A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Creative Visualization

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Melita Denning & Osborn Philips

O uso da Visualização Criativa na oração e na adoração provavelmente ocorre com mais frequência e mais facilmente dentre os seguidores de uma religião quase sempre farta em imagens sacras. Para os seguidores de religiões que não se utilizam de imagens, esse processo se torna um pouco mais difícil. De qualquer maneira, o fato de o indivíduo ter uma crença, ter fé, é um ponto positivo no seu processo de desenvolvimento espiritual, mesmo quando sua seita não se utilizar de imagens ou figuras, porque a própria religião já é prova de que a pessoa está muito além dos materialistas, principalmente na questão da Visualização Criativa.

Para se ter uma ideia, nem todos os religiosos praticam a adoração e nem todos rezam. Para essas pessoas, então, algumas das ideias que se seguem podem ser interessantes. Pode ser que elas desejem imaginar ou pensar numa Entidade na qual acreditem. A partir daí, a oração e a adoração passam a ser menos difíceis de ser aceitas ou compreendidas.

“Mas como fazer para rezar? Como começar a orar?”,perguntam alguns. Pode-se começar tal como uma criança começa a falar, com apenas uma palavra. Algumas das mais poderosas e belas orações do mundo têm apenas uma única palavra. Portanto, não existe “maneira apropriada” ou fórmula certa de oração. Nada é tão íntimo, tão singular quanto o relacionamento entre o adorador e sua Divindade e tanto faz se o que você diz é inédito ou se já foi dito milhares de vezes por milhões de outras pessoas. Nada disso é importante. O que realmente importa é que aquela palavra ou todas aquelas palavras são a sua oração naquele momento. E desse momento em diante você terá encontrado uma das mais poderosas fontes de inspiração, de força, de alegria, de confiança e de esclarecimento espiritual em todos os níveis do seu ser. E essa mesma fonte tem sido concedida aos povos de todos os lugares do mundo por todos os séculos.

Com relação à visualização, não se sugere que a pessoa deva superar as dúvidas que porventura tenha quanto à exatidão – ou a possibilidade – de imaginar uma Divindade de forma localizada. Ao mesmo tempo, se a pessoa quiser ampliar os benefícios que irá receber usando a Visualização Criativa em suas preces, é necessário considerar se existe algum Ser Espiritual que possa ser imaginado, seja como recipiente ou como intermediário de suas petições à Divindade.

Para aqueles que conseguem adorar seu Deus, ou seus deuses, à maneira simbólica tradicional, ou para aqueles que creem numa Divindade encarnada, não precisamos acrescentar mais nada com relação ao Ser Divino que elas deveriam visualizar. Se, porventura, o leitor encontrar alguma dificuldade a respeito desse assunto, talvez então seja melhor visualizar o seu Anjo-da-Guarda, ou um Santo conhecido, pedindo que aquele ser seja o portador de suas orações à Divindade. Você pode escolher o santo de sua devoção, ou mesmo um santo ligado ao assunto que você queira resolver. Também esse Ser Divino não precisa ser necessariamente um santo reconhecido pela igreja, ou pela seita que a pessoa frequenta. Pode ser alguém – que já tenha morrido – e que a pessoa amava muito, como a avó, ou o avô, ou algum parente mais distante com o qual a pessoa se sinta intimamente ligada.

Gostaríamos de ressaltar que existem estudos, feitos pelos antigos missionários religiosos enviados à China, de que a “veneração aos ancestrais” e a adoração aos Santos, reconhecidos pelas igrejas, têm as mesmas raízes e fundamentos.
Pode-se, sem dúvida nenhuma, visualizar, então, tanto sua Entidade como seu santo protetor. Esse tipo de visualização se mostrou muito poderoso e eficiente.

Esteja você visualizando uma Divindade de qualquer forma, ou mesmo um Santo ou um Anjo, é bom tomar cuidado para “enxergar” esse Ser da maneira mais positiva possível, ou seja: radiante, poderoso, acolhedor e amoroso. Se for possível, use uma imagem – seja impressa ou esculpida – para auxiliar em sua visualização. Mas lembre-se, você não poderá conferir nenhum poder à imagem materializada propriamente dita. Você não deverá entendê-la como talismã ou mesmo objeto de fetiche. Essa imagem tem apenas o objetivo de auxiliar você na formulação, a mais clara possível, da imagem que você visualizou internamente, e também de evitar para você a dificuldade de rezar “no espaço” com convicção.

Um devoto hindu descreveu certa vez, como – em oração – ele ofereceu luzes e flores com palavras de amor e adoração dirigidas a uma imagem feita à semelhança de sua Divindade. Diz ele: “Mas quando termino minha oração, deixo a imagem de pedra sobre o altar e coloco a imagem verdadeira de volta em meu coração.”

Quanto mais concreta for a imagem real que você construir em seu coração, tanto mais útil e eficaz ela lhe será.

Por esse motivo, sugerimos que você pratique muito suas orações durante algum tempo, antes de começar a pedir alguma coisa por esse método. E mais, se, por algum motivo drástico, uma emergência, você se viu diante da oração, rezando desesperadamente, alertamos que essa prática de adoração não será possível.

Algumas emergências acontecem, e às vezes, pessoas que nunca rezaram começam a fazê-lo; essas pessoas rezam, ou invocam o auxílio de forças para as quais jamais haviam se dirigido, e frequentemente recebem o que pedem. Porém, na emergência, você tem acesso às áreas da sua mente profunda, que normalmente estão fechadas para você em circunstâncias normais e assim, para poder rezar com eficácia em momentos não críticos, é preciso muita prática de oração.

Portanto, se você decidir trilhar o Caminho da Devoção, siga-o com perseverança e com todo o fervor que puder encontrar dentro de si.

Faça um pequeno altar, ou um “cantinho especial” para a sua hora de oração e adoração. Você escolhe a posição: de joelhos, de pé, sentado, tanto faz. Existem posturas tradicionais de oração e a escolha é sua. Se possível, crie o hábito de acender uma ou mais velas para acompanhar o seu período de adoração e oração. Se quiser, acrescente incenso ou flores. Os detalhes ficam por sua conta, porém, não se esqueça de quando rezar, visualizar. Isso é fundamental.

Se você imagina Deus como sendo Luz, então visualize Luz. Se para você a Divina Presença poderia ser algo quase palpável no topo de uma montanha, ou talvez dentro de uma caverna, então visualize que você está no topo de uma montanha ou dentro de uma caverna, antes de começar a rezar.

Sempre que você tiver um objetivo que deseja alcançar através desse modo de oração, os princípios básicos se aplicam sempre, utilizando-se você de um Ser intermediário ou dirigindo-se diretamente à Divindade. Todavia, os detalhes do procedimento variam ligeiramente de caso para caso e, por esse motivo, os relacionamos abaixo:

A. Se você vai visualizar – de qualquer maneira – a Divindade para a qual você dirige suas preces, sem um Ser intermediário, então faça o seguinte:

1. Construa primeiro uma imagem visualizada bem nítida do objetivo que você quer alcançar, seja ele um benefício para o corpo ou para a alma, seja para você ou para outras pessoas. Formule um quadro o mais exatamente possível, por exemplo, a pessoa curada, ou o certificado de um exame, etc. Ou, se o objetivo a ser alcançado for algo visível e material, então formule simplesmente um quadro do objeto propriamente dito, de preferência “enxergando-o” em uso pela pessoa a quem ele se destina, seja essa pessoa você ou não.

2. Visualize sua imagem da Divindade, seja em forma humana ou simplesmente em forma de Luz, cheia de resplendor e generosidade.

3. Faça a adoração, seja nos moldes que você costuma fazer sempre, ou da maneira que está sentindo vontade naquele momento.

4. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga-o sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você se sentir emocionado no momento.

5. “Veja” aquilo que você deseja de maneira radiante pelo contato Divino, sendo oferecido a você pela Divindade. Ou, então, “ouça” e repita para você mesmo as palavras que estão lhe dizendo que o que você tanto deseja irá acontecer. Aceite o presente e dê graças por ele.

6. Faça com que tudo aquilo que você acaba de visualizar desapareça devagar e calmamente de sua consciência.

7. Durante o dia, e durante a noite também, caso você esteja acordado, recorde-se daquilo que ocorreu no item 5, mesmo que apenas por alguns instantes, e em seguida, agradeça novamente.

8. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada.

B. Se você vai fazer o pedido com a ajuda de um intermediário, de um santo protetor — independente de você visualizar ou não uma presença Divina — então proceda da seguinte maneira:

1. Idem ao item 1 do procedimento anterior.

2. Visualize o seu intermediário, o santo protetor ou Ser angelical com quem você já mantém um contato, ou que tem uma relação direta com o assunto que você irá tratar.

3. Reverencie sinceramente este Ser. Depois disso, peça-lhe que leve o seu pedido (que até esse momento você ainda não declarou em todos os detalhes) até a Divindade (a quem você irá indicar de acordo com o título que ela possua). Peça ao seu intermediário para interceder por você – ou para quem quer que você deseja ajudar – no sentido de obter para você – ou para a outra pessoa – o que está precisando. TENHA CERTEZA DE QUE AQUILO QUE VOCÊ ESTÁ PEDINDO SERÁ FEITO.

4. Visualize o seu intermediário se dirigindo até a Divindade para fazer o seu pedido. Pode imaginá-lo andando, voando, enfim, da maneira que você desejar, contanto que o imagine indo até a Divindade. Se você tenciona visualizar a Divindade, então preste atenção para “ver” o seu intermediário levando o seu pedido. Esta parte do procedimento é extremamente potente.

5. Se você pretende visualizar sua Divindade, então, faça-o agora. De qualquer maneira, focalize sua atenção na Divindade, saudando-a e adorando-a diretamente.

6. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você ficar emocionado. Lembre-se também de dizer que o seu santo protetor (nome) está pedindo isso por você também.

7. Desvie um pouco a atenção da presença Divina e “veja” o seu intermediário voltando para você, alegre e radiante, com o seu pedido concedido. “Veja” o objeto sendo oferecido a você, ou “ouça” as palavras que lhe dirão, que aquilo que você quer será realizado. Aceite a graça e dê graças por ela.

8. Faça com que todas as imagens que você acaba de visualizar desapareçam devagar de sua mente.

9. Durante o dia, ou durante a noite, caso você esteja acordado, lembre-se daquilo que aconteceu no item 7, mesmo que seja apenas por alguns instantes, e depois renda graças.

10. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada, e não se esqueça do seu santo protetor.

No Caminho da Devoção, deve-se tomar muito cuidado com uma coisa. Seja o que for que você esteja pedindo por meio da oração, faça-o apenas por esse meio. Evidentemente, se você estiver doente, deve tomar todas as providências normais – médico, remédios, etc. – além de rezar para o seu restabelecimento. Se você quer passar num exame, não basta rezar. Com certeza, você deve estudar muito para isso.

O que estamos querendo dizer aqui é que, se você está buscando algo especial por meio de um procedimento devocional, como o que acabamos de delinear, você não deveria tentar obter “um seguro espiritual” – fora do sistema – para garantir o que você deseja. Ou seja, se você está rezando para Nossa Senhora, tentando obter algo de vital importância para você, não faça esse mesmo pedido para uma estrela cadente, por exemplo.

Você poderá explicar essa necessidade de cuidados, dizendo, tal como diziam as pessoas do Antigo Testamento, que seu Deus tem “ciúme”. Ou, se o conceito de ciúme não se enquadra com sua ideia de Divindade, pode-se explicá-la de outra maneira, que parece indicar, também, a razão de se utilizar meios materiais para obter aquilo que você deseja, e não atrapalhá-lo.

A sua ligação espiritual com o Poder Divino que você invocou, a sua identificação mental com aquele Poder, juntamente com o seu fervor, sua devoção e não de necessidade (e coisas materiais comuns como remédios, dinheiro, etc.) são “neutros” e poderão ser facilmente utilizados pelo Poder Divino como parte do nível material daquele canal.
Entretanto, se você introduzir outros canais menores, particularmente do nível astral, em sua imagem visualizada, você poderá criar um vazamento no seu sistema, como por exemplo, fazendo um furo no canudinho que você bebe, ou pior ainda, provocando um furo no seu pneu. Nesse caso, você estaria voltando para a estaca zero.

Tente imaginar os vários aspectos da Divindade, a partir da descrição feita através dos tempos por parte dos devotos. Imagine as emoções e forma mental também vindas com o tempo e que formam a parte inferior do canal de força. Isso explica os santuários existentes em todas as partes do mundo e que permanecem, ao longo dos séculos, como centros de fé e de milagres.

Lembre-se sempre, por trás da sua visualização, da construção da sua imagem, estará sempre a realidade da Divindade para dar a ela sentido e validade; uma realidade muito maior que qualquer coisa terrena possa oferecer, uma força muito mais poderosa e repleta de amor que extrapola a nossa compreensão. Se pudermos aprender a pedir direito, com toda a confiança e tendo certeza de que aquilo que estamos querendo é exatamente o que estamos pedindo, então, não haverá limites para a abundância, para a fartura, tanto material como espiritual, com a qual seremos abençoados.

Fonte: Denning, Melita & Philips, Osborn (tradução: Anna Maria Dalle Luche). A Visualização Criativa. São Paulo: Siciliano 1989, p. 231-239.

Anúncios

Cethair hÁige Druídechta

quatro_pilares

Cethair hÁige Druídechta

Os Quatro Pilares do Druidismo

Bellou̯esus Īsarnos

I Enech (Honra): a reputação, o modo como se é percebido e valorado pela comunidade.

II Airmitiu (Respeito): o sentimento de maravilhamento, assombro e veneração pelos mundos espiritual e natural.

III Timthirecht (Ministração): realização dos serviços próprios do ofício, que vão dos ritos de adoração (adrad) aos deuses às ações comunitárias.

IV Forás (Crescimento): rejeição à complacência espiritual; esforço consciente para desvirar Coire Sois.

As Quinze Virtudes (Cuicc Súalaig Dec) que guiam os padrões éticos da tradição céltica derivam dos Quatro Pilares. Essas virtudes são:

1 Trócar (Misericórdia): a capacidade de ter simpatia e empatia com os outros.

2 Fíreoin (Justiça): a capacidade de discernir a verdade em uma situação para assim chegar à justiça.

3 Cosmail (Similitude): significa que a punição corresponda ao crime, não no sentido de “olho por olho”, mas no sentido de não punir com muita dureza ou não praticar um castigo cruel e incomum.

4 Cuibsech (Consciência): responsabilidade para consigo mesmo e com os outros.

5 Fossad (Estabilidade): literalmente, “ter um assento sob si mesmo”, a qualidade de não se deixar convencer facilmente ou ser indeciso.

6 Eslabra (Liberalidade): literalmente, “ter uma grande mão”, a ideia de que não se deve colocar limites à generosidade.

7 Gart (Hospitalidade): aceitação e abertura a outras pessoas, o respeito pela diversidade e pelos direitos dos outros.

8 Fíalainech (Distinção): literalmente, “ter um rosto nobre”, isto é, ser educado, cortês e mostrar um comportamento nobre.

9 Sessach (Força): a qualidade de alguém que mantém as suas posições e não é facilmente intimidado.

10 Lessach (Prestatividade): a qualidade de alguém que procura ativamente ajudar outras pessoas, em vez de esperar que elas perguntem.

11 Étir (Habilidade): a qualidade de alguém que é hábil em muitas áreas; uma pessoa que se esforça para ter excelência em tudo o que faz.

12 Iondraic (Confiabilidade): a qualidade de alguém de boa reputação, cuja palavra pode ser acreditada, alguém que está acima de reprovação.

13 Soithnge (Eloquência): virtude importante para a tradição bárdica, refere-se ao domínio da boa linguagem, habilidade na poesia, prosa e canto.

14 Forusta (Solidez): a qualidade de alguém que é calmo e contido em todos os momentos, não dominado por emoções ou mudanças bruscas de humor.

15 Fírbrethach (Imparcialidade): literalmente, “dar julgamento justo”, não permitindo que inclinações pessoais interfiram com a decisão sobre o certo e o errado.

Então você acha que os deuses não mudam?

deusesnaomudam

Então você acha que os deuses não mudam?

Bellou̯esus Īsarnos

Aos 19 anos eu tinha muitas certezas. Acreditava que qualquer descontrole era desprezível, que não sorrir e não chorar eram sinais de força interior. Que todas as coisas eram totalmente brancas ou unicamente pretas, sem nenhum matiz possível. Se Amy Winehouse tivesse morrido quando eu estava com 19 anos, sem dúvida nenhuma isto passaria pela minha cabeça: “Bêbada e viciada, esse fim foi o que ela buscou… e encontrou”.

Aos 19 anos eu acreditava em coisas imutáveis. O supra-sumo da imutabilidade, claro, eram os deuses. Impassíveis, inalteráveis, imunes a qualquer inquietação, desconhecedores de toda ansiedade ou preocupação, a existência dos deuses, pensava eu, era paralela à transitoriedade humana, paralela e sem possibilidade de convergência. Isso eu disse durante anos para mim mesmo e para quem mais quisesse ouvir.

Pois bem, descobri que as coisas não se passam desse modo. Os deuses não são imutáveis. Como cheguei a esse conhecimento? As duas senhoras que estão ali em cima deram-se ao trabalho de me informar. Sem grandes explicações, porém de forma a não deixar dúvidas quanto à essência da mensagem: os deuses não são imutáveis. Elas vieram num sonho do qual me lembro em detalhes, embora quase duas décadas tenham se passado desde então.

Nesse sonho, entrei em uma loja. Era um lugar altamente tecnológico e automatizado, com atendentes robôs em forma de pequenas esferas com braços. Havia uma multidão de fregueses ensandecidos, todos falando ao mesmo tempo – talvez fosse dia de liquidação – e era muito óbvio que os robozinhos não estavam conseguindo suprir a demanda. A confusão era uma coisa lamentável. Naquele momento, pensei algo como: “Que lástima, tanto tecnologia e os velhos problemas de sempre”.

Atravessei a loja até o fundo e encontrei ali, meio escondida entre prateleiras e mostradores, uma porta de madeira que abri. Era totalmente outro mundo o que essa passagem escondia. Em muitos sentidos, um mundo bem mais familiar.

Uma cidade meio arruinada, com ruas calçadas de pedra, colunas quebradas, deserta exceto pelas sombras do próprio passado. Andei durante algum tempo, reconheci dos livros a paisagem e, com a lógica própria dos sonhos, somente achei um pouco estranho que Pompeia, a cidade sepultada pelo Vesúvio no ano 79 E. C., estivesse no quintal de um shopping center.

Havia um banco de pedra junto a uma parede com um larário bem conservado e uma fonte. Pela posição do sol, já era o meio da tarde de um dia bastante quente. Sentei para descansar e pensei em procurar uma taberna. “Será que eles têm uma Coca bem gelada? Claro que sim. Isso tem em toda parte. Como se pede Coca-Cola em latim? Cocam habesne?” A lógica dos sonhos.

Enquanto devaneava sobre a possibilidade de encontrar o máximo símbolo do capitalismo em uma cidade romana de 2.000 anos, escutei o som de pessoas se aproximando. Vinham pela rua duas mulheres fazendo cooper. Uma delas, a mais velha, loira e robusta, com uma coroa de espigas de trigo na cabeça, uma camiseta branca com uma serpente estampada, calça de moleton e tênis. A outra, uma moça de cabelo escuro, bonita mas de rosto fino e pálido, a cabeça enfeitada com papoulas, uma romã aberta na camiseta preta e uma bermuda de lycra da mesma cor. Reconheci ambas intuitivamente: Deméter e Perséfone. Decepcionado com a situação e com o figurino (acho que mais com o figurino), virei o rosto para o lado e afetei não ter visto nada. Um jornal apareceu nas minhas mãos e fingi que estava lendo.

Quem já passou por um terremoto sabe o quanto é surpreendente a sensação do tremor. Estamos acostumados a ter a terra sob nossos pés, sempre quieta e estável. Quando a terra se mexe e se abre, é como se a ordem da natureza se rompesse da forma mais absurda. A voz das deusas era assim, como um terremoto. Um tremor desde a primeira sílaba, um cataclisma no meio da frase, a conflagração total dos elementos no ponto final. “Ge:s paî kaì ouránou aste:roentos” (“ó filho da terra e do céu estrelado”), ela chamou. No final da primeira palavra, eu já estava encolhido no chão com o jornal na cabeça. Tive a ousadia de olhar e vi que as duas fundiam-se em uma só, dando razão aos antigos que afirmavam serem Deméter e Perséfone a mesma divindade. Dizer como era esse rosto está além da minha capacidade.

“Então você acha que os deuses não mudam?”, ela me perguntou diretamente. Tomado de pavor e quase engolindo minha língua, eu não conseguia fazer nada além de tentar enterrar a cabeça no chão. “VOCÊ ACHA?”, ela insistiu. “Não, senhora”, eu disse, já imaginando qual seria meu lugar no Hades. Ela riu um riso de tsunami, uma risada de vento e onda, pegou a serpente da camiseta e lançou contra mim.

Apenas duas vezes em minha vida acordei gritando. Essa foi a primeira. Deméter/Perséfone não me deu nenhuma grande explicação teórica, nenhum arrazoado que possa ser colocado em palavras e transformado em tese. Ela me proporcionou uma epifania e deu a entender que os deuses mudam e por algum motivo é importante não pensar o contrário.

É um erro fazer afirmações categóricas sobre os deuses e pretender que se encaixem em nossas teorias. É um erro colocar a vida dentro de um modelo pré-concebido. Se a vida for maior do que o modelo, o que você vai fazer? Cortar partes dela para que o resto caiba na caixa?

Quando Amy Winehouse morreu, eu pensei: “Que pena. Era talentosa, mesmo com tantos problemas. Vai ficar pra outra vez.”