Anotações Druídicas V

Anotações Druídicas V: Nuvem Mágica

Bellou̯esus Īsarnos

fiada

A Nuvem da Testemunha (1)

Sobre ti uma nuvem mágica eu coloco,
[Para guardar-te] de cão, de gato,
De vaca, de cavalo,
De homem, de mulher,
De mancebo, de donzela,
E de criancinha,
Até que novamente eu retorne.
Em nome de Esus, Lugus e Maponos (2).

Comentário:

No livro de que este encantamento foi traduzido e adaptado (William Mackenzie, Gaelic Incantations), essa pequena composição traz o título Fath Fithe, traduzido como “Nuvem Mágica”. Mackenzie explica que o Fath Fithe era um dos encantamentos preferidos dos caçadores na Escócia gaélica, pois permitia tornar objetos físicos invisíveis à visão comum. Assim, os caçadores poderiam voltar da floresta carregados com os despojos da caça, mas invisíveis aos seus inimigos. Acreditava-se que até mesmo contrabandistas poderiam servir-se dele para escapar aos funcionários do Fisco! O autor acrescenta que, na sua época (o livro foi publicado nos últimos anos do séc. XIX), as menções ao Fath Fithe eram já muito raras, embora se pudesse considerar que em tempos mais antigos fosse tido como eficiente encantamento de proteção.

A crença no poder de causar invisibilidade, escuridão ou confusão era muito antiga entre os povos célticos e esse pequeno encantamento escocês possui um precedente inegável na tradição irlandesa, pois foi essa mesma névoa mágica que as Tuatha Dé Danann usaram para esconder Ériu dos Filhos de Mil num manto de brumas, não logrando sucesso porque a magia de Amergin Glúingel, file (poeta sagrado) e breitheamh (especialista em questões legais/árbitro), foi mais potente que a dos druidas das Tuatha Dé. A névoa mágica foi dissipada, os Milesianos desembarcaram, derrotaram os antigos senhores da ilha e ocupam Ériu, a Irlanda, até o dia de hoje.

O velho fath fithe da Escócia é realmente a contraparte do irlandês féth fíada (“névoa da maestria ou conhecimento”) ou ceó druídecta (“bruma druídica”), encantamento ensinado por Manannán Mac Lir às Tuatha Dé Danánn para que se ocultassem dos Filhos de Mil. É o domínio da bruma mágica que torna os deuses materialmente distintos dos humanos, pois permite que os deuses vejam uns aos outros, mas não sejam vistos por olhos mortais (3).

Além da sua função como instrumento mágico de ocultação, o féth fíada pode apresentar ocasionalmente um aspecto sinistro, prenúncio da carnificina, manifestando-se como a “bruma guerreira” de três cores (preta, vermelha e verde), que encontramos no conto Tochmarc Ferbe (“A Corte a Ferbe”):

Luid iarom Conchobar, tri choicait laech impu sin, agus ni ruc nech do Ultaib leis, acht sé féin agus a ara .i. Brod agus Imrind in drúi .i. mac Cathbath. Ni bái dana gilla oc neoch díb acht gilla Conchobair, acht a scéith for a munib leo agus allaigne lethanglassa inallámaib agus a claidib tromma tortbullecha for a cressaib. Ni ba lín tra ba mesta forru, bá mór a toilc menman. O ro siachtatar iarom co m-batar ic fegad in dúnaid úathu innund, atchonncatar tromnél dímór uas chind in dúnaid. Cirdub indara cend dó agus dergg a medon agus glass in cend aile. Iarfaigis Conchobar iarsin: Cid co tirchain a Imrind, ar se, in nél út atchiam uasin dunud. Tirchanaid ém, ar Imrind, ág agus urbaid na haidchi innocht.

E Conchobar partiu, estando com ele três vezes cinquenta guerreiros que cercavam esses chefes, e ele não levou consigo nenhum dos Ultu exceto ele próprio e Brod, o seu auriga, e Imrinn, o Druida, que era o filho de Cathbath. E nenhum desses guerreiros tinha um servo consigo, exceto o servo de Conchobar somente, mas traziam os escudos em suas costas e suas brilhantes lanças verdes em suas mãos, e suas pesadas espadas de potentes golpes em seus cinturões. Contudo, eles não deviam ser desprezados por causa de seu número, grande era o orgulho de suas almas. E quando eles chegaram a esse local de onde a fortalza de Greg podia ser por eles vista, contemplaram uma pesada nuvem que pairava sobre o forte. Uma extremidade da nuvem era negra como carvão e o seu meio era vermelho e a outra ponta era verde. Assim, Conchobar falou a Imrinn, o Druida: “Dize-me, ó Imrinn”, ele falou, “que presságio significa essa nuvem que vemos sobre a fortaleza?” “Verdadeiramente”, disse Imrinn, “isso significa um combate que durará a noite toda e a morte nesta noite” (4).

Não obstante sua indissociável ligação com o contexto pagão, a técnica mágico-druídica do féth fíada não desapareceu com a conversão ao cristianismo ou foi por este rejeitada. Ao contrário, passou a ser usada a serviço da nova fé, como fica demonstrado na Bethu Phátraic (“Vida de Pádraig”):

Nír bu cían iarsin róchoggair in rí leis Pátraic forleith, ocus ised roimraid amarbad, ocus ní forchoemnacair. Forfhoilsig Día do Pátraic inní sin. Adrubairt Láogairi fri Pátraic: “Tair im díaidsi, achleirig, do Temraig corochreitiur duit arbélaibh fer nEirenn”. Ocus rosuidigsom calleic etarnais cechbelaig oFherta Fer Féic co Temraig archiunn Pátraic diamhabad. Acht nírocomarleic Día dó. Dodhechaid Pátraic ochtor macccléirech ocus Benén do gillu léu, ocus rosbendach Pátraic réduidecht. Dodechaid dícheltair tairsiu conárárdraig fer dib. Atchoncatar, immorro, na gentlidi batar isna intledaib ocht naige altaige dotecht secu fón sliab, ocus iarndóe innandegaid ocus gaile for agúalaind: Pátraic aochtar, ocus Benén inandegaidh ocus a fholaire for a muin.

Tunc uir sanctus composuit ilium hymnum patrio idiomato conscriptum, qui uulgo Fáed fíada, et ab aliis Lorica Patricii appellatur. Et in summo abinde inter Hibernos habetur pretio, quia creditur, et multa experientia probatur, pie recitantes ab imminentibus animae et corporis praeseruare periculis.

Não muito tempo depois, o rei chamou Pátraic em particular e cogitou matá-lo e isso não veio a acontecer. Deus manifestou isso a Pátraic. Loegaire disse a Pátraic: “Segue-me, ó clérigo, para Temuir, para que eu creia em ti ante todos os homens de Ériu”. E imediatamente ele preparou uma emboscada desde as Tumbas dos Homens de Fíacc até Temuir, diante de Pátraic, para matá-lo. Deus, porém, não permitiu que isso lhe acontecesse. Patraic chegou com oito de seus jovens clérigos e Benén como um noviço com eles e Patraic abençoou-os antes de partir. Um véu de escuridão desceu sobre eles de forma que nenhum desses homens pôde ser visto. Contudo, os pagãos que estavam escondidos nas redes viram oito gamos passar sob a montanha e atrás deles um jovem cervo com um feixe de galhos em seus ombros: esse era Pátraic com os seus oito e Benén atrás deles com suas tabuletas de escrever nas costas.

Então o homem santo compôs aquele hino em sua língua nativa, que é comumente chamado Feth-fiadha e, por outros, Lorica [“Couraça”] de Pátraic; e desde então foi tido pelos irlandeses na mais alta estima, pois acredita-se – o que está comprovado por muitas experiências – que seja capaz de proteger contra perigos que os ameacem na alma e no corpo (5).

O hino acima aludido é a “Couraça de São Patrício” (Lorica Patricii). Essa venerável oração irlandesa não é outra coisa senão a versão cristã de uma técnica mágica do passado pagão da Irlanda.

Lorica Sancti Patricii

A Couraça de São Patrício

Patraicc dorone in nimmun-sa; i naimseir Loegaire meic Néil dorigned; fád a dénma immorror dia diden co na manchaib ar náimdib in báis robátar i netarnid ar na cleircheib. Ocus is luirech hirse inso fri himdegail cuirp ocus anma ar demnaib ocus dúinib ocus dualchib: cech duine nosgéba chech día co ninnithem léir i nDia, ní thairisfet demna fria gnúis, bid dítin dó ar cech neim ocus format, bid comna dó fri dianbas. bid lu’rech dia anmain iar na étsecht. Patraicc rochan so in tan dorata na hetarnaidi ar a chinn ó Loegaire, na disged do silad chreitme co Temraig, conid annsin atchessa fiad lucht na netarnade comtis aige alta ocus iarróe i na ndíaid .i. Benen; ocus “fáeth fiada” a hainm.

Patraicc fez este hino; na época de Loegaire mac Neill foi feito e a causa da sua composição foi a proteção de si mesmo e dos seus monges contra os inimigos mortais que estavam em emboscada contra os clérigos. E é uma couraça de fé para a proteção do corpo e da alma contra demônios e homens e vícios; quando alguém a recitar diariamente com meditação piedosa sobre Deus, os demônios não ousarão enfrentá-lo, será uma proteção para ele contra todo veneno e inveja, será um guarda para ele contra a morte súbita, será uma couraça para a sua alma depois da sua morte. Patraicc cantou-a quando as emboscadas foram posicionadas contra ele por Loegaire, a fim de que ele não fosse a Temuir para semear a fé, de modo que, naquela ocasião, foram vistos como se fossem cervo selvagens diante daqueles que estavam em emboscada, tendo por trás de si um gamo, isto é, Benen; e Fáeth Fiada é o seu nome.

Atomriug índiu
niurt tríun togairm Tríndóite
cretim treodatad
foísitin oendatad
in dúilemon dáil.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Atomriug indiu
niurt gene Chríst co na baithius
niurt crochtho co na adnocul
niurt esséirgi cona fresgabáil
niurt tóniud do brethemnas bratha.

Levanto-me hoje:
o poder do nascimento de Cristo e Seu batismo
o poder de sua crucificação e sepultamento
o poder de sua ressurreição e ascensão
o poder de Sua descida para o Julgamento do Destino.

Atomriug indiu
niurt grád Hiruphin;
i nurlataid aingel
hi frescisin eseirge ar cenn fochraice
i nernaigthib huasalathrach,
i tairchetlaib fatha,
hi praiceptaib apstal,
i nhiresaib fuismedach,
i nendgai nóemingen,
hi ngnímaib fer fírean.

Levanto-me hoje:
poder dos graus dos Querubins
na obediência dos Anjos
no ministério dos Arcanjos
na esperança da ressurreição como recompensa
nas orações dos Patriarcas
nas profecias dos Profetas
nas pregações dos Apóstolos,
na fé dos Confessores
na inocência das Virgens Santas
em ações de homens justos.

Atomriug indiu
niurt nime,
soilse gréne,
etrochta snechtai,
áne thened,
déne lóchet,
luathe gáethe,
fudomna mara,
tairisem talmain,
cobsaidecht ailech.

Levanto-me hoje:
poder do céu
brilho do sol
brancura da neve
esplendor do fogo
velocidade da luz
leveza do vento
profundidade do mar
estabilidade da terra
firmeza do rochedo.

Atomriug indiu
niurt Dé do’m luamaracht,
cumachta Dé do’m chumgabail,
ciall Dé do’mm imthús,
rosc nDé do’m reimcise,
cluas Dé do’m étsecht,
briathar Dé do’m erlabrai,
lám Dé do’m imdegail,
intech Dé do’m remthechtas,
sciath Dé do’m dítin,
sochraite Dé do’mm anucul
ar intledaib demna,
ar aslaigthib dualchae,
ar irnechtaib aicnid,
ar cach nduine mídústhrastar dam
i céin ocus i nocus
i nuathad ocus i sochaide.

Levanto-me hoje:
Poder de Deus para guiar-me
Sabedoria de Deus para minha orientação
Olho de Deus para minha previdência
Ouvido de Deus para minha audição
Palavra de Deus para minha fala
Mão de Deus para minha tutela
Caminho de Deus para o meu trilhar
Escudo de Deus para minha proteção
Amizade de Deus para minha salvação
contra armadilhas de demônios
contra seduções de vícios
contra instigações da natureza
contra toda pessoa que me deseje mal
longe e perto
sozinho e na multidão.

Tocuirius etrum thra na huile nertso,
fri cech nert namnas nétrocar fristí do’m churp ocus do’mm anmain,
fri tairchetla saebḟáthe,
fri dubrechtu gentliuchta,
fri sáibṙechtu heretecda,
fri himcellacht nidlachta,
fri brichta ban ocus goband ocus druad,
fri cech fiss arachuiliu anman duini.

Invoco, portanto, todas essas forças para intervir
entre mim e toda força impiedosa e feroz que possa vir sobre o meu corpo e a minha alma:
contra encantamentos de falsos profetas
contra as leis negras do paganismo
contra as falsas leis da heresia
contra o engano da idolatria
contra feitiços de mulheres e ferreiros e druidas
contra todo conhecimento que seja proibido à alma humana.

Crist do’m imdegail indíu
ar neim, ar loscud,
ar badud, ar guin,
co nomthair ilar fochraice;
Crist lim, Crist rium,
Crist i’m degaid, Crist innium,
Crist íssum, Crist úasum,
Crist dessum, Crist tuathum,
Crist illius, Crist isius, Crist i nérus;
Crist i cridiu cech duine immimrorda,
Crist i ngin cech óen rodomlabrathar
Críst in cech rusc nomdercædar
Críst in cech cluais rodamchloathar.

Cristo para a minha tutela hoje
contra veneno, contra a queima,
contra o afogamento, contra ferimentos,
que possa vir a mim uma multidão de recompensas;
Cristo comigo, Cristo diante de mim
Cristo atrás de mim, Cristo em mim
Cristo sob mim, Cristo sobre mim,
Cristo à minha direita, Cristo à minha esquerda,
Cristo ao deitar, Cristo ao sentar, Cristo ao levantar
Cristo no coração de cada pessoa que pode pensar em mim!
Cristo na boca de todos que possam falar comigo!
Cristo em todos os olhos que possam olhar para mim!
Cristo em todo ouvido que possa me ouvir!

Atomriug indiu
niurt trén togairm trinoit
cretim treodatad
fóisin óendatad
in dúilemain dail.

Levanto-me hoje:
vasto poder, invocação da Trindade,
crença na Triplicidade
confissão da Unidade
do Criador da Criação.

Dominus est salus, domini est salus, Christi est salus;
salus tua, domine, sit semper nobiscum.

O Senhor é a salvação, do Senhor é a salvação, de Cristo é a salvação;
que a tua salvação, ó Senhor, esteja sempre conosco.

Notas:

1) Testemunha do conhecimento, conhecedor.

2) Adaptado de Mackenzie, William. Gaelic Incantations: charms and blessings of the Hebrides. Northern Counties Newspaper and Printing and Publishing Company, Limited: Inverness, 1895, p. 49.

3) A bruma mágica não era estranha aos helenos. No Canto XXX da “Ilíada”, é ela o expediente de que se serve Posêidon para ocultar Eneias aos olhos de Aquiles. O Canto V especificamente descreve Atena dando a Diômedes a capacidade de ver os deuses: “E removi o filtro dos teus olhos / que antes os escondia, eis que agora / facilmente distinguirás deuses e homens”. Depois disso, Diômedes feriu Afrodite na mão quando essa deusa tentou resgatar Eneias. O próprio Ares quase morreu aprisionado dentro de um grande vaso, mostrando que os deuses gregos, assim como os hibérnicos, não eram invulneráveis à agressão humana. No relato sobre Jasão e os Argonautas, conta-se que, na busca pelo Velo de Ouro, Hera cobriu os heróis com a mesma névoa mágica a fim de que não percebessem o caminho até chegarem às proximidades do palácio do rei Eetes de Cólquida, pai da feiticeira Medeia.

4) Windisch, Ernst & Stokes, Whitley (ed.). Irische Texte mit Übersetzungen und Wörterbuch in Irische Texte. Leipzig: S. Hirzel, 1897, v.3:2, pp. 475-476.

5) Stokes, Whitley (ed.). The Tripartite Life of Patrick. Londres: Eyre & Spotiswoode, 1887, p. 46 e 48.

 

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O Corte do Visco

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O Corte do Visco

Non est omittenda in hac re et Galliarum admiratio. Nihil habent Druidae — ita suos appellant magos — uisco et arbore, in qua gignatur, si modo sit robur, sacratius. Iam per se roborum eligunt lucos nec ulla sacra sine earum fronde conficiunt, ut inde appellati quoque interpretatione Graeca possint Druidae uideri. Enimuero quidquid adgnascatur illis e caelo missum putant signumque esse electae ab ipso deo arboris. Est autem id rarum admodum inuentu et repertum magna religione petitur et ante omnia sexta luna, quae principia mensum annorumque his facit et saeculi post tricesimum annum, quia iam uirium abunde habeat nec sit sui dimidia. Omnia sanantem appellant suo uocabulo. Sacrificio epulisque rite sub arbore conparatis duos admouent candidi coloris tauros, quorum cornua tum primum uinciantur. Sacerdos candida ueste cultus arborem scandit, falce aurea demetit, candido id excipitur sago. tum deinde victimas immolant praecantes, suum donum deus prosperum faciat iis quibus dederit. Fecunditatem eo poto dari cuicumque animalium sterili arbitrantur, contra uenena esse omnia remedio. Tanta gentium in rebus friuolis plerumque religio est.

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas – pois é assim que chamam os seus magos – não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se crescesse somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” [a palavra grega para carvalho]. E sem dúvida pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em carvalhos. Não obstante, procuram-no com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua, chamam o visco por um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos, conduzindo dois touros brancos cujos chifres são então amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda seu próprio dom àqueles a que ofereceram. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Gaius Plinius Secundus (Naturalis Historia, XVI, 249-251, séc. I d. C.)

Tradução: Bellouesus Isarnos

As Instruções de Cormac

cormac-mac-art

As Instruções de Cormac

Tecosca Cormaic

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Do Leabhar Bhaile an Mhóta, “Livro de Ballymote”, RIA MS 23 P 12, 275 foll.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
– Não é difícil dizer – disse Cormac.
– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.
– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]

A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

cormac

A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

Echtra Cormaic i Tír Tairngire

Do Leabhar Buidhe Lecain, “Livro Amarelo de Lecan”, col. 889, l. 26, p. 181; Irlanda, c. 1391 – c. 1401.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Certa vez em que Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas, estava em Liathdruim, ele viu um rapaz no campo diante de sua fortaleza, tendo na mão um cintilante ramo encantado com nove maçãs de ouro vermelho. E era esta a propriedade desse ramo, que, quando qualquer um o agitasse, homens e mulheres feridos seriam acalentados pelo som da dulcíssima música mágica que as maçãs emanavam e outra propriedade era que ninguém na terra manteria no pensamento qualquer preocupação, pesar ou tristeza na alma quando o ramo lhe fosse balançado e, com o sacudir do ramo, ninguém se lembraria de qualquer mal que pudesse ter ocorrido. Cormac disse ao jovem: “É teu esse ramo?” “Certamente é meu”, disse o rapaz. “Tu o venderias?”, perguntou Cormac. “Vendê-lo-ia”, falou o jovem, “pois nunca tive nada que eu não vendesse”. “O que pedirias por ele?”, disse Cormac. “O preço que a minha boca disser”, disse o rapaz. “De mim o receberás”, disse Cormac, “e dize o teu preço”. “A tua esposa, o teu filho e a tua filha”, respondeu o rapaz, “isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Terás a todos”, disse Cormac.

Depois disso, o rapaz entregou o ramo e Cormac levou-o a sua própria casa, a Ailbhe, a Eithne e a Cairbre. “Belo é o tesouro que tens”, disse Ailbhe. “Isso não me espanta”, respondeu Cormac, “pois paguei bom preço por ele”. “O que deste por ele ou que troca fizeste?”, perguntou Ailbhe. “Cairbre, Eithne e tu mesma, ó Ailbhe”. “Isso é uma lástima”, falou Eithne, “ainda que não seja verdade, pois pensamos que não haja na face da terra tesouro pelo qual nos trocarias”. “Dou a minha palavra”, disse Cormac, “de que vos dei por este tesouro”. Tristeza e pesar encheram os seus corações ao saber que aquilo era verdade e Eithne disse: “É uma barganha muito dispendiosa entregar-nos em troca de qualquer ramo no mundo”.

Quando Cormac percebeu que a tristeza e o pesar haviam invadido os seus corações, agitou o ramo contra eles e, ao ouvirem a suave e doce música do ramo não mais pensaram em qualquer mal ou preocupação que os tivesse atingido e saíram para encontrar o rapaz. “Aqui”, disse Cormac, “tens o preço que pediste pelo ramo”. “Bem cumpriste a tua promessa”, disse o rapaz, “e recebeste votos de vitória e bençãos em atenção à tua veracidade”. E deixou Cormac com desejos de prosperidade e saúde e ele e os seus companheiros seguiram o seu caminho.

Cormac foi para a sua casa e, quando essas notícias foram ouvidas em toda a Ériu, altos clamores de pranto e lamentação ergueram-se em cada parte dela e sobretudo em Liathdruim. Quando Cormac escutou os estrondosos clamores em Temhair, sacudiu o ramo entre eles, de modo que não houve mais tristeza ou pesar nos corações de ninguém.

Ele assim continuou durante todo aquele ano, até dizer: “Hoje faz um ano que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram tomados de mim e segui-los-ei pelo mesmo caminho por onde foram”.

Então Cormac saiu para procurar o caminho pelo qual vira partir o rapaz e uma escura névoa mágica levantou-se ao seu redor e ocorreu que ele chegou a uma admirável e maravilhosa planície. Era assim essa planície: havia ali uma soberba e grandíssima legião de cavaleiros e a atividade que estavam a realizar era cobrir uma casa com um telhado de penas de pássaros exóticos e, ao terminar de cobrir metade da casa, saíam a procurar penas de aves para a outra e, quanto à metade da casa que já haviam coberto, sobre ela não encontravam uma só pena ao retornar. Cormac ficou longo tempo a observá-los nesse mister e assim falou: “Não mais vos observarei, pois percebo que nisso vos esforçareis do começo ao fim do mundo”.

Cormac seguiu o seu caminho e estava a perambular pela planície quando viu um jovem de estranha aparência a caminhar por ali e o seu ofício era este: ele arrancava do chão uma enorme árvore e partia-a entre a raiz e a copa e com ela fazia uma grande fogueira e saía a procurar outra árvore e, ao retornar, não encontrava diante de si sequer um restolho da primeira árvore que não estivesse queimado e consumido. Por um grande lapso de tempo esteve Cormac a observá-lo naquele dilema e por fim disse: “Certamente te deixarei a partir deste momento, pois, ficasse eu a olhar-te para sempre, estarias na mesma até o fim dos tempos”.

Depois disso, Cormac começou a percorrer a planície até divisar três imensas fontes nas extremidades da planície e assim eram essas fontes: nelas havia três cabeças. Cormac achegou-se à fonte que estava mais próxima de si e assim era a cabeça que nela estava: uma correnteza fluía para sua boca e duas correntezas dela fluíam. Cormac avançou para a segunda fonte e a cabeça que estava nessa fonte era assim: uma correnteza para ela fluía e outra correnteza dela fluía. Ele avançou para a terceira fonte e assim era a cabeça que nela estava: para sua boca três correntezas fluíam e somente uma correnteza dela fluía. Com isso foi Cormac tomado de grande assombro e disse: “Não mais estarei a observar-vos, pois jamais encontrarei homem que me conte as vossas histórias e acredito que descobriria bom ensinamento nos vossos significados se os compreendesse”.

O rei de Ériu seguiu o seu caminho e não havia caminhado muito quando viu um vasto campo diante de si e uma casa no meio do campo. E Cormac aproximou-se da casa e nela entrou. E o rei de Ériu saudou os que dentro estavam. Um casal muito alto com vestes multicoloridas, que dentro estava, respondeu-lhe e rogou-lhe que permanecesse. “Quem quer que sejas, ó jovem, pois já não é hora de viajares a pé”.

Assim, Cormac, filho de Art, sentou-se e ficou certamente satisfeito por encontrar hospitalidade naquela noite. “Levanta-te, ó homem da casa”, disse a mulher, “pois há um honesto e bem-apessoado viajante em nossa casa e como poderias saber se não é algum honrado nobre entre os homens do mundo? E, se tiveres algum tipo de comida ou carne da melhor qualidade, que me sejam trazidos”.

Ao escutá-la ergueu-se o jovem e deste modo voltou até eles, isto é, com um enorme javali selvagem nas costas e uma tora em sua mão e jogou a tora e o suíno no chão e disse: “Aqui tendes a carne e cozinhai-a para vós mesmos”. “Como devo fazê-lo?”, perguntou Cormac. “Ensinar-te-ei”, disse o jovem, “ou seja, racha esta grande tora que tenho e dela faze quatro peças e joga um quarto do javali e um quarto da tora embaixo dele e conta um conto verdadeiro e o javali será cozido”.

Disse Cormac: “Narra tu mesmo o primeiro conto e então a tua esposa e depois disso será a minha vez”. “Falas acertadamente”, disse o jovem, “e penso que tens a eloquência de um príncipe e para começar contar-te-ei um caso. Aquele suíno que eu trouxe”, ele continuou, “não tenho senão sete desses porcos e com eles eu poderia alimentar o mundo inteiro, pois, dentre esses porcos o que for morto, tens apenas de colocar os seus ossos de volta no chiqueiro e na manhã seguinte ele será encontrado vivo”. Esse caso era verdadeiro e o quarto do porco ficou cozido. “Conta tu uma história agora, ó mulher da casa”, disse o jovem. “Contarei”, ela falou, “e põe tu ali um quarto do javali selvagem e sob ele um quarto da tora”. Assim foi feito.

Disse ela: “Tenho sete vacas brancas e elas enchem as sete cubas com leite todos os dias e dou minha palavra que elas produziriam leite suficiente para satisfazer todos os homens do mundo caso estes estivessem a bebê-lo na planície”. Esse caso era verdadeiro e, por conseguinte, o quarto do porco ficou cozido.

Disse Cormac: “Se verdadeiras foram as vossas narrativas, és por certo Manannán e ela é tua esposa, pois ninguém na face da terra possui tais tesouros senão Manannán, eis que foi a Tír Tairngire que ele foi em busca dessa mulher e obteve com ela essas sete vacas e sobre elas tossiu até aprender os miraculosos poderes da sua ordenha, ou seja, que elas poderiam encher sete cubas de uma vez só”. “Com total acerto nô-lo disseste, ó jovem”, disse o homem da casa, “e conta-nos um caso a teu próprio respeito agora”.

Disse Cormac: “Contarei e põe tu um quarto da tora sob o caldeirão até que eu te conte um conto verdadeiro”. Assim foi feito e Cormac disse: “Seguramente estou em uma busca, pois hoje se completou um ano desde que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram levados de mim”. “Quem os tomou de ti?”, perguntou o homem da casa. “Um jovem veio a mim”, disse Cormac, “que segurava em sua mão um ramo encantado e surgiu em mim grande desejo por esse ramo, de modo que lhe concedi por ele qualquer preço que pedisse e ele exigiu-me o cumprimento da minha palavra e a recompensa que de mim extorquiu foram a minha mulher, o meu filho e a minha filha, isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Se é veraz quanto dizes”, falou o homem da casa, “és por certo Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas”. “Deveras sou”, disse Cormac, “e é à procura deles que agora estou”. Verdadeiro era o relato e o quarto do porco ficou cozido.

Disse o jovem: “Agora come a tua refeição”. “Jamais consumi uma refeição”, disse Cormac, “com somente duas pessoas em minha companhia”. “Comerias com três outras, ó Cormac?”, perguntou o jovem. “Comeria, se me fossem queridas”, disse Cormac.

O homem da casa levantou-se e abriu a porta mais próxima da casa e saiu e trouxe para dentro aqueles a quem Cormac buscava e então ânimo e júbilo tomaram Cormac.

Manannán então veio a ele em sua forma verdadeira e assim falou: “Fui eu quem os levou de ti e fui eu quem te deu esse ramo e foi a fim de trazer-te a esta casa que os tomei de ti e agora aqui está a tua carne e come a comida”, disse Manannán. “Assim farei”, disse Cormac, “se puder compreender os enigmas que hoje vi”. “Irás compreendê-los”, disse Manannán, “e fui eu quem te trouxe até eles para que os pudesses ver. A legião de cavaleiros que te apareceu a cobrir a casa com as penas de pássaros, que, conforme lograssem eles cobrir uma metade da casa, costumavam dali desaparecer, saindo então em busca das penas de outras aves para o restante, tal assemelha-se aos poetas e às pessoas que buscam a sorte, pois, ao partirem, tudo o que deixam para trás em suas casas é consumido e assim continuam para sempre. O rapaz que viste a acender o fogo e que partia a árvore entre a raiz e a copa e depois encontrava-a consumida enquanto ia alhures em busca de outra árvore, o que isso representa são aqueles que distribuem comida enquanto todos os demais estão sendo servidos, eles próprios preparando-a e todos os outros disso tirando proveito. As fontes que viste, nas quais havia três cabeças, assemelham-se aos três que no mundo há. Tais são eles: a cabeça que viste com uma correnteza a fluir para si e duas correntezas a fluir de si, seu significado é o homem que dá mais do que recebe do mundo. A cabeça que possui uma correnteza fluindo para si e uma correnteza de si fluindo é o homem que dá do mundo na mesma medida em que deste recebe. A cabeça que viste com três correntezas a fluir para sua boca e uma correnteza a fluir desta é o homem que recebe muito e dá pouco e é o pior dos três. E agora come a tua refeição, ó Cormac”, disse Manannán.

Depois disso, Cormac, Cairbre, Ailbhe e Eithne sentaram-se e uma toalha foi estendida diante deles. “É algo de muito precioso isto que se encontra diante de ti, Cormac”, disse Manannán, “pois não há comida, por mais refinada que seja, que lhe possa ser solicitada que não seja certamente recebida”. “Isso é bom”, disse Cormac.

Depois disso, Manannán levou a mão a seu cinturão e trouxe dali um cálice e mostrou-o em sua palma. “É das virtudes desta taça”, disse Manannán, “que, ao ser dito diante dela um relato falso, quebre-se em quatro partes e, quando um relato verdadeiro for narrado diante dela, ficará inteira outra vez”. “Que seja demonstrado”, disse Cormac. “Isso será feito”, disse Manannán. “Essa mulher que levei de ti teve outro homem desde que a trouxe comigo”. Então o cálice quebrou-se em quatro partes. “Isso é uma mentira”, disse a esposa de Manannán, “digo que eles não viram homem nem mulher a não ser a si mesmos desde que te deixaram”. Esse relato era verdadeiro e o cálice ficou inteiro novamente.

Disse Cormac: “São coisas muito preciosas estas que possuis, ó Manannán”. “Seriam boas para ti”, respondeu Manannán, “portanto, todas as três serão tuas, ou seja, o cálice, o ramo e a toalha, em respeito à tua caminhada e à tua jornada neste dia. E come agora a tua refeição, pois, ainda que houvesse uma legião e uma multidão, neste lugar mesquinhez não encontrarias. E gentilmente vos saúdo a todos, pois fui eu quem sobre vós lançou um encantamento para que em amizade estivésseis comigo nesta noite.

Depois disso, ele comeu a sua refeição e boa foi essa refeição, pois não havia tipo de carne em que pensassem que não fosse encontrado na mesa nem tipo de bebida que imaginassem que não fosse encontrado na taça e profusamente agradeceram a Manannán. Contudo, quando eles haviam consumido a sua refeição, isto é, Cormac, Eithne, Albhe e Cairbre, um divã lhes foi preparado e foram dormir e dormiram docemente e onde acordaram foi na aprazível Liathdruim, com a sua toalha, a sua taça e o seu ramo.

E essa foi a peregrinação de Cormac e como ele obteve o seu ramo.

Leia também As Instruções de Cormac (Tecosca Cormaic).

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Creative Visualization

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Melita Denning & Osborn Philips

O uso da Visualização Criativa na oração e na adoração provavelmente ocorre com mais frequência e mais facilmente dentre os seguidores de uma religião quase sempre farta em imagens sacras. Para os seguidores de religiões que não se utilizam de imagens, esse processo se torna um pouco mais difícil. De qualquer maneira, o fato de o indivíduo ter uma crença, ter fé, é um ponto positivo no seu processo de desenvolvimento espiritual, mesmo quando sua seita não se utilizar de imagens ou figuras, porque a própria religião já é prova de que a pessoa está muito além dos materialistas, principalmente na questão da Visualização Criativa.

Para se ter uma ideia, nem todos os religiosos praticam a adoração e nem todos rezam. Para essas pessoas, então, algumas das ideias que se seguem podem ser interessantes. Pode ser que elas desejem imaginar ou pensar numa Entidade na qual acreditem. A partir daí, a oração e a adoração passam a ser menos difíceis de ser aceitas ou compreendidas.

“Mas como fazer para rezar? Como começar a orar?”,perguntam alguns. Pode-se começar tal como uma criança começa a falar, com apenas uma palavra. Algumas das mais poderosas e belas orações do mundo têm apenas uma única palavra. Portanto, não existe “maneira apropriada” ou fórmula certa de oração. Nada é tão íntimo, tão singular quanto o relacionamento entre o adorador e sua Divindade e tanto faz se o que você diz é inédito ou se já foi dito milhares de vezes por milhões de outras pessoas. Nada disso é importante. O que realmente importa é que aquela palavra ou todas aquelas palavras são a sua oração naquele momento. E desse momento em diante você terá encontrado uma das mais poderosas fontes de inspiração, de força, de alegria, de confiança e de esclarecimento espiritual em todos os níveis do seu ser. E essa mesma fonte tem sido concedida aos povos de todos os lugares do mundo por todos os séculos.

Com relação à visualização, não se sugere que a pessoa deva superar as dúvidas que porventura tenha quanto à exatidão – ou a possibilidade – de imaginar uma Divindade de forma localizada. Ao mesmo tempo, se a pessoa quiser ampliar os benefícios que irá receber usando a Visualização Criativa em suas preces, é necessário considerar se existe algum Ser Espiritual que possa ser imaginado, seja como recipiente ou como intermediário de suas petições à Divindade.

Para aqueles que conseguem adorar seu Deus, ou seus deuses, à maneira simbólica tradicional, ou para aqueles que creem numa Divindade encarnada, não precisamos acrescentar mais nada com relação ao Ser Divino que elas deveriam visualizar. Se, porventura, o leitor encontrar alguma dificuldade a respeito desse assunto, talvez então seja melhor visualizar o seu Anjo-da-Guarda, ou um Santo conhecido, pedindo que aquele ser seja o portador de suas orações à Divindade. Você pode escolher o santo de sua devoção, ou mesmo um santo ligado ao assunto que você queira resolver. Também esse Ser Divino não precisa ser necessariamente um santo reconhecido pela igreja, ou pela seita que a pessoa frequenta. Pode ser alguém – que já tenha morrido – e que a pessoa amava muito, como a avó, ou o avô, ou algum parente mais distante com o qual a pessoa se sinta intimamente ligada.

Gostaríamos de ressaltar que existem estudos, feitos pelos antigos missionários religiosos enviados à China, de que a “veneração aos ancestrais” e a adoração aos Santos, reconhecidos pelas igrejas, têm as mesmas raízes e fundamentos.
Pode-se, sem dúvida nenhuma, visualizar, então, tanto sua Entidade como seu santo protetor. Esse tipo de visualização se mostrou muito poderoso e eficiente.

Esteja você visualizando uma Divindade de qualquer forma, ou mesmo um Santo ou um Anjo, é bom tomar cuidado para “enxergar” esse Ser da maneira mais positiva possível, ou seja: radiante, poderoso, acolhedor e amoroso. Se for possível, use uma imagem – seja impressa ou esculpida – para auxiliar em sua visualização. Mas lembre-se, você não poderá conferir nenhum poder à imagem materializada propriamente dita. Você não deverá entendê-la como talismã ou mesmo objeto de fetiche. Essa imagem tem apenas o objetivo de auxiliar você na formulação, a mais clara possível, da imagem que você visualizou internamente, e também de evitar para você a dificuldade de rezar “no espaço” com convicção.

Um devoto hindu descreveu certa vez, como – em oração – ele ofereceu luzes e flores com palavras de amor e adoração dirigidas a uma imagem feita à semelhança de sua Divindade. Diz ele: “Mas quando termino minha oração, deixo a imagem de pedra sobre o altar e coloco a imagem verdadeira de volta em meu coração.”

Quanto mais concreta for a imagem real que você construir em seu coração, tanto mais útil e eficaz ela lhe será.

Por esse motivo, sugerimos que você pratique muito suas orações durante algum tempo, antes de começar a pedir alguma coisa por esse método. E mais, se, por algum motivo drástico, uma emergência, você se viu diante da oração, rezando desesperadamente, alertamos que essa prática de adoração não será possível.

Algumas emergências acontecem, e às vezes, pessoas que nunca rezaram começam a fazê-lo; essas pessoas rezam, ou invocam o auxílio de forças para as quais jamais haviam se dirigido, e frequentemente recebem o que pedem. Porém, na emergência, você tem acesso às áreas da sua mente profunda, que normalmente estão fechadas para você em circunstâncias normais e assim, para poder rezar com eficácia em momentos não críticos, é preciso muita prática de oração.

Portanto, se você decidir trilhar o Caminho da Devoção, siga-o com perseverança e com todo o fervor que puder encontrar dentro de si.

Faça um pequeno altar, ou um “cantinho especial” para a sua hora de oração e adoração. Você escolhe a posição: de joelhos, de pé, sentado, tanto faz. Existem posturas tradicionais de oração e a escolha é sua. Se possível, crie o hábito de acender uma ou mais velas para acompanhar o seu período de adoração e oração. Se quiser, acrescente incenso ou flores. Os detalhes ficam por sua conta, porém, não se esqueça de quando rezar, visualizar. Isso é fundamental.

Se você imagina Deus como sendo Luz, então visualize Luz. Se para você a Divina Presença poderia ser algo quase palpável no topo de uma montanha, ou talvez dentro de uma caverna, então visualize que você está no topo de uma montanha ou dentro de uma caverna, antes de começar a rezar.

Sempre que você tiver um objetivo que deseja alcançar através desse modo de oração, os princípios básicos se aplicam sempre, utilizando-se você de um Ser intermediário ou dirigindo-se diretamente à Divindade. Todavia, os detalhes do procedimento variam ligeiramente de caso para caso e, por esse motivo, os relacionamos abaixo:

A. Se você vai visualizar – de qualquer maneira – a Divindade para a qual você dirige suas preces, sem um Ser intermediário, então faça o seguinte:

1. Construa primeiro uma imagem visualizada bem nítida do objetivo que você quer alcançar, seja ele um benefício para o corpo ou para a alma, seja para você ou para outras pessoas. Formule um quadro o mais exatamente possível, por exemplo, a pessoa curada, ou o certificado de um exame, etc. Ou, se o objetivo a ser alcançado for algo visível e material, então formule simplesmente um quadro do objeto propriamente dito, de preferência “enxergando-o” em uso pela pessoa a quem ele se destina, seja essa pessoa você ou não.

2. Visualize sua imagem da Divindade, seja em forma humana ou simplesmente em forma de Luz, cheia de resplendor e generosidade.

3. Faça a adoração, seja nos moldes que você costuma fazer sempre, ou da maneira que está sentindo vontade naquele momento.

4. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga-o sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você se sentir emocionado no momento.

5. “Veja” aquilo que você deseja de maneira radiante pelo contato Divino, sendo oferecido a você pela Divindade. Ou, então, “ouça” e repita para você mesmo as palavras que estão lhe dizendo que o que você tanto deseja irá acontecer. Aceite o presente e dê graças por ele.

6. Faça com que tudo aquilo que você acaba de visualizar desapareça devagar e calmamente de sua consciência.

7. Durante o dia, e durante a noite também, caso você esteja acordado, recorde-se daquilo que ocorreu no item 5, mesmo que apenas por alguns instantes, e em seguida, agradeça novamente.

8. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada.

B. Se você vai fazer o pedido com a ajuda de um intermediário, de um santo protetor — independente de você visualizar ou não uma presença Divina — então proceda da seguinte maneira:

1. Idem ao item 1 do procedimento anterior.

2. Visualize o seu intermediário, o santo protetor ou Ser angelical com quem você já mantém um contato, ou que tem uma relação direta com o assunto que você irá tratar.

3. Reverencie sinceramente este Ser. Depois disso, peça-lhe que leve o seu pedido (que até esse momento você ainda não declarou em todos os detalhes) até a Divindade (a quem você irá indicar de acordo com o título que ela possua). Peça ao seu intermediário para interceder por você – ou para quem quer que você deseja ajudar – no sentido de obter para você – ou para a outra pessoa – o que está precisando. TENHA CERTEZA DE QUE AQUILO QUE VOCÊ ESTÁ PEDINDO SERÁ FEITO.

4. Visualize o seu intermediário se dirigindo até a Divindade para fazer o seu pedido. Pode imaginá-lo andando, voando, enfim, da maneira que você desejar, contanto que o imagine indo até a Divindade. Se você tenciona visualizar a Divindade, então preste atenção para “ver” o seu intermediário levando o seu pedido. Esta parte do procedimento é extremamente potente.

5. Se você pretende visualizar sua Divindade, então, faça-o agora. De qualquer maneira, focalize sua atenção na Divindade, saudando-a e adorando-a diretamente.

6. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você ficar emocionado. Lembre-se também de dizer que o seu santo protetor (nome) está pedindo isso por você também.

7. Desvie um pouco a atenção da presença Divina e “veja” o seu intermediário voltando para você, alegre e radiante, com o seu pedido concedido. “Veja” o objeto sendo oferecido a você, ou “ouça” as palavras que lhe dirão, que aquilo que você quer será realizado. Aceite a graça e dê graças por ela.

8. Faça com que todas as imagens que você acaba de visualizar desapareçam devagar de sua mente.

9. Durante o dia, ou durante a noite, caso você esteja acordado, lembre-se daquilo que aconteceu no item 7, mesmo que seja apenas por alguns instantes, e depois renda graças.

10. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada, e não se esqueça do seu santo protetor.

No Caminho da Devoção, deve-se tomar muito cuidado com uma coisa. Seja o que for que você esteja pedindo por meio da oração, faça-o apenas por esse meio. Evidentemente, se você estiver doente, deve tomar todas as providências normais – médico, remédios, etc. – além de rezar para o seu restabelecimento. Se você quer passar num exame, não basta rezar. Com certeza, você deve estudar muito para isso.

O que estamos querendo dizer aqui é que, se você está buscando algo especial por meio de um procedimento devocional, como o que acabamos de delinear, você não deveria tentar obter “um seguro espiritual” – fora do sistema – para garantir o que você deseja. Ou seja, se você está rezando para Nossa Senhora, tentando obter algo de vital importância para você, não faça esse mesmo pedido para uma estrela cadente, por exemplo.

Você poderá explicar essa necessidade de cuidados, dizendo, tal como diziam as pessoas do Antigo Testamento, que seu Deus tem “ciúme”. Ou, se o conceito de ciúme não se enquadra com sua ideia de Divindade, pode-se explicá-la de outra maneira, que parece indicar, também, a razão de se utilizar meios materiais para obter aquilo que você deseja, e não atrapalhá-lo.

A sua ligação espiritual com o Poder Divino que você invocou, a sua identificação mental com aquele Poder, juntamente com o seu fervor, sua devoção e não de necessidade (e coisas materiais comuns como remédios, dinheiro, etc.) são “neutros” e poderão ser facilmente utilizados pelo Poder Divino como parte do nível material daquele canal.
Entretanto, se você introduzir outros canais menores, particularmente do nível astral, em sua imagem visualizada, você poderá criar um vazamento no seu sistema, como por exemplo, fazendo um furo no canudinho que você bebe, ou pior ainda, provocando um furo no seu pneu. Nesse caso, você estaria voltando para a estaca zero.

Tente imaginar os vários aspectos da Divindade, a partir da descrição feita através dos tempos por parte dos devotos. Imagine as emoções e forma mental também vindas com o tempo e que formam a parte inferior do canal de força. Isso explica os santuários existentes em todas as partes do mundo e que permanecem, ao longo dos séculos, como centros de fé e de milagres.

Lembre-se sempre, por trás da sua visualização, da construção da sua imagem, estará sempre a realidade da Divindade para dar a ela sentido e validade; uma realidade muito maior que qualquer coisa terrena possa oferecer, uma força muito mais poderosa e repleta de amor que extrapola a nossa compreensão. Se pudermos aprender a pedir direito, com toda a confiança e tendo certeza de que aquilo que estamos querendo é exatamente o que estamos pedindo, então, não haverá limites para a abundância, para a fartura, tanto material como espiritual, com a qual seremos abençoados.

Fonte: Denning, Melita & Philips, Osborn (tradução: Anna Maria Dalle Luche). A Visualização Criativa. São Paulo: Siciliano 1989, p. 231-239.

Corrguinecht & Glám dícenn

whitethorn

Corrguinecht & Glám dícenn

Bellou̯esus Īsarnos

Corrguinecht .i. beith for leth-cois 7 for leth-laimh 7 for lethsuil ag denam na glaime dícinn.

Feitiçaria [ou ‘magia da garça’], isto é, ficar numa só perna e com uma só mão e com um só olho ao fazer a glám dícenn (“sátira perene”).

Glám dícenn era uma composição ou ritual satírico. O ofendido (drui ou file), juntamente com um grupo de seis estudantes, que representavam os sete graus da iniciação poética, subiriam ao topo de uma colina onde houvesse um espinheiro-branco (úath/sceach gheal/H) antes do nascer do sol. Todos ficariam em pé, de costas para o espinheiro, cada um deles com um ramo da planta na mão. O drui (ou file) levaria consigo uma imagem de barro representando o ofensor e, quando o vento norte (direção da batalha) soprasse, recitaria a sátira e perfuraria a imagem com os espinhos. Para que o procedimento fosse perfeito, contudo, seria obrigatório observar as prescrições legais:

Benair aibghitir oghaim. blf. agus aibgitir ua .i. tiasca ai i nainm de; agus is e a greim-so .i. cros, agus a cur isin .c. drumaind ar son apaid; doberar ainm cinadh isin drumaind eile, agus ainm cintaigh isin tres drumainn, agus moladh isin cethramad drumaind; agus in flesc do sadhudh i forba .x. maide don filidh trefocail, no conadh a forba .x. maide apaid ma rosechmaill a flesg agus dorinde air, is eraic airi uadh; massa athgabaal rogob, is fiach indligid athgabala uadh.

Os caracteres ogâmicos são gravados, -,-,,-,,,-, e o alfabeto da poesia isto é, ‘inicio a poesia em nome de Deus’, e é assim que isso surte efeito, a saber, numa cruz e isso colocado no primeiro braço como um aviso e o nome da ofensa no segundo braço e o nome do culpado no terceiro braço e um louvor no quarto braço e o bastão é fincado no chão pelo poeta ao fim do período de dez dias do trefhocal [três palavras/afirmações], ou melhor, ao fim do período de dez dias do aviso. Se ele ignorou seu bastão e fez a sátira, a compensação pela sátira é devida por ele; se ele já realizou uma apreensão, a penalidade por apreensão é devida por ele”). Pois a sátira é realizada ao cabo de três períodos de nove dias ou de três períodos de dez dias, isto é, um período de aviso, um período para a composição do trefhocal e um período final para que o ofensor ofereça garantias. Somente então pode a sátira ser feita com pleno direito. E o nome de Deus e o nome da ofensa e o nome do culpado e seu louvor em Ogham ebhadhach. Trefhocal é o louvor misturado à advertência pela ofensa, que antecede a pronúncia da sátira.

Fidh ebhadh

>-X-

Ogham ebhadhach

>-,-X-,,-X-,,,X–,,,,X–,,,,,X–‘-X-”-X-”’-X-””-X-””’-X–/-X-//-X-///-X-////-X-/////-X–|-X-||–|||-X-||||-X-|||||-X-

>-,-X-/////-X-|-X-,,,,,-X-, bran

O mal, a morte e vida curta para Caíar,
Lanças de batalha terão matado Caíar,
Que Caíar morra, que Caíar parta – Caíar!
Caíar sob a terra, sob os aterros, sob as pedras!

Glám Dícenn

Is amhlaidh dogníthe isidhe, troscadh for fearand in righ dia ndenta in duan ocus comorle .xxx. laech ocus xxx. espoc ocus xxx filedh im air do dhenum iartain, ocus robo cin doib tairmeosc na hairi iar femedh na duaisi. Cid fil and tra acht in file fodesin do dul moirseser .i. sessear imaille fris fein fora mbetis se gráda filedh ocus ite annso a n-anmand .i. fochloc, mac fuirmedh, doss, cana, clí, anrad, ollam .i. in moirseisidh .i. a dul re turcbail ngréne co mullach nobhiadh a coicrich .uii. ferunn ocus aighidh gách graidh dibh for a ferunn, ocus aigidh inn olloman ann for ferann in righ no egnaighfed, ocus a ndromanna uile re sciaigh nobiadh ar mullach na tulcha, ocus in ghaeth atuaidh, ocus cloch throthail ocus dealg don sciaigh illaim gach fir, ocus rann for in aisdi-sea gach fir dibh do gabhail intib andis don righ, ocus in t-ollam do gabhail raind rompu ardus, ocus siat sum a n-aenfecht iarsin do gabail a rand, ocus cach do chur a chloichi ocus a delge fo bun na sciach, ocus diamad iatson bad chintach ann talumh na tulchi dia slugadh; diamadh é in righ im morro bud cintach, talam dia slogud ocus a bhen ocus a mac ocus a each ocus a arm ocus a erriudh ocus a chu.

Glamh in meic furmid ar in coin, glamh in fochlocon ar in erridh, glamh in duis ar in glamh in chanad ar in mnai, glamh in cli ar in mac, glamh in anradh for in fearunn, glamh in olloman for in ríg.

Sátira Perene

Assim isso foi feito: houve jejum na terra do rei para quem o poema fora composto, e um concílio de trinta leigos e trinta bispos e trinta poetas quanto a fazer-se uma sátira depois disso; e era para eles um crime impedir a sátira depois que o prêmio pelo poema fora recusado. Contudo, o próprio poeta tinha então que ir acompanhado por sete – isto é, seis outros além de si mesmo – aos quais os seis graus dos poetas tivessem sido conferidos, e estes são os seus nomes, a saber, fochloc, mac fuirmid, doss, cana, clí, anrad, ollam, ou seja, o sétimo deveria ir ao alto de uma colina ao nascer do sol, a qual deveria estar na divisa de sete regiões e a face de cada grau voltada para essas regiões, e a face do ollam ali presente em direção à terra do rei que ele iria satirizar, e as costas de todos eles voltadas para um espinheiro branco que deveria estar no alto da colina, e o vento soprando do norte, e uma pedra de atiradeira e um espinho do espinheiro na mão de cada homem, e cada um deles cantaria um bastão [isto é, uma composição escrita em Ogham num bastão] neste tipo de metro sobre as duas pedras de atiradeira e o espinho contra o rei, o ollam cantando o seu bastão antes dos outros, e eles depois cantando os seus bastões um por vez, e cada um deles pondo a sua pedra e o seu espinho ao pé do espinheiro. E se fossem eles que estivessem em erro, a terra da colina os engoliria. Porém, se fosse o rei que estivesse em erro, a terra o engoliria e a sua esposa e o seu filho e o seu cavalo e as suas armas e as suas vestes e o seu cão.

A maldição do Mac furmid caía sobre o cão: a maldição do fochloc, sobre as vestes: a maldição do doss, sobre as armas: a maldição do cano, sobre a esposa: a maldição do cli, sobre o filho: a maldição do anradh, sobre a terra: a maldição do ollam, sobre o rei.

Fontes: Sanas Chormaic, Uraicecht Na Ríar & Lebhair Bhaile an Mhotta

Protocolo

Drui/file
Representantes dos graus da iniciação poética
Alto de uma colina
Espinheiro-branco
Antes da aurora
Drui/file com imagem representando o ofensor
De costas para o espinheiro
Todos com uma pedra e um espinho na mão
Vento norte
Recita a sátira
Perfura a imagem com espinhos

Procedimento:

1. Criar o objeto imediato do trabalho (cruz com inscrições ogâmicas)

2. Identificar os meios da realização do trabalho (louvor+censura, ofensa, ofensor)

3. Jurar a pureza da intenção e a justiça da sátira: 3.1 Pelos Reinos; 3.2 Pelos Elementos; 3.3 Pelos Deuses.

4. Invocar o poder dos Reinos, Elementos e Deuses contra o ofensor.

5. Encerrar a circunambulação do corrguinecht ao redor da cruz e do bastão a fim de precipitar o destino do ofensor.

Porém, cuidado. A honra dos Deuses será ofendida se forem chamados para operar a injustiça. Do mesmo modo, a observância dos prazos para o arrependimento do ofensor é parte essencial do rito, que se voltará contra o oficiante se aqueles forem desrespeitados ou usado injustamente. Além de rito mágico, a glám dícenn também era um procedimento legal.

Trecho do Fís Adamnáin

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Trecho do Fís Adamnáin

Bellou̯esus Īsarnos

Trecho do Fís Adamnáin (“A Visão de Adamnán”), na edição de Whitley Stokes (1891):

Acht chena dogniat guin 7* gait 7 adaltras 7 fingalu 7 duinorcain 7 esorcain chell 7 clerech, sáint 7 éthech 7 góei 7 gúbreth 7 coscrad eclasi Dé, draidecht 7 génntlidecht 7 sénairecht, auptha 7 felmasa 7 fidlanna.

Apesar de cometerem agressão e roubo e adultério e parricídios e homicídios e destruição das igrejas e dos clérigos, cobiça e perjúrio e mentiras e falso julgamento e destruição da igreja de Deus, bruxaria [draidecht] e paganismo [génntlidecht] e lidarem com encantamentos [sénairecht], poções [auptha] e feitiços [felmasa] e fidlanna.

Apenas nesse curto trecho do Fís Adamnáin aparecem palavras que designam quatro procedimentos mágicos:

1) Sénairecht: deriva de sénaire, que vem de sén, “encantamento”, genitivo seoin.

2) Auptha, também uptha, “poções/feitiços de amor”. O nominativo plural plural aipthi é glosado pelo latim ueneficia, “feitiços”.

3) Felmasa é o acusativo plural de felmas, genitivo felmais. Em textos jurídicos, a expressão fromadh felmais é glosada como fromadh ua pisoc, “comprovar feitiços”.

4) Fidlanna é o acusativo plural de fidlann, provavelmente derivado de fid, “madeira” + lann, “placa/chapa”, que pode ser o nome da prática descrita no Tochmarc Etaine (“O Galanteio a Etain”, M. Egerton 1782, fo. 118a2):

Ba tromm immorro laisin druid dicheilt Étainiu fair fri se blíadna, co ndernai iarsin .iiii. flescca ibuir, ocus scripuidh oghumm inntib, 7 foillsigthir dó triana eochraib écsi 7 triana oghumm Etain do bith i Síth Breg Leith iarna breth do Midir inn.

Eis que pareceu penoso ao mago [o druida Dalan] que Etain dele permanecesse oculta por seis anos; assim, eles fez quadro bastões de teixo e neles escreveu o ogham. E por meio das suas chaves do conhecimento e através do ogham foi-lhe revelado que Etain estava no Síd de Bri Leith, para onde fora levada por Midir.

* Nos textos em gaélico antigo e medieval, usava-se um caractere semelhante ao algarismo 7 para representar a conjunção ocus/agus, “e”.