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Ancient Celts

Ancient Celts from Hallstatt (7th c. BC) up to the Lords of the Isles (14th c. AD). All pictures: Newark, Tim & McBride, Angus. Ancient Celts.

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Toṷtoṷerki̭ā Belenī (A Liturgia de Belenos)

belenos

1 Rak U̯edi̯ān Runā
Runa antes da Prece
2 Lītus Pempegeni̯ī
Ritual do Pentagrama
3 Tou̯tou̯erki̯ā Belenī
A Liturgia de Belenos
3.1 Nigon (limpeza)
3.2 U̯edi̯ā (oração)
3.3 Adbertā (sacrifício)
3.4 Lindon (libação)
3.2.a Ops Nemesos: Komarkon Sāu̯elē
O Olho do Céu: Saudação ao Sol
4 Repita 2 (Lītus Pempegeni̯ī)

1 Rak U̯edi̯ān Runā

A runā (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Lamās mon ou̯χsgabi̯ū Sukellī me delu̯āđđetso u̯o rodarkū,
Lugou̯s me rii̯os u̯reχteso u̯o rodarkū,
Maponī me glanos u̯reχteso u̯o rodarkū,
In karantī lubīk.
Snūs lānobitun in trou̯gī anson rodāte:
Eponās đerkan,
Brigindonos karanti̯an,
Kirki̯ī u̯iđđun,
Nantosu̯eltās raton,
Nemetonās obnun,
Nodentos su̯anton
Ad in Bitū Trii̯on u̯reχtun
Dēu̯oi̯ Senisteroi̯ samalī in Albi̯ē u̯regont.
In skatū lou̯ketūk papū, papū in dii̯ū noχtik
Snūs māronerton aneχtlon su̯eson rodāte.

Runā antes da Oração

Ergo minhas mãos sob o olhar do Dagda que me formou,
Sob o olhar de Lugh que me fez livre,
Sob o olhar de Bile que me fez puro, em amizade e alegria.
Dai-me prosperidade em minha necessidade:
O amor de Macha,
A amizade de Brigit,
A sabedoria de Ogma,
A bênção da Morrígu.
O temor de Tuireann,
A vontade de Manannán mac Lir,
Para que no Mundo do Três eu faça como os Deuses e os Ancestrais fazem em Mag Mell.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite, dai-me vosso poder e proteção.

2 Lītus Pempegeni̯ī

Eχsregontū, eχsregontū! Adgabi̯ontū, adgabi̯ontū!
Eχstīgari̯ū, ā kalge/ā tute! Biu̯otūđ to mī, i̯akkā to mī, sutanī bii̯ont molatou̯es su̯esron in mon kantlū. Catubodu̯a Agrorīganī, Seχtansu̯ēsores, ā Noχs, Maguni Prituniχtomagesos, ā Nemos aχ Talamu!

Tigernos Kagnēs are mī,
Tigernos Suu̯iđđou̯s ēron mī,
Tigernos Andedubnī deχsiu̯ē mon,
Tigernos Aratrī tou̯tē mon,
Tigernos Nemesos uχsi mī,
Talamū Dēu̯i̯ā u̯o mī,
Tigernos Dubron Dubnon tri mī,
Uχsmonios Māros Nemesos,
Ṷotāi̯os Māros Talamonos.
Eχstīgariū, ā kalge/ā tute! Biu̯otūđ to mī, i̯akkā to mī, sutanī bii̯ont molatou̯es su̯esron in mon
kantlū.

Ritual do Pentagrama

[Caminha em círculo na direção dos ponteiros do relógio. Agita tuas mãos como se estivesses espantando pássaros.] Saí, saí! Para fora, para
fora!

Também podes usar uma adaga. Repete as frases anteriores até sentires que o espaço está limpo, porém não mais de 7 vezes. Se usaste uma adaga, coloca-a em sua bainha ou no chão, fora do caminho.

[Com os dedos de tua mão dominante juntos, tocando tua testa entre os olhos, dize:] Eu te invoco [a força vital, nēbos, ergue-se do teu coração; desce tua mão à área genital:], ó pênis/ó vulva [de acordo com o teu gênero; o nēbos desce internamente da tua testa através da coluna vertebral e alcança a área genital]! [Toca teu ombro direito:] Vida para mim [o nēbos ergue-se dos genitais de volta ao teu coração e de lá para o teu ombro direito], [toca teu ombro esquerdo:] saúde para mim [o nēbos vruza para o teu ombro esquerdo], [entrelaçando tuas mãos na altura do coração, dize:]. Que vossos louvores estejam sempre em meu cantar [imagina um globo de luz radiante com centro no teu coração e preenchendo todo o teu corpo, iluminando o espaço onde estás]. [Avança para o leste ou fica em pé onde estás e imagina um pentagrama em tua testa. Desenha-o ou lança-o para os limites  do teu círculo, dizendo:] Ó Badb Catha, Rainha da Batalha [o nēbos flui da tua mão e forma uma estrela diante de ti; ela permanece ali], [volta-te para o norte, em sentido anti-horário, e dize:], ó Sete Irmãs [as Plêiades; visualiza a estrela e sente-a como antes], [volta-te para o oeste e dize:], ó Noite [visualiza da mesma forma que antes], [de frente para o sul dize:], Virgem do Campo de Trigo [visualiza da mesma forma que antes], [outra vez de frente para o leste, ergue o braço acima de sua cabeça e desenha o pentagrama ou lança-o para o alto, dizendo:], ó Céu [visualiza a estrela num ponto com o dobro de tua altura acima de ti] [olha para baixo de desenha o pentagrama na terra ou lança-o ao chão, dizendo] e Terra [imagina o pentagrama abaixo de ti numa profundidade com o dobro da tua altura]!

Em pé, com teus braços abertos em forma de cruz, dize:

O Senhor da Lei diante de mim,
O Senhor do Conhecimento atrás de mim,
O Senhor das Profundezas à minha direita,
O Senhor do Arado à minha esquerda,
O Senhor do Céu acima de mim,
A Terra Divina sob mim,
O Senhor das Águas Profundas através de mim,
O Grande Pilar do Céu,
O Grande Alicerce da Terra.
Cercado pelas estrelas, agora brilhas com uma luz ponderosa. Linhas de luz
provenientes das estrelas convergem em teu coração.

Repete a primeira parte:

Eu te invoco, ó pênis/ó vulva! Vida para mim, saúde para mim, que vossos louvores
estejam sempre em meu cantar.

3 Tou̯ tou̯erki̯ā Belenī (A Liturgia de Belenos)

A prece formal (kou̯ariu̯edi̯ā) é ritualizada e consiste em quatro partes básicas (peturā u̯ridodarnā):

3.1 limpeza (nigon)
3.2 oração (u̯edi̯ā)
3.3 sacrifício (adbertā)
3.4 libação (lindon)

3.1 Nigon

Nigi tou̯ du̯ī lāmai̯ ak ei̯ās ardu̯osagi̯etari̯o.

3.2 Ṷedi̯ā

Argisame entar Dēu̯ūs, Rīχs andeu̯oretī, Ṷātis ak Slanī, ad me u̯erte tou̯ ope. Lārogenos immi, birroi̯ senti in bitū mon nerton lati̯āk, eχtos tou̯ treχsi̯ā eχsanamis dīu̯erbii̯et pāpan mēblan. Ā Belene noi̯bisame, tigerne u̯erbou̯dīke, kleu̯e mon u̯epūs etik erna moi̯ tou̯ raton.

3.2.a Ops Nemesos: Komarkon Sāu̯elē

Ops Dēu̯ī mārī,
Ops Dēu̯ī Klutās,
Ops Rīgos Budīnās,
Ops Rīgos Biu̯on,
Ṷer snīs eχsemau̯nos
Papā u̯aχti̯ā aχ tratun.
Ṷer snīs eχsemau̯nos
Koi̯mū bou̯dilānūk.
Klutā tī su̯esin,
Ā Sāu̯elis klute.
Klutā tī su̯esin, ā Sāu̯elis,
Enepon Dēu̯ī Biu̯otūtos.

3.3 Adbertā

Ā Belene Agesilobere, sin aretoi̯berū are tou̯ aneχtlon. Kardatosagi̯ūmī toi̯ raton lau̯eniās ollās u̯er mon mapūs, kīlii̯an, karantas etik mon tou̯tan. Ak su̯emoi̯, eđđi maru̯on dī me konsamalī mon biu̯otūtan.

3.4 Lindon

Belene Areopsī,
Belene Argantogai̯se,
Belene Branī,
Belene Dēu̯okai̯le,
Belene Drukou̯erte.
Belene Atīr, toi̯ molātus bii̯etū (lindon seme dubrī).
Belene I̯akkitobere,
Belene I̯eđđine,
Belene Tonketouede,
Belene Tou̯iđđāke,
Belene Ṷorete.
Belene Atīr, toi̯ molātus bii̯etū (lindon seme melēs).

3.1 Limpeza

Lava tuas mãos e ergue-as.

3.2 Oração

Ó brilhantíssimo entre os Deuses, Rei que concede grande ajuda, Profeta e Curador, volta para mim os teus olhos. Sou um filho da terra, curtos são meu poder e dias no mundo, mas tua força sem falhas sobrepuja todo mal. Santíssimo Belenos, senhor muito vitorioso, ouve minhas palavras e dá-me tua benção.

3.2.a O Olho do Céu: Saudação ao Sol

O olho do grande Deus,
O olho do Deus da glória,
O olho do Rei dos exércitos,
O olho do Rei dos Vivos.
Vertendo sobre nós
A todo momento e estação.
Vertendo sobre nós
gentil e generosamente.
Glória a ti,
Tu, Sol glorioso,
Glória a ti mesmo, ó Sol,
Face do Deus da Vida.

3.3 Sacrifício
Ó Belenos, Portador de Saúde, ofereço-te isto por causa de tua proteção. Imploro-te que concedas toda felicidade a meus filhos, esposa, amigos e ao meu povo. E para mim mesmo, que eu morra do modo como tenho vivido.

3.4 Libação

Belenos previdente,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de água).

Belenos portador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos guia do destino,
Belenos líder,
Belenos auxiliador.
Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de mel).

4 Repete 2 (Lītus Pempegeni̯ī).

Belloṷesus /|\

Toṷtoṷerki̭ā Belenī (The Lithurgy of Belenos)

belenosToṷtoṷerki̭ā Belenī

The Lithurgy of Belenos

Formal prayer (koṷariṷedi̭ā) is ritualized and consists of four basic parts (peturā ṷridodarnā):

1 cleansing (nigon)
2 prayer (ṷedi̭ā)
3 sacrifice (adbertā)
4 libation (lindon)

1 Nigon

Nigi toṷ dṷī lāmai̭ ak ei̭ās ardṷosagi̭etari̭o.

Cleansing

Wash your [two] hands and raise them.

2 Ṷedi̭ā

Argisame  entar  Dēṷūs,  Rīχs  andeṷoretī,  Ṷātis ak Slanī,  ad me ṷerte toṷ ope.  Lārogenos immi, birroi̭ senti in bitū mon nerton lati̭āk, eχtos toṷ treχsi̭ā eχsanamis dīṷerbii̭et pāpan mēblan. Ā Belene noi̭bisame,  tigerne  ṷerboṷdīke, kleṷe  mon ṷepūs etik erna moi̭ toṷ raton.

Prayer

O most bright among the Gods, greatly helping King, Prophet and Healer, turn your eyes to me. I’m a child of  earth,  short  are my power and days in the world, but your might without fault overcomes every evil. Holyest Belenos, very victorious lord, listen to my words and grant me your blessing.

3 Adbertā

Ā Belene Agesilobere, sin aretoi̭berū are toṷ aneχtlon. Kardatosagi̭ūmī toi̭ raton laṷeniās ollās ṷer  mon mapūs, kilii̭an, karantas etik mon toṷtan. Ak sṷemoi̭, eđđi marṷon dī me konsamalī mon biṷotūtan.

Sacrifice

O Belenos Bringer of Wealth, I offer you this because of your protection. I implore you to bestow all happiness on my children, wife, friends and my people. And to myself, that I die as I have lived.

4 Lindon

Belene Areopsī,
Belene Argantogai̭se,
Belene Branī,
Belene Dēṷokai̭le,
Belene Drukoṷerte.

Belene Atīr, toi̭ molātus bii̭etū (lindon seme dubrī).

Belene I̭akkitobere,
Belene I̭eđđine,
Belene Tonketouede,
Belene Toṷiđđāke,
Belene Ṷorete.

Belene Atīr, toi̭ molātus bii̭etū (lindon seme melēs).

Libation

Foreseeing Belenos,
Belenos of the silver spear,
Belenos of the ravens,
Belenos of the divine omens,
Belenos averter of evil.

Father Belenos, may you be praised (pour out a libation of water).

Belenos bringer of health,
Bright Belenos,
Belenos guide of fate,
Belenos leader,
Belenos helper.

Father Belenos, may you be praised (pour out a libation of honey).

Belloṷesus /|\

A Religião Céltica

Palestra apresentada no 5o. Encontro Brasileiro de Druidismo e Reconstrucionismo Celta – EBDRC – Recife/PE, 18, 19 e 20/04/2014 e material relacionado

Nemeton (santuário) gaulês de Gournay-sur-Aronde

Árvores cerimoniais e maquete do oppidum céltico de Manching (Baviera, Alemanha)

Héraclès en Gaule, Hercule gaulois (“Hércules na Gália, Hércules gaulês”; em francês)

Leituras complementares:

Estrabão, Geografia, L. IV, Cap. 4, §4

Sobre Celtas e Druidas

Sacrifício Humano

Druida e drui

Dis Pater

Quem criou a expressão interpretatio romana?

Inscrição de Chamalières

A Origem da Jurisdição dos Druidas

imagesapresentado no III EBDRC
(Novo Hamburgo – RS, 15 a 17/11/2012)

1 Origem das instituições político-judiciárias

1.1 Homero (sec. VIII/VII a. C.):

a) Ciclopes;
b) ausência de leis ou de assembleias deliberativas (Odisseia, Canto IX, v. 105-112).
c) adotada por Platão (424/423 – 348/347 a. C.; Leis, III, 112-113).

1.2 Titus Lucretius Carus (ca. 99-55 a. C.):

a) barbárie ainda maior.
b) a família somente teve origem com a arte de construir habitações: o casamento surgiu depois da marcenaria; o acaso aproximou as cabanas e a linguagem e as primeiras noções de direito provêm das relações entre seus habitantes (De Natura Rerum, I).

1.3 Aristóteles (384 – 322 a. C.):

a) a ideia de “homem” é inseparável da noção de sociedade política;
b) a noção de cidade é um dos elementos indispensáveis para constituir a noção completa da natureza humana;
c) a cidade ou estado existe naturalmente. A natureza quer que o homem viva na sociedade política, cujo vínculo é a palavra;
d) a sociedade política ou cidade precedeu a casa ou a família e o indivíduo. O todo necessariamente precede a parte; a mão e o pé não podem sobreviver ao homem (Política, I, 1, §§ 9-12).

2 Objeto deste estudo

As culturas célticas (especialmente as da Idade do Ferro tardia) analisadas:

a) por meio das línguas célticas;
b) por meio de testemunhos a seu respeito produzidos em língua céltica (referências endógenas) ou em outras línguas (referências exógenas).

3 Origem da Jurisdição dos Druidas

3.1 Desde sua entrada na história, os celtas estavam constituídos em sociedades com magistrados e assembleias políticas.
3.1. Analogia com a tese de Aristóteles.
3.2 Origem dos tribunais e das leis: “A justiça pertence ao domínio do político, pois o julgamento é o resultado de uma instituição da sociedade política […] o julgamento consiste no discernimento da justiça” (Política, I, 1, §12).
3.3 Em caso de urgência, o magistrado tribal supremo (uergobretos, rix) substituiria a assembleia ausente. Exs.: Celtillos,Cauarinos.
3.3.1 Na reunião da assembleia nacional, ao magistrado supremo cabia pronunciar a sentença. Ex.: Indutiomaros.
3.3.2 Um general podia julgar o soldado sob suas ordens ou enviá-lo à assembleia dos cidadãos. Exs.: Dumnorix.
3.3.3 Papel dos magistrados no julgamento: acusadores e presidentes. Em casos excepcionais, poderiam pronunciar e executar até uma sentença de morte. Ex.: Vercingetorix.
3.3.4 Condenação por crimes políticos ou contra a segurança do estado: morte no fogo.

4 Na Grécia

4.1 Os tribunais que julgavam crimes entre particulares surgiram no séc. IV a. C. Persistiram lembranças da época anterior em que:

a) somente os crimes políticos submetiam-se à jurisdição pública;
b) as famílias que tinham crimes a vingar somente podiam recorrer às armas.

Ref.: Isócrates, Panegírico, §40.

4.2 Permissão de fuga para o acusado: a lei protegia-o até atingir a fronteira. Além desse limite, a família do morto podia
persegui-lo e matá-lo, se tivesse meios ou assim julgasse conveniente.
4.3 Τά ὑποφόνια (tá hypophónia, “a voz suave”): na lei de Atenas, era o sistema de composição decorrente de homicídio, conhecido também entre os germânicos. Em caso de homicídio culposo, abriam-se duas possibilidades:

a) após a condenação, o acusado aceita a composição e a ação se extingue ou…
b) após a condenação, a família do morto rejeita qualquer indenização e o juiz determina o exílio do condenado. Nesse caso, a família do morto não tem mais direito à vingança privada.

4.3.1 Sobre esse instituto, pode-se observar:

a) remonta à época homérica (mencionada na Ilíada, Canto XVIII, v. 497-508, descrição do escudo de Aquiles).
b) a composição extinguia o direito à vingança.
c) se a família do morto não queria fazer acordo, ou se era mais poderosa que a do acusado, o único meio de escapar à vingança era a fuga, v. Odisseia, Canto XV, v. 271-277.

5 Na Roma Antiga

5.1 Período arcaico: no direito anterior a Numa Pompilius, segundo rei de Roma (regnauit 715-673 a. C.), há sinais de que a aceitação do homicídio como crime público era admitida por alguns e rejeitada por outros. Ref.: Plutarchus, Vitae Parallelae (“Vidas Paralelas”), Romulus, XXX, XXXI, trad. francesa D. Richard, 1830.
5.1.1 Lei atribuída ao rei Numa (Festus, séc. II d. C., De Verborum Significatione) considerava parricida aquele que intencionalmente tirasse a vida de um homem livre. Outra disposição legislativa, também atribuída a Numa, fixava em um carneiro a indenização devida aos agnatos do morto em caso de homicídio involuntário.
5.1.2 Na “Lei das Doze Tábuas” (Lex Duodecim Tabularum, séc. V a. C.): lesões corporais não ensejavam ação pública, mas davam direito de indenização à vítima. A própria lei fixava a base pecuniária do acordo.
5.1.3 Resto de guerra privada: se o culpado não quisesse ou não pudesse pagar a indenização, o parente mais próximo da vítima tinha o direito de infligir-lhe o mesmo ferimento, não tendo o culpado direito de oferecer nenhuma resistência.
5.2 Ponto em comum com a lei céltica e a germânica: evitava-se a guerra privada pelo pagamento de uma composição proporcional à dignidade do ofendido.

6 Direito germânico

6.1 Lei sálica (lei dos francos sálios, Pactus Legis Salicae, “Pacto da Lei Sálica”, escrita em latim no séc. VI d. C.): apresentava ao menos uma característica mais avançada que o direito romano.
6.1.1 Quando o agressor e a vítima (ou os familiares desta) chegavam a um acordo quanto ao valor da compensação, dois terços (faida) desse valor cabiam ao ofendido, um terço (fredum) era entregue ao magistrado como representante da autoridade real, pois considerava-se que o estado, assim como a vítima, também havia sofrido um dano, fazendo jus à indenização.
6.1.2 Existia a mesma regra na lei de Gales.
6.1.2 Na Irlanda medieval, assim como na Roma antiga, o valor da composição pertencia totalmente à vítima, pois o estado não se considerava atingido pela infração cometida.

7 De volta a Roma

7.1 Actiones in rem (“ações sobre a coisa”): tinham por objeto não uma dívida, mas a propriedade de bem móvel ou imóvel. Conservavam uma lembrança do direito antigo, do período em que vigorava a autotutela.
7.2 Procedimento da rei adprehensio:

a) combate fictício;
b) intervenção de um magistrado;
c) julgamento.
d) a guerra privada entre os oponentes, que ocorria de fato no período anterior à organização do estado, ficou cristalizada como uma formalidade do procedimento legal.

7.3 Semelhança com o Senchus Mór.

8 Na Céltica

8.1 Recorria-se às armas:

a) para solucionar ações pessoais (sobretudo as decorrentes de homicídio);
b) para solucionar ações reais mobiliárias (p. ex., envolvendo escravos, rebanhos);
c) para solucionar ações reais imobiliárias (p. ex., determinar as fronteiras de um território ou os limites de um campo).

8.2 Os druidas intervinham como árbitros para pacificar questões de que o estado tribal não se ocupava, assim evitando um conflito entre particulares que poderia transformar-se em guerra civil e deixar a tribo exposta ao ataque externo. Assim, a origem da jurisdição dos druidas foi a omissão do estado tribal em solucionar conflitos entre os indivíduos, evitando que o mais forte sempre impusesse seu interesse.
8.3 Evitar o conflito entre indivíduos: semelhança com a narrativa do Senchus Mór e com o direito romano.
8.4 Diferença em relação ao magistrado romano: a autoridade do druida é desprovida de sanção, pois a corporação druídica não integrava as instituições políticas da tribo.
8.5 Semelhança com os fili irlandeses: quando as decisões destes não eram acatadas, somente poderiam declarar o recalcitrante como eluthach (“fugitivo da lei”) e a partir de então este ficaria impossibilitado de ajuizar qualquer ação diante deles, perdendo assim toda proteção legal.

Bellouesus /|\

Sobre Celtas e Druidas

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Sópatro (fim do séc. IV a. C.) (via Ateneu, 4.160):

Entre eles há o costume de, sempre que vitoriosos em batalha, sacrificar seus prisioneiros aos deuses. Assim, eu,
como os celtas, prometi aos divinos poderes queimar esses três falsos dialéticos como oferenda.

Timeu (começo do séc. III a. C.) (via Diodoro Sículo, 4.56):

Os historiadores apontam que os celtas que vivem às margens do Oceano honram os Dióscuros acima dos outros
deuses. Pois há uma antiga tradição entre eles de que esses deuses vieram do Oceano até eles.

Eudoxo de Rodes (fim do séc. III a. C.) (via Heliano, “Sobre os Animais”, 17.19):

Eudoxo diz que os celtas fazem o seguinte (e, se alguém pensar que seu relato é crível, deixai-o acreditar; se não,
deixai-o ignorá-lo). Quando nuvens de gafanhotos invadem seu país e danificam as colheitas, os celtas evocam
certas orações e oferecem sacrifícios com feitiços a pássaros – e os pássaros ouvem essas orações, chegam em bandos
e destroem os gafanhotos. Se, entretanto, um deles capturar um desses pássaros, sua punição, de acordo com ass leis
do país, é a morte. Se ele for perdoado e libertado, isso enfurece os pássaros e, para vingar a ave capturada, eles não
respondem se forem chamados outra vez.

Artemidoro de Éfeso (fim do séc. II a. C.) (via Estrabão, 4.4.6):

O seguinte relato, que Artemidoro contou sobre os corvos, é inacreditável. Há um certo porto na costa que, de
acordo com ele, chama-se “Dois Corvos”. Nesse porto, são vistos dois corvos, com suas asas direitas um pouco
brancas. Homens que estão em disputa sobre certas questões vão até lá, colocam uma prancha num lugar elevado e
então cada homem, separadamente, atira bolos de cevada. As aves voam e comem alguns dos bolos, mas espalham
outros. O homem cujos bolos foram espalhados vence a disputa. Embora essa história seja implausível, sua narração
sobre as deusas Deméter e Corê é mais crível. Ele diz que há uma ilha perto da Britânia onde sacrifícios são
realizados como aqueles na Samotrácia, para Deméter e Corê.

Tito Lívio (séc. I a. C.) (23.24):

(216 a. C.) Postúmio morreu lutando com todas as suas forças para não ser capturado vivo. Os gauleses
despojaram-no de todos os seus espólios e os boios levaram sua cabeça decepada em procissão ao mais sagrado de
seus templos. Lá ela foi limpa e o crânio nu foi adornado com ouro, de acordo com o costume deles. Foi usado
desde então como um vaso sagrado em ocasiões especiais e como uma taça ritual por seus sacerdotes e oficiais do
templo.

Nicandro de Cólofon (séc. II a. C.) (via Tertuliano, “Sobre a Alma”, 57.10):

Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones recebem
oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem.
Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma
Nicandro.

Posidônio (séc. I a. C.) (via Diodoro Sículo, 5.28):

O ensinamento de Pitágoras prevalece entre os gauleses, de que as almas dos humanos são imortais e de que, após
um certo número de anos, eles viverão outra vez, com a alma passando a um outro corpo. Por causa dessa crença,
algumas pessoas nos funerais irão lançar cartas na pira fúnebre, de forma que os que morreram possam lê-las.

(via Diodoro Sículo, 5.31):

Os gauleses têm certos homens sábios e especialistas sobre os deuses chamados Druidas, bem como uma classe de
videntes altamente respeitados. Por meio de augúrios e sacrifícios de animais esses videntes predizem o futuro e
ninguém ousa escarnecer deles. Eles têm um método de adivinhação especialmente estranho e inacreditável para as
questões mais importantes. Tendo consagrado uma vítima humana, eles a golpeiam com uma faquinha na região
acima do diafragma. Quando o homem desfalece por causa do ferimento, eles interpretam o futuro pela observação
da natureza de sua queda, da convulsão de seus membros e, especialmente, do padrão do seu esguicho de sangue.
Nesse tipo de adivinhação, os videntes depositam grande confiança numa antiga tradição de observação.

É costume entre os gauleses jamais realizar um sacrifício sem que alguém perito nos caminhos divinos esteja
presente. Dizem que os que sabem a respeito da natureza dos deuses devem oferecer-lhes agradecimentos e fazer-
lhes pedidos, como se essas pessoas falassem a mesma língua dos deuses. Os gauleses, amigos e inimigos do mesmo
modo, obedecem a lei dos sacerdotes e bardos não somente em tempo de paz, mas também durante as guerras.
Frequentemente ocorre que, ao se aproximarem dois exércitos com espadas desembainhadas e lanças prontas, os
druidas andem entre os dois lados e parem a luta, como se tivessem lançado um encantamento sobre bestas
selvagens. Assim, mesmo entre os bárbaros mais selvagens, a fúria cede à sabedoria e o deus da guerra respeita as
Musas.

(via Diodoro Sículo, 5.32):

É de acordo com sua brutalidade e natureza selvagem que eles realizam práticas religiosas particularmente
ofensivas. Eles manterão alguns criminosos sob guarda por cinco anos, empalando-os então numa estaca em honra
de seus deuses, seguindo-se a incineração deles numa enorme pira, juntamente com muitas outras primícias.
Também usam prisioneiros de guerra como sacrifícios aos deuses. Alguns dos gauleses sacrificarão até mesmo os
animais capturados na guerra, seja matando-os, queimando-os ou abatendo-os com algum outro tipo de tortura.

(via Estrabão, 4.4.4-5):

Falando de modo geral, há entre os gauleses três grupos que são singularmente honrados: os Bardos, os Vates e os
Druidas. Os Bardos são cantores e poetas, enquanto os Vates supervisionam o ritos e examinam os fenômenos
naturais. Os Druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade também. Os
gauleses consideram os Druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das
disputas públicas e privadas. No passado, eles até mesmo paravam batalhas que estavam a ponto de começar e
punham fim às guerras. Casos de homicídio especialmente são entregues aos Druidas para julgamento. Eles
acreditam que, quando houver muitos criminosos condenados disponíveis para o sacrifício, então a terra irá
prosperar. Os Druidas e outros dizem que a alma humana e o universo são ambos indestrutíveis, mas, no fim,
apenas o fogo e a água prevalecerão.

(via Estrabão, 4.4.6):

Posidônio também diz que há uma pequena ilha no Oceano Atlântico, na foz do rio Loire, habitada por mulheres
da tribo dos Samnitae. Elas são possuídas por Dioniso e apaziguam esse deus por meio de cerimônias misteriosas e
outros tipos de rituais sagrados. Jamais homem algum vai a essa ilha, mas as mulheres velejam para o continente
para ter sexo com os homens, voltando então. A cada ano, as mulheres demolem o teto de um templo e
constroem-no outra vez antes do anoitecer, cada mulher levando uma carga para acrescentar ao telhado. Quem
quer que derrube sua carga é despedaçada pelas outras. Elas então carregam seus pedaços ao redor do templo
proferindo gritos de bacanal até que seu frenesi louco desapareça. E sempre acontece que aquela que está destinada
a sofrer esse destino seja derrubada por alguém.

Júlio César (séc. I a. C) (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, 6.13-14, 16-19):

Através de toda a Gália, há duas classes de pessoas que são tratadas com dignidade e honra. Isso não inclui as
pessoas comuns, que são pouco melhores do que escravos e nunca têm voz nos conselhos. Muitos desses alinham-se
voluntariamente com um patrono, seja por causa de um débito ou um pesado tributo ou por medo de um castigo de
alguma outra pessoa poderosa. Uma vez que tenham feito isso, terão abandonado todos os direitos e são pouco
mehores do que servos. As duas poderosas classe mencionadas acima são os Druidas e os guerreiros. Os Druidas
ocupam-se de questões religiosas, sacrifícios públicos e privados e divinação.

Uma grande quantidade de rapazes vem aos Druidas para instrução, tendo-os em grande respeito. Sem dúvida, os
Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer
homicídio foiperpetrado, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições. Se qualquer um ignorar sua decisão, essa pessoa é banida de
todos os sacrifícios – uma punição extremamente severa entre os gauleses. Aqueles que são assim condenados são
considerados criminosos detestáveis. Todos se afastam deles e não lhes falarão, temendo algum dano por causa do
contato com eles e não recebem justiça nem honra por qualquer feito digno.

Entre todos os Druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre
o Druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma
eleição por todos os Druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do
ano, todos os Druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos Carnutes, cuja terra é considerada o
centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos
Druidas. Diz-se que o movimento druídico começou na Britânia e foi então levado para a Gália. Ainda hoje,
aqueoles que desejam estudar seus ensinamentos com mais aplicação usualmente viajam para a Britânia.

Os Druidas são isentos do serviço militar e do pagamento de contribuições de guerra, ao contrário dos outros
gauleses. Tentados por tais vantagens, muitos jovens de boa vontade dedicam-se aos estudos druídicos, enquanto
outros são enviados por seus pais. Diz-se que, nas escolas dos Druidas, eles aprendem um grande número de versos,
tantos, na verdade, que alguns estudantes levam vinte anos em treinamento. Não é permitido escrever nenhum
desses ensinamentos sagrados, apesar de outras transações públicas e privadas serem muitas vezes registradas com
letras gregas. Acredito que eles praticam essa tradição oral por duas razões: primeira, para que o povo comum não
tenha acesso aos seus segredos e segundo, para fortalecer a faculdade da memória. Na verdade, a escrita muitas
vezes enfraquece a aplicação da pessoa em aprender e reduz a habilidade de memorizar. O ensinamento principal
dos Druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse
ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas. Eles
têm também um grande número de outros ensinamentos que passam aos jovens a respeito de coisas como o
movimento das estrelas, o tamanho dos universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses
imortais.

Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença
terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os
Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida
pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para
os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então põem-lhes fogo, perecendo
todos nas chamas. Eles acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses,
mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que ele é o inventor de todas as
artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele,
adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros
povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da
guerra. Antes de uma grande batalha, eles frequentemente dedicarão os espólios a Marte. Se obtiverem sucesso,
sacrificarão todas as coisas vivas que tiverem capturado e os outros espólios que eles reúnem num só lugar. Entre
muitas tribos, você pode ver esses espólios reunidos num local consagrado. E é uma ocasião muito rara que alguém
ouse perturbar esses bens valiosos e ocultá-los em sua casa. Se isso acontecer, o perpetrador é torturado e punido
das piores formas imagináveis.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis, e confirmam que esse é o
ensinamento dos Druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários
e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

Os funerais dos gauleses são magníficos e extravagantes. Tudo que era querido pelo falecido é lançado na fogueira,
inclundo-se os animais. Num passado recente, eles iriam queimar também escravos fiéis e subordinados amados no
ponto culminante do funeral.

Cícero (séc. I a. C.) (“Sobre a Divinação”, 1.90):

A prática da divinação não é negligenciada mesmo pelos bárbaros. Eu sei que há Druidas na Gália porque eu
mesmo conheci um deles – Divicíaco da tribo dos Aedui, que era vosso convidado e altamente vos louvava. Ele
reclamava um conhecimento da natureza derivado do que os gregos chamam “physiologia” – a inquirição acerca das
causas e fenômenos naturais. Ele predizia o futuro usando o augúrio e outras formas de interpretação.

Plínio (séc. I d. C.) (“História Natural”, 16.249, 24.103-4, 29.52, 30.13):

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas (que é o nome de seus homens
santos) não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se ela crescesse
somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que
um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” (a palavra
grega para “carvalho”). E, sem dúvida, eles pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um
sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em
carvalhos. Não obstante, eles o procuram com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo
lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a
lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua,
chamam o visco de um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos,
conduzindo dois touros brancos cujos chifres são amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco
então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então
sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda próprio dom àqueles a quem ele o
deu. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio
contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Semelhante à erva sabina é a planta chamada “selago”. Deve ser colhida sem instrumento de ferro, passando-se a
mão direita através da abertura da manga esquerda, como se a estivesses roubando. O colhedor, tendo primeiro
oferecido pão e vinho, deve vestir-se de branco e estar com os pés descalços e limpos. É levada num pedaço de
tecido novo. Os Druidas da Gália dizem que deve ser usada como proteção contra todo perigo e que a fumaça da
queima do “selago” é boa para as doenças dos olhos. Os Druidas também recolhem dos charcos uma planta
chamada “samolus”, que deve ser colhida com a mãe esquerda durante um período de jejum. É boa para as doenças
das vacas, mas aquele que a colhe não deve olhar para trás, nem colocá-la em lugar algum senão no cocho em os
animais bebem água.

Há um tipo de ovo que é muito famoso na Gália, mas ignorado pelos escritores gregos. Nos meses de verão, um
grande número de cobras se juntará numa bola que é mantida junta por sua saliva e uma secreção de seus corpos.
Os Druidas dizem que elas produzem esses objeto oval, chamado “anguinum”, que as cobras sibilantes lançam para
o ar. Ele deve ser apanhado, assim dizem eles, num manto antes de alcançar o chão. Mas seria melhor que você
tivesse um cavalo preparado, porque as cobras irão caçar você até que sejam impedidas por algum curso de água.
Um “anguinum” genuíno flutuará contra a correnteza, mesmo se coberto de ouro. Porém, como é usual para os
homens santos do mundo, os Druidas dizem que ele somente pode ser apanhado durante uma fase da lua
específica, como se as pessoas pudessem fazer a lua e as serpentes trabalharem juntas. Eu próprio vi um desses ovos
– era uma pequena coisa arredondada, como uma maçã, com uma superfície cheia de indentações semelhantes às
dos braços de um polvo. Os Druidas valorizam-no grandemente. Dizem que é um grande auxílio nas ações judiciais
e ajudará a ganhar a boa vontade de um governante. Que isso é uma total falsidade mostra-se por um homem da
tribo gaulesa dos Vocontii, um cavaleiro romano, que manteve um escondido em seu manto durante um julgamento
ante o imperador Cláudio e foi executado, até onde posso saber, unicamente por esse motivo.

Ritos bárbaros eram encontrados na Gália até uma época de que eu mesmo posso lembrar. Pois foi então que o
imperador Tibério passou um decreto por meio do Senado colocando fora da lei os seus Druidas e essas espécies de
adivinhos e médicos. Mas por quê menciono isso a respeito de uma prática que cruzou o mar e alcançou os confins
da terra? Pois mesmo hje a Britânia realiza ritos com tal cerimônia que você poderia achar que foram eles a fonte
dos extravagantes persas. É maravilhoso como povos distantes são tão semelhantes em tais práticas. Mas podemos,
ao menos, ficar satisfeitos de que os romanos tenham eliminado o culto assassino dos Druidas, que ensinavam
serem o sacrifício humano e o canibalismo ritual o mais elevado tipo de devoção religiosa.

Suetônio (“Cláudio”, 25):

Cláudio destruiu a horrível e inumana religião dos Druidas gauleses, que havia sido apenas proibida aos cidadãos
romanos sob Augusto. (41-54 d. C.)

Lucano (séc. I d. C.) (“Guerra Civil”, 1.444-46, 450-58):

Cruel Teutates, deleitado pelo sangue temível, horrível Esus com seus altares bárbaros,
e Taranis, mais cruel que a Diana Cítica.
ó Druidas, agora que a guerra acabou
retornais a vossos ritos bárbaros e modos sinistros.
Somente vós conheceis os caminhos dos deuses e poderes celestes, ou talvez o ignoreis totalmente.
Vós, que habitais nos bosques escuros e remotos,
dizeis que os mortos não procuram o reino silencioso de Érebo ou o pálido domínio de Plutão,
mas o mesmo espírito vive outra vez em um outro mundo
e a morte, se vossas canções são verdadeiras, não é senão o meio de uma longa vida.

Sílio Itálico (séc. I a. C.) (“Púnica”, 3.340-43):

Os celtas conhecidos como “hiberi” também vieram.
Para eles é glorioso cair em combate,
mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo.
Eles acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo,
jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto.

História Augusta” (séc. IV d. C.)

(Alexandre Severo 59.5): A Druidesa exclamou para ele quando ele chegava, “Vai em frente, mas não esperes a
vitória ou deposites confiança em teus soldados.” (235 d. C.)

(Numeriano 14): Enquanto Diocleciano era ainda um jovem soldado, ele estava hospedado numa taverna na terra
dos tongri, na Gália. Todo dia ele tinha de acertar as contas com sua senhoria, uma Druidesa. Um dia ela disse:
“Dicleciano, tu és ganancioso e sovina!” Zombeteiramente, ele lhe respondeu: “Então eu serei mais generoso
quando for imperador.” “Não rias”, ela disse, “pois será imperador depois de matares o javali.”

(Aureliano 43.4): Em certas ocasiões, Aureliano consultava as druidesas gaulesas para descobrir se os seus
descendentes continuariam a governar ou não. Elas disseram-lhe que nome algum seria mais famoso que os da
linha de Cláudio. E, sem dúvida, o atual imperador, Constâncio, é um descendente dele. (270 d. C.)

Ausônio (fim do séc. IV d. C.) (4.7-10, 10.22-30):

Descendes dos Druidas de Bayeux, se verdadeiras são as histórias a teu respeito,
e traças tua sacra ancestralidade e renome do templo de Belenus.
Tampouco esquecerei o ancião
com o nome de Febício.
Embora ele fosse sacerdote do deus Belenus, não recebeu qualquer vantagem da posição. Mas, apesar disso, esse,
que descende, diz-se, dos Druidas da Bretanha, recebeu uma cátedra em Bordeaux com a ajuda de seu filho.

Inscrição de Botorrita (fim do séc. II, começo do séc. I a. C.):

A Eniorosis e Tiato de Tiginos dedicamos trecaias e a Lugus dedicamos arainom.
A Eniorosis e a Equaesos, ogris erige coberturas de olga e a Lugus erige coberturas de tiasos.

Inscrição de Chamalières (c. 50 d. C.):

Invoco o deus Maponos arueriitis. Por meio da magia dos deuses do Mundo Inferior.
C. Lucios Floros, Nigrinos, o orador, Aemilios Paterinos, Claudios Legitumos, Caelios Pelignos, Claudios Pelignos,
Marcios Victorinos e Asiaticos, filho de Adsedillos…
O juramento jurarão – o pequeno se tornará grande, o curvado se tornará reto, e, embora cego, eu verei. Com esta
tábua de encantamento isso será…
luge dessummiiis luge dessumiis luge dessumiiis luxe.

Inscrição de Larzac (c. 90 a. C.):

Olhai:
– um encantamento mágico de mulheres
– o ritual deles, nomes do Mundo Inferior
– a profecia da vidente que tece este encantamento
A deusa Adsagsona devolve Severa e Tertionicna enfeitiçadas e amarradas.

Patrício (séc. V a. C.), “Confissão”:

É notável que os irlandeses tornaram-se, sem dúvida, um povo do Senhor e filhos de Deus. Essas pessoas que, até
agora, não tinham conhecimento de Deus, mas adoravam ídolos e seguiam práticas religiosas repulsivas.

Irlanda alto-medieval

– séc. VI d. C.: Juramentos serão proferidos em presença dos druidas (“druid”, em irlandês antigo)
– séc. VII d. C.: Somente o druida tem os mesmos direitos de um “boaire” (um nobre, proprietário de grandes
rebanhos)
– séc. VIII d. C.: Protege-me dos encantamentos de mulheres, ferreiros e druidas…

Bellouesus /|\ (compilação)

O Politeísmo Naturalista na Religião Gaulesa

G. Roth e F. Guirand

poli1p. 203

Politeístas como todos os primitivos (1), os gauleses veneravam principalmente divindades tópicas (isto é, ligadas a um local determinado) ou regionais.

O Culto das Águas

Os lugares elevados, os picos dos montes, eram por eles divinizados. O pico do Ger (Garrus deus), nos Baixos Pirineus, permaneceu nessa condição até o fim da dominação romana, enquanto os outros picos desceram pouco a pouco da posição de deuses para a de moradas de deuses. Por exemplo, Dumias, nome do deus tutelar de Puy de Dôme, acabou por tornar-se um simples epíteto ligado a Mercurius, cujo templo e estátua localizavam-se nesse cume.

Contudo, a religião naturalista dos gauleses aparece mais destacadamente no culto das águas (rios, poços, fontes). Diva, Deva, Divona, “a Divina” era uma designação frequente dos rios gauleses, o que ainda testemunham seus nomes atuais: Dive, Divone, Deheune. Nemausus, deus tutelar da cidade de Nîmes, era o gênio de sua fonte; Icaunus, o de Yonne, etc. Numerosos eram os gauleses da Bélgica que se orgulhavam do nome Rhenogenus, “filho do Reno”. Borvo, Bormo ou Bormanus (“o Borbulhante”), deus das fontes termais, deu seu nome a muitas de nossas estações onde jorram águas quentes: La Bourboule, Bourbonne, Bourbon-Lancy ou L’Archambault.

A mais característica dessas divindades era a deusa Epona. vista sempre acompanhada de um cavalo,poli2 com o qual forma um grupo inseparável. Na maioria das vezes, ela está sentada de lado em sua montaria. Envolta em um manto drapeado e adornada com um diadema, seus atributos são um corno da abundância, uma pátera e frutos. É, portanto, a deusa da abundância agrícola. Contudo, não é a água que traz fertilidade ao solo? Com efeito, Epona é uma divindade das águas, exata correspondente da fonte Hipocrene. Seus dois nomes equivalem [ao grego] (epos, ona = hippos, krêne) e significam “fonte equina” (2). Quanto à presença do cavalo ao lado dessa deusa, é suficiente recordar o lugar que esse animal possui na lenda de Posêidon.

Muito popular na Gália, como o atestam as numerosas representações de Epona que foram conservadas, seu culto foi posteriormente importado pela Itália e pela própria Roma. Seu significado primitivo, no entanto, foi esquecido. Epona tornou-se a deusa protetora dos cavalos; é por isso que se colocavam suas imagens nos estábulos.

Culto das Árvores

As águas fecundam as florestas. Também os gauleses não esqueceram de adorar as árvores e bosques. Vosegus foi o deus tutelar dos “Vosges” silvestres; Arduina, a ninfa das “Ardennes”; Ardnoba, a da Floresta Negra.

Na região dos Pirineus, muitas inscrições latinas dão-nos a conhecer os deuses-árvores: Robur (o carvalho-branco), Fagus (a faia), Tres Arbores (Trois-Arbres [três árvores]), Sex Arbores (Six-Arbres [seis árvores]), Abellio (a macieira; cf. apple, apfel nos idiomas germânicos), Buxenus (o buxo).

poli3Respeitado em toda a Gália, o carvalho pôde ser considerado por certos cronistas como o deus supremo dos gauleses. “É nos bosques de carvalhos que que os druidas têm seus santuários”, assegura-nos Plínio, o Antigo (História Natural, XVI, 249), “e não realizam qualquer rito sagrado sem as folhas do carvalho. Acreditam que a presença do visco revela a presença do deus sobre a árvore que o porta… Colhem-no com grande cerimônia. Depois de ter sacrificado dois touros brancos, um sacerdote, vestido com uma túnica branca, sobe na árvore e corta com uma foice áurea o visco, que será recolhido em um manto branco.”

A veneração dessa planta deixou traços em nossos costumes (2). Muitas pessoas consideram-na, sincera ou jocosamente, como um amuleto de boa sorte. E a força dessa tradição é ainda mais ativa no outro lado da Mancha (4).

Culto dos Animais

Os gauleses igualmente adoravam

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diversos animais. Cavalo, corvo, touro e javali eram animais sagrados que deram seus nomes a certas cidades (Tarvisium, Lugudunum [de lugus, “corvo”]) ou tribos (Taurisci, Brannovices, Eburones) e dos quais encontramos muitas representações em moedas e baixos-relevos. Nas Ardennes venerava-se o javali; os helvécios das proximidades de Berne adoravam a deusa Artio (= “a ursa”), na qual seria talvez ousado enxergar a equivalente da Ártemis grega.

poli4
Vê-se no museu de Avignon, sob a denominação de “monstro de Noves”, um urso sentado sobre as patas traseiras; com suas mandíbulas esmaga um braço humano e cada uma de suas patas dianteiras  repousa sobre uma cabeça humana. Concorda-se em reconhecer nesse monstro devorador algum ídolo primitivo.

No número dos deuses zoomórficos podem-se classificar também as serpentes com cabeça de carneiro que aparecem em diversos monumentos. Estão geralmente ligadas a um deus que as agarra pelo pescoço ou as mantém nos joelhos. Essa última postura parece afastar a ideia de uma luta entre o deus e as serpentes. Deve-se, portanto, vê-las como divindades ctônicas. O mesmo aplica-se à serpente chifruda que aparece ao lado do Mercúrio gaulês.

Entre os animais divinizados, o que parece ter sido objeto de um culto bastante difundido é o touro.  O fato nada possui de surpreendente, sendo esse animal o símbolo da força e do poder gerador e tendo sido divinizado de forma semelhante em outras mitologias. Pensemos, por exemplo, no touro cretense. O touro gaulês, porém, apresenta-se com certas peculiaridades assaz curiosas.

Em um altar galo-romano exumado do solo de Paris está esculpido um touro em pé próximo de uma poli5árvore; ele traz duas garças no dorso e uma na cabeça; é o Tarvos Trigaranus (“Touro com as Três Garças”). Questiona-se qual poderia ser o significado das três garças associadas ao touro. É verdade que esses mesmos pássaros encontram-se nos relevos do arco do triunfo de Orange e surgem repetidamente nos relatos da epopeia irlandesa. Não obstante, ao nos recordarmos de que há na mitologia gaulesa um deus tricéfalo – a que posteriormente nos referiremos – e que, por outro lado, possuímos figuras de touros com três chifres, pensou-se que o epíteto trigaranus não seria mais que uma deformação de trikaranos, com três cabeças, e que o touro primitivamente adorado seria um touro tricéfalo, relacionado ao deus tricéfalo Cernunnos.

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Fonte: Guirand, Félix (direction). Mythologie Générale. Librairie Larousse. Paris (VIe.). 13 a 21, Rue Montparnasse, et Boulevard Raspail, 14. 1935. pp. 203-204.

Notas:

(1) O texto, embora útil, é sob alguns aspectos bastante datado. Igualar “politeísmo” a “primitivismo” é somente um deles (Nota do Tradutor).

(2) Quando esse texto foi escrito, era bem menor do que hoje o conhecimento da antiga língua gaulesa. Sabe-se agora que o sufixo -(o)n- (também encontrado nos nomes de outros deuses, como Map-o-n-os, Vind-o-n-os, Rigant-o-n-a) é um aumentativo que significa “grande e divino”. Assim, Epona significa não “fonte [ona] do cavalo [epos]” (a tradução da Hippokrene grega), mas “a grande égua divina”. Talvez o entendimento do autor deva-se à lembrança da palavra “onno” do Glossário de Endlicher, que o escriba medieval traduz pelo latim flumen, i. e., “rio” (Nota do Tradutor).

(3) Entenda-se: dos franceses (Nota do Tradutor).

(4) Isto é, nas Ilhas Britânicas (Nota do Tradutor).

Tradução: Bellouesus /|\