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Moí coire coir goiriath

3coiriMoí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad.
Os mé Amargen glúngel garrglas grélíath,
gním mo goriath crothaib condelgib indethar
– dath nád inonn airlethar Día do cach dóen,
de thoíb, ís toíb, úas toíb –
nemshós, lethshós, lánshós,
do h-Ébiur Dunn dénum do uath aidbsib ilib ollmarib;
i moth, i toth, i tráeth,
i n-arnin, i forsail, i ndínin-díshail,
sliucht as-indethar altmod mo choiri.

Meu perfeito caldeirão do aquecimento
por Deus foi retirado do abismo misterioso dos elementos,
perfeita verdade que âmago do ser enobrece,
que verte uma aterradora correnteza de palavras.
Amargen Joelho-Branco sou,
de pele pálida e cabelo cinzento,
minha incubação poética realizando em formas adequadas,
em cores diversas.
Deus não concede a todos a mesma sabedoria:
inclinado, invertido, na posição correta.
Conhecimento nenhum, meio conhecimento, conhecimento completo
para Eber Donn, criação de temível poesia,
de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente,
Na voz ativa, em silêncio passivo, no neutro equilíbrio intermediário,
em ritmo e forma e rima.
Desse modo é declarado o caminho e função de meus caldeirões.

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail & int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa.

Caite didiu bunad ind archetail & cach sois olchenae? Ní ansae; gainitir tri coiri i cach duiniu .i. coire goriath & coire érmai & coire sois.

Que é, então, a raiz da poesia e de toda outra sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa – o caldeirão do aquecimento, o caldeirão do movimento e o caldeirão da sabedoria.

Coire goiriath, is é-side gainethar fóen i nduiniu fo chétóir. Is as fo dálter soas do doínib i n-ógoítu.

O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas em sua juventude.

Coire érmai, immurgu, iarmo-bí impúd moigid; is é-side gainethar do thoib i nduiniu.

O caldeirão do movimento, entretanto, aumenta depois de virar. Isso quer dizer que nasce inclinado para um dos lados, crescendo interiormente.

Coire sois, is é-side gainethar fora béolu & is as fo-dáilter soes cach dáno olchenae cenmo-thá airchetal.

O caldeirão da sabedoria nasce invertido e distribui sabedoria na poesia e em toda outra arte.

Coire érmai dano, cach la duine is fora béolu atá and .i. n-áes dois. Lethchlóen i n-áer bairdne & rand. Is fóen atá i n-ánshruithaib sofhis & airchetail. Conid airi didiu ní dénai cach óeneret, di h-ág is fora béolu atá coire érmai and coinid n-impoí brón nó fáilte.

O caldeirão do movimento, então, em todas as pessoas sem arte está invertido. Está inclinado para o lado em pessoas do ofício bárdico e de pequeno talento poético. Está na posição correta nos maiores dentre os poetas, que são grandes correntezas de sabedoria. Nem todo poeta o possui na posição correta, pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria.

Ceist, cis lir foldai fil forsin mbrón imid-suí? Ní ansae; a cethair: éolchaire, cumae & brón éoit & ailithre ar dia & is medón ata-tairberat inna cethair-se cíasu anechtair fo-fertar.

Pergunta: quantas divisões de tristeza viram os caldeirões dos sábios? Não é difícil. Quatro: ânsia e  pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. Essas quatro são suportadas internamente, virando os caldeirões, embora sua causa seja exterior.

Atáat dano dí fhodail for fíilte ó n-impoíther i coire sofhis, .i. fáilte déodea & fáilte dóendae.

Há duas divisões de alegria que viram o caldeirão da sabedoria: a alegria divina e a alegria humana.

Ind fháilte dóendae, atáat cethéoir fodlai for suidi .i. luud éoit fuichechtae & fáilte sláne & nemimnedche, imbid bruit & biid co feca in duine for bairdni & fáilte fri dliged n-écse iarna dagfhrithgnum & fáilte fri tascor n-imbias do-fuaircet noí cuill cainmeso for Segais i sídaib, conda thochrathar méit motchnaí iar ndruimniu Bóinde frithroisc luaithiu euch aige i mmedón mís mithime dia secht mbliadnae beos.

Há quatro divisões da alegria humana entre os sábios: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sidhe. Estas se lançam em grandes quantidades, como um rebanho de carneiros nas margens do Boyne, movendo-se mais depressa que cavalos de corrida conduzidos no solstício de verão a cada sete anos.

Fáilte déoldae, immurugu, tórumae ind raith déodai dochum in choiri érmai conid n-impoí fóen, conid de biit fáidi déodai & dóendai & tráchtairi raith & frithgnamo imale, conid íarum labrait inna labarthu raith & do-gniat inna firthu, condat fásaige & bretha a mbríathar, condat desimrecht do cach cobrai. Acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar.

Deus toca as pessoas por meio de alegrias divinas e humanas para que sejam capazes de pronunciar poemas proféticos e realizar portentos, dando julgamentos sábios com precedentes e bençãos em resposta  a cada pedido. A fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior.

Ara-caun coire sofhis
sernar dliged cach dáno
dia moiget moín
móras cach ceird coitchiunn
con-utaing duine dán.

Canto o caldeirão da sabedoria,
que concede a natureza de cada arte
por meio da qual a riqueza aumenta,
que engrandece cada artesão,
que edifica uma pessoa por meio de seu dom.

Ar-caun coire n-érmai
intlechtaib raith
rethaib sofhis
srethaib imbais
indber n-ecnai
ellach suíthi
srúnaim n-ordan
indocbáil dóer
domnad insce
intlecht ruirthech
rómnae roiscni
sáer comgni
cóemad felmac
fégthar ndliged
deligter cíalla
cengar sési
sílaigther sofhis
sonmigter soír
sóerthar nád shóer,
ara-utgatar anmann
ad-fíadatar moltae
modaib dliged
deligthib grád
glanmesaib soíre
soinscib suad
srúamannaib suíthi,
sóernbrud i mberthar
bunad cach sofhis
sernar iar ndligiud
drengar iar frithgnum
fo-nglúaisi imbas
inme-soí fáilte
faillsigther tri brón;
búan bríg
nád díbdai dín.
Ar-caun coire n-érmai.

Canto o caldeirão do movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
inspiração poética fluente como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o caldeirão do movimento.

Coire érmai,
ernid ernair,
mrogaith mrogthair,
bíathaid bíadtair,
máraid márthair,
áilith áiltir,
ar-cain ar-canar,
fo-rig fo-regar,
con-serrn con-serrnar
fo-sernn fo-sernnar.

O caldeirão do movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado.

Fó topar tomseo,
fó atrab n-insce,
fó comair coimseo
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo,
boa é a morada da fala,
boa é a confluência do poder
que edifica a força.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Leia também:

Três Caldeirões

Dán

Muirgheal

 

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Muirgheal

weepingwillow

“Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

“O Caldeirão do Aquecimento (Coire Goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude.

“O Caldeirão da Vocação (Coire Érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa.

“O Caldeirão da Sabedoria (Coire Sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia”.

Atribuído a Amergin Joelho Brilhante

Muirgheal acomodou-se sob o salgueiro na encosta da colina, a pequena árvore perdida num mar verde. Observou as formas das nuvens até que o espelho de turquesa do céu começasse a tingir-se de vermelho no horizonte. Pela cortina esfarrapada dos ramos pendentes, a menina esquadrinhava a distância e via a terra vestir-se com o manto da noite em muda lucidez.

O dia partiu sem um sussurro, deixando para trás campos castanhos e o salgueiro tristonho de ramos encurvados sob o firmamento inalcançável. O dia partiu em silêncio, escorreu pelas folhas, enquanto Muirgheal fitava o horizonte, sua mente dançando com o vento que não conhece fadiga.

A menina cruzou frouxamente as pernas e endireitou a espinha, observando o ritmo de sua respiração, sem tentar alterá-lo. A simples atenção ao fluxo tornou as inalações mais completas e profundas. Cruzou as mãos sobre seu ventre, cobrindo o Caldeirão do Aquecimento, e sua mente dirigiu a correnteza da respiração para esse ponto, permitindo que vertesse dentro do vaso interno. As inalações e exalações tornaram-se mais rápidas, porém igualmente profundas e plenas, até que não houvesse mais espaço em seus pulmões. Ela sentiu a agitação nas águas do caldeirão e seu vapor subindo.

Levou então as mãos ao centro do peito, à região do coração, onde se posiciona o Caldeirão da Vocação. Os vapores subiam do ventre para esse local sob suas mãos e o córrego de ar agora desaguava ali. Muirgheal viu o grande receptáculo não totalmente emborcado, não completamente em pé, e inalou profundamente, exalando depressa como alguém que suspira. Envolvido pelas emanações do Caldeirão do Aquecimento e recebendo o jato prateado do novo sopro, o vaso do coração aproximava-se da posição ereta. Um fumo tênue já subia de seu conteúdo.

Muirgheal segurou sua cabeça com as duas mãos e deixou que o ar enchesse seu crânio, sede do Caldeirão da Sabedoria. Viu então uma grande luz, o salgueiro envolvido pelo poente e a menina sentada embaixo dele numa pele de veado. E percebeu nesse instante que tinha feito o bastante para um só dia, pois os cenários do seu desejo tinham se sobreposto a sua realidade. Turlach, seu tutor, já a advertira: “Iluminar-se não é contemplar figuras de luz, mas fazer a escuridão consciente”.

Ela sacudiu as pernas, comeu um pedaço de pão e tomou um gole de água do odre em seu alforje. Levantou-se, recolheu a pele que lhe servira de tapete e voltou para ajudar sua mãe adotiva com o jantar.

Bellouesus /|\

Aumente a Percepção

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Há um livro muito bom chamado Memórias de Adriano, escrito por uma francesa, Marguerite Yourcenar. Adriano foi um dos bons governantes que Roma teve. Ele ocupou o trono do Império Romano de 117 a 138 E. C., ou seja na primeira metade do séc. II da Era Cristã. O livro é uma “autobiografia”, no sentido de que a autora penetrou tão profundamente na psicologia do biografado que ela e o imperador tornaram-se indiferenciáveis. É quase uma obra mediúnica.

Em uma passagem desse livro, Adriano, já sexagenário e enfermo (ele morreu de uma moléstia cardíaca, penso eu), com a mobilidade reduzida, relembra que um dos maiores prazeres de sua juventude havia sido a natação, uma atividade que, em seu precário estado de saúde, já não podia praticar. Ele dizia que havia nadado com tal paixão e tamanho prazer que era capaz não apenas de reviver suas sensações ao ver outras pessoas nadarem, mas era também capaz de compreender a sensação da própria onda que o nadador atravessava. Ele podia reviver o prazer de caçar e todas as suas sensações – a atenção, o arco na mão do caçador, o galope do cavalo sob seu corpo – e, ao mesmo tempo, participar do terror da presa, a urgência do instinto de preservação e os mil artifícios de fuga que a mente animal inspira. Graças a suas experiências da juventude, vividas com intensidade e total entrega, ele conseguia participar da natureza do nadador e da onda, do caçador e da caça.

Em um artigo escrito pelo druida norte-americano Searles O’Dubhain, este expõe uma teoria dos elementos na tradição irlandesa. Como você deve saber, os quatro elementos da tradição ocidental mais difundida (água, fogo, terra e ar) têm origem no pensamento grego. O’Dubhain apresenta nove elementos na tradição céltica, que se manifestam no microcosmo, isto é, no ser humano (féinn, “si mesmo”) e no macrocosmo (bith, “mundo”). Ele acredita que, para a magia dos druidas ser efetiva, é necessário que os elementos do Féinn estejam em perfeita harmonia com os do Bith. Esse alinhamento do indivíduo com o mundo foi o que deu origem ao poema Duan Amhairghine, “A Canção de Amhairgin”, que começa assim:

Am gaeth i m-muir
Am tond trethan
Am fuaim mara
Am dam secht ndirend
Am séig i n-aill […]

“Sou o vento sobre o mar
Sou a onda tempestuosa
Sou o som do oceano
Sou o touro com sete chifres
Sou o falcão no despenhadeiro […]”

Você pode ouvir o original em gaélico medieval no You Tube.

Graças a essa identificação entre as partes do seu próprio ser e os elementos do mundo, Amergin, o primeiro druida gaélico da Irlanda, foi capaz de entrar em contato direto com tudo que compõe a natureza. É algo muito mais profundo do que simples empatia. É a percepção de fazer parte de um todo, de um contínuo de vida com muitos núcleos interligados que interagem constantemente uns com os outros.

Quando essa percepção é alcançada, todas as coisas ficam em seus lugares. Há uma grande quietude e um silêncio musical. É uma sensação rara. Eu a tive poucas vezes.

É necessário estar aberto para o mundo por meio dos sentidos. Quando estiver sentado em um banco de praça, feche os olhos e tente ouvir tudo ao mesmo tempo: os pássaros nas árvores, as vozes das pessoas, os automóveis que passam, a  água do chafariz, mas não detenha sua atenção em nada especificamente. Apenas deixe que os sons venham. Faça isso com os outros sentidos, um pouco de cada vez. Os sentidos são as portas pelas quais o mundo entra na consciência. As portas devem estar escancaradas para que o mundo possa entrar.

Bellouesus /|\

Trecho de “A Canção de Amergin”

Am gaeth i m-muir,
Am tond trethan,
Am fuaim mara,
Am dam secht ndirend,
Am séig i n-aill,
Am dér gréne,
Am cain lubai,
Am torc ar gail,
Am he i l-lind,
Am loch i m-maig,
Am brí a ndai,
[…]

1 Am gaeth i m-muir,

Sou vento no mar,

gáeth, gaíth – vento
i (prep. + dat./acc., causa nasalização): em, lugar onde, por onde
muir, muir, muir, mmuir – mar

2 Am tond trethan,

Sou onda do oceano,

tonn – onda, espuma
trethan, trethno – mar, mar tempestuoso, espumante

3 Am fuaim mara,

Sou rugido do mar,

fúaimm, fuam, fúaim, fuaim – barulho, som, rugido, reprovação
muir, muir, muir, mmuir – mar

4 Am dam secht ndirend,

Sou o cervo da galhada sétupla

dam, doim, daim, daum, dum, dam, damaib, daumu, dumu, damu – boi, companheiro sob o mesmo jugo, igual, cervo, heroi
secht (causa nasalização) – sete, sete vezes, héptade, sétuplo
dírend – galhada de cervo

5 Am séig i n-aill,

Sou falcão no penhasco,

séig, séig, séigh, tsega, séga, segi – falcão, ave (do mesmo gênero)
i (prep. + dat./acc., causa nasalização): em, lugar onde, por onde
all, aill, haille, halla – rocha, penhasco, superfície rochosa

6 Am dér gréne,

Sou lágrima vertida pelo sol,

dér, deór, déire, déir, déor, dére, daer – lágrima, gota (de qualquer líquido)
grían, grian – sol, luminária, brilho solar, zodíaco

7 Am cain lubai,

Sou a erva mais aprazível,

caíne – muito belo, gentil, agradável
luib, luibe, lubi, luibhi, tutlub, lubae, lube, lubai, luba, lubaib, luibi – erva, planta

8 Am torc ar gail,

Sou javali pela bravura,

torc – javali, chefe, tribal, heroi, labareda
ar, ar, air, er (prep. + dat./acc., causa lenição): de onde, por causa de, em lugar de, diante de
gailidecht (> gal) – força, violência, bravura

9 Am he i l-lind,

Sou salmão no lago,

é, hé, eó – salmão
i (prep. + dat./acc., causa nasalização): em, lugar onde, por onde
linn, linne, linn, linni, lind, linde, linneadh, lind – lago, reservatório, tanque, mar

10 Am loch i m-maig,

Sou lago num descampado,

loch, lach, locho, loch, locha, locha – lago, axila, virilha, cerca, represa
i (prep. + dat./acc., causa nasalização): em, lugar onde, por onde
mag, mmág, mmag, maige, muge, mmuig, maig, mag, magh, muige, maige – planície, campo, descampado, área não cultivada

11 Am bri a ndai,

A versão de P. L. Henry em irlandês moderno (em Saoithiúlacht na Sean-Ghaeilge, de 1978) apresenta essa linha como Is briathar aindéithe, “sou palavra dos não-deuses”. Considerando que dai é um adjetivo que significa mau ou ruim, bem como o sentido do trecho seguinte, o entendimento desse autor parece adequado. Ele observa que, na redação do Lebor Laignech (séc. XII), o mesmo verso traz a palavra briandai, interpretada como brí andei (palavra dos não-deuses).

Bellouesus /|\

Três Caldeirões

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Um antigo poema atribuído ao próprio druida Amergin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”).

A primeira estrofe do poema diz:

Moí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad

Meu perfeito caldeirão do aquecimento (ou sustento/incubação)
foi por Deus retirado do abismo dos elementos;
verdade perfeita que a partir do âmago enobrece
vertendo uma torrente aterradora de palavras.

De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

O primeiro chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). Desde o nascimento, esse recipiente encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física.

O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). Desde o nascimento, esse recipiente encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos.

O terceiro é Coire Sois (“Caldeirão da Sabedoria”). Desde o nascimento, esse recipiente encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total auto-realização reside em Coire Sois.

Dán corresponde a Coire Goiriath; brí, a Coire Érmai; bua, a Coire Sois  (leia aqui).

Bellouesus /|\

Um conselho: pergunte

clip6_10Três coisas que não são vergonhosas: a dúvida, o desconhecimento, o erro de boa-fé. E uma coisa que é vergonhosa: a falta de curiosidade.

No Caldeirão da Sabedoria, o druida Amhairghin Glúingeal diz:

Fó topar tomseo,
fó atrab n-insce,
fó comair coimseo
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo,
boa é a morada da fala,
boa é a confluência do poder
que edifica a força.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Bellouesus /|\

Sobre o renascimento 2

Leio com frequência que os antigos celtas ensinavam que a alma de uma pessoa reencarnaria dentro do seu próprio clã. Ou então que seria possível renascer como um elemento da paisagem, uma pedra, uma árvore, ou um animal qualquer. Não compro nenhuma dessa ideias e acho que tenho motivos para duvidar delas.

Primeiramente, lembro-me no momento de apenas duas passagens que corroborariam a crença num “renascimento” dentro do próprio clã a que uma pessoa pertence. A primeira está num poema chamado Coirí Filidechta, atribuído ao druida Amhairghin, e diz que o conhecimento se transmite pelas linhas de sangue, embora não se manifeste igualmente em todos os descendentes. Mas é uma passagem de difícil interpretação:

Onde está a raiz da poesia numa pessoa, no corpo ou na alma? Dizem que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Outros dizem que está no corpo, onde as artes são aprendidas, passadas através dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a sede do que permanece na raiz da poesia e o bom conhecimento na ancestralidade de cada pessoa não passa para todos, mas passa a cada outra pessoa.

A outra passagem relevante vem, se me não falha a memória, do Táin. É um trecho em que os Ultu discutem a respeito de Cúchulainn não ter ainda uma esposa. Declaram explicitamente que, se ele não tiver um filho, não haverá possibilidade de que volte para eles depois da morte, ou seja, reencarnado em um dos seus descendentes. Mas a interpretação também pode ser de que suas habilidades guerreiras passariam geneticamente ao filho. Parece-me que as duas passagens se referem à transferência das habilidades e não da individualidade de alguém.

De qualquer modo, estamos falando em termos humanos. Talvez eu faça uma interpretação muito literal dos termos da questão, mas como se supõe, por exemplo, que uma pessoa possa “renascer” como uma pedra? Qual fenômeno geológico determinaria o surgimento de uma pedra para abrigar um espírito errante? Ou não é necessário que seja um nova pedra e o espírito poderia simplesmente passar a habitar um mineral já existente? Como se daria isso? Voluntariamente? Pelo concurso de uma vontade alheia?

Se voluntariamente, eu, por exemplo, ao perceber que a vitalidade de meu corpo está se esgotando, determino que meu espírito se dirija à pedra, onde passará a habitar. Mas também pode ser que eu tome essa decisão já no estado de erraticidade. Se eu fosse dirigido por uma vontade alheia, essa vontade possuiria recursos que lhe permitiriam ligar-me à pedra, o que eu não faria de forma espontânea.

E quanto tempo deve durar esse estado? Para sempre ou por um número determinado de anos? Ou eu devo permanecer na pedra até que se verifique um dado evento? Até que a erosão a destrua, até que vire pó?

Seja qual for o caso, é perceptível que não se trata da simples continuidade da existência. Na passagem da alma humana a um objeto inanimado (voluntária ou não) interferem as ações de uma ciência obscura.

Renascer como animal é ainda mais difícil. Simplesmente por um motivo: o espírito humano é diferente da alma animal. Por maior que seja o conhecimento de um animal, esse é o saber possuído pela sua espécie e, quando cessar sua vida, essa experiência vai enriquecer o todo do seu grupo, não permanecer como um patrimônio individual. Os animais não são criaturas individualizadas. O ser humano é, pois adquiriu um corpo causal que lhe permite reconhecer-se como distinto daquilo que o cerca. Essa característica não é compatível com a vida simplesmente animal. O contrário também é verdade: não é possível que a essência vital de um touro anime uma forma humana. Por um simples motivo: a Natureza não dá saltos, não passa de um a outro estágio sem uma fase intermediária. Todo o processo evolutivo mostra esse princípio.

Antes que alguém me acuse (não há de faltar quem o faça) de estar afirmando a superioridade humana, devo dizer que o pé não é menos importante do que a mão, mas a função do pé não é igual à função da mão. Pelos olhos do ser humano, todos os elementos do mundo contemplam e refletem sobre si mesmos usando instrumentos que outras formas de vida não desenvolveram, ainda que partilhem da mesma origem que a humana e estejam sujeitas a ciclos existenciais semelhantes.

Levando em conta que a religião céltica não continha a noção de pecado e conseqüente julgamento, cabe questionar qual seria, do seu ponto de vista, a necessidade de renascer neste mundo.

Bellouesus /|\

Parte 1
Parte 3
Parte 4