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Crom Dubh e Lughnasadh

CROM

O grande festival da colheita de Lughnasadh é considerado o ponto alto do ano sazonal e foi celebrado em toda a Ériu em cerca de 180 localidades diferentes. Vários historiadores, tradicionalistas e folcloristas acreditam que esse festival seja somente o resto de uma antiga celebração em honra de Crom Dubh (ou Crom Cruach, com o qual é geralmente identificado), uma deidade dispensadora de abundância mas pouco conhecida, que não aparece na mitologia e pode originalmente ter sido o/a igualmente enigmático/a deus/a Crón (talvez a Caoranach).

A antiga Planície das Prostrações, Mag Slécht ou Moylet, perto de Coill an Chollaigh, em Cabháin, é usualmente mencionada nos contos encontrados no Ciclo Mitológico. Embora grandes batalhas tenham ocorrido ali, é mais notada como o local do Círculo de Crom Cruach (Crom Crúaich, Cenn Cruaich, Cend Crúaich, Cenn Cróich, Cenn Croth Cromm Cruaich ou Crom-eocha, de acordo com Vallencey) ou Crom Dubh. Esse círculo sagrado de pedras era composto por doze rochas e um pilar central que se acreditava representar Crom Cruach, ídolo principal (ídal ard) dos irlandeses (Ba hé a ndía, ele era seu deus; Cenncroithi id est caput omnium deorum), supostamente coberto de ouro e prata (auro et argento ornato). Esse local foi no passado um importante centro das celebrações de Lughnasadh até São Patrício supostamente partir o pilar em seu esforço para extirpar a adoração pagã em Ériu.

A Dindsenchas (versão métrica) explica: “É a ele que costumavam sacrificar os primeiros nascidos (cétgein) de cada prole e os primogênitos (prímgein) de cada família”, o que talvez incluísse animais além das crianças humanas, com o fim de assegurar bom clima e o suprimento anual de grãos e leite, além da fertilidade do gado.

A Dindsenchas também explica que Lugh instituiu o festival de Lughnasadh em honra de Tailtiu, deusa irlandesa dos grãos ou da colheita, talvez também uma deusa solar no passado, sua mãe adotiva. Tailtin, que dela recebeu o nome, era o local original do mais importante Lughnasadh de Ériu. A assembleia antiga chamava-se Áenach Tailteann, e, até os tempos históricos, foi famosa por seus casamentos, especialmente os de “um ano e um dia”.

Tailtiu, “filha do rei da Espanha”, era a esposa do último rei dos Fir Bolg, Eochu mac Eirc. É conhecida por roçar a floresta de Coill Cuan, o que a teria matado de fadiga “nas calendas de agosto”, numa segunda-feira (dia da Lua). Após sua morte, “a mais importante feira de Ériu” passou a ocorrer em Tailtin na celebração estival de Lughnasadh, sendo a rainha enterrada em Mullach Aiti perto de Tailtin.

Tailtin é o lugar onde os Mac Miled finalmente derrotaram as Tuatha Dé Danann e onde suas três deusas, Banba, Fodla e Ériu, foram mortas, ou simbolicamente sobrepujadas, depois do que as Tuatha Dé entraram na terra para juntar-se aos Sídhe. Situa-se às margens do Bó Guaire, rio irmão do grande Bó Find (o Bóinne), que a liga ao centro sagrado de Sliabh na Cailleach ou Colina da Bruxa. Sliabh na Cailleach foi identificada como o local do sepultamento de Tailtiu e é também mencionada na mitologia como o antigo lugar de descanso dos reis de Ulaid.

Assim, há dois locais de sepultamento para uma só deusa. Talvez Sliabh na Cailleach seja onde Tailtiu como deusa solar está enterrada, enquanto Mullach Aiti seja onde Tailtiu como deusa da colheita está enterrada. Tailtin foi outrora o tradicional centro sagrado para a celebração de Lughnasadh.

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O conhecimento é um dom dos Deuses

Guerreiros, artesão, bardos, todos faziam parte de suas “corporações” específicas e não iriam iniciar suas atividades sem rogar inspiração, auxílio e proteção das divindades regentes do seu ofício particular. O conhecimento é um dom dos Deuses, que são a sua fonte, e o seu uso se faz com a permissão e a ajuda prestadas pelas deidades. Desse modo, o exercício de qualquer profissão tradicional, de qualquer técnica, teria um componente religioso subjacente básico. Invocar as deidades exigiria um rito específico. O conjunto dos ritos é o domínio dos druidas. É nessa necessidade da intervenção divina que o druidismo encontrava seu caminho para projetar-se sobre qualquer atividade.

Quanto aos celtas serem todos adeptos do druidismo… Toda generalização é sempre inexata. Os druidas não eram unanimidade (“toda unanimidade é burra”). Sem dúvida, era o druidismo que fazia os reis e representava o stablishment céltico. Mas existiam também, à margem do druidismo e tolerados por este, outros cultos independentes. Cito como exemplo a veneração de Crom Cruach na Irlanda, à época da evangelização, e o grupo de mulheres (citado pelo grego Strabon) que habitava a ilha na desembocadura do rio Loire, adeptas de um culto dionisíaco. Esses eram cultos célticos, mas não druídicos. Vale também lembrar que os celtas dominaram regiões como a Península Ibérica e a Galácia, na Ásia Menor, onde não há o menor registro da existência de druidas (o que não significa que não existissem). Nem por isso deixaram de ter algum tipo de religião, pois o nome de um dos reis gálatas era Deiotaurus, ou seja, Touro Divino, indicando a sacralidade desse animal.

Mesmo entre os celtas que estavam na região onde se praticava o druidismo e ouviam os ensinamentos dos druidas, não eram estes os intermediários exclusivos entre homens e deuses. Os deuses poderiam se mostrar a qualquer um no momento que quisessem e sob o aspecto que desejassem: um raio, um animal, uma árvore, uma fonte, um objeto qualquer; sua principal característica era a capacidade para a metamorfose. Qualquer um poderia entrar em contato com os deuses através da oração, qualquer um que tivesse conhecimento suficiente poderia realizar encantamentos e o responsável pela maioria dos ritos tribais era o rei, personagem semidivino unido em matrimônio com a deusa da terra, estando os druidas presentes apenas nos grandes ritos comunais (como festas das estações).

Na verdade, o papel dos druidas junto aos reis era o mesmo dos especialistas que são chamados pelos governos de hoje para opinarem sobre questões de direito, economia, ciência ou qualquer outra. Os druidas eram os conselheiros dos reis e prestavam esse serviço usando seu conhecimento pessoal, a vidência e a divinação. Suas habilidades mágicas seriam utilizadas na aplicação da justiça, na cura de doenças e na guerra. Devemos sempre lembrar que os druidas não eram como padres, eles não pregavam para uma congregação de fiéis. Suas lições se limitavam a seus aprendizes. Ao povo, eles prestariam os mesmos serviços que à realeza (aconselhamento, justiça e magia) mediante uma remuneração. Sim, os druidas eram pagos, ainda que não necessariamente em dinheiro, afinal de contas tinham famílias que precisavam ser sustentadas. E ser druida, ao que parece, era uma profissão bem rendosa.

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