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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma

Bellou̯esus Īsarnos

Dicerem stultos, nisi idem bracati senssisent, quod palliatus Pythagoras.

Valerius Maximus, L. II, 6, §10

I Ante o arvoredo

Frente à multidão das perplexidades que assediam a vida humana, a sua finitude inevitável ergue-se como temível colosso e titã espantoso, sementeira de angústias e indagações cujo número iguala-se – caso não o ultrapasse – ao dos insetos numa floresta tropical. E, exatamente como um magote desses animalejos, a certeza da nossa extinção final aflige-nos com o aceno da futilidade suprema de todo esforço, pois, como disse Calderón (1):

¿Que hay quien intente reinar,
viendo que ha de despertar
en el sueño de la muerte?

Outrossim, o caráter temporal da existência humana, com os desafios e situações inevitáveis que lhe são inerentes, cobra-nos uma posição. Seja qual for a resposta que lhes possamos oferecer, nossas ações estarão já limitadas pela facticidade da vida transitória, isto é, pelo que possa ser feito dentro do tempo que nos é dado. A finitude é a qualidade própria do ser humano e toda reflexão sobre a existência humana, uma análise a respeito do finito. Temporalidade e morte entrelaçam-se num abraço que impõe limitações à humanidade, trazendo-lhe sofrimento e aflições, a consciência de que a busca pela autorrealização e felicidade não será perpétua.

Surpreendentemente, é o ponderar acerca dessa finitude que pode oferecer sentido à vida. Se estivermos cientes de que a vida terá um termo e que, nela, experimentaremos eventos que exigirão as nossas mais fortes capacidades de superação, compreenderemos que as nossas decisões não podem ser indefinidamente adiadas, pois o efêmero da vida “cobra-nos uma posição”. A finitude, assim, não é decremento à vida humana, porém parte forçosa do seu sentido, a parcela essencial que lhe confere unicidade e irrepetibilidade. A morte é o motor a impedir-nos de esperar inertes pelo infinito e portadora da potência para a descoberta do próprio sentido da vida. Compele-nos a avançar a certeza do fim.

Destarte, seria possível imaginar que resposta teriam dado os druidas do passado à questão tremenda do findar da nossa vida? Teriam multiplicado pelo sagrado três o fatídico ponto final, dele fazendo a esperança das reticências? Jamais será possível replicá-lo com certeza absoluta, o que, entretanto, não será hábil a impedir-nos o exame, embora superficial, das informações disponíveis sobre o ensinamento druídico a respeito da morte e do destino da alma humana. Acompanhe-nos a Mãe dos Bardos na travessia dessa selva, dédalo de tantas vozes do mundo antigo. Partamos.

II Os Lenhos Veneráveis

Para o Estagirita, os celtas, completamente armados, investiam contra as próprias ondas e, barbaricamente insensíveis à dor, não os atemorizavam nem os terremotos nem as inundações (2).

Na “Anábase”, Arriano de Nicomédia relata o encontro entre Alexandre, filho de Felipe II da Macedônia, e uma embaixada céltica, ocasião em que o conquistador de metade do mundo habitado ouviu dos celtas que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima (3).

Segundo Gaio César, os druidas “desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro” (4). Pompônio confirma-o: “um dos seus [isto é, dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos” (5).

O general romano assinalou também a magnificência e suntuosidade dos funerais gauleses, informando que todas as coisas amadas pelo morto, fossem criaturas vivas (animais ou – “paulo supra hanc memoriam”, “pouco antes desta época” – servos e dependentes) ou ainda bens materiais eram, uma vez completados os ritos funerários, lançados às chamas (6).

Pompônio outra vez corrobora a informação prestada por Gaio, acrescentando que, em tempos passados (7), os galos “costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até a sua chegada ao outro mundo”.

Quanto aos acompanhantes do defunto em sua jornada além-túmulo, este autor esclarece que seu sacrifício seria voluntário: “havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida” (8).

Diodoro liga a Pitágoras de Samos (ca. 570–495 aEC) a crença céltica na imortalidade da alma: “[…] entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual […] as almas dos homens são imortais e, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo”. Nessa mesma passagem, esse autor fornece-nos outro peculiar uso funerário céltico: “É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler” (9).

Estrabão, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (10).

Valério Máximo foi o autor de uma tirada célebre que para sempre uniu, num mesmo figurino, o himátion helênico e a braga céltica, ao afirmar que consideraria loucos os gauleses vestidos de calças por abraçarem a crença na imortalidade da alma, não fosse essa a mesma convicção do grande Pitágoras com o seu manto. Valério disse ainda que tão firme era a confiança gaulesa na sobrevivência da alma humana à morte que chegavam a fazer empréstimos cujo pagamento ficava acertado para o Além (11).

O cordovês Lucano, reforçando o caráter cruel dos cultos célticos inculcado no público romano pelo brilhante verbo de Cícero no discurso em defesa de Fonteio, menciona em seu poema sobre a guerra civil os sacrifícios sangrentos a Teutates, Esus e Taranis, observando em seguida, o que é da maior importância, que os bardos, por meio de suas canções, escolhiam “as almas valentes daqueles que pereceram em batalha para conduzi-las a uma morada imortal”, isto é, ao renascimento para uma vida eterna e bem-aventurada junto às deidades. Na mesma passagem, somos informados que os druidas, “únicos conhecedores dos deuses e numes celestes”, ensinavam que “dos homens as sombras / não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis / os reinos pálidos buscam: dirige-as o sopro da vida / a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais / conheceis, a morte é o meio” (12): “De uma longa vida a morte é o meio”.

Também Jâmblico, o neoplatônico, atribuiu aos gauleses a crença na imortalidade da alma: “Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia” (13).

Por fim, para encerrar a primeira jornada neste bosque ancestral, parece-nos adequado mencionar a única tríade druídica a sobreviver da Antiguidade. Diógenes Laércio, citando a perdida “Sucessão dos Filósofos”, de Sotíon, escreveu que, no tocante aos gimnosofistas e aos druidas (γυμνοσοφιστὰς καὶ Δρυΐδας), “dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas e ditos obscuros (αἰνιγματωδῶς ἀποφθεγγομένους φιλοσοφῆσαι), exortando os homens a reverenciar os deuses (σέβειν θεοὺς) e abster-se de fazer o mal (καὶ μηδὲν κακὸν δρᾶν) e praticar a bravura (καὶ ἀνδρείαν ἀσκεῖν) (15).

III Reflexões noturnas junto ao fogo

crença céltica na imortalidade da alma intrigou os helenos. Pareceu-lhes tão contrária a suas ideias escatológicas, porém tão semelhante à metempsicose pregada pelo mestre de Samos, que não resistiram a fazer uma “interpretatio graeca” e deduzir que os druidas tinham obtido de Pitágoras o seu ensinamento, ou, ao inverso, fora Pitágoras a beber em terras célticas da fonte druídica.

Tão extraordinária foi para os gregos a ideia da sobrevivência da alma humana (com todas as suas faculdades) à morte, que não lhes pareceu fora do razoável interpretá-la nos termos que lhes fossem mais familiares.

A comparação (ou equiparação) entre a doutrina druídica e a pitagórica provavelmente surgiu logo que os gregos tomaram conhecimento da existência dos druidas, talvez por volta do séc. V aEC. Sabe-se que, desde essa época, circulava uma obra chamada “Símbolos Pitagóricos” (16), hoje perdida e de autoria desconhecida. Acredita-se que ela expusesse, entre outras coisas, a relação, tal como compreendida pelos helenos, entre os druidas e a escola pitagórica.

Hipólito, filiado a essa tese, conta que os druidas teriam sido discípulos de Zamolxis, um trácio, servo de Pitágoras, que, morto o seu mestre, teria emigrado para a Céltica, onde se tornou o apóstolo do pitagorismo, e com tal sucesso que a reverência prestada aos druidas como profetas dever-se-ia a “predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica” (17). Clemente de Alexandria (ca. 150–215 EC) (18) e Cirilo de Alexandria (ca. 375 ou 378–444 EC) (19) pertencem à mesma corrente.

A crença na transmigração da alma pode ser encontrada, de um modo ou de outro, em várias culturas e sistemas religiosos – aborígenes australianos, tribos da Amazônia ocidental, hinduísmo, budismo, na cabala judaica (embora tenha de conformar-se à ortodoxia das Escrituras, sendo mais uma ideia tolerada do que um ensinamento aprovado pela tradição).

Para os gregos antigos, a noção de que a alma, finda a vida terrena, pudesse desfrutar de outra existência plena, era algo surpreendente. Tal concepção era alienígena a sua religião tradicional, que reconhecia como destino usual do homem um pós-vida melancólico e sombrio na Casa de Hades. Se é verdade que práticas rituais e o culto funerário atestam a disseminação de esperanças mais alegres para o outro mundo, não seria inexato reconhecer que pontos de vista como os sustentados pelos druidas não encontravam paralelo exato na Hélade e permaneciam, em grande medida, como província de cultos periféricos (Mistérios Órficos, a própria Escola Pitagórica) e pensadores de vanguarda (Empédocles, Platão, Plotino) influenciados por aqueles.

Para Pitágoras, resumidamente, as almas reencarnavam em várias formas corpóreas (humanas, animais ou inanimadas), ficando o seu destino na dependência das ações tomadas em encarnações prévias – tal é a doutrina chamada “metempsicose”, que mereceu destaque nos escritos de autores gregos que mencionaram os druidas precisamente pela sua novidade e caráter exótico. A leitura cuidadosa da informação que há pouco vimos, entretanto, guiar-nos-á a conclusões noutro sentido.

Aprendemos de Gaio que os funerais gauleses eram “magníficos e suntuosos” (“funera sunt […] magnifica et sumptuosa”), sendo todas as coisas amadas pelo morto, uma vez completados os ritos funerários, lançadas às chamas para acompanhá-lo na última viagem. Ora, os achados arqueológicos das últimas décadas têm mostrado que a aristocracia céltica fazia-se sepultar com todo o necessário para “uma outra vida junto aos mortos” (Pompônio, “uita altera ad manes”). Gaio e Pompônio asseveram como ensinamento druídico a eternidade das almas (“aeternas esse animas”) e o renascimento em novo corpo após a morte terrena (“[…] sed ab aliis post mortem transire ad alios”). Fica igualmente clara a total manutenção da personalidade, com seus interesses e afeições, quando aprendemos que contratos podiam ser firmados em vida para o adimplemento no outro mundo e que os familiares vivos escreviam cartas endereçadas a seus mortos queridos – incidentalmente esclarecendo que os celtas não eram ágrafos.

Não podemos deixar de invocar os versos de Lucano: “Também vós, Bardos, que por vossos louvores / Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha / Para conduzi-los a uma morada imortal […]”, completando-os com outros, do romano Sílio Itálico, em que este anotou uma crença dos celtas da Ibéria: “Os celtas conhecidos como Hiberi também vieram. / Para eles é glorioso cair em combate, / mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo. / Acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo, / jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto” (20).

Lucano clarifica-nos a razão da importância dispensada à poesia bárdica pelo conjunto das culturas célticas: houve época em que a palavra inspirada do Bardo tinha o poder de abrir para o guerreiro morto em batalha a porta da mansão dos Deuses. O Bardo era o guia, o psicopompo dessa jornada rumo ao Elíseo céltico. Sílio Itálico elucida algo que causou assombro aos gregos quando da incursão céltica do séc. III aEC na Grécia, a saber, a indiferença estarrecedora dos celtas quanto aos despojos dos companheiros caídos. “Os gálatas não enviaram um arauto a solicitar permissão para enterrar seus cadáveres: não lhes importava que se desse a esses cadáveres um pouco de terra ou que fossem deixados aos animais selvagens ou às aves que fazem guerra aos mortos” (21).

Lucano prestativo – embora não amigo de Bardos ou Druidas – apresenta-nos aquela que poderia ser a final diferença entre a metempsicose pitagórica e a transmigração druídica: se exato o ensinamento dos Druidas, as almas dos homens não descem à morada sombria de Érebo ou ao reino silencioso do Pai Dis; o sopro da vida leva-as a outro mundo (“regit idem spiritus artus orbe alio”). Ōrbĭs (“o mundo, a Terra, o globo terrestre”) ălĭŭs (“outro”), Orbis Alius, o “Outro Mundo” tão conhecido pelos que possuam familiaridade com os textos irlandeses, nos quais recebe diversos e poéticos nomes, como “Magh Findargat” (“Planície da Prata Brilhante”), “Magh Mell” (“Planície das Delícias”), “Magh Iongnadh” (“Planície dos Milagres”), “Sen Magh” (“Planície Antiga”). É nesse Outro Mundo que a alma receberá um novo corpo e dará continuidade a sua existência.

Que espécie de lugar é o Outro Mundo? Um conto antigo tem a resposta. Connla e seu pai, o rei Conn Cétchathach, estão nas encostas da Colina de Uisnech, acompanhados também pelo séquito real. Surgindo do nada, uma mulher deles se aproxima. Connla pergunta-lhe de onde vem. “Venho das terras onde não há morte, nem necessidade, nem pecado. Mantemo-nos em celebração sem necessidade de serviço. A paz reina entre nós. É um grande monte encantado [‘síd’] no qual vivemos. Somos chamados ‘o povo do monte encantado’ [‘áes síde’]”. A mulher deseja levar Connla para o Outro Mundo: “Se quiseres seguir-me, tua forma jamais diminuirá em juventude ou beleza, mesmo até o admirável Dia do Julgamento. […] Os vivos, os imortais, chamam por ti, chamam-te para o povo de Tethra, que te observa a cada dia nas assembleias do teu país nativo, entre os teus parentes amados. […] Essa terra podemos atingir em meu barco de cristal, o monte encantado de Boadach. Existe ainda outra terra à qual não é pior chegar-se. Vejo-o, o sol afunda. Embora seja distante, podemos alcançá-la antes da noite. Essa é a terra que alegra o coração de todos que para lá vagueiam” (22).

Desse modo, podemos ter como razoavelmente certo que a imortalidade da alma era ensinamento tradicional dos druidas da Antiguidade, não implicando, entretanto, na afirmação do retorno obrigatório do homem a este mundo. Ela é a conquista de todo ser humano e a afirmação de que, após a morte, todos encontrarão júbilo e bem-aventurança num Outro Mundo encantado, uma Terra sem Males, junto aos Deuses e Ancestrais.

IV De volta ao campo aberto

A suave amoralidade dos celtas… Vimos a promessa da imortalidade num mundo sem sofrimento, fomos exortados a honrar os deuses, evitar o mal e praticar a bravura; sem embargo, em nenhum parágrafo houve menção a qualquer tipo de julgamento.

Conforme os sacerdotes egípcios, a admissão definitiva ao Reino de Osíris não ocorria senão após um julgamento favorável ao morto.

Tal doutrina do julgamento após a morte era desconhecida dos celtas. A sua introdução na Irlanda deu-se com a cristianização, e o esforço necessário para obter a sua aceitação, diz-se, causou indignação ao bom São Patrício.

Examinamos o material relativo aos druidas continentais. Caso houvesse espaço, encontraríamos algumas diferenças – e tantas outras confirmações – com a investigação das fontes insulares. Talvez seja possível fazê-lo noutra ocasião.

Bem haja o leitor amável que neste passeio nos acompanhou.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Pelayo, Marcelino Menéndez. “Teatro Selecto de Calderón de la Barca”. Madrid: Luis Navarro, 1881. 1 v., p. 77.

2) Aristóteles (384–322 aEC). “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25 e “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7, respectivamente.

3) Lucius Flauius Arrianus (ca. 86/89 – após 146/160 EC). “Alexándrou Anábasis”, I, 4, 7.

4) Gaius Iulius Caesar (100–44 aEC), “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 14. O general ainda acrescenta que “por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas”.

5) Pomponius Mela (séc. I EC). “De Chorographia”, III, 15. Ecoando César, Pompônio observa que “isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra”.

6) Gaius Iulius Caesar. “Commentarii de Bello Gallico”, VI, 19.

7) Observe-se a nova referência ao passado (“olim”, “em tempos passados”). Uma vez que se encontra igualmente no texto de César, uma interpretação razoável seria que, à época da invasão romana, tais crenças já se estivessem desvanecendo.

8) Pomponius Mela. “De Chorographia”, III, 15.

9) Diodorus Siculus (fl. séc. I aEC), “Bibliotheca histórica”, V, 28.

10) Strabōn (64 ou 63 aEC – c. 24 EC). “Rerum Geographicarum Libri XVII”, IV, 4, 4.

11) Valerius Maximus (reinado de Tiberius, 14 a 37 d. C.). “Factorum et Dictorum Memorabilium”, II, 6, §§ 10-11.

12) Marcus Annaeus Lucanus (39–65 EC). “De Bello Ciuili uel Pharsaliae”, I, v. 392-465.

13) Iamblichus Chalcidensis (ca. 245 – ca. 325 EC). “De Vita Pythagorica”, 30.

14) Literalmente, “sábios nus”. Talvez os ancestrais dos “rishis” indianos.

15) Diogenes Laertius (séc. III d. C.). “Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton”, I, 6.

16) “Pythagorica Hypomnemata”.

17) Hippolytus (170–235 EC). “Refutatio Omnium Haeresium”, I, 22.

18) “Stromata”, I, XV, 70, 1; 71, 3.

19) “Aduersus Iulianum”.

20) Tiberius Catius Asconius Silius Italicus (ca. 28 – ca. 103 d. C.), “Punicorum Libri Septemdecim”, III, v. 340-343.

21) Pausanías (séc. II EC). “Descriptio Graeciae”, X, 21, 6.

22) “Echtra Condla”, “A Aventura de Connla” (Irlanda, séc. VII EC).

 

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aos deuses da terra

STAGnão vos trago incenso, pois incenso já tendes: as folhas e flores que perfumam o ar.
não vos trago libações, pois libações já tendes: as fontes e correntezas ocultas na fundura da terra.
não vos trago sacrifícios, pois sacrifícios já tendes: as plantas e animais mortos nos lugares ocultos vos pertencem.
trago-vos em lugar disso o que não tendes: orações no som da voz humana. preces são o meu presente para vós, o fino manto invisível da minha palavra.

e isto quem ousará? quem irá além?

entrego-vos meu coração como a chama do altar,
meu sangue e carne como oferendas,
meu sangue como libação.
entrego-me a vós e à vida,
neste dia, em todos os dias,
com agradecimento e devoção.

Bellouesus /|\

 

As Sete Bençãos do Iniciado

LE MAGE

Seχtan Aneχtlā Ađđou̯i

As Sete Bençãos do Iniciado

A primeira benção: Pelo poder de Medunā, que em teu cinturão estejam as chaves prateadas da libertação das condições materiais.

A segunda benção: Pelo poder de Lugus, que em teus ombros agitem-se as asas de tua verdadeira vontade para levar-te aonde desejares.

A terceira benção: Pelo poder de Nantosu̯eltā, que teu semblante seja radiante com vida e amor e que o imã da atração esteja em tua fronte.

A quarta benção: Pelo poder de Belenos, que sejam tuas a harpa da tradição e a trombeta da profecia.

A quinta benção: Pelo poder de Ogmi̯os, que a espada possante da coragem esteja sempre pronta em tua mão.

A sexta benção: Pelo poder de Taranus, que a generosidade de teu espírito seja sempre uma libação vertida ante o altar de todos os Deuses.

A sétima benção: E pelo poder de Sukellos, que todas as benção temporais e espirituais sejam concretizadas.

Bellouesus /|\

Natririxs

serpentkingTranstornados pela morte de seus pais, dois irmãos decidiram renunciar ao mundo e viver em cabanas isoladas às margens do Tanaros. O irmão mais velho construiu a sua a um arepennis de distância da morada do mais novo.

Certo dia, Natririxs, o rei das serpentes, saiu do rio e rastejou nas proximidades. Ele não era uma serpente comum, pois levava em sua garganta uma joia mágica capaz de conceder desejos e por essa razão era chamado Moinimonis (Pescoço Precioso). Além disso, dominava o poder de assumir qualquer forma. Nesse dia, percorrendo as margens do Tanaros na forma de um ser humano, ele chegou à morada do irmão mais novo e saudaram um ao outro. Ao ser convidado, Natririxs entrou na cabana para conversar com o solitário. Tiveram uma conversação interessante e tornaram-se bons amigos. Assim, abraçaram-se antes da despedida.

Depois de alguns encontros, o rei-serpente abandonou sua forma humana e surgiu diante do eremita em sua forma ofídica original, o que assustou o rapaz. Antes de partir, a serpente abraçou-o da forma como o fazem as serpentes.

O medo causado pelo abraço da serpente foi tão forte que o rapaz depois perdeu o apetite, empalideceu e adoeceu. Dias depois, quando o irmão mais velho o visitou e percebeu sua aparência abatida e atitude arredia, perguntou-lhe o que subitamente destruíra sua saúde e, tendo escutado a história toda, ponderou que qualquer um poderia ser aliviado da presença de outrem ao solicitar-lhe a mais preciosa de suas posses. Como o bem mais precioso da serpente era a sua joia, se o rapaz a solicitasse a serpente não retornaria.

No dia seguinte, quando a serpente estava se despendindo do seu amigo, este lhe pediu sua jóia. A serpente, por sua vez, disse-lhe adeus sem abraçá-lo ou beijá-lo. No segundo dia igualmente, quando Natririxs surgiu diante dele, o rapaz outra vez pediu a sua joia. A serpente então saiu sem

entrar na cabana. Na terceira vez, quando o solitário viu Moinimonis saindo do rio, gritou-lhe: “Amigo, dá-me a tua joia!”

A serpente disse então:

“A melhor comida e bebidas finas tenho em abundância,
através da joia que desejas.
É demais o que pedes
e não te posso conceder.
Não te visitarei novamente
enquanto eu viver”.

Com essas palavras, o rei-serpente mergulhou no rio e nunca mais voltou ao eremita.

Embora assustado, o rapaz apreciava o rei-serpente e sua ausência o fez sofrer mais do que o medo e, em poucos dias, ele parecia outra vez doente.

Certo dia, o irmão mais velho fez uma visita a seu irmão e encontrou-o aborrecido e indisposto. Compreendendo a razão de sua tristeza, procurou animá-lo dizendo:

“Sentir a falta de alguém cuja afeição desejas
quando as solicitações tornaram-te detestável a seus olhos.
Solicitar a joia tornou a serpente desconfortável
e por isso ela sumiu para não mais voltar.”

Essas palavras verdadeiras pacificaram a mente do irmão mais jovem, que parou de sentir-se aborrecido e voltou a concentrar-se em seus afazeres.

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Druidismo: como e para quê?

frankensweaterSem usar de uma verbosidade desnecessária ou recorrer a bibliografias extensas, cabe definir o Druidismo como uma dentre as muitas formas possíveis de interação entre o homem e o mundo. O mundo é a matéria-prima do Druidismo. O Druidismo é possível hoje porque se encontra inteiro no mesmo lugar de onde foi laboriosamente extraído no passado: ao nosso redor. Se não for encontrado a cada momento em todo recanto, inútil será buscá-lo em qualquer fonte.

Mas que se observe isto: o mundo que hoje nos serve de mestre já não é o dos antigos celtas e as lições que ele tem a ensinar não podem ser iguais às dos antigos. O passado já teve sua vez. As palavras dos velhos cronistas, passadas de geração em geração, e os restos exumados pela pá do arqueólogo não nos ensinam o que fazer ou como fazê-lo. Essas informações trazem ao Druidismo apenas uma indicação de como podemos olhar a realidade que nos cerca. Em certos casos, até sugerem uma conclusão.

O estado altamente fragmentário dos dados disponíveis não nos assusta nem preocupa. Aquilo que faltar será fornecido pela mesma Vida que antes nos proveu.

Qual a busca do Druidismo? Essa é uma pergunta cuja resposta apresenta possibilidades de variação em número tão elevado quanto o das definições de “Druidismo”. No entanto, alguns objetivos comuns podem ser apontados:

– Resolver conflitos de forma não-violenta;
– Definir a posição do ser humano no mundo e a necessidade da ética no relacionamento do homem com o homem e com todas as outras espécies;
– Propor formas de produção e de consumo que não agridam o meio-ambiente;
– Enfatizar a responsabilidade individual e a autodeterminação;
– Promover a valorização do ensino, do conhecimento, do estudo e a meritocracia;
– Valorizar a discussão e a participação ampla em questões de interesse coletivo.

Ideias como essas (e outras que não foram citadas) abrigam-se sob o rótulo “Druidismo”. Quem declara “sigo o Druidismo”, declara ser partidário dessas mesmas ideias.

Os rótulos são importantes na medida em que descrevem com precisão o conteúdo. Quando você se adequa ao conteúdo, passa a merecer o rótulo, não o contrário. Mas isso a gente acaba descobrindo, é só questão de tempo. Às vezes leva menos, às vezes, um pouco mais.

Bellouesus /|\

Muirgheal

weepingwillow

“Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

“O Caldeirão do Aquecimento (Coire Goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude.

“O Caldeirão da Vocação (Coire Érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa.

“O Caldeirão da Sabedoria (Coire Sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia”.

Atribuído a Amergin Joelho Brilhante

Muirgheal acomodou-se sob o salgueiro na encosta da colina, a pequena árvore perdida num mar verde. Observou as formas das nuvens até que o espelho de turquesa do céu começasse a tingir-se de vermelho no horizonte. Pela cortina esfarrapada dos ramos pendentes, a menina esquadrinhava a distância e via a terra vestir-se com o manto da noite em muda lucidez.

O dia partiu sem um sussurro, deixando para trás campos castanhos e o salgueiro tristonho de ramos encurvados sob o firmamento inalcançável. O dia partiu em silêncio, escorreu pelas folhas, enquanto Muirgheal fitava o horizonte, sua mente dançando com o vento que não conhece fadiga.

A menina cruzou frouxamente as pernas e endireitou a espinha, observando o ritmo de sua respiração, sem tentar alterá-lo. A simples atenção ao fluxo tornou as inalações mais completas e profundas. Cruzou as mãos sobre seu ventre, cobrindo o Caldeirão do Aquecimento, e sua mente dirigiu a correnteza da respiração para esse ponto, permitindo que vertesse dentro do vaso interno. As inalações e exalações tornaram-se mais rápidas, porém igualmente profundas e plenas, até que não houvesse mais espaço em seus pulmões. Ela sentiu a agitação nas águas do caldeirão e seu vapor subindo.

Levou então as mãos ao centro do peito, à região do coração, onde se posiciona o Caldeirão da Vocação. Os vapores subiam do ventre para esse local sob suas mãos e o córrego de ar agora desaguava ali. Muirgheal viu o grande receptáculo não totalmente emborcado, não completamente em pé, e inalou profundamente, exalando depressa como alguém que suspira. Envolvido pelas emanações do Caldeirão do Aquecimento e recebendo o jato prateado do novo sopro, o vaso do coração aproximava-se da posição ereta. Um fumo tênue já subia de seu conteúdo.

Muirgheal segurou sua cabeça com as duas mãos e deixou que o ar enchesse seu crânio, sede do Caldeirão da Sabedoria. Viu então uma grande luz, o salgueiro envolvido pelo poente e a menina sentada embaixo dele numa pele de veado. E percebeu nesse instante que tinha feito o bastante para um só dia, pois os cenários do seu desejo tinham se sobreposto a sua realidade. Turlach, seu tutor, já a advertira: “Iluminar-se não é contemplar figuras de luz, mas fazer a escuridão consciente”.

Ela sacudiu as pernas, comeu um pedaço de pão e tomou um gole de água do odre em seu alforje. Levantou-se, recolheu a pele que lhe servira de tapete e voltou para ajudar sua mãe adotiva com o jantar.

Bellouesus /|\