Anotações Druídicas V

Anotações Druídicas V: Nuvem Mágica

Bellou̯esus Īsarnos

fiada

A Nuvem da Testemunha (1)

Sobre ti uma nuvem mágica eu coloco,
[Para guardar-te] de cão, de gato,
De vaca, de cavalo,
De homem, de mulher,
De mancebo, de donzela,
E de criancinha,
Até que novamente eu retorne.
Em nome de Esus, Lugus e Maponos (2).

Comentário:

No livro de que este encantamento foi traduzido e adaptado (William Mackenzie, Gaelic Incantations), essa pequena composição traz o título Fath Fithe, traduzido como “Nuvem Mágica”. Mackenzie explica que o Fath Fithe era um dos encantamentos preferidos dos caçadores na Escócia gaélica, pois permitia tornar objetos físicos invisíveis à visão comum. Assim, os caçadores poderiam voltar da floresta carregados com os despojos da caça, mas invisíveis aos seus inimigos. Acreditava-se que até mesmo contrabandistas poderiam servir-se dele para escapar aos funcionários do Fisco! O autor acrescenta que, na sua época (o livro foi publicado nos últimos anos do séc. XIX), as menções ao Fath Fithe eram já muito raras, embora se pudesse considerar que em tempos mais antigos fosse tido como eficiente encantamento de proteção.

A crença no poder de causar invisibilidade, escuridão ou confusão era muito antiga entre os povos célticos e esse pequeno encantamento escocês possui um precedente inegável na tradição irlandesa, pois foi essa mesma névoa mágica que as Tuatha Dé Danann usaram para esconder Ériu dos Filhos de Mil num manto de brumas, não logrando sucesso porque a magia de Amergin Glúingel, file (poeta sagrado) e breitheamh (especialista em questões legais/árbitro), foi mais potente que a dos druidas das Tuatha Dé. A névoa mágica foi dissipada, os Milesianos desembarcaram, derrotaram os antigos senhores da ilha e ocupam Ériu, a Irlanda, até o dia de hoje.

O velho fath fithe da Escócia é realmente a contraparte do irlandês féth fíada (“névoa da maestria ou conhecimento”) ou ceó druídecta (“bruma druídica”), encantamento ensinado por Manannán Mac Lir às Tuatha Dé Danánn para que se ocultassem dos Filhos de Mil. É o domínio da bruma mágica que torna os deuses materialmente distintos dos humanos, pois permite que os deuses vejam uns aos outros, mas não sejam vistos por olhos mortais (3).

Além da sua função como instrumento mágico de ocultação, o féth fíada pode apresentar ocasionalmente um aspecto sinistro, prenúncio da carnificina, manifestando-se como a “bruma guerreira” de três cores (preta, vermelha e verde), que encontramos no conto Tochmarc Ferbe (“A Corte a Ferbe”):

Luid iarom Conchobar, tri choicait laech impu sin, agus ni ruc nech do Ultaib leis, acht sé féin agus a ara .i. Brod agus Imrind in drúi .i. mac Cathbath. Ni bái dana gilla oc neoch díb acht gilla Conchobair, acht a scéith for a munib leo agus allaigne lethanglassa inallámaib agus a claidib tromma tortbullecha for a cressaib. Ni ba lín tra ba mesta forru, bá mór a toilc menman. O ro siachtatar iarom co m-batar ic fegad in dúnaid úathu innund, atchonncatar tromnél dímór uas chind in dúnaid. Cirdub indara cend dó agus dergg a medon agus glass in cend aile. Iarfaigis Conchobar iarsin: Cid co tirchain a Imrind, ar se, in nél út atchiam uasin dunud. Tirchanaid ém, ar Imrind, ág agus urbaid na haidchi innocht.

E Conchobar partiu, estando com ele três vezes cinquenta guerreiros que cercavam esses chefes, e ele não levou consigo nenhum dos Ultu exceto ele próprio e Brod, o seu auriga, e Imrinn, o Druida, que era o filho de Cathbath. E nenhum desses guerreiros tinha um servo consigo, exceto o servo de Conchobar somente, mas traziam os escudos em suas costas e suas brilhantes lanças verdes em suas mãos, e suas pesadas espadas de potentes golpes em seus cinturões. Contudo, eles não deviam ser desprezados por causa de seu número, grande era o orgulho de suas almas. E quando eles chegaram a esse local de onde a fortalza de Greg podia ser por eles vista, contemplaram uma pesada nuvem que pairava sobre o forte. Uma extremidade da nuvem era negra como carvão e o seu meio era vermelho e a outra ponta era verde. Assim, Conchobar falou a Imrinn, o Druida: “Dize-me, ó Imrinn”, ele falou, “que presságio significa essa nuvem que vemos sobre a fortaleza?” “Verdadeiramente”, disse Imrinn, “isso significa um combate que durará a noite toda e a morte nesta noite” (4).

Não obstante sua indissociável ligação com o contexto pagão, a técnica mágico-druídica do féth fíada não desapareceu com a conversão ao cristianismo ou foi por este rejeitada. Ao contrário, passou a ser usada a serviço da nova fé, como fica demonstrado na Bethu Phátraic (“Vida de Pádraig”):

Nír bu cían iarsin róchoggair in rí leis Pátraic forleith, ocus ised roimraid amarbad, ocus ní forchoemnacair. Forfhoilsig Día do Pátraic inní sin. Adrubairt Láogairi fri Pátraic: “Tair im díaidsi, achleirig, do Temraig corochreitiur duit arbélaibh fer nEirenn”. Ocus rosuidigsom calleic etarnais cechbelaig oFherta Fer Féic co Temraig archiunn Pátraic diamhabad. Acht nírocomarleic Día dó. Dodhechaid Pátraic ochtor macccléirech ocus Benén do gillu léu, ocus rosbendach Pátraic réduidecht. Dodechaid dícheltair tairsiu conárárdraig fer dib. Atchoncatar, immorro, na gentlidi batar isna intledaib ocht naige altaige dotecht secu fón sliab, ocus iarndóe innandegaid ocus gaile for agúalaind: Pátraic aochtar, ocus Benén inandegaidh ocus a fholaire for a muin.

Tunc uir sanctus composuit ilium hymnum patrio idiomato conscriptum, qui uulgo Fáed fíada, et ab aliis Lorica Patricii appellatur. Et in summo abinde inter Hibernos habetur pretio, quia creditur, et multa experientia probatur, pie recitantes ab imminentibus animae et corporis praeseruare periculis.

Não muito tempo depois, o rei chamou Pátraic em particular e cogitou matá-lo e isso não veio a acontecer. Deus manifestou isso a Pátraic. Loegaire disse a Pátraic: “Segue-me, ó clérigo, para Temuir, para que eu creia em ti ante todos os homens de Ériu”. E imediatamente ele preparou uma emboscada desde as Tumbas dos Homens de Fíacc até Temuir, diante de Pátraic, para matá-lo. Deus, porém, não permitiu que isso lhe acontecesse. Patraic chegou com oito de seus jovens clérigos e Benén como um noviço com eles e Patraic abençoou-os antes de partir. Um véu de escuridão desceu sobre eles de forma que nenhum desses homens pôde ser visto. Contudo, os pagãos que estavam escondidos nas redes viram oito gamos passar sob a montanha e atrás deles um jovem cervo com um feixe de galhos em seus ombros: esse era Pátraic com os seus oito e Benén atrás deles com suas tabuletas de escrever nas costas.

Então o homem santo compôs aquele hino em sua língua nativa, que é comumente chamado Feth-fiadha e, por outros, Lorica [“Couraça”] de Pátraic; e desde então foi tido pelos irlandeses na mais alta estima, pois acredita-se – o que está comprovado por muitas experiências – que seja capaz de proteger contra perigos que os ameacem na alma e no corpo (5).

O hino acima aludido é a “Couraça de São Patrício” (Lorica Patricii). Essa venerável oração irlandesa não é outra coisa senão a versão cristã de uma técnica mágica do passado pagão da Irlanda.

Lorica Sancti Patricii

A Couraça de São Patrício

Patraicc dorone in nimmun-sa; i naimseir Loegaire meic Néil dorigned; fád a dénma immorror dia diden co na manchaib ar náimdib in báis robátar i netarnid ar na cleircheib. Ocus is luirech hirse inso fri himdegail cuirp ocus anma ar demnaib ocus dúinib ocus dualchib: cech duine nosgéba chech día co ninnithem léir i nDia, ní thairisfet demna fria gnúis, bid dítin dó ar cech neim ocus format, bid comna dó fri dianbas. bid lu’rech dia anmain iar na étsecht. Patraicc rochan so in tan dorata na hetarnaidi ar a chinn ó Loegaire, na disged do silad chreitme co Temraig, conid annsin atchessa fiad lucht na netarnade comtis aige alta ocus iarróe i na ndíaid .i. Benen; ocus “fáeth fiada” a hainm.

Patraicc fez este hino; na época de Loegaire mac Neill foi feito e a causa da sua composição foi a proteção de si mesmo e dos seus monges contra os inimigos mortais que estavam em emboscada contra os clérigos. E é uma couraça de fé para a proteção do corpo e da alma contra demônios e homens e vícios; quando alguém a recitar diariamente com meditação piedosa sobre Deus, os demônios não ousarão enfrentá-lo, será uma proteção para ele contra todo veneno e inveja, será um guarda para ele contra a morte súbita, será uma couraça para a sua alma depois da sua morte. Patraicc cantou-a quando as emboscadas foram posicionadas contra ele por Loegaire, a fim de que ele não fosse a Temuir para semear a fé, de modo que, naquela ocasião, foram vistos como se fossem cervo selvagens diante daqueles que estavam em emboscada, tendo por trás de si um gamo, isto é, Benen; e Fáeth Fiada é o seu nome.

Atomriug índiu
niurt tríun togairm Tríndóite
cretim treodatad
foísitin oendatad
in dúilemon dáil.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Atomriug indiu
niurt gene Chríst co na baithius
niurt crochtho co na adnocul
niurt esséirgi cona fresgabáil
niurt tóniud do brethemnas bratha.

Levanto-me hoje:
o poder do nascimento de Cristo e Seu batismo
o poder de sua crucificação e sepultamento
o poder de sua ressurreição e ascensão
o poder de Sua descida para o Julgamento do Destino.

Atomriug indiu
niurt grád Hiruphin;
i nurlataid aingel
hi frescisin eseirge ar cenn fochraice
i nernaigthib huasalathrach,
i tairchetlaib fatha,
hi praiceptaib apstal,
i nhiresaib fuismedach,
i nendgai nóemingen,
hi ngnímaib fer fírean.

Levanto-me hoje:
poder dos graus dos Querubins
na obediência dos Anjos
no ministério dos Arcanjos
na esperança da ressurreição como recompensa
nas orações dos Patriarcas
nas profecias dos Profetas
nas pregações dos Apóstolos,
na fé dos Confessores
na inocência das Virgens Santas
em ações de homens justos.

Atomriug indiu
niurt nime,
soilse gréne,
etrochta snechtai,
áne thened,
déne lóchet,
luathe gáethe,
fudomna mara,
tairisem talmain,
cobsaidecht ailech.

Levanto-me hoje:
poder do céu
brilho do sol
brancura da neve
esplendor do fogo
velocidade da luz
leveza do vento
profundidade do mar
estabilidade da terra
firmeza do rochedo.

Atomriug indiu
niurt Dé do’m luamaracht,
cumachta Dé do’m chumgabail,
ciall Dé do’mm imthús,
rosc nDé do’m reimcise,
cluas Dé do’m étsecht,
briathar Dé do’m erlabrai,
lám Dé do’m imdegail,
intech Dé do’m remthechtas,
sciath Dé do’m dítin,
sochraite Dé do’mm anucul
ar intledaib demna,
ar aslaigthib dualchae,
ar irnechtaib aicnid,
ar cach nduine mídústhrastar dam
i céin ocus i nocus
i nuathad ocus i sochaide.

Levanto-me hoje:
Poder de Deus para guiar-me
Sabedoria de Deus para minha orientação
Olho de Deus para minha previdência
Ouvido de Deus para minha audição
Palavra de Deus para minha fala
Mão de Deus para minha tutela
Caminho de Deus para o meu trilhar
Escudo de Deus para minha proteção
Amizade de Deus para minha salvação
contra armadilhas de demônios
contra seduções de vícios
contra instigações da natureza
contra toda pessoa que me deseje mal
longe e perto
sozinho e na multidão.

Tocuirius etrum thra na huile nertso,
fri cech nert namnas nétrocar fristí do’m churp ocus do’mm anmain,
fri tairchetla saebḟáthe,
fri dubrechtu gentliuchta,
fri sáibṙechtu heretecda,
fri himcellacht nidlachta,
fri brichta ban ocus goband ocus druad,
fri cech fiss arachuiliu anman duini.

Invoco, portanto, todas essas forças para intervir
entre mim e toda força impiedosa e feroz que possa vir sobre o meu corpo e a minha alma:
contra encantamentos de falsos profetas
contra as leis negras do paganismo
contra as falsas leis da heresia
contra o engano da idolatria
contra feitiços de mulheres e ferreiros e druidas
contra todo conhecimento que seja proibido à alma humana.

Crist do’m imdegail indíu
ar neim, ar loscud,
ar badud, ar guin,
co nomthair ilar fochraice;
Crist lim, Crist rium,
Crist i’m degaid, Crist innium,
Crist íssum, Crist úasum,
Crist dessum, Crist tuathum,
Crist illius, Crist isius, Crist i nérus;
Crist i cridiu cech duine immimrorda,
Crist i ngin cech óen rodomlabrathar
Críst in cech rusc nomdercædar
Críst in cech cluais rodamchloathar.

Cristo para a minha tutela hoje
contra veneno, contra a queima,
contra o afogamento, contra ferimentos,
que possa vir a mim uma multidão de recompensas;
Cristo comigo, Cristo diante de mim
Cristo atrás de mim, Cristo em mim
Cristo sob mim, Cristo sobre mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao deitar, Cristo ao sentar, Cristo ao levantar
Cristo no coração de cada pessoa que pode pensar em mim!
Cristo na boca de todos que possam falar comigo!
Cristo em todos os olhos que possam olhar para mim!
Cristo em todo ouvido que possa me ouvir!

Atomriug indiu
niurt trén togairm trinoit
cretim treodatad
fóisin óendatad
in dúilemain dail.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Dominus est salus, domini est salus, Christi est salus;
salus tua, domine, sit semper nobiscum.

O Senhor é a salvação, do Senhor é a salvação, de Cristo é a salvação;
que a tua salvação, ó Senhor, esteja sempre conosco.

Notas:

1) Testemunha do conhecimento, conhecedor.

2) Adaptado de Mackenzie, William. Gaelic Incantations: charms and blessings of the Hebrides. Northern Counties Newspaper and Printing and Publishing Company, Limited: Inverness, 1895, p. 49.

3) A bruma mágica não era estranha aos helenos. No Canto XXX da “Ilíada”, é ela o expediente de que se serve Posêidon para ocultar Eneias aos olhos de Aquiles. O Canto V especificamente descreve Atena dando a Diômedes a capacidade de ver os deuses: “E removi o filtro dos teus olhos / que antes os escondia, eis que agora / facilmente distinguirás deuses e homens”. Depois disso, Diômedes feriu Afrodite na mão quando essa deusa tentou resgatar Eneias. O próprio Ares quase morreu aprisionado dentro de um grande vaso, mostrando que os deuses gregos, assim como os hibérnicos, não eram invulneráveis à agressão humana. No relato sobre Jasão e os Argonautas, conta-se que, na busca pelo Velo de Ouro, Hera cobriu os heróis com a mesma névoa mágica a fim de que não percebessem o caminho até chegarem às proximidades do palácio do rei Eetes de Cólquida, pai da feiticeira Medeia.

4) Windisch, Ernst & Stokes, Whitley (ed.). Irische Texte mit Übersetzungen und Wörterbuch in Irische Texte. Leipzig: S. Hirzel, 1897, v.3:2, pp. 475-476.

5) Stokes, Whitley (ed.). The Tripartite Life of Patrick. Londres: Eyre & Spotiswoode, 1887, p. 46 e 48.

 

Anúncios

Moí Coire Coir Goiriath

3caldeiroes

Moí Coire Coir Goiriath

O Caldeirão da Poesia

Atribuído a Amhairghin Glúingeal

Um antigo poema atribuído ao próprio druida Amhairghin foi localizado em um manuscrito jurídico do séc. XVI que hoje se encontra no Trinity College of Dublin, catalogado como H 3.18. Esse poema (datado do começo do séc. VIII, para as partes em verso, e do séc. X, para as partes em prosa, em razão de certas formas gramaticais) recebeu dos estudiosos modernos o nome de “O Caldeirão da Poesia”. Citado no “Glossário de O’Davoren” (1569), o nome desse texto aparece sob diferentes formas: In Coire, Coire Goiriath, In Coire Éarmai, sempre fazendo menção à palavra coire (“caldeirão”). De acordo com o poema, três caldeirões existem dentro de cada indivíduo.

Moí coire coir goiriath
gor rond n-ír Día dam a dúile dnemrib;
dliucht sóir sóerna broinn
bélrae mbil brúchtas úad.
Os mé Amargen glúngel garrglas grélíath,
gním mo goriath crothaib condelgib indethar
– dath nád inonn airlethar Día do cach dóen,
de thoíb, ís toíb, úas toíb –
nemshós, lethshós, lánshós,
do h-Ébiur Dunn dénum do uath aidbsib ilib ollmarib;
i moth, i toth, i tráeth,
i n-arnin, i forsail, i ndínin-díshail,
sliucht as-indethar altmod mo choiri.

Meu perfeito caldeirão do aquecimento
por Deus foi retirado do abismo misterioso dos elementos,
perfeita verdade que do âmago do ser enobrece,
que verte uma aterradora correnteza de palavras.
Amhairghin Joelho-Branco sou,
de pele pálida e cabelo cinzento,
minha incubação poética realizando em formas adequadas,
em cores diversas.
Deus não concede a todos a mesma sabedoria:
inclinado, invertido, na posição correta.
Conhecimento nenhum, meio conhecimento, conhecimento completo
para Eber Donn, criação de temível poesia,
de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente,
No masculino, no feminino e no neutro, os sinais das letras duplas, vogais longas e vogais breves,
O modo pelo qual se declara a natureza do meu caldeirão*.

* […] para Eber Donn, criação de temível poesia, / de vastos, potentes goles de mortais encantamentos, de um salmodiar potente, […]: o texto foi composto para Eber e Donn, irmãos do druida Amhairghin. Eber foi um dos reis dos Mac Miledh e Donn, tendo sido o primeiro humano a morrer na Irlanda, tornou-se uma divindade tutelar dos mortos, recebendo os descendentes de Mil na Teach Duinn (“Casa de Donn”) depois da morte. Comumente, essa casa é localizada em um rochedo do mesmo nome em algum lugar no mar a sudoeste da Irlanda.

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa*.

* Onde se encontra a raiz da poesia: na alma ou no corpo? “Na alma, pois sem esta nada pode o corpo”. Essa parece ser a atitude eclesiástica. “No corpo, pois é herdada dos ancestrais”. Essa parece ser a atitude das classes instruídas nativas, que colocavam grande ênfase na necessidade de que o pai e o avô tivessem sido filí para que um indivíduo pudesse ser considerado file ele próprio. O autor do texto não contradiz um ponto de vista nem o outro, apresentando um terceiro, isto é, afirmando que o potencial existe em cada um, mas realiza-se apenas em uns poucos. O objetivo do autor, ao propor um modelo tão – como se verá – complexo quanto o dos três caldeirões, talvez tenha sido superar o conflito entre a posição eclesiástica e a dos nativos, abrangendo três categorias de pessoas: o clérigo instruído, a pessoa versada na tradição nativa e um terceiro grupo, que poderia ser identificado ao amador talentoso. A metáfora do caldeirão, com os seus extremos de Aquecimento e Sabedoria, tendo a transição no Caldeirão do Movimento, ilustraria os vários níveis e tipos de conhecimento (especialmente gramática, métrica e escrita), cujos graus de competência seriam indicados pela posição de cada caldeirão.

Caite didiu bunad ind archetail 7 cach sois olchenae? Ní ansae; gainitir tri coiri i cach duiniu .i. coire goriath 7 coire érmai 7 coire sois.

O que é, então, a raiz da poesia e de toda outra sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa – o caldeirão do aquecimento, o caldeirão do movimento e o caldeirão da sabedoria.

Coire goiriath, is é-side gainethar fóen i nduiniu fo chétóir. Is as fo dálter soas do doínib i n-ógoítu.

O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo*. Distribui sabedoria às pessoas em sua juventude*/**.

* A posição em pé de Coire Goiriath no começo da vida representa um caso ideal, o do indivíduo que atinge o grau mais alto de instrução. Tal pessoa necessita que o seu Caldeirão do Aquecimento esteja em pé desde o princípio. Outrossim, a passagem anterior que diz dath nád inonn airlethar Día do cach dóen (“Deus não concede a todos a mesma sabedoria”) refere-se aos graus mais baixos dos poetas , aos bardos e às pessoas totalmente sem instrução. Assim, não há contradição entre essas afirmações.

** O primeiro caldeirão chama-se Coire Goiriath (“Caldeirão do Aquecimento/Sustento/Incubação”). O segundo é Coire Érmai (“Caldeirão do Movimento”). O terceiro é Coire Sofhis (“Caldeirão da Sabedoria”). Assim, os três caldeirões são: Aquecimento, Movimento e Sabedoria. Fisicamente, o Caldeirão do Aquecimento localiza-se no ventre, no foco da corrente telúrica; o Caldeirão do Movimento localiza-se no plexo solar, no foco da corrente solar; o Caldeirão da Sabedoria localiza-se no centro da cabeça, no foco da corrente lunar. Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Aquecimento encontra-se virado para cima. O líquido que nele borbulha é a força vital responsável pela saúde física. O líquido que ferve no Caldeirão do Aquecimento é dán. Dán é um dos conceitos mais complexos na tradição irlandesa. A palavra pode ser traduzida como “poesia, dom, talento, vocação, fado, destino”, conforme o contexto. Contudo, dán engloba todos esses significados como um conceito unitário. Dán ferve naturalmente e sobe, tornando-se brí.

Coire érmai, immurgu, iarmo-bí impúd moigid; is é-side gainethar do thoib i nduiniu.

O caldeirão do movimento, entretanto, aumenta depois de virar. Isso quer dizer que nasce inclinado para um dos lados, crescendo interiormente*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão do Movimento encontra-se virado de lado. O líquido que nele borbulha contém o caminho de nossas ações e realizações, as emoções e talentos. O líquido que ferve no Caldeirão do Movimento é brí. Brí (“essência, vigor”) é um poder pessoal inerente que não pode ser obtido de outra forma, mas apenas desenvolvido. Ao ferver, brí pode subir e converter-se em bua. O texto irlandês explica que o Caldeirão do Movimento encontra-se naturalmente inclinado em todas as pessoas sem arte, mas começa a virar para a posição correta naquelas que seguem o ofício bárdico ou possuem pequeno talento poético, o que se deve entender como referência às múltiplas especializações dos Áes Dána e não à poesia em sentido concreto. Somente nos ard ollúna, “que são grandes correntezas de sabedoria”, o Caldeirão do Movimento estaria em posição totalmente correta. Nem todo pessoa da arte o possui na posição correta, “pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria”. Embora a causa da tristeza ou da alegria seja externa, é a sua apropriação (ou internalização) pelo indivíduo que causa o movimento do caldeirão. Quatro são as tristezas: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. A alegria pode ser de duas modalidades: a alegria divina e a alegria humana. A alegria humana abrange: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. A Fonte de Segais é a Fonte do Conhecimento, de onde fluem as cinco correntezas que representam os cinco sentidos pelos quais percebemos o mundo. Não é possível alcançar sabedoria sem beber dessas cinco correntezas. A Fonte de Segais é igual à Fonte de Conlla, exceto que esta possui duas outras correntezas, fala e pensamento. A alegria divina é assim explicada no texto: “graça compreensível / conhecimento reunido / inspiração poética fluente como o leite do peito”, ou seja, é a compreensão integrada em que as águas da Fonte do Conhecimento formam e trama e a urdidura do que o sábio percebe como um só tecido, pois o Caldeirão do Movimento é “o auge da maré do conhecimento / união de sábios”.

Coire sois, is é-side gainethar fora béolu 7 is as fo-dáilter soes cach dáno olchenae cenmo-thá airchetal.

O caldeirão da sabedoria nasce invertido e distribui sabedoria na poesia e em toda outra arte*.

* Desde o nascimento do indivíduo, o Caldeirão da Sabedoria encontra-se virado para baixo. Ele contém nossas habilidades inatas e potenciais naturais que podem ser desenvolvidos a um grau máximo. A ideia de total autorrealização reside no Caldeirão da Sabedoria. O líquido que borbulha no Caldeirão da Sabedoria é bua. Bua (“vitória, mérito”) é o poder pessoal obtido pelo indivíduo, sobretudo o que se manifesta em uma área específica. As ações que permitem obter ou que mantêm bua recebem a designação de buatha (o plural de bua). O Caldeirão da Sabedoria “concede a natureza de cada arte/[…] engrandece cada artesão / […] edifica uma pessoa por meio de seu dom”, ou seja, desvela a essência do conhecimento, permitindo que o indivíduo a invoque numa “[…] aterradora correnteza de palavras / […] temível poesia / […] vastos, potentes goles de mortais encantamentos”. O Caldeirão da Sabedoria jorra imbas, a emanação impermanente e em mutação constante de Amhrán Mór, que concilia e transcende o Aquecimento e o Movimento.

Coire érmai dano, cach la duine is fora béolu atá and .i. n-áes dois. Lethchlóen i n-áer bairdne 7 rand. Is fóen atá i n-ánshruithaib sofhis 7 airchetail. Conid airi didiu ní dénai cach óeneret, di h-ág is fora béolu atá coire érmai and coinid n-impoí brón nó fáilte*.

O caldeirão do movimento, então, em todas as pessoas sem arte está invertido. Está inclinado para o lado em pessoas do ofício bárdico e de pequeno talento poético. Está na posição correta nos maiores dentre os poetas, que são grandes correntezas de sabedoria*. Nem todo poeta o possui na posição correta, pois o caldeirão do movimento deve ser virado pela tristeza ou pela alegria*/**.

* Os caldeirões são três, podendo também cada um deles assumir três diferentes posições: fóen ou uas toíb (em pé, isto é, na posição correta); de thoíb ou lethchlóen (inclinado); fora béolu ou for béolu ou ainda is toib (invertido). A posição em pé é a considerada ideal; a invertida é a menos desejável; a posição inclinada é um estado intermediário. Essas posições correspondem: fóen/uas toíb – o caldeirão está cheio; de thoíb/lethchlóen – o caldeirão está meio cheio; fora béolu/for béolu/is toib – o caldeirão está vazio.

** Este trecho deve ser analisado em conjunto com o que diz “O caldeirão do aquecimento nasce na posição correta nas pessoas desde o começo”, pois é na verdade um comentário sobre a natureza de Coire Goiriath. Coire Érmai está invertido em todas as pessoas sem arte, ou seja, ignorantes, e meramente inclinado nos bardos. Naqueles que são os maiores dentre os poetas, grandes correntezas de sabedoria (implicitamente os ollúna, grau mais alto dos filí), Coire Érmai mostra-se com a boca para cima. Desse modo, o Caldeirão do Movimento deve ser entendido como continuação do Caldeirão do Aquecimento. Nos ollúna, Coire Érmai é simplesmente Coire Goiriath em qualquer posição que este antes se encontrasse, sem que nada lhe fosse acrescentado. Coloca-se uma oposição entre os ollúna, de um lado, e os anruthanna (segundo grau dos filí), descendo toda a hierarquia dos poetas até chegar aos baird e às pessoas sem instrução, do outro. Como se dá então que o Caldeirão do Movimento possa ser cheio e “virado pela tristeza ou pela alegria”? Não se trata de contradição, pois esse é um processo dinâmico. O Caldeirão do Movimento é a transição entre o Caldeirão do Aquecimento e o Caldeirão da Sabedoria, ocorrendo entre eles uma sequência de esvaziamentos e enchimentos contínuos. Coire Goiriath começa com a boca para cima, Coire Érmai inicia no estágio em que o esvaziamento já começou (inclinado). Este processo se completa e, quando Coire Érmai é cheio novamente, converte-se em Coire Sofhis.

Ceist, cis lir foldai fil forsin mbrón imid-suí? Ní ansae; a cethair: éolchaire, cumae 7 brón éoit 7 ailithre ar dia 7 is medón ata-tairberat inna cethair-se cíasu anechtair fo-fertar.

Pergunta: quantas divisões de tristeza viram os caldeirões dos sábios? Não é difícil. Quatro: ânsia e pesar, as tristezas do ciúme e a disciplina da peregrinação aos lugares sagrados. Essas quatro são suportadas internamente, virando os caldeirões, embora sua causa seja exterior.

Atáat dano dí fhodail for fíilte ó n-impoíther i coire sofhis, .i. fáilte déodea 7 fáilte dóendae.

Há duas divisões de alegria que viram o caldeirão da sabedoria: a alegria divina e a alegria humana.

Ind fháilte dóendae, atáat cethéoir fodlai for suidi .i. luud éoit fuichechtae 7 fáilte sláne 7 nemimnedche, imbid bruit 7 biid co feca in duine for bairdni 7 fáilte fri dliged n-écse iarna dagfhrithgnum 7 fáilte fri tascor n-imbias do-fuaircet noí cuill cainmeso for Segais i sídaib, conda thochrathar méit motchnaí iar ndruimniu Bóinde frithroisc luaithiu euch aige i mmedón mís mithime dia secht mbliadnae beos.

Há quatro divisões da alegria humana entre os sábios: intimidade sexual, a alegria da saúde e da prosperidade depois dos anos difíceis do estudo da poesia, a alegria da sabedoria após a criação harmoniosa de poemas e a alegria do êxtase pelo consumo das claras nozes das nove aveleiras da Fonte de Segais no reino dos Sídhe. Estas se lançam em grandes quantidades, como um rebanho de carneiros nas margens do Bóinn, movendo-se mais depressa que cavalos de corrida conduzidos no solstício de verão a cada sete anos.

Fáilte déoldae, immurugu, tórumae ind raith déodai dochum in choiri érmai conid n-impoí fóen, conid de biit fáidi déodai 7 dóendai & tráchtairi raith 7 frithgnamo imale, conid íarum labrait inna labarthu raith 7 do-gniat inna firthu, condat fásaige 7 bretha a mbríathar, condat desimrecht do cach cobrai. Acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar*.

Deus toca as pessoas por meio de alegrias divinas e humanas para que sejam capazes de pronunciar poemas proféticos e realizar portentos, dando julgamentos sábios com precedentes e bençãos em resposta a cada pedido. E a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior*.

* O impulso para produzir poesia vem de dentro do indivíduo como resposta a circunstâncias externas, ou a habilidade para produzi-la já existe internamente no indivíduo, mas necessita do impulso de circunstâncias externas para manifestar-se, o que é confirmado pelo que está abaixo, faillsigther tri brón, “que é revelado por meio da tristeza”. No caso da alegria (dividida em humana e divina, fáilte déodea 7 fáilte dóendae), o caso é inverso: acht is anechtair ata-tairberat inna hí-siu in coire cíasu medón fo-fertar, “e a fonte dessas alegrias é externa à pessoa e acrescentada aos caldeirões para fazê-los virar, embora a causa da alegria seja interior”. Neste caso, a habilidade poética não está presente no indivíduo, mas precisa ser fornecida, e o impulso não vem de dentro da pessoa, mas do exterior. Isso é confirmado pela frase tórumae ind raith déodai, que fala da chegada da graça divina ao caldeirão, fazendo-o virar à posição correta. As quatro alegrias humanas antes mencionadas referem-se aos estágios sucessivos na carreira do poeta: chegada à adolescência, aprendizado exitoso com um mestre, aquisição das prerrogativas da poesia depois do estudo e a final aquisição do imbas.

Ara-caun coire sofhis
sernar dliged cach dáno
dia moiget moín
móras cach ceird coitchiunn
con-utaing duine dán.

Canto o caldeirão da sabedoria,
que concede a natureza de cada arte
por meio da qual a riqueza aumenta,
que engrandece cada artesão,
que edifica uma pessoa por meio de seu dom.

Ar-caun coire n-érmai
intlechtaib raith
rethaib sofhis
srethaib imbais
indber n-ecnai
ellach suíthi
srúnaim n-ordan
indocbáil dóer
domnad insce
intlecht ruirthech
rómnae roiscni
sáer comgni
cóemad felmac
fégthar ndliged
deligter cíalla
cengar sési
sílaigther sofhis
sonmigter soír
sóerthar nád shóer,
ara-utgatar anmann
ad-fíadatar moltae
modaib dliged
deligthib grád
glanmesaib soíre
soinscib suad
srúamannaib suíthi,
sóernbrud i mberthar
bunad cach sofhis
sernar iar ndligiud
drengar iar frithgnum
fo-nglúaisi imbas
inme-soí fáilte
faillsigther tri brón;
búan bríg
nád díbdai dín.
Ar-caun coire n-érmai.

Canto o caldeirão do movimento,
graça compreensível,
conhecimento reunido,
inspiração poética fluente como o leite do peito,
é o auge da maré do conhecimento,
união de sábios,
correnteza de soberania,
glória dos humildes,
maestria das palavras,
rápido entendimento,
sátira enrubescedora,
artesão de histórias,
cuidando dos alunos,
procurando princípios obrigatórios,
distinguindo as complexidades da linguagem,
movendo-se rumo à música,
propagação da boa sabedoria,
nobreza enriquecedora,
enobrecendo os não-nobres,
exaltando os nomes,
relatando louvores
por meio do trabalho da lei,
comparação de dignidades,
a bebida nobre em que é fervida
a raiz verdadeira de todo conhecimento,
que entrega em razão do respeito,
que cresce em razão da diligência,
cujo êxtase poético põe em movimento,
cuja alegria vira,
que é revelado por meio da tristeza,
proteção que não diminui,
canto o caldeirão do movimento.

Coire érmai,
ernid ernair,
mrogaith mrogthair,
bíathaid bíadtair,
máraid márthair,
áilith áiltir,
ar-cain ar-canar,
fo-rig fo-regar,
con-serrn con-serrnar
fo-sernn fo-sernnar*.

O caldeirão do movimento
concede, é concedido,
aumenta, é aumentado,
alimenta, é alimentado,
engrandece, é engrandecido,
invoca, é invocado,
canta, é cantado,
preserva, é preservado,
combina, é combinado,
sustenta, é sustentado*.

* Observe-se que Coire Érmai, que pode ser considerado o mais importante dos três caldeirões, embora não haja menção de que distribua nenhum tipo de conhecimento (sofhis); sua peculiaridade é iarmo-bí impúd moigid, “aumenta depois de virar”, ou seja, torna-se Coire Sofhis. Coire Érmai representa um estágio intermediário entre Coire Goiriath e Coire Sofhis; este apresenta a característica de receber acréscimos, mas nunca sofrer diminuições; esses acréscimos são as “alegrias e tristezas” mencionadas no texto; veja-se adiante o seu significado.

Fó topar tomseo*,
fó atrab n-insce**,
fó comair coimseo***,
con-utaing firse.

Boa é a nascente do ritmo*,
boa é a aquisição da fala,**
boa é a confluência do poder**,
que edifica a força.

* .I. is maith in coiri asa toimsidhher fri fidh 7 deach, “isto é, bom é o caldeirão graças ao qual se mede por letra e metros poéticos”, isto é, o conhecimento da gramática, da escrita e da métrica, que obviamente era um prerrequisito necessário a qualquer pessoa instruída.

** “Boa é a aquisição da fala”, isto é, a aquisição do poder de compor poesia, ou ser inspirado .i. is maith in coiri a fuil in tein fesa, “isto é, bom é o caldeirão em que se encontra o ‘fogo do conhecimento’ (tein fesa)”; assim, as tristezas e alegrias antes mencionadas são tipos diferentes de inspiração.

*** .I. is maith in coiri asa comainsidhther so uile, “isto é, bom é o caldeirão do qual tudo isso é obtido”.

Is mó cach ferunn,
is ferr cach orbu,
berid co h-ecnae,
echtraid fri borbu.

É maior do que cada domínio,
é melhor do que cada herança,
traz o homem ao conhecimento
ousando além da ignorância.

Vejamos agora outro texto irlandês (Codex Clarend, v.XV, fol. 7,p. 1, col. “a”, Londres, British Library, MS Additional 4783/03-07, fim do séc. XV) que fala sobre a composição do Adão bíblico de um modo que curiosamente faz lembrar o Adam Kadmon (“homem original”) do Zohar e do Talmud.

Is fisigh cidh diandernadh adham .i. do uiii rannaib: in céd rann do talmain: indara rann do muir: in tres rand do ghrein: in cethramha rann do nellaib: in cuigid rann do gaith: in séisedh rann do clochaibh: in sechtmadh rann don spirad naomh: intochmadh rann do soillsi in domuin.

Vale a pena saber que Adão foi feito de oito partes, isto é: a primeira parte, a terra; a segunda parte, o mar; a terceira parte, o sol; a quarta parte, as nuvens; a quinta parte, o vento; a sexta parte, as pedras; a sétima parte, o Espírito Santo; a oitava parte, a luz do mundo.

Rand na talman, as í sin in colann in duine : rann na mara, is í sin fuil in duine: rann na greine a ghne 7 a dreach: rann donéllaib [ilegível]; rann na gaoithe anal an duine: rann na cloch a chnamha: rann in spirada naoiin in anmain [leia-se: a anam]: an rann dorighnedh do soillsi in domuin as í sin a chráigheacht [leia-se: chráibhdheacht].

A parte da terra, essa é o corpo do homem; a parte do mar, essa é o sangue do homem; a parte do sol, seu rosto e seu semblante; a parte das nuvens, [ilegível]; a parte do vento, a respiração do homem; a parte das pedras, seus ossos; a parte do Espírito Santo, sua alma; a parte que foi feita da luz do mundo, essa é a sua devoção.

Madhi in talmaidhecht bhus fortail isin duine bud leasc. Madhi in muir budh enaidh. Madhí an grian bud alainn beódha. Madhiat na neoil bud etrom druth. Madhi in gaoth bud laidir fri gach. Madhiat na clocha bud cruaidh do traothafdh 7 bu gadaighe 7 bu sanntach. Madhí in spirad naomh bud béodha deghgnéach 7 bud lan do rath in scribtuir dhiadha. Madhi in tsoillsi bú duine sográdhachsotoghtha.

Se o elemento terrestre prevalecer no homem, ele será indolente. Se for o marinho, ele será inconstante. Se for o solar, será belo, vigoroso. Se forem as nuvens, será superficial, tolo. Se for o vento, será robusto contra todos. Se forem as pedras, será difícil de dominar, um ladrão e cobiçoso. Se for o Espírito Santo, será intenso, de boa aparência e cheio da graça da divina escritura. Se for a luz, será um homem merecedor de amor e sensato.

Portanto, Adão foi feito de oito partes:

1) terra (corpo, isto é, a carne);
2) mar (sangue);
3) o sol (rosto e semblante);
4) as nuvens (ilegível);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) Espírito Santo (alma) e
8) luz do mundo (devoção).

Dessa lista de correspondências, podemos concluir que há uma simetria entre Adão e o Mundo: a carne de Adão é a terra do Mundo; o mar do Mundo é o sangue de Adão.

Vimos que há três caldeirões no homem, isto é, em Adão: Aquecimento, Movimento e Sabedoria e a cada um deles atribuirei igual número de elementos. Isso exige que a relação seja emendada, acrescentando-se níab* (“força vital”) ao fim e trocando o Espírito Santo por um elemento natural que está claramente ausente: a lua.

* Irlandês antigo níab, “vigor, essência” < proto-céltico *neibos, galês nwyf, “vigor, energia”, nwyfre,“firmamento, força vital”.

O rol de elementos ficará assim:

1) terra (carne);
2) mar (sangue);
3) sol (rosto);
4) nuvens (mente);
5) vento (respiração);
6) pedras (ossos);
7) lua (alma) e
8) luz do mundo (devoção)
9) níab (espírito)

3caldeiroestabela1

3caldeiroestabela2

3caldeiroestabela3

Sabedoria

IX – influência, irradiação
VIII – valorização
VII – comunicação

Movimento

VI – independência, rigidez, egocentrismo
V – robustez, resistência
IV – gravidade, seriedade, confiabilidade

Aquecimento

III – beleza, saúde
II – estabilidade, constância, equilíbrio
I – vigor, vitalidade, dinamismo

Bellou̯esus Īsarnos