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Ys

Uma Lenda Bretã
(fonte)

Aqui está a história do Rei Gradlon e da Cidade de Ys. O Rei Gradlon vivia na Cornualha. Ele possuía uma frota de muitos navios que gostava de opor a seus inimigos, muitas vezes em países distantes onde o clima era frio. Era um excelente marinheiro e estrategista e freqüentemente vencia suas batalhas, saqueando os navios oponentes e enchendo suas arcas com ouro e troféus.

Um dia, seus marinheiros, cansados das lutas nesses países frios, rebelaram-se, recusando-se a atacar o castelo que lhes fora prometido. Muitos deles morreram durante o inverno. Eles decidiram voltar a seus barcos e retornar a sua terra, a Bretanha, para encontrar as esposas e filhos que lá viviam em paz. O Rei Gradlon deixou-os partir e viu-se só na noite fria.

Ele fora dominado por seus próprios homens e, depois da intensa excitação das lutas e vitórias, conheceu uma tristeza profunda. O rei subitamente sentiu uma presença ao seu redor. Ele levantou a cabeça e viu, alva sob o luar e vestindo uma couraça brilhante da luz das estrelas noturnas, uma mulher de longo cabelo vermelho. Era Malgven, a Rainha do Norte, soberana boreal reinando sem oposição sobre os países frios.

Ela disse ao Rei Gradlon: “Eu te conheci, és corajoso e hábil no combate. Meu marido é velho, sua espada está enferrujada. Tu e eu iremos matá-lo. Então tu me levarás ao teu país da Cornualha.”

Eles mataram o velho Rei do Norte, encheram uma arca com ouro e, como Gradlon não tinha mais navio, montaram em Morvarc’h, o cavalo mágico de Malgven. Morvarc’h significa “cavalo do mar”, ele era negro como a noite e soprava fogo por suas narinas. O cavalo galopava na crista das ondas e eles rapidamente se reuniram aos barcos do rei que voltavam para a Cornualha. Uma tempestade violenta e um temporal de raios começaram então, espalhando os navios pelo oceano.

Gradlon e Malgven ficaram um ano inteiro no mar. Certo dia, num navio, Malgven deu à luz uma criança, uma menina chamada Dahut. Desafortunadamente, a rainha ficou doente e morreu. O Rei Gradlon e sua filha, Dahut, voltaram para a Cornualha. Mas o rei estava tão triste que ele nunca saía de seu castelo.

Dahut cresceu, ela era muito bela, como Malgven, sua mãe. O Rei Gradlon gostava de brincar com os cachos de seu longo cabelo dourado. Dahut gostava do mar. Um dia, ela pediu a seu pai que construísse uma cidade, uma cidade próxima ao mar.

O Rei Gradlon amava sua filha e concordou. Muitos milhares de operários começaram e construir a cidade que parecia emergir do mar. Para prevenir contra as altas ondas e a tempestade, foi construído um altíssimo dique que circundava a cidade com uma única e fechada porta de bronze que dava acesso a ela. O Rei Gradlon era o único que tinha a chave. Ela foi chamada a cidade de Ys.

Os pescadores viam na praia, a cada entardecer, uma mulher que cantava em alta voz, penteando seu comprido cabelo loiro. Era a princesa Dahut. Ela dizia:

Oceano, belo Oceano azul, rola-me na areia, sou tua prometida,
Oceano, belo Oceano azul.
Nasci no mar, entre as ondas e a espuma, quando era uma criança,
eu brincava contigo.
Oceano, belo Oceano azul, rola-me na areia, sou tua prometida,
Oceano, belo Oceano azul.
Oceano, que decides quais navios e homens voltarão, dá-me os naufrágios
dos navios suntuosos e suas riquezas, ouro e tesouros.
Traze à minha cidade lindos marinheiros que eu possa admirar.
Não sejas ciumento, eu os devolverei a ti um após o outro.
Oceano, belo Oceano azul, rola-me na areia, sou tua prometida,
Oceano, belo Oceano azul.

A cidade de Ys tornou-se um lugar onde as pessoas podiam divertir-se e encheu-se de marinheiros. Cada dia via novas festas, jogos e danças.

A cada dia, a princesa Dahut tinha um noivo novo. Ao entardecer, ela colocava uma máscara preta sobre o rosto dele, ele permanecia com ela até de manhã.

Assim que o canto da cotovia era ouvido, a máscara apertava-se na garganta do rapaz e sufocava o noivo da noite anterior. Um cavaleiro levava o corpo em seu cavalo para lançá-lo no Oceano, além da Baía dos Mortos. Assim, todos os noivos de Dahut morriam quando a manhã chegava e eram jogados no mar.

Certo dia de primavera, um estranho cavaleiro chegou à cidade de Ys. Ele estava vestido em vermelho, suas mãos eram longas e finas, suas unhas pontudas e recurvadas. Dahut sorriu-lhe, o cavaleiro sequer olhou para ela. Ao entardecer, ele aceitou aproximar-se dela. Por um longo tempo ele passou suas mãos compridas com unhas pontudas no belo cabelo dourado da princesa.

Subitamente, veio do mar um grande barulho e uma terrível rajada de vento golpeou as muralhas da cidade de Ys. “A tempestade pode rugir, as portas da cidade são fortes e é o Rei Gradlon, meu pai, quem possui a única chave, amarrada ao seu pescoço”, disse Dahut.

“Teu pai, o rei, dormiu, podes agora pegar a chave facilmente”, respondeu o cavaleiro.

A Princesa Dahut entrou no quarto de seu pai, lentamente se aproximou dele e pegou a chave, presa a uma corrente em volta do seu pescoço. Imediatamente, uma enorme onda, mais alta do que uma montanha, caiu sobre Dahut. Seu pai acordou e ela lhe disse: “Pai, depressa, temos de tomar o cavalo Morvarc’h, o mar derrubou os diques”. O rei colocou sua filha em cima do cavalo, o mar estava furioso. O cavalo empinou-se sobre a água que estava subindo com grandes bolhas. Dahut agarrou-se a seu pai e disse-lhe: “Salva-me, meu pai!”

Então houve um grande relâmpago na tempestade e uma voz falou, alcançando de rochedo a rochedo: “Gradlon, afoga a princesa”.

Uma forma pálida como um morto apareceu, envolvida numa grande veste castanha. Era São Guenole, que disse à princesa: “Vergonha e infortúnio estejam contigo, tentaste roubar a chave da cidade de Ys!” Dahut respondeu: “Salva-me, leva-me ao fim do mundo!” Mas o cavalo Morvarc’h não se movia mais e as águas furiosas os envolviam. São Guenole repetiu sua ordem a Gradlon: “Afoga a princesa!”, ondas enormes estavam nos pés deles. Dahut escorregou para o chão e o Rei Gradlon, furioso, empurrou sua filha para dentro do mar. As ondas se fecharam sobre a princesa. O mar inundou a cidade de Ys, cujos habitantes morreram todos afogados.

O cavalo do rei moveu-se de novo, saltando na praia e então atravessando prados e colinas, galopando a noite inteira. Gradlon chegou à cidade onde dois rios unem-se entre sete colinas, Quimper. Ele decidiu fazer dela sua capital e ali viver o resto de seus dias. Quando morreu, sua estátua foi esculpida em granito. Essa estátua está ainda entre as duas torres da catedral de São Corentin, em Quimper. Ela representa o Rei Gradlon a cavalo, olhando na direção da cidade desaparecida.

As pessoas dizem que Dahut, depois de sua morte, tornou-se uma sereia e que ela aparece aos pescadores nas noites de luar, penteando seu longo cabelo dourado. Também dizem que, quando o tempo está bastante calmo, é possível ouvir os sinos da cidade desaparecida.

Gwelas-te morverc’h, pesketour
O kriban en bleo melen aour
Dre an heol splann, e ribl an dour ?
Gwelous a ris ar morverc’h venn,
M’he c’hlevis o kanann zoken
Klemvanus tonn ha kanaouenn.

Pescador, viste uma menina do mar
penteando seu comprido, dourado cabelo
enquanto o grande sol brilhava aqui, às margens do mar?
Eu vi a branca filha do mar,
Eu até mesmo a ouvi cantar,
Lamentosas eram a melodia e a canção.

A lenda conta que a cidade de Ys ficava na Baía de Douarnenez. O lugar chamado Pouldavid, distante uns poucos quilômetros a leste da cidade de Douarnenez, é a forma francesa de Poul Dahut, o “buraco de Dahut” em bretão, e indica o local onde a princesa foi engolida pelas ondas.

Diz-se também que a cidade de Ys era a mais bela capital do mundo e que Lutécia foi chamada de Paris porque par Ys significa “como Ys” em bretão.

Dois provérbios populares bretões testemunham-no:

Abaoue ma beuzet Ker Is
N’eus kavet den par da Paris.

Desde que foi afundada a cidade de Ys,
Ninguém encontrou uma igual em Paris.

Pa vo beuzet Paris
Ec’h adsavo Ker Is.

Quando Paris for engolfada,
A cidade de Ys reemergirá.

Tradução: Bellouesus /|\