Cethair hÁige Druídechta

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Cethair hÁige Druídechta

Os Quatro Pilares do Druidismo

Bellou̯esus Īsarnos

I Enech (Honra): a reputação, o modo como se é percebido e valorado pela comunidade.

II Airmitiu (Respeito): o sentimento de maravilhamento, assombro e veneração pelos mundos espiritual e natural.

III Timthirecht (Ministração): realização dos serviços próprios do ofício, que vão dos ritos de adoração (adrad) aos deuses às ações comunitárias.

IV Forás (Crescimento): rejeição à complacência espiritual; esforço consciente para desvirar Coire Sois.

As Quinze Virtudes (Cuicc Súalaig Dec) que guiam os padrões éticos da tradição céltica derivam dos Quatro Pilares. Essas virtudes são:

1 Trócar (Misericórdia): a capacidade de ter simpatia e empatia com os outros.

2 Fíreoin (Justiça): a capacidade de discernir a verdade em uma situação para assim chegar à justiça.

3 Cosmail (Similitude): significa que a punição corresponda ao crime, não no sentido de “olho por olho”, mas no sentido de não punir com muita dureza ou não praticar um castigo cruel e incomum.

4 Cuibsech (Consciência): responsabilidade para consigo mesmo e com os outros.

5 Fossad (Estabilidade): literalmente, “ter um assento sob si mesmo”, a qualidade de não se deixar convencer facilmente ou ser indeciso.

6 Eslabra (Liberalidade): literalmente, “ter uma grande mão”, a ideia de que não se deve colocar limites à generosidade.

7 Gart (Hospitalidade): aceitação e abertura a outras pessoas, o respeito pela diversidade e pelos direitos dos outros.

8 Fíalainech (Distinção): literalmente, “ter um rosto nobre”, isto é, ser educado, cortês e mostrar um comportamento nobre.

9 Sessach (Força): a qualidade de alguém que mantém as suas posições e não é facilmente intimidado.

10 Lessach (Prestatividade): a qualidade de alguém que procura ativamente ajudar outras pessoas, em vez de esperar que elas perguntem.

11 Étir (Habilidade): a qualidade de alguém que é hábil em muitas áreas; uma pessoa que se esforça para ter excelência em tudo o que faz.

12 Iondraic (Confiabilidade): a qualidade de alguém de boa reputação, cuja palavra pode ser acreditada, alguém que está acima de reprovação.

13 Soithnge (Eloquência): virtude importante para a tradição bárdica, refere-se ao domínio da boa linguagem, habilidade na poesia, prosa e canto.

14 Forusta (Solidez): a qualidade de alguém que é calmo e contido em todos os momentos, não dominado por emoções ou mudanças bruscas de humor.

15 Fírbrethach (Imparcialidade): literalmente, “dar julgamento justo”, não permitindo que inclinações pessoais interfiram com a decisão sobre o certo e o errado.

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Então você acha que os deuses não mudam?

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Então você acha que os deuses não mudam?

Bellou̯esus Īsarnos

Aos 19 anos eu tinha muitas certezas. Acreditava que qualquer descontrole era desprezível, que não sorrir e não chorar eram sinais de força interior. Que todas as coisas eram totalmente brancas ou unicamente pretas, sem nenhum matiz possível. Se Amy Winehouse tivesse morrido quando eu estava com 19 anos, sem dúvida nenhuma isto passaria pela minha cabeça: “Bêbada e viciada, esse fim foi o que ela buscou… e encontrou”.

Aos 19 anos eu acreditava em coisas imutáveis. O supra-sumo da imutabilidade, claro, eram os deuses. Impassíveis, inalteráveis, imunes a qualquer inquietação, desconhecedores de toda ansiedade ou preocupação, a existência dos deuses, pensava eu, era paralela à transitoriedade humana, paralela e sem possibilidade de convergência. Isso eu disse durante anos para mim mesmo e para quem mais quisesse ouvir.

Pois bem, descobri que as coisas não se passam desse modo. Os deuses não são imutáveis. Como cheguei a esse conhecimento? As duas senhoras que estão ali em cima deram-se ao trabalho de me informar. Sem grandes explicações, porém de forma a não deixar dúvidas quanto à essência da mensagem: os deuses não são imutáveis. Elas vieram num sonho do qual me lembro em detalhes, embora quase duas décadas tenham se passado desde então.

Nesse sonho, entrei em uma loja. Era um lugar altamente tecnológico e automatizado, com atendentes robôs em forma de pequenas esferas com braços. Havia uma multidão de fregueses ensandecidos, todos falando ao mesmo tempo – talvez fosse dia de liquidação – e era muito óbvio que os robozinhos não estavam conseguindo suprir a demanda. A confusão era uma coisa lamentável. Naquele momento, pensei algo como: “Que lástima, tanto tecnologia e os velhos problemas de sempre”.

Atravessei a loja até o fundo e encontrei ali, meio escondida entre prateleiras e mostradores, uma porta de madeira que abri. Era totalmente outro mundo o que essa passagem escondia. Em muitos sentidos, um mundo bem mais familiar.

Uma cidade meio arruinada, com ruas calçadas de pedra, colunas quebradas, deserta exceto pelas sombras do próprio passado. Andei durante algum tempo, reconheci dos livros a paisagem e, com a lógica própria dos sonhos, somente achei um pouco estranho que Pompeia, a cidade sepultada pelo Vesúvio no ano 79 E. C., estivesse no quintal de um shopping center.

Havia um banco de pedra junto a uma parede com um larário bem conservado e uma fonte. Pela posição do sol, já era o meio da tarde de um dia bastante quente. Sentei para descansar e pensei em procurar uma taberna. “Será que eles têm uma Coca bem gelada? Claro que sim. Isso tem em toda parte. Como se pede Coca-Cola em latim? Cocam habesne?” A lógica dos sonhos.

Enquanto devaneava sobre a possibilidade de encontrar o máximo símbolo do capitalismo em uma cidade romana de 2.000 anos, escutei o som de pessoas se aproximando. Vinham pela rua duas mulheres fazendo cooper. Uma delas, a mais velha, loira e robusta, com uma coroa de espigas de trigo na cabeça, uma camiseta branca com uma serpente estampada, calça de moleton e tênis. A outra, uma moça de cabelo escuro, bonita mas de rosto fino e pálido, a cabeça enfeitada com papoulas, uma romã aberta na camiseta preta e uma bermuda de lycra da mesma cor. Reconheci ambas intuitivamente: Deméter e Perséfone. Decepcionado com a situação e com o figurino (acho que mais com o figurino), virei o rosto para o lado e afetei não ter visto nada. Um jornal apareceu nas minhas mãos e fingi que estava lendo.

Quem já passou por um terremoto sabe o quanto é surpreendente a sensação do tremor. Estamos acostumados a ter a terra sob nossos pés, sempre quieta e estável. Quando a terra se mexe e se abre, é como se a ordem da natureza se rompesse da forma mais absurda. A voz das deusas era assim, como um terremoto. Um tremor desde a primeira sílaba, um cataclisma no meio da frase, a conflagração total dos elementos no ponto final. “Ge:s paî kaì ouránou aste:roentos” (“ó filho da terra e do céu estrelado”), ela chamou. No final da primeira palavra, eu já estava encolhido no chão com o jornal na cabeça. Tive a ousadia de olhar e vi que as duas fundiam-se em uma só, dando razão aos antigos que afirmavam serem Deméter e Perséfone a mesma divindade. Dizer como era esse rosto está além da minha capacidade.

“Então você acha que os deuses não mudam?”, ela me perguntou diretamente. Tomado de pavor e quase engolindo minha língua, eu não conseguia fazer nada além de tentar enterrar a cabeça no chão. “VOCÊ ACHA?”, ela insistiu. “Não, senhora”, eu disse, já imaginando qual seria meu lugar no Hades. Ela riu um riso de tsunami, uma risada de vento e onda, pegou a serpente da camiseta e lançou contra mim.

Apenas duas vezes em minha vida acordei gritando. Essa foi a primeira. Deméter/Perséfone não me deu nenhuma grande explicação teórica, nenhum arrazoado que possa ser colocado em palavras e transformado em tese. Ela me proporcionou uma epifania e deu a entender que os deuses mudam e por algum motivo é importante não pensar o contrário.

É um erro fazer afirmações categóricas sobre os deuses e pretender que se encaixem em nossas teorias. É um erro colocar a vida dentro de um modelo pré-concebido. Se a vida for maior do que o modelo, o que você vai fazer? Cortar partes dela para que o resto caiba na caixa?

Quando Amy Winehouse morreu, eu pensei: “Que pena. Era talentosa, mesmo com tantos problemas. Vai ficar pra outra vez.”