Belenos

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Belenos é um deus nada simples. Pode-se dizer que é o Apolo gaulês. É necessário, porém não se deixar enganar por essa identificação e considerar que esse Apolo é o deus esteta dos helenos, o Apolo Muságeta (“condutor das musas”). Caesar explica a ideia que os gauleses faziam de Apolo: “Apolo afasta as doenças”. O Apolo gaulês é Iátros (“médico”) e Mântis (“adivinho”), o deus da cura e da profecia. Contudo, aparentemente, Apolo-Grannos-Belenos não era uma das divindades mais antigas da Gália.

Na evolução do panteão céltico anterior à conquista romana, ele foi de certo modo um novato, surgido por volta do fim do séc. II a. C. Sua chegada à Gália coincidiu com o desenvolvimento dos santuários das águas curadoras e de profecia já existentes, dos ritos apolíneos de artes mânticas, da adivinhação e das terapias por incubação, todos provenientes da área grega de Massilia (hoje Marselha), juntamente com o culto de Asclépio. Comumente, Apolo tomou, nos santuários das águas curativas, o lugar de uma deusa ou de um deus (o Marte nativo) anteriormente instalado. O tema da disputa da trípode, não raro na iconografia galo-romana, poderia ser um eco das lutas e disputas envolvendo Apolo, o recém-chegado, e divindades anteriormente instaladas.

Extraído de interpretação de antigas obras de arte e inscrições, há um mito muito complexo em que uma grande deusa, Ríganí (“Rainha”), ocupa alternadamente a posição de companheira do deus do Céu e do deus do Mundo Inferior. Ela troca de consorte sazonalmente e nenhum deles fica satisfeito com isso. De acordo com esse mito, Taranis, o mestre do Céu, maneja a roda celeste com o auxílio do Marte Gaulês. Um deus caçador pré-céltico, uma divindade secundária, domador de cervos e mestre dos jogos, participa do mito por sua intervenção na caçada do cervo (que representa o poder espiritual, o numen, no dizer romano, ou neibos em céltico) e em seu sacrifício, com o que este, o animal, concorda. A essas três divindades (Taranis, o Marte gaulês e o deus caçador) associa-se um grande deus mediador, justamente Apolo-Grannos-Belenos, que preside os santuários das fontes.

Belenos, ajudado pelos Gêmeos Divinos gauleses, Deuanonos e Deuomogetimaros, é o responsável pela transformação das deusas (as três deusas que são aspectos da Rainha) em garças (as mesmas do Taruos Trigaranus) para que possam escapar de Taranis. Contra o poderoso senhor do céu e do raio, Belenos e Esus (que se torna Cernunnos quando a Ríganí troca-o por Taranis) contam ainda com o auxílio de outras duas deidades, Toutatis e Smertulos.

Belenos possuía um símbolo complexo, formado pela falsa lira da Ríganí, a folha de visco de Esus e os chifres de carneiro estilizados de Toutatis. Esse signo triplo exprimia sua função mediadora como árbitro das lutas entre os deuses do céu e da terra e sua natureza como última forma do Lugus-corvo, tornando-se ele próprio o Apolo com corvo (ave profética) que surge em tantos monumentos galo-romanos.

Além de Epona, Belenos também soube fazer caminho para os altares romanos. No fim do séc. III d. C., os imperadores Maximianus e Diocletianus endereçaram-lhe uma dedicatória no santuário de Aquilea, manifestando desse modo o reconhecimento oficial ao culto do Apolo gaulês. No começo do século seguinte, o poeta Ausonius, no poema em que comemora os professores da Universidade de Burdigala (a atual Bordeaux), revela uma importante informação: depois da perseguição, os druidas encontraram refúgio nos santuários de Apolo, centros da medicina profética e da arte divinatória, preservando desse modo o essencial do saber e das tradições nativas. O poder romano, ao enfrentar as graves mudanças do séc. IV, parece ter assim se voltado para os deuses célticos, a fim de fazer frente às ameaças imensas que estavam a ponto de submergir o Império. O sucesso dessa e de outras medidas foi, como se sabe, limitado e passageiro.

Como deus curador, e principalmente patrono das águas curadoras, Belenos pode ter como correspondente irlandês a Dian Cecht, que se pensa também tenha sido uma deidade solar, além de criador da “Fonte da Saúde” (Tobar Sláine), como diz o Cath Tánaiste Maige Tuired.

Bellouesus /|\

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