Árdath/erdath

tsunami

Árdath/erdath

Bellou̯esus Īsarnos

Estava a escavar no Codex Ardmachanus (Livro de Armagh) informações para um artigo sobre mitologia irlandesa (um tormento encontrar a nota na biografia de Patrício em que Tírechán glosou síde com o latim dei terreni), quando me deparo com este trecho interessantíssimo:

Nam Neel pater meus non siniuit mihi credere, sed ut sepeliar in cacuminibus Temro quasi uiris consistentibus in bello (quia utuntur gentiles in sepulcris armati prumptis armis) facie ad faciem usque ad diem erdathe (apud magos, id est iudicii diem Domini), ego filius Neill et filius Dúnlinge Immaistin in campo Liphi pro duritate odiui ut est hoc.

Meu pai, Níall, não me permitiu aceitar a fé, porém me rogou que eu fosse sepultado nas colinas de Tara; eu, filho de Níall, e o filho de Dúnlang em Maistiu em Mag Liphi, face a face um contra o outro à maneira de homens em batalha (pois os pagãos, armados em suas tumbas, têm suas armas à mão) até o dia de árdath/erdath (como chamam-no os magos, ou seja, o dia do Julgamento do Senhor), por causa da ferocidade do nosso ódio mútuo.

Pois bem, magi (magos) são os druid (plural de drui); árdath/erdath (as duas leituras são possíveis), o nome dado pelos magos ao dia do fim do mundo (dies iudicii Domini, “o dia do juízo do Senhor”).

ard < PCelt. *ardo-: alto, elevado.

áth < PCelt. *i̯ātu-: vau (numa corrente de água, é um ponto raso o bastante para que se possa passar a pé ou a cavalo, local comum de combates nos textos mitológicos irlandeses); em sentido figurado, um espaço aberto ou vazio entre dois objetos.

Talvez os combatentes no vau elevado sejam o Fogo e a Água, como escreveu Strábon na Geografia.

Árdath/erdath < PCelt. *ardoi̯ātus (eni latiū ardoi̯ātous, Ir. i lá árdathe, “no dia do fim do mundo”).

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Anotações Druídicas III

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Anotações Druídicas III: Toutouercia Beleni (A Liturgia de Belenos)

Bellou̯esus Īsarnos

1 Rac Uedian Runa
Runa antes da Prece
2 Litus Pempegenii
Ritual do Pentagrama
3 Toutouercia Beleni
A Liturgia de Belenos
3.1 Nigon (Limpeza)
3.2 Uedia (Oração)
3.3 Adberta (Sacrifício)
3.4 Lindon (Libação)
3.2.a Ops Nemesos: Comarcon Sauele
O Olho do Céu: Saudação ao Sol
4 Repita 2 (Litus Pempegenii)

1 Rac Uedian Runa

A runa (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Lamas mon ouxgabiu Sucelli me deluassetio uo rodarcu,
Lugous me riios urexteio uo rodarcu,
Maponi me glanos urexteio uo rodarcu,
In caranti lubic.
Snus lanobitun in trougi anson rodate:
Eponas sercan,
Brigindonos carantian,
Circii uissun,
Nantosueltas raton,
Nemetonas obnun,
Nodentos suanton
Ad in Bitu Triion urextun
Deuoi Senisteroi samali in Albiie uregont.
In scatu loucetuc papu, papu in diiu noxtic
Snus maronerton anextlon sueson rodate.

Runa antes da Oração

Ergo minhas mãos sob o olhar do Sucellos que me formou,
Sob o olhar de Lugus que me fez livre,
Sob o olhar de Maponos que me fez puro, em amizade e alegria.
Dai-me prosperidade em minha necessidade:
O amor de Epona,
A amizade de Brigindu,
A sabedoria de Circios,
A bênção de Nantosuelta.
O temor de Nemetona,
A vontade de Nodens,
Para que no Mundo do Três eu faça como os Deuses e os Ancestrais fazem em Albiios.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite, dai-me o vosso poder e proteção.

2 Litus Pempegenii

Exregontu, exregontu! Adgabiontu, adgabiontu!

Extigariu, a calge/a tute! Biuotus to mi, iacca to mi, sutani biiont molatoues suesron in mon cantlu. Catubodua Agrorigani, Sextansuesores, a Nox, Maguni Pritunixtomagesos, a Nemos ac Talamu!

Tigernos Cagnes are mi,
Tigernos Suissous eron mi,
Tigernos Andedubni dexsiue mon,
Tigernos Aratri toute mon,
Tigernos Nemesos uxi mi,
Talamu Deuia uo mi,
Tigernos Dubron Dubnon tri mi,
Uxmonios Maros Nemesos,
Uotaios Maros Talamonos.

Extigariu, a calge/a tute! Biuotus to mi, iacca to mi, sutani biiont molatoues suesron in mon cantlu.

Ritual do Pentagrama

[Caminha em círculo na direção dos ponteiros do relógio. Agita tuas mãos como se estivesses espantando pássaros.] SAÍ, SAÍ! PARA FORA, PARA FORA! [Também podes usar uma adaga. Repete as frases anteriores até sentires que o espaço está limpo, porém não mais de 7 vezes. Se usaste uma adaga, coloca-a em sua bainha ou no chão, fora do caminho.]

[Com os dedos de tua mão dominante juntos, tocando tua testa entre os olhos, dize:]
EU TE INVOCO [a força vital, nebos, ergue-se do teu coração; desce a tua mão à área genital:], Ó PÊNIS/Ó VULVA [de acordo com o teu gênero; o nebos desce internamente da tua testa através da coluna vertebral e alcança a área genital]! [Toca teu ombro direito:] VIDA PARA MIM [o nebos ergue-se dos genitais de volta ao teu coração e de lá para o teu ombro direito], [toca teu ombro esquerdo:] SAÚDE PARA MIM [o nebos cruza para o teu ombro esquerdo], [entrelaçando tuas mãos na altura do coração, dize:]. QUE VOSSOS LOUVORES ESTEJAM SEMPRE EM MEU CANTAR [imagina um globo de luz radiante com centro no teu coração e preenchendo todo o teu corpo, iluminando o espaço onde estás]. [Avança para o leste ou fica em pé onde estás e imagina um pentagrama em tua testa. Desenha-o ou lança-o para os limites do teu círculo, dizendo:] Ó CATUBODUA, RAINHA DA BATALHA [o nebos flui da tua mão e forma uma estrela diante de ti; ela permanece ali], [volta-te para o norte, em sentido anti-horário, e dize:], Ó SETE IRMÃS [as Plêiades; visualiza a estrela e sente-a como antes], [volta-te para o oeste e dize:], Ó NOITE [visualiza da mesma forma que antes], [de frente para o sul dize:], VIRGEM DO CAMPO DE TRIGO [visualiza da mesma forma que antes], [outra vez de frente para o leste, ergue o braço acima de sua cabeça e desenha o pentagrama ou lança-o para o alto, dizendo:], Ó CÉU [visualiza a estrela num ponto com o dobro de tua altura acima de ti] [olha para baixo de desenha o pentagrama na terra ou lança-o ao chão, dizendo] E TERRA [imagina o pentagrama abaixo de ti numa profundidade com o dobro da tua altura]!

Em pé, com teus braços abertos em forma de cruz, dize:

O SENHOR DA LEI DIANTE DE MIM,
O SENHOR DO CONHECIMENTO ATRÁS DE MIM,
O SENHOR DAS PROFUNDEZAS À MINHA DIREITA,
O SENHOR DO ARADO À MINHA ESQUERDA,
O SENHOR DO CÉU ACIMA DE MIM,
A TERRA DIVINA SOB MIM,
O SENHOR DAS ÁGUAS PROFUNDAS ATRAVÉS DE MIM,
O GRANDE PILAR DO CÉU,
O GRANDE ALICERCE DA TERRA.

Cercado pelas estrelas, agora brilhas com uma luz ponderosa. Linhas de luz provenientes das estrelas convergem no teu coração.

Repete a primeira parte:

EU TE INVOCO, Ó PÊNIS/Ó VULVA! VIDA PARA MIM, SAÚDE PARA MIM, QUE VOSSOS LOUVORES ESTEJAM SEMPRE EM MEU CANTAR.

3 Toutourcia Beleni (A Liturgia de Belenos)

A prece formal (couariuedia) é ritualizada e consiste em quatro partes básicas (petura uidodarna):

3.1 limpeza (nigon)
3.2 oração (uedia)
3.3 sacrifício (adberta)
3.4 libação (lindon)

3.1 Nigon

Nigi tou dui lamai ac eias arduosagietario.

Limpeza

Lava as tuas mãos e ergue-as.

3.2 Uedia

Argisame entar Deuus, Rix andeuoreti, Uatis ac Slani, ad me uerte tou ope. Larogenos immi, birroi senti in bitu mon nerton latiac, extos tou trexia exsanamis diuerbiiet papan meblan. A Belene noibisame, tigerne uerboudice, cleue mon uepus etic erna moi tou raton.

Oração

Ó brilhantíssimo entre os Deuses, Rei que concede grande ajuda, Profeta e Curador, volta para mim os teus olhos. Sou um filho da terra, curtos são meu poder e dias no mundo, mas tua força sem falhas sobrepuja todo mal. Santíssimo Belenos, senhor muito vitorioso, ouve minhas palavras e dá-me a tua benção.

3.2.a Ops Nemesos: Comarcon Sauele

Ops Deui mari,
Ops Deui Clutas,
Ops Rigos Budinas,
Ops Rigos Biuon,
Uer snis exsemaunos
Papa uaxtia ac tratun.
Uer snis exsemaunos
Coimu boudilanuc.
Cluta ti suesin,
A Sauelis clute.
Cluta ti suesin, a Sauelis,
Enepon Deui Biuotutos.

O Olho do Céu: Saudação ao Sol

O olho do grande Deus,
O olho do Deus da glória,
O olho do Rei dos exércitos,
O olho do Rei dos Vivos.
Vertendo sobre nós
A todo momento e estação.
Vertendo sobre nós
gentil e generosamente.
Glória a ti,
Tu, Sol glorioso,
Glória a ti mesmo, ó Sol,
Face do Deus da Vida.

3.3 Adberta

A Belene Agesilobere, sin aretoiberu are tou anextlon. Cardatosagiumi toi raton lauenias ollas uer mon mapus, ciliian, carantas etic mon toutan. Ac suemoi, essi maruon di me consamali mon biuotutan.

Sacrifício

Ó Belenos, Portador de Saúde, ofereço-te isto por causa de tua proteção. Imploro-te que concedas toda felicidade a meus filhos, esposa, amigos e ao meu povo. E para mim mesmo, que eu morra do modo como tenho vivido.

3.4 Lindon

Belene Areopsi,
Belene Argantogaise,
Belene Brani,
Belene Deuocaile,
Belene Drucouerte.

Belene Atir, toi molatus biietu [lindon seme dubri].

Belene Iaccitobere,
Belene Iessine,
Belene Toncetouede,
Belene Touissace,
Belene Uorete.

Belene Atir, toi molatus biietu [lindon seme meles].

Libação

Belenos previdente,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de água).

Belenos portador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos guia do destino,
Belenos líder,
Belenos auxiliador.
Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de mel).

4 Repete 2 (Litus Pempegenii).

Sacrifício Humano

Sacrifício Humano

Bellou̯esus Īsarnos

sacrificiohumanoO sacrifício humano praticado pelos druidas é tão comum na literatura antiga quanto é rara sua comprovação arqueológica. A afirmação dessa prática, negregada peculiaridade da religião gaulesa, além de notável demonstração de hipocrisia e xenofobia, é de natureza ideológica. Ainda antes de Gaius Iulius Caesar, foi Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), um dos maiores escritores da língua latina, quem qualificou os gauleses, literalmente, de “terríveis bárbaros que não hesitam em manchar seus altares com sangue humano”.

O detalhe não lembrado é que Cicero era um advogado e usou essa forte imagem exatamente no discurso de defesa de um certo Marcus Fonteius. Esse Fonteius fora legado romano na Gallia Narbonensis por três anos e estava sendo acusado de corrupção (receber propina) ante o Senado de Roma. O povo da província era representado pelo nobre treviro (anti-romano) Indutiomaros, sogro e inimigo político de outro notável treviro chamado Cingetorix (pró-romano). Cicero nunca teve envolvimento pessoal com Fonteius e aceitou fazer a defesa apenas por “corporativismo”: ambos pertenciam à classe dos equites (cavaleiros) e Cicero foi pressionado por outros colegas a fazer a defesa, registrada na Oratio pro M. Fonteio. O resultado foi que os gauleses, na mentalidade romana, tornaram-se desde então (meados do séc. I a. C.) famigerados sacrificadores de seres humanos em cerimônias religiosas.

Entretanto, seria rematada falsidade afirmar que a Gália não conheceu sacrifícios humanos. Importa determinar sua frequência e natureza. Dois tipos de sacrifícios são bem atestados em numerosas civilizações antigas (incluindo-se as do Mediterrâneo), onde possuem, de modo geral, duas finalidades: apaziguar os deuses ou agradecer por alguma graça recebida.

As descrições literárias que possuímos de sua realização entre os gauleses são bastante convincentes. Contudo, são bem outros seus objetivos. Encontramos com os celtas da Gália: 1) o sacrifício humano de substituição; 2) o divinatório e 3) o “judicial”, isto é, a aplicação da pena capital sob o disfarce de um sacrifício.

1 – Sacrifício de substituição

O sacrifício de substituição é mencionado por Caesar (Commentarii de Bello Gallico, VI, 16): “a nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […]”.

2 – Sacrifício divinatório

Diodorus Siculus relata o sacrifício divinatório em Bibliotheca Historica, V, 31: “os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias”. Strabôn conta a realização de um sacrifício desse tipo pelos gálatas antes da batalha contra Antígonos II Gonatás em 277 a. C. Vítimas humanas foram imoladas, consultando-se suas entranhas em um tipo de haruspício.

3 – Sacrifício “judicial”

O terceiro tipo de sacrifício, dito judicial, é registrado por Caesar na mesma passagem citada acima: “[…] Outros possuem figuras de enorme tamanho, cujos membros são construídos com vime, que enchem de homens vivos, os quais, tendo sido incendiados, perecem os homens envolvidos pelas chamas. Consideram que o sacrifício desses que foram apanhados cometendo furto, latrocínio ou qualquer outro crime é mais agradável aos deuses imortais; porém, havendo falta de vítimas desse tipo, chegarão mesmo a sacrificar inocentes”. Strabôn (Geographiká, IV, 4, 5) acrescenta: “gado, animais selvagens e todo tipo de seres humanos”. Note que Caesar usa a palavra “outros” (allii). Isso significa que algumas tribos usariam, outras não, as ditas “figuras de enorme tamanho”.

Esses autores, Caesar, Diodorus e Strabôn, são os que entraram mais profundamente na imaginação popular. Dão-nos, realmente, muito o que pensar.

O sacrifício judicial, como todos que já assistiram o filme devem ter percebido, é a fonte do impressionante Wicker Man (“Homem de Vime”). É necessário salientar que os homens colocados dentro dele são criminosos condenados, ao menos preferencialmente, e ali estão porque cometeram um ato detestável cuja punição vão enfrentar. Afirmar que sua morte seria “mais agradável aos deuses imortais” é a mesma justificativa que a religião, em sua qualidade de vetor do controle social, tem usado para tudo através dos séculos, druidas e padres e imãs e rabinos igualmente.

De resto, não existe absolutamente nenhuma evidência física de que essa cerimônia da execução no Colosso de Vime fizesse parte do repertório sacro costumeiro da Gália. Pelo contrário, um outro ponto contribui para que desconfiemos dessa descrição: ossadas de animais selvagens jamais foram encontradas nos santuários gauleses. Bovinos, ovinos, equinos e aves sim, todos animais domésticos, até cães, mas não animais selvagens. Existe uma lógica por trás dessa ausência que não poderia ter escapado aos sacerdotes antigos: os animais da natureza já são propriedade dos deuses, como oferecer-lhes o que já lhes pertence? Ser desonesto com os deuses é sinal de forte estupidez.

Existe um eco distante dessa ideia no Audacht Morainn. O juiz Morann manda dizer ao rei Feradach: “Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório”, ou seja, que ele não tente se mostrar generoso fazendo simplesmente aquilo que tem obrigação de fazer, pois isso não é generosidade nem mérito, mas somente dever. Se você quiser demonstrar generosidade, faça algo que não é sua obrigação. Se você quiser dar algo aos deuses, não lhes ofereça o que, por direito, já é deles.

Passemos ao sacrifício divinatório. Primeiramente, terminarei a citação de Diodorus, que havia ficado pela metade. Retomo-a exatamente do ponto em que tinha parado: “E é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellou̯esus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas”. Maravilhoso, não?

Duas classes de homens aparecem nesse trecho: 1) os ‘filósofos’, presença obrigatória nos sacrifícios, responsáveis por falar com os deuses, pois são eles que possuem “experiência com o divino” e “falam a língua dos deuses”, de forma que “apenas por seu intermédio as bençãos podem ser buscadas” e 2) os “poetas cantores” que operam junto aos “filósofos”.

O filósofo e o poeta-cantor não “sujam as mãos” nos sacrifícios. Quem o faz? Ora, o adivinho, de quem Diodorus havia falado imediatamente antes. Aí temos as “três classes de homens excepcionalmente honrados (tría phûla tōn timōménōn diapheróntōs estí) em toda a Gália”, de que Strabôn falou na Geographiká (IV, 4, 4): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai), explicando que os bardos são cantores e poetas (humnētaí kaì poiētaí), os vates, adivinhos e filósofos naturais (hieropoioí [“fazedores do sagrado”] kaì phusiológoi), enquanto os druidas ocupavam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral (phusiológoi kaì ēthikoi philosóphoi). Afirmou a seguir que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas – o que os liga ao julgamento e condenação pela prática de delitos, como visto acima.

A ideia de que druida, vate e bardo são todos, de alguma forma, druidas, vem de Caesar, que não fala senão dos druidas. Os autores gregos mencionam-nos separadamente e em momento algum dão a entender que vate e bardo são druidas. Mas esse não é exatamente o ponto, não neste momento.

A questão agora é o sacrifício divinatório. Cabe ao druida avaliar a sua adequação ética e decidir se pode ou não ocorrer, pois os druidas são “os mais justos dos homens”, mas não será ele, druida, a empunhar a lâmina sacrificial. Isso cabe ao adivinho, vate, que domina a técnica sacrificial desde uma época em que os druidas ainda não existiam. Ao poeta-cantor, o bardo, cabe o aspecto teatral, de fundamental importância em toda cerimônia religiosa e tão visível no cerimonial da Igreja Romana. Ao druida não importam o sangue do sacrifício nem a técnica sacrificial. Ao druida importam a compreensão teológica e a justificação social do ato.

“[…] desde uma época em que os druidas ainda não existiam.” Isso explica perfeitamente porque o druidismo gaulês e o irlandês são diferentes e também porque Caesar afirmou que o druidismo teve origem na Grã-Bretanha e ainda porque certos personagens da lenda irlandesa, como Fedlimid, do Táin, vão ali estudar as artes mágicas. Caesar não fazia diferença entre druida, vate e bardo. Quando ele diz “druida”, não há como saber a quem se refere.

Para encerrar este tópico, o sacrifício divinatório é o remédio dos gauleses “quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância”. Talvez pudéssemos acrescentar o que diz Caesar: “para propósitos públicos”. Necessariamente, não se tratava de algo frequente.

No terceiro tipo de sacrifício humano (ou primeiro, comecei de trás para diante), o sacrifício de substituição, que também se poderia chamar terapêutico, um indivíduo seriamente enfermo, ou em outra situação de grave perigo, sacrifica ou promete sacrificar aos deuses alguém que o substitua. Existe nisso uma contradição. Os autores antigos sabiam (o próprio Caesar o diz) que o ensinamento que os druidas mais ardentemente desejavam inculcar era a sobreviência da alma, o renascimento em uma outra vida (não entro no mérito de ser neste ou em outro mundo). Os autores antigos registraram com espanto o destemor insano dos celtas diante da morte.

Como se explicaria então esse pavor que leva alguém a barganhar com os deuses oferecendo uma vida humana em troca da sua? Como, se a promessa é o renascimento em outro mundo sem mal, sem doença, sem velhice, sem mentira (aceitando-se a imagem feita pelos irlandeses)?

A resposta não é tão difícil: estamos outra vez olhando para uma crença céltica anterior ao druidismo. O movimento druídico representou para a religião céltica o mesmo que o orfismo e o pitagorismo para a religião grega, introduzindo o conceito de imortalidade da alma, que não fazia parte das mais antigas concepções gregas (tampouco indo-europeias, de modo geral), tais como se encontram, por exemplo, em Homero. Não tenho certeza, pois não é minha área, mas parece-me ter lido que essa ideia era estranha também ao judaísmo primitivo.

Gregos e romanos dificilmente poderiam ter visto os ritos que relataram em seus escritos. No caso dos celtas, sabe-se há décadas, graças aos estudos filológicos, que escritores como Caesar, Strabôn, Diodorus, Diógenes e Athenaios copiaram, com maior ou menor fidelidade, algumas vezes intencionalmente deformando-a (Caesar), a obra de um autor mais antigo, Poseidônios (cerca de 60 anos antes de Caesar), que usou observações pessoais e, para aquilo que não pôde ver, copiou ele também de escritores mais antigos, como Éphoros e Timagenes, cujos trabalhos desapareceram há séculos – o mesmo aplicando-se aos de Poseidônios.

Quando lemos o que os autores clássicos escreveram sobre os celtas, devemos estar cientes de que eles frequentemente citam obras duzentos ou trezentos anos anteriores a sua própria época e registram, como se as houvessem testemunhado, coisas que há muito não mais existiam. É exatamente o que ocorre em relação aos druidas. É necessário discernir camadas.

Assim como a implantação do cristianismo na Irlanda não varreu totalmente a religião nativa, também os druidas, ao atingirem a posição de proeminência que ocuparam na Gália, não destruíram o que antes deles havia existido. A marca do druidismo gaulês foi a construção de uma religio publica, não dessemelhante à romana, em substituição às práticas majoritariamente privadas que formavam a religião das tribos célticas no período anterior.

Mas essas práticas não foram probidas nem seus especialistas (possivelmente os vates) impedidos de exercer seu ministério. E, quando o druidismo saiu de cena, foram esses especialistas que tomaram o lugar e o nome prestigioso dos druidas e são eles que aparecem com a denominação “druidas” nas crônicas romanas tardias.

A questão do sacrifício pode parecer essencial quando se considera bardo, vate e druida como diferentes funções de um grupo único. Quando se compreende que esse não é o caso, percebe-se que o sacrifício (como técnica) importa ao vate, sendo apenas correlato ao druida e ao bardo.

Os druidas restringiram enormemente o sacrifício humano, substitutindo-o, sempre que possível, pelo animal, que a arqueologia comprova sobejamente e de que as fontes clássicas, de forma muita estranha, não fazem menção. O sacrifício humano foi conservado para situações de grande stress coletivo, sua realização subordinada à aprovação dos druidas. Fora isso, a atribuição druídica de organizar a sociedade por meio da aplicação do direito canalizou o sacrifício humano para a Justiça, o que seria previsível numa época em que o crime, no sentido jurídico, e a ofensa aos deuses não estavam claramente separados.

Uma coisa é certa: os gauleses não sacrificavam seres humanos para dar aos deuses algo de que estes precisassem ou quisessem. Quando derramavam sangue humano em seus altares, faziam-no em benefício próprio conscientemente. Os deuses nunca necessitaram de sangue humano, embora alguns deles possam apreciá-lo. Eles mudam muito mais devagar do que nós e acho realmente difícil que tenham passado a sentir necessidade de sangue humano, essa substância tão instável, nos últimos 1.500 anos.

Anotações Druídicas II

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Anotações Druídicas II: um Núcleo Comum da Religião Céltica

Bellou̯esus Īsarnos

Décadas de estudos linguísticos demonstraram que os diferentes idiomas célticos hoje conhecidos recuam a uma só e mesma língua de tronco indo-europeu (dita “proto-céltico” ou “céltico antigo comum”). Essa unidade de origem permite supor o compartilhamento, pelas diversas subdivisões do grupo étnico céltico, de um mínimo de raízes conceituais derivadas da sua herança indo-europeia comum, entre as quais se podem distinguir certas noções religiosas. O exame de cinco fatos linguísticos demonstrará persuasivamente essa afirmação.

1 Todas as línguas célticas servem-se da mesma designação genérica para a divindade: gaulês deuos, irlandês antigo dia, galês antigo duiu, galês duw, córnico antigo duy, bretão doue, que remontam à raiz céltica *dēu̯o- < proto-céltico *deiu̯os, “deus”. Essa terminologia é de origem indo-europeia e o seu uso encontra-se atestado em numerosas sociedades provenientes do mesmo tronco: latim deus, latim antigo deiuos, nórdico antigo tívar (*deiwos), “deuses”, vêneto deiuos, lituano diẽvas, prussiano deiwas, sânscrito deváḥ etc., todos oriundos do proto-indo-europeu *deiu̯os. Assim, os povos célticos determinavam de forma idêntica a categoria dos interlocutores supra-humanos com os quais a religião deveria fornecer-lhes os meios de comunicar-se, conforme um vocábulo arcaico pertencente à herança linguística e conceitual indo-europeia e que, etimologicamente, designa o ente divino por sua dimensão de “brilhante, luminoso” e, por extensão, “celeste”. A consciência do laço que une o sagrado ao domínio celeste confirma-se pela clara demarcação estabelecida entre a condição dos deuses e a do ser humano, designado pelo termo pancéltico *gdonios (gaulês *gdonios, irlandês antigo duine, galês dyn, córnico antigo den, bretão antigo don, den, bretão den), derivado do nome da terra, *gdū < proto-indo-europeu *dhêghōm, “possuidor de natureza terrestre”. Pode ser ainda percebido no nome nemeton atribuído por gauleses e gálatas ao santuário ou lugar consagrado, talvez formado sobre o nome céltico nemos, que designa o céu (cf. irlandês antigo nem, galês nef, córnico antigo nef, bretão antigo nem).

2 A crença, noção que fundamenta a relação entre os humanos e os deuses e que determina a instituição de comportamentos religiosos apropriados, exprime-se, no conjunto dos idiomas célticos insulares (irlandês antigo cretim, irlandês moderno credim, “eu acredito”, galês antigo credu, bretão krediñ, cornico crysy) por uma terminologia indo-europeia presente igualmente no latim (verbo crēdō, substantivo fidēs < *crēdēs) e nas línguas indo-iranianas (sânscrito, verbo śrad-dhắ e substantivo śraddhā; avéstico, verbo zraz-dā-), originária de um antigo composto verbal cujo protótipo pode ser reconstituído como *kred-dhē-, “colocar o coração”. O significado primordial do termo, que pode ser avaliado graças às acepções idênticas fornecidas pelos contextos religiosos védico e avéstico, não exprime a ideia de um credo teológico propriamente dito, mas remete a uma “manifestação de confiança” pronunciada por um indivíduo humano ante uma deidade, tendo o valor da consagração de uma oferenda. A “confiança” do fiel assemelha-se a uma virtude investida de poder mágico e presumia-se que a sua atribuição a uma divindade seria útil para que esta triunfasse nas suas lutas mitológicas. Esse ato concreto de “fé” comportava sempre a certeza de remuneração para o fiel em troca da parte mágica que o mesmo poderia desempenhar ao reforçar tal ou qual deus cuja causa tivesse escolhido apoiar.

3 Pode-se igualmente destacar o panceltismo das denominações de origem indo-europeia dos componentes da classe sacerdotal, pois vários dos nomes atestados na Gália possuem correspondentes exatos nas línguas insulares goidélicas e britônicas: 1. o bardo, gaulês bardos, “bardo, poeta”, irlandês antigo bard, “bardo, poeta”, rígbard, “bardo real”,  galês bardd, “cantor, poeta”, córnico antigo barth, “mimo, bufão”, bretão medieval barzh, “menestrel”; 2. o vate, gaulês uatis, “adivinho”, irlandês antigo fáith, “vidente, profeta, adivinho”, galês gwawd, “canção, poema, sátira”; 3. o druida, gaulês *druis, irlandês antigo druí, “mago, bruxo”; em galês medieval, sobreviveu somente no nome da carriça (Troglodytes troglodytes), dryw, “ave-druida”, permitindo supor certa unidade na organização do corpo sacerdotal, que possuía o domínio completo das atividades religiosas, quer se tratasse da elaboração e transmissão do saber teológico, da regulamentação e da execução do conjunto dos ofícios cultuais privados e públicos e dos ritos divinatórios, além de outras prerrogativas ligadas à justiça e à educação da juventude (“uma grande quantidade de rapazes vem aos druidas para instrução, tendo-os em grande respeito”, César, Comentários, VI, 13; “os druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade sobretudo. Os gauleses consideram os druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das disputas públicas e privadas”, Estrabão, Geografia, IV, 4, 4-5). Outro indicativo dessa unidade seria a cor branca das vestimentas do pessoal sacerdotal céltico tanto na Gália, quanto na Irlanda.

4 O vocabulário litúrgico céltico especializado em relação ao sacrifício, instituição central de toda religião, não chegou até nós, à exceção de um único termo relativo à oferenda sacrificial ou oblação. Não o conhecemos senão por meio das línguas insulares, pelas quais é compartilhado (irlandês antigo edbart/idbart, galês antigo aperth, galês médio aberth, “sacrifício” < proto-céltico *ad-ber-tā). Etimologicamente, pode ser entendido como “o que se traz” (a uma divindade), sentido conservado na semântica medieval, pois era usado como tradução do latim offerenda em referência à Eucaristia cristã.

5 Relativamente ao calendário religioso, embora os conhecimentos atuais sejam tristemente incompletos, sabe-se ao menos que os gaélicos da Irlanda e os gauleses possuíam certas celebrações em comum. É discutida a equivalência entre o Samuin irlandês e o Samon(ios) gaulês; talvez a festa da soberania em primeiro de agosto (Lugnasad em irlandês, “assembleia de Lug”) corresponda a uma possível celebração gaulesa que foi substituída pelo concilium Galliarum instituído por Roma em 12 aEC na capital de todas as Gálias, Lugdunum. Irlandeses e gauleses recorriam ambos a uma mesma terminologia indo-europeia, atestada igualmente em bretão e galês, para designar os tempos propícios dos seus calendários: na Gália, pode-se observar no calendário de Coligny que os meses de 30 dias (excetuando-se Equos) surgem acompanhados da notação mat(u-), “favorável, bom”, ao passo que os meses de 29 dias são nomeados anm(atu-), “desfavoráveis”; na Irlanda, maith < *mati- aplicava-se ao dia propício (Lebor na hUidre, fol. 61a, l. 5038: Iarfacht dia aiti, cia so sén & solud búi for in ló i m-bátar, in ba maith fá in ba saich, “um deles perguntou ao seu professor, que fortuna e presságio poderia haver para o dia em que estavam, se ele era propício ou nefasto”; Táin Bó Cúailgne, 7b). Assim, pode-se considerar que esse termo possuísse, na origem, um significativo valor religioso.

A julgar pelas correspondências dos respectivos vocabulários, os celtas continentais e insulares aparentavam possuir, em matéria de religião, uma base conceitual comum cujas chaves interpretativas encontram-se no fundo cultural religioso herdado dos indo-europeus.

Referências

Benveniste, Émile. Le Vocabulaire de Instituitions Indo-Européenes. Paris: Les Éditions de Minuit, 1969.
Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise. Paris: Errance, 2003.
Dumézil, Georges. La Religion Romaine Archaïque. Paris: Payot, 1974.
Le Roux, Françoise & Guyonvarc’h, Christian-Joseph. Les Druides. Rennes: Ouest-France, 1986.
Matasović, Ranko. Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden: Brill, 2009.
Windisch, Ernst. Die Altirische Heldensage Táin Bó Cúailgne. Leipzig: Verlag von S. Hirzel, 1905.

Anotações Druídicas I

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Anotações Druídicas I: a posição social dos druidas comparada à dos ἱερῆες homéricos ou onde estão os bardos e vates?

Bellou̯esus Īsarnos

Existia, no mundo céltico e no mundo homérico, uma espécie de “burguesia”, uma categoria de homens que ocupavam um lugar intermediário entre os proprietários ricos – na Gália, os cavaleiros, *epates (latim equites) – e os proletários, simples trabalhadores. Essa burguesia compreendia os adivinhos, μάντεις, mánteis (gaulês *u̯ātīs, *u̯elētes), os ἀοιδόι, aóidoi, ou bardos (*bardoi), os médicos, os operários cujo ofício exigisse um aprendizado, tais como os carpinteiros, os ferreiros, os esmaltadores. Na Irlanda e na Gália, incluía-se nessa burguesia o soldado profissional, que era desconhecido de Homero; entretanto, o comerciante não integrava a burguesia nem na Gália independente nem na Irlanda épica nem entre os helenos da “Ilíada” e da “Odisseia”.

O druida, proveniente da Grã-Bretanha em época mais recente (dando-se crédito a César [1]), não se posicionou nessa burguesia; elevou-se acima dela e, novamente segundo o general romano, atingiu quase o mesmo nível dos cavaleiros. A informação trazida por César está de acordo com a literatura épica da Irlanda.

Os druidas eram homens de posição muito superior à dos sacerdotes, ἱερῆες (hierēes), da “Ilíada”. Estes formavam um grupo à parte, distinto simultaneamente da burguesia e da aristocracia, porém sem grande influência; encontramos o equivalente na Gália Cisalpina no relato sobre o ano 216 aEC, na menção aos templi antistites que, entre os boios, bebiam no cálice feito do crânio do cônsul romano Lucius Posthumius (2); eram simplesmente os ministros de um templo, como o ἱερεύς (hieréus) homérico.

Abaixo dos druidas, os u̯ātīs e os bardoi ocupavam lugar análogo ao dos adivinhos, μάντεις, mánteis e ἀοιδόι, aoidói, na literatura homérica, onde a posição dos μάντεις era intermediária entre a aristocracia e a plebe, isto é, entre os ἄριστοι, áristoi, e os homens do povo, δῆμος, dēmos. Em Homero, formavam duas classes do importante grupo dos operários possuidores de um ofício que necessitasse de longo aprendizado e que, não possuindo fortuna própria, viviam de oferecer os seus serviços ao público, δημιοεργοί, dēmioergói. Tais operários, nos poemas homéricos, dividiam-se em cinco classes: 1a., os adivinhos; 2a. os homens que trabalham a madeira, os metais, a pedra, τέκτονες, téktones; 3a. os médicos; 4a. os aedos e 5a. os arautos (3).

César lançou na plebe gaulesa todo esse grupo de profissionais; não lhe era possível integrá-los às duas classes superiores: 1a. cavaleiros, equites; 2a. sacerdotes ou druidas, que, passado o período romano, reaparecem ambas na Idade Média (como nobreza guerreira e “príncipes” da Igreja Católica). César não concebia uma categoria intermediária entre a plebe e essa aristocracia meio militar, meio religiosa. Sendo ele próprio membro da aristocracia romana e pontífice, podia entender a posição do cavaleiro e do druida gauleses; para a “burguesia” gaulesa, entretanto, não tinha senão desprezo.

Há uma passagem de um dos livros perdidos de Posidônio de Apameia (c. 135 aEC – c. 51 EC) que justifica, de certo modo, a atitude de César ao menos em relação aos bardos: Louernius, pai do rei Bituitus, ofereceu ouro e um banquete público que durou vários dias a fim de ganhar o favor do povo. Certo bardo, chegando tarde para aproveitar a generosidade de Louernius, cantou um poema em que louvava a grandeza deste e se lamentava por seu atraso. Encantado, enquanto partia em sua carruagem, Louernius jogou ao bardo uma bolsa cheia de ouro. O poeta seguiu correndo ao lado do veículo a entoar louvores às marcas deixadas pelas rodas que “traziam áureos benefícios aos homens” (4).

Mais tarde, Bituitus, então rei dos alóbroges, enviou uma embaixada aos salúvios . Um bardo fazia parte do cortejo que acompanhou o embaixador, tendo como função cantar louvores ao rei Bituitus, aos alóbroges e ao embaixador, cujo nobre nascimento, bravura e riqueza elogiava ao acompanhamento da lira (6). Posidônio também descreveu os bardos como “companheiros de mesa e parasitas (isto é, aduladores) dos reis” (7). Assim, é compreensível que um “grande senhor” como César tenha relegado os bardos à plebe comum e não se tenha dignado a falar deles.

A respeito dos adivinhos, silêncio. Ficamos reduzidos às informações que nos foram prestadas pelos autores gregos, isto é, Diodoro Sículo, Timagenes e Estrabão. De acordo com Diodoro, todo o povo obedecia aos adivinhos (8). Para Estrabão, todas as tribos gaulesas reconheciam a honravam excepcionalmente três grupos de homens: os bardos, os vates e os druidas. Os bardos, cantores de hinos e poetas; os vates, que fazem sacrifícios e interpretam a natureza para adivinhar o futuro, e os druidas, que se ocupam da interpretação da natureza com idêntica finalidade e também com a filosofia moral (9). Dessa filosofia moral pouco se sabe. Diógenes Laércio, contudo, preservou um dos aforismos druídicos: “Quanto aos Gimnosofistas e aos Druidas, dizem-nos que comunicam sua filosofia por meio de enigmas, exortando os homens a reverenciar os deuses, abster-se de fazer o mal e praticar a bravura” (10). Os druidas, graças a sua reputação de “os mais justos dos homens” (Estrabão), chegaram a inspirar nas tribos uma tal confiança na equidade dos seus pareceres que o julgamento de todos os processos públicos e privados, sobretudo os casos de homicídio, era frequentemente entregue ao seu julgamento.

Se o testemunho de César fosse aceito literalmente, os druidas teriam julgado todos os processos (11). Existe nesse ponto, contudo, um exagero que fica evidente à simples leitura dos “Comentários”. Certas disputas entre os gauleses mencionadas em “Sobre a Guerra da Gália” não são julgadas pelos druidas, mas pelas assembleias tribais ou por magistrados eleitos. A verdade a esse respeito encontra-se em Diodoro, que reproduz com mais fidelidade o texto de Posidônio: “Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens [os druidas] e a seus poetas cantores [os bardos] e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; frequentemente, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas” (12). Observe-se a presença do advérbio “frequentemente” (πολλάκις, pollákis, no original) indicando que a arbitragem druídica não se dava em todos os casos, mas de forma recorrente. Desse modo, percebemos que os druidas gauleses possuíam uma grande influência política, embora não fossem homens de guerra, como os cavaleiros. Essa é a principal causa para a proeminência que César lhes atribuiu no Livro VI dos “Comentários”, totalmente desconsiderando bardos e vates.

Outrossim, já vimos que havia certa sobreposição entre as funções dos vates e as dos druidas. Na verdade, a ascendência moral dos druidas tornou-os indispensáveis à comunicação com os deuses por meio dos ritos sacrificiais, como ensinou Diodoro (13). A influência política e o poder religioso dos druidas permitiram a César (e a seus leitores) equipará-los aos pontífices, funcionários da mais alta importância para o estado romano e entre os quais o próprio César tinha lugar (14). É compreensível que tenham chamado especialmente a atenção do general romano.

Havia na Gália uma regra que teria contribuído muito para dar aos druidas a influência poderosa de que desfrutavam em detrimento dos u̯ātīs ou u̯elētes. Admitiu-se o princípio de que era impossível a realização de um sacrifício sem o concurso dos druidas. Essa parece ter sido uma lei absoluta, ainda que César nos fale somente da parte que ligava os druidas aos sacrifícios humanos (15). A consequência dessa lei era a impossibilidade, para os u̯ātīs, de proceder à divinação pelo sacrifício sem a cooperação dos druidas, o que os colocaria em posição de dependência destes quando se recorresse ao modo de divinação que parece ter sido o mais importante na Gália, a divinação pelo sacrifício humano. Eis, novamente, a razão pela qual César considerou os adivinhos gauleses como algo sem importância e deles não se ocupou.

A necessidade da intervenção dos druidas para a validade dos sacrifícios parece indicar que eram sobretudo sacerdotes. Apesar disso, seria grave equívoco igualar o druida gaulês ao ἱερεύς homérico.

O ἱερεύς homérico adivinha o futuro como o μάντις. Visto desse modo, assemelha-se ao druida, que adivinha o futuro como o u̯elēđ. Mas o ἱερεύς não está associado a uma corporação, como estavam os druidas. Ele liga-se a um templo, consagrado a uma divindade especial, e o ἱερεύς tem por única função o cuidado desse templo e o culto que nele recebe o deus. Assim aparece no Canto I da “Ilíada” o sacerdote de Apolo, Crises, cuja filha Agamênon captura e que vem a ser restituída graças à proteção do deus de que o sacerdote é servidor. No Canto V do mesmo poema, surge Dares, sacerdote de Hefesto, que tem dois filhos. Um destes é morto pelo heroi grego Diômedes; o outro escapa, evitando, pela proteção de Hefesto, a morte que Diômedes lhe daria. Hefesto desejava poupar ao velho pai o pesar doloroso que lhe causaria a perda dos dois filhos.

Na Grécia homérica, os ἱερῆες podiam auferir vantagens econômicas do seu ofício (16), o mesmo aplicando-se aos druidas da Gália, que, para começar, estavam isentos do serviço militar e do pagamento de quaisquer obrigações tributárias (17). Todavia, o ἱερεύς não ocupava a mesma posição de importância que o druida. A sua intervenção não era necessária à regularidade dos sacrifícios. Nenhum sacerdote intervém nos sacrifícios oferecidos pelos gregos. O exército grego não contava com capelães. É o rei supremo, Agamênon, que, antes da primeira batalha, oferece em sacrifício ao todo-poderoso filho de Cronos um boi gordo de cinco anos; é ele que, acompanhado de outros sete reis, dirige uma prece solene em nome das tropas ao grande Zeus. Nessa época, cada guerreiro em particular fazia, por seu interesse pessoal, um sacrifício ao deus pelo qual tivesse especial devoção. Quando se celebrou entre troianos e gregos um tratado que previa a solução do conflito entre as duas nações a um combate singular entre Páris e Menelau, foi mais uma vez Agamênon que, cercado por outros reis, invocou Zeus e cortou as gargantas dos cordeiros sacrificiais.

Da mesma forma, em Roma, sob a realeza, o soberano era o primeiro-ministro da religião e, ao mesmo tempo, o primeiro magistrado do estado. Ainda depois da queda da monarquia, o respeito ao rito primitivo conservou o título de rex sacrorum ou rex sacrificiorum (“rei dos sacrifícios”).

Vemos assim que, entre os gregos homéricos bem como entre os romanos do período mais antigo, a autoridade política do soberano misturava-se à autoridade religiosa. Para os gregos, à figura e atuação do ofício sacerdotal exclusivo faltava o peso da força política, ao passo que, para os gauleses, com a autoridade política e religiosa separadas, o ato sacrificial não poderia ser realizado senão pelo u̯ātīs com a participação do druida, ficando vedada a sua prática válida pelo magistrado supremo, fosse este hereditário ou eleito.

Cabia ao druida decidir quem poderia se comunicar com os deuses, sendo essa uma das principais fontes do seu poder.

Notas

1) Caio Júlio César (100 aEC – 44 aEC), Commentarii de Bello Gallico, VI, 13.

2) Tito Lívio (c. 59 aEC — 17 EC), Ab Vrbe Condita Libri, XXIII, 24: Ibi Postumius omni ui ne caperetur dimicans occubuit. Spolia corporis caputque praecisum ducis Boii ouantes templo quod sanctissimum est apud eos intulere. Purgato inde capite, ut mos iis est, caluam auro caelauere, idque sacrum uas iis erat quo sollemnibus libarent poculumque idem sacerdoti esset ac templi antistitibus (ali Posthumius caiu, lutando com toda a sua força para não ser capturado. Os boios cortaram a sua cabeça, e carregaram-na e aos espólios que roubaram de seu corpo em triunfo ao mais sagrado templo que possuíam. Depois disso, limparam a cabeça de acordo com seu costume e, tendo coberto o crânio com ouro batido, usaram-no como cálice para libações em seus festivais solenes e taça de beber para seus altos sacerdotes e outros ministros do templo).

3) Homero, Odisseia, XVII, 383-385: […] ἄλλον γ᾽, εἰ μὴ τῶν οἳ δημιοεργοὶ ἔασι, / μάντιν ἢ ἰητῆρα κακῶν ἢ τέκτονα δούρων, / ἢ καὶ θέσπιν ἀοιδόν, ὅ κεν τέρπῃσιν ἀείδων; ([…] a menos que seja um daqueles que são mestres de algum ofício público, / um profeta, ou um curador de enfermidades, ou um construtor, / sim, ou um sublime intérprete, que oferece deleite com o seu cantar?).

4) Citado por Ateneu de Náucratis, Deipnosophistaí, L. IV, 152e.

5) No ano 121 aEC.

6) Apiano de Alexandria (c. 95 – c. 165 EC), Fragmenta de Rebus Gallicis, XII.

7) Diodoro Sículo (séc. I a EC), Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes.

8) Estrabão (64/63 aEC – 24 EC), Geōgraphiká, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objeto de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas; Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza; Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas.

9) Diógenes Laércio (séc. III d. C.), Bioi kai gnomais ton en philosophian eudokimesanton, I, 6.

10) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

11) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 13: Sem dúvida, os Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer homicídio foi feito, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições.

12) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31.

13) Diodoro Sículo, Bibliotheca Historica, V, 31: […] e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um “filósofo” [isto é, um druida], pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens que, pensam eles, do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas […]

14) César deteve a posição de Pontífice Máximo de Roma de 63 aEC até a sua morte, 19 anos mais tarde.

15) César, Commentarii de Bello Gallico, VI, 16: Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então lhes põem fogo, perecendo todos nas chamas. Acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses, mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

16) V. Odisseia, IX, 193-205; 346-396, onde se mencionam as riquezas de Marão, sacerdote de Apolo.

17) César, Comentarii de Bello Gallico, VI, 14.