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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma “interpretatio graeca” e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (“funera sunt […] magnifica et sumptuosa”), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, “uita altera ad manes”). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena (“[…] sed ab aliis post mortem transire ad alios”). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (“regit idem spiritus artus orbe alio”). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [‘síd’] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [‘áes síde’]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. “Teatro Selecto de Calderón de la Barca”. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25 e “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). “Alexándrou Anábasis”, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). “De Chorographia”, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (“olim”, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. “De Chorographia”, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), “Bibliotheca histórica”, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – c. 24 EC). “Rerum Geographicarum Libri XVII”, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). “Factorum et Dictorum Memorabilium”, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). “De Bello Ciuili uel Pharsaliae”, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). “De Vita Pythagorica”, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos “rishis” indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). “Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton”, I, 6.

16) “Pythagorica Hypomnemata”.

17) Hippolytus (170–235 EC). “Refutatio Omnium Haeresium”, I, 22.

18) “Stromata”, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) “Aduersus Iulianum”.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), “Punicorum Libri Septemdecim”, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). “Descriptio Graeciae”, X, 21, 6.

22) “Echtra Condla”, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

 

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Os Druidas no Mundo Antigo: Aurora e Ocaso

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Palestra apresentada no Dia do Orgulho Pagão de São Paulo (22/10/2016)

Conteúdo

1 Quando os druidas entraram na história?
2 Qual a etimologia da palavra “druida”?
3 O que os druidas faziam?
4 Quando os druidas saíram da história?

1 Quando os druidas entraram na história?

Séc. VI a. C.: Hecateu de Mileto (ca. 546 a.C. – ca. 480 a.C.) usou pela primeira vez a
palavra Keltoi para designar os nativos do atual sul da França, especificamente da região ao redor de Massalia (hoje Marseille).

Séc. V a. C.: usando Hecateu, Heródoto de Halicarnasso (485? – 420 a.C.) demonstrou
pouco saber sobre os Keltoi, localizando-os além das Colunas de Hércules (o Estreito de
Gibraltar) e supondo que o Danúbio tivesse origem no seu território.

Fim do séc. III a. C.: desde essa época, os gregos seguramente estavam cientes da
existência dos druidas, do seu nome e da sua atividade filosófica.

Pseudo-Aristotéles (Aristotéles, 384 – 322 A. C.), Magikos (“Sobre a Magia”) e Sotíon
(séc. II a. C.), Diadokhe ton philosophon (“Sucessão dos Filósofos”) apud Diógenes Laércio
(séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton (“Vida e Opiniões dos
Filósofos Eminentes”).

I, 1: Há alguns que dizem ter o estudo da filosofia iniciado entre os bárbaros. Salientam que os Persas têm seus Magos, os Babilônios ou Assírios seus Caldeus e os Indianos seus Gimnosofistas; e entre os Celtas e os Gauleses há as pessoas chamadas Druidas ou Semnotheoi, citando para essa afirmação a autoridade do “Sobre a Magia” de Aristóteles e de Sotíon no vigésimo terceiro livro da sua “Sucessão dos Filósofos”.Também dizem que Mochus era um Fenício, Zamolxis, um Trácio e Atlas, um Líbio.

I, 6: Entretanto, aqueles que defendem a teoria da origem da filosofia entre os bárbaros prosseguem explicando as diferentes formas que esta assumiu em diferentes países. Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura.

A Diadokhe de Sótion foi uma das primeiras histórias da filosofia. O Magikos e a Diadokhe
são obras hoje desaparecidas que foram parcialmente copiadas por Diógenes Laércio.

Séc. I a. C.: surgem as primeiras informações substanciais sobre os druidas (Caio Júlio
César, Commentarii de Bello Gallico, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, Livro VI).

Para Clemente de Alexandria (c. 150 – 215 d. C.), os Druidas dos Gálatas, os Profetas dos
Egípcios, os Caldeus dos Assírios, os filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas teriam sido
os pioneiros da filosofia.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 70, 1: Alexandre, no seu livro “Sobre os Símbolos Pitagóricos”, relata que Pitágoras foi discípulo de Nazaratus, o Assírio […] e conta ainda que, além desses, Pitágoras foi ouvinte também dos Gálatas e dos Brâmanes.

Stromata (“Tapeçarias”), I, XV, 71, 3: Assim, a filosofia, ciência da mais alta utilidade, floresceu na antiguidade entre os bárbaros, derramando a sua luz sobre as nações. E mais tarde chegou à Grécia. Os primeiros em suas fileiras foram os Profetas dos Egípcios e os Caldeus entre os Assírios e os Druidas entre os Gauleses e os Samanaioi entre os Báctrios e os Filósofos dos Celtas e os Magos dos Persas.

Hipólito de Roma (170 – 235 d. C.), Philosophúmena (“Ensinamentos Filosóficos”; título
alternativo: Katà pasôn hairéseon élenkhos/Refutatio Omnium Haeresium, i. e.,“Refutação de Todas as Heresias”), I, 22.

E os druidas célticos exploraram com a máxima minúcia a filosofia pitagórica depois que Zamolxis, trácio de nascimento, um servo de Pitágoras, tornou-se para eles o fomentador dessa doutrina. Eis que, após a morte de Pitágoras, Zamolxis, para lá se dirigindo, tornou-se-lhes o desenvolvedor dessa filosofia. Os celtas consideram-nos profetas e videntes em razão de lhes predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica, a respeito de cujos métodos não ficaremos em silêncio, uma vez que alguns neles encontraram inspiração para heresias; os druidas, no entanto, recorrem também a ritos mágicos.

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Qual a razão da diferença entre essas listas?

Desde o séc. V a. C., circulava uma obra chamada Pythagorica Hypomnemata (“Símbolos Pitagóricos”), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação entre os druidas e a escola pitagórica. Essa obra foi usada por Alexandre de Mileto (dito Polyhístor, “o Erudito”), mencionado no primeiro trecho de Clemente citado acima. Clemente segue uma tradição iniciada no séc. V a. C., oriunda dos próprios pitagóricos, enquanto Diógenes filia-se à tradição aristotélica, representada pelo Pseudo-Aristóteles e Sótion.

Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378 – 444), autor pouco lembrado, na obra “Contra Juliano, o Ateu” repete a lista de Clemente, fazendo a mesma distinção cuidadosa entre Druidas Gauleses e Filósofos Celtas, apenas acrescentando que o número destes era non pauci
(“não poucos”).

Samanaioi (forma plural, seria samanaios no singular) é uma adaptação grega do prácrito (designação geral da grande família de línguas e dialetos falados na Índia antiga que possuíam parentesco com o sânscrito) samaya-, derivado do sânscrito sramanas, “monge budista”, que se tornou sha men em chinês, depois saman em tungus (grupo de línguas do leste da Sibéria) e finalmente sha’man em russo, isto é, “xamã”. O mesmo vocábulo aparece nos Semnotheoi de Diógenes, o plural de *semnotheos, provável deturpação de *samano-theos, “deus xamã, xamã divino”, embora nada realmente autorize supor que a palavra teria na Antiguidade o sentido que hoje se atribui à palavra xamã. O mais provável é que significasse apenas “asceta”.

De todo o exposto, três conclusões podem ser tiradas:

1) Os Druidas emergem para a história em escritos filosóficos onde são tidos como precursores dos pensadores gregos.

2) “Druidas” é a designação que esse grupo dava a si mesmo, não uma denominação tardia ou um apelido dado por observadores contemporâneos.

É, portanto, um termo gaulês nativo cujo significado etimológico precisa ser determinado para a melhor compreensão da natureza e função dos druidas.

3) Estavam presentes entre os gauleses pelo menos quatro séculos antes da invasão romana (ocorrida em meados do séc. I a. C.), talvez antes.

2 Qual a etimologia da palavra “druida”?

A etimologia da palavra “druida” é, não surpreendentemente, um ponto bastante controverso. Concorda-se que seria composta por duas partes: dru- + -uid-.

Os linguistas reconhecem no segundo elemento a raiz proto-indo-europeia *u̯ei̯d-, “ver,
saber”.

Quanto ao primeiro, há três linhas de pensamento sobre a sua interpretação:

1ª. Caio Plínio Segundo, dito “Plínio, o Antigo” (séc. I d. C.), apoiado, entre outros, por
Jubainville, Hubert (séc. XIX) e  Delamarre (séc. XXI): de acordo com Plínio (“História
Natural”, L. XVI, 95), “os druidas não realizam ritos sem as folhas do carvalho, considerando-o importante a ponto de se poder supor que o seu nome venha da palavra grega para carvalho, δρυς”. Para essa linha, os druidas seriam os “sábios dos carvalho” ou “possuidores do conhecimento do carvalho”.

2ª. Thurneysen (séc. XIX), Jullian (séc. XX), Le Roux & Guyonvarc’h (séc. XX): dru- seria
um elemento intensificador, como -dubno- e -māro-, porém usado unicamente como
prefixo. Para essa linha, os druidas seriam “os muito sábios”, “possuidores do conhecimento firme/forte”;

3ª. Benveniste (séc. XX): o nome proto-indo-europeu de[o]ru̯- > dreu̯-, que designava
árvores em geral, deu origem à palavra para carvalho em muitas línguas dessa família,
abrangendo também as noções de força, resistência e fidelidade com o tempo associadas ao
carvalho. O gaulês teria herdado deru̯o- como o nome da árvore carvalho e dru- (presente no adjetivo drutos, -ā, -on, “forte vigoroso”) para as qualidades a ela metaforicamente ligadas. Para essa linha, que de certo modo concilia as duas anteriores, os druidas seriam “os detentores do conhecimento vigoroso que brota do mundo subterrâneo”.

3 O que os druidas faziam?

Caio Júlio César, “Comentários sobre a Guerra Gaulesa”, VI, 14: Os druidas obtiveram a
isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão
isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos
espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pompônio Mela, “Descrição do Mundo”, III, 2, 14: Ela [refere-se à costa exterior da Gallia] é habitada por povos orgulhosos, supersticiosos e outrora tão bárbaros que viam os sacrifícios humanos como o gênero de holocausto mais eficaz e o mais agradável aos deuses. Esse costume abominável não mais existe, porém dele ainda restam traços, pois, conquanto agora se abstenham de imolar os homens que escolhem, conduzem-nos ao altar e tiram-lhes um pouco de sangue. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas. Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Estrabão, “Geografia”, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção,
encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os
Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se
ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da
natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais
justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodoro Sículo, “Biblioteca Histórica”, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de
adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o
futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos
lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo”, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [isto é, os “filósofos” e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participavam de guerras (“obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio era livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais
impendem”);
c) eram contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhiam espontaneamente ser druidas ou eram levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) eram professores;
f) atravessavam um longo período de treinamento;
g) eram letrados, embora optassem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinavam geografia (“o tamanho do universo e da terra”), astronomia (“o movimento
das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), mitologia e teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professavam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) eram árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião, por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” teria voltado ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica,
especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não
conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no território dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”.

Desse trecho de César saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

4 Quando os druidas saíram da história?

O Declínio dos Druidas

O declínio dos druidas foi basicamente uma transferência de status, poder e influência ocorrida nos anos que se seguiram à conquista romana, embora com origem remota em fatores internos ao movimento druídico.

Os interesses da elite intelectual gaulesa cedo entraram em conflito com os da nova Roma Imperial, cujo líder ou princeps, Augusto, tinha uma desconfiança extrema do potencial subversivo de astrólogos, adivinhos e profetas. No ano 12 a. C., Augusto ordenou a incineração de 2.000 livros sobre profecias em Roma. Especulações sobre o futuro, especialmente envolvendo a vida do imperador, representavam má sorte por si mesmas. Também proibiu que cidadãos romanos seguissem o ensinamento dos druidas.

Nesse contexto, juntamente com o encorajamento de Roma para que as novas elites adotassem o novo culto imperial, não é difícil entrever a dissolução da elite religiosa nativa, encabeçada pelos druidas.

Várias razões podem ser apontadas para a morte da velha ordem:

1 O fim do monopólio do conhecimento característico do ministério druídico, do qual o famoso “Calendário de Coligny” (do fim do séc. II d. C., segundo P.-Y. Lambert) pode representar um dos últimos legados.

2 A nova divisão administrativa do território gaulês em municipa exigia uma nova ordem religiosa como novas normas legais.

3 A antiga aristocracia foi dizimada nos anos da conquista e a nova, formada por apoiadores dos romanos, mostrava uma sensibilidade mais inclinada à conduta e civilização do Mediterrâneo.

4 Embora seja desconfortável admiti-lo, a própria conquista romana mostrou aos gauleses o caminho de um novo progresso material, incluindo o fim das lutas intertribais que os druidas nunca conseguiram ou mesmo nunca desejaram evitar.

4 O sacerdócio do culto imperial adotou o evergetismo clássico e ofereceu à elite um novo monopólio da autoridade dentro da(s) sociedade(s) galo-romana(s).

6 A nova ordem encontrou uma razão de ser face à progressiva internalização do modelo religioso romano que era parte da conquista e da nova compreensão da realidade por esta trazida.

Em termos simples, os interesses dos druidas eram incompatíveis com os de Roma. É provável que qualquer sinal de rebelião organizada, se porventura existiu, tenha sido marginalizado pelos historiadores romanos ao ponto de parecer insignificante.

Apenas dois sinais de oposição druídica a Roma foram registrados, ambos por Tácito: o primeiro, a resistência infrutífera à invasão de Mona no ano 60, sob o comando do general Suetônio Paulino; o segundo, nove anos mais tarde, quando um incêndio atingiu o templo de Júpiter Capitolino em Roma, o que os druidas teriam interpretado como sinal de iminente passagem do poder das mãos dos romanos para as das nações transalpinas.

Depois disso, os druidas somente voltam a aparecer nos escritos greco-romanos como figuras do passado remoto da Gália já romanizada.

O gradativo desaparecimento dos druidas, acompanhado de confusão quanto a suas antigas funções, pode ser adivinhado pela degeneração visível na própria palavra no correr dos séculos, conforme se verá a seguir.

Formas antigas da palavra “druida”

Séc. I a. C.

Cícero, Da Divinação, 1, 41, 90: druidae.

César, Comentários, 6, 13, 1: druidum; 6, 14, 1: druides; 6, 18, 1: druidibus; 6, 21, 1: druides.

Diodoro Sículo, Biblioteca, 5, 31, 4 : σαρονιδας (var. σαρωνιδας), corrigido δρουιδας (séc. I a. C.- séc. I d. C.). Comentário: certos manuscritos não trazem a forma δρουιδας, que é uma conjetura já antiga e mesmo desnecessária, pois δρουιδας teria sido entendido pelo contexto.

Séc. I a. C.- séc. I d. C.

Estrabão, Geografia, 4, 4, 4: δρυιδαι; 4, 4, 5: δρυιδον.

Séc. I d. C.

Pompônio Mela, Descrição, 3, 2, 18: druidas.

Lucano, Farsália, 1, 450-458: druidae (var. driadae, dryadae).

Comentário: driadae, driades. As variantes dos manuscritos, assim como as dos escólios (dos quais os mais antigos devem remontar ao séc. IV) mostram que a palavra sofreu corrupção rapidamente.

Plínio, História Natural, 16, 249: druidae; 24, 103: druidae; 29, 52: druidae; 29, 54: druidis, 30, 12g: druidas.

Tácito, Anais, 14, 30: druidaeque.

Tácito, Histórias, 4, 54: druidae.

Fim do séc. I d. C. – começo do séc. II d. C.

Suetônio, Cláudio, 25: druidarum (var. druidorum, driadarum, dryadarum, dryidarum).

Dio Crisóstomo, Discursos, 49: δρυιδας.

Fim do séc. II d. C.

Herodiano, o Erudito: δρυιδης.

Fim do séc. II – começo do séc. III d. C.

Pseudo-Aristóteles, fragmento apud Diógenes Laércio, Vidas, Prólogo, 1: δρυιδας.

Clemente de Alexandria, Stromata, 1, 15: δρυιδαι.

Orígenes, Contra Celso, 1, 16: δρυιδας (var. δρυaδας).

Hipólito de Roma, Ensinamentos, 2: δρυιδας; δρυιδαι (var. δρυιδον).

Séc. IV d. C.

Aurélio Vítor, Os Césares, 4, 2: druidarum (var. drysadarum, drysudarum, drysidarum).

Ausônio, Comemoração dos Professores, 5: druidarum; 11: druidum.

Fim do séc. IV d. C.

Timagenes apud Amiano Marcelino, História, 15, 9, 4: drasidae (var. drysidae); 15, 9, 8: drasidas, dryasidae (Timagenes: séc. I a. C.).

Fim do séc. IV d. C. – começo do séc. V. d. C.

História Augusta, Alexandre Severo, 60, 6: dryas.

História Augusta, Numeriano, 14, 2: dryade; 14, 3: dryas; 15, 1: dryade; 15, 5: dryadis.

História Augusta, Aureliano, 44, 4: dryadas; 44, 5: dryadibus.

Séc. V d. C.

Cirilo de Alexandria, Contra Juliano, 4: δρυιδαι.

Séc. VI d. C.

Estevão de Bizâncio: δρυιδαι.

Comentário: Como se pode ver, as formas gregas vão das mais lógicas (“druida”, palavra gaulesa declinada como substantivo grego) às mais aberrantes (saronidas, drasidae, etc.). A atração fonética de dryades é forte e justificada, pois lembra o grego δρυς (drys), “carvalho”. A moral dessa história é bastante simples: os autores gregos e romanos não são fontes confiáveis para a reconstituição do nome original.

Inscrição de Metz, Corpus InscriptionumLatinarum – CIL XIII, 555* (anterior ao séc. III d. C.)

areteinscription

Siluano sacrum et Nymphis loci
Arete Druis Antistita somnia monita dedit

Isto é: Somnia monita, Arete Druis Antistita Siluano et Nymphis loci dedit sacrum (instruída por um sonho, Arete, Druida e Sacerdotisa Principal, a Silvano e às Ninfas do lugar dedicou o monumento.

Essa inscrição, descoberta no séc. XVI e hoje perdida, é por muitos considerada falsa. Apesar disso, ela traz um enigma: como é possível que a palavra druida (druis, que se deve entender como *druu̯iđ) esteja grafada na forma considerada correta pela pesquisa moderna para o singular e que se encontra ausente de todos os textos antigos?

Bellouesus /|\

 

 

O Filelenismo Gaulês – parte 1

ANFIPOLISFilelenismo: interesse ou estima pelas coisas gregas.

As relações culturais e linguísticas entre celtas e gregos eram tão fortes que, ao menos a partir do séc. IV a. C., estes começaram a perguntar-se qual seria o origem desses laços. Diversas hipóteses foram propostas, misturando, como seria de se esperar, a mitologia e a história às primeiras observações etnográficas (1).

Sem sombra de dúvida, a teoria mais popular era aquela que associava o próprio Hēraklēs à Gallia:

Relata-se que Hēraklēs, depois de haver arrebatado o gado de Geryon de Erythea, vagueava pelo país dos celtas e chegou à morada de Bretannos, que tinha uma filha chamada Keltinē. Keltinē apaixonou-se por Hēraklēs e escondeu o gado, recusando-se a devolvê-lo a não ser que ele antes a satisfizesse. É certo que Hēraklēs estava muito ansioso para levar o gado em segurança para casa, porém estava muito mais impressionado pela beleza da jovem e concordou com seus desejos. E então, quando se completou o tempo, nasceu-lhes um filho chamado Keltos, de quem toda a raça céltica recebeu o nome.

Parthénios de Nicaea, gramático e poeta grego do séc. I a. E. C., Erotica Pathemata (“Das Aflições do Amor”, II, 30)

Na mitologia grega, esse heroi surge como um grande colonizador. É ele quem comunica aos bárbaros os valores da civilização. Por todos os lugares onde passa, instauram-se duas instituições principais, fundamentais para a civilização em sentido grego, a “pólis” e o sacrifício animal. Por isso, acreditava-se que Hēraklēs se tivesse aventurado pelas regiões ocidentais, além do mundo conhecido.

Depois de ter ultrapassado o estreito de Gibraltar, onde teria deixado como lembranças as colunas que levam seu nome, foi à conquista dos bois de Geryon para conduzi-los ao Ocidente. Cabe uma observação quanto a esse ponto: os bovinos são animais ligados de modo muito íntimo ao trabalho humano e oferendas agradáveis aos deuses olímpicos. Com sua passagem, esses animais marcam a fundação de vilas, cidades e santuários e a abolição do sacrifício humano.

Na Gallia, Hêraklês teria realizado outros trabalhos e deixado vários traços de sua passagem. O mais significativo é o de ordem amorosa, visto acima. O historiador grego Diódōros Sikeliṓtēs (Bibliotheca Historica, V, 24) acrescenta outras informações ao relato do poeta Parthénios:

Uma vez que temos estabelecido os fatos relativos às ilhas que se encontram nas regiões ocidentais, consideramos que não será estranho para nosso propósito discutir brevemente as tribos da Europa que estão próximas delas e que não mencionamos em nossos livros anteriores. Eis que a Kéltikē foi governada no passado, assim se conta, por um homem de renome, que tinha uma filha de estatura incomum e que de longe excedia em beleza a todas as demais donzelas. Mas ela, por causa de sua força física e beleza maravilhosa, era tão arrogante que se negava a cada homem que pretendia sua mão, pois acreditava que nenhum de seus pretendentes era digno dela. Então, no curso de sua campanha contra os Geryones (2), Hēraklēs visitou a Kéltikē e fundou ali a cidade de Alésia e a jovem, ao ver Hēraklēs, admirou sua intrepidez e superioridade corporal e aceitou seus abraços com toda avidez, os pais dela tendo dado o seu consentimento. Dessa união, ela deu à luz um filho chamado Gálates, que sobrepujou em muito todos os jovens da tribo em presença de espírito e força do corpo. E, quando ele tinha alcançado a idade adulta, subiu ao trono de seus pais, subjugou uma grande parte do território vizinho e realizou grandes feitos de guerra. Tornando-se famoso por sua bravura, ele chamou seus súditos gálatas ou gauleses de seu próprio nome e estes, por sua vez, deram seu nome a todos os da Galátia ou Gallia.

(2) Etnografia: ramo das ciências humanas que tem por objeto o estudo descritivo das etnias.
(3) No plural porque o rei Geryon era um gigante com três cabeças e corpo triplo até a cintura.

A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

Druida e drui

anglesey-druids

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, III, 15: Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, VI, 14: Os druidas obtiveram a isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os  druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pomponius Mela, De Chorographia, III, 14-15: Restam ainda traços de costumes atrozes não mais praticados e, conquanto agora se abstenham de matança aberta, ainda derramam o sangue de vítimas levadas ao altar. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas.

Strabon, Geographica, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participam de guerras (” obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio é livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais impendem”);
c) são contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhem espontaneamente ser druidas ou são levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) são professores;
f) atravessam um longo período de treinamento;
g) são letrados, embora optem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinam geografia (“o tamanho e a forma do mundo”), astronomia (“o movimento das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” voltou ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica, especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”. Desse trecho de Caesar saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

Bellouesus /|\