Anotações Druídicas IV

TESOUROS

Anotações Druídicas IV: Direções e Atribuições

Bellou̯esus Īsarnos

Em “A Fundação do Domínio de Temuir” (Suidiugud Tellaich Temra), o ancião Fintan mac Bóchra, o Sábio, tem como missão mostrar que Temuir era e deveria continuar a ser a sede da Realeza Suprema da Irlanda. Ele conta o seguinte:

Uma vez estávamos fazendo uma grande assembleia dos homens da Irlanda ao redor de Conaing Bec-eclach, Rei da Irlanda. Certo dia, então, vimos nessa assembleia um grande herói, belo e poderoso, aproximando-se de nós e vindo do oeste, da direção do pôr-do-sol. Maravilhamo-nos grandemente com a magnitude de sua forma. Tão alto quanto uma árvore era o topo de seus ombros, o céu e o sol visíveis entre suas pernas em razão do seu tamanho e beleza. Um véu de brilhante cristal sobre ele, como uma veste de linho precioso. Sandálias em seus pés e não se sabe de que material eram. Cabelo amarelo-dourado caindo em cachos até a altura de suas coxas. Tábuas de pedra na sua mão esquerda, um ramo com três frutos em sua mão direita e eram estes os frutos que nele estavam, nozes e maçãs e bolotas do mês de maio: e não maduro estava cada fruto. Com passos largos ele caminhou para trás de nós, ao redor da assembleia, com seu ramo dourado de muitas cores de madeira do Líbano atrás de si e um de nós lhe disse: “Vem aqui e conversa com o rei Conaing Bec-eclach”. Ele respondeu e disse: “Que desejais de mim?” “Saber de onde vieste”, disseram eles, “e para onde vais e quais são teu nome e sobrenome.” “Sem dúvida eu vim”, disse ele, “do pôr-do-sol e estou indo para o nascer-do-sol e meu nome é Trefuilngid Tre-eochair”. “Por que te foi dado esse nome?”, disseram eles. “Fácil dizer”, disse ele. “Porque sou eu quem provoca o nascer-do-sol e o seu poente.

Trefuilngid Tre-eochair (“Tríplice Portador da Chave Tripla”), então, é quem provoca a aurora e o poente. Ele fez um pedido: que todos os irlandeses fossem reunidos naquele lugar. Depois que todos estavam presentes, ele perguntou se havia alguém que conhecesse toda a história da ilha. Quando se descobriu que não, ele escolheu um dos presentes para se tornar o depositário desse conhecimento. O escolhido foi Fintan. Fintan depois declarou que Trefuilngid Tre-eochair era “um anjo ou o próprio Deus”.
Um detalhe interessante é que, quando Trefuilngid Tre-eochair pediu que o povo fosse reunido, o rei Conaing Bec-eclach disse que isso poderia ser feito, embora eles não fossem poucos, mas seria difícil para os irlandeses sustentá-lo durante o tempo em que permanecesse com eles. O gigante então declarou que podia se sustentar somente com o aroma do ramo que trazia. Esse ramo merece A nossa atenção. É um ramo dourado, de muitas cores, de madeira do Líbano, com três “frutos” diferentes: nozes, maçãs e bolotas (de carvalho).

Na tradição irlandesa, o ouro não é particularmente significativo, ao contrário da prata, que representa autoridade. A cor dourada indica apenas que o ramo é brilhante e precioso. Já “muitas cores” tem um significado importante: um manto de várias cores representa o próprio druidismo, objetos ou criaturas multicoloridos possuem origem sobrenatural. O ramo é de madeira do Líbano, isto é, cedro. É uma árvore muitas vezes mencionada no Antigo Testamento. Não há cedros na Irlanda, de modo que a referência a essa árvore indica genericamente uma madeira rara e valiosa.

A árvore de que foi retirado esse ramo combina as qualidades de seus frutos. A noz não é necessariamente a proveniente da nogueira, pois, em gaélico medieval, a palavra cno indica ao mesmo tempo a noz e a avelã. Seja como for, essa noz representa sabedoria, poesia, magia, florestas. A maçã é o amor e a felicidade. A bolota é a abundância, enquanto o carvalho indica hospitalidade, tradição e lei. É com o aroma desse ramo que o gigante se alimenta.

A roupa que ele usa é um véu de cristal. Encontramos na lenda céltica barcos de cristal e edifícios de cristal (casas, fortalezas, castelos). Nesse caso, o cristal representa uma técnica e uma perfeição inacessíveis às habilidades humanas, bens que não podem ser comprados por nenhum soberano deste mundo.

Na minha opinião, Trefuilngid Tre-eochair é o deus do tempo gaélico. Além de ser o conhecedor de toda a história, é ele quem regula o curso do sol (aurora e poente). Estou mencionando tudo isso porque é ele próprio quem faz, nesse mesmo conto, as únicas atribuições direcionais seguras existentes na tradição irlandesa (mas as fortalezas e celebrações vêm de Foras Feasa ar Éirinn, “Fundação do Conhecimento sobre a Irlanda” ou simplesmente “História da Irlanda”, de Seathrún Céitinn):

SIAR, oeste (província: Connacht; fortaleza real: Uisnech; Beltaine) – Conhecimento e Magia – Caldeirão do Dagda

Sabedoria, alicerce, ensinamento, pacto, julgamento, crônicas, conselhos, relatos, histórias, ciência, decoro, eloquência, beleza, modéstia, generosidade, abundância, riqueza.

THUAIDH, norte (província: Ulaid, Ulster; fortaleza real: Tailtiu; Lughnasadh) – Batalha e Determinação – Pedra de Fail

Batalhas, disputas, audácia, locais incultos, lutas, arrogância, inutilidade, orgulho, capturas, ataques, severidade, guerras, conflitos.

OITHEAR, leste (província: Laighin, Leinster; fortaleza real: Temuir; festim de Temuir a cada três anos) – Prosperidade e Mudança – Espada de Nuada

Prosperidade, suprimentos, colmeias, torneios, feitos de armas, chefes de família, nobres, prodígios, bom costume, boas maneiras, esplendor, abundância, dignidade, força, riqueza, administração da casa, muitas artes, muitos tesouros, cetim, sarja, seda, trajes, hospitalidade.

DESS, sul (província: Mumhan, Munster; fortaleza real: Tlachtgha; Samhain) – Música e Poesia – Lança de Lugh

Cachoeiras, feiras, nobres, saqueadores, conhecimento, sutileza, ofício dos músicos, melodia, ofício dos menestréis, sabedoria, honra, música, aprendizagem, ensino, ofício dos guerreiros, jogo de fidchell, veemência, ferocidade, arte poética, advocacia, modéstia, código, séquito, fertilidade.

MIDE, centro (província: Mide, Meath)

Realeza Reis, mordomos, dignidade, primazia, estabilidade, instituições, esteios, destruições, ofício de guerreiros, ofício de condutores de carruagens, soldadesca, principados, grandes reis, ofício dos mestres-poetas, hidromel, generosidade, cerveja, renome, grande fama, prosperidade.

Geralmente, encontramos nos livros que a Taça (e, em consequência, o Caldeirão) localiza-se no oeste. Mas esse Caldeirão é o Caldeirão do Dagda, cuja propriedade característica é que ninguém dele se afaste sem estar saciado. É, portanto, um caldeirão nutridor, denotando abundância, fertilidade e comensalidade, isto é, que as pessoas se reúnam ao redor dele para obter alimento. Os textos irlandeses dizem que o poder do Dagda era a capacidade de controlar o clima, influenciando no desenvolvimento das plantações. Tudo isso combina com as atribuições do leste: prosperidade, suprimentos, etc. Mais adiante na lista, encontramos também “boas maneiras”, um imperativo nas refeições feitas em conjunto. Parece bastante adequado que o Caldeirão da Abundância fique no leste, a direção da Prosperidade, não no oeste.

Vamos olhar as atribuições do oeste. “Sabedoria, alicerce, julgamento, eloquência, generosidade, riqueza”: esses são os atributos do REI céltico. Ele precisa ser sábio para fazer sempre o julgamento correto, pois, se ele pronunciar uma sentença injusta, todo o seu reino pagará por isso. Os animais param de se reproduzir, as árvores não produzem mais frutos, as plantações morrem, os peixes desaparecem dos rios e lagos. A injustiça desperta a indignação da Esposa Divina do rei, a Deusa da Soberania (Fláith Érenn, “Soberania da Irlanda”). Além de justo, o rei precisa de riqueza para ser generoso. Quando lhe pedem um dom, ele tem de concordar em concedê-lo de acordo com a categoria do pretendente, sem mesmo perguntar o que este deseja. É o modo de demonstrar um “desapego” heroico aos bens materiais. Desse modo, a lança da realeza fica melhor no oeste que no sul.

A pedra, que “canta” sob cada rei predestinado, deve ser atribuída à música e ao sul, enquanto a espada do guerreiro deve ficar no norte, cuja atribuição principal é “batalha” – parece que a Irlanda do Norte já tinha problemas na época antiga.
Então, combinando as indicações de “A Segunda Batalha de Magh Tuireadh” (que enumera os Quatro Tesouros, as Cidades, os Mestres e os Deuses) e de “A Fundação do Domínio de Temuir” (que dá as atribuições direcionais), é possível fazer as seguintes relações:

SABEDORIA – oeste – terra (talam) – lança (gae) – cidade: Goria (de gor, calor moderado, incubação) – mestre: Esras (“Passagem”) – Soberania sacerdotal e guerreira – Lug

BATALHA – norte – ar (aer) – espada (claideb) – cidade: Findias (de find, branco, brilhante) – mestre: Uscias (“Água Fresca”) – Realeza – Nuada

PROSPERIDADE – leste – água (dobur) – caldeirão (coire) – cidade: Muirias (de muir, mar) – mestre: Semias (“Sutil”) – Abundância, Ressurreição, Regeneração – O Dagda

MÚSICA – sul – fogo (teine) – pedra (lía) – cidade: Falias (de fail, destino; nome simbólico da Irlanda: Inis Fail, Innisfal, “Ilha do Destino”) – mestre: Morfesa (“Grande Ciência”) – Todos os aspectos da Soberania – Bem indivisível de todos os Deuses

REALEZA – centro – éter/névoa (ceó) – Vazio/Plenitude – Expressa a precipitação dos quatro elementos em seu movimento e transformação.

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Moí Coire Coir Goiriath

3caldeiroes

Moí Coire Coir Goiriath

O Caldeirão da Poesia

Atribuído a Amhairghin Glúingeal

Um antigo poema atribuído ao próprio druida Amhairghin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema (datado do começo do séc. VIII, para as partes em verso, e do séc. X, para as partes em prosa, em razão de certas formas gramaticais) recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

Moí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad.
Os mé Amargen glúngel garrglas grélíath,
gním mo goriath crothaib condelgib indethar
– dath nád inonn airlethar Día do cach dóen,
de thoíb, ís toíb, úas toíb –
nemshós, lethshós, lánshós,
do h-Ébiur Dunn dénum do uath aidbsib ilib ollmarib;
i moth, i toth, i tráeth,
i n-arnin, i forsail, i ndínin-díshail,
sliucht as-indethar altmod mo choiri.

Meu perfeito caldeirão do aquecimento
por Deus foi retirado do abismo misterioso dos elementos,
perfeita verdade que do âmago do ser enobrece,
que verte uma aterradora correnteza de palavras.
Amhairghin Joelho-Branco sou,
de pele pálida e cabelo cinzento,
minha incubação poética realizando em formas adequadas,
em cores diversas.
Deus não concede a todos a mesma sabedoria:
inclinado, invertido, na posição correta.
Conhecimento nenhum, meio conhecimento, conhecimento completo
para Eber Donn, criação de temível poesia,
de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente,
No masculino, no feminino e no neutro, os sinais das letras duplas, vogais longas e vogais breves,
O modo pelo qual se declara a natureza do meu caldeirão*.

* […] para Eber Donn, criação de temível poesia, / de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente, […]: o texto foi composto para Eber e Donn, irmãos do druida Amhairghin. Eber foi um dos reis dos Mac Miledh e Donn, tendo sido o primeiro humano a morrer na Irlanda, tornou-se uma divindade tutelar dos mortos, recebendo os descendentes de Mil na Teach Duinn (“Casa de Donn”) depois da morte. Comumente, essa casa é localizada em um rochedo do mesmo nome em algum lugar no mar a sudoeste da Irlanda.

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa*.

* Onde se encontra a raiz da poesia: na alma ou no corpo? “Na alma, pois sem esta nada pode o corpo”. Essa parece ser a atitude eclesiástica. “No corpo, pois é herdada dos ancestrais”. Essa parece ser a atitude das classes instruídas nativas, que colocavam grande ênfase na necessidade de que o pai e o avô tivessem sido filí para que um indivíduo pudesse ser considerado file ele próprio. O autor do texto não contradiz um ponto de vista nem o outro, apresentando um terceiro, isto é, afirmando que o potencial existe em cada um, mas realiza-se apenas em uns poucos. O objetivo do autor, ao propor um modelo tão – como se verá – complexo quanto o dos três caldeirões, talvez tenha sido superar o conflito entre a posição eclesiástica e a dos nativos, abrangendo três categorias de pessoas: o clérigo instruído, a pessoa versada na tradição nativa e um terceiro grupo, que poderia ser identificado ao amador talentoso. A metáfora do caldeirão, com os seus extremos de Aquecimento e Sabedoria, tendo a transição no Caldeirão do Movimento, ilustraria os vários níveis e tipos de conhecimento (especialmente gramática, métrica e escrita), cujos graus de competência seriam indicados pela posição de cada caldeirão.

Caite didiu bunad ind archetail 7 cach sois olchenae? Ní ansae; gainitir tri coiri i cach duiniu .i. coire goriath 7 coire érmai 7 coire sois.

O que é, então, a raiz da poesia e de toda outra sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa – o caldeirão do aquecimento, o caldeirão do movimento e o caldeirão da sabedoria.

Coire goiriath, is é-side gainethar fóen i nduiniu fo chétóir. Is as fo dálter soas do doínib i n-ógoítu.

O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo*. Distribui sabedoria às pessoas em sua juventude*/**.

* A posição em pé de Coire Goiriath no começo da vida representa um caso ideal, o do indivíduo que atinge o grau mais alto de instrução. Tal pessoa necessita que o seu Caldeirão do Aquecimento esteja em pé desde o princípio. Outrossim, a passagem anterior que diz dath nád inonn airlethar Día do cach dóen (“Deus não concede a todos a mesma sabedoria”) refere-se aos graus mais baixos dos poetas , aos bardos e às pessoas totalmente sem instrução. Assim, não há contradição entre essas afirmações.

** O primeiro caldeirão chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sofhis (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar. Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Coire érmai, immurgu, iarmo-bí impúd moigid; is é-side gainethar do thoib i nduiniu.

O caldeirão do movimento, entretanto, aumenta depois de virar. Isso quer dizer que nasce inclinado para um dos lados, crescendo interiormente*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente inclinado em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria”, o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Coire sois, is é-side gainethar fora béolu 7 is as fo-dáilter soes cach dáno olchenae cenmo-thá airchetal.

O caldeirão da sabedoria nasce invertido e distribui sabedoria na poesia e em toda outra arte*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/[…] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amhrán Mór, que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

Coire érmai dano, cach la duine is fora béolu atá and .i. n-áes dois. Lethchlóen i n-áer bairdne 7 rand. Is fóen atá i n-ánshruithaib sofhis 7 airchetail. Conid airi didiu ní dénai cach óeneret, di h-ág is fora béolu atá coire érmai and coinid n-impoí brón nó fáilte*.

O caldeirão do movimento, então, em todas as pessoas sem arte está invertido. Está inclinado para o lado em pessoas do ofício bárdico e de pequeno talento poético. Está na posição correta nos maiores dentre os poetas, que são grandes correntezas de sabedoria*. Nem todo poeta o possui na posição correta, pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria*/**.

* Os caldeirões são três, podendo também cada um deles assumir três diferentes posições: fóen ou uas toíb (em pé, isto é, na posição correta); de thoíb ou lethchlóen (inclinado); fora béolu ou for béolu ou ainda is toib (invertido). A posição em pé é a considerada ideal; a invertida é a menos desejável; a posição inclinada é um estado intermediário. Essas posições correspondem: fóen/uas toíb – o caldeirão está cheio; de thoíb/lethchlóen – o caldeirão está meio cheio; fora béolu/for béolu/is toib – o caldeirão está vazio.

** Este trecho deve ser analisado em conjunto com o que diz “O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo”, pois é na verdade um comentário sobre a natureza de Coire Goiriath. Coire Érmai está invertido em todas as pessoas sem arte, ou seja, ignorantes, e meramente inclinado nos bardos. Naqueles que são os maiores dentre os poetas, grandes correntezas de sabedoria (implicitamente os ollúna, grau mais alto dos filí), Coire Érmai mostra-se com a boca para cima. Desse modo, o Caldeirão do Movimento deve ser entendido como continuação do Caldeirão do Aquecimento. Nos ollúna, Coire Érmai é simplesmente Coire Goiriath em qualquer posição que este antes se encontrasse, sem que nada lhe fosse acrescentado. Coloca-se uma oposição entre os ollúna, de um lado, e os anruthanna (segundo grau dos filí), descendo toda a hierarquia dos poetas até chegar aos baird e às pessoas sem instrução, do outro. Como se dá então que o Caldeirão do Movimento possa ser cheio e “virado pela tristeza ou pela alegria”? Não se trata de contradição, pois esse é um processo dinâmico. O Caldeirão do Movimento é a transição entre o Caldeirão do Aquecimento e o Caldeirão da Sabedoria, ocorrendo entre eles uma sequência de esvaziamentos e enchimentos contínuos. Coire Goiriath começa com a boca para cima, Coire Érmai inicia no estágio em que o esvaziamento já começou (inclinado). Este processo se completa e, quando Coire Érmai é cheio novamente, converte-se em Coire Sofhis.

Ceist, cis lir foldai fil forsin mbrón imid-suí? Ní ansae; a cethair: éolchaire, cumae 7 brón éoit 7 ailithre ar dia 7 is medón ata-tairberat inna cethair-se cíasu anechtair fo-fertar.

Pergunta: quantas divisões de tristeza viram os caldeirões dos sábios? Não é difícil. Quatro: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. Essas quatro são suportadas internamente, virando os caldeirões, embora sua causa seja exterior.

Atáat dano dí fhodail for fíilte ó n-impoíther i coire sofhis, .i. fáilte déodea 7 fáilte dóendae.

Há duas divisões de alegria que viram o caldeirão da sabedoria: a alegria divina e a alegria humana.

Ind fháilte dóendae, atáat cethéoir fodlai for suidi .i. luud éoit fuichechtae 7 fáilte sláne 7 nemimnedche, imbid bruit 7 biid co feca in duine for bairdni 7 fáilte fri dliged n-écse iarna dagfhrithgnum 7 fáilte fri tascor n-imbias do-fuaircet noí cuill cainmeso for Segais i sídaib, conda thochrathar méit motchnaí iar ndruimniu Bóinde frithroisc luaithiu euch aige i mmedón mís mithime dia secht mbliadnae beos.

Há quatro divisões da alegria humana entre os sábios: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Estas se lançam em grandes quantidades, como um rebanho de carneiros nas margens do Bóinn, movendo-se mais depressa que cavalos de corrida conduzidos no solstício de verão a cada sete anos.

Fáilte déoldae, immurugu, tórumae ind raith déodai dochum in choiri érmai conid n-impoí fóen, conid de biit fáidi déodai 7 dóendai & tráchtairi raith 7 frithgnamo imale, conid íarum labrait inna labarthu raith 7 do-gniat inna firthu, condat fásaige 7 bretha a mbríathar, condat desimrecht do cach cobrai. Acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar*.

Deus toca as pessoas por meio de alegrias divinas e humanas para que sejam capazes de pronunciar poemas proféticos e realizar portentos, dando julgamentos sábios com precedentes e bençãos em resposta a cada pedido. E a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior*.

* O impulso para produzir poesia vem de dentro do indivíduo como resposta a circunstâncias externas, ou a habilidade para produzi-la já existe internamente no indivíduo, mas necessita do impulso de circunstâncias externas para manifestar-se, o que é confirmado pelo que está abaixo, faillsigther tri brón, “que é revelado por meio da tristeza”. No caso da alegria (dividida em humana e divina, fáilte déodea 7 fáilte dóendae), o caso é inverso: acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar, “e a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior”. Neste caso, a habilidade poética não está presente no indivíduo, mas precisa ser fornecida, e o impulso não vem de dentro da pessoa, mas do exterior. Isso é confirmado pela frase tórumae ind raith déodai, que fala da chegada da graça divina ao caldeirão, fazendo-o virar à posição correta. As quatro alegrias humanas antes mencionadas referem-se aos estágios sucessivos na carreira do poeta: chegada à adolescência, aprendizado exitoso com um mestre, aquisição das prerrogativas da poesia depois do estudo e a final aquisição do imbas.

Ara-caun coire sofhis
sernar dliged cach dáno
dia moiget moín
móras cach ceird coitchiunn
con-utaing duine dán.

Canto o caldeirão da sabedoria,
que concede a natureza de cada arte
por meio da qual a riqueza aumenta,
que engrandece cada artesão,
que edifica uma pessoa por meio de seu dom.

Ar-caun coire n-érmai
intlechtaib raith
rethaib sofhis
srethaib imbais
indber n-ecnai
ellach suíthi
srúnaim n-ordan
indocbáil dóer
domnad insce
intlecht ruirthech
rómnae roiscni
sáer comgni
cóemad felmac
fégthar ndliged
deligter cíalla
cengar sési
sílaigther sofhis
sonmigter soír
sóerthar nád shóer,
ara-utgatar anmann
ad-fíadatar moltae
modaib dliged
deligthib grád
glanmesaib soíre
soinscib suad
srúamannaib suíthi,
sóernbrud i mberthar
bunad cach sofhis
sernar iar ndligiud
drengar iar frithgnum
fo-nglúaisi imbas
inme-soí fáilte
faillsigther tri brón;
búan bríg
nád díbdai dín.
Ar-caun coire n-érmai.

Canto o caldeirão do movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
inspiração poética fluente como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o caldeirão do movimento.

Coire érmai,
ernid ernair,
mrogaith mrogthair,
bíathaid bíadtair,
máraid márthair,
áilith áiltir,
ar-cain ar-canar,
fo-rig fo-regar,
con-serrn con-serrnar
fo-sernn fo-sernnar*.

O caldeirão do movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado*.

* Observe-se que Coire Érmai, que pode ser considerado o mais importante dos três caldeirões, embora não haja menção de que distribua nenhum tipo de conhecimento (sofhis); sua peculiaridade é iarmo-bí impúd moigid, “aumenta depois de virar”, ou seja, torna-se Coire Sofhis. Coire Érmai representa um estágio intermediário entre Coire Goiriath e Coire Sofhis; este apresenta a característica de receber acréscimos, mas nunca sofrer diminuições; esses acréscimos são as “alegrias e tristezas” mencionadas no texto; veja-se adiante o seu significado.

Fó topar tomseo*,
fó atrab n-insce**,
fó comair coimseo***,
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo*,
boa é a aquisição da fala,**
boa é a confluência do poder**,
que edifica a força.

* .I. is maith in coiri asa toimsidhher fri fidh 7 deach, “isto é, bom é o caldeirão graças ao qual se mede por letra e metros poéticos”, isto é, o conhecimento da gramática, da escrita e da métrica, que obviamente era um prerrequisito necessário a qualquer pessoa instruída.

** “Boa é a aquisição da fala”, isto é, a aquisição do poder de compor poesia, ou ser inspirado .i. is maith in coiri a fuil in tein fesa, “isto é, bom é o caldeirão em que se encontra o ‘fogo do conhecimento’ (tein fesa)”; assim, as tristezas e alegrias antes mencionadas são tipos diferentes de inspiração.

*** .I. is maith in coiri asa comainsidhther so uile, “isto é, bom é o caldeirão do qual tudo isso é obtido”.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Vejamos agora outro texto irlandês (Codex Clarend, v.XV, fol. 7,p. 1, col. “a”, Londres, British Library, MS Additional 4783/03-07, fim do séc. XV) que fala sobre a composição do Adão bíblico de um modo que curiosamente faz lembrar o Adam Kadmon (“homem original”) do Zohar e do Talmud.

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do uiii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e seu semblante; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

Portanto, Adão foi feito de oito partes:

1) terra (corpo, isto é, a carne);
2) mar (sangue);
3) o sol (rosto e semblante);
4) as nuvens (ilegível);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) Espírito Santo (alma) e
8) luz do mundo (devoção).

Dessa lista de correspondências, podemos concluir que há uma simetria entre Adão e o Mundo: a carne de Adão é a terra do Mundo; o mar do Mundo é o sangue de Adão.

Vimos que há três caldeirões no homem, isto é, em Adão: Aquecimento, Movimento e Sabedoria e a cada um deles atribuirei igual número de elementos. Isso exige que a relação seja emendada, acrescentando-se níab* (“força vital”) ao fim e trocando o Espírito Santo por um elemento natural que está claramente ausente: a lua.

* Irlandês antigo níab, “vigor, essência” < proto-céltico *neibos, galês nwyf, “vigor, energia”, nwyfre,“firmamento, força vital”.

O rol de elementos ficará assim:

1) terra (carne);
2) mar (sangue);
3) sol (rosto);
4) nuvens (mente);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) lua (alma) e
8) luz do mundo (devoção)
9) níab (espírito)

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Sabedoria

IX – influência, irradiação
VIII – valorização
VII – comunicação

Movimento

VI – independência, rigidez, egocentrismo
V – robustez, resistência
IV – gravidade, seriedade, confiabilidade

Aquecimento

III – beleza, saúde
II – estabilidade, constância, equilíbrio
I – vigor, vitalidade, dinamismo

Bellou̯esus Īsarnos

Árdath/erdath

tsunami

Árdath/erdath

Bellou̯esus Īsarnos

Estava a escavar no Codex Ardmachanus (Livro de Armagh) informações para um artigo sobre mitologia irlandesa (um tormento encontrar a nota na biografia de Patrício em que Tírechán glosou síde com o latim dei terreni), quando me deparo com este trecho interessantíssimo:

Nam Neel pater meus non siniuit mihi credere, sed ut sepeliar in cacuminibus Temro quasi uiris consistentibus in bello (quia utuntur gentiles in sepulcris armati prumptis armis) facie ad faciem usque ad diem erdathe (apud magos, id est iudicii diem Domini), ego filius Neill et filius Dúnlinge Immaistin in campo Liphi pro duritate odiui ut est hoc.

Meu pai, Níall, não me permitiu aceitar a fé, porém me rogou que eu fosse sepultado nas colinas de Tara; eu, filho de Níall, e o filho de Dúnlang em Maistiu em Mag Liphi, face a face um contra o outro à maneira de homens em batalha (pois os pagãos, armados em suas tumbas, têm suas armas à mão) até o dia de árdath/erdath (como chamam-no os magos, ou seja, o dia do Julgamento do Senhor), por causa da ferocidade do nosso ódio mútuo.

Pois bem, magi (magos) são os druid (plural de drui); árdath/erdath (as duas leituras são possíveis), o nome dado pelos magos ao dia do fim do mundo (dies iudicii Domini, “o dia do juízo do Senhor”).

ard < PCelt. *ardo-: alto, elevado.

áth < PCelt. *i̯ātu-: vau (numa corrente de água, é um ponto raso o bastante para que se possa passar a pé ou a cavalo, local comum de combates nos textos mitológicos irlandeses); em sentido figurado, um espaço aberto ou vazio entre dois objetos.

Talvez os combatentes no vau elevado sejam o Fogo e a Água, como escreveu Strábon na Geografia.

Árdath/erdath < PCelt. *ardoi̯ātus (eni latiū ardoi̯ātous, Ir. i lá árdathe, “no dia do fim do mundo”).

Sacrifício Humano

Sacrifício Humano

Bellou̯esus Īsarnos

sacrificiohumanoO sacrifício humano praticado pelos druidas é tão comum na literatura antiga quanto é rara sua comprovação arqueológica. A afirmação dessa prática, negregada peculiaridade da religião gaulesa, além de notável demonstração de hipocrisia e xenofobia, é de natureza ideológica. Ainda antes de Gaius Iulius Caesar, foi Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), um dos maiores escritores da língua latina, quem qualificou os gauleses, literalmente, de “terríveis bárbaros que não hesitam em manchar seus altares com sangue humano”.

O detalhe não lembrado é que Cicero era um advogado e usou essa forte imagem exatamente no discurso de defesa de um certo Marcus Fonteius. Esse Fonteius fora legado romano na Gallia Narbonensis por três anos e estava sendo acusado de corrupção (receber propina) ante o Senado de Roma. O povo da província era representado pelo nobre treviro (anti-romano) Indutiomaros, sogro e inimigo político de outro notável treviro chamado Cingetorix (pró-romano). Cicero nunca teve envolvimento pessoal com Fonteius e aceitou fazer a defesa apenas por “corporativismo”: ambos pertenciam à classe dos equites (cavaleiros) e Cicero foi pressionado por outros colegas a fazer a defesa, registrada na Oratio pro M. Fonteio. O resultado foi que os gauleses, na mentalidade romana, tornaram-se desde então (meados do séc. I a. C.) famigerados sacrificadores de seres humanos em cerimônias religiosas.

Entretanto, seria rematada falsidade afirmar que a Gália não conheceu sacrifícios humanos. Importa determinar sua frequência e natureza. Dois tipos de sacrifícios são bem atestados em numerosas civilizações antigas (incluindo-se as do Mediterrâneo), onde possuem, de modo geral, duas finalidades: apaziguar os deuses ou agradecer por alguma graça recebida.

As descrições literárias que possuímos de sua realização entre os gauleses são bastante convincentes. Contudo, são bem outros seus objetivos. Encontramos com os celtas da Gália: 1) o sacrifício humano de substituição; 2) o divinatório e 3) o “judicial”, isto é, a aplicação da pena capital sob o disfarce de um sacrifício.

1 – Sacrifício de substituição

O sacrifício de substituição é mencionado por Caesar (Commentarii de Bello Gallico, VI, 16): “a nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […]”.

2 – Sacrifício divinatório

Diodorus Siculus relata o sacrifício divinatório em Bibliotheca Historica, V, 31: “os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias”. Strabôn conta a realização de um sacrifício desse tipo pelos gálatas antes da batalha contra Antígonos II Gonatás em 277 a. C. Vítimas humanas foram imoladas, consultando-se suas entranhas em um tipo de haruspício.

3 – Sacrifício “judicial”

O terceiro tipo de sacrifício, dito judicial, é registrado por Caesar na mesma passagem citada acima: “[…] Outros possuem figuras de enorme tamanho, cujos membros são construídos com vime, que enchem de homens vivos, os quais, tendo sido incendiados, perecem os homens envolvidos pelas chamas. Consideram que o sacrifício desses que foram apanhados cometendo furto, latrocínio ou qualquer outro crime é mais agradável aos deuses imortais; porém, havendo falta de vítimas desse tipo, chegarão mesmo a sacrificar inocentes”. Strabôn (Geographiká, IV, 4, 5) acrescenta: “gado, animais selvagens e todo tipo de seres humanos”. Note que Caesar usa a palavra “outros” (allii). Isso significa que algumas tribos usariam, outras não, as ditas “figuras de enorme tamanho”.

Esses autores, Caesar, Diodorus e Strabôn, são os que entraram mais profundamente na imaginação popular. Dão-nos, realmente, muito o que pensar.

O sacrifício judicial, como todos que já assistiram o filme devem ter percebido, é a fonte do impressionante Wicker Man (“Homem de Vime”). É necessário salientar que os homens colocados dentro dele são criminosos condenados, ao menos preferencialmente, e ali estão porque cometeram um ato detestável cuja punição vão enfrentar. Afirmar que sua morte seria “mais agradável aos deuses imortais” é a mesma justificativa que a religião, em sua qualidade de vetor do controle social, tem usado para tudo através dos séculos, druidas e padres e imãs e rabinos igualmente.

De resto, não existe absolutamente nenhuma evidência física de que essa cerimônia da execução no Colosso de Vime fizesse parte do repertório sacro costumeiro da Gália. Pelo contrário, um outro ponto contribui para que desconfiemos dessa descrição: ossadas de animais selvagens jamais foram encontradas nos santuários gauleses. Bovinos, ovinos, equinos e aves sim, todos animais domésticos, até cães, mas não animais selvagens. Existe uma lógica por trás dessa ausência que não poderia ter escapado aos sacerdotes antigos: os animais da natureza já são propriedade dos deuses, como oferecer-lhes o que já lhes pertence? Ser desonesto com os deuses é sinal de forte estupidez.

Existe um eco distante dessa ideia no Audacht Morainn. O juiz Morann manda dizer ao rei Feradach: “Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório”, ou seja, que ele não tente se mostrar generoso fazendo simplesmente aquilo que tem obrigação de fazer, pois isso não é generosidade nem mérito, mas somente dever. Se você quiser demonstrar generosidade, faça algo que não é sua obrigação. Se você quiser dar algo aos deuses, não lhes ofereça o que, por direito, já é deles.

Passemos ao sacrifício divinatório. Primeiramente, terminarei a citação de Diodorus, que havia ficado pela metade. Retomo-a exatamente do ponto em que tinha parado: “E é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellou̯esus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas”. Maravilhoso, não?

Duas classes de homens aparecem nesse trecho: 1) os ‘filósofos’, presença obrigatória nos sacrifícios, responsáveis por falar com os deuses, pois são eles que possuem “experiência com o divino” e “falam a língua dos deuses”, de forma que “apenas por seu intermédio as bençãos podem ser buscadas” e 2) os “poetas cantores” que operam junto aos “filósofos”.

O filósofo e o poeta-cantor não “sujam as mãos” nos sacrifícios. Quem o faz? Ora, o adivinho, de quem Diodorus havia falado imediatamente antes. Aí temos as “três classes de homens excepcionalmente honrados (tría phûla tōn timōménōn diapheróntōs estí) em toda a Gália”, de que Strabôn falou na Geographiká (IV, 4, 4): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai), explicando que os bardos são cantores e poetas (humnētaí kaì poiētaí), os vates, adivinhos e filósofos naturais (hieropoioí [“fazedores do sagrado”] kaì phusiológoi), enquanto os druidas ocupavam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral (phusiológoi kaì ēthikoi philosóphoi). Afirmou a seguir que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas – o que os liga ao julgamento e condenação pela prática de delitos, como visto acima.

A ideia de que druida, vate e bardo são todos, de alguma forma, druidas, vem de Caesar, que não fala senão dos druidas. Os autores gregos mencionam-nos separadamente e em momento algum dão a entender que vate e bardo são druidas. Mas esse não é exatamente o ponto, não neste momento.

A questão agora é o sacrifício divinatório. Cabe ao druida avaliar a sua adequação ética e decidir se pode ou não ocorrer, pois os druidas são “os mais justos dos homens”, mas não será ele, druida, a empunhar a lâmina sacrificial. Isso cabe ao adivinho, vate, que domina a técnica sacrificial desde uma época em que os druidas ainda não existiam. Ao poeta-cantor, o bardo, cabe o aspecto teatral, de fundamental importância em toda cerimônia religiosa e tão visível no cerimonial da Igreja Romana. Ao druida não importam o sangue do sacrifício nem a técnica sacrificial. Ao druida importam a compreensão teológica e a justificação social do ato.

“[…] desde uma época em que os druidas ainda não existiam.” Isso explica perfeitamente porque o druidismo gaulês e o irlandês são diferentes e também porque Caesar afirmou que o druidismo teve origem na Grã-Bretanha e ainda porque certos personagens da lenda irlandesa, como Fedlimid, do Táin, vão ali estudar as artes mágicas. Caesar não fazia diferença entre druida, vate e bardo. Quando ele diz “druida”, não há como saber a quem se refere.

Para encerrar este tópico, o sacrifício divinatório é o remédio dos gauleses “quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância”. Talvez pudéssemos acrescentar o que diz Caesar: “para propósitos públicos”. Necessariamente, não se tratava de algo frequente.

No terceiro tipo de sacrifício humano (ou primeiro, comecei de trás para diante), o sacrifício de substituição, que também se poderia chamar terapêutico, um indivíduo seriamente enfermo, ou em outra situação de grave perigo, sacrifica ou promete sacrificar aos deuses alguém que o substitua. Existe nisso uma contradição. Os autores antigos sabiam (o próprio Caesar o diz) que o ensinamento que os druidas mais ardentemente desejavam inculcar era a sobreviência da alma, o renascimento em uma outra vida (não entro no mérito de ser neste ou em outro mundo). Os autores antigos registraram com espanto o destemor insano dos celtas diante da morte.

Como se explicaria então esse pavor que leva alguém a barganhar com os deuses oferecendo uma vida humana em troca da sua? Como, se a promessa é o renascimento em outro mundo sem mal, sem doença, sem velhice, sem mentira (aceitando-se a imagem feita pelos irlandeses)?

A resposta não é tão difícil: estamos outra vez olhando para uma crença céltica anterior ao druidismo. O movimento druídico representou para a religião céltica o mesmo que o orfismo e o pitagorismo para a religião grega, introduzindo o conceito de imortalidade da alma, que não fazia parte das mais antigas concepções gregas (tampouco indo-europeias, de modo geral), tais como se encontram, por exemplo, em Homero. Não tenho certeza, pois não é minha área, mas parece-me ter lido que essa ideia era estranha também ao judaísmo primitivo.

Gregos e romanos dificilmente poderiam ter visto os ritos que relataram em seus escritos. No caso dos celtas, sabe-se há décadas, graças aos estudos filológicos, que escritores como Caesar, Strabôn, Diodorus, Diógenes e Athenaios copiaram, com maior ou menor fidelidade, algumas vezes intencionalmente deformando-a (Caesar), a obra de um autor mais antigo, Poseidônios (cerca de 60 anos antes de Caesar), que usou observações pessoais e, para aquilo que não pôde ver, copiou ele também de escritores mais antigos, como Éphoros e Timagenes, cujos trabalhos desapareceram há séculos – o mesmo aplicando-se aos de Poseidônios.

Quando lemos o que os autores clássicos escreveram sobre os celtas, devemos estar cientes de que eles frequentemente citam obras duzentos ou trezentos anos anteriores a sua própria época e registram, como se as houvessem testemunhado, coisas que há muito não mais existiam. É exatamente o que ocorre em relação aos druidas. É necessário discernir camadas.

Assim como a implantação do cristianismo na Irlanda não varreu totalmente a religião nativa, também os druidas, ao atingirem a posição de proeminência que ocuparam na Gália, não destruíram o que antes deles havia existido. A marca do druidismo gaulês foi a construção de uma religio publica, não dessemelhante à romana, em substituição às práticas majoritariamente privadas que formavam a religião das tribos célticas no período anterior.

Mas essas práticas não foram probidas nem seus especialistas (possivelmente os vates) impedidos de exercer seu ministério. E, quando o druidismo saiu de cena, foram esses especialistas que tomaram o lugar e o nome prestigioso dos druidas e são eles que aparecem com a denominação “druidas” nas crônicas romanas tardias.

A questão do sacrifício pode parecer essencial quando se considera bardo, vate e druida como diferentes funções de um grupo único. Quando se compreende que esse não é o caso, percebe-se que o sacrifício (como técnica) importa ao vate, sendo apenas correlato ao druida e ao bardo.

Os druidas restringiram enormemente o sacrifício humano, substitutindo-o, sempre que possível, pelo animal, que a arqueologia comprova sobejamente e de que as fontes clássicas, de forma muita estranha, não fazem menção. O sacrifício humano foi conservado para situações de grande stress coletivo, sua realização subordinada à aprovação dos druidas. Fora isso, a atribuição druídica de organizar a sociedade por meio da aplicação do direito canalizou o sacrifício humano para a Justiça, o que seria previsível numa época em que o crime, no sentido jurídico, e a ofensa aos deuses não estavam claramente separados.

Uma coisa é certa: os gauleses não sacrificavam seres humanos para dar aos deuses algo de que estes precisassem ou quisessem. Quando derramavam sangue humano em seus altares, faziam-no em benefício próprio conscientemente. Os deuses nunca necessitaram de sangue humano, embora alguns deles possam apreciá-lo. Eles mudam muito mais devagar do que nós e acho realmente difícil que tenham passado a sentir necessidade de sangue humano, essa substância tão instável, nos últimos 1.500 anos.

Cath Dédenach Maige Tuired

lugh_the_Il_Dana

Lugh, the Ildána (Jim Fitzpatrick, 1979)

Cath Dédenach Maige Tuired
A Última Batalha de Mag Tuired

também conhecida como

Cath Tánaiste Maige Tuired
A Segunda Batalha de Mag Tuired

e ainda

Cath Maighe Tuireadh Thúaidh
A Batalha de Mag Tuired do Norte

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

§1 Batar Tuathai De Danonn i n-indsib tuascertachaib an domuin aig foglaim fesa ocus fithnasachta ocus druidechtai ocus amaidechtai ocus amainsechta, combtar fortilde for suthib cerd ngenntlichtae.

§1 As Tuatha Dé Danann estavam nas ilhas do norte do mundo, aprendendo a sabedoria e a feitiçaria e as ciências ocultas dos druidas e os encantamentos femininos e a perícia em magia, até que ultrapassaram os sábios das artes do mundo pagão.

§2 Ceitri cathrachai ir-rabatar og fochlaim fhesai ocus eolais ocus diabuldanachtai .i. Falias ocus Goirias, Murias & Findias.

§2 Havia quatro cidades em que estavam aprendendo sabedoria e ciência e artes diabólicas, a saber, Falias e Gorias, Murias e Findias.

§3 A Falias tucad an Lia Fail bui a Temraig. Nogesed fo cech rig nogebad Erinn.

§3 De Falias foi trazida a Pedra de Fál, que ficava em Temuir. Ela costumava estrondear sob cada rei que devesse tomar o reino de Ériu.

§4 A Gorias tucad an tsleg boi ac Lug. Ni gebtea cath fria no frisinti an bidh il-laimh.

§4 De Gorias foi trazida a Lança que Lugh possuía. Contra ela ou contra o que a tivesse em sua mão jamais batalha alguma foi vencida.

§5 A Findias tucad claidiub Nuadot. Ni terládh nech dei o dobirthe asa idntiuch bodhuha, & ni gebtai fris.

§5 De Findias foi trazida a espada de Nuada. Quando ela era desembainhada de sua bainha mortal, ninguém jamais dela escapava e ela era irresistível.

§6 A Murias tucad coiri an Dagdai. Ni tegedh dam dimdach uadh.

§6 De Murias foi trazido o Caldeirão do Dagda. Jamais uma comitiva dele se separou insatisfeita.

§7 Cetri druid isna cetri cathrachaib-sin. Mor-fesae bai a Falias. Esras boi hi nGorias. Uiscias boi a Findias. Semias bai a Murias. It iad sin na cetri filid ocar’ foglaindsit Tuata De fios & eolas.

§7 Nessas quatro cidades havia quatro magos. Mórfesae estava em Falias; Esras estava em Gorias; Uscias estava em Findias; Semias estava em Murias. Esses são os quatro poetas de quem as Tuatha Dé aprenderam conhecimento inquisitivo e sabedoria secreta.

§8 Gnisit iarum Tuatha De caratrad fri Fomorib, & debert Balar ua Néit a ingin .i. Ethne, de Cen mac Dien cecht. Gonad i-side ruc an gein mbuadha .i. Lucc.

§8 Eis que as Tuatha Dé fizeram uma aliança com os Fomoirí e Balor, neto Nét, deu a sua filha Ethne a Cian, filho de Dian cecht, e ela gerou a criança abençoada, o próprio Lugh.

§9 Tangatar Tuad Dei morloinges mor d’indsaigid Erionn dia gabail arecin for Feraib Bolc. Roloiscset a mbaraca focetoir iar torrachtain crice Corcu-Belgatan .i. Conmaicne mara andiu, eatsen, conapedh a n-aire for teiched cucu, gur rolion an dei & an céu tanaic denaib loggaib an ferodn & an aer robe comfocus doib. Conid assin rogabad a tichtain a nelaip ciach.

§9 As Tuath Dé vieram com uma grande frota a Ériu para tomá-la à força dos Fir Bolg. Queimaram os seus barcos todos de uma vez só ao chegar à região de Corcu Belgatan, isto é, hoje Conmacne Mara, para que sequer pudessem pensar em recuar diante deles e o fumo e a névoa que vieram das naus encheram a terra e o ar dali próximos. Por essa razão, imaginou-se que tivessem chegado em nuvens de névoa.

§10 Fectha cath Muighe Tuired etorra & Fir Bolc, & maite for Feraib Bolc, & marbthar cét mile diib am Eochaig mac n-Eirc immon righ.

§10 A primeira batalha de Maige Tuired foi travada entre elas e os Fir Bolg; e os Fir Bolg foram derrotados e cem mil deles foram mortos, incluindo-se o seu rei, Eochaid, filho de Erc.

§11 Isen cath sin dno robenad a lamh de Nuadaid .i. Sregg mac Sengaidn rophen dei hí, go tarad Dien-cecht an liaigh laim airgid foair co luth cecai láma, & Credhne in cerd ag cungnam fris.

§11 Ademais, nessa batalha a mão de Nuada foi cortada; foi Sreng, filho de Sengann, que a cortou dele, então Dian cecht, o curandeiro, pôs-lhe uma mão de prata com o movimento de toda mão normal; e Credne, o artífice em bronze, foi o auxiliar do curandeiro.

§12 Cid Tuath Dei Dononn dno derocratar gomar isin cath im Edleo mac nAllai & am Ernmus, am Fhióchraig & im Turild Bicreo.

§12 Eis que as Tuath Dé Danonn perderam muitos homens na batalha, incluindo-se Edleo, filho de Alla, e Ernmas e Fiachra e Turill Bicreo.

§13 Doneoch immorro terla de Feraib Bolc asin cath lotar ar teched de saigid na Fomore, gor’ gabsad a n-Arainn & and Íle & a Manaidn & a Rachraind.

§13 Porém, aqueles dos Fir Bolg que escaparam da batalha fugiram para os Fomoirí e estabeleceram-se em Arran e em Ìle e em Mann e em Rathlin.

§14 Bai imcosnum flathae fher n-Erenn itir Tuaid De & a mná, ar nirb’ inrighae Nuadoo iar mbeim a laime de. Adpertutar ba cumdigh doip rige do Pres mac Elathan, díe ngormac fesin, & co snaidhmfed caratrad Fomure fria an rige de tabairt dósin, ar ba ri Fomore a athair, edon Elotha mac Delbaeth.

§14 Uma controvérsia quanto à soberania dos homens de Ériu ergueu-se entre as Tuath Dé e as suas mulheres; pois Nuada, depois que a sua mão fora cortada, ficara desqualificado para ser rei. Elas disseram que lhes seria mais adequado conferir o reino a Bres, filho de Elatha, ao seu próprio filho adotivo; e que conferir-lhe o reino firmaria a aliança dos Fomoirí com eles. Pois o seu pai, o próprio Elatha, filho de Delbaeth, era um rei dos Fomoirí.

Trabalho em andamento.

Cethair hÁige Druídechta

quatro_pilares

Cethair hÁige Druídechta

Os Quatro Pilares do Druidismo

Bellou̯esus Īsarnos

I Enech (Honra): a reputação, o modo como se é percebido e valorado pela comunidade.

II Airmitiu (Respeito): o sentimento de maravilhamento, assombro e veneração pelos mundos espiritual e natural.

III Timthirecht (Ministração): realização dos serviços próprios do ofício, que vão dos ritos de adoração (adrad) aos deuses às ações comunitárias.

IV Forás (Crescimento): rejeição à complacência espiritual; esforço consciente para desvirar Coire Sois.

As Quinze Virtudes (Cuicc Súalaig Dec) que guiam os padrões éticos da tradição céltica derivam dos Quatro Pilares. Essas virtudes são:

1 Trócar (Misericórdia): a capacidade de ter simpatia e empatia com os outros.

2 Fíreoin (Justiça): a capacidade de discernir a verdade em uma situação para assim chegar à justiça.

3 Cosmail (Similitude): significa que a punição corresponda ao crime, não no sentido de “olho por olho”, mas no sentido de não punir com muita dureza ou não praticar um castigo cruel e incomum.

4 Cuibsech (Consciência): responsabilidade para consigo mesmo e com os outros.

5 Fossad (Estabilidade): literalmente, “ter um assento sob si mesmo”, a qualidade de não se deixar convencer facilmente ou ser indeciso.

6 Eslabra (Liberalidade): literalmente, “ter uma grande mão”, a ideia de que não se deve colocar limites à generosidade.

7 Gart (Hospitalidade): aceitação e abertura a outras pessoas, o respeito pela diversidade e pelos direitos dos outros.

8 Fíalainech (Distinção): literalmente, “ter um rosto nobre”, isto é, ser educado, cortês e mostrar um comportamento nobre.

9 Sessach (Força): a qualidade de alguém que mantém as suas posições e não é facilmente intimidado.

10 Lessach (Prestatividade): a qualidade de alguém que procura ativamente ajudar outras pessoas, em vez de esperar que elas perguntem.

11 Étir (Habilidade): a qualidade de alguém que é hábil em muitas áreas; uma pessoa que se esforça para ter excelência em tudo o que faz.

12 Iondraic (Confiabilidade): a qualidade de alguém de boa reputação, cuja palavra pode ser acreditada, alguém que está acima de reprovação.

13 Soithnge (Eloquência): virtude importante para a tradição bárdica, refere-se ao domínio da boa linguagem, habilidade na poesia, prosa e canto.

14 Forusta (Solidez): a qualidade de alguém que é calmo e contido em todos os momentos, não dominado por emoções ou mudanças bruscas de humor.

15 Fírbrethach (Imparcialidade): literalmente, “dar julgamento justo”, não permitindo que inclinações pessoais interfiram com a decisão sobre o certo e o errado.

A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

doutrinamorte

 

A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

A crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma interpretatio graeca e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (funera sunt […] magnifica et sumptuosa), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, uita altera ad manes). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena ([…] sed ab aliis post mortem transire ad alios). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (regit idem spiritus artus orbe alio). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [síd] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [áes síde]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. Teatro Selecto de Calderón de la Barca. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). Ética a Eudemo, III, 1, 22-25 e Ética a Nicômaco, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). Alexándrou Anábasis, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), Commentarii de Bello Gallico, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). De Chorographia, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. Commentarii de Bello Gallico, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (olim, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. De Chorographia, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), Bibliotheca histórica, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – ca. 24 EC). Rerum Geographicarum Libri XVII, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). Factorum et Dictorum Memorabilium, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). De Bello Ciuili uel Pharsaliae, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). De Vita Pythagorica, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos rishis indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton, I, 6.

16) Pythagorica Hypomnemata.

17) Hippolytus (170–235 EC). Refutatio Omnium Haeresium, I, 22.

18) Stromata, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) Aduersus Iulianum.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), Punicorum Libri Septemdecim, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). Descriptio Graeciae, X, 21, 6.

22) Echtra Condla, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).