O Corte do Visco

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O Corte do Visco

Non est omittenda in hac re et Galliarum admiratio. Nihil habent Druidae — ita suos appellant magos — uisco et arbore, in qua gignatur, si modo sit robur, sacratius. Iam per se roborum eligunt lucos nec ulla sacra sine earum fronde conficiunt, ut inde appellati quoque interpretatione Graeca possint Druidae uideri. Enimuero quidquid adgnascatur illis e caelo missum putant signumque esse electae ab ipso deo arboris. Est autem id rarum admodum inuentu et repertum magna religione petitur et ante omnia sexta luna, quae principia mensum annorumque his facit et saeculi post tricesimum annum, quia iam uirium abunde habeat nec sit sui dimidia. Omnia sanantem appellant suo uocabulo. Sacrificio epulisque rite sub arbore conparatis duos admouent candidi coloris tauros, quorum cornua tum primum uinciantur. Sacerdos candida ueste cultus arborem scandit, falce aurea demetit, candido id excipitur sago. tum deinde victimas immolant praecantes, suum donum deus prosperum faciat iis quibus dederit. Fecunditatem eo poto dari cuicumque animalium sterili arbitrantur, contra uenena esse omnia remedio. Tanta gentium in rebus friuolis plerumque religio est.

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas – pois é assim que chamam os seus magos – não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se crescesse somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” [a palavra grega para carvalho]. E sem dúvida pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em carvalhos. Não obstante, procuram-no com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua, chamam o visco por um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos, conduzindo dois touros brancos cujos chifres são então amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda seu próprio dom àqueles a que ofereceram. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Gaius Plinius Secundus (Naturalis Historia, XVI, 249-251, séc. I d. C.)

Tradução: Bellouesus Isarnos

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma, Parte 2

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma, Parte 2

Bellou̯esus Īsarnos

[…] et ridiculosis magorum fabulationibus dicentium in auium substantia maiores suos saecula peruolasse, assensum praestare uidebimur.

Augustinus Hibernicus
De Mirabilibus Sacrae Scripturae

Saluete, omnes peregrini! Folgo por encontrar-vos novamente e é um grande gáudio o vosso interesse pelas elocubrações do meu cérebro, oriundas algumas de sã reflexão e outras, quiçá a maioria delas, de “um pedaço de bife mal digerido, um grão de mostarda, um naco de queijo ou um pedaço meio cru de batata”, como disse Ebenezer Scrooge, o epicurista.

Temos no Brasil o hábito de fazer rodeios antes de abordar qualquer assunto, perguntar sobre o cão, o gato e o papagaio, comentar sobre o tempo e oferecer café. Do café ‒ gosto do meu igual à minha magia: quente, forte e negro ‒ podeis servir-vos, ali está; todo o resto coloca-me em desespero e peço-vos licença para o dispensar.

Pois bem, dissemos anteriormente que a identificação do ensinamento dos druidas gauleses sobre o destino post mortem da alma humana à doutrina pitagórica da metempsicose foi uma interpretação inexata realizada pelos próprios helenos, que traduziram o pensamento druídico nos termos mais familiares ao seu entendimento. Em resumo, vimos que os druidas gauleses (ao menos, a parcela deles que se dignou informar alguma coisa aos gregos curiosos) afirmavam a continuação da existência in orbe alio (em outro mundo), com outro corpo adequado à nova condição.

Examinaremos neste encontro o que certos registros dos celtas das Ilhas Britânicas e da Irlanda deixam-nos entrever a respeito do mesmo tema. Tinham, acredito, concepções bastante próprias aqueles ilhéus.

Em seu livro The Faery Faith in Celtic Countries (fantástica coleção de relatos sobre criaturas élficas na Irlanda, Bretanha, Gales e Cornualha, publicado em 1911), Walter Yeeling Evans-Wentz registrou depoimentos de vários nativos que professavam discretamente a crença num tipo de reencarnação como parte de um conjunto de ensinamentos transmitidos oralmente desde época que seria impossível precisar. Assim como a própria crença na existência e poderes das fadas é sobrevivência do passado pagão, também o seria a fé na pluralidade das existências. Portanto, para além do que esteja registrado na literatura medieval, esses depoimentos são também eco, embora débil, de uma crença antiga.

Aqueles habituados às leituras sobre druidas e espiritualidade celta (vós todos, pois não?) já terão lido alguma vez que os antigos celtas ensinavam que a alma de uma pessoa reencarnaria dentro do seu próprio clã. Ou então que seria possível renascer como elemento da paisagem, como pedra, árvore, ou um bicho qualquer à la pythagoricienne. Não compro nenhuma dessas ideias e acho que tenho motivos para duvidar delas.

Primeiramente, lembro-me no momento de apenas duas passagens que corroborariam a crença num “renascimento” dentro do próprio clã a que se pertença. A primeira está num poema chamado Moí coire coir goiriath, geralmente referido como Coirí Filidechta (“Caldeirões da Poesia”), atribuído ao druida milesiano Amhairghin Glúingeal, e diz ser o conhecimento transmitido por meio das linhas de sangue, embora não se manifeste igualmente em todos os descendentes. Mas é uma passagem de difícil interpretação:

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia, e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa.

A outra passagem relevante vem, se me não falha a memória, do Táin Bó Cúailgne. É um trecho em que os Ultu discutem a respeito de Cúchulainn não ter ainda uma esposa. Declaram explicitamente que, se ele não tiver um filho, não haverá possibilidade de que lhes retorne depois da morte, ou seja, reencarnado em um dos seus descendentes. Mas a interpretação também pode ser que as suas habilidades guerreiras passariam geneticamente ao filho. Parece-me que as duas passagens referem-se à transferência das capacidades, não da personalidade do ancestral.

De qualquer modo, estamos a pensar em termos humanos. Talvez eu faça uma interpretação demasiado literal dos termos da questão, mas como se supõe, por exemplo, que uma pessoa possa “renascer” como pedra? Qual fenômeno geológico determinaria o surgimento de uma pedra para abrigar um espírito errante? Ou não é necessário que seja uma nova pedra e o espírito poderia simplesmente passar a habitar um mineral já existente? Como se daria isso? Voluntariamente? Pelo concurso de uma vontade alheia?
Raciocinemos, enquanto não incidir imposto sobre o pensar. Se voluntariamente, ao perceber que se esgota a sua vida, o indivíduo determina que o seu espírito migre à pedra (parece-vos absurdo? Também a mim), onde passará a habitar. Mas também pode ser que tome essa decisão já no estado de erraticidade. Se dirigido por uma vontade alheia, esta possuirá poderes que lhe permitam ligá-lo à pedra, o que não faria de forma espontânea. E quanto tempo deverá durar esse estado? Para sempre, por um número determinado de anos? Ou deverá permanecer na pedra até que se verifique dado evento? Até que a erosão a destrua, até que vire pó? Seja qual for o caso, é perceptível que não se trata da simples continuidade da existência. Na passagem da alma humana a um objeto inanimado (voluntária ou não) interferirão as ações de uma ciência obscura.

Renascer como animal parece-me hipótese ainda mais distante. Sem entrar em minúcias, todos os seres vivos são dotados de espírito (grosso modo, a força vital que liga a alma ao veículo físico), mas não todos possuem alma (capacidade abstrata de autopercepção). Não obstante, a alma humana é de tal densidade que não se amoldaria a um espírito animal, ainda que este possuísse o tipo de alma próprio da sua espécie. Mesmo entre os pitagóricos da Antiguidade a possibilidade do renascimento humano num corpo animal suscitava discussão. Nos primórdios do período bizantino (séc. IV EC), chegou-se a esta conclusão:

A transmigração das almas, porém, se ocorre entre seres racionais, tornam-se elas as almas de corpos específicos; se, contudo, para um irracional, seguem-no exteriormente do mesmo modo que os nossos dáimons regentes assistem-nos em suas ações benévolas (1).

Antes que alguém precipitadamente me acuse (não há de faltar quem o faça) de afirmar a superioridade humana, devo esclarecer que o pé não é menos importante do que a mão, mas a função do pé não é igual à função da mão. Pelos olhos do ser humano, todos os elementos do mundo contemplam e refletem sobre si mesmos usando instrumentos que outras formas de vida não desenvolveram, ainda que partilhem da mesma origem que a humana e estejam sujeitas a ciclos existenciais semelhantes.

Levando em conta que a tradição céltica nativa não continha a noção de pecado e consequente julgamento, como antes vimos, cabe questionar qual seria, do seu ponto de vista, a necessidade de renascer neste mundo. Na verdade, os gaélicos da Irlanda – […] the men that God made mad, / For all their wars are merry, / and all their songs are sad – apresentam-nos motivos não despidos de certa razoablidade.

Na literatura irlandesa medieval, a reencarnação surge como excepcionalidade que serve a um propósito específico.

A primeira menção está nos relatos sobre o rei Mongán mac Fiachnai (séc. VII EC).

Outro rei, Mongán, que nada tinha de mítico, pois viveu na época histórica e morreu em 625, teve também três pais, dos quais dois deuses. Seu pai legal, o Rei Fiachna, partira para guerrear em Alba (Escócia), contra os Saxões. Deixou na Irlanda a esposa. Esta recebe a visita de um homem imponente que lhe revela que seu marido será morto em combate no dia seguinte, a menos que ela consinta que ele lhe dê um filho. Para salvar o marido, a esposa consente e o marido é miraculosamente salvo!

A criança veio ao mundo e, quando tinha três dias, o imponente personagem, que outro não era senão o deus Manannán (2), veio procurá-lo para criá-lo em seu reino, a Terra da Promessa, até que chegasse à juventude.

Uma outra versão pretende que, a despeito das aparências, Mongán era a reencarnação do herói Fionn Mac Cumhaill, mas não queria que o soubessem. Advirta-se que este desenvolvimento, tão lisonjeiro para Mongán, ocorria em plena era cristã (3)!

O eminente Prof. Jubainville refere o mesmo episódio:

O maravilhoso nascimento de Mongán e o papel que desempenha em sua lenda o deus Manannán mac Lir não são os únicos pontos sobre os quais esse relato mítico nos faz conhecer as crenças fundamentais da religião céltica. Há nessa lenda dois pontos que merecem igualmente um estudo atento. Um é que Find, morto no fim do terceiro século, não tinha, nesse entremeio, deixado de viver, tinha conservado sua personalidade e que ele retorna a este mundo dois séculos após sua morte, tendo obtido, por meio de seu segundo nascimento, um novo corpo.

O segundo ponto é a aparição de Cailte. Este não nasceu uma segunda vez. Não fica inicialmente claro como, tendo com a morte deixado seu corpo na tumba na Irlanda, ele volta do país dos mortos com uma forma física que ninguém diferencia daquela do restante dos humanos. O que há de certo é que, de acordo com a lenda irlandesa, ele voltou para cá visível a todos os olhos, falando uma língua que todos entenderam. Ou essa lenda não tem por base uma crença peculiar dos irlandeses (4), pois na França, ainda hoje, entre o povo, persiste o temor dos espectros. A crença nos fantasmas é então uma doutrina céltica e um pouco mais adiante indicaremos alguns desenvolvimentos (5).

Passemos a outra possibilidade. Com notável frequência encontraremos nas lendas o fenômeno céltico da mutação de forma (6), realidade que, para os irlandeses, era tão natural quanto, para nós, modernos, são as estruturas moleculares: essa era, simplesmente, a condição do mundo. Mutação de forma era a capacidade que determinado ser possuía de se transformar, algo que, em muito, transcendia a metamorfose causada pelo riastrad (“furor guerreiro” ou “espasmo disforme” que dava a Cúchulainn um aspecto de pesadelo). Vemos um exemplo esplêndido de mutação de forma no poema do pioneiro druida milesiano Amhairghin: inicialmente, é um estuário, depois uma onda, depois o mar, depois um touro, depois um falcão, etc. E, embora hoje em dia, o leitor possa entender tais gestos como metáforas, os irlandeses acreditavam que deuses, druidas, poetas e outros indivíduos em sintonia com o Síd pudessem viver experiências de mutação de forma.

Houve um autor da Alta Idade Média irlandesa apelidado Augustinus Hibernicus (“Agostinho, o Irlandês”; não deve ser confundido com Aurelius Augustinus Hipponensis, o bem conhecido Santo Agostinho) que no começo do séc. VII (contemporâneo do rei Mongán, portanto) escreveu um tratado conhecido como De Mirabilibus Sacrae Scripturae (“Sobre os milagres da Sagrada Escritura”). Nessa obra, o autor monástico faz uma pitoresca afirmação a respeito dos magos locais ao discutir a teoria da evolução (sim, na Irlanda do séc. VII discutia-se a evolução!). Para o Agostinho Irlandês, aceitar que uma espécie pudesse converte-se em outra (pois a crença na metamorfose entre espécies foi comum até bem entrada a Idade Média), seria o mesmo que aceitar:

[…] et ridiculosis magorum fabulationibus dicentium in auium substantia maiores suos saecula peruolasse, assensum praestare uidebimur.

[…] os mitos ridículos dos magos que dizem que seus antepassados voaram ao longo dos tempos na forma de pássaros.

O nosso “Agostinho” era um filósofo e teólogo com excelente domínio do latim clássico para um monge daquela época. Como não há precedentes nas doutrinas pré-cristãs de Roma, do Egito ou da Grécia, a suposição razoável é que ele se referisse aos magos irlandeses, isto é, aos druidas. Atentando ao latim (magorum… dicentium, “dos magos que dizem”), nota-se que o douto frade falava do presente, da época em que o texto foi escrito. Aparentemente, na Irlanda do séc. VII os magos (druidas) ainda estavam ativos e transmitindo um ensinamento da transmutação da alma humana em pássaros.

A assimilação da alma humana à imagem das aves teria profundas influências no futuro do simbolismo esotérico. Veja-se como passou à “Matéria da Bretanha”:

Bors, quando tiveres recebido o Grande Mestre, o Grande Companheiro, isto é, quando tiveres compartilhado do corpo de Nosso Senhor, começarás a compreender se Nosso Senhor conceder-te-ia encontrar o tesouro precioso que cabe aos cavaleiros de Jesus Cristo, os verdadeiros homens de valor nesta Busca. Não tinhas ido longe quando Nosso Senhor apareceu-te na forma de um pássaro e revelou-te a tristeza e a dor que sofrera por nós. Primeiramente te direi o que foi que viste. Quando a ave chegou à árvore que estava sem folha e fruto, olhou para os seus filhotes e viu que nenhum estava vivo. Ocupou então o seu lugar entre eles e começou a golpear com o bico seu próprio peito até que o sangue corresse; ela então morreu, enquanto os jovens pássaros reviveram com o seu sangue. A ave significa o Nosso Criador, que formou o homem à sua própria semelhança. E quando o homem foi expulso do paraíso por causa do seu próprio pecado, veio dar a uma terra onde nada havia senão morte, pois ali nada vivo existia. A árvore sem fruto e folhas significa o mundo, onde então nada havia senão tristeza e miséria e sofrimento. As jovens aves significam a raça humana, cujos membros eram então tão desamparados que estavam todos destinados ao inferno, tanto os bons quanto os maus, pois eram todos iguais em mérito. Quando o Filho de Deus contemplou isso, Ele subiu a árvore, isto é, a Cruz, e foi ali perfurado pelo bico de uma lança, isto é, pela ponta, no lado esquerdo até que o sangue esguichasse. Com esse sangue os filhotes reviveram, pois eram a Sua própria criação. Pois Ele libertou-os do inferno, onde tudo era morte e onde ainda não existe vida. Essa generosidade para o mundo, para mim, para ti e para todos os outros pecadores, Deus veio na forma de uma ave revelá-la a ti a fim de que não temas morrer por Ele mais do que Ele temeu morrer por ti (7).

Assim, os celtas acreditavam na imortalidade da alma (central no ensinamento druídico), mas não admitiam, como os pitagóricos, que, como regra geral (friso: como regra geral), as almas dos mortos, deixando o corpo que habitaram, ficassem neste mundo para animar um novo corpo.

Contudo, podem-se enumerar exceções a essa regra:

1) o nascimento de Mongán (visto acima): a reencarnação do herói Finn como Mongán, por intermédio do deus Manannán;
2) o nascimento de Étaín, filha de Etar: antes de ser a filha de Etar, Étaín já fora a filha de Aillil (mil e doze anos antes) e, depois disso, numa outra vida, fora esposa do deus Midir. Quando renasceu como filha de Etar, Étaín tornou-se esposa de Eochaid Airem, rei supremo da Irlanda, mas Midir, lembrando-se de sua antiga companheira, reclamou-a para si e levou-a consigo para o Outro Mundo. Esse relato chama-se Tochmarc Étáine, “Galanteio a Étaín”, sugiro que o leiais. Por vossa própria conta e risco.

De acordo com os relatos mitológicos, as possibilidades de “mudança de estado” para o ser humano, conforme a tradição, seriam:

1) metamorfose (que não é reencarnação) (8);
2) renascimento num outro mundo mais perfeito do que este e onde já habitam os Ancestrais do defunto e também os Deuses, sem a ocorrência de nenhum tipo de julgamento sobrenatural (objeto do nosso anterior encontro);
3) reencarnação em forma humana, para certos indivíduos em casos excepcionais.

Como os celtas desconheciam o conceito de “pecado” e não consideravam a necessidade de ajustar contas morais numa vida futura, não tinham porque admitir que as pessoas voltassem a este mundo como regra geral e para o resgate de débitos passados. Se admitirmos a reencarnação, teremos, portanto, de imaginar para ela outra classe de justificativa. Tal é, para mim, não o único, mas um dos mais significativos óbices a essa tese.

Se pensarmos bem, a partir do momento em que não se admite a reencarnação, pode-se entender que o espírito seja criado ao mesmo tempo que o corpo. Se o espírito for criado ao mesmo tempo que o corpo, não existirão experiências prévias, não haverá sabedoria anteriormente adquirida, ninguém será mais sábio (mais velho, mais experiente) que outrem. Existiria ainda a possibilidade da transmissão genética do conhecimento, como apontado no “Caldeirões da Poesia”. Quaisquer que sejam as questões que nos coloquemos ante o problema da reencarnação, esta permanecerá uma possibilidade que assoma timidamente da tradição antiga.

Admitindo-se que a reencarnação não seja obrigatória, tornar-se-á uma questão que envolve o principal dom outorgado pelo Universo ao ser humano: o livre-arbítrio. Uma vez que tenhamos eliminado a reencarnação compulsória (como necessidade de purificação), a única razão para que uma alma retorne a este mundo será o exercício do seu livre-arbítrio, por motivos que apenas ela bem conhece. A “Viagem de Bran Mac Febal” e a “Viagem de Máel Dúin” mostram-no. Nos dois relatos, grupos de homens escolhidos atravessam o oceano para chegar a um lugar de perfeição que acabam abandonando unicamente por sua própria vontade. Não são expulsos ou coagidos a partir de forma alguma. Fazem-no porque assim desejam, porque não estão ainda prontos para habitar no estado de absoluta tranquilidade que encontraram. Quando a sua inquietação chega ao máximo, eles entram no barco e vêm dar às praias deste mundo. Não precisariam fazê-lo, mas partem assim mesmo. Porque sentem uma necessidade íntima (9).

Tal é a diferença entre a “reencarnação céltica” e, digamos, a proposta pela doutrina kardecista: na primeira não há uma ênfase na necessidade de fazer reparações. Importante é a vontade de voltar para realizar outras coisas, provar a própria força, passar por novas experiências, aprender mais. A alma é impulsionada à frente pelo desejo de crescer. Sem este, haveria apenas uma eternidade apática e vazia no Outro Mundo. Seria algo como a noção que vulgarmente se tem do Céu cristão: és uma pessoa boa e santa. Morres. A tua alma vai para o Céu e passas o resto da eternidade enfiado numa camisa de dormir de design antediluviano a tocar harpa com os anjos. Que noção assustadora esse descanso eterno (10)!

Considerai, além disso, a alternância que se apresenta em todos os aspectos da concepção céltica do tempo: meio ano de escuridão (de Samhain a Beltane), meio ano de luz (o inverso), cada mês do calendário sequano com uma metade escura e outra luminosa, cada quinzena formada por uma sucessão de dias propícios e nefastos, cada noite com seu dia… Como seria possível conceber que a mente céltica – operando com ciclos de manifestação e de retorno ao não-manifesto – criasse a ideia de uma ida sem volta?

Voltando a atenção para o material galês, encontramos as ovelhas do conto de Peredur ab Efrawg (“Peredur, filho de York”), um dos romances arturianos associados aos Mabinogion. Ali está escrito:

E ele foi em direção a um vale, pelo meio do qual corria um rio. E as extremidades do vale eram cobertas de árvores e, em cada lado do rio, havia campinas planas. E, num lado do rio, viu um rebanho de carneiros brancos e, no outro lado, um rebanho de carneiros negros. E sempre que um dos carneiros brancos balia, um dos carneiros negros atravessava o rio e tornava-se branco; e quando um dos carneiros negros balia, um dos carneiros brancos atravessava o rio e tornava-se negro. E viu uma alta árvore ao lado do rio, uma metade da qual estava em chamas da raiz à copa e a outra metade era verdejante e cheia de folhas. E perto desse lugar viu um jovem sentado numa colina e dois galgos de peitos brancos e malhados, em coleiras, lado a lado. E estava certo de jamais ter visto um jovem de aspecto tão nobre como esse. E, na floresta do outro lado, Peredur escutou galgos a perseguir uma manada de cervos. E Peredur saudou o jovem e o jovem cumprimentou-o em retribuição. E havia três estradas que partiam da colina; duas delas eram estradas largas e a terceira era mais estreita. E Peredur perguntou ao jovem aonde as estradas levavam. “Uma delas vai ao meu palácio”, disse o jovem, “e aconselho-te que faças uma de duas coisas: ou prosseguires até o meu palácio, que está à tua frente e onde encontrarás a minha esposa, ou permaneceres aqui para veres os galgos a perseguir os cervos espantados da floresta à planície. E verás os melhores cães de caça que jamais contemplaste (e os mais corajosos numa caçada) abaterem-nos perto da água ao nosso lado; e, quando chegar a hora da refeição, virá meu pajem com meu cavalo encontrar-me e descansarás em meu palácio nesta noite’.

“Que o Céu te recompense, mas não posso demorar-me, pois devo seguir adiante”.

“A outra estrada conduz à cidade que fica perto daqui e onde comida e bebida podem ser compradas. E a estrada que é mais estreita que as outras vai em direção à caverna do Addanc”.

Abro parênteses: o Addanc é um monstro lacustre da mitologia de Gales. Sua descrição varia: às vezes é um crocodilo, um castor ou uma criatura semelhante a um gnomo. O lago em que ele mora também varia: alguns dizem que seria Llyn Llion, ou Llyn Barfog, perto da Ponte Brynberian, ou Llyn yr Afanc (que recebeu o nome do monstro), perto de Betws-y-Coed (significa “casa de oração na floresta”, uma cidadezinha no vale do Conwy, no noroeste de Gales). A grafia do nome também varia em galês moderno, a depender da fonte. O galês medieval usava avanc, o moderno usa afanc, que agora significa apenas “castor”. A forma avanc/afanc é usada no “Livro Vermelho de Hergest”. No conto de Peredur (em galês médio), do “Livro Branco de Rhydderch”, a criatura da caverna, como se viu, é chamada Addanc. A grafia mais comum, de longe, é afanc. Parênteses fechados.

Na Irlanda, a título de comparação, o tema foi tratado de forma semelhante, como se vê no conto Immram Curaig Maele Duin (“A Viagem de Barco de Máel Dúin”), já mencionado:

Cedo, na manhã do terceiro dia depois disso, avistam outra ilha, com uma paliçada de bronze no meio que dividia a ilha em duas partes e ali percebem ao longe grandes rebanhos de carneiros, um negro no lado de cá do cercado e um rebanho branco no lado mais distante. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava um carneiro branco por cima da cerca deste lado para os carneiros negros, ele se tornava subitamente preto. Assim, quando ele lançava um carneiro negro sobre a cerca do lado mais distante, ele se tornava subitamente branco. “Isto que seria bom nós fazermos:”, disse Máel Dúin, “lancemos dois bastões na ilha. Se mudarem de cor, também decidiremos se desceremos à terra ou não”. Assim, atiraram um bastão de casca preta no lado onde estavam os carneiros brancos e ele se tornou imediatamente branco. Então, lançaram um bastão descascado no lado onde estavam os carneiros negros e ele se tornou imediatamente preto.

“Não afortunada foi essa experiência”, disse Máel Dúin. “Não desçamos à ilha. Sem dúvida, nossas cores não se sairiam melhor do que os bastões”.

Dois rebanhos de carneiros, negro um, branco o outro, separados por um obstáculo (rio, em “Peredur”, cerca de bronze em “Mael Dúin”); um indivíduo de aspecto notável observa-os (um jovem de aspecto nobre em “Peredur”, um homem grande em “Mael Dúin”); intercâmbio entre os elementos dos rebanhos (chamado em “Peredur”, lançados sobre a cerca em “Mael Dúin”). Aí está, creio, o intercâmbio das almas entre os mundos representado quase com as mesmas metáforas nas duas margens do Mar da Irlanda. Somente a origem num fundo comum poderia explicar tal semelhança.

A árvore do conto galês sem dúvida remete às crenças escatológicas dos druidas. Strabōn, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (11). Assim como no começo o Universo surgiu da interação entre os opostos, descritos como fogo e água, no fim dos tempos essa troca cessará, a Roda Cósmica descontinuará o seu movimento, os opostos reinarão de costas um para o outro. A árvore que queima e floresce representa início e encerramento, a totalidade dos tempos.

O intercâmbio dos rebanhos, ovelha por ovelha, traz à lembrança uma velha prática dos gauleses: o sacrifício de substituição (embora não lhe corresponda com exatidão, reconheço). Gaius Caesar descreve-a:

A nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […] (12).

Nos contos dos Mabinogion (no Primeiro e Segundo Ramos, isto é, os contos de Pwyll e Branwen), encontra-se um personagem chamado Pendaran Dyfed.

No fim do mabinog de Pwyll, ele é um dos que estão à mesa do príncipe no momento em que Teyrnion Twrif Fliant devolve Pryderi a seus pais. Pwyll nomeia Pendaran e Teyrnion pais adotivos de Pryderi (dois pais, que moderno!).

No Segundo Ramo, Pryderi é um dos que acompanham Bran, o Abençoado, à Irlanda, na expedição contra o rei Matholwch por causa dos maus-tratos infligidos a Branwen. Ao partirem, Bran nomeia sete ministros para que tomem conta da Ilha da Grã-Bretanha enquanto ele estiver fora. Ora, o narrador afirma que Pendaran Dyfed permaneceu com esses sete como um jovem pajem. Depois, quando os guerreiros (apenas sete sobreviventes) voltam da batalha na Irlanda e descobrem que a Grã-Bretanha fora tomada por um usurpador e não sobrevivera nenhum dos ministros do rei Bran, o narrador novamente diz que Pendaran Dyfed, que tinha permanecido como um jovem pajem entre eles, conseguir escapar da matança realizada por Caraddawc entre os seguidores de Bran fugindo para a floresta. Não há menções posteriores a ele.

No Primeiro Ramo, Pendaran é importante o bastante para ocupar um lugar à mesa de Pwyll, íntimo e experiente o suficiente para que o príncipe lhe confiasse a educação do próprio filho. No Segundo Ramo, que se passa vários anos depois, Pryderi já está crescido o bastante para ir à guerra, mas Pendaran é um jovem pajem (um menino ou adolescente) na corte do Grande Rei. Como se explica a contradição, o que ela quer mostrar? Como se explica que, no Primeiro Ramo, Pendaran fosse um homem maduro ou idoso, mas um menino no Segundo Ramo? Imaginas a resposta? Talvez esteja implícita alguma ideia que a Igreja Romana desaprovasse?

Há uma miscelânea de possibilidades oferecidas pela tradição: nova vida com novo corpo noutro mundo; metamorfose; viagens entre os mundos; a volta a este mundo, sob o Sol dos mortais, para enfrentar novas batalhas. Qual dessas estradas conduz à verdade?

Não me arrisco a dizê-lo, pois seria absolutamente temerário. Seremos para sempre ignorantes das correntes de pensamento que um dia existiram no seio da corporação druídica e, ao largo, entre os povos célticos do passado. Nada saberemos da corrente dominante e das posições minoritárias, se realmente existiram. Podemos apenas entreter possibilidades.

Apesar disso, não me furtarei a declarar o meu juízo pessoal: o caminho da alma é sem fim e atravessa as planícies e terras dos Deuses e Ancestrais rumo a sua origem no Incriado. Albii̯os, o Mundo Celeste, está aberto a todos. Todas as naus atracarão nesse porto. Entretanto, marinheiro, se a inquietude habitar dentro de ti, se a harmonia não estiver ali solidamente estabelecida, não conseguirás permanecer naquela paragem onde tudo é equilíbrio. E isso não é nenhum tipo de punição – os Deuses não julgam, por isso não perdoam, nem punem -, mas uma lei natural: pares cum paribus facillime congregantur, “o semelhante junta-se ao semelhante”.

Nem todas as almas que empreendem a viagem alcançam a Terra da Juventude, Tír na n-Óg. Algumas ficam presas nas ilhas intermediárias e somente aquelas que voltam da Terra da Juventude para este mundo conseguem tirá-las de lá. Uma das funções da instrução espiritual (para não empregar o termo “iniciação”) é precisamente fornecer um mapa do caminho e ensinar a evitar os perigos da jornada. Por esse motivo é ela mais fácil para aqueles que já possuam esse conhecimento. Os demais podem passar por grandes dificuldades lutando contra os demônios de suas próprias mentes, jamais avançando além de um ponto em que serão libertados pelos que estiverem fazendo o caminho do retorno. Aquelas são as pessoas que não têm a oportunidade de usar o livre-arbítrio, aquelas para as quais a reencarnação será compulsória (no sentido de que não tiveram a oportunidade de fazer uma escolha, enquanto os que voltam da Terra da Juventude fazem-no voluntariamente).

Penso que considerar a escolha como fator determinante na questão do renascimento concilie as opiniões conflitantes, a saber, se o renascimento é neste mundo ou no Outro Mundo. Apenas no Outro Mundo, se a alma se achar pronta para isso. Neste também, se a alma, não suportando indefinidamente o contato com a perfeição (e a Verdade) ou por outro motivo, achar necessário que seja assim.

A Vida deu-nos o dom de escolher para a vida; por que a Morte, sua outra face, dele nos despojaria? Estará salvo aquele que puder escolher.

Agradeço a vossa companhia, mas ide agora. Estou velho e doem-me os ossos. As benção dos Deuses convosco.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Sallustius, Sobre os Deuses e o Mundo; Cap. XX, “A respeito da transmigração das almas e de como se diz que o racional é levado às naturezas irracionais”.

2) “Então, no dia seguinte, Bran saiu para o mar. O número de seus homens era três companhias de nove. Um de seus irmãos adotivos e companheiros foi colocado no comando de cada grupo de nove. Quando ele havia estado no mar por dois dias e duas noites, viu um homem numa carruagem que vinha em sua direção pelo mar, Esse homem também lhe cantou trinta estrofes, apresentou-se-lhe e disse que era Manannán mac Lir, e disse que lhe cabia ir à Irlanda depois de longos séculos e que um filho lhe nasceria, o próprio Mongán, filho de Fiachna – esse era o nome que teria” in Imram Brain maic Febail (“A Viagem de Bran Mac Febal”).

3) Olivier Launay. A Civilização dos Celtas. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores Ltda., p. 108-109.

4) “Meu pai costumava contar-nos uma história acerca de um vizinho que era muito amigo do padre da região. Na Irlanda, há toda uma mitologia sobre druidas e padres possuírem poder especial. Esse homem e o padre costumavam dar longos passeios. Um dia, o homem perguntou ao padre: ‘Onde estão os mortos?’ O padre disse-lhe para não lhe fazer perguntas como essa. Mas o homem insistiu, e, por fim, o padre disse: ‘Vou mostrar-te, mas não deves nunca contar a ninguém.’ É escusado dizer que o homem não cumpriu a palavra. O padre ergueu a mão direita. O homem olhou sob a mão erguida e avistou as almas dos falecidos em toda parte, tão cerradamente quanto o orvalho nas folhas de grama. Com frequência, a nossa solidão e segregação são o resultado de uma deficiência de imaginação espiritual. Esquecemos que não existe algo semelhante a espaço vazio. Todo espaço está repleto de presença, particularmente da presença daqueles que estão agora sob a invisível forma eterna” (O’Donohue, John. Anam Chara; um livro de sabedoria celta, São Paulo: Rocco, p. 205, 2000).

5) Jubainville, Marie-Henri d’Arbois de. Le Cycle Mythologique Irlandais et La Mythologie Celtique. Ernest Thorin, Éditeur, Paris, 1884.

6) Concordamos, portanto, com Agostinho [neste caso é Santo Agostinho], que nem demônios nem homens perversos podem seja criar ou realmente modificar as suas naturezas; porém, aqueles que Deus criou podem, quanto à aparência exterior, por Sua permissão, ser transformados, de modo que pareçam ser o que não são: os sentidos dos homens sendo assim enganados e adormecidos por estranha ilusão a fim de que tais coisas não sejam vistas como de fato existem, mas sejam estranhamente forçados pelo poder de algum espectro ou encantamento mágico a deitar seus olhos sobre formas irreais ou fictícias (Giraldus Cambresis, Topografia da Irlanda (c. 1188), Cap. XIX, “Das maravilhas da nossa época e primeiramente do lobo que conversava com um padre”).Trouxe esta citação porque as palavras usadas pelo autor ([…] ilusão […] encantamento mágico […]) são exatamente as mesmas presentes no “Quarto Ramo dos Mabinogion” para descrever os prodígios realizados pelo mago Gwydion fab Dôn (hud a lledrith, “magia e ilusão”), que também operava apenas mudanças exteriores. Parece ser o “sopro do dragão”, usado por Myrddin para transformar Uther no duque Gorlois.

7) La Queste del Gaint Grall (“A Busca do Santo Graal”, França, c. 1210).

8) […] ind eserghi di an id ainm, “metaformatio” .i. tarmchruthad, iann desmirecht na conricht […] ([…] a ressurreição, para a qual há o nome metaformatio, isto é, transformação, conforme o exemplo da forma do lobo […]). Essa passagem do relato Scéla na Esérgi (“Notícias da Ressurreição”, do Leabhar na hUidhri) é a mais antiga menção à licantropia na literatura irlandesa e reflete uma doutrina que não é a druídica, mas puramente pitagórica, a saber, a passagem da alma humana a outros animais, incluído o próprio homem (ressurreição = mudança de forma, tarmchruthad). Quanto aos druidas gauleses, não me parece excessivo relembrar, nas palavras de Caius Caesar, in primis hoc uolunt persuadere non interire animas, sed ab aliis post mortem transire ad alios, “são especialmente desejosos de persuadir que as almas não perecem, mas após a morte passam de um [entenda-se: homem] a outros”. Cabe diferenciar metensōmátōsis, “transformação de um corpo em outro”, que é a transmigração irlandesa, da metempsikhōsis dos druidas gauleses, a “passagem de uma alma humana para o corpo de outro ser humano” in orbe alio, “em outro mundo”.

9) “A saudade de casa tomou um deles, o próprio Nechtan, filho de Collbran. Seus parentes insistiram em pedir a Bran que voltasse à Irlanda com eles. A mulher disse que sua partida lhes traria arrependimento. Entretanto, eles foram e a mulher disse que nenhum deles deveria tocar a terra e que eles deveriam ir e apanhar o homem que haviam deixado na Ilha da Alegria”, lê-se no conto de Bran.

10) Peço escusas aos que tiverem melhor ideia das bem-aventuranças e deleites do Paraíso. Minha imagem estereotipada é proposital.

11) Rerum Geographicarum Libri XVII, IV, 4, 4.

12) Commentarii de Bello Gallico, VI, 16.

Anotações Druídicas III

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Anotações Druídicas III: Toutouercia Beleni (A Liturgia de Belenos)

Bellou̯esus Īsarnos

1 Rac Uedian Runa
Runa antes da Prece
2 Litus Pempegenii
Ritual do Pentagrama
3 Toutouercia Beleni
A Liturgia de Belenos
3.1 Nigon (Limpeza)
3.2 Uedia (Oração)
3.3 Adberta (Sacrifício)
3.4 Lindon (Libação)
3.2.a Ops Nemesos: Comarcon Sauele
O Olho do Céu: Saudação ao Sol
4 Repita 2 (Litus Pempegenii)

1 Rac Uedian Runa

A runa (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Lamas mon ouxgabiu Sucelli me deluassetio uo rodarcu,
Lugous me riios urexteio uo rodarcu,
Maponi me glanos urexteio uo rodarcu,
In caranti lubic.
Snus lanobitun in trougi anson rodate:
Eponas sercan,
Brigindonos carantian,
Circii uissun,
Nantosueltas raton,
Nemetonas obnun,
Nodentos suanton
Ad in Bitu Triion urextun
Deuoi Senisteroi samali in Albiie uregont.
In scatu loucetuc papu, papu in diiu noxtic
Snus maronerton anextlon sueson rodate.

Runa antes da Oração

Ergo minhas mãos sob o olhar do Sucellos que me formou,
Sob o olhar de Lugus que me fez livre,
Sob o olhar de Maponos que me fez puro, em amizade e alegria.
Dai-me prosperidade em minha necessidade:
O amor de Epona,
A amizade de Brigindu,
A sabedoria de Circios,
A bênção de Nantosuelta.
O temor de Nemetona,
A vontade de Nodens,
Para que no Mundo do Três eu faça como os Deuses e os Ancestrais fazem em Albiios.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite, dai-me o vosso poder e proteção.

2 Litus Pempegenii

Exregontu, exregontu! Adgabiontu, adgabiontu!

Extigariu, a calge/a tute! Biuotus to mi, iacca to mi, sutani biiont molatoues suesron in mon cantlu. Catubodua Agrorigani, Sextansuesores, a Nox, Maguni Pritunixtomagesos, a Nemos ac Talamu!

Tigernos Cagnes are mi,
Tigernos Suissous eron mi,
Tigernos Andedubni dexsiue mon,
Tigernos Aratri toute mon,
Tigernos Nemesos uxi mi,
Talamu Deuia uo mi,
Tigernos Dubron Dubnon tri mi,
Uxmonios Maros Nemesos,
Uotaios Maros Talamonos.

Extigariu, a calge/a tute! Biuotus to mi, iacca to mi, sutani biiont molatoues suesron in mon cantlu.

Ritual do Pentagrama

[Caminha em círculo na direção dos ponteiros do relógio. Agita tuas mãos como se estivesses espantando pássaros.] SAÍ, SAÍ! PARA FORA, PARA FORA! [Também podes usar uma adaga. Repete as frases anteriores até sentires que o espaço está limpo, porém não mais de 7 vezes. Se usaste uma adaga, coloca-a em sua bainha ou no chão, fora do caminho.]

[Com os dedos de tua mão dominante juntos, tocando tua testa entre os olhos, dize:]
EU TE INVOCO [a força vital, nebos, ergue-se do teu coração; desce a tua mão à área genital:], Ó PÊNIS/Ó VULVA [de acordo com o teu gênero; o nebos desce internamente da tua testa através da coluna vertebral e alcança a área genital]! [Toca teu ombro direito:] VIDA PARA MIM [o nebos ergue-se dos genitais de volta ao teu coração e de lá para o teu ombro direito], [toca teu ombro esquerdo:] SAÚDE PARA MIM [o nebos cruza para o teu ombro esquerdo], [entrelaçando tuas mãos na altura do coração, dize:]. QUE VOSSOS LOUVORES ESTEJAM SEMPRE EM MEU CANTAR [imagina um globo de luz radiante com centro no teu coração e preenchendo todo o teu corpo, iluminando o espaço onde estás]. [Avança para o leste ou fica em pé onde estás e imagina um pentagrama em tua testa. Desenha-o ou lança-o para os limites do teu círculo, dizendo:] Ó CATUBODUA, RAINHA DA BATALHA [o nebos flui da tua mão e forma uma estrela diante de ti; ela permanece ali], [volta-te para o norte, em sentido anti-horário, e dize:], Ó SETE IRMÃS [as Plêiades; visualiza a estrela e sente-a como antes], [volta-te para o oeste e dize:], Ó NOITE [visualiza da mesma forma que antes], [de frente para o sul dize:], VIRGEM DO CAMPO DE TRIGO [visualiza da mesma forma que antes], [outra vez de frente para o leste, ergue o braço acima de sua cabeça e desenha o pentagrama ou lança-o para o alto, dizendo:], Ó CÉU [visualiza a estrela num ponto com o dobro de tua altura acima de ti] [olha para baixo de desenha o pentagrama na terra ou lança-o ao chão, dizendo] E TERRA [imagina o pentagrama abaixo de ti numa profundidade com o dobro da tua altura]!

Em pé, com teus braços abertos em forma de cruz, dize:

O SENHOR DA LEI DIANTE DE MIM,
O SENHOR DO CONHECIMENTO ATRÁS DE MIM,
O SENHOR DAS PROFUNDEZAS À MINHA DIREITA,
O SENHOR DO ARADO À MINHA ESQUERDA,
O SENHOR DO CÉU ACIMA DE MIM,
A TERRA DIVINA SOB MIM,
O SENHOR DAS ÁGUAS PROFUNDAS ATRAVÉS DE MIM,
O GRANDE PILAR DO CÉU,
O GRANDE ALICERCE DA TERRA.

Cercado pelas estrelas, agora brilhas com uma luz ponderosa. Linhas de luz provenientes das estrelas convergem no teu coração.

Repete a primeira parte:

EU TE INVOCO, Ó PÊNIS/Ó VULVA! VIDA PARA MIM, SAÚDE PARA MIM, QUE VOSSOS LOUVORES ESTEJAM SEMPRE EM MEU CANTAR.

3 Toutourcia Beleni (A Liturgia de Belenos)

A prece formal (couariuedia) é ritualizada e consiste em quatro partes básicas (petura uidodarna):

3.1 limpeza (nigon)
3.2 oração (uedia)
3.3 sacrifício (adberta)
3.4 libação (lindon)

3.1 Nigon

Nigi tou dui lamai ac eias arduosagietario.

Limpeza

Lava as tuas mãos e ergue-as.

3.2 Uedia

Argisame entar Deuus, Rix andeuoreti, Uatis ac Slani, ad me uerte tou ope. Larogenos immi, birroi senti in bitu mon nerton latiac, extos tou trexia exsanamis diuerbiiet papan meblan. A Belene noibisame, tigerne uerboudice, cleue mon uepus etic erna moi tou raton.

Oração

Ó brilhantíssimo entre os Deuses, Rei que concede grande ajuda, Profeta e Curador, volta para mim os teus olhos. Sou um filho da terra, curtos são meu poder e dias no mundo, mas tua força sem falhas sobrepuja todo mal. Santíssimo Belenos, senhor muito vitorioso, ouve minhas palavras e dá-me a tua benção.

3.2.a Ops Nemesos: Comarcon Sauele

Ops Deui mari,
Ops Deui Clutas,
Ops Rigos Budinas,
Ops Rigos Biuon,
Uer snis exsemaunos
Papa uaxtia ac tratun.
Uer snis exsemaunos
Coimu boudilanuc.
Cluta ti suesin,
A Sauelis clute.
Cluta ti suesin, a Sauelis,
Enepon Deui Biuotutos.

O Olho do Céu: Saudação ao Sol

O olho do grande Deus,
O olho do Deus da glória,
O olho do Rei dos exércitos,
O olho do Rei dos Vivos.
Vertendo sobre nós
A todo momento e estação.
Vertendo sobre nós
gentil e generosamente.
Glória a ti,
Tu, Sol glorioso,
Glória a ti mesmo, ó Sol,
Face do Deus da Vida.

3.3 Adberta

A Belene Agesilobere, sin aretoiberu are tou anextlon. Cardatosagiumi toi raton lauenias ollas uer mon mapus, ciliian, carantas etic mon toutan. Ac suemoi, essi maruon di me consamali mon biuotutan.

Sacrifício

Ó Belenos, Portador de Saúde, ofereço-te isto por causa de tua proteção. Imploro-te que concedas toda felicidade a meus filhos, esposa, amigos e ao meu povo. E para mim mesmo, que eu morra do modo como tenho vivido.

3.4 Lindon

Belene Areopsi,
Belene Argantogaise,
Belene Brani,
Belene Deuocaile,
Belene Drucouerte.

Belene Atir, toi molatus biietu [lindon seme dubri].

Belene Iaccitobere,
Belene Iessine,
Belene Toncetouede,
Belene Touissace,
Belene Uorete.

Belene Atir, toi molatus biietu [lindon seme meles].

Libação

Belenos previdente,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de água).

Belenos portador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos guia do destino,
Belenos líder,
Belenos auxiliador.
Pai Belenos, que sejas louvado (verte uma libação de mel).

4 Repete 2 (Litus Pempegenii).

Sacrifício Humano

Sacrifício Humano

Bellou̯esus Īsarnos

sacrificiohumanoO sacrifício humano praticado pelos druidas é tão comum na literatura antiga quanto é rara sua comprovação arqueológica. A afirmação dessa prática, negregada peculiaridade da religião gaulesa, além de notável demonstração de hipocrisia e xenofobia, é de natureza ideológica. Ainda antes de Gaius Iulius Caesar, foi Marcus Tullius Cicero (106-43 a. C.), um dos maiores escritores da língua latina, quem qualificou os gauleses, literalmente, de “terríveis bárbaros que não hesitam em manchar seus altares com sangue humano”.

O detalhe não lembrado é que Cicero era um advogado e usou essa forte imagem exatamente no discurso de defesa de um certo Marcus Fonteius. Esse Fonteius fora legado romano na Gallia Narbonensis por três anos e estava sendo acusado de corrupção (receber propina) ante o Senado de Roma. O povo da província era representado pelo nobre treviro (anti-romano) Indutiomaros, sogro e inimigo político de outro notável treviro chamado Cingetorix (pró-romano). Cicero nunca teve envolvimento pessoal com Fonteius e aceitou fazer a defesa apenas por “corporativismo”: ambos pertenciam à classe dos equites (cavaleiros) e Cicero foi pressionado por outros colegas a fazer a defesa, registrada na Oratio pro M. Fonteio. O resultado foi que os gauleses, na mentalidade romana, tornaram-se desde então (meados do séc. I a. C.) famigerados sacrificadores de seres humanos em cerimônias religiosas.

Entretanto, seria rematada falsidade afirmar que a Gália não conheceu sacrifícios humanos. Importa determinar sua frequência e natureza. Dois tipos de sacrifícios são bem atestados em numerosas civilizações antigas (incluindo-se as do Mediterrâneo), onde possuem, de modo geral, duas finalidades: apaziguar os deuses ou agradecer por alguma graça recebida.

As descrições literárias que possuímos de sua realização entre os gauleses são bastante convincentes. Contudo, são bem outros seus objetivos. Encontramos com os celtas da Gália: 1) o sacrifício humano de substituição; 2) o divinatório e 3) o “judicial”, isto é, a aplicação da pena capital sob o disfarce de um sacrifício.

1 – Sacrifício de substituição

O sacrifício de substituição é mencionado por Caesar (Commentarii de Bello Gallico, VI, 16): “a nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […]”.

2 – Sacrifício divinatório

Diodorus Siculus relata o sacrifício divinatório em Bibliotheca Historica, V, 31: “os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias”. Strabôn conta a realização de um sacrifício desse tipo pelos gálatas antes da batalha contra Antígonos II Gonatás em 277 a. C. Vítimas humanas foram imoladas, consultando-se suas entranhas em um tipo de haruspício.

3 – Sacrifício “judicial”

O terceiro tipo de sacrifício, dito judicial, é registrado por Caesar na mesma passagem citada acima: “[…] Outros possuem figuras de enorme tamanho, cujos membros são construídos com vime, que enchem de homens vivos, os quais, tendo sido incendiados, perecem os homens envolvidos pelas chamas. Consideram que o sacrifício desses que foram apanhados cometendo furto, latrocínio ou qualquer outro crime é mais agradável aos deuses imortais; porém, havendo falta de vítimas desse tipo, chegarão mesmo a sacrificar inocentes”. Strabôn (Geographiká, IV, 4, 5) acrescenta: “gado, animais selvagens e todo tipo de seres humanos”. Note que Caesar usa a palavra “outros” (allii). Isso significa que algumas tribos usariam, outras não, as ditas “figuras de enorme tamanho”.

Esses autores, Caesar, Diodorus e Strabôn, são os que entraram mais profundamente na imaginação popular. Dão-nos, realmente, muito o que pensar.

O sacrifício judicial, como todos que já assistiram o filme devem ter percebido, é a fonte do impressionante Wicker Man (“Homem de Vime”). É necessário salientar que os homens colocados dentro dele são criminosos condenados, ao menos preferencialmente, e ali estão porque cometeram um ato detestável cuja punição vão enfrentar. Afirmar que sua morte seria “mais agradável aos deuses imortais” é a mesma justificativa que a religião, em sua qualidade de vetor do controle social, tem usado para tudo através dos séculos, druidas e padres e imãs e rabinos igualmente.

De resto, não existe absolutamente nenhuma evidência física de que essa cerimônia da execução no Colosso de Vime fizesse parte do repertório sacro costumeiro da Gália. Pelo contrário, um outro ponto contribui para que desconfiemos dessa descrição: ossadas de animais selvagens jamais foram encontradas nos santuários gauleses. Bovinos, ovinos, equinos e aves sim, todos animais domésticos, até cães, mas não animais selvagens. Existe uma lógica por trás dessa ausência que não poderia ter escapado aos sacerdotes antigos: os animais da natureza já são propriedade dos deuses, como oferecer-lhes o que já lhes pertence? Ser desonesto com os deuses é sinal de forte estupidez.

Existe um eco distante dessa ideia no Audacht Morainn. O juiz Morann manda dizer ao rei Feradach: “Dize-lhe: que ele não ofereça nenhum mútuo préstimo que lhe seja obrigatório”, ou seja, que ele não tente se mostrar generoso fazendo simplesmente aquilo que tem obrigação de fazer, pois isso não é generosidade nem mérito, mas somente dever. Se você quiser demonstrar generosidade, faça algo que não é sua obrigação. Se você quiser dar algo aos deuses, não lhes ofereça o que, por direito, já é deles.

Passemos ao sacrifício divinatório. Primeiramente, terminarei a citação de Diodorus, que havia ficado pela metade. Retomo-a exatamente do ponto em que tinha parado: “E é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellou̯esus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas”. Maravilhoso, não?

Duas classes de homens aparecem nesse trecho: 1) os ‘filósofos’, presença obrigatória nos sacrifícios, responsáveis por falar com os deuses, pois são eles que possuem “experiência com o divino” e “falam a língua dos deuses”, de forma que “apenas por seu intermédio as bençãos podem ser buscadas” e 2) os “poetas cantores” que operam junto aos “filósofos”.

O filósofo e o poeta-cantor não “sujam as mãos” nos sacrifícios. Quem o faz? Ora, o adivinho, de quem Diodorus havia falado imediatamente antes. Aí temos as “três classes de homens excepcionalmente honrados (tría phûla tōn timōménōn diapheróntōs estí) em toda a Gália”, de que Strabôn falou na Geographiká (IV, 4, 4): os Bardos (Bardoi), Vates (Ouáteis) e Druidas (Druídai), explicando que os bardos são cantores e poetas (humnētaí kaì poiētaí), os vates, adivinhos e filósofos naturais (hieropoioí [“fazedores do sagrado”] kaì phusiológoi), enquanto os druidas ocupavam-se, além da filosofia natural, também com o estudo da filosofia moral (phusiológoi kaì ēthikoi philosóphoi). Afirmou a seguir que os druidas eram considerados os mais justos de todos os homens, sendo-lhes confiado, por essa razão, o arbítrio de todas as contendas, quer privadas, quer públicas – o que os liga ao julgamento e condenação pela prática de delitos, como visto acima.

A ideia de que druida, vate e bardo são todos, de alguma forma, druidas, vem de Caesar, que não fala senão dos druidas. Os autores gregos mencionam-nos separadamente e em momento algum dão a entender que vate e bardo são druidas. Mas esse não é exatamente o ponto, não neste momento.

A questão agora é o sacrifício divinatório. Cabe ao druida avaliar a sua adequação ética e decidir se pode ou não ocorrer, pois os druidas são “os mais justos dos homens”, mas não será ele, druida, a empunhar a lâmina sacrificial. Isso cabe ao adivinho, vate, que domina a técnica sacrificial desde uma época em que os druidas ainda não existiam. Ao poeta-cantor, o bardo, cabe o aspecto teatral, de fundamental importância em toda cerimônia religiosa e tão visível no cerimonial da Igreja Romana. Ao druida não importam o sangue do sacrifício nem a técnica sacrificial. Ao druida importam a compreensão teológica e a justificação social do ato.

“[…] desde uma época em que os druidas ainda não existiam.” Isso explica perfeitamente porque o druidismo gaulês e o irlandês são diferentes e também porque Caesar afirmou que o druidismo teve origem na Grã-Bretanha e ainda porque certos personagens da lenda irlandesa, como Fedlimid, do Táin, vão ali estudar as artes mágicas. Caesar não fazia diferença entre druida, vate e bardo. Quando ele diz “druida”, não há como saber a quem se refere.

Para encerrar este tópico, o sacrifício divinatório é o remédio dos gauleses “quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância”. Talvez pudéssemos acrescentar o que diz Caesar: “para propósitos públicos”. Necessariamente, não se tratava de algo frequente.

No terceiro tipo de sacrifício humano (ou primeiro, comecei de trás para diante), o sacrifício de substituição, que também se poderia chamar terapêutico, um indivíduo seriamente enfermo, ou em outra situação de grave perigo, sacrifica ou promete sacrificar aos deuses alguém que o substitua. Existe nisso uma contradição. Os autores antigos sabiam (o próprio Caesar o diz) que o ensinamento que os druidas mais ardentemente desejavam inculcar era a sobreviência da alma, o renascimento em uma outra vida (não entro no mérito de ser neste ou em outro mundo). Os autores antigos registraram com espanto o destemor insano dos celtas diante da morte.

Como se explicaria então esse pavor que leva alguém a barganhar com os deuses oferecendo uma vida humana em troca da sua? Como, se a promessa é o renascimento em outro mundo sem mal, sem doença, sem velhice, sem mentira (aceitando-se a imagem feita pelos irlandeses)?

A resposta não é tão difícil: estamos outra vez olhando para uma crença céltica anterior ao druidismo. O movimento druídico representou para a religião céltica o mesmo que o orfismo e o pitagorismo para a religião grega, introduzindo o conceito de imortalidade da alma, que não fazia parte das mais antigas concepções gregas (tampouco indo-europeias, de modo geral), tais como se encontram, por exemplo, em Homero. Não tenho certeza, pois não é minha área, mas parece-me ter lido que essa ideia era estranha também ao judaísmo primitivo.

Gregos e romanos dificilmente poderiam ter visto os ritos que relataram em seus escritos. No caso dos celtas, sabe-se há décadas, graças aos estudos filológicos, que escritores como Caesar, Strabôn, Diodorus, Diógenes e Athenaios copiaram, com maior ou menor fidelidade, algumas vezes intencionalmente deformando-a (Caesar), a obra de um autor mais antigo, Poseidônios (cerca de 60 anos antes de Caesar), que usou observações pessoais e, para aquilo que não pôde ver, copiou ele também de escritores mais antigos, como Éphoros e Timagenes, cujos trabalhos desapareceram há séculos – o mesmo aplicando-se aos de Poseidônios.

Quando lemos o que os autores clássicos escreveram sobre os celtas, devemos estar cientes de que eles frequentemente citam obras duzentos ou trezentos anos anteriores a sua própria época e registram, como se as houvessem testemunhado, coisas que há muito não mais existiam. É exatamente o que ocorre em relação aos druidas. É necessário discernir camadas.

Assim como a implantação do cristianismo na Irlanda não varreu totalmente a religião nativa, também os druidas, ao atingirem a posição de proeminência que ocuparam na Gália, não destruíram o que antes deles havia existido. A marca do druidismo gaulês foi a construção de uma religio publica, não dessemelhante à romana, em substituição às práticas majoritariamente privadas que formavam a religião das tribos célticas no período anterior.

Mas essas práticas não foram probidas nem seus especialistas (possivelmente os vates) impedidos de exercer seu ministério. E, quando o druidismo saiu de cena, foram esses especialistas que tomaram o lugar e o nome prestigioso dos druidas e são eles que aparecem com a denominação “druidas” nas crônicas romanas tardias.

A questão do sacrifício pode parecer essencial quando se considera bardo, vate e druida como diferentes funções de um grupo único. Quando se compreende que esse não é o caso, percebe-se que o sacrifício (como técnica) importa ao vate, sendo apenas correlato ao druida e ao bardo.

Os druidas restringiram enormemente o sacrifício humano, substitutindo-o, sempre que possível, pelo animal, que a arqueologia comprova sobejamente e de que as fontes clássicas, de forma muita estranha, não fazem menção. O sacrifício humano foi conservado para situações de grande stress coletivo, sua realização subordinada à aprovação dos druidas. Fora isso, a atribuição druídica de organizar a sociedade por meio da aplicação do direito canalizou o sacrifício humano para a Justiça, o que seria previsível numa época em que o crime, no sentido jurídico, e a ofensa aos deuses não estavam claramente separados.

Uma coisa é certa: os gauleses não sacrificavam seres humanos para dar aos deuses algo de que estes precisassem ou quisessem. Quando derramavam sangue humano em seus altares, faziam-no em benefício próprio conscientemente. Os deuses nunca necessitaram de sangue humano, embora alguns deles possam apreciá-lo. Eles mudam muito mais devagar do que nós e acho realmente difícil que tenham passado a sentir necessidade de sangue humano, essa substância tão instável, nos últimos 1.500 anos.

Druidesas da Gália

Druidesas da Gália

Bellou̯esus Īsarnos

druidesas1As primeiras referências a druidesas vêm de uma obra bem pouco confiável chamada Historia Augusta, do séc. IV d. C., que narra as biografias dos imperadores romanos dos sécs. II e III d. C. (de 117 a 284) e contém muito material sabidamente inventado.

Essas referências a druidesas (plural druiades no texto latino, druias no singular) aparecem nas biografias dos imperadores Seuerus Alexander e Diocletianus.

Historia Augusta, “Seuerus Alexander” (autor: Aelius Lampridius), III, 60,6: mulier Druias eunti exclamauit Gallico sermone, “Vadas nec victoriam speres nec te militi tuo credas.”

Além disso, ao partir para a guerra, uma profetisa druida gritou na língua gaulesa: “Vai, mas não esperes a vitória e não confies em teus soldados”.

druidesas2Historia Augusta, “Carus et Carinus et Numerianus” (autor: Flauius Vopiscus), 14-15: Curiosum non puto neque satis uulgare fabellam de Diocletiano Augusto ponere hoc conuenientem loco, quae illi data est ad omen imperii. Auus meus mihi rettulit ab ipso Diocletiano compertum. “Cum,” inquit, “Diocletianus apud Tungros in Gallia in quadam caupona moraretur, in minoribus adhuc locis militans, et cum Druiade quadam muliere rationem conuictus sui cottidiani faceret, atque illa diceret, ‘Diocletiane, nimium auarus, nimium parcus es,’ ioco non serio Diocletianus respondisse fertur, ‘Tunc ero largus, cum fuero imperator.’ Post quod uerbum Druias dixisse fertur, ‘Diocletiane, iocari noli, nam eris imperator cum Aprum occideris’. ” Semper in animo Diocletianus habuit imperii cupiditatem, idque Maximiano conscio atque auo meo, cui hoc dictum a Druiade ipse rettulerat. Denique, ut erat altus, risit et tacuit. Apros tamen in uenatibus, ubi fuit facultas, manu sua semper occidit.

Não considero muito penoso ou ainda excessivo em relação ao usual inserir uma história sobre Diocletianus Augustus que não parece deslocada aqui – um incidente que ele considerava como um presságio do seu governo futuro. Esta história foi-me contada por meu avô depois de tê-la ouvido do próprio Diocletianus. “Quando Diocletianus”, disse ele, “ainda servindo em um posto menor, foi parar em uma certa taverna na terra dos Tungri na Gália e estava fazendo o seu acerto da conta diária com uma mulher que era druidesa, esta disse-lhe, “Diocletianus, és muito ganancioso e muito mesquinho”, ao que respondeu Diocletianus não a sério, diz-se, mas só de brincadeira, ‘”Serei generoso o bastante quando me tornar imperador”. Nesse momento a druidesa disse, segundo meu avô, “Não caçoes, Diocletianus, pois tornar-te-ás imperador quando tiveres matado um Javali [Aper].” Eis que Diocletianus sempre teve em sua mente o desejo de governar, como sabia Maximianus e também meu avô, a quem ele mesmo disse essas palavras da druidesa. Então, no entanto, reticente como era seu costume, ele riu e não disse nada. Porém, na caçada, toda vez que havia oportunidade, ele sempre matava o javali com sua própria mão.

Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

Locusta

Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

Bellou̯esus Īsarnos

Uma herdeira da ciência dos vates na Roma do séc. I?

Locusta nasceu no séc. I E. C. na Gália romana. Em seus primeiros anos, Locusta aparentemente aprendeu muito sobre as ervas de seu país. Ao chegar a Roma, Locusta descobriu que as pessoas em seu círculo eram gananciosas e cheias de cobiça. Naqueles dias, havia muitas pessoas em Roma que desejavam apressar a morte de seus rivais ou de parentes ricos; tais mortes, contudo, teriam de parecer naturais. Locusta forneceu-lhes os meios para atingir seus objetivos – tornou-se uma envenenadora profissional. Embora tenha sido presa por outras atividades, possuía alguns clientes influentes que a ajudavam a sair da prisão rapidamente.

Por volta do ano 54 E. C., Locusta foi chamada em segredo pela imperatriz Agripina, quarta mulher do imperador Claudius. Agripina tinha desejos muito claros: Nero, seu filho de um casamento anterior, deveria ser o imperador de Roma. Assim, Claudius, então com 64 anos, tinha de morrer. É nessa parte que Locusta entra.

Agripina sabia que Claudius adorava cogumelos. Também sabia que o imperador tinha provadores. As duas mulheres elaboraram um plano. Certa tarde, quando o auxiliar mais chegado do imperador estava doente, Agripina subornou o provador para ficar fora do caminho e Locusta envenenou uma grande porção de cogumelos. Depois de servir ao imperador muito vinho, Agripina trouxe ela própria os cogumelos envenenados a Claudius. Sem suspeitar de nada, Claudius devorou as guloseimas envenenadas.

Logo, o imperador estava se dobrando com dores de estômago, falta de ar e sem conseguir falar. Agripina, esposa dedicada, agitava-se freneticamente a sua volta com fingida preocupação. Poderia o amado imperador ter comido algo que não caísse bem? Locusta havia pensado numa segunda arma que Agripina iria então usar, uma pena com outra dose letal de veneno. Em sua aparente agitação para ajudar o marido tomado de dores, Agripina meteu a pena envenenada em sua garganta, com a falsa intenção de fazê-lo expelir do estômago a substância tóxica.

Em 13 de outubro do ano 54 E. C., o imperador Claudius morreu e Nero, então com 16 anos, foi nomeado imperador. Agripina estava mais do que satisfeita. Quanto a Locusta, foi jogada ao cárcere e recebeu sentença de morte.

Nero, entretanto, possuía seus próprios rivais e medos. Claudius tinha um filho de 14 anos de um casamento anterior, chamado Britannicus. Nero sabia que Britannicus também tinha pretensões ao trono e precisava certificar-se de que Britannicus não iria atrapalhá-lo. Sorrateiramente, poucos meses depois de tornar-se imperador, Nero ordenou que Locusta fosse libertada da prisão e imaginou um novo plano para as habilidades da envenenadora.

Num jantar de família ao entardecer, o vinho foi trazido e derramado nos cálices. Os provadores de comida testaram a bebida das taças e passaram-nas aos convidados. Nero, Agripina, sua mãe, vários outros parentes e o jovem Britannicus, estavam todos completamente ignorantes quanto ao estratagema. Quando Britannicus tomou um bole de vinho, devolveu o cálice ao provador, reclamando que a bebida estava muito quente. O provador de comida adicionou um pouco de água fria ao vinho e devolveu-o ao menino. Dessa vez, porém, o provador tinha esquecido de provar a água fria e limpa que fora adicionada à taça de Britannicus – e foi ali que Locusta tinha vertido sua poção venenosa.

Assim que Britannicus caiu em convulsões, Nero calmamente lembrou aos convidados que Britannicus sofria de epilepsia e recusou-se a chamar qualquer ajuda para o rapaz que estertorava. A ansiedade de Agripina era terrível! Ela sabia exatamente o que seu filho estava fazendo, pois reconheceu a armação e compreendeu que tudo tinha sido feito sem consultá-la. Ela começou a comer seu jantar com calma, tendo cuidado para não denunciar em seu rosto o terror que enchia seu coração, pois sabia que poderia ser o próximo alvo. Os demais membros da família logo aceitaram a calma de Nero e retornaram cautelosamente à refeição vespertina, enquanto o garoto rastejava e torcia-se no chão. Ninguém teve a coragem ou foi tolo o bastante para fazer qualquer coisa em favor de Britannicus contra o desejo do imperador.

Por fim, Nero chamou os escravos para removerem Britannicus do aposento. O pretenso rival do imperador morreu poucas horas depois e foi apressadamente sepultado naquela mesma noite, apesar de uma grande tempestade e dos boatos que se espalharam de uma ponta a outra de Roma.

Tendo o imperador Nero como um de seus clientes satisfeitos, Locusta desfrutou do rápido crescimento de sua reputação e riqueza. O imperador cumulou-a com terras, dinheiro, presentes e o perdão completo por todos os envenenamentos de que fora acusada em anos passados. Houve outras recomendações do palácio e mais encomendas. Locusta estava muito ocupada com seu trabalho de envenenadora de aluguel e chegou a abrir uma escola para passar a outras seu conhecimento de ervas e toxinas, realizando testes em animais e criminosos condenados.

Com o patrocínio do imperador, Locusta gozou de um período de grande sucesso comercial. Isso até o Senado Romano finalmente ter a coragem de condenar Nero à morte em 68 E. C. Locusta previdentemente fornecera a Nero um kit de envenenamento para si mesmo, contudo, na confusão do momento, Nero perdeu-o. Antes que pudesse ser trazido ante o Senado para ser julgado pela multidão de seus crimes, Nero encontrou a morte com sua própria adaga.

Locusta, após a queda de Nero, tentou continuar sua atividade com a maior discreção. Porém, devido a sua enorme reputação como envenenadora profissional não mais apoiada pelo favor do soberano, a gaulesa foi executada pouco depois, naquele mesmo ano.

Anotações Druídicas II

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Anotações Druídicas II: um Núcleo Comum da Religião Céltica

Bellou̯esus Īsarnos

Décadas de estudos linguísticos demonstraram que os diferentes idiomas célticos hoje conhecidos recuam a uma só e mesma língua de tronco indo-europeu (dita “proto-céltico” ou “céltico antigo comum”). Essa unidade de origem permite supor o compartilhamento, pelas diversas subdivisões do grupo étnico céltico, de um mínimo de raízes conceituais derivadas da sua herança indo-europeia comum, entre as quais se podem distinguir certas noções religiosas. O exame de cinco fatos linguísticos demonstrará persuasivamente essa afirmação.

1 Todas as línguas célticas servem-se da mesma designação genérica para a divindade: gaulês deuos, irlandês antigo dia, galês antigo duiu, galês duw, córnico antigo duy, bretão doue, que remontam à raiz céltica *dēu̯o- < proto-céltico *deiu̯os, “deus”. Essa terminologia é de origem indo-europeia e o seu uso encontra-se atestado em numerosas sociedades provenientes do mesmo tronco: latim deus, latim antigo deiuos, nórdico antigo tívar (*deiwos), “deuses”, vêneto deiuos, lituano diẽvas, prussiano deiwas, sânscrito deváḥ etc., todos oriundos do proto-indo-europeu *deiu̯os. Assim, os povos célticos determinavam de forma idêntica a categoria dos interlocutores supra-humanos com os quais a religião deveria fornecer-lhes os meios de comunicar-se, conforme um vocábulo arcaico pertencente à herança linguística e conceitual indo-europeia e que, etimologicamente, designa o ente divino por sua dimensão de “brilhante, luminoso” e, por extensão, “celeste”. A consciência do laço que une o sagrado ao domínio celeste confirma-se pela clara demarcação estabelecida entre a condição dos deuses e a do ser humano, designado pelo termo pancéltico *gdonios (gaulês *gdonios, irlandês antigo duine, galês dyn, córnico antigo den, bretão antigo don, den, bretão den), derivado do nome da terra, *gdū < proto-indo-europeu *dhêghōm, “possuidor de natureza terrestre”. Pode ser ainda percebido no nome nemeton atribuído por gauleses e gálatas ao santuário ou lugar consagrado, talvez formado sobre o nome céltico nemos, que designa o céu (cf. irlandês antigo nem, galês nef, córnico antigo nef, bretão antigo nem).

2 A crença, noção que fundamenta a relação entre os humanos e os deuses e que determina a instituição de comportamentos religiosos apropriados, exprime-se, no conjunto dos idiomas célticos insulares (irlandês antigo cretim, irlandês moderno credim, “eu acredito”, galês antigo credu, bretão krediñ, cornico crysy) por uma terminologia indo-europeia presente igualmente no latim (verbo crēdō, substantivo fidēs < *crēdēs) e nas línguas indo-iranianas (sânscrito, verbo śrad-dhắ e substantivo śraddhā; avéstico, verbo zraz-dā-), originária de um antigo composto verbal cujo protótipo pode ser reconstituído como *kred-dhē-, “colocar o coração”. O significado primordial do termo, que pode ser avaliado graças às acepções idênticas fornecidas pelos contextos religiosos védico e avéstico, não exprime a ideia de um credo teológico propriamente dito, mas remete a uma “manifestação de confiança” pronunciada por um indivíduo humano ante uma deidade, tendo o valor da consagração de uma oferenda. A “confiança” do fiel assemelha-se a uma virtude investida de poder mágico e presumia-se que a sua atribuição a uma divindade seria útil para que esta triunfasse nas suas lutas mitológicas. Esse ato concreto de “fé” comportava sempre a certeza de remuneração para o fiel em troca da parte mágica que o mesmo poderia desempenhar ao reforçar tal ou qual deus cuja causa tivesse escolhido apoiar.

3 Pode-se igualmente destacar o panceltismo das denominações de origem indo-europeia dos componentes da classe sacerdotal, pois vários dos nomes atestados na Gália possuem correspondentes exatos nas línguas insulares goidélicas e britônicas: 1. o bardo, gaulês bardos, “bardo, poeta”, irlandês antigo bard, “bardo, poeta”, rígbard, “bardo real”,  galês bardd, “cantor, poeta”, córnico antigo barth, “mimo, bufão”, bretão medieval barzh, “menestrel”; 2. o vate, gaulês uatis, “adivinho”, irlandês antigo fáith, “vidente, profeta, adivinho”, galês gwawd, “canção, poema, sátira”; 3. o druida, gaulês *druis, irlandês antigo druí, “mago, bruxo”; em galês medieval, sobreviveu somente no nome da carriça (Troglodytes troglodytes), dryw, “ave-druida”, permitindo supor certa unidade na organização do corpo sacerdotal, que possuía o domínio completo das atividades religiosas, quer se tratasse da elaboração e transmissão do saber teológico, da regulamentação e da execução do conjunto dos ofícios cultuais privados e públicos e dos ritos divinatórios, além de outras prerrogativas ligadas à justiça e à educação da juventude (“uma grande quantidade de rapazes vem aos druidas para instrução, tendo-os em grande respeito”, César, Comentários, VI, 13; “os druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade sobretudo. Os gauleses consideram os druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das disputas públicas e privadas”, Estrabão, Geografia, IV, 4, 4-5). Outro indicativo dessa unidade seria a cor branca das vestimentas do pessoal sacerdotal céltico tanto na Gália, quanto na Irlanda.

4 O vocabulário litúrgico céltico especializado em relação ao sacrifício, instituição central de toda religião, não chegou até nós, à exceção de um único termo relativo à oferenda sacrificial ou oblação. Não o conhecemos senão por meio das línguas insulares, pelas quais é compartilhado (irlandês antigo edbart/idbart, galês antigo aperth, galês médio aberth, “sacrifício” < proto-céltico *ad-ber-tā). Etimologicamente, pode ser entendido como “o que se traz” (a uma divindade), sentido conservado na semântica medieval, pois era usado como tradução do latim offerenda em referência à Eucaristia cristã.

5 Relativamente ao calendário religioso, embora os conhecimentos atuais sejam tristemente incompletos, sabe-se ao menos que os gaélicos da Irlanda e os gauleses possuíam certas celebrações em comum. É discutida a equivalência entre o Samuin irlandês e o Samon(ios) gaulês; talvez a festa da soberania em primeiro de agosto (Lugnasad em irlandês, “assembleia de Lug”) corresponda a uma possível celebração gaulesa que foi substituída pelo concilium Galliarum instituído por Roma em 12 aEC na capital de todas as Gálias, Lugdunum. Irlandeses e gauleses recorriam ambos a uma mesma terminologia indo-europeia, atestada igualmente em bretão e galês, para designar os tempos propícios dos seus calendários: na Gália, pode-se observar no calendário de Coligny que os meses de 30 dias (excetuando-se Equos) surgem acompanhados da notação mat(u-), “favorável, bom”, ao passo que os meses de 29 dias são nomeados anm(atu-), “desfavoráveis”; na Irlanda, maith < *mati- aplicava-se ao dia propício (Lebor na hUidre, fol. 61a, l. 5038: Iarfacht dia aiti, cia so sén & solud búi for in ló i m-bátar, in ba maith fá in ba saich, “um deles perguntou ao seu professor, que fortuna e presságio poderia haver para o dia em que estavam, se ele era propício ou nefasto”; Táin Bó Cúailgne, 7b). Assim, pode-se considerar que esse termo possuísse, na origem, um significativo valor religioso.

A julgar pelas correspondências dos respectivos vocabulários, os celtas continentais e insulares aparentavam possuir, em matéria de religião, uma base conceitual comum cujas chaves interpretativas encontram-se no fundo cultural religioso herdado dos indo-europeus.

Referências

Benveniste, Émile. Le Vocabulaire de Instituitions Indo-Européenes. Paris: Les Éditions de Minuit, 1969.
Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise. Paris: Errance, 2003.
Dumézil, Georges. La Religion Romaine Archaïque. Paris: Payot, 1974.
Le Roux, Françoise & Guyonvarc’h, Christian-Joseph. Les Druides. Rennes: Ouest-France, 1986.
Matasović, Ranko. Etymological Dictionary of Proto-Celtic. Leiden: Brill, 2009.
Windisch, Ernst. Die Altirische Heldensage Táin Bó Cúailgne. Leipzig: Verlag von S. Hirzel, 1905.