Arquivo da categoria: Arqueologia

Ancient Celts

Ancient Celts from Hallstatt (7th c. BC) up to the Lords of the Isles (14th c. AD). All pictures: Newark, Tim & McBride, Angus. Ancient Celts.

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Generalidades sobre os sepultamentos célticos

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Milhares de tumbas foram desenterradas no território da antiga Gália e estudadas, o que nos permite saber bastante sobre os costumes funerários dos celtas. Enterros individuais não eram para todos: alguns corpos, principalmente de crianças, eram simplesmente colocados em buracos. A maioria, no entanto, era depositada no solo consagrado de cemitérios, que se localizavam longe do centro das povoações, algumas vezes separados do território dos vivos por um fosso e um cercado.

chariot4Por volta do séc. V a. C., os castros hallstatianos (de Hallstatt , na Áustria) estavam sendo abandonados e novos centros de riqueza, conhecidos como latenianos (de La Tène, na Suíça), ganhando destaque. Sem dúvida, esse foi o resultado de mudanças nos padrões de comércio que se seguiram à vitória dos etruscos sobre os gregos (Batalha de Alalia, etruscos e cartagineses contra gregos, começo do séc. VI a. C.). Os celtas da Boêmia (na atual República Tcheca), da Renânia (na Alemanha) e da Champanha (na França) estavam melhor situados para lucrar com as novas rotas de comércio e os padrões de dominação e autoridade também mudaram. Os grandes príncipes da aristocracia mercantil-militar do período anterior perderam o poder de controlar vastas áreas e sua riqueza diminuiu proporcionalmente. Ao morrer, seus corpos passaram a ser submetidos a formas de sepultamento mais democráticas em cemitérios onde indivíduos de outras classes sociais eram enterrados também. Até mesmo as carruagens cerimoniais sinalizaram esse declínio econômico, sendo o modelo de quatro rodas substituído pelo de duas. Apesar disso, um chariot2guerreiro seria ainda enterrado com sua couraça e armas e não raro com outros artigos úteis, incluindo pedaços de carne, comumente de porco ou cachorro. Ao longo desse período (e por séculos ainda), as migrações continuaram como resultado provável do crescimento populacional. Tribos célticas já estabelecidas no nordeste da Gália atravessaram os Alpes e fixaram-se na Itália, pilhando Roma no começo do séc. IV a. C.

Outras, partindo da Renânia e da Boêmia, atravessaram os Bálcãs para saquear a Hélade, atingindo mesmo os venerados santuários de Delfos antes de dirigir-se à Ásia Menor (a território da atual Turquia), onde se tornaram conhecidos como gálatas. Por volta do séc. III a. C., os belgas tinham ocupado o norte da França e parte das Ilhas Britânicas. Também nesse período a cunhagem de moedas foi introduzida iacwno mundo céltico. Do séc. V ao meio do séc. III a. C., o sepultamento deu lugar à cremação, ambas as práticas coexistindo ocasionalmente no mesmo cemitério. Normalmente, apenas uma pessoa era enterrada numa cavidade retangular, deitada de costas, a cabeça voltada para o oeste e acompanhada (a não ser que muito pobre) por várias oferendas, como vasos de cerâmica, pedaços de carne – evidências de
uma crença no pós-vida – e artigos pessoais em conformidade com sua posição social. Mulheres de certo destaque conservavam sua joias, usualmente um torque, braceletes, tornozeleiras e aneis, estes mais raros. Guerreiros, que tendiam a ser as pessoas mais ricas depois dos líderes tribais e cujas tumbas eram certas vezes diferenciadas por seu formato quadrado, eram também enterrados com seus torques, fíbulas (broches ou fivelas usados pelos antigos para segurar e compor trajes como mantos e túnicas), braceletes e couraça.

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Foram encontradas tumbas do séc. III a. C. em que escudos ovais de madeira foram depositados sobre os corpos de guerreiros mortos, enquanto espadas de ferro com sua bainha e uma lança completavam o conjunto. Nesse mesmo período, a cremação tornou-se a prática generalizada. As cinzas dos mortos, que teriam sido incinerados em uma pira com alguns de seus pertences pessoais, eram deixadas numa cavidade ou numa urna em um buraco, por vezes dentro de um recinto, e ocasionalmente acompanhadas de oferendas que com  frequência se limitavam a cerâmicas.

Alguns dos objetos que foram escavados sem dúvida possuíam significado ritual. As couraças são frequentemente encontradas com mutilações deliberadas, partidos os escudos e entortadas as espadas para que não mais possam ser usados. O simbolismo envolvido é claro. Entre os objetos mais enigmáticos incluem -se rasas colheres pontudas semelhantes a folhas, com cabos curtos. Esses artigos têm sido encontrados aos pares acompanhando taças igualmente rasas de manufatura semelhante em sepulcros da Gália e de diferentes regiões das Ilhas Britânicas.

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Um desses pares de colheres traz gravada uma cruz que talvez represente as quatro estações do ano ou as fases lunares. É possível bucketsomente especular a respeito de qual teria sido seu papel nas cerimônias fúnebres. É também comum se encontrar entre os bens sepulcrais um balde de madeira com peças de fixação de bronze belamente ornamentadas, talvez relacionado à limpeza do corpo do defunto. Sabe-se que os celtas eram surpreendentemente higiênicos em seus hábitos, pois foram precursores no uso do sabão.

Referências

Les Celtes (W. Kruta)
Les Gaulois (J. L. Brunaux)
Les Religions Gauloises (J. L. Brunaux)
La Religions des Celtes (J. Vendryes)
Pratiques Funéraires et Sociétés de l’Âge du Fer dans le Bassin Parisien (L. Baray)
Nos Ancêtres les Gaulois (R. Grimaud)

Bellouesus /|\

O Politeísmo Naturalista na Religião Gaulesa

G. Roth e F. Guirand

poli1p. 203

Politeístas como todos os primitivos (1), os gauleses veneravam principalmente divindades tópicas (isto é, ligadas a um local determinado) ou regionais.

O Culto das Águas

Os lugares elevados, os picos dos montes, eram por eles divinizados. O pico do Ger (Garrus deus), nos Baixos Pirineus, permaneceu nessa condição até o fim da dominação romana, enquanto os outros picos desceram pouco a pouco da posição de deuses para a de moradas de deuses. Por exemplo, Dumias, nome do deus tutelar de Puy de Dôme, acabou por tornar-se um simples epíteto ligado a Mercurius, cujo templo e estátua localizavam-se nesse cume.

Contudo, a religião naturalista dos gauleses aparece mais destacadamente no culto das águas (rios, poços, fontes). Diva, Deva, Divona, “a Divina” era uma designação frequente dos rios gauleses, o que ainda testemunham seus nomes atuais: Dive, Divone, Deheune. Nemausus, deus tutelar da cidade de Nîmes, era o gênio de sua fonte; Icaunus, o de Yonne, etc. Numerosos eram os gauleses da Bélgica que se orgulhavam do nome Rhenogenus, “filho do Reno”. Borvo, Bormo ou Bormanus (“o Borbulhante”), deus das fontes termais, deu seu nome a muitas de nossas estações onde jorram águas quentes: La Bourboule, Bourbonne, Bourbon-Lancy ou L’Archambault.

A mais característica dessas divindades era a deusa Epona. vista sempre acompanhada de um cavalo,poli2 com o qual forma um grupo inseparável. Na maioria das vezes, ela está sentada de lado em sua montaria. Envolta em um manto drapeado e adornada com um diadema, seus atributos são um corno da abundância, uma pátera e frutos. É, portanto, a deusa da abundância agrícola. Contudo, não é a água que traz fertilidade ao solo? Com efeito, Epona é uma divindade das águas, exata correspondente da fonte Hipocrene. Seus dois nomes equivalem [ao grego] (epos, ona = hippos, krêne) e significam “fonte equina” (2). Quanto à presença do cavalo ao lado dessa deusa, é suficiente recordar o lugar que esse animal possui na lenda de Posêidon.

Muito popular na Gália, como o atestam as numerosas representações de Epona que foram conservadas, seu culto foi posteriormente importado pela Itália e pela própria Roma. Seu significado primitivo, no entanto, foi esquecido. Epona tornou-se a deusa protetora dos cavalos; é por isso que se colocavam suas imagens nos estábulos.

Culto das Árvores

As águas fecundam as florestas. Também os gauleses não esqueceram de adorar as árvores e bosques. Vosegus foi o deus tutelar dos “Vosges” silvestres; Arduina, a ninfa das “Ardennes”; Ardnoba, a da Floresta Negra.

Na região dos Pirineus, muitas inscrições latinas dão-nos a conhecer os deuses-árvores: Robur (o carvalho-branco), Fagus (a faia), Tres Arbores (Trois-Arbres [três árvores]), Sex Arbores (Six-Arbres [seis árvores]), Abellio (a macieira; cf. apple, apfel nos idiomas germânicos), Buxenus (o buxo).

poli3Respeitado em toda a Gália, o carvalho pôde ser considerado por certos cronistas como o deus supremo dos gauleses. “É nos bosques de carvalhos que que os druidas têm seus santuários”, assegura-nos Plínio, o Antigo (História Natural, XVI, 249), “e não realizam qualquer rito sagrado sem as folhas do carvalho. Acreditam que a presença do visco revela a presença do deus sobre a árvore que o porta… Colhem-no com grande cerimônia. Depois de ter sacrificado dois touros brancos, um sacerdote, vestido com uma túnica branca, sobe na árvore e corta com uma foice áurea o visco, que será recolhido em um manto branco.”

A veneração dessa planta deixou traços em nossos costumes (2). Muitas pessoas consideram-na, sincera ou jocosamente, como um amuleto de boa sorte. E a força dessa tradição é ainda mais ativa no outro lado da Mancha (4).

Culto dos Animais

Os gauleses igualmente adoravam

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diversos animais. Cavalo, corvo, touro e javali eram animais sagrados que deram seus nomes a certas cidades (Tarvisium, Lugudunum [de lugus, “corvo”]) ou tribos (Taurisci, Brannovices, Eburones) e dos quais encontramos muitas representações em moedas e baixos-relevos. Nas Ardennes venerava-se o javali; os helvécios das proximidades de Berne adoravam a deusa Artio (= “a ursa”), na qual seria talvez ousado enxergar a equivalente da Ártemis grega.

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Vê-se no museu de Avignon, sob a denominação de “monstro de Noves”, um urso sentado sobre as patas traseiras; com suas mandíbulas esmaga um braço humano e cada uma de suas patas dianteiras  repousa sobre uma cabeça humana. Concorda-se em reconhecer nesse monstro devorador algum ídolo primitivo.

No número dos deuses zoomórficos podem-se classificar também as serpentes com cabeça de carneiro que aparecem em diversos monumentos. Estão geralmente ligadas a um deus que as agarra pelo pescoço ou as mantém nos joelhos. Essa última postura parece afastar a ideia de uma luta entre o deus e as serpentes. Deve-se, portanto, vê-las como divindades ctônicas. O mesmo aplica-se à serpente chifruda que aparece ao lado do Mercúrio gaulês.

Entre os animais divinizados, o que parece ter sido objeto de um culto bastante difundido é o touro.  O fato nada possui de surpreendente, sendo esse animal o símbolo da força e do poder gerador e tendo sido divinizado de forma semelhante em outras mitologias. Pensemos, por exemplo, no touro cretense. O touro gaulês, porém, apresenta-se com certas peculiaridades assaz curiosas.

Em um altar galo-romano exumado do solo de Paris está esculpido um touro em pé próximo de uma poli5árvore; ele traz duas garças no dorso e uma na cabeça; é o Tarvos Trigaranus (“Touro com as Três Garças”). Questiona-se qual poderia ser o significado das três garças associadas ao touro. É verdade que esses mesmos pássaros encontram-se nos relevos do arco do triunfo de Orange e surgem repetidamente nos relatos da epopeia irlandesa. Não obstante, ao nos recordarmos de que há na mitologia gaulesa um deus tricéfalo – a que posteriormente nos referiremos – e que, por outro lado, possuímos figuras de touros com três chifres, pensou-se que o epíteto trigaranus não seria mais que uma deformação de trikaranos, com três cabeças, e que o touro primitivamente adorado seria um touro tricéfalo, relacionado ao deus tricéfalo Cernunnos.

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Fonte: Guirand, Félix (direction). Mythologie Générale. Librairie Larousse. Paris (VIe.). 13 a 21, Rue Montparnasse, et Boulevard Raspail, 14. 1935. pp. 203-204.

Notas:

(1) O texto, embora útil, é sob alguns aspectos bastante datado. Igualar “politeísmo” a “primitivismo” é somente um deles (Nota do Tradutor).

(2) Quando esse texto foi escrito, era bem menor do que hoje o conhecimento da antiga língua gaulesa. Sabe-se agora que o sufixo -(o)n- (também encontrado nos nomes de outros deuses, como Map-o-n-os, Vind-o-n-os, Rigant-o-n-a) é um aumentativo que significa “grande e divino”. Assim, Epona significa não “fonte [ona] do cavalo [epos]” (a tradução da Hippokrene grega), mas “a grande égua divina”. Talvez o entendimento do autor deva-se à lembrança da palavra “onno” do Glossário de Endlicher, que o escriba medieval traduz pelo latim flumen, i. e., “rio” (Nota do Tradutor).

(3) Entenda-se: dos franceses (Nota do Tradutor).

(4) Isto é, nas Ilhas Britânicas (Nota do Tradutor).

Tradução: Bellouesus /|\

O Tesouro de Vix 2

A mais rica descoberta da Gália independente

O Tesouro de Vix

5 O corpo de uma mulher esplendidamente enfeitado

No centro da sala funerária repousava o corpo de uma jovem mulher, com o busto elevado. Os ossos haviam sofrido muito com a longa estada em um meio úmido: nada restava dos pés, das mãos e das costelas, mas o crânio apareceu num estado bastante bom de conservação, ornado por um admirável diadema de ouro.

A morta havia sido enterrada com seus mais belos adornos – dos quais somente os sete alfinetes que os prendiam foram encontrados. No pescoço, estava pendurado um colar de pérolas âmbar, de diorito e de serpentina; cada pulso estava enfeitado com uma pulseira de pérolas âmbar, enfiadas numa estreita lâmina de bronze e três braceletes de xisto; uma argola de bronze circundava cada tornozelo.

Além disso, na altura da bacia do esqueleto jazia um colar de metal – o característico colar gaulês – em bronze enrolado, enfeitado com uma correia de couro enrolada em espiral. Teria ele sido colocado tarde demais sobre o corpo da morta? Não podemos dizer.

Desde já poderíamos comentar sobre essas jóias. Umas eram de fabricação indígena, outras – aquelas enfeitadas com âmbar – denotavam uma importação pelo menos de material. Mas a peça mais sensacional, sobre a qual as pessoas não cessarão de dissertar, é justamente o diadema de ouro, encontrado sobre o crânio do cadáver. Sem considerar o seu peso – 480 gramas de metal fino de 24 quilates -, ele é uma das mais importantes peças de ourivesaria que o mundo antigo já nos legou.

Uma das partes que compõem o diadema envolve a cabeça sensivelmente semicircular, cujas extremidades representam patas de leão prendendo bolas ornamentadas por desenhos geométricos muito variados e de execução extremamente delicada. No interior da curvatura, atrás das patas de leão, o artista colocou um pequeno cavalo alado, um Pégaso.

Essa jóia era colocada verticalmente: o semicírculo repousava sobre o alto do crânio e as bolas do acabamento ficavam diante das orelhas. Sob esse aspecto, ele se diferencia das coroas ou diademas que os mundos grego ou ítalo-grego nos tenham legado e não há um similar conhecido. Mas não reside nisso toda a sua originalidade: sua própria execução é excepcional. René Joffroy sublinhou: “Na maioria das vezes, coroas e véus encontrados nos túmulos são constituídos por finas folhas de ouro recortadas em forma de motivos vegetais, imitando a folhagem da videira, da hera, da murta ou do louro; flores e frutas juntam-se para enriquecer o conjunto que dá uma impressão de sobrecarga um pouco confusa. Com o diadema de Vix, nada disso se passa: linhas sóbrias, nítidas, uma simplicidade espantosa; a joia é extremamente despojada e a beleza reside antes de tudo nesta austeridade.”

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Logo, esse diadema de Vix é verdadeiramente excepcional. Mas de onde ele provém? Onde foi fabricado? Nem na Etrúria, nem na Grécia, pois ele não lembra em nada a arte ou a técnica dessas regiões. Então, René Joffroy procurou um pouco mais longe e aqui nós podemos deixar-lhe a palavra: “O aspecto geral dos pequenos cavalos nos traz alguns elementos de localização não desprezíveis. Esses cavalos, com seus longos pelos cobrindo todo o corpo, sua crina reta, elevada, seu pescoço forte e curto, fazem lembrar os cavalos asiáticos. Sem procurarmos ver neles uma representação absolutamente fiel, diante desses modelos lembramo-nos do cavalo de Pjervalski ou mesmo do tarpan, espécies atualmente relegadas às estepes desérticas. Parece bastante plausível considerar, como local de fabricação do diadema, a Rússia meridional, mais particularmente a Cítia ou o Quersoneso; na ausência de qualquer ponto de comparação, julgamos que se pode, embora com reservas, qualificar esta joia de greco-asiática.”

Não é uma surpreendente descoberta, uma emocionante revelação,a presença, no túmulo de Vix, dessa extraordinária jóia que teria sido executada por longínquos ourives, a milhares de quilômetros de distância? Das margens do Dnieper às margens do Sena: houve aí um curso sem dúvida misterioso, mas comandado por uma busca comum da raridade e da beleza.

6 Um carro excepcional  

O corpo da defunta repousava dentro de um carro. Encontrou-se na Europa ocidental um certo número de carros funerários proto-históricos, mas nenhum atinge o rebuscamento artístico e o aperfeiçoamento técnico daquele de Vix. Ele era composto de um caixão colocado sobre quatro rodas e – tudo leva a supor – dotado de um jogo de rodas dianteiro dirigido por um timão.

Certamente que o veículo não foi encontrado em perfeito estado, mas os elementos descobertos permitem sua reconstituição. Dentre estes, as rodas, que haviam sido desmontadas e colocadas contra a face lateral do jazigo. De 75cm de diâmetro, elas comportavam dez raios munidos de uma fina bainha de bronze e a trava das rodas era de ferro. Mas as peças mais interessantes, mais extraordinárias, que se mantiveram intactas, são os cascos de bronze que envolviam inteiramente o cubo das rodas e que se completavam por um disco fixado por uma chaveta, formando uma calota. Cada um desses revestimentos compunha-se de oito peças independentes que se encaixavam uma dentro da outra. Fica-se admirado diante da ciência e da habilidade do artesão que as executou. Dir-se-ia uma das obras-primas realizadas, no período áureo do artesanato, pelos operários da periferia da França.

vix5O cofre do carro era em madeira, decorado por placas de metal e recoberto com um toldo de cores vivas, do qual se encontraram os pigmentos. Evidentemente, um tal carro, de tal delicadeza de execução, não poderia ser um veículo utilitário. Seria ele atrelado? Não é o que se pensa, pois não foi encontrado nenhum elemento de arreamento. Sem dúvida, era um carro de solenidades ou um veículo de procissão, que devia ser simplesmente arrastado por homens.

Uma coisa extraordinária: embora o carro com timão fosse conhecido pelo menos desde o séc. V antes de nossa era, como o prova o achado de Vix, ele não mais é encontrado na Antiguidade posterior. Por quê teria sido esse modelo abandonado, desde que trazia uma solução tão revolucionária e tão prática para o problema do transporte? Esse é um mistério que não se pode explicar. Deve-se supor que o carro de Vix foi um protótipo e que continuou como tal, sem acarretar uma fabricação em série?

7 O maior vaso da Antiguidade

Em um dos cantos do sepulcro jazia a cratera gigante, cujas dimensões disputam com a beleza e que, como já dissemos, foi o primeiro objeto exumado. Após a hábil restauração a que foi submetida, ela reaparece, dois mil e quinhentos anos depois, em todo o seu esplendor, recoberta por uma bela pátina, feita de mornos matizes de verde, sob a qual transparece o amarelo-dourado do bronze original.

Esse recipiente, o maior que nos foi legado pela Antiguidade, é realmente grandioso. Cabe citar asvix6 medidas. sua altura total é de 1,64m; isso quer dizer que atinge a altura de um homem mediano. O diâmetro do bojo é de 1,27m e o da abertura é de 1m. A capacidade é de 1.100l. O peso? Exatamente 208 quilos e 600 gramas.

Não há perfil mais harmonioso, composição melhor estudada. Não há tampouco ornamentação mais refinada. Por seu volume, como também pela extensão de sua decoração, esse vaso, ao que se tem escrito, revela mais da escultura monumental que da arte do cinzelador.

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O olhar detém-se primeiramente sobre as alças que são profunda e delicadamente trabalhadas. Elas se unem tão agilmente à cratera, sem torná-la pesada, que jamais se suspeitaria de seu enorme peso: 46kg cada uma (notemos, a título de comparação, que uma alça da mesma época e do mesmo tipo conservada no museu do Louvre, e que pertenceu a um vaso considerado até o momento como de grande tamanho, não pesa mais de 3,5kg).

Essas alças são feitas com uma grande voluta cuja base se apóia sobre um busto de Górgona, com o rostovix8 contraído formando caretas, com uma boca enorme de onde sai uma língua grossa. Eis aí, em sua representação clássica, essa deusa-monstro, sem dúvida Medusa, a única mortal das três Górgonas, que era objeto de horror e de espanto e à qual somente Poseidon, o deus do mar, famoso por seus amores numerosos e sempre fecundos, ousou unir-se, gerando o gigante Crisaor e o cavalo alado, Pégaso. O bronze fixou seus olhos, que eram, segundo dizem tão penetrantes que todo aquele que cruzasse seu olhar era transformado em pedra; ele reproduziu também sua bela cabeleira, caindo em grandes tranças, da qual asseguravam que um único cacho, apresentado a um exército agressor, levava-o à derrota. O busto é recoberto por um corselete, uma espécie de roupa de malha colante; prolonga-se em duas grossas serpentes que, em sua extremidade, apóiam-se sobre o bojo do vaso. Os braços são separados e sustentados por uma serpente menor, cuja cabeça triangular é erguida e ameaçadora. O vazio existente no interior das volutas foi habilmente preenchido por dois leões sob cada alça – motivos de notável interpretação, que dão, apesar de suas dimensões muito limitadas, uma grande sensação de vida.

vix9O pescoço da cratera é decorado com um friso de relevos reproduzindo um motivo que se repete oito vezes: uma parelha de cavalos, puxando um carro montado por um cocheiro, enquadrado por infantes. Estes são vestidos por uma couraça moldando o busto e deixando livre a parte inferior do corpo. suas pernas são protegidas por cnêmides (perneiras) e sua cabeça é enfeitada com um capacete coríntio, com uma enorme cimeira, um grande penacho, escondendo em parte o rosto por viseiras. Eles seguram no braço esquerdo um grande escudo redondo, enquanto, com o outro, seguram uma arma – sem dúvida uma lança – que hoje em dia infelizmente desapareceu.

O carro de guerra é de modelo bem conhecido, com duas rodas amparando uma caixa leve atravessada por uma barra. O condutor tem o mesmo capacete que os infantes, mas, em lugar de uma couraça, ele usa uma grande túnica. Cada carro é puxado por quatro cavalos colocados na frente. Nenhuma religiosidade, nenhuma frieza neste desfile guerreiro: o passo decidido dos infantes, o arrebatamento contido das parelhas dão a essas cenas um extraordinário movimento, que o artista soube traduzir apesar da pequena altura – 14cm – de que ele dispunha para inscrever sua decoração.

A tampa da cratera é ornada com uma estatueta de quase 20 cm, com uma atraente beleza. Ela representa uma mulher, vestida com uma longa e ampla túnica, presa à cintura por um cinto. Um grande véu cai de sua cabeça, deixando livres os antebraços, um dos quais está esticado horizontalmente e o outro dirigido obliquamente em direção ao solo. Seu belo rosto, oval e harmonioso, resplandecente de juventude, é iluminado por grandes olhos e por uma boca fina, marcada por covinhas, cujo sorriso enigmático pode ser comparado ao da Gioconda. Ainda que hierática, esta estatueta é ao mesmo tempo dócil e viva: o artista soube, nesta pequena obra-prima, repartir habilmente os volumes e, num extremo despojamento, fazer valer toda a riqueza dos detalhes expressivos.

O que representa esta estatueta? Era um simples motivo decorativo? Evocava uma divindade? Em qualquer caso, somos atingidos pela curiosa e contraditória associação entre esta jovem mulher de rosto gracioso, com um estranho sorriso, e as cenas totalmente militares que decoram o vaso que ela coroava. René Joffroy emitiu uma hipótese: poderia ser Ártemis, que era, em Siracusa, a protetora e fornecedora de alimentos dos cavalos de guerra e de corrida. Assim sendo, o célebre vaso de Vix seria coroado por essa deusa que ficou virgem, eternamente jovem, tipo de moça brava, guerreira e caçadora, que jamais suportaria o jugo do homem e que fazia das feras sua companhia usual.

Mas a cratera não é uma peça excepcional apenas por sua forma e por sua beleza. Ela é também uma obra-prima da técnica. O corpo do vaso – o bojo e o pescoço – é uma única peça, sem emendas e sua realização constitui um admirável trabalho de caldeiraria. A espessura do metal, “admiravelmente puro, mesmo em relação às fabricações atuais”, é muito fraca: somente um milímetro no meio do bojo; pode-se julgar, a partir disso, que a cratera não era destinada a ser enchida, mas tinha somente um valor religioso e havia sido depositada no túmulo para permitir à falecida saciar sua sede em sua última e eterna viagem.

O pé, cujo peso ultrapassa 20kg, era fixado à base do vaso por uma solda de estanho. As alças, que não pesam menos de 46kg, são fixadas por cavilhas e arrebites; pode-se facilmente imaginar as dificuldades com as quais o artesão se deparou – e que tão habilmente resolveu – para fundir essas peças em motivos tão finos, em volumes complexos e emaranhados. O friso de guerreiros que ornamenta o pescoço foi fundido separadamente e aplicado sobre o vaso com a ajuda de arrebites; ele se decompõe em vinte e dois motivos de adorno, cuja junção é tão perfeita que chega a ser imperceptível. Quando esses relevos foram desmontados a fim de serem restaurados, constatou-se que cada um deles trazia em seu reverso um sinal – letra grega ou mossa – e que este se repetia sobre a parte correspondente da superfície a ser coberta. Encontravam-se, assim, gravados a buril com um traço profundo, os pontos de referência da montagem.

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Aliás, a minuciosa análise efetuada quando da restauração da cratera permitiu revelar todos os mínimos detalhes de sua fabricação. Os processos de trabalho do genial artesão, sua mestria e sua habilidade, tanto quanto seus mínimos erros, foram decompostos e enumerados. Consideremos, por exemplo, os cavalos do friso guerreiro; eles foram fundidos de cima a baixo e as pernas foram servidas por jatos de matéria em fusão; isso pode ser constatado pela presença de pequenas bolsas ocas formadas pelas bolhas de ar e que se localizavam sobretudo no ventre dos animais. Em um dos grupos de cavalos, produziu-se um acidente; uma pata foi quebrada e deve ter sido substituída por um membro fundido à parte, que foi encaixado com tal habilidade que o reparo é invisível. Passemos às alças. Encontrou-se dentro das volutas areia muito fina, que é o resto da forma dentro da qual haviam sido moldados o modelo de cera e depois a própria alça. Durante a fabricação de uma das alças deve ter faltado bronze ao fundidor, pois ele completou o metal com uma liga mais pobre em estanho.

Poderíamos multiplicar esse inventário de detalhes de fabricação. Os especialistas modernos submeteram o artesão antigo a um verdadeiro exame póstumo, dois mil e quinhentos anos depois, e reconheceram sem dificuldade a amplitude de seus conhecimentos e a virtuosidade de sua profissão.

8 No ano 500 antes de Cristo

Quantos problemas são colocados por este vaso gigante de Vix! Primeiramente, os arqueólogos pesquisaram sobre se eram conhecidos equivalentes, ou, pelo menos, aproximações. alegou-se uma narração de Heródoto, segundo a qual, em seguida a um tratato de hospitalidade e de aliança com Creso, os Lacedemônios mandaram executar para esse soberano uma cratera de bronze, enfeitada exteriormente com figuras e podendo conter 300 ânforas. Ora, se calculamos sobre pequenas ânforas de três ou quatro litros, a cratera oferecida a Creso teria tido uma capacidade superior a 1.000l – comparável, portanto, à do vaso de Vix. Mas a cratera dos Lacedemônios só é conhecida pela narração de Heródoto. Existem, por outro lado, algumas crateras ou fragmentos de crateras que apresentam analogias com a de Vix, sem ter contudo sua amplidão e qualidade. E o fato perturbador são as regiões em que elas foram encontradas. Com efeitos, duas delas foram descobertas dentro de uma necrópole da Iugoslávia, em Trebinje, próximo ao lago de Ochrida; uma outra, aliás incompleta, foi encontrada perto do Ólbia, na Rússia meridional; uma outra ainda, conservada em Munique, provém da Campânia. Essa dispersão abre singulares horizontes sobre as correntes comerciais que atravessavam a Europa cinco séculos antes de nossa era.

Outro problema, este essencial, mas sobre o qual os especialistas se mantêm numa prudente reserva: onde foi fabricada a famosa cratera de Vix? Uns quiseram ver nela uma produção etrusca; outros atribuíram-na a uma oficina de Corinto. René Joffroy, por sua vez, escreve: “O estudo dos elementos da cratera conduzir-nos-ia a atribuir a fabricação dessa peça preferencialmente às oficinas lacônias, seja da própria Esparta, seja das colônias da Grande Grécia, de Tarento ou de Cumas, por exemplo.” Mas ele logo acrescenta: “É mais prudente não decidir.”

Esta espantosa cratera não era o único elemento do mobiliário funerário depositado junto da defunta. Outros objetos preciosos ou raros foram resgatados pelas escavações. É o caso de uma phiala (taça) em prata, sem desenhos, com um umbigo de ouro no centro que, por seu aspecto, aproxima-se de uma phiala conservada em Berlim e que provém da Rússia meridional. Por outro lado, há também uma taça ática, em argila, encontrada quebrada, mas cujos elementos estavam completos; ela é decorada por cenas de combate entre guerreiros e amazonas. Há ainda uma oenochoe (vaso para despejar o vinho) em bronze com o bico terminado em folha de trevo, cuja origem etrusca é inegável. E isso não é tudo: o túmulo revelou ainda três bacias de bronze, que trazem a marca etrusca.

A variedade de origem das joias da morta e do mobiliário funerário que havia sido depositado junto a ela évix11 evidente. As mais variadas oficinas deram sua contribuição. Das mais longínquas regiões da Europa vieram peças raras. Mas os artesãos locais não ficavam atrás: a cobertura de bronze que protegia os cubos das rodas do carro era obra de sua autoria, como o era o próprio carro. Isso abre horizontes insuspeitados sobre o grau de civilização destes povos gauleses que viviam no séc. VI antes de nossa era – época qualificada de “bárbara”, mas que acusa extraordinários refinamentos de civilização…

Todo esse material, tão heterogêneo, pertence sensivelmente à mesma data. Os objetos propriamente gauleses pertencem aos últimos anos do período de Hallstatt, ou seja, a primeira Idade do Ferro, que acaba no séc. VI antes de nossa era. A taça de argila com combates de guerreiros e amazonas foi fabricada em Atenas por volta de 525 a. C. Datas aproximadas podem ser atribuídas aos outros objetos. Pode-se concluir que a inumação teve lugar em torno do ano 500 a. C.

9 A defunta anônima

Quem era a morta de Vix? A despeito das outras partes do esqueleto infelizmente muito danificadas, o crânio pôde ser reconstituído e atentamente estudado. Conseguiu-se assim estabelecer que a mulher tinha de trinta a trinta e cinco anos. O especialista que procedeu ao estudo antropológico, Robert P. Charles, notou: “O sujeito de Vix pertence à raça nórdica que parece ter predominado dentre os povos germano-célticos no fim da Idade do Bronze e princípio da Idade do Ferro. Freqüentemente atenuada por uma mestiçagem com as populações autóctones, ela se encontra quase intacta na aristocracia. É precisamente o caso dentro do qual parece que nos encontramos em Vix”.

vix12Mas qual era a qualidade da defunta? A julgar pela riqueza de suas jóias, pela suntuosidade de seus funerais, ela era de alta categoria. Não podemos acrescentar mais nada no momento. Todas as outras suposições não passam de divagações. E certamente a grande imprensa não deixou de acumulá-las. Fizeram da morta de Vix uma Antineia gaulesa.

Permitam-nos reproduzir, como exemplo pitoresco, algumas linhas de um artigo publicado num hebdomadário de grande tiragem: “Comerciantes gregos partem para procurar estanho na Ilhas Britânicas… Uma noite, através dos ramos da floresta, os mercadores percebem os muros de terra de uma poderosa cidadela. Eles se preparam para bater às portas da cidade. De repente, são rodeados por soldados. Sem a menor consideração, estes os conduzem para a cadeia, jogando-os no fundo de uma masmorra obscura. No meio da noite, são tirados de lá para serem arrastados até o chefe da cidade. Os gregos contam comparecer perante algum guerreiro bigodudo. Mas é uma mulher que os acolhe. Ela está estendida sobre peles de bisão e de auroque. Seu braço e seu pescoço frágil curvam-se sob o peso das pulseiras e dos colares. Primeiramente ela ri do assombro dos gregos. Depois, subitamente, ela comanda, ordena. Ela comunica aos mercadores que é a senhora absoluta de todos aqueles lugares. Homens puxam seu carro. Não escravos, mas homens livres: os mais belos rapazes das mais nobres famílias. Nenhum viajante tem o direito de atravessar seus territórios sem pagar um dízimo. Se os gregos querem seguir seu caminho, devem, para salvar sua vida, abandonar as crateras cheias de vinho e as jóias de ouro que transportam em suas carretas”.

Tal é a arqueologia apresentada a milhões de leitores sob a forma de comics. Tal é uma grande descoberta submetida às exigências de uma encenação. Quanto aos especialistas, eles naturalmente se contentam em fazer hipóteses – mas quão imprevistas e ricas! – sobre a organização da sociedade gaulesa e a posição nela ocupada pela mulher. Nossa informação a esse respeito remonta apenas à ocupação romana. O que se passou anteriormente continua na obscuridade. E eis que, na névoa da História, os ouros e os bronzes do túmulo de Vix emitem uma luz inesperada, ainda que fraca.

A jovem mulher de Vix seria uma sacerdotisa de renome? Somos tentados a crer nisso quando se conhece a posição ocupada pela mulher mais tarde, na religião galo-romana, com seu cortejo de deusas, mais particularmente com seu culto das deusas-mães, com suas oficiantes colocadas na mesma categoria dos sacerdotes. Seria ela esposa de um rei ou de um príncipe? Faltaria então encontrar o túmulo de seu augusto marido. Seria ela própria uma princesa regente? Talvez. De início, hesita-se sobre estas últimas questões quando se invoca o testemunho de César e dos romanos: segundo eles, a realeza era na Gália apenas um fenômeno episódico e as mulheres gaulesas, “mães fecundas e excelentes amamentadoras”, totalmente curvadas à vontade de seu marido, não podendo aspirar a grandiosos destinos.

Mas, neste domínio, somos levados a corrigir o julgamento dos romanos ou, pelo menos, limitá-lo ao período de sua conquista. Jérôme Carcopino o fez numa dessas páginas brilhantes e bastante documentadas que são bem de seu feitio. É exato que, quando da invasão romana, os povos gauleses apenas excepcionalmente – ou episodicamente – eram governados por reis, no mais das vezes em função das guerras que impunham um comando único e poderoso. É assim que Vercingétorix foi o rei dos arvernos. Mas torna-se necessário ir além e revolver o curso dos tempos. A história gaulesa não começa com a ameaça das legiões romanas. Pelo menos cinco séculos antes, como nos prova o túmulo de Vix, ela conhecia uma aurora luminosa. Justamente nessa época longínqua, a Gália parece ter vivido sob constituições aristocráticas e pode-se estabelecer que “os gauleses estavam acostumados a escolher anualmente um chefe único para que o título de rei não fosse transferido; pode-se até mesmo afirmar que, na maioria dos casos, essa realeza gaulesa tenha sido vitalícia e hereditária”. E Jérôme Carcopino sublinha: “Foi pela monarquia que principiou o governo das tribos gaulesas e tornou-se necessária uma espécie de metamorfose geral, favorecida externamente pela influência dos romanos que acabavam de organizar sua província da Narbonesa, para suprimi-la em fins do séc. II a. C., em benefício de uma oligarquia da nobreza, assim como ocorreu na Atenas de Codro, em proveito do Areópago, e na Roma dos Tarquínios para lucro do Senado.”

Havia, pois, na Gália, cerca de meio milênio antes de César, reis ou príncipes soberanos. Que o brilho de seu poder e de suas honras se tenha refletido sobre suas esposas não é de estranhar. Certamente, no momento da conquista romana, a mulher gaulesa foi atingida por uma espécie de declínio, mas ela é cercada de respeito e “faz mostras de virtudes incompatíveis com um hábito inveterado de abjeção servil”. A História transmitiu-nos, a esse respeito, a nobre lembrança das grandes virtudes e da força da alma das mulheres gaulesas. Os exemplos são numerosos. Eponina, a langrense, participou pessoalmente na revolta tramada contra Roma por seu marido, Júlio Sabino, e, após a derrota deste, dividiu a seu lado durante nove anos a vida de fora-da-lei, pondo no mundo e criando duas crianças dentro de uma caverna e depois, não tendo podido dobrar o imperador Vespasiano, caminhando para o suplício, de cabeça erguida, ao lado de seu esposo.

Nas sedes de Avaricum e Gergóvia, as mulheres incitaram e sustentaram os combatentes. Era arlesiana esta Paulina, heróica esposa de Sêneca (ele próprio um espanhol), símbolo da ternura conjugal. Assim, a mulher gaulesa, tal como aparece no tempo da dominação romana, é herdeira de uma grande tradição. A defunta de Vix deixa-nos entrever uma página sugestiva, ainda que confusa, da posição feminina na velha Gália.

10 Riquezas numa terra pobre

Mas falta abordar uma questão essencial e muito inquietante: como explicar tal acúmulo de riquezas numa região pobre como o Châtillon? A paisagem é composta de terras de baixo rendimento, desertos, terrenos repetitivos, florestas. Se a mulher de Vix voltasse hoje do reino dos mortos, esse cenário ser-lhe-ia ainda familiar, já que deve estar pouco diferente após dois milênios e meio. Que mercadorias poderia oferecer a região? Peles ou lãs de carneiro? Isso seria uma bagagem muito magra, com a qual não se poderiam trocar cerâmicas caras, coral ou âmbar, jóias ou objetos pesados de um rico metal. É certo que há, na própria Vix, minério de ferro que foi explorado desde longínquas datas, mas pode-se trocar ferro por ouro?

Então uma outra explicação foi apresentada e diz respeito à situação geográfica do monte Lassois. Este era uma importante estação das grandes caravanas comerciais, no alto vale do Sena, num ponto de ruptura de carga obrigatório. “O monte Lassois”, consigna René Joffroy, “deve ser considerado como um vasto mercado, espécie de emporium onde se efetuava o encontro de diversas correntes comerciais vindas do norte, do oeste e do sudeste. Os príncipes celtas que governavam o ópido tiveram de cobrar muito caro o direito de passagem e de comércio e, no mundo celta, não industrializado, eles tiveram de parecer poderosos potentados.”

O elemento essencial desse comércio devia ser o estanho, metal que, por seu valor e pelo papel que desempenhava na fabricação de bronzes antigos, explicaria a importância e a riqueza de Vix. A principal fonte de produção eram a Armórica e a Cornualha. Material fácil de extrair e transportado pronto para a utilização, o estanho era objeto de um extenso comércio, transitando obrigatoriamente pela Gália em sua exportação em direção ao mundo mediterrâneo. O transporte seria assegurado pelos próprios gauleses? Ou pelos compradores, gregos ou outros, que iam diretamente às minas apanhar suas entregas? Qualquer que seja a forma, as populações indígenas deviam fruir grandes benefícios. Aconteceu o mesmo com centros do Oriente Próximo que prosperaram outrora por serem etapas da Rota da Seda ou, no séc. XIX, dos nômades e dos sedentários do Saara que, quando não transportavam eles mesmos os marfins e mercadorias raras do Sudão, pagavam caro por sua passagem.

Eis, então, uma explicação plausível, verossímil, da riqueza descoberta no túmulo principesco de Vix. Para ficarmos plenamente satisfeitos, desejamos que uma dia as escavações tragam à luz um lingote de estanho. Uma outra questão continua controvertida: por qual via chegaram os magníficos objetos de procedência mediterrânea que foram enterrados em Vix? E, sobretudo, como foi conduzida a cratera, com mais de 200kg de peso? Seu transporte não deve ter sido um pequeno trabalho, como seria hoje em dia. Pela lógica, pode-se pensar que ela tenha sido importada por Marselha, então uma rica colônia foceia, e, tomando a via fluvial, normal para uma mercadoria equilibrada, encaminhada pelo Reno e o Saona.

Mas René Joffroy opõe a esse caminho um argumento arqueológico: ele acha que o domínio da Marselha grega foi puramente litorâneo e sublinha que existe, entre a margem mediterrânea e Vix, um branco absoluto no qual não se fez nenhum achado de objetos gregos ou itálicos. Então por onde se fez o transporte? Por um caminho terrestre, através da Itália e da Suíça, pois, nessa rota, acham-se alguns sinais arqueológicos. René Joffroy reconhece, no entanto, que era difícil transportar uma peça de tal peso e com tal acúmulo de pedaços através dos desfiladeiros. Logo, ele supõe que ela tenha sido transportada desmontada, o corpo principal não pesando mas de 52 kg quando as alças, o pé e os motivos de aplique são separados do corpo. Ele acrescenta todavia que, nesse caso, foi necessário que um operário montador seguisse o comboio para soldar e prender as diferentes peças, uma vez chegados ao destino.

Não é um dos menores interesses – entre outros – do achado de Vix colocar o problema das grandes vias comerciais da Antiguidade: rota do estanho, que acabamos de evocar, e rota do âmbar, recolhido nos Bálticos e no Mar do Norte. Existiam extraordinárias correntes entre os povos mediterrâneos e os países setentrionais, estreitas interpenetrações entre os bárbaros – ou considerados como tais – e o mundo mediterrâneo. O comércio internacional tem suas cartas de nobreza…

Assim, a descoberta da necrópole solitária de Vix emite raios de uma luz viva e imprevista sobre a civilização dos gauleses numa época remota. Eles foram chamados de bárbaros e incultos e eis que os achados de René Joffroy revelam que eles possuíam gostos refinados e cosmopolitas.

No momento em que, neste sítio hoje perdido na Borgonha, a mulher de Vix era enterrada com seus mais belos adornos, com um cortejo de luxuosos objetos para sua viagem ao Além, viviam Tarqüínio, o Soberbo, Temístocles e Dario. O império etrusco acabava de atingir seu apogeu e sua arte desabrochava em produções que sustentam a comparação com as mais belas obras gregas. Em Roma, é o fim da série real e a fundação da República. Mais longe, a Grécia conhecerá um século mais tarde o mais alto cume de sua civilização.

Certamente que a sala sepulcral do monte Lassois ainda não nos permite falar de uma grande civilização gaulesa, mas prova, em todo caso, que havia no coração da Borgonha, cinco séculos antes de nossa era, uma população profundamente tocada pela graça da arte e que sabia escolher, dentre as produções da Europa, as mais belas.

Fonte: Eydoux, Henri-Paul. A Ressurreição da Gália. Col. Grandes Civilizações Desaparecidas. Otto Pierre Editores Ltda. Rio de Janeiro: 1979, p. 9-35.

O Tesouro de Vix 1

A mais rica descoberta da Gália independente

O Tesouro de Vix

1 Introdução

Todas as quartas-feiras, a venerável Sociedade Nacional dos Antiquários da França, fundada em 1804 e que conta em seu seio com os maiores especialistas em história e em arqueologia, dentre os quais dezesseis membros do Instituto, reúne-se na grande sala, solene e lambrisada, do Conselho dos Museus Nacionais no Palácio do Louvre. A ordem do dia comporta comunicações sobre a Antiguidade e sobre a Idade Média.

No dia 21 de janeiro de 1953, a assembleia ouviu primeiramente uma exposição sobre “a primeira obra de arte egípcia realizada na França no séc. XVIII”, depois uma segunda sobre “as descobertas arqueológicas feitas na região de Mailhac, no Aude”. A hora avançava quando Guy Gaudron, inspetor dos museus e membro da sociedade, foi sentar-se no lugar designado para os autores de comunicações, na extremidade da imensa mesa. No tom pacífico que convém a uma assembleia “essencialmente estudiosa e calma”, como ela mesma gosta de lembrar, ele anunciou que René Joffroy, sócio correspondente nacional, havia descoberto em Vix, próximo a Châtillon-sur-Seine, “um magnífico móvel funerário do período céltico, cuja principal peça consiste em uma imensa cratera de bronze, altura 1,50m, com decoração grega arcaica”. O relatório acrescenta que três membros da sociedade tomaram a palavra em seguida e “concordaram em sublinhar o caráter excepcional do achado, que coloca em pauta de uma só vez problemas de capital importância”.

Foi anunciada assim, pela primeira vez, uma das mais sensacionais descobertas arqueológicas jamais feitas na França. Em 15 de maio seguinte, o próprio René Joffroy compareceu perante a Academia de Inscrições e Letras e apresentou o resultado completo de suas pesquisas. Os céticos renderam-se às evidências. Os amadores de história anedótica teriam podido, de fato, registrar que alguns especialistas, mal informados, haviam por um momento emitido algumas dúvidas sobre essas descobertas que – é necessário reconhecer – transtornavam muitos dos conhecimentos adquiridos.

2 Sobre o monte Lassois, anos de escavações

No entanto, René Joffroy era conhecido por seus trabalhos e seus achados. Como ele se tornou arqueólogo? Dificilmente poderemos saber, pois ele é modesto e discreto sobre seus motivos. Felizmente, sua bonomia, sua sorridente cordialidade, assim como sua indulgência com respeito a seus confrades – que não é regra geral, é necessário dizer, no meio dos arqueólogos – valem-lhe simpatias unânimes e numerosos amigos. E chegamos a saber por intermédio destes que se trata de uma vocação de juventude, de uma notável precocidade. Originário do Alto Marne, quando ainda estava no liceu o jovem Joffroy havia retomado as escavações de um cemitério merovíngio situado próximo a Chaumont, que já havia sido bem explorado. Ele gostava de fazer longos passeios pelos campos, procurando sílices talhados, fazendo coleções, principalmente de entomologia. A familiaridade com a terra e a natureza, o estudo das paisagens são as virtudes primeiras para o arqueólogo.

Todavia, foi em direção à filosofia que se orientou René Joffroy. Ele fez sua licenciatura e, com sua desmobilização em 1940, foi nomeado para o colégio de Châtillon-sur-Seine para fazer uma simples substituição de três meses. Lá permaneceu, no entanto, por dezessete anos, até 1957, data em que foi nomeado conservador adjunto no Museu de Antiguidades Nacionais, em Saint-Germain-en-Laye.

Châtillon-sur-Seine: uma pequena cidade com aproximadamente cinco mil habitantes, uma etapa da rota de Paris a Dijon passando por Troyes, à margem do Sena, que tem sua nascente a uns cinquenta quilômetros de distância e ainda não passa de uma estreita ribeira. A história deixou aí grandes lembranças (foi à sombra de sua igreja de Saint-Vorles que São Bernardo fez seus estudos) e alguns monumentos interessantes. A última guerra, infelizmente, não poupou a encantadora cidade, que teve mais de duzentos prédios destruídos. Devemos sublinhar aqui que a municipalidade, consciente do grandioso passado da cidade e ainda que tendo de fazer face aos encargos acumulados pelas ruínas, conseguiu consagrar três milhões de francos à organização de seu museu. E esse crédito, devemos notar, foi outorgado antes da descoberta do famoso tesouro de Vix, atualmente o mais belo enfeite do museu para o qual atrai visitantes do mundo inteiro.

Por que René Joffroy, vindo apenas por um trimestre a Châtillon-sur-Seine, aí permaneceu por longos anos? A arqueologia o reteve. A esse respeito, a região preenchia seus desejos. A aproximadamente cinco quilômetros de Châtillon existe um extraordinário campo de exploração: o monte Lassois, uma colina que se eleva no vale do Sena.

vix1De 1929 a 1939, um arqueólogo local, J. Lagorgette, havia explorado o sítio e revelou sua importância. Com sua morte, em 1942, René Joffroy retomou o canteiro. Devido à sua posição estratégica, o monte Lassois havia sido ocupado desde a época neolítica e tomou uma enorme importância no fim da primeira Idade do Ferro, há dois mil e quinhentos anos. Um poderoso oppidum aí se erguia, circundado por um fosso de 12m de largura com 5m de profundidade e estendendo-se por mais de 3km; muralhas e enormes levantamentos de terra completavam o sistema defensivo. Uma importante população deve ter-se multiplicado sobre esse sítio, a julgar pela massa de objetos que aí foram recolhidos: armas, utensílios, jóias e pérolas, fivelas, cerâmicas. É tal o número de cacos recolhidos que ultrapassa, e muito, o milhão.

Assim era a colheita arqueológica que fazia René Joffroy, graças a um trabalho incansável, conduzido com um rigoroso método e uma prudente discrição. Todos os objetos recolhidos estavam bem datados e mostravam que o oppidum do monte Lassois atingira o apogeu de sua ocupação no séc. VI a. C.

Rapidamente, o serviço de monumentos históricos interessou-se pelas pesquisas e pelas descobertas de Joffroy e concedeu-lhe créditos. Para a campanha de 1952, ele recebeu 250.000 francos. O inverno chegara e a má estação obrigava-o a abandonar seu canteiro. Mas restavam-lhe alguns milhares de francos e ele decidiu fazer uma última sondagem. De fato, algumas pedras jaziam em um campo próximo e sua natureza geológica provava que elas haviam sido para lá transportadas. Por quê estariam elas lá? René Joffroy quis verificá-lo. Ele pensava fazer uma dessas breves escavações pelas quais se conclui facilmente uma campanha arqueológica, como para testemunhar o pesar de guardar as pás e as enxadas até o retorno dos dias bonitos.

Ora, essa sondagem de última hora acarretaria uma descoberta sensacional. É o caso de crer que os arqueólogos, à força de frequentar os deuses mortos, atraem seus favores secretos e que eles atraem sua mitologia do azar e da sorte…

3 Por uma fria jornada de janeiro

Era, nos primeiros dias de janeiro de 1953, um fim de tarde cinzento e frio. René Joffroy, que devia voltar a Châtillon, acabava de deixar o canteiro, mas seu fiel Moisson queria aproveitar os últimos momentos do dia para escavar um pouco mais, adiantando o trabalho do dia seguinte. Moisson é um camponês do lugar, que começou a trabalhar nas escavações do lugar em 1929, com J. Lagorgette. É um sólido trabalhador que, como tantos habitantes da terra, tem um profundo senso de observação e uma espécie de dom para auscultar a terra. Adquiriu uma verdadeira paixão pela pesquisa e, muito frequentemente, as horas não contam para ele quando o solo revela algum achado interessante.

No dia seguinte pela manhã, Moisson chega muito cedo na casa de René Joffroy. “Ontem à noite”, diz ele, “ao retirar a terra, um grande objeto apareceu”. Logo, de que poderia se tratar? Um grande objeto, quando o monte Lassois só concedera até o presente momento cacos de cerâmica, jóias, pedaços de metal? Moisson é positivo: “Parece muito pesado; dir-se-ia de bronze. É curvo, como uma albarda de mula”.

Joffroy fica ansioso: há aproximadamente dez anos que ele escava e nada parecido se lhe apresentou; ele compreende que o achado é excepcional. Mas, como a hora das aulas é chegada, ele deve apresentar-se no colégio. Nessa manhã, ele tem quatro horas de curso – quatro horas que, ele o confessará, pareceram-lhe terrivelmente longas. Ao meio-dia, ele dispensa a hora do almoço; monta em sua moto e se dirige ao terreno das escavações. Com uma rápida olhadela, avalia a importância da descoberta: o objeto que apareceu é a alça de um vaso (de uma cratera) antigo, mas de tão grandes dimensões que não se conhece um equivalente no mundo.

René Joffroy alerta logo seus amigos arqueólogos da região, que foram sempre bons companheiros em seus trabalhos: René Paris, seu adjunto no museu de Châtillon, e o cônego Moutton. Ele envia telegramas ao diretor da circunscrição arqueológica e a Guy Gaudron, inspetor dos museus – o mesmo que, alguns dias mais tarde, irá comunicar a descoberta à Sociedade dos Antiquários da França. E é nas piores condições que empreendem então o resgate da cratera. Não é necessário fazer uma escavação muito vasta, que deterioraria o sítio e deslocaria os objetos que poderiam encontrar-se nas redondezas. Trata-se de cavar um verdadeiro poço, o mais estreito possível. O tempo está terrível; as pessoas afundam na lama e a cratera aninha-se em uma cloaca. Uma bomba é trazida, mas, por ser aspirante, ela também é às vezes repelida… As páginas do diário de escavações cobrem-se de terra viscosa e será necessário, já de noite, passar-lhes água para que se possa empreender à sua leitura.

Um macaco é instalado sobre três vigas acima do buraco. Menos de quatro dias não bastam para extrair avix2 enorme cratera, que descreveremos mais adiante. Em que triste estado ela aparece! ela fora esmagada; o pescoço e o pé entraram no bojo; as alças devem ser desmontadas, pois se mantêm por intermédio de apenas uma cavilha. Felizmente, constata-se imediatamente que não falta nenhum pedaço de metal e que será possível reconstituir em seu estado original este espantoso e suntuoso recipiente – o maior que a Antiguidade já nos legou.

À medida em que são descobertos, os pedaços são transportados para Châtillon, seja de jipe, seja de charrete, deitados sobre um leito de palha, através dos campos caóticos e dos caminhos cobertos de gelo. À noite, até horas avançadas, Joffroy, sua mulher e seus amigos procedem à limpeza. Toda a lama foi recolhida dentro de caixas, mas, como o frio era grande, ela se transformou em blocos gelados; é necessário esperar que eles se derretam para examiná-los com cuidado.

O rumor de uma grande descoberta espalhou-se e numerosos curiosos acorrem, calcando o terreno, atrapalhando o trabalho. Após resgatar e tirar a cratera, dever-se-á, para afastá-los, afirmar que as pesquisas estão encerradas e que não se pode contar com nenhum outro achado. Alguns dias depois, acompanhado apenas de Moisson, René Joffroy poderá então retomar e continuar a escavação e outros objetos, raros e magníficos, serão descobertos.

4 Um pequeno jazigo

As pedras transportadas, cuja presença no terreno levara a se fazer uma sondagem, pertenciam a uma colina funerária nivelada desde muito tempo. Tais colinas existem aos milhares na França. Há muito tempo elas são o grande recurso dos arqueólogos locais. Mas nenhuma iria conceder um mobiliário tão surpreendente, tão rico como o do monte Lassois.

Esta colina tinha originariamente 42 m de diâmetro e deveria alcançar 5 ou 6m em seu ponto mais alto. À primeira vista, nada fazia suspeitar de sua existência. As pedras das fiadas haviam sido, na época galo-romana, recuperadas para as construções; as que tinham ficado no lugar haviam sido enterradas e, por vezes, os labores traziam-nas à superfície, como foi o caso das que, marcadas por René Joffroy, conduziram-no à sua descoberta. É um verdadeiro milagre que a câmara sepulcral no centro do túmulo tenha permanecido ignorada. Durante mais de dois milênios, os arados passaram e os trigais amadureceram sobre uma terra que ocultava uma prodigiosa peça decorativa.

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O jazigo era, na verdade, relativamente pequeno. formava uma espécie de cubo, cuja base não media mais de nove metros quadrados. A sepultura, em parte escavada em terras de aluvião, havia sido dotada de um madeiramento destinado a evitar os desmoronamentos, e os lados eram revestidos de pranchas. Após a inumação, a sala havia sido recoberta por um teto de madeira sobre o qual as terras foram depositadas. Todo esse dispositivo havia desabado e pesadas pedras haviam se amontoado dentro da sala, esmagando alguns objetos e deslocando outros.

Quando realizava suas escavações, Joffroy deve ter invejado a sorte de seus colegas em arqueologia romana ou egípcia, que, erguendo uma laje, penetraram em uma sala com paredes e abóbadas em pedra, onde tudo permanecera em seu estado original desde que o morto aí fora depositado. No túmulo de Vix, só havia o caos e a desordem. O frio e a água que invadira a escavação atrapalhavam consideravelmente as pesquisas. Foi necessário um total de 170 horas de trabalho para escavar alguns metros cúbicos. A planta do túmulo pôde no entanto ser traçada com uma margem de erro de localização que não passava de 5cm.

Fazendo a mais rica descoberta que já saíra do solo da Gália independente, Joffroy sentia-se recompensado por tantos anos de labor incessante, de pesquisas às vezes vãs, fazendo seu o célebre ditado segundo o qual não é necessário ter esperança para compreender, nem ser bem-sucedido para perseverar. O mundo científico rendeu-lhe as mais calorosas homenagens e Jérôme Carcopino, nosso grande mestre de estudos antigos, proclamava: “Na essência e na forma, ele traz a chancela de um mestre; ele prova, pela extensão da erudição e firmeza do pensamento, que ao autor simplesmente tocou a recompensa que mereciam a clarividência de seu saber e a obstinação de seus esforços.”

O monte Lassois era repentinamente promovido às grandes honras. Nem mesmo se sonhava em contestar esse qualificativo um pouco ousado de “monte”, já que ele é uma simples colina – uma colina-testemunha, como dizem os geógrafos – formada pela erosão do planalto que costeia a margem direita do Sena. Por seu lado, a pequena comunidade de Vix, sobre cujo território foi feita a descoberta, conheceu de um dia para o outro a popularidade. O “tesouro de Vix” – uma bela auréola para uma pobre vila sem riquezas, que não possui mais de cem habitantes. O museu do Louvre organizou com ele, no mesmo ano, uma exposição que fez sensação. A grande imprensa, normalmente tão pouco inclinada a tratar da arqueologia, apoderou-se da questão e nela encontrou matéria para grandes reportagens com títulos sensacionais.

René Joffroy se viu até mesmo qualificado por um hebdomadário de grande tiragem como “Sherlock Holmes da arqueologia”… Ele foi o primeiro a ser surpreendido, senão incomodado, por essa publicidade, que não corresponde ao seu modo de viver.

Fonte: Eydoux, Henri-Paul. A Ressurreição da Gália. Col. Grandes Civilizações Desaparecidas. Otto Pierre Editores Ltda. Rio de Janeiro: 1979, p. 9-35.