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In doníoritu

03_druid

In doníoritu tre prennonemeton
Nata redis clusíetor int’ oinon
Dui scenai argíant ar’ aidon
Etic anant’ in lamabi druuidon

Na procissão através do templo das árvores
Apenas um canto simples é ouvido
Duas facas brilham ante a chama
E esperam nas mãos dos druidas

In the procession through the trees’ temple
Only a simple chant is heard
Two knifes shine before the flame
And wait in druids’ hands

Bellouesus /|\

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brigindu brigindu tenos

brigindu

brigindu brigindu tenos
brigindu brigindu bena pritas
brigindu brigindu bena iaccas
brigindu brigindu banogobens
brigindu brigindu anauissa
brigindu brigindu sulubia
brigindu brigindu uoretia
brigindu brigindu cleue enson uedias
enson uedias cleue brigindu brigindu
tou mapates gariont esion materen
gariontid esion materen brigindu
esion materen brigindu
ti brigindu brigindu
tu
ti brigindu

brigindu brigindu fogo
brigindu brigindu mulher da poesia
brigindu brigindu mulher da saúde
brigindu brigindu ferreira
brigindu brigindu inspiradora
brigindu brigindu que dá boas-vindas
brigindu brigindu que socorre
brigindu brigindu ouve as nossas orações
ouve as nossas orações brigindu brigindu
os teus filhos chamam a sua mãe
chamam a sua mãe brigindu
a sua mãe brigindu
a ti brigindu brigindu
tu
a ti brigindu

Bellouesus /|\

sirona sironemesos deuissa

sirona10

sirona sironemesos deuissa
sirona blation sounon banona
sinnoxti o cinxiu uediiumiti
en uiron sounobi
en bnanon cridiobi
en tou nemete nu gabi
mon cicim anation coetic
sirona sironemesos deuissa
sirona blation sounon banona
duxtir deuocara dubnotigerni
o ne mi duora bisiont

sirona deusa do céu estrelado
sirona senhora dos doces sonhos
nesta noite peço-te que eu possa caminhar
nos sonhos dos homens
nos corações das mulheres
no teu santuário agora recebe
minha carne e também a minha alma
sirona deusa do céu estrelado
sirona senhora dos doces sonhos
filha piedosa do senhor das profundezas
que não haja portas para mim

Bellouesus /|\

 

 

Ecos do Paganismo Popular na Alta Idade Média

peasants_breaking_bread (1)

Texto 1

Algumas observâncias da religião popular na Galícia do séc. VI d. C.

Martinus Dumiensis (ca. 515 – 579/80), De Correctione Rusticorum (“Sobre a Correção dos Campônios”).

I. Determinadas árvores eram objeto de especial veneração, pois se acreditava fossem habitadas por espíritos benignos.
II. Jogar pão nas fontes (para aliviar doenças, aumentar a fertilidade?).
III. Reverenciar certas pedras como sagradas, nelas acendendo velas, bem como em encruzilhadas e em determinadas fontes e árvores.
IV. Murmurar encantamentos e nomes de deuses sobre ervas e fazer amarrações.
V. Oferecer frutas e vinho a um tronco de árvore (em uma lareira?).
VI. Cerimônias domésticas de purificação realizadas por especialistas.
VII. Borrifar as paredes de uma casa recém-construída com o sangue de uma ave sacrificada.
VIII. Colocar um ramo de loureiro na entrada da casa.
IX. Invocar a deusa dos ofícios durante a realização destes.
X. Encantamentos para prejudicar uma pessoa por meio de dano a algo que com ela tivesse estado em contato.
XI. Observar com que pé uma pessoa adentra um recinto e disso retirar um presságio.
XII. Retirar presságios do voo dos pássaros e de espirros.
XIII. Celebrar o primeiro dia de cada mês como sagrado para Juno.
XIV. Mulheres esperarem até a quinta-feira para casar.
XV. Recorrer à astrologia para determinar os melhores dias para iniciar a construção de uma casa, uma plantação e casar.
XVI. Começar o ano no 1º. de janeiro, venerando ratos e traças nessa ocasião e honrando os deuses com alimentos dispostos em uma mesa, para que retribuíssem com abundância no resto do ano.
XVII. Mascarar-se de animais em 1º. de janeiro.
XVIII. Venerar Mercúrio na quarta-feira e fazer pilhas de pedras nas encruzilhadas, lançando uma pedra a cada vez que se passa pelo local, e dedicando-as a Mercúrio.
XIX. Adorar os espíritos do mar, fontes e florestas.
XX. Não trabalhar na quinta-feira em honra a Júpiter.

Texto 2

Pequeno Índice das Superstições e Práticas Pagãs

É uma coleção de capitulares (atos administrativos e legislativos emanados da corte dos francos nas dinastias merovíngia e carolíngia, especialmente na época de Carlos Magno, 742/747/748 – 814; eram formalmente divididas em capitula, plural de capitulum) que identificavam e condenavam crenças pagãs no norte da Gália e entre os saxões à época de sua subjugação e conversão por Carlos Magno durante as Guerras Saxônicas (772-804).

I. Dos sacrilégios junto aos túmulos dos mortos.
II. Dos sacrilégios com relação aos mortos, isto é dadsisas (valgaldr).
III. Dos ritos pagãos (spurcalia, “profanações”) celebrados em fevereiro.
IV. Das cabanas ou pequenos templos.
V. Dos sacrilégios nas igrejas.
VI. Dos santuários nos bosques a que chamam nimidas.
VII. Do que está sendo feito nas pedras.
VIII. Dos sacrifícios a Mercurius (Woden) ou Iuppiter (Donar).
IX. Dos serviços sacrificiais para certos entes tidos como sagrados.
X. Do uso de amuletos e ligaduras.
XI. Dos sacrifícios nas fontes.
XII. Sobre os encantamentos (galdr).
XIII. Dos augúrios ou predições pelo esterco ou espirros das aves, dos cavalos e do gado (völva ou spákona).
XIV. Dos videntes e adivinhos.
XV. Do fogo da madeira friccionada, isto é, nodfyr (need-fire).
XVI. Dos cérebros de animais.
XVII. Sobre a observação pagã do fogo ou no início de cada coisa.
XVIII. Sobre lugares duvidosos que consideram como sagrados (nemeta).
XIX. Das invocações que os bem intencionados dizem ser de Santa Maria.
XX. Das celebrações que fazem para Iuppiter (Donar) ou Mercurius (Woden).
XXI. Do eclipse da lua, que chamam uinceluna.
XXII. Das tempestades e chifres de touros e lesmas.
XXIII. Dos sulcos ao redor das herdades.
XXIV. Do costume pagão a que chamam frias (ou yrias), roupas rasgadas ou calçados.
XXV. Daqueles que consideram ser santos todos os mortos.
XXVI. Da imagem feita com farinha espalhada.
XXVII. Da imagem feita com pano.
XXVIII. Da imagem que carregam pelos campos.
XXIX. Da oferenda de mãos e pés de madeira conforme o rito pagão.
XXX. Daqueles que acreditam que as mulheres que podem encantar a lua possam tomar os corações dos homens conforme os pagãos.

Texto 3

Regínão de Prüm (morto em 915 EC), Sobre as Disciplinas aos Eclesiásticos e a Religião Cristã, II, 5. Sobre as Disciplinas é uma coleção de cânones, isto é, uma coletânea de leis e princípios jurídicos voltados à regulamentação da organização externa e do governo da Igreja Romana.

42. Deve-se inquirir se [existem na região] magos, feiticeiros, adivinhos, encantadores.

43. Se alguém fizer promessas perto de árvores, fontes, pedras como se fossem altares, se depositar uma vela ou quaisquer presentes como se fosse esse um lugar sagrado onde se pudesse determinar o bem ou o mal. Se qualquer pastor, pastor ou o caçador disser encantamentos diabólicos sobre o pão e as ervas e ligaduras ímpias, se os esconder em uma árvore ou jogá-los nas encruzilhadas, a fim de livrar os animais da doença ou destruir os do seu vizinho.

46. Se alguém bebeu sangue ou comeu algo morto e dilacerado por uma fera.

48. Se alguém tiver bebido o líquido em que uma doninha, rato ou qualquer animal impuro tenha se afogado.

51. Se alguém seguir o costume das calendas de janeiro, que é uma invenção pagã; se observar os dias, a lua, os meses, as horas e se acreditar que isso lhes trará o bem ou o mal.

52. Se alguém, começando a trabalhar, pronunciar palavras ou fizer gestos mágicos, e não, como o Apóstolo determina, fizer tudo em nome do Senhor. Não devemos invocar os demônios em nosso auxílio, mas Deus. Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor, nada mais.

55. Se alguém entoar à noite canções diabólicas sobre os túmulos e parecer alegrar-se com a morte e se alguém fizer vigílias fúnebres fora da igreja.

86. É preciso conhecer as ações das irmandades e confrarias que existem na paróquia.

87. Se alguém se atrever a cantar e dançar nas proximidades das igrejas.

88. Se alguém, ao entrar na igreja, tiver o hábito de tagarelar, não ouvir atentamente as palavras divinas e deixar a igreja antes do fim da missa.

Comentário

Temos três textos:

1) o Sobre a Correção dos Campônios (práticas pagãs no noroeste da Ibéria, séc. VI);
2) o Pequeno Índice (práticas pagãs no norte da Gália e Saxônia, fim do séc. VIII);
3) o Sobre as Disciplinas (práticas pagãs e/ou tidas como desviantes na Lotaríngia, fim do séc. IX).

Comparando-os, certos elementos recorrentes podem ser pinçados:

a) veneração a certas árvores (1.1, 1.19, 2.6, 3.43);
b) veneração a certas pedras (1.3, 2.7, 3.43);
c) realização de oferendas (1.2, 1.6,3.43; pão 1.2,3.43, velas 1.3, 3.43, frutas e vinho 1.5);
d) veneração às fontes (1.2, 2.11, 3,43);
e) existência de especialistas nos ritos mágicos (1.6, 2.14, 3.42);
f) o poder dos encantamentos (1.4, magia de contato 1.10, 2.12, 3.43, 3.52);
g) observação de presságios (1.11,1.12, 2.13);
h) crença na influência dos astros (1.15, 1.18, 1.20, 3.51);
i) sacralidade do fogo (velas, letra “c”; 2.15, 2.17);
j) uso de amuletos e amarrações (1.4, 2.10);
k) relação diferenciada com os mortos (2.1, 2.2, 2.3, 2.25, 3.55). Quanto a este ponto, é interessante recordar o que Tertuliano, citando Nicandro de Cólofon, escreveu no “Sobre a Alma” (57.10): “Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones [uma tribo gaulesa] recebem oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem. Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma Nicandro”;
l) lugares de adoração fora dos padrões cristãos (1.3, 2.4, 2.6, onde nimidas é uma forma tardia do gaulês antigo nemeton; 2.18, 3.43);
m) atos sacrificiais (1.7, 2.9, 2.11; cérebros de animais 2.16, seria referência a um tipo de extispício?);
n) invocação a deidades do passado pagão (1.13, 1.18, 1.20, 2.8, 2.20, 3.52).

Esse mosaico possui razoável extensão cronológica (meados do séc. VI ao fim do séc. IX) e amplitude geográfica (do noroeste ibérico à Europa setentrional). Apesar disso, oferece de modo razoável os contornos da velha religião popular que o cristianismo lutava para substituir, ocasionalmente mantendo práticas consagradas pela tradição sob uma maquiagem cristã. Um exemplo desse expediente pode ser percebido em 3.52 (“Ao colher as ervas medicinais, deve-se dizer o Credo e a oração do Senhor”). Anteriormente, em lugar do “Pater Noster”, talvez o procedimento envolvesse uma prece semelhante à “Oração a Todas as Ervas” (https://nemetonbeleni.wordpress.com/2015/10/13/oracao-a-todas-as-ervas/), ainda que menos elaborada.

Continua…

Bellou̯esus /|\

A Invocação das Dádivas

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Eu banho as tuas mãos
Em cascatas de vinho,
No fogo purificador,
Nos elementos todos deste mundo,
No sumo de todos os frutos,
No leite doce como o mel,
E firmo os nove puros encantos
No teu rosto gracioso:

A dádiva da formosura do corpo,
A dádiva da voz,
A dádiva da felicidade,
A dádiva da bondade,
A dádiva da sabedoria,
A dádiva da generosidade,
A dádiva da modéstia honrada,
A dádiva da beleza na alma,
A dádiva das boas palavras.

Sombria é aquela cidade,
Sombrios os que lá estão;
És tu o cisne dourado
Que entre eles se aventura.
Sob o teu poder os seus corações,
Sob os teus pés as suas línguas.
Que jamais sussurrem sequer uma palavra
Para ofender-te ou ferir-te.

És sombra no calor,
No frio és abrigo.
És olhos para o cego,
Para o peregrino és bastão.
És ilha no mar,
Uma fortaleza és em terra.
És fonte no deserto,
Saúde para o enfermo és tu.

Tua é a perícia de todas as deusas,
Tua é a virtude da gentil Sironā,
Tua é a fidelidade da Mātronā suave,
Tua é a cortesia da terra mais nobre,
Tua é a beleza da adorável Nantosu̯eltā,
Tua é a ternura de toda juventude delicada,
Tua é a coragem de Katubodu̯ā,
Tua é a sedução da voz melodiosa.

És a alegria de todas as coisas alegres,
És a luz do raio de sol,
És a porta do mestre da hospitalidade,
És a estrela de brilho insuperável a mostrar o caminho,
És a pegada do gamo na encosta da colina,
És a pegada do corcel na planície,
És a elegância do cisne no lago,
És o enlevo de todo desejo envolvente.

A semelhança esplêndida de Esus
Está na tua face pura,
A mais esplêndida semelhança
Que no mundo já existiu.

Seja tua a melhor parte do dia,
O melhor dia da quinzena seja teu,
Seja tua a melhor quinzena do ano,
O melhor ano em poder de Lugus seja teu.

Ogmi̯os chegou e Smertri̯os chegou,
Moritasgos chegou e Kirki̯os chegou,
Rīganī e Rosmertā chegaram,
Sukellos magnânimo chegou,
O formoso jovem Maponos chegou,
Belenos, profeta dos deuses, chegou,
Lugus, o príncipe valente, chegou
E Toutatis, o chefe dos exércitos, chegou.

E Eponā, a mãe de tudo, chegou
E os conselhos do seu espírito chegaram,
E Karnonos com ela veio
Para derramar sobre ti a sua afeição e o seu amor,
Para derramar sobre ti a sua afeição e o seu amor.

Bellouesus /|\

Adaptado de Carmina Gadelica.

 

Encantamento contra Enfermidades

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bonfire

Prepare-se da forma costumeira. Comece quando sentir que está pronto.

Belenos da longa cabeleira,
Belenos que tudo prevê,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos belos cabelos,
Belenos possuidor da décima parte,
Belenos diante de quem todos são iguais,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Belenos Iluminado, abre-me o caminho! (Libação de água)

Belenos dador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos nascido da luz,
Belenos protetor dos pastores,
Belenos caçador,
Belenos das boas profecias,
Belenos guia do destino,
Belenos comandante,
Belenos auxiliador.

Belenos Iluminado, abre-me o caminho! (Libação de mel)

Fogueira

Tradicionalmente, este encanto se faz com madeira de carvalho.

Acenda a fogueira.

Você vai amarrar um fio roxo de material natural (como lã ou algodão) ao redor da pessoa ou de uma imagem consagrada dela ou de um objeto que tenha estado em contato próximo com ela durante certo tempo. Dê um nó e diga: Eu te amarro para a cura. Desamarre o nó e lance-o ao fogo, dizendo: Ao fogo lanço este mal para que seja consumido como este fio é consumido. Que desapareça na fumaça!

Quando a maior parte da madeira estiver reduzida a pedaços brilhantes de carvão em brasa, apanhe um cuidadosamente com um par de pinças ou uma pá e atire-o imediatamente num riacho ou num pote de água fria. Ele irá chiar e estalar. Enquanto isso, visualize o mal que deixa o corpo da pessoa afetada. Repita a operação mais três vezes.

Bellouesus /|\

Oração antes dos Estudos

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A recitação desta prece deve sempre anteceder o estudos, meditações e quaisquer práticas ligadas às atividades do Nemeton Belenī, por mais corriqueiras e banais que pareçam, e ser acompanhada pelo gesto da Aveleira.

Coll, a Aveleira, representa o Conhecimento e a Inspiração que devem ser buscados pelo estudante a cada momento. Faça do seu tempo de estudo uma oferenda aos Deuses, dedicada a refletir a respeito deles e honrá-los.

antesdosestudos1

Gaulês Antigo

Molātūs Dedmē Ollodagāi Krundyūi!

Ā Lugus, Ilukerdānon Magale,
Ā Belene, Andeu̯ātis U̯eri̯akkī,
Ā Brigindū, Mātīr Ouξamā Rou̯iđđous,
Ā Taranus, Bremī Nemomarkāke,
Ā Toutatis, Au̯ete Rii̯otātos Eξobne.
Bii̯etū sin su̯adū Komenonāi Dēu̯obok ollobo en Bitubi Tribi.

Gaulês Moderno

Mólath A Rhéith hOldhái In Olvithu!

Lúi, Maial Cerdhlé Élu
Bélen, Gwáth Már ach Gwir’iach
Brín, Máthir hUcham Gwísu Már
Taran, Marchis Nemeth en Gharghar
Tóthath, Diadhrethíath Riúas Echovn
O bí sin súadh a Wenvethan Dhéach ach a Dhéié ol en in Trí Bithúé

Tradução

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste de Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos (1).

Comentários

a) Lugus

Lugus, também chamado Lug ou Lugh (proto-céltico: *luco-, “lince/lobo” ou *leuk-, “claro, brilhante”), é um dos principais deuses da antiga religião dos povos célticos. Provavelmente, é a divindade que Iulius Caesar identificou ao romano Mercurius (o Hermes helênico). Seu culto foi difundido em todo o antigo mundo céltico, e o seu nome ocorre como elemento de muitos topônimos na Europa continental e nas Ilhas Britânicas, tais como Lyon, Laon, Leiden e Carlisle (antigamente Luguuallium, “Forte no deus Lugus”).

De acordo com a tradição irlandesa, Lug Lámfota (“Lug do Braço Longo”) foi o único sobrevivente de trigêmos com o mesmo nome. Pelo menos três dedicatórias a Lugus na forma plural, Lugoues, são conhecidas da Europa continental e a afinidade dos celtas com formas tríplices sugere que três deuses foram da mesma forma contemplados nessas dedicatórias. O filho de Lug, ou o próprio Lug renascido (de acordo com a crença irlandesa), foi o grande herói de Uladh, Cúchulainn (“Cão de Culann”).

Em Gales, como Lleu Llaw Gyffes (“Lleu da Mão Hábil”), acreditava-se também que ele tivera um nascimento estranho. Sua mãe era a deusa virgem Aranrot (2) (“Roda de Prata”). Quando o tio dela, o grande mágico Math, testou a sua virgindade por meio de uma vara mágica, ela em seguida deu à luz um menino que foi imediatamente levado por seu tio Gwydion e criado por ele. Aranrot então procurou repetidamente destruir o seu filho, mas sempre foi impedida pela magia poderosa de Gwydion; ela foi forçada a dar um nome ao menino e proporcionar-lhe armas; finalmente, como sua mãe lhe negasse uma esposa, Gwydion e Math criaram para Lleu uma mulher feita de flores.

Lug também era conhecido na tradição irlandesa como Samildánach (“hábil em todas as artes”). A variedade de seus atributos e a grandeza com que o seu festival, Lughnasadh (fixado a 1º. de agosto), era comemorado na Irlanda e na Grã-Bretanha indicam que Lugus é uma das mais poderosas e impressionantes de todas as antigas divindades célticas.

b) Belenos

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Primeiramente, apesar das associações do seu nome com o fogo ou o Sol, Belenos não era um deus solar. Na verdade, não há evidência de que o Sol tenha sido adorado como tal pelos celtas, ainda que o seu uso na iconografia religiosa fosse frequente. Mais de três dezenas de dedicatórias testemunham o culto a Belenos, um número incomumente elevado para uma religião notável pelo número e diversidade dos nomes e epítetos das suas deidades. O culto de Belenos foi praticado na Itália setentrional (Gália Cisalpina), Noricum (3), Alpes Orientais, Gália meridional e provavelmente na Grã-Bretanha.

Analisando a etimologia do nome de Belenos, o eminente Xavier Delamarre o traduz como “Senhor do Poder”:

belo-, bello-, “forte, poderoso”

Termos e tema frequente em NP [noms de personne, “nomes pessoais, teo-/antropônimos”]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, “nomes de rio, hidrônimos”] Bienne e Biel (Suíça) remontam a *Belenā. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade “solar”, levou a que essa designação fosse compreendida como “o luminoso, o brilhante”, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- “brilhar” (há um *ĝwelH- “queimar”, nicht ganz sicher [“não muito seguro”] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos “branco”, armênio bal “palidez”, sânscrito balâkâ “guindaste”, gótico bala “cinzento”, letão báltas, “branco”, eslavo antigo belo “id.”, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhēl- / *bhǝl- [*bheh1l- / *bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante “branco, cinzento, pálido”, porém não “brilhante”; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet “relâmpago”, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, “força, forte”: sânscrito bálîyân, “mais forte”, bálisthah “o mais forte” (= balisamo- com a divisão dialetal regular do sufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíōn, béltistos “melhor, mais” (por *belíōn, bélistos), latim dē-bilis “baixo”, eslavo antigo boljiji “maior”, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como “A Muito Poderosa” e não como “A Muito Brilhante”, Belinos “O Senhor do Poder” (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – “Forte e Bom” (4).

Embora não seja possível afirmá-lo com total certeza. Belenos é também a divindade associada ao festival gaélico chamado Beltane (5) (1º. de maio), tido como celebração da fertilidade, mas que era na realidade uma cerimônia de proteção realizada pelos druidas, como se entende deste trecho do Sanas Chormaic (6):

Belltaine .i. bil tene .i. tene soinmech .i. dáthene dognítis druidhe triathaircedlu (no cotinchetlaib) móraib combertis nacethrai arthedmannaib cacha bliadna cusnaténdtibsin [na margem esquerda: .[l]eictis nacethra etarru].

Belltaine, isto é, bil-tene, isto é, “fogo afortunado”, isto é, dois fogos que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos e eles costumavam trazer o gado como uma proteção contras doenças de cada ano a esses fogos [na margem esquerda: costumavam conduzir o gado entre eles.

Ligado à luz e ao poder de curar, Belenos é provavelmente o deus gaulês que Iulius Caesar identificou a Apolo, porém não o deus esteta dos helenos, o Apolo Muságeta (“condutor das musas”). Caesar explica a ideia que os gauleses faziam de Apolo: “Apolo afasta as doenças”. O Apolo gaulês é iátros (“médico”) e mântis (“adivinho”), o deus da cura e da profecia.

c) Brigindū

O que foi dito sobre Brigit nos Comentários ao Texto 2, letra “h” (7), pode ser extrapolado para Brigindū/Brigindonā/Brigantyā, porém com aspectos guerreiros mais pronunciados face à identificação com Victoria (a grega Nikē), personificação da vitória na guerra, em jogos atléticos e também sobre a morte, e Minerua (a grega Athēnā), deusa da sabedoria e protetora das artes (incluindo-se a magia, quando Brigindū passa a chamar-se Briχtā, “Magia, Encantamento”) e ofícios, do comércio e da estratégia.

d) Taranus/Taranis

O deus do trovão, adorado sobretudo na Gália, na Gallaecia (8), nas Ilhas Britânicas, na Renânia e no vale do Danúbio. O poeta romano Lucanus (9), na obra Pharsalia, citou Taranis como parte de uma tríade divina, cujos outros integrantes eram Esus e Toutatis.

Assim como o ciclope Brontes (“Trovão”) da mitologia grega, Taranis estava associado à roda. Iconograficamente, Taranis era representado em imagens provenientes da Gália como um homem barbado, carregando um raio numa das mãos e uma roda na outra. É claro o sincretismo com o deus romano Iuppiter.

O nome, tal como registrado por Lucanus, não possui atestação epigráfica, mas variantes, como Tanarus, Taranucno-, Taranuo- e Taraino- são conhecidas. Conforme informação prestado por Máksimos de Tyros (10) (Lógoi, “Discursos”, VIII, 8) o Zeus gaulês era adorado não sob a forma humana, mas como um carvalho: Κελτοὶ σέβὅσι μέν Δία, ἄγαλμα δὲ Διὸϛ Κελτὶκὸν ὑψηλὴ δρῦϛ (“os celtas sem dúvida adoram Zeus, porém honram-no sob a forma de um alto carvalho”).

e) Toutatis/Teutatis

“Deus da Tribo” (teuta/touta). Toutatis, como dito anteriormente, integra uma trindade de deuses mencionados pelo poeta romano Lucanus, juntamente a Esus e Taranus/Taranis. O comentador medieval de Lucanus (nos Commenta Bernensia [11] ) identifica Toutatis a Mercurius, Esus a Mars e Taranis a Dispater (Pluto). Caesar, no entanto, menciona (Commentarii de Bello Gallico, VI, 17) cinco deuses como sendo os mais importantes para os gauleses: Mercurius (Lugus, Lugh?), seguido de Apollo (Maponos, Esus, Belenos?), Mars (Toutatis?), Iuppiter (Taranis) e Minerua (Brigindu, Brigantia, Brigit?).

Considerando que são deuses de culturas diferentes, apresentando apenas certos traços em comum (o que teria permitido a aproximação), é difícil pretender uma identificação completa. Mesmo entre os deuses gregos e romanos havia discrepâncias.

O nome Toutatis deriva de *teutā (proto-céltico)/toutā (gaulês), “tribo, povo”, equivalente ao irlandês tuath, ao galês tud e origem do alemão Deutsch. Se correta a equivalência com Mars, Toutatis é um deus da guerra (protetor das fronteiras tribais) e da fertilidade (faz crescer as lavouras). Também pode ser um título para diferentes deuses tribais (cada tribo teria o seu Toutatis).

f) Komenonā

Divindade alegórica, é a personificação da Memória (12). Corresponde à grega Mnēmosýnē, deusa da memória e da lembrança, inventora da palavra e da linguagem, mãe das Musas.

Em uma cultura como a céltica, onde a transmissão do conhecimento se dava pela oralidade, Komenonā representa a qualidade fundamental para a preservação dos relatos históricos, das sagas dos heróis e dos mitos divinos. Desse modo, além de ser a Memória Divina, Komenonā é também a Senhora do Tempo e do Conhecimento.

g) Os Três Mundos, a Árvore do Mundo

Um dos conceitos mais importantes na mitologia pré-cristã indo-europeia (onde se inserem os celtas) era a “Árvore do Mundo” (13) (o carvalho ou alguma espécie de pinheiro). Os três níveis do Universo localizavam-se na árvore: o céu em sua copa, reino das divindades e corpos celestiais; o reino dos mortais em seu tronco; o reino dos mortos nas raízes. Esse era o eixo vertical da Árvore do Mundo.

O eixo vertical tinha seu paralelo na organização horizontal (ou geográfica) do mundo. O mundo dos deuses e mortais situava-se no centro da terra (considerada achatada), cercada pelo mar, além do qual se estendia a terra dos mortos, para onde as aves voavam no inverno e de onde retornavam na primavera. É importante observar que essa concepção encerrava a ideia de que uma massa de água devia ser atravessada para chegar-se ao reino dos mortos.

O eixo horizontal dividia-se nos quatro pontos cardeais, representando os quatro ventos principais. A Árvore do Mundo unia os dois eixos, o vertical (Mundo Superior, Médio e Inferior) e o horizontal (norte, leste, sul e oeste).

Cosmologias semelhantes podem ser encontradas entre outras culturas indo-europeias (como os germânicos e eslavos), possivelmente entre os celtas também. Mas, no caso destes, tal conclusão depende de analogia e interpretação, uma vez que não há nenhum testemunho direto endógeno (dos próprios celtas) ou exógeno (de outra cultura contemporânea) a respeito.

Textos medievais permitem entrever que, os irlandeses concebiam uma divisão tripla do Cosmo: Neamh (Céu), Talamh (Terra) e Mor (Mar) (14).

O Céu

Está associado aos corpos celestes: o Sol, a Lua, as estrelas. É o reino onde habitam os Deuses e Deusas e liga-se aos ciclos e padrões celestes. Os corpos celestes não eram considerados deidades em si mesmos, mas reflexos de tipos de poder associados a divindades específicas. Os fogos do Sol estavam associados à forja e à inspiração. O Céu traz prenúncios do futuro. O Espírito da Criação reside em Magh Mór (a Grande Planície ou Mundo Celeste), ou seja, Neamh (o Céu). Quatro maighne (planícies) são as suas divisões, isto é, …

1 Magh Findargat (Planície da Prata Brilhante), fonte de Luz e de Esperança;
2 Magh Mell (Planície das Delícias), nascedouro da Inspiração e da Criatividade;
3 Magh Iongnadh (Planície dos Milagres), abundante em Maravilhas e Espantos;
4 Sen Magh (Planície Antiga), sede das Origens e da Sabedoria.

A Terra

O mundo terrestre, ocupado pelos vivos, contém reflexos do Mundo Celeste e do Mundo Inferior. Essas influências podem ser imaginadas como três zonas (sendo três um número sagrado): a zona superior associada ao clima, ao voo dos pássaros, augúrios celestes e aos elementos e poderes do Ar, a zona intermediária divide-se nas Quatro Direções e Quadrantes cada um com seus Poderes e Guardiães) e a zona inferior, contendo as profundezas do mar, cavernas montes sepulcrais, colinas ocas e fontes sagradas. Essa zona é a morada dos Sídhe e dos Espíritos ligados aos Portais do Mundo Inferior. Para os celtas, as influências do Céu e do Mundo Inferior mesclavam-se em suas vidas sobre a Terra Média. O Espírito do Ser reside em Bith (Mundo), isto é, Mide (o Mundo Médio), ou seja, Talamh cé (“esta Terra”). Quatro arda (direções) são as suas divisões, isto é, …

1 Airthis (leste), fonte de Prosperidade (Bláth) e Mudança;
2 Teissus (sul), nascedouro de Música (Séiss) e Poesia;
3 Íaruss (oeste) abundante em Conhecimento (Fis) e Magia;
4 Tuadus (norte), sede da Batalha (Cath) e da Determinação.

O Mar

O Mundo Inferior é o reino dos Ancestrais e de Divindades ligadas ao mistério da vida surgindo da morte. O Espírito dos Ancestrais reside em Tír Andomain (o Mundo Inferior), ou seja, Mor (o Mar). Quatro tíortha (territórios) são as suas divisões, isto é, …

1 Tír na mBeo (Terra dos Vivos), fonte de Eternidade e Conhecimento Antigo;
2 Tír na mBan (Terra das Mulheres), nascedouro de Beleza e Prazer;
3 Tír fo Thuinn (Terra sob as Ondas), abundante em Temor e Percepção;
4 Tír na nÓg (Terra da Juventude), sede dos Anseios e da Renovação.

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Bilí (“árvores sagradas” em irlandês antigo, bile no singular) eram grandes árvores associadas a locais onde ocorriam as cerimônias de entronização dos reis irlandeses, sendo elas próprias simbólicas da autoridade do monarca, uma vez que de seus ramos provavelmente era cortada a slat na righe (“bastão da realeza”) durante a sagração do rei.

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Notas:

1) Áudio disponível em <https://soundcloud.com/user197250276/oracao-antes-dos-estudos>. Acesso em 22 dez. 2015.

2) “Roda de Prata” é a tradução mais comum do nome Arianrhod. A grafia antiga do nome, usada acima (Aranrot), mostra que se trata de uma hipótese equivocada, pois arian(t), “prata”, não é o elemento que se acha no nome da mãe de Lleu, e sim aran, que se traduz deste modo: “Aran, s. f. – pl. t. au (ar) A high place; alp. It is the name of several of the highest mountains in Britain” (Owen, William. A Dictionary of the Welsh Language, Explained in English. Londres, 1803, v. I, p. 279). Portanto, aran rot é “montanha da roda ou monte circular/redondo” e não “roda de prata” (arian rhod).

3) Província romana que incluía a Áustria e parte da Eslovênia modernas.

4) Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

5) Lá Bealtaine (gaélico irlandês), Là Bealltainn (gaélico escocês), Laa Boaltinn/Boaldyn (manês) e ainda Beltaine e Beltine.

6) Sanas Chormaic (“Narrativa/Glossário de Cormac”), atribuído a Cormac Ua Cuileannáin (séc. X), bispo e rei de Caisel (Cashel, Co. Tipperary), é um glossário irlandês antigo que explica as etimologias de mais de 1.400 palavras que, na época de sua composição, já estavam obsoletas ou eram de difícil interpretação.

7) O texto em questão é o seguinte:

Brigit .i. banfile ingen inDagdai. iseiside Brigit baneceas (no be neicsi) .i. Brigit bandee noadradís filid. arba romor 7 baroán afrithgnam. isairesin ideo eam (deam) vocant poetarum hoc nomine cujus sorores erant Brigit be legis Brigit bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena inDagdai insin. de quarum nominibus pene omnes Hibernenses dea Brigit vocabatur. Brigit din .i. breo-aigit no breo-shaigit.

Brigit isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Essa é Brigit, a sábia [mulher da sabedoria], isto é, Brigit, a deusa a quem os poetas adoravam, pois muito grande e muito famosa era a proteção que concedia. Assim, é por essa razão que chamam sua deusa dos poetas por esse nome, cujas três irmãs eram Brigit, a médica [mulher da arte da cura], Brigit, a ferreira [mulher da forja], de cujos nomes todos os irlandeses denominavam uma deusa Brigit. Brigit, breo-aigit ou breo-shaigit [“seta flamejante”].

Seu nome é grafado de várias formas: Brigid, Brighid, Bríg, Bride. Como indica o texto acima, Brigit é uma deusa da poesia, da metalurgia e da arte de curar (baneceas, be legis, bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in Dagdai, “mulher da sabedoria, mulher da cura, mulher da forja, isto é, uma deusa, ou seja, três filhas do Dagda”, bandee noadradís filid, “deusa a quem os poetas adoravam”). A forma do nome em proto-céltico seria *Briganti, significando “A Sublime”, “A Enaltecida”, “A Elevada”, derivada do adjetivo indo-europeu *bhergh, “alto”. É equivalente à Brigantia romano-céltica, deusa tutelar da federação de tribos conhecida como Brigantes, que dominou o norte da atual Inglaterra e foi identificada a Victoria Caelestis e Minerua. Na Gália, seu nome era Brigindo ou Brigandu. No conto “A Segunda Batalha de Mag Tuired”, Brigit é a esposa de Bres mac Elathan, o rei meio fomoir que veio a governar as Tuatha Dé e acabou deposto em razão de sua mesquinhez. O casal teve um filho, Ruadán, que, combatendo pelos Fomoirí, foi morto ao tentar matar o deus ferreiro Goibniu. O lamento de Brigit por seu filho teria sido o primeiro keening ouvido na Irlanda. O festival chamado Imbolc (1o. de fevereiro), que celebra a estação do nascimento e do aleitamento dos cordeiros, está associado a Brigit em seu papel como deusa da fertilidade. Ela se liga também ao fogo, tanto em sentido concreto (o fogo da lareira) como metafórico (o fogo da inspiração). Brigit era a deusa tutelar dos Laighin, o grupo de tribos que deu nome ao Cúige Laighean e é nessa região que a “Geografia” de Ptolomeu situou os Brigantes da Irlanda. Santa Brighid, importantíssima santa irlandesa (chamada “mãe adotiva de Cristo” e “Maria dos gaélicos”), parece ter herdado muitos atributos da antiga deusa: o mesmo nome; celebração no mesmo dia; ambas padroeiras dos poetas, ferreiros e curadores, ambas ligadas a aspectos da fertilidade e da agricultura (Santa Brighid é protetora do gado e suas vacas produziam enormes quantidades de leite), além de uma forte ligação com o fogo.

8) Gallaecia ou Callaecia em latim (Galécia em português) é o nome da região localizada no noroeste da antiga Hispania romana, território que corresponde aproximadamente ao da moderna região norte de Portugal, somado à Galícia, Astúrias e Leão na Espanha.

9) Marcus Annaeus Lucanus, poeta romano (03/11/39 – 30/04/65 d. C.).

10) Máksimos de Tyros, retórico e filósofo grego, viveu na época dos Antoninos e do imperador Commodus (fim do séc. II d. C.).

11) Também conhecidos como “Escólios de Berna”, são comentários ou notas escritos nas margens de um manuscrito do séc. X preservado na Burgerbibliothek de Berna, Suíça. Esses comentários relacionam-se a textos latinos clássicos, incluindo o De Bello Ciuili (Lucanus), as Eclogae e os Georgicā (Vergilius). O comentário elabora uma referência de Lucanus aos sacrifícios humanos realizados pelos druidas a Toutatis (Mercurius), Esus (Mars) e Taranis (Iuppiter), explicando que as vítimas de Toutatis eram afogadas num caldeirão (cena que pode ser vista no “Caldeirão de Gundestrup”), ao passo que as vítimas de Esus eram enforcadas numa árvore e as de Taranis, queimadas.

12) Galo-britônico koman, komenos (subst. neutro de tema em nasal), cf. irlandês antigo cuimne, irlandês moderno cuimhne, galês cof, córnico kov, bretão koun.

13) Prennon Bitous (gaulês antigo), Pren in Bithu (gaulês moderno).

14) Esta é um interpretação altamente especulativa.