatro amieiros: estás apto para qualquer empresa e pronto para qualquer empreendimento. Os dēu̯oi facilmente socorrerão o que se achar enfermo e tudo ficará bem em relação aos outros oráculos.

13 Dados: 4.4.1.1.3 = 13
Deidade: Rāti̯ās (As Estações)
Oráculo: Se vês dois salgueiros, duas bétulas e um amieiro: é impossível prosseguir. Os dēu̯oi não permitirão o plano que imaginaste, então espera. Será terrível caso te arrisques a mergulhar em inimizade, competição e provações.

14 Dados: 1.3.3.3.4 = 14
Deidade: Kirki̯os (O Dēu̯os do Vento)
Oráculo: Se vês uma bétula, três amieiros e um salgueiro: o dēu̯os diz que estás dando socos na ponta de uma faca, lutando contra o mar, caçando uma agulha num palheiro. Não te apresses em fazer transações. Não te servirá em nada querer forçar os dēu̯oi no momento errado.

15 Dados: 6.1.1.3.3 = 14
Deidade: Prenniatis (O Distribuidor da Sorte)
Oráculo: Se vês um espinheiro, duas bétulas e dois amieiros: não planejes coisas medonhas nem ores pelo que for contra os dēu̯oi. Disso não se obterá ganho algum e recompensa nenhuma virá do caminho que estás trilhando.

16 Dados: 4.4.4.1.1 = 14
Deidade: Suprenniatis (O Bom Distribuidor da Sorte)
Oráculo: Se vês três salgueiros e duas bétulas: a deidade conduzir-te-á no caminho que percorres e a amante dos sorrisos, Nantosu̯eltā, guiar-te-á para boas coisas. Retornarás com os frutos ricos de um destino tranquilo.

17 Dados: 1.3.3.4.4 = 15
Deidade: Taranus Arepetaunos (Taranus, o Salvador)
Oráculo: Se vês uma bétula, dois amieiros e dois salgueiros: aproxima-te com bravura do que planejaste fazer, realiza-o! Vencerás, pois os dēu̯oi deram-te estes sinais favoráveis, não os desprezes nos teus propósitos. Nada de mal disso virá.

18 Dados: 1.1.1.6.6 = 15
Deidade: Taranus Klitos (Taranus, o Oculto)
Oráculo: Se vês três bétulas e dois espinheiros: o dēu̯os anuncia-te que empreendas com coragem o que planejaste em tua mente, pois tudo ser-te-á dado. Realizarás o que quer que te diga a tua mente e Taranus, que no alto troveja, contigo estará como teu salvador.

19 Dados: 3.3.3.3.3 = 15
Deidade: Bou̯indā Arepetaunā (Bou̯indā, a Salvadora)
Oráculo: Se vês cinco amieiros: a mulher que deu à luz uma criança estava com os seios secos, porém floresceu novamente e tem agora leite em abundância. Também tu, então, colherás os frutos daquilo que me pedes.

20 Dados: 4.3.6.1.1 = 15
Deidade: Taranus Allobrogi̯os (Taranus dos Estrangeiros)
Oráculo: Se vês um salgueiro, um amieiro, um espinheiro e duas bétulas: não te apresses com as atividades previstas, o tempo ainda não chegou. Os dēu̯oi facilmente salvarão o que se encontra doente e o dēu̯os anuncia que dará fim à jornada do que se encontra em terra estrangeira.

21 Dados: 6.3.3.3.1 = 16
Deidade: Ogmi̯os (O Dēu̯os da Eloquência e da Guerra)
Oráculo: Se vês um salgueiro, três amieiros e uma bétula: o momento ainda não chegou. Não te apresses tanto, não ajas em vão ou como a cadela que deu à luz um filhote cego. Raciocina calmamente e o dēu̯os conduzir-te-á.

22 Dados: 6.4.4.1.1 = 16
Deidade: Toutātis (O Dēu̯os Protetor de cada Toutā)
Oráculo: Se vês um espinheiro, dois salgueiros e duas bétulas: por que te apressas? Espera com calma, o momento ainda não chegou. Quando te apressas de modo insensato e vão, persegues algo que ainda não está pronto. Ainda não vejo o momento adequado, porém terás sucesso se esperares apenas um pouco.

23 Dados: 4.3.3.3.3 = 16
Deidade: Sukellos (O Bom Golpeador)
Oráculo: Se vês um salgueiro e quatro amieiros: Escorpiões escondem-se no teu caminho, não te apresses para os negócios que tencionas; espera e o que desejas chegará mais tarde. Não é melhor agora nem comprar nem vender.

24 Dados: 4.4.4.1.3 = 16
Deidade: Belenos Arekailoberos (Belenos, o Portador de Oráculos)
Oráculo: Se vês três salgueiros, uma bétula e um amieiro: Não te apresses, melhor será que não vás. Quando desejares precipitar-te sem refletir, causarás muito dano a ti mesmo. Contudo, quando ficares quieto e firme, o tempo sem máculas tudo realizará.

25 Dados: 6.6.1.1.3 = 17
Deidade: Rīganī Nemesos (A Rainha do Céu)
Oráculo: Se vês dois espinheiros, duas bétulas e um amieiro: entra e recebe a voz do oráculo! O tempo também está maduro para o casamento; casarás e voltarás para casa. Tendo encontrado aquilo que te causava ansiedade, alcançarás tudo o que desejas nos teus negócios.

26 Dados: 1.3.3.4.6 = 17
Deidade: Lugus Arepetaunos (Lugus, o Salvador)
Oráculo: Se vês uma bétula, dois amieiros, um salgueiro e um espinheiro: nada vejo doloroso entre as coisas que me perguntas; não penses pequeno, avança com coragem; encontrarás tudo o que desejas: cumprir-se-á tua jura e há um momento perfeito para ti.

27 Dados: 4.4.3.3.3 = 17
Deidade: Esus (O Dēu̯os da Regeneração e da Fertilidade)
Oráculo: Se vês dois salgueiros e três amieiros: toma coragem e luta, Taranus Selu̯orīχs (“Rico em Propriedades”) será o teu auxiliador. Castigarás o teu oponente e te-lo-ás sob o teu punho e ele dará contentamento às obras pelas quais lhe agradecerás.

28 Dados: 1.4.4.4.4 = 17
Deidade: Dīgalā (A Vingança)
Oráculo: Se vês uma bétula e quatro salgueiros: Prenniatis agora cumprirá tudo para ti e conduzir-te-á pelo caminho certo. Realizarás tudo de acordo com os teus planos. Não te desgastes mais. Realizarás lindamente o que desejares.

29 Dados: 6.6.1.1.4 = 18
Deidade: Nemetonā (A Dēu̯ā do Santuário)
Oráculo: Se vês dois espinheiros, duas bétulas e um salgueiro: faz o teu negócio e toma-o a teu cargo; o momento será favorável. Entrementes, dificuldades e perigo estarão no caminho. Quanto aos demais oráculos, as coisas correrão bem para ti.

30 Dados: 1.6.4.4.3 = 18
Deidade: Taranus Louketos (Taranus do Relâmpago)
Oráculo: Se vês uma bétula, um espinheiro, dois salgueiros e um amieiro: o que planejas não sairá como o desejas, quando o realizares. Não será proveitoso viajar a terras estrangeiras. Não mostrarás perspicácia se venderes agora, tampouco isso será lucrativo.

31 Dados: 4.4.4.3.3 = 18
Deidade: Prenniatis Māisamos (O Maior Distribuidor da Sorte)
Oráculo: Se vês três salgueiros e dois amieiros: não vejo este plano como seguro para ti; espera, portanto. Terás êxito, haverá boa sorte depois disso. Por enquanto, fica calmo, confia nos dēu̯oi e permanece solícito.

32 Dados: 6.3.3.3.3 = 18
Deidade: Dagou̯extā (O Bom Momento)
Oráculo: Se vês um espinheiro e quatro amieiros: não te apresses, Prenniatis opõe-se a ti; não ajas como o néscio que deseja colher antes do amadurecimento do fruto. Reflete com calma e as coisas correrão favoravelmente para ti.

33 Dados: 6.6.1.3.3 = 19
Deidade: Sukobron (O Bom Desejo)
Oráculo: Se vês dois espinheiros, uma bétula e dois amieiros: tudo sobre o que me perguntas virá a ti suave e seguramente; Prenniatis guiar-te-á rumo ao que desejas, dará fim às dificuldades dolorosas e verás que eram infundadas as suspeitas.

34 Dados: 4.4.4.6.1 = 19
Deidade: Taranus Teχtomāros (Taranus, o Grande em Posses)
Oráculo: Se vês três salgueiros, um espinheiro e uma bétula: avança com bravura, o oráculo é sobre esperança, forasteiro; anuncia também que a pessoa enferma será salva. Se precisas consultar um oráculo, receberás o que desejas.

35 Dados: 3.4.4.4.4 = 19
Deidade: Lugus Boudimāros (Lugus, o que dá a Vitória)
Oráculo: Se vês um amieiro e quatro salgueiros: Taranus inspirará um bom plano à tua mente, forasteiro; assim, tudo ficará bem, empreende o que desejares. Encontrarás o que solicitares ao oráculo e nada correrá mal para ti.

36 Dados: 3.3.3.6.4 = 19
Deidade: Boudi (A Vitória)
Oráculo: Se vês três amieiros, um espinheiro e um salgueiro: pronuncias um bom oráculo, forasteiro; bem refletiste a respeito dele, farás o que quiseres e o dēu̯os será teu auxiliar. Vencerás, colherás os frutos e tudo alcançarás.

37 Dados: 4.4.4.4.4 = 20
Deidade: Mātres Dīađđeχtās (As Mães Inescapáveis)
Oráculo: Se vês cinco salgueiros: o sol se pôs e a noite terrível chegou, tudo tornou-se escuro. Interrompe o assunto sobre o qual me perguntaste; é melhor não comprar nem vender.

38 Dados: 4.3.6.6.1 = 20
Deidade: Lugrā (A Lua)
Oráculo: Se vês um salgueiro, um amieiro, dois espinheiros e uma bétula: não te ocupes com esse negócio, forasteiro; as coisas não sairão bem para ti. O dēu̯os anuncia que ajudará aquele que se acha enfermo e, se houver qualquer receio, nada de mal te acontecerá.

39 Dados: 6.3.3.4.4 = 20
Deidade: I̯emonoi Aneχtlomāroi (Os Gêmeos que dão Grande Proteção)
Oráculo: Se vês um espinheiro, dois amieiros e dois salgueiros: um homem afobado não obtém tudo o que a oportunidade tem a oferecer. Tens algum lucro e há receio em toda parte devido ao perigo. A tua iniciativa é malsinada e tudo é penoso. Toma cuidado!

40 Dados: 6.6.6.1.1 = 20
Deidade: Gobannos (O Dēu̯os da Forja)
Oráculo: Se vês três espinheiros e duas bétulas: o oráculo dirá que é impossível fazer qualquer negócio; não te esforces em vão! E não queiras levantar cada pedra do caminho, pois bem podes achar um escorpião. O nervosismo não te trará sorte, acautela-te contra toda sorte de infortúnio!

41 Dados: 6.6.4.4.1 = 21
Deidade: Rosmertā (A Boa Provedora)
Oráculo: Se vês dois espinheiros, dois salgueiros e uma bétula: tudo sobre o que me perguntas surgirá suave e seguramente no teu caminho; não temas, Prenniatis conduzir-te-á rumo ao teu objetivo. Nada vejo que te possa causar dano. Anima-te e vai em frente.

42 Dados: 4.4.4.6.3 = 21
Deidade: Grannos Loukoberos (Grannos, o Portador da Luz)
Oráculo: Se vês três salgueiros, um espinheiro e um amieiro: alcançarás tudo o que desejas e descobrirás o que te causa inquietação. Tenta, forasteiro, depois de tomares coragem; tudo está pronto. Encontrarás o que está oculto, chegarás ao dia da tua salvação.

43 Dados: 3.3.3.6.6 = 21
Deidade: Surati̯ā (A Boa Sorte)
Oráculo: Se vês três amieiros e dois espinheiros: os teus assuntos estão indo bem; o oráculo diz que deves continuar. Escaparás da enfermidade difícil e tudo dominarás. O dēu̯os anuncia que aquele que vagueia em terras estrangeiras retornará.

44 Dados: 1.6.6.6.3 = 22
Deidade: Mātres Arederkākās (As Mães Bem Conhecidas)
Oráculo: Se vês uma bétula, três espinheiros e um amieiro: Não ponhas a tua mão na boca do lobo para que não sofras algum dano. O assunto sobre o qual perguntas é difícil e delicado. Melhor ficares quieto, evitando viagens e transações comerciais.

45 Dados: 4.4.4.4.6 = 22
Deidade: Nodenđ (O Dēu̯os do Mar)
Oráculo: Se vês quatro salgueiros e um espinheiro: o oráculo diz que lançar sementes às ondas ou escrever cartas na água agitada do mar é inútil e sem proveito. Uma vez que és mortal, não leves o dēu̯os a prejudicar-te.

46 Dados: 4.3.3.6.6 = 22
Deidade: Kamulos Outros (Kamulos, o Terrível)
Oráculo: Se vês um salgueiro, três amieiros e dois sabugueiros: não inicies a viagem que tencionavas, forasteiro! Ninguém o fará. Um grande leão de fogo espera à frente, contra o qual deves precaver-te, terrível é ele. O oráculo é obstinado, espera quietamente.

47 Dados: 1.6.6.6.4 = 23
Deidade: Brigindū (A Dēu̯ā da Sabedoria e dos Ofícios)
Oráculo: Se vês uma bétula, três espinheiros e um salgueiro: honra Brigindū e tudo obterás, o que quer que desejes, e tudo o que planejas correrá bem; ela libertará dos grilhões e salvará a pessoa que estiver enferma.

48 Dados: 6.6.4.4.3 = 23
Deidade: Lau̯eni̯ā (A Felicidade)
Oráculo: Se vês dois espinheiros, dois salgueiros e um amieiro: veleja, parte para onde quiseres, retornarás ao lar, tendo encontrado e feito tudo de acordo com o teu desejo; assim, comprar e negociar trarão contentamento.

49 Dados: 6.6.6.3.3 = 24
Deidade: Belenos U̯ātis (Belenos, o Profeta)
Oráculo: Se vês três espinheiros e dois amieiros: fica onde estás, não ajas, obedece os oráculos de Belenos. Com o tempo, acharás o momento adequado, porém fica quieto neste momento. Se esperares um pouco, conseguirás tudo o que desejas.

50 Dados: 4.4.4.6.6 = 24
Deidade: Sukellos Orgetos (Sukellos, o Destruidor)
Oráculo: Se vês três salgueiros e dois espinheiros: fica em casa com os teus bens e não vás a nenhum outro lugar, a fim de que um monstros e espíritos malignos não se aproximem de ti. Não considero essa iniciativa como confiável e segura.

51 Dados: 4.6.6.6.3 = 25
Deidade: Lugros Andeargi̯os (O Dēu̯os Lunar Muito Brilhante)
Oráculo: Se vês um salgueiro, três espinheiros e um amieiro: toma coragem; tens uma oportunidade; alcançarás o que desejares e chegarás ao momento certo para o começo da tua viagem; o teu esforço terá a sua chance; é bom que tomes parte em obras, disputas e contenciosos.

52 Dados: 6.6.6.6.1 = 25
Deidade: Eponā Mātīr Dēu̯on (Eponā, a Mãe dos Deuses)
Oráculo: Se vês quatro espinheiros e uma bétula: assim como lobos sobrepujam carneiros e poderosos corcéis sobrepujam bois de largos cascos, também tu dominarás tudo isso e tudo sobre o que perguntas será teu com o auxílio de Lugus Boudimāros (“Lugus, o que dá a Vitória”).

53 Dados: 6.6.6.4.4 = 26
Deidade: Taranus Klitos (Taranus, o Oculto)
Oráculo: Se vês três espinheiros e dois salgueiros: o negócio tem os seus obstáculos. Não te apresses, mas espera. Há um caminho doloroso, impossível de percorrer e do qual não deves aproximar-te. Comprar será desconsolador e vender causará perdas.

54 Dados: 6.6.6.6.3 = 27
Deidade: Nantosu̯eltā Nemesi̯ā (Nantosu̯eltā, a Celeste)
Oráculo: Se vês quatro espinheiros e um amieiro: Isso significa que a Filha do Senhor do Céu, Nantosu̯eltā, grande senhora do Mundo Escuro, envia-te um bom oráculo. Ser-te-á concedida uma viagem para que escapes da enfermidade e de todo pensamento vão e soberbo.

55 Dados: 6.6.6.6.4 = 28
Deidade: Arekou̯ednis (O Dano)
Oráculo: Se vês quatro espinheiros e um salgueiro: isso significa que é impossível realizar qualquer coisa fútil; não te esforces em vão e inutilmente a fim de não sofreres dano em razão da tua persistência. Não é bom começar uma viagem ou a fazer negócios.

56 Dados: 6.6.6.6.6 = 30
Deidade: Lugus Anton (Lugus das Fronteiras)
Oráculo: Se vês seis espinheiros: aonde quer que pretendas ir, não vás. Será melhor para ti que fiques onde estás. Vejo algo que te é hostil; espera, portanto. Mais tarde, isso será possível e o dēu̯os libertar-te-á do medo e salvar-te-á de duras labutas.

Dēu̯itatis Arekailaχtās Petruprennon

As Deidades do Oráculo das Quatro Árvores

1) Arekou̯ednis – O Dano
2) Belenos I̯akkos – Belenos, o Curador
3) Belenos Kailoberos – Belenos, o Portador de Oráculos
4) Belenos U̯ātis – Belenos, o Profeta
5) Boudi – A Vitória6) Boudi Lauēnon – A Vitória Feliz
7) Bou̯indā Arepetaunā – Bou̯indā, a Salvadora
8) Bou̯indā Belisamā – A Muito Poderosa Bou̯indā
9) Brigindū – A Dēu̯ā da Sabedoria e dos Ofícios
10) Brigindū Boudikā – Brigindū, a Vitoriosa
11) Dagou̯eχtā – O Bom Momento
12) Dēu̯os Māisamos – O Dēu̯os Maior
13) Dīgalā – A Vingança
14) Eponā Mātīr Dēu̯on – Eponā, a Mãe dos Deuses
15) Eriros Taranous – A Águia de Taranus
16) Esus – O Dēu̯os da Regeneração e da Fertilidade
17) Gobannos – O Dēu̯os da Forja
18) Grannos Loukoberos – Grannos, o Portador da Luz
19) I̯emonoi Aneχtlomāroi – Os Gêmeos que dão Grande Proteção
20) Kamulos Outros – Kamulos, o Terrível
21) Katubodu̯̯ā – O Corvo da Batalha
22) Kirki̯os – O Dēu̯os do Vento
23) Lau̯eni̯ā – A Felicidade
24) Lugrā – A Lua
25) Lugros Andeargi̯os – O Dēu̯os Lunar Muito Brilhante
26) Lugus Anton – Lugus das Fronteiras
27) Lugus Arepetaunos – Lugus, o Salvador
28) Lugus Boudimāros – Lugus, o que dá a Vitória
29) Mātres – As Mães
30) Mātres Arederkākās – As Mães Bem Conhecidas
31) Mātres Dīatteχtās – As Mães Inescapáveis
32) Nantosu̯eltā – A Jovem Rainha do Amor e dos Mortos
33) Nantosu̯eltā Nemesi̯ā – Nantosu̯eltā, a Celeste
34) Nemetonā – A Dēu̯ā do Santuário
35) Nodenđ – O Dēu̯os do Mar
36) Ogmi̯os – O Dēu̯os da Eloquência e da Guerra
37) Prenniatis – O Distribuidor da Sorte
38) Prenniatis Māisamos – O Maior Distribuidor da Sorte
39) Rāti̯ās – As Estações
40) Ratus Sukondos – O Destino Previdente
41) Rīganī Nemesos – A Rainha do Céu
42) Rosmertā – A Boa Provedora
43) Sukellos – O Bom Golpeador
44) Sukellos Orgetos – Sukellos, o Destruidor
45) Sukobron – O Bom Desejo
46) Suprenniatis – O Bom Distribuidor da Sorte
47) Surati̯ā – A Boa Sorte
48) Taranus ak Brigindū – Taranus e Brigindū
49) Taranus Allobrogi̯os – Taranus dos Estrangeiros
50) Taranus Arepetaunos – Taranus, o Salvador
51) Taranus Klitos – Taranus, o Oculto
52) Taranus Louketos – Taranus do Relâmpago
53) Taranus Ouξamos – Taranus, o Mais Alto
54) Taranus Selu̯orīχs – Taranus, o Rico em Propriedades
55) Taranus Teχtomāros – Taranus, o Grande em Posses
56) Toutātis – O Dēu̯os Protetor de cada Toutā

Dēu̯ā – uma deusa, deidade feminina
Dēu̯oi – os deuses, deidades
Dēu̯os – um deus, deidade
Arekailaχtā – um oráculo (ferramenta oracular), conjunto de oráculos, a arte oracular
Arekailon – um presságio, oráculo
Petru – quatro
Prennon – uma árvore, a sorte

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Kantalon – Rito Divinatório Gaulês

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Kantalon litus

Rito Divinatório Gaulês

Bellou̯esus Īsarnos

Introdução

U̯edi̯ā Rāk Adgnīi̯obi

Molātūs Dedmē Ollodagāi  Krundi̯ūi!

Ā Lugus, Ilukerdānon Magale,
Ā Belene, Andeu̯ātis U̯eri̯akkī,
Ā Brigindū, Mātīr Ouχsamā Rou̯iđđous,
Ā Taranus, Bremī Nemomarkāke,
Ā Toutatis, Au̯ete Rii̯otātos Eχsobne.
Bii̯etū sin su̯adū Komenonāi Dēu̯obok ollobo en Bitubi Tribi.

Oração antes dos Estudos

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste de Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos.

1 Kentugutus (A Primeira Invocação)
2 Runā Rāko U̯edi̯ān (Runā antes da Oração)
3 Gari̯on Loukosagi̯ī (A Invocação do Iluminador)

1 Kentugutus

Senisamonbo in Morī,
Anati̯obo Ambibitous in Tiresi,
Dēu̯obo in Albii̯ē,
Mon kridi̯on,
Mon gutus
Ak mon menman
Ernami.

1 A Primeira Invocação

Aos Ancestrais no Mar,
Aos Espíritos da Natureza na Terra,
Aos Deuses no Céu,
Meu coração,
Minha voz,
E meu pensamento
Eu ofereço.

2 Runā Rāko U̯edi̯ān

Mon lamās ouχsgabi̯ū Sukellī me delu̯āsseti̯o u̯o rodarkū,
Lugous me rii̯os u̯reχtei̯o u̯o rodarkū,
Maponī me glanos u̯reχtei̯o u̯o rodarkū,
In karantī lubīk.
Snūs lānobitun in trougī anson rodāte:
Eponās đerkan,
Brigindonos karanti̯an,
Kirki̯ī u̯iđđun,
Nantosu̯eltās raton,
Nemetonās obnun,
Nōdentos su̯anton
Ad in Bitū Trii̯on u̯reχtun
Dēu̯oi Senisteroi samalī en Albii̯ē u̯regont.
In skatū louketūk papū, papū en dii̯ū noχtik
Snūs māronerton aneχtlon su̯eson rodāte.

2 Runā* antes da Oração

Ergo minhas mãos sob o olhar de Sukellos que me formou,
Sob o olhar de Lugus que me fez livre,
Sob o olhar de Maponos que me fez puro, em amizade e alegria.
Dai-me prosperidade em minha necessidade:
O amor de Eponā,
A amizade de Brigindū,
A sabedoria de Ogmi̯os,
A bênção de Nantosu̯eltā.
O temor de Nemetonā,
A vontade de Nodenđ,
Para que no Mundo do Três eu faça
como fazem em Albii̯os os Deuses e Ancestrais.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite,
dai-me vosso poder e proteção.

* A runā (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

3 Gari̯on Loukosagi̯ī (A Invocação do Iluminador)

Ponha no altar um cálice de vinho branco (1), juntamente com a ferramenta divinatória (2) escolhida. Usando o punhal cerimonial (3), delimite o perímetro da área de trabalho. Esta é o templum, espaço separado para a observação dos oráculos. Acomode-se diante do altar numa cadeira ou mesmo sentado numa almofada no chão. Com o bastão, lentamente descreva três círculos ao redor do instrumento divinatório que será usado.

Belene Argī,
glana tou loukū mon britun.
Belene U̯oretī,
sondū kamminū rege mon kammana.
Belene U̯ātis,
lāna tou dau̯ū mon anati̯on.

Belenos Brilhante (4),
clareia minha mente com a tua luz.
Belenos Auxiliador,
guia meus passos neste caminho.
Belenos Profeta,
enche minha alma com a tua chama.

Erga o cálice em saudação à divindade e beba um gole:

Oinā briχtāi.
Um para a magia.

Beba outro gole:

Oinā brigāi.
Um para o poder.

Beba outro gole:

Oinā amarkūi.
Um para a visão.

Coloque o cálice no altar ao lado do bastão. Respire profundamente algumas vezes e relaxe antes de começar a divinação.

Depois de terminá-la, toque suavemente o bastão no altar três vezes.

Belene Argī,
Belene U̯oretī,
Belene U̯ātis,
Sindi̯u tei brata agū eri toadretu anau̯ūk.
Aχtos bisi̯ū are aiđđon u̯īroi̯āni̯āi tou gutu.

Belenos Brilhante,
Belenos Auxiliador,
Belenos Profeta,
Agradeço-te pela presença e inspiração hoje.
Que eu seja sempre guiado à verdade pela tua voz.

1) Preferível por ser uma bebida mais refinada, mas também pode ser vinho tinto ou hidromel.

2) Ogham, runas, tarot, pedras divinatórias ou outro qualquer.

3) Caso possua esse instrumento. Se não, pode ser substituído nesse momento pelo dedo indicador da sua mão dominante.

4) Se você escolher outra divindade como inspiradora da divinação, modifique a palavras da Invocação de acordo.

 

A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma “interpretatio graeca” e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (“funera sunt […] magnifica et sumptuosa”), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, “uita altera ad manes”). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena (“[…] sed ab aliis post mortem transire ad alios”). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (“regit idem spiritus artus orbe alio”). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [‘síd’] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [‘áes síde’]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. “Teatro Selecto de Calderón de la Barca”. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25 e “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). “Alexándrou Anábasis”, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). “De Chorographia”, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (“olim”, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. “De Chorographia”, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), “Bibliotheca histórica”, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – c. 24 EC). “Rerum Geographicarum Libri XVII”, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). “Factorum et Dictorum Memorabilium”, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). “De Bello Ciuili uel Pharsaliae”, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). “De Vita Pythagorica”, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos “rishis” indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). “Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton”, I, 6.

16) “Pythagorica Hypomnemata”.

17) Hippolytus (170–235 EC). “Refutatio Omnium Haeresium”, I, 22.

18) “Stromata”, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) “Aduersus Iulianum”.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), “Punicorum Libri Septemdecim”, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). “Descriptio Graeciae”, X, 21, 6.

22) “Echtra Condla”, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

 

In doníoritu

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In doníoritu tre prennonemeton
Nata redis clusíetor int’ oinon
Dui scenai argíant ar’ aidon
Etic anant’ in lamabi druuidon

Na procissão através do templo das árvores
Apenas um canto simples é ouvido
Duas facas brilham ante a chama
E esperam nas mãos dos druidas

In the procession through the trees’ temple
Only a simple chant is heard
Two knifes shine before the flame
And wait in druids’ hands

Bellouesus /|\

brigindu brigindu tenos

brigindu

brigindu brigindu tenos
brigindu brigindu bena pritas
brigindu brigindu bena iaccas
brigindu brigindu banogobens
brigindu brigindu anauissa
brigindu brigindu sulubia
brigindu brigindu uoretia
brigindu brigindu cleue enson uedias
enson uedias cleue brigindu brigindu
tou mapates gariont esion materen
gariontid esion materen brigindu
esion materen brigindu
ti brigindu brigindu
tu
ti brigindu

brigindu brigindu fogo
brigindu brigindu mulher da poesia
brigindu brigindu mulher da saúde
brigindu brigindu ferreira
brigindu brigindu inspiradora
brigindu brigindu que dá boas-vindas
brigindu brigindu que socorre
brigindu brigindu ouve as nossas orações
ouve as nossas orações brigindu brigindu
os teus filhos chamam a sua mãe
chamam a sua mãe brigindu
a sua mãe brigindu
a ti brigindu brigindu
tu
a ti brigindu

Bellouesus /|\

sirona sironemesos deuissa

sirona10

sirona sironemesos deuissa
sirona blation sounon banona
sinnoxti o cinxiu uediiumiti
en uiron sounobi
en bnanon cridiobi
en tou nemete nu gabi
mon cicim anation coetic
sirona sironemesos deuissa
sirona blation sounon banona
duxtir deuocara dubnotigerni
o ne mi duora bisiont

sirona deusa do céu estrelado
sirona senhora dos doces sonhos
nesta noite peço-te que eu possa caminhar
nos sonhos dos homens
nos corações das mulheres
no teu santuário agora recebe
minha carne e também a minha alma
sirona deusa do céu estrelado
sirona senhora dos doces sonhos
filha piedosa do senhor das profundezas
que não haja portas para mim

Bellouesus /|\

 

 

Ecos do Paganismo Popular na Alta Idade Média

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Texto 1

Algumas observâncias da religião popular na Galícia do séc. VI d. C.

Martinus Dumiensis (ca. 515 – 579/80), De Correctione Rusticorum (“Sobre a Correção dos Campônios”).

I. Determinadas árvores eram objeto de especial veneração, pois se acreditava fossem habitadas por espíritos benignos.
II. Jogar pão nas fontes (para aliviar doenças, aumentar a fertilidade?).
III. Reverenciar certas pedras como sagradas, nelas acendendo velas, bem como em encruzilhadas e em determinadas fontes e árvores.
IV. Murmurar encantamentos e nomes de deuses sobre ervas e fazer amarrações.
V. Oferecer frutas e vinho a um tronco de árvore (em uma lareira?).
VI. Cerimônias domésticas de purificação realizadas por especialistas.
VII. Borrifar as paredes de uma casa recém-construída com o sangue de uma ave sacrificada.
VIII. Colocar um ramo de loureiro na entrada da casa.
IX. Invocar a deusa dos ofícios durante a realização destes.
X. Encantamentos para prejudicar uma pessoa por meio de dano a algo que com ela tivesse estado em contato.
XI. Observar com que pé uma pessoa adentra um recinto e disso retirar um presságio.
XII. Retirar presságios do voo dos pássaros e de espirros.
XIII. Celebrar o primeiro dia de cada mês como sagrado para Juno.
XIV. Mulheres esperarem até a quinta-feira para casar.
XV. Recorrer à astrologia para determinar os melhores dias para iniciar a construção de uma casa, uma plantação e casar.
XVI. Começar o ano no 1º. de janeiro, venerando ratos e traças nessa ocasião e honrando os deuses com alimentos dispostos em uma mesa, para que retribuíssem com abundância no resto do ano.
XVII. Mascarar-se de animais em 1º. de janeiro.
XVIII. Venerar Mercúrio na quarta-feira e fazer pilhas de pedras nas encruzilhadas, lançando uma pedra a cada vez que se passa pelo local, e dedicando-as a Mercúrio.
XIX. Adorar os espíritos do mar, fontes e florestas.
XX. Não trabalhar na quinta-feira em honra a Júpiter.

Texto 2

Pequeno Índice das Superstições e Práticas Pagãs

É uma coleção de capitulares (atos administrativos e legislativos emanados da corte dos francos nas dinastias merovíngia e carolíngia, especialmente na época de Carlos Magno, 742/747/748 – 814; eram formalmente divididas em capitula, plural de capitulum) que identificavam e condenavam crenças pagãs no norte da Gália e entre os saxões à época de sua subjugação e conversão por Carlos Magno durante as Guerras Saxônicas (772-804).

I. Dos sacrilégios junto aos túmulos dos mortos.
II. Dos sacrilégios com relação aos mortos, isto é dadsisas (valgaldr).
III. Dos ritos pagãos (spurcalia, “profanações”) celebrados em fevereiro.
IV. Das cabanas ou pequenos templos.
V. Dos sacrilégios nas igrejas.
VI. Dos santuários nos bosques a que chamam nimidas.
VII. Do que está sendo feito nas pedras.
VIII. Dos sacrifícios a Mercurius (Woden) ou Iuppiter (Donar).
IX. Dos serviços sacrificiais para certos entes tidos como sagrados.
X. Do uso de amuletos e ligaduras.
XI. Dos sacrifícios nas fontes.
XII. Sobre os encantamentos (galdr).
XIII. Dos augúrios ou predições pelo esterco ou espirros das aves, dos cavalos e do gado (völva ou spákona).
XIV. Dos videntes e adivinhos.
XV. Do fogo da madeira friccionada, isto é, nodfyr (need-fire).
XVI. Dos cérebros de animais.
XVII. Sobre a observação pagã do fogo ou no início de cada coisa.
XVIII. Sobre lugares duvidosos que consideram como sagrados (nemeta).
XIX. Das invocações que os bem intencionados dizem ser de Santa Maria.
XX. Das celebrações que fazem para Iuppiter (Donar) ou Mercurius (Woden).
XXI. Do eclipse da lua, que chamam uinceluna.
XXII. Das tempestades e chifres de touros e lesmas.
XXIII. Dos sulcos ao redor das herdades.
XXIV. Do costume pagão a que chamam frias (ou yrias), roupas rasgadas ou calçados.
XXV. Daqueles que consideram ser santos todos os mortos.
XXVI. Da imagem feita com farinha espalhada.
XXVII. Da imagem feita com pano.
XXVIII. Da imagem que carregam pelos campos.
XXIX. Da oferenda de mãos e pés de madeira conforme o rito pagão.
XXX. Daqueles que acreditam que as mulheres que podem encantar a lua possam tomar os corações dos homens conforme os pagãos.

Texto 3

Regínão de Prüm (morto em 915 EC), Sobre as Disciplinas aos Eclesiásticos e a Religião Cristã, II, 5. Sobre as Disciplinas é uma coleção de cânones, isto é, uma coletânea de leis e princípios jurídicos voltados à regulamentação da organização externa e do governo da Igreja Romana.

42. Deve-se inquirir se [existem na região] magos, feiticeiros, adivinhos, encantadores.

43. Se alguém fizer promessas perto de árvores, fontes, pedras como se fossem altares, se depositar uma vela ou quaisquer presentes como se fosse esse um lugar sagrado onde se pudesse determinar o bem ou o mal. Se qualquer pastor, pastor ou o caçador disser encantamentos diabólicos sobre o pão e as ervas e ligaduras ímpias, se os esconder em uma árvore ou jogá-los nas encruzilhadas, a fim de livrar os animais da doença ou destruir os do seu vizinho.

46. Se alguém bebeu sangue ou comeu algo morto e dilacerado por uma fera.

48. Se alguém tiver bebido o líquido em que uma doninha, rato ou qualquer animal impuro tenha se afogado.

51. Se alguém seguir o costume das calendas de janeiro, que é uma invenção pagã; se observar os dias, a lua, os meses, as horas e se acreditar que isso lhes trará o bem ou o mal.

52. Se alguém, começando a trabalhar, pronunciar palavras ou fizer gestos mágicos, e não, como o Apóstolo determina, fizer tudo em nome do Senhor. Não devemos invocar os demônios em nosso auxílio, mas Deus. Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor, nada mais.

55. Se alguém entoar à noite canções diabólicas sobre os túmulos e parecer alegrar-se com a morte e se alguém fizer vigílias fúnebres fora da igreja.

86. É preciso conhecer as ações das irmandades e confrarias que existem na paróquia.

87. Se alguém se atrever a cantar e dançar nas proximidades das igrejas.

88. Se alguém, ao entrar na igreja, tiver o hábito de tagarelar, não ouvir atentamente as palavras divinas e deixar a igreja antes do fim da missa.

Comentário

Temos três textos:

1) o Sobre a Correção dos Campônios (práticas pagãs no noroeste da Ibéria, séc. VI);
2) o Pequeno Índice (práticas pagãs no norte da Gália e Saxônia, fim do séc. VIII);
3) o Sobre as Disciplinas (práticas pagãs e/ou tidas como desviantes na Lotaríngia, fim do séc. IX).

Comparando-os, certos elementos recorrentes podem ser pinçados:

a) veneração a certas árvores (1.1, 1.19, 2.6, 3.43);
b) veneração a certas pedras (1.3, 2.7, 3.43);
c) realização de oferendas (1.2, 1.6,3.43; pão 1.2,3.43, velas 1.3, 3.43, frutas e vinho 1.5);
d) veneração às fontes (1.2, 2.11, 3,43);
e) existência de especialistas nos ritos mágicos (1.6, 2.14, 3.42);
f) o poder dos encantamentos (1.4, magia de contato 1.10, 2.12, 3.43, 3.52);
g) observação de presságios (1.11,1.12, 2.13);
h) crença na influência dos astros (1.15, 1.18, 1.20, 3.51);
i) sacralidade do fogo (velas, letra “c”; 2.15, 2.17);
j) uso de amuletos e amarrações (1.4, 2.10);
k) relação diferenciada com os mortos (2.1, 2.2, 2.3, 2.25, 3.55). Quanto a este ponto, é interessante recordar o que Tertuliano, citando Nicandro de Cólofon, escreveu no “Sobre a Alma” (57.10): “Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones [uma tribo gaulesa] recebem oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem. Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma Nicandro”;
l) lugares de adoração fora dos padrões cristãos (1.3, 2.4, 2.6, onde nimidas é uma forma tardia do gaulês antigo nemeton; 2.18, 3.43);
m) atos sacrificiais (1.7, 2.9, 2.11; cérebros de animais 2.16, seria referência a um tipo de extispício?);
n) invocação a deidades do passado pagão (1.13, 1.18, 1.20, 2.8, 2.20, 3.52).

Esse mosaico possui razoável extensão cronológica (meados do séc. VI ao fim do séc. IX) e amplitude geográfica (do noroeste ibérico à Europa setentrional). Apesar disso, oferece de modo razoável os contornos da velha religião popular que o cristianismo lutava para substituir, ocasionalmente mantendo práticas consagradas pela tradição sob uma maquiagem cristã. Um exemplo desse expediente pode ser percebido em 3.52 (“Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor”). Anteriormente, em lugar do “Pater Noster”, talvez o procedimento envolvesse uma prece semelhante à “Oração a Todas as Ervas” (https://nemetonbeleni.wordpress.com/2015/10/13/oracao-a-todas-as-ervas/), ainda que menos elaborada.

Continua…

Bellou̯esus /|\