Arquivo da categoria: consciência

aos deuses da terra

STAGnão vos trago incenso, pois incenso já tendes: as folhas e flores que perfumam o ar.
não vos trago libações, pois libações já tendes: as fontes e correntezas ocultas na fundura da terra.
não vos trago sacrifícios, pois sacrifícios já tendes: as plantas e animais mortos nos lugares ocultos vos pertencem.
trago-vos em lugar disso o que não tendes: orações no som da voz humana. preces são o meu presente para vós, o fino manto invisível da minha palavra.

e isto quem ousará? quem irá além?

entrego-vos meu coração como a chama do altar,
meu sangue e carne como oferendas,
meu sangue como libação.
entrego-me a vós e à vida,
neste dia, em todos os dias,
com agradecimento e devoção.

Bellouesus /|\

 

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As Sete Bençãos do Iniciado

LE MAGE

Seχtan Aneχtlā Ađđou̯i

As Sete Bençãos do Iniciado

A primeira benção: Pelo poder de Medunā, que em teu cinturão estejam as chaves prateadas da libertação das condições materiais.

A segunda benção: Pelo poder de Lugus, que em teus ombros agitem-se as asas de tua verdadeira vontade para levar-te aonde desejares.

A terceira benção: Pelo poder de Nantosu̯eltā, que teu semblante seja radiante com vida e amor e que o imã da atração esteja em tua fronte.

A quarta benção: Pelo poder de Belenos, que sejam tuas a harpa da tradição e a trombeta da profecia.

A quinta benção: Pelo poder de Ogmi̯os, que a espada possante da coragem esteja sempre pronta em tua mão.

A sexta benção: Pelo poder de Taranus, que a generosidade de teu espírito seja sempre uma libação vertida ante o altar de todos os Deuses.

A sétima benção: E pelo poder de Sukellos, que todas as benção temporais e espirituais sejam concretizadas.

Bellouesus /|\

Natririxs

serpentkingTranstornados pela morte de seus pais, dois irmãos decidiram renunciar ao mundo e viver em cabanas isoladas às margens do Tanaros. O irmão mais velho construiu a sua a um arepennis de distância da morada do mais novo.

Certo dia, Natririxs, o rei das serpentes, saiu do rio e rastejou nas proximidades. Ele não era uma serpente comum, pois levava em sua garganta uma joia mágica capaz de conceder desejos e por essa razão era chamado Moinimonis (Pescoço Precioso). Além disso, dominava o poder de assumir qualquer forma. Nesse dia, percorrendo as margens do Tanaros na forma de um ser humano, ele chegou à morada do irmão mais novo e saudaram um ao outro. Ao ser convidado, Natririxs entrou na cabana para conversar com o solitário. Tiveram uma conversação interessante e tornaram-se bons amigos. Assim, abraçaram-se antes da despedida.

Depois de alguns encontros, o rei-serpente abandonou sua forma humana e surgiu diante do eremita em sua forma ofídica original, o que assustou o rapaz. Antes de partir, a serpente abraçou-o da forma como o fazem as serpentes.

O medo causado pelo abraço da serpente foi tão forte que o rapaz depois perdeu o apetite, empalideceu e adoeceu. Dias depois, quando o irmão mais velho o visitou e percebeu sua aparência abatida e atitude arredia, perguntou-lhe o que subitamente destruíra sua saúde e, tendo escutado a história toda, ponderou que qualquer um poderia ser aliviado da presença de outrem ao solicitar-lhe a mais preciosa de suas posses. Como o bem mais precioso da serpente era a sua joia, se o rapaz a solicitasse a serpente não retornaria.

No dia seguinte, quando a serpente estava se despendindo do seu amigo, este lhe pediu sua jóia. A serpente, por sua vez, disse-lhe adeus sem abraçá-lo ou beijá-lo. No segundo dia igualmente, quando Natririxs surgiu diante dele, o rapaz outra vez pediu a sua joia. A serpente então saiu sem

entrar na cabana. Na terceira vez, quando o solitário viu Moinimonis saindo do rio, gritou-lhe: “Amigo, dá-me a tua joia!”

A serpente disse então:

“A melhor comida e bebidas finas tenho em abundância,
através da joia que desejas.
É demais o que pedes
e não te posso conceder.
Não te visitarei novamente
enquanto eu viver”.

Com essas palavras, o rei-serpente mergulhou no rio e nunca mais voltou ao eremita.

Embora assustado, o rapaz apreciava o rei-serpente e sua ausência o fez sofrer mais do que o medo e, em poucos dias, ele parecia outra vez doente.

Certo dia, o irmão mais velho fez uma visita a seu irmão e encontrou-o aborrecido e indisposto. Compreendendo a razão de sua tristeza, procurou animá-lo dizendo:

“Sentir a falta de alguém cuja afeição desejas
quando as solicitações tornaram-te detestável a seus olhos.
Solicitar a joia tornou a serpente desconfortável
e por isso ela sumiu para não mais voltar.”

Essas palavras verdadeiras pacificaram a mente do irmão mais jovem, que parou de sentir-se aborrecido e voltou a concentrar-se em seus afazeres.

Bellouesus /|\

Druidismo: como e para quê?

frankensweaterSem usar de uma verbosidade desnecessária ou recorrer a bibliografias extensas, cabe definir o Druidismo como uma dentre as muitas formas possíveis de interação entre o homem e o mundo. O mundo é a matéria-prima do Druidismo. O Druidismo é possível hoje porque se encontra inteiro no mesmo lugar de onde foi laboriosamente extraído no passado: ao nosso redor. Se não for encontrado a cada momento em todo recanto, inútil será buscá-lo em qualquer fonte.

Mas que se observe isto: o mundo que hoje nos serve de mestre já não é o dos antigos celtas e as lições que ele tem a ensinar não podem ser iguais às dos antigos. O passado já teve sua vez. As palavras dos velhos cronistas, passadas de geração em geração, e os restos exumados pela pá do arqueólogo não nos ensinam o que fazer ou como fazê-lo. Essas informações trazem ao Druidismo apenas uma indicação de como podemos olhar a realidade que nos cerca. Em certos casos, até sugerem uma conclusão.

O estado altamente fragmentário dos dados disponíveis não nos assusta nem preocupa. Aquilo que faltar será fornecido pela mesma Vida que antes nos proveu.

Qual a busca do Druidismo? Essa é uma pergunta cuja resposta apresenta possibilidades de variação em número tão elevado quanto o das definições de “Druidismo”. No entanto, alguns objetivos comuns podem ser apontados:

– Resolver conflitos de forma não-violenta;
– Definir a posição do ser humano no mundo e a necessidade da ética no relacionamento do homem com o homem e com todas as outras espécies;
– Propor formas de produção e de consumo que não agridam o meio-ambiente;
– Enfatizar a responsabilidade individual e a autodeterminação;
– Promover a valorização do ensino, do conhecimento, do estudo e a meritocracia;
– Valorizar a discussão e a participação ampla em questões de interesse coletivo.

Ideias como essas (e outras que não foram citadas) abrigam-se sob o rótulo “Druidismo”. Quem declara “sigo o Druidismo”, declara ser partidário dessas mesmas ideias.

Os rótulos são importantes na medida em que descrevem com precisão o conteúdo. Quando você se adequa ao conteúdo, passa a merecer o rótulo, não o contrário. Mas isso a gente acaba descobrindo, é só questão de tempo. Às vezes leva menos, às vezes, um pouco mais.

Bellouesus /|\

Muirgheal

weepingwillow

“Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

“O Caldeirão do Aquecimento (Coire Goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude.

“O Caldeirão da Vocação (Coire Érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa.

“O Caldeirão da Sabedoria (Coire Sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia”.

Atribuído a Amergin Joelho Brilhante

Muirgheal acomodou-se sob o salgueiro na encosta da colina, a pequena árvore perdida num mar verde. Observou as formas das nuvens até que o espelho de turquesa do céu começasse a tingir-se de vermelho no horizonte. Pela cortina esfarrapada dos ramos pendentes, a menina esquadrinhava a distância e via a terra vestir-se com o manto da noite em muda lucidez.

O dia partiu sem um sussurro, deixando para trás campos castanhos e o salgueiro tristonho de ramos encurvados sob o firmamento inalcançável. O dia partiu em silêncio, escorreu pelas folhas, enquanto Muirgheal fitava o horizonte, sua mente dançando com o vento que não conhece fadiga.

A menina cruzou frouxamente as pernas e endireitou a espinha, observando o ritmo de sua respiração, sem tentar alterá-lo. A simples atenção ao fluxo tornou as inalações mais completas e profundas. Cruzou as mãos sobre seu ventre, cobrindo o Caldeirão do Aquecimento, e sua mente dirigiu a correnteza da respiração para esse ponto, permitindo que vertesse dentro do vaso interno. As inalações e exalações tornaram-se mais rápidas, porém igualmente profundas e plenas, até que não houvesse mais espaço em seus pulmões. Ela sentiu a agitação nas águas do caldeirão e seu vapor subindo.

Levou então as mãos ao centro do peito, à região do coração, onde se posiciona o Caldeirão da Vocação. Os vapores subiam do ventre para esse local sob suas mãos e o córrego de ar agora desaguava ali. Muirgheal viu o grande receptáculo não totalmente emborcado, não completamente em pé, e inalou profundamente, exalando depressa como alguém que suspira. Envolvido pelas emanações do Caldeirão do Aquecimento e recebendo o jato prateado do novo sopro, o vaso do coração aproximava-se da posição ereta. Um fumo tênue já subia de seu conteúdo.

Muirgheal segurou sua cabeça com as duas mãos e deixou que o ar enchesse seu crânio, sede do Caldeirão da Sabedoria. Viu então uma grande luz, o salgueiro envolvido pelo poente e a menina sentada embaixo dele numa pele de veado. E percebeu nesse instante que tinha feito o bastante para um só dia, pois os cenários do seu desejo tinham se sobreposto a sua realidade. Turlach, seu tutor, já a advertira: “Iluminar-se não é contemplar figuras de luz, mas fazer a escuridão consciente”.

Ela sacudiu as pernas, comeu um pedaço de pão e tomou um gole de água do odre em seu alforje. Levantou-se, recolheu a pele que lhe servira de tapete e voltou para ajudar sua mãe adotiva com o jantar.

Bellouesus /|\

Ítaca

fat

Ιθάκη

Σα βγεις στον πηγαιμό για την Ιθάκη,
να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος,
γεμάτος περιπέτειες, γεμάτος γνώσεις.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον θυμωμένο Ποσειδώνα μη φοβάσαι,
τέτοια στον δρόμο σου ποτέ σου δεν θα βρεις,
αν μέν’ η σκέψις σου υψηλή, αν εκλεκτή
συγκίνησις το πνεύμα και το σώμα σου αγγίζει.
Τους Λαιστρυγόνας και τους Κύκλωπας,
τον άγριο Ποσειδώνα δεν θα συναντήσεις,
αν δεν τους κουβανείς μες στην ψυχή σου,
αν η ψυχή σου δεν τους στήνει εμπρός σου.

Να εύχεσαι νάναι μακρύς ο δρόμος.
Πολλά τα καλοκαιρινά πρωιά να είναι
που με τι ευχαρίστησι, με τι χαρά
θα μπαίνεις σε λιμένας πρωτοειδωμένους·
να σταματήσεις σ’ εμπορεία Φοινικικά,
και τες καλές πραγμάτειες ν’ αποκτήσεις,
σεντέφια και κοράλλια, κεχριμπάρια κ’ έβενους,
και ηδονικά μυρωδικά κάθε λογής,
όσο μπορείς πιο άφθονα ηδονικά μυρωδικά·
σε πόλεις Aιγυπτιακές πολλές να πας,
να μάθεις και να μάθεις απ’ τους σπουδασμένους.

Πάντα στον νου σου νάχεις την Ιθάκη.
Το φθάσιμον εκεί είν’ ο προορισμός σου.
Aλλά μη βιάζεις το ταξείδι διόλου.
Καλλίτερα χρόνια πολλά να διαρκέσει·
και γέρος πια ν’ αράξεις στο νησί,
πλούσιος με όσα κέρδισες στον δρόμο,
μη προσδοκώντας πλούτη να σε δώσει η Ιθάκη.

Η Ιθάκη σ’ έδωσε τ’ ωραίο ταξείδι.
Χωρίς αυτήν δεν θάβγαινες στον δρόμο.
Άλλα δεν έχει να σε δώσει πια.

Κι αν πτωχική την βρεις, η Ιθάκη δεν σε γέλασε.
Έτσι σοφός που έγινες, με τόση πείρα,
ήδη θα το κατάλαβες η Ιθάκες τι σημαίνουν.

Κωνσταντίνος Π. Καβάφης

Ítaca

Ao partires para Ítaca,
esperas que a viagem seja longa,
cheia de aventura, cheia de descobertas.
Lestrigões e Ciclopes,
Posêidon furioso – não os temas:
jamais encontrarás coisas como essas em teu caminho
enquanto mantiveres teus pensamentos para cima,
enquanto uma excitação incomum sacudir teu espírito e teu corpo.
Lestrigões e Ciclopes,
Posêidon bravio – não os encontrarás
a menos que os tragas dentro da tua alma,
a menos que tua alma coloque-os diante de ti.

Esperas que a viagem seja longa.
Que haja muitas manhãs de verão quando,
com tanto prazer, com tanta alegria,
adentrares portos vistos pela primeira vez;
que te detenhas nos postos comerciais fenícios
para comprar finos artigos,
madrepérola e coral, âmbar e ébano,
perfumes sensuais de todos os tipos –
tantos perfumes sensuais quantos puderes;
e que visites muitas cidades egípcias
para encheres depósitos do conhecimento de seus sábios.

Mantém Ítaca sempre em tua mente.
Chegar ali é o que te cabe.
Contudo, de modo algum te apresses na jornada.
Melhor é que ela dure por anos,
para que sejas velho quando quando alcançares a ilha,
rico de tudo o que obtiveste no caminho,
sem esperares que Ítaca te faça rico.

Ítaca proporcionou-te a viagem maravilhosa.
Sem ela, não terias partido.
Nada lhe foi deixado para dar-te agora.

E, se ela parecer-te pobre, Ítaca não te enganou.
Sábio como te tornaste, tão cheio de experiência,
terás então compreendido o que essas Ítacas significam.

Constantine P. Cavafy (poeta grego, 29/04/1863 – 29/04/1933)

Tradução: Bellouesus /|\