O Corte do Visco

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O Corte do Visco

Non est omittenda in hac re et Galliarum admiratio. Nihil habent Druidae — ita suos appellant magos — uisco et arbore, in qua gignatur, si modo sit robur, sacratius. Iam per se roborum eligunt lucos nec ulla sacra sine earum fronde conficiunt, ut inde appellati quoque interpretatione Graeca possint Druidae uideri. Enimuero quidquid adgnascatur illis e caelo missum putant signumque esse electae ab ipso deo arboris. Est autem id rarum admodum inuentu et repertum magna religione petitur et ante omnia sexta luna, quae principia mensum annorumque his facit et saeculi post tricesimum annum, quia iam uirium abunde habeat nec sit sui dimidia. Omnia sanantem appellant suo uocabulo. Sacrificio epulisque rite sub arbore conparatis duos admouent candidi coloris tauros, quorum cornua tum primum uinciantur. Sacerdos candida ueste cultus arborem scandit, falce aurea demetit, candido id excipitur sago. tum deinde victimas immolant praecantes, suum donum deus prosperum faciat iis quibus dederit. Fecunditatem eo poto dari cuicumque animalium sterili arbitrantur, contra uenena esse omnia remedio. Tanta gentium in rebus friuolis plerumque religio est.

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas – pois é assim que chamam os seus magos – não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se crescesse somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” [a palavra grega para carvalho]. E sem dúvida pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em carvalhos. Não obstante, procuram-no com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua, chamam o visco por um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos, conduzindo dois touros brancos cujos chifres são então amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda seu próprio dom àqueles a que ofereceram. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Gaius Plinius Secundus (Naturalis Historia, XVI, 249-251, séc. I d. C.)

Tradução: Bellouesus Isarnos

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As Instruções de Cormac

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As Instruções de Cormac

Tecosca Cormaic

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Do Leabhar Bhaile an Mhóta, “Livro de Ballymote”, RIA MS 23 P 12, 275 foll.

Ethne deu a Cormac um filho, seu primogênito, Cairpre, que foi rei de Ériu depois de Cormac. Foi durante a vida de Cormac que Cairpre subiu ao trono, pois ocorreu que, antes de morrer, Cormac foi ferido por uma lança e perdeu um dos olhos e era proibido que qualquer homem com um defeito fosse rei em Ériu. Assim, Cormac entregou o reino nas mãos de Cairpre, mas, antes de fazê-lo, transmitiu a seu filho toda a sabedoria que possuía no governo dos homens e isso foi anotado em um livro chamado As Instruções de Cormac. Estas palavras encontram-se entre seus ensinamentos:

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais são os deveres de um chefe numa taverna?
– Não é difícil dizer – disse Cormac.
– Bom comportamento em volta de um bom chefe,
Luzes para as lamparinas,
Esforçar-se pelo grupo,
Distribuição adequada de assentos,
Generosidade dos distribuidores,
Mão ágil ao servir,
Atendimento solícito,
Música com moderação,
Narrativas curtas,
Semblante jovial,
Amável saudação aos convidados,
Durante récitas, quietude,
Cantorias harmoniosas.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, quais teus costumes quando eras um rapaz?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Eu escutava nas florestas,
Fitavas as estrelas,
Era cego a respeito de segredos,
Silencioso nos ermos,
Palrador no meio da multidão.
Moderado no salão de festas,
Duro no combate,
Cortês para com os aliados,
Um médico para o enfermo,
Fraco para com o débil,
Forte para com o poderoso,
Não era íntimo para não me tornar inconveniente,
Não era arrogante, embora fosse instruído,
Conquanto capaz, não era dado a prometer,
Não era temerário, embora fosse rápido,
Conquanto fosse jovem, não zombava dos velhos,
Não era jactancioso, embora fosse bom lutador,
Não falaria de alguém em sua ausência,
A vituperar eu preferia exaltar,
A pedir eu preferia dar,
Pois é com tais costumes que os jovens tornam-se maduros e nobres guerreiros.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a pior coisa que tens visto?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – as faces de inimigos no tumulto da batalha.
– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, qual é a mais doce coisa que tens ouvido?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – o grito de triunfo depois da vitória, louvor depois dos esforços, o convite de uma dama para seu leito.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre -, que é o pior para o corpo de um homem?
– Não é difícil dizer: – falou Cormac – sentar-se por muito tempo, ficar muito tempo deitado, esforçar-se além das próprias forças, correr demais, saltar demais, cair muitas vezes, dormir com a perna por cima da grade da cama, olhar brasas acesas fixamente, cera, colostro de vaca, cerveja nova, carne de touro, comida azeda, comida seca, água do brejo, levantar-se muito cedo, frio, sol, fome, beber demais, comer demais, dormir demais, pecar demais, tristeza, subir uma elevação correndo, gritar contra o vento, secar-se ao fogo, o orvalho do verão, o orvalho do inverno, remexer cinzas, nadar de barriga cheia, dormir de barriga para cima, fazer brincadeiras idiotas.

– Ó Cormac, filho de Conn – disse Cairpre – quais são o pior pedido e a pior argumentação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Combater contra o conhecimento,
Argumentar sem provas,
Escudar-se em linguagem imprópria,
Uma elocução tensa,
Falar resmungando,
Excesso de minúcias,
Provas duvidosas,
Desprezo aos livros,
Voltar-se contra os costumes,
Mudar o pedido,
Instigar a ralé,
Soprar a própria corneta,
Berrar a todo pulmão.

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairpre -, quem são os piores com quem podes fazer uma comparação?
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Um homem com o descaramento de um satirista,
Com a belicosidade de uma escrava,
Com a negligência de um cão,
Com a consciência de um patife,
Com a mão de um ladrão,
Com a força de um touro,
Com a respeitabilidade de um juiz,
Com saber engenhoso e perspicaz,
Com o discurso de um homem majestoso,
Com a memória de um historiador,
Com o comportamento de um abade,
Com o juramento de um ladrão de cavalos,
E sendo inteligente, mentiroso, grisalho, violento, blasfemo, falastrão, quando diz: “a questão está decidida, eu juro, jurarás também.”

– Ó Cormac, neto de Conn – disse Cairbre – desejo saber como devo comportar-me entre os sábios e tolos, em meio aos amigos e estranhos, entre os jovens e os velhos, em meio aos inocentes e perversos.
– Não é difícil dizer – falou Cormac.
– Não sejas muito douto, não sejas muito néscio,
Não sejas muito presunçoso, não sejas muito acanhado,
Não sejas muito orgulhoso, não sejas muito humilde,
Não sejas muito falador, não sejas muito silencioso,
Não sejas muito rígido, não sejas muito débil.
Se fores muito douto, esperar-se-á muito de ti.
Se fores muito néscio, serás enganado.
Se fores muito orgulhoso, acreditar-te-ão molesto.
Se fores muito humilde, serás sem honra.
Se fores muito falador, não te darão atenção.
Se fores muito silencioso, não serás estimado.
Se fores muito rígido, serás quebrado.
Se fores muito débil, serás esmagado.

[Aqui terminam as Instruções de Cormac Ulfada, filho de Art, filho de Conn Cétchathach, filho de Óenlám Gaba, filho de Tuathal Techtmar, filho de Feradach Findfechtnach, filho de Crimthann Nia Nár, filho de Lugaid Riab nDerg, filho de Bres, Nár and Lothar, filhos de Eochaid Feidlech, filho de Find, Grande Rei de Ériu, que o filho de Art deu a seu primogênito, Cairpre Lifechair.]

A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

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A Aventura de Cormac na Terra da Promessa

Echtra Cormaic i Tír Tairngire

Do Leabhar Buidhe Lecain, “Livro Amarelo de Lecan”, col. 889, l. 26, p. 181; Irlanda, c. 1391 – c. 1401.

Tradução: Bellou̯esus Īsarnos

Certa vez em que Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas, estava em Liathdruim, ele viu um rapaz no campo diante de sua fortaleza, tendo na mão um cintilante ramo encantado com nove maçãs de ouro vermelho. E era esta a propriedade desse ramo, que, quando qualquer um o agitasse, homens e mulheres feridos seriam acalentados pelo som da dulcíssima música mágica que as maçãs emanavam e outra propriedade era que ninguém na terra manteria no pensamento qualquer preocupação, pesar ou tristeza na alma quando o ramo lhe fosse balançado e, com o sacudir do ramo, ninguém se lembraria de qualquer mal que pudesse ter ocorrido. Cormac disse ao jovem: “É teu esse ramo?” “Certamente é meu”, disse o rapaz. “Tu o venderias?”, perguntou Cormac. “Vendê-lo-ia”, falou o jovem, “pois nunca tive nada que eu não vendesse”. “O que pedirias por ele?”, disse Cormac. “O preço que a minha boca disser”, disse o rapaz. “De mim o receberás”, disse Cormac, “e dize o teu preço”. “A tua esposa, o teu filho e a tua filha”, respondeu o rapaz, “isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Terás a todos”, disse Cormac.

Depois disso, o rapaz entregou o ramo e Cormac levou-o a sua própria casa, a Ailbhe, a Eithne e a Cairbre. “Belo é o tesouro que tens”, disse Ailbhe. “Isso não me espanta”, respondeu Cormac, “pois paguei bom preço por ele”. “O que deste por ele ou que troca fizeste?”, perguntou Ailbhe. “Cairbre, Eithne e tu mesma, ó Ailbhe”. “Isso é uma lástima”, falou Eithne, “ainda que não seja verdade, pois pensamos que não haja na face da terra tesouro pelo qual nos trocarias”. “Dou a minha palavra”, disse Cormac, “de que vos dei por este tesouro”. Tristeza e pesar encheram os seus corações ao saber que aquilo era verdade e Eithne disse: “É uma barganha muito dispendiosa entregar-nos em troca de qualquer ramo no mundo”.

Quando Cormac percebeu que a tristeza e o pesar haviam invadido os seus corações, agitou o ramo contra eles e, ao ouvirem a suave e doce música do ramo não mais pensaram em qualquer mal ou preocupação que os tivesse atingido e saíram para encontrar o rapaz. “Aqui”, disse Cormac, “tens o preço que pediste pelo ramo”. “Bem cumpriste a tua promessa”, disse o rapaz, “e recebeste votos de vitória e bençãos em atenção à tua veracidade”. E deixou Cormac com desejos de prosperidade e saúde e ele e os seus companheiros seguiram o seu caminho.

Cormac foi para a sua casa e, quando essas notícias foram ouvidas em toda a Ériu, altos clamores de pranto e lamentação ergueram-se em cada parte dela e sobretudo em Liathdruim. Quando Cormac escutou os estrondosos clamores em Temhair, sacudiu o ramo entre eles, de modo que não houve mais tristeza ou pesar nos corações de ninguém.

Ele assim continuou durante todo aquele ano, até dizer: “Hoje faz um ano que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram tomados de mim e segui-los-ei pelo mesmo caminho por onde foram”.

Então Cormac saiu para procurar o caminho pelo qual vira partir o rapaz e uma escura névoa mágica levantou-se ao seu redor e ocorreu que ele chegou a uma admirável e maravilhosa planície. Era assim essa planície: havia ali uma soberba e grandíssima legião de cavaleiros e a atividade que estavam a realizar era cobrir uma casa com um telhado de penas de pássaros exóticos e, ao terminar de cobrir metade da casa, saíam a procurar penas de aves para a outra e, quanto à metade da casa que já haviam coberto, sobre ela não encontravam uma só pena ao retornar. Cormac ficou longo tempo a observá-los nesse mister e assim falou: “Não mais vos observarei, pois percebo que nisso vos esforçareis do começo ao fim do mundo”.

Cormac seguiu o seu caminho e estava a perambular pela planície quando viu um jovem de estranha aparência a caminhar por ali e o seu ofício era este: ele arrancava do chão uma enorme árvore e partia-a entre a raiz e a copa e com ela fazia uma grande fogueira e saía a procurar outra árvore e, ao retornar, não encontrava diante de si sequer um restolho da primeira árvore que não estivesse queimado e consumido. Por um grande lapso de tempo esteve Cormac a observá-lo naquele dilema e por fim disse: “Certamente te deixarei a partir deste momento, pois, ficasse eu a olhar-te para sempre, estarias na mesma até o fim dos tempos”.

Depois disso, Cormac começou a percorrer a planície até divisar três imensas fontes nas extremidades da planície e assim eram essas fontes: nelas havia três cabeças. Cormac achegou-se à fonte que estava mais próxima de si e assim era a cabeça que nela estava: uma correnteza fluía para sua boca e duas correntezas dela fluíam. Cormac avançou para a segunda fonte e a cabeça que estava nessa fonte era assim: uma correnteza para ela fluía e outra correnteza dela fluía. Ele avançou para a terceira fonte e assim era a cabeça que nela estava: para sua boca três correntezas fluíam e somente uma correnteza dela fluía. Com isso foi Cormac tomado de grande assombro e disse: “Não mais estarei a observar-vos, pois jamais encontrarei homem que me conte as vossas histórias e acredito que descobriria bom ensinamento nos vossos significados se os compreendesse”.

O rei de Ériu seguiu o seu caminho e não havia caminhado muito quando viu um vasto campo diante de si e uma casa no meio do campo. E Cormac aproximou-se da casa e nela entrou. E o rei de Ériu saudou os que dentro estavam. Um casal muito alto com vestes multicoloridas, que dentro estava, respondeu-lhe e rogou-lhe que permanecesse. “Quem quer que sejas, ó jovem, pois já não é hora de viajares a pé”.

Assim, Cormac, filho de Art, sentou-se e ficou certamente satisfeito por encontrar hospitalidade naquela noite. “Levanta-te, ó homem da casa”, disse a mulher, “pois há um honesto e bem-apessoado viajante em nossa casa e como poderias saber se não é algum honrado nobre entre os homens do mundo? E, se tiveres algum tipo de comida ou carne da melhor qualidade, que me sejam trazidos”.

Ao escutá-la ergueu-se o jovem e deste modo voltou até eles, isto é, com um enorme javali selvagem nas costas e uma tora em sua mão e jogou a tora e o suíno no chão e disse: “Aqui tendes a carne e cozinhai-a para vós mesmos”. “Como devo fazê-lo?”, perguntou Cormac. “Ensinar-te-ei”, disse o jovem, “ou seja, racha esta grande tora que tenho e dela faze quatro peças e joga um quarto do javali e um quarto da tora embaixo dele e conta um conto verdadeiro e o javali será cozido”.

Disse Cormac: “Narra tu mesmo o primeiro conto e então a tua esposa e depois disso será a minha vez”. “Falas acertadamente”, disse o jovem, “e penso que tens a eloquência de um príncipe e para começar contar-te-ei um caso. Aquele suíno que eu trouxe”, ele continuou, “não tenho senão sete desses porcos e com eles eu poderia alimentar o mundo inteiro, pois, dentre esses porcos o que for morto, tens apenas de colocar os seus ossos de volta no chiqueiro e na manhã seguinte ele será encontrado vivo”. Esse caso era verdadeiro e o quarto do porco ficou cozido. “Conta tu uma história agora, ó mulher da casa”, disse o jovem. “Contarei”, ela falou, “e põe tu ali um quarto do javali selvagem e sob ele um quarto da tora”. Assim foi feito.

Disse ela: “Tenho sete vacas brancas e elas enchem as sete cubas com leite todos os dias e dou minha palavra que elas produziriam leite suficiente para satisfazer todos os homens do mundo caso estes estivessem a bebê-lo na planície”. Esse caso era verdadeiro e, por conseguinte, o quarto do porco ficou cozido.

Disse Cormac: “Se verdadeiras foram as vossas narrativas, és por certo Manannán e ela é tua esposa, pois ninguém na face da terra possui tais tesouros senão Manannán, eis que foi a Tír Tairngire que ele foi em busca dessa mulher e obteve com ela essas sete vacas e sobre elas tossiu até aprender os miraculosos poderes da sua ordenha, ou seja, que elas poderiam encher sete cubas de uma vez só”. “Com total acerto nô-lo disseste, ó jovem”, disse o homem da casa, “e conta-nos um caso a teu próprio respeito agora”.

Disse Cormac: “Contarei e põe tu um quarto da tora sob o caldeirão até que eu te conte um conto verdadeiro”. Assim foi feito e Cormac disse: “Seguramente estou em uma busca, pois hoje se completou um ano desde que a minha mulher, o meu filho e a minha filha foram levados de mim”. “Quem os tomou de ti?”, perguntou o homem da casa. “Um jovem veio a mim”, disse Cormac, “que segurava em sua mão um ramo encantado e surgiu em mim grande desejo por esse ramo, de modo que lhe concedi por ele qualquer preço que pedisse e ele exigiu-me o cumprimento da minha palavra e a recompensa que de mim extorquiu foram a minha mulher, o meu filho e a minha filha, isto é, Eithne, Cairbre e Ailbhe”. “Se é veraz quanto dizes”, falou o homem da casa, “és por certo Cormac, filho de Art, filho de Conn das Cem Batalhas”. “Deveras sou”, disse Cormac, “e é à procura deles que agora estou”. Verdadeiro era o relato e o quarto do porco ficou cozido.

Disse o jovem: “Agora come a tua refeição”. “Jamais consumi uma refeição”, disse Cormac, “com somente duas pessoas em minha companhia”. “Comerias com três outras, ó Cormac?”, perguntou o jovem. “Comeria, se me fossem queridas”, disse Cormac.

O homem da casa levantou-se e abriu a porta mais próxima da casa e saiu e trouxe para dentro aqueles a quem Cormac buscava e então ânimo e júbilo tomaram Cormac.

Manannán então veio a ele em sua forma verdadeira e assim falou: “Fui eu quem os levou de ti e fui eu quem te deu esse ramo e foi a fim de trazer-te a esta casa que os tomei de ti e agora aqui está a tua carne e come a comida”, disse Manannán. “Assim farei”, disse Cormac, “se puder compreender os enigmas que hoje vi”. “Irás compreendê-los”, disse Manannán, “e fui eu quem te trouxe até eles para que os pudesses ver. A legião de cavaleiros que te apareceu a cobrir a casa com as penas de pássaros, que, conforme lograssem eles cobrir uma metade da casa, costumavam dali desaparecer, saindo então em busca das penas de outras aves para o restante, tal assemelha-se aos poetas e às pessoas que buscam a sorte, pois, ao partirem, tudo o que deixam para trás em suas casas é consumido e assim continuam para sempre. O rapaz que viste a acender o fogo e que partia a árvore entre a raiz e a copa e depois encontrava-a consumida enquanto ia alhures em busca de outra árvore, o que isso representa são aqueles que distribuem comida enquanto todos os demais estão sendo servidos, eles próprios preparando-a e todos os outros disso tirando proveito. As fontes que viste, nas quais havia três cabeças, assemelham-se aos três que no mundo há. Tais são eles: a cabeça que viste com uma correnteza a fluir para si e duas correntezas a fluir de si, seu significado é o homem que dá mais do que recebe do mundo. A cabeça que possui uma correnteza fluindo para si e uma correnteza de si fluindo é o homem que dá do mundo na mesma medida em que deste recebe. A cabeça que viste com três correntezas a fluir para sua boca e uma correnteza a fluir desta é o homem que recebe muito e dá pouco e é o pior dos três. E agora come a tua refeição, ó Cormac”, disse Manannán.

Depois disso, Cormac, Cairbre, Ailbhe e Eithne sentaram-se e uma toalha foi estendida diante deles. “É algo de muito precioso isto que se encontra diante de ti, Cormac”, disse Manannán, “pois não há comida, por mais refinada que seja, que lhe possa ser solicitada que não seja certamente recebida”. “Isso é bom”, disse Cormac.

Depois disso, Manannán levou a mão a seu cinturão e trouxe dali um cálice e mostrou-o em sua palma. “É das virtudes desta taça”, disse Manannán, “que, ao ser dito diante dela um relato falso, quebre-se em quatro partes e, quando um relato verdadeiro for narrado diante dela, ficará inteira outra vez”. “Que seja demonstrado”, disse Cormac. “Isso será feito”, disse Manannán. “Essa mulher que levei de ti teve outro homem desde que a trouxe comigo”. Então o cálice quebrou-se em quatro partes. “Isso é uma mentira”, disse a esposa de Manannán, “digo que eles não viram homem nem mulher a não ser a si mesmos desde que te deixaram”. Esse relato era verdadeiro e o cálice ficou inteiro novamente.

Disse Cormac: “São coisas muito preciosas estas que possuis, ó Manannán”. “Seriam boas para ti”, respondeu Manannán, “portanto, todas as três serão tuas, ou seja, o cálice, o ramo e a toalha, em respeito à tua caminhada e à tua jornada neste dia. E come agora a tua refeição, pois, ainda que houvesse uma legião e uma multidão, neste lugar mesquinhez não encontrarias. E gentilmente vos saúdo a todos, pois fui eu quem sobre vós lançou um encantamento para que em amizade estivésseis comigo nesta noite.

Depois disso, ele comeu a sua refeição e boa foi essa refeição, pois não havia tipo de carne em que pensassem que não fosse encontrado na mesa nem tipo de bebida que imaginassem que não fosse encontrado na taça e profusamente agradeceram a Manannán. Contudo, quando eles haviam consumido a sua refeição, isto é, Cormac, Eithne, Albhe e Cairbre, um divã lhes foi preparado e foram dormir e dormiram docemente e onde acordaram foi na aprazível Liathdruim, com a sua toalha, a sua taça e o seu ramo.

E essa foi a peregrinação de Cormac e como ele obteve o seu ramo.

Leia também As Instruções de Cormac (Tecosca Cormaic).

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Creative Visualization

A Visualização Criativa na Oração e na Adoração

Melita Denning & Osborn Philips

O uso da Visualização Criativa na oração e na adoração provavelmente ocorre com mais frequência e mais facilmente dentre os seguidores de uma religião quase sempre farta em imagens sacras. Para os seguidores de religiões que não se utilizam de imagens, esse processo se torna um pouco mais difícil. De qualquer maneira, o fato de o indivíduo ter uma crença, ter fé, é um ponto positivo no seu processo de desenvolvimento espiritual, mesmo quando sua seita não se utilizar de imagens ou figuras, porque a própria religião já é prova de que a pessoa está muito além dos materialistas, principalmente na questão da Visualização Criativa.

Para se ter uma ideia, nem todos os religiosos praticam a adoração e nem todos rezam. Para essas pessoas, então, algumas das ideias que se seguem podem ser interessantes. Pode ser que elas desejem imaginar ou pensar numa Entidade na qual acreditem. A partir daí, a oração e a adoração passam a ser menos difíceis de ser aceitas ou compreendidas.

“Mas como fazer para rezar? Como começar a orar?”,perguntam alguns. Pode-se começar tal como uma criança começa a falar, com apenas uma palavra. Algumas das mais poderosas e belas orações do mundo têm apenas uma única palavra. Portanto, não existe “maneira apropriada” ou fórmula certa de oração. Nada é tão íntimo, tão singular quanto o relacionamento entre o adorador e sua Divindade e tanto faz se o que você diz é inédito ou se já foi dito milhares de vezes por milhões de outras pessoas. Nada disso é importante. O que realmente importa é que aquela palavra ou todas aquelas palavras são a sua oração naquele momento. E desse momento em diante você terá encontrado uma das mais poderosas fontes de inspiração, de força, de alegria, de confiança e de esclarecimento espiritual em todos os níveis do seu ser. E essa mesma fonte tem sido concedida aos povos de todos os lugares do mundo por todos os séculos.

Com relação à visualização, não se sugere que a pessoa deva superar as dúvidas que porventura tenha quanto à exatidão – ou a possibilidade – de imaginar uma Divindade de forma localizada. Ao mesmo tempo, se a pessoa quiser ampliar os benefícios que irá receber usando a Visualização Criativa em suas preces, é necessário considerar se existe algum Ser Espiritual que possa ser imaginado, seja como recipiente ou como intermediário de suas petições à Divindade.

Para aqueles que conseguem adorar seu Deus, ou seus deuses, à maneira simbólica tradicional, ou para aqueles que creem numa Divindade encarnada, não precisamos acrescentar mais nada com relação ao Ser Divino que elas deveriam visualizar. Se, porventura, o leitor encontrar alguma dificuldade a respeito desse assunto, talvez então seja melhor visualizar o seu Anjo-da-Guarda, ou um Santo conhecido, pedindo que aquele ser seja o portador de suas orações à Divindade. Você pode escolher o santo de sua devoção, ou mesmo um santo ligado ao assunto que você queira resolver. Também esse Ser Divino não precisa ser necessariamente um santo reconhecido pela igreja, ou pela seita que a pessoa frequenta. Pode ser alguém – que já tenha morrido – e que a pessoa amava muito, como a avó, ou o avô, ou algum parente mais distante com o qual a pessoa se sinta intimamente ligada.

Gostaríamos de ressaltar que existem estudos, feitos pelos antigos missionários religiosos enviados à China, de que a “veneração aos ancestrais” e a adoração aos Santos, reconhecidos pelas igrejas, têm as mesmas raízes e fundamentos.
Pode-se, sem dúvida nenhuma, visualizar, então, tanto sua Entidade como seu santo protetor. Esse tipo de visualização se mostrou muito poderoso e eficiente.

Esteja você visualizando uma Divindade de qualquer forma, ou mesmo um Santo ou um Anjo, é bom tomar cuidado para “enxergar” esse Ser da maneira mais positiva possível, ou seja: radiante, poderoso, acolhedor e amoroso. Se for possível, use uma imagem – seja impressa ou esculpida – para auxiliar em sua visualização. Mas lembre-se, você não poderá conferir nenhum poder à imagem materializada propriamente dita. Você não deverá entendê-la como talismã ou mesmo objeto de fetiche. Essa imagem tem apenas o objetivo de auxiliar você na formulação, a mais clara possível, da imagem que você visualizou internamente, e também de evitar para você a dificuldade de rezar “no espaço” com convicção.

Um devoto hindu descreveu certa vez, como – em oração – ele ofereceu luzes e flores com palavras de amor e adoração dirigidas a uma imagem feita à semelhança de sua Divindade. Diz ele: “Mas quando termino minha oração, deixo a imagem de pedra sobre o altar e coloco a imagem verdadeira de volta em meu coração.”

Quanto mais concreta for a imagem real que você construir em seu coração, tanto mais útil e eficaz ela lhe será.

Por esse motivo, sugerimos que você pratique muito suas orações durante algum tempo, antes de começar a pedir alguma coisa por esse método. E mais, se, por algum motivo drástico, uma emergência, você se viu diante da oração, rezando desesperadamente, alertamos que essa prática de adoração não será possível.

Algumas emergências acontecem, e às vezes, pessoas que nunca rezaram começam a fazê-lo; essas pessoas rezam, ou invocam o auxílio de forças para as quais jamais haviam se dirigido, e frequentemente recebem o que pedem. Porém, na emergência, você tem acesso às áreas da sua mente profunda, que normalmente estão fechadas para você em circunstâncias normais e assim, para poder rezar com eficácia em momentos não críticos, é preciso muita prática de oração.

Portanto, se você decidir trilhar o Caminho da Devoção, siga-o com perseverança e com todo o fervor que puder encontrar dentro de si.

Faça um pequeno altar, ou um “cantinho especial” para a sua hora de oração e adoração. Você escolhe a posição: de joelhos, de pé, sentado, tanto faz. Existem posturas tradicionais de oração e a escolha é sua. Se possível, crie o hábito de acender uma ou mais velas para acompanhar o seu período de adoração e oração. Se quiser, acrescente incenso ou flores. Os detalhes ficam por sua conta, porém, não se esqueça de quando rezar, visualizar. Isso é fundamental.

Se você imagina Deus como sendo Luz, então visualize Luz. Se para você a Divina Presença poderia ser algo quase palpável no topo de uma montanha, ou talvez dentro de uma caverna, então visualize que você está no topo de uma montanha ou dentro de uma caverna, antes de começar a rezar.

Sempre que você tiver um objetivo que deseja alcançar através desse modo de oração, os princípios básicos se aplicam sempre, utilizando-se você de um Ser intermediário ou dirigindo-se diretamente à Divindade. Todavia, os detalhes do procedimento variam ligeiramente de caso para caso e, por esse motivo, os relacionamos abaixo:

A. Se você vai visualizar – de qualquer maneira – a Divindade para a qual você dirige suas preces, sem um Ser intermediário, então faça o seguinte:

1. Construa primeiro uma imagem visualizada bem nítida do objetivo que você quer alcançar, seja ele um benefício para o corpo ou para a alma, seja para você ou para outras pessoas. Formule um quadro o mais exatamente possível, por exemplo, a pessoa curada, ou o certificado de um exame, etc. Ou, se o objetivo a ser alcançado for algo visível e material, então formule simplesmente um quadro do objeto propriamente dito, de preferência “enxergando-o” em uso pela pessoa a quem ele se destina, seja essa pessoa você ou não.

2. Visualize sua imagem da Divindade, seja em forma humana ou simplesmente em forma de Luz, cheia de resplendor e generosidade.

3. Faça a adoração, seja nos moldes que você costuma fazer sempre, ou da maneira que está sentindo vontade naquele momento.

4. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga-o sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você se sentir emocionado no momento.

5. “Veja” aquilo que você deseja de maneira radiante pelo contato Divino, sendo oferecido a você pela Divindade. Ou, então, “ouça” e repita para você mesmo as palavras que estão lhe dizendo que o que você tanto deseja irá acontecer. Aceite o presente e dê graças por ele.

6. Faça com que tudo aquilo que você acaba de visualizar desapareça devagar e calmamente de sua consciência.

7. Durante o dia, e durante a noite também, caso você esteja acordado, recorde-se daquilo que ocorreu no item 5, mesmo que apenas por alguns instantes, e em seguida, agradeça novamente.

8. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada.

B. Se você vai fazer o pedido com a ajuda de um intermediário, de um santo protetor — independente de você visualizar ou não uma presença Divina — então proceda da seguinte maneira:

1. Idem ao item 1 do procedimento anterior.

2. Visualize o seu intermediário, o santo protetor ou Ser angelical com quem você já mantém um contato, ou que tem uma relação direta com o assunto que você irá tratar.

3. Reverencie sinceramente este Ser. Depois disso, peça-lhe que leve o seu pedido (que até esse momento você ainda não declarou em todos os detalhes) até a Divindade (a quem você irá indicar de acordo com o título que ela possua). Peça ao seu intermediário para interceder por você – ou para quem quer que você deseja ajudar – no sentido de obter para você – ou para a outra pessoa – o que está precisando. TENHA CERTEZA DE QUE AQUILO QUE VOCÊ ESTÁ PEDINDO SERÁ FEITO.

4. Visualize o seu intermediário se dirigindo até a Divindade para fazer o seu pedido. Pode imaginá-lo andando, voando, enfim, da maneira que você desejar, contanto que o imagine indo até a Divindade. Se você tenciona visualizar a Divindade, então preste atenção para “ver” o seu intermediário levando o seu pedido. Esta parte do procedimento é extremamente potente.

5. Se você pretende visualizar sua Divindade, então, faça-o agora. De qualquer maneira, focalize sua atenção na Divindade, saudando-a e adorando-a diretamente.

6. Declare, de maneira clara e precisa, aquilo que você quer. Diga sem hesitação que aquilo é necessário. Não se preocupe se você ficar emocionado. Lembre-se também de dizer que o seu santo protetor (nome) está pedindo isso por você também.

7. Desvie um pouco a atenção da presença Divina e “veja” o seu intermediário voltando para você, alegre e radiante, com o seu pedido concedido. “Veja” o objeto sendo oferecido a você, ou “ouça” as palavras que lhe dirão, que aquilo que você quer será realizado. Aceite a graça e dê graças por ela.

8. Faça com que todas as imagens que você acaba de visualizar desapareçam devagar de sua mente.

9. Durante o dia, ou durante a noite, caso você esteja acordado, lembre-se daquilo que aconteceu no item 7, mesmo que seja apenas por alguns instantes, e depois renda graças.

10. Sempre que aquilo que você pediu em oração realmente acontecer no plano material, não se esqueça de agradecer por isso. E continue fazendo suas orações com fé redobrada, e não se esqueça do seu santo protetor.

No Caminho da Devoção, deve-se tomar muito cuidado com uma coisa. Seja o que for que você esteja pedindo por meio da oração, faça-o apenas por esse meio. Evidentemente, se você estiver doente, deve tomar todas as providências normais – médico, remédios, etc. – além de rezar para o seu restabelecimento. Se você quer passar num exame, não basta rezar. Com certeza, você deve estudar muito para isso.

O que estamos querendo dizer aqui é que, se você está buscando algo especial por meio de um procedimento devocional, como o que acabamos de delinear, você não deveria tentar obter “um seguro espiritual” – fora do sistema – para garantir o que você deseja. Ou seja, se você está rezando para Nossa Senhora, tentando obter algo de vital importância para você, não faça esse mesmo pedido para uma estrela cadente, por exemplo.

Você poderá explicar essa necessidade de cuidados, dizendo, tal como diziam as pessoas do Antigo Testamento, que seu Deus tem “ciúme”. Ou, se o conceito de ciúme não se enquadra com sua ideia de Divindade, pode-se explicá-la de outra maneira, que parece indicar, também, a razão de se utilizar meios materiais para obter aquilo que você deseja, e não atrapalhá-lo.

A sua ligação espiritual com o Poder Divino que você invocou, a sua identificação mental com aquele Poder, juntamente com o seu fervor, sua devoção e não de necessidade (e coisas materiais comuns como remédios, dinheiro, etc.) são “neutros” e poderão ser facilmente utilizados pelo Poder Divino como parte do nível material daquele canal.
Entretanto, se você introduzir outros canais menores, particularmente do nível astral, em sua imagem visualizada, você poderá criar um vazamento no seu sistema, como por exemplo, fazendo um furo no canudinho que você bebe, ou pior ainda, provocando um furo no seu pneu. Nesse caso, você estaria voltando para a estaca zero.

Tente imaginar os vários aspectos da Divindade, a partir da descrição feita através dos tempos por parte dos devotos. Imagine as emoções e forma mental também vindas com o tempo e que formam a parte inferior do canal de força. Isso explica os santuários existentes em todas as partes do mundo e que permanecem, ao longo dos séculos, como centros de fé e de milagres.

Lembre-se sempre, por trás da sua visualização, da construção da sua imagem, estará sempre a realidade da Divindade para dar a ela sentido e validade; uma realidade muito maior que qualquer coisa terrena possa oferecer, uma força muito mais poderosa e repleta de amor que extrapola a nossa compreensão. Se pudermos aprender a pedir direito, com toda a confiança e tendo certeza de que aquilo que estamos querendo é exatamente o que estamos pedindo, então, não haverá limites para a abundância, para a fartura, tanto material como espiritual, com a qual seremos abençoados.

Fonte: Denning, Melita & Philips, Osborn (tradução: Anna Maria Dalle Luche). A Visualização Criativa. São Paulo: Siciliano 1989, p. 231-239.

Corrguinecht & Glám dícenn

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Corrguinecht & Glám dícenn

Bellou̯esus Īsarnos

Corrguinecht .i. beith for leth-cois 7 for leth-laimh 7 for lethsuil ag denam na glaime dícinn.

Feitiçaria [ou ‘magia da garça’], isto é, ficar numa só perna e com uma só mão e com um só olho ao fazer a glám dícenn (“sátira perene”).

Glám dícenn era uma composição ou ritual satírico. O ofendido (drui ou file), juntamente com um grupo de seis estudantes, que representavam os sete graus da iniciação poética, subiriam ao topo de uma colina onde houvesse um espinheiro-branco (úath/sceach gheal/H) antes do nascer do sol. Todos ficariam em pé, de costas para o espinheiro, cada um deles com um ramo da planta na mão. O drui (ou file) levaria consigo uma imagem de barro representando o ofensor e, quando o vento norte (direção da batalha) soprasse, recitaria a sátira e perfuraria a imagem com os espinhos. Para que o procedimento fosse perfeito, contudo, seria obrigatório observar as prescrições legais:

Benair aibghitir oghaim. blf. agus aibgitir ua .i. tiasca ai i nainm de; agus is e a greim-so .i. cros, agus a cur isin .c. drumaind ar son apaid; doberar ainm cinadh isin drumaind eile, agus ainm cintaigh isin tres drumainn, agus moladh isin cethramad drumaind; agus in flesc do sadhudh i forba .x. maide don filidh trefocail, no conadh a forba .x. maide apaid ma rosechmaill a flesg agus dorinde air, is eraic airi uadh; massa athgabaal rogob, is fiach indligid athgabala uadh.

Os caracteres ogâmicos são gravados, -,-,,-,,,-, e o alfabeto da poesia isto é, ‘inicio a poesia em nome de Deus’, e é assim que isso surte efeito, a saber, numa cruz e isso colocado no primeiro braço como um aviso e o nome da ofensa no segundo braço e o nome do culpado no terceiro braço e um louvor no quarto braço e o bastão é fincado no chão pelo poeta ao fim do período de dez dias do trefhocal [três palavras/afirmações], ou melhor, ao fim do período de dez dias do aviso. Se ele ignorou seu bastão e fez a sátira, a compensação pela sátira é devida por ele; se ele já realizou uma apreensão, a penalidade por apreensão é devida por ele”). Pois a sátira é realizada ao cabo de três períodos de nove dias ou de três períodos de dez dias, isto é, um período de aviso, um período para a composição do trefhocal e um período final para que o ofensor ofereça garantias. Somente então pode a sátira ser feita com pleno direito. E o nome de Deus e o nome da ofensa e o nome do culpado e seu louvor em Ogham ebhadhach. Trefhocal é o louvor misturado à advertência pela ofensa, que antecede a pronúncia da sátira.

Fidh ebhadh

>-X-

Ogham ebhadhach

>-,-X-,,-X-,,,X–,,,,X–,,,,,X–‘-X-”-X-”’-X-””-X-””’-X–/-X-//-X-///-X-////-X-/////-X–|-X-||–|||-X-||||-X-|||||-X-

>-,-X-/////-X-|-X-,,,,,-X-, bran

O mal, a morte e vida curta para Caíar,
Lanças de batalha terão matado Caíar,
Que Caíar morra, que Caíar parta – Caíar!
Caíar sob a terra, sob os aterros, sob as pedras!

Glám Dícenn

Is amhlaidh dogníthe isidhe, troscadh for fearand in righ dia ndenta in duan ocus comorle .xxx. laech ocus xxx. espoc ocus xxx filedh im air do dhenum iartain, ocus robo cin doib tairmeosc na hairi iar femedh na duaisi. Cid fil and tra acht in file fodesin do dul moirseser .i. sessear imaille fris fein fora mbetis se gráda filedh ocus ite annso a n-anmand .i. fochloc, mac fuirmedh, doss, cana, clí, anrad, ollam .i. in moirseisidh .i. a dul re turcbail ngréne co mullach nobhiadh a coicrich .uii. ferunn ocus aighidh gách graidh dibh for a ferunn, ocus aigidh inn olloman ann for ferann in righ no egnaighfed, ocus a ndromanna uile re sciaigh nobiadh ar mullach na tulcha, ocus in ghaeth atuaidh, ocus cloch throthail ocus dealg don sciaigh illaim gach fir, ocus rann for in aisdi-sea gach fir dibh do gabhail intib andis don righ, ocus in t-ollam do gabhail raind rompu ardus, ocus siat sum a n-aenfecht iarsin do gabail a rand, ocus cach do chur a chloichi ocus a delge fo bun na sciach, ocus diamad iatson bad chintach ann talumh na tulchi dia slugadh; diamadh é in righ im morro bud cintach, talam dia slogud ocus a bhen ocus a mac ocus a each ocus a arm ocus a erriudh ocus a chu.

Glamh in meic furmid ar in coin, glamh in fochlocon ar in erridh, glamh in duis ar in glamh in chanad ar in mnai, glamh in cli ar in mac, glamh in anradh for in fearunn, glamh in olloman for in ríg.

Sátira Perene

Assim isso foi feito: houve jejum na terra do rei para quem o poema fora composto, e um concílio de trinta leigos e trinta bispos e trinta poetas quanto a fazer-se uma sátira depois disso; e era para eles um crime impedir a sátira depois que o prêmio pelo poema fora recusado. Contudo, o próprio poeta tinha então que ir acompanhado por sete – isto é, seis outros além de si mesmo – aos quais os seis graus dos poetas tivessem sido conferidos, e estes são os seus nomes, a saber, fochloc, mac fuirmid, doss, cana, clí, anrad, ollam, ou seja, o sétimo deveria ir ao alto de uma colina ao nascer do sol, a qual deveria estar na divisa de sete regiões e a face de cada grau voltada para essas regiões, e a face do ollam ali presente em direção à terra do rei que ele iria satirizar, e as costas de todos eles voltadas para um espinheiro branco que deveria estar no alto da colina, e o vento soprando do norte, e uma pedra de atiradeira e um espinho do espinheiro na mão de cada homem, e cada um deles cantaria um bastão [isto é, uma composição escrita em Ogham num bastão] neste tipo de metro sobre as duas pedras de atiradeira e o espinho contra o rei, o ollam cantando o seu bastão antes dos outros, e eles depois cantando os seus bastões um por vez, e cada um deles pondo a sua pedra e o seu espinho ao pé do espinheiro. E se fossem eles que estivessem em erro, a terra da colina os engoliria. Porém, se fosse o rei que estivesse em erro, a terra o engoliria e a sua esposa e o seu filho e o seu cavalo e as suas armas e as suas vestes e o seu cão.

A maldição do Mac furmid caía sobre o cão: a maldição do fochloc, sobre as vestes: a maldição do doss, sobre as armas: a maldição do cano, sobre a esposa: a maldição do cli, sobre o filho: a maldição do anradh, sobre a terra: a maldição do ollam, sobre o rei.

Fontes: Sanas Chormaic, Uraicecht Na Ríar & Lebhair Bhaile an Mhotta

Protocolo

Drui/file
Representantes dos graus da iniciação poética
Alto de uma colina
Espinheiro-branco
Antes da aurora
Drui/file com imagem representando o ofensor
De costas para o espinheiro
Todos com uma pedra e um espinho na mão
Vento norte
Recita a sátira
Perfura a imagem com espinhos

Procedimento:

1. Criar o objeto imediato do trabalho (cruz com inscrições ogâmicas)

2. Identificar os meios da realização do trabalho (louvor+censura, ofensa, ofensor)

3. Jurar a pureza da intenção e a justiça da sátira: 3.1 Pelos Reinos; 3.2 Pelos Elementos; 3.3 Pelos Deuses.

4. Invocar o poder dos Reinos, Elementos e Deuses contra o ofensor.

5. Encerrar a circunambulação do corrguinecht ao redor da cruz e do bastão a fim de precipitar o destino do ofensor.

Porém, cuidado. A honra dos Deuses será ofendida se forem chamados para operar a injustiça. Do mesmo modo, a observância dos prazos para o arrependimento do ofensor é parte essencial do rito, que se voltará contra o oficiante se aqueles forem desrespeitados ou usado injustamente. Além de rito mágico, a glám dícenn também era um procedimento legal.

Trecho do Fís Adamnáin

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Trecho do Fís Adamnáin

Bellou̯esus Īsarnos

Trecho do Fís Adamnáin (“A Visão de Adamnán”), na edição de Whitley Stokes (1891):

Acht chena dogniat guin 7* gait 7 adaltras 7 fingalu 7 duinorcain 7 esorcain chell 7 clerech, sáint 7 éthech 7 góei 7 gúbreth 7 coscrad eclasi Dé, draidecht 7 génntlidecht 7 sénairecht, auptha 7 felmasa 7 fidlanna.

Apesar de cometerem agressão e roubo e adultério e parricídios e homicídios e destruição das igrejas e dos clérigos, cobiça e perjúrio e mentiras e falso julgamento e destruição da igreja de Deus, bruxaria [draidecht] e paganismo [génntlidecht] e lidarem com encantamentos [sénairecht], poções [auptha] e feitiços [felmasa] e fidlanna.

Apenas nesse curto trecho do Fís Adamnáin aparecem palavras que designam quatro procedimentos mágicos:

1) Sénairecht: deriva de sénaire, que vem de sén, “encantamento”, genitivo seoin.

2) Auptha, também uptha, “poções/feitiços de amor”. O nominativo plural plural aipthi é glosado pelo latim ueneficia, “feitiços”.

3) Felmasa é o acusativo plural de felmas, genitivo felmais. Em textos jurídicos, a expressão fromadh felmais é glosada como fromadh ua pisoc, “comprovar feitiços”.

4) Fidlanna é o acusativo plural de fidlann, provavelmente derivado de fid, “madeira” + lann, “placa/chapa”, que pode ser o nome da prática descrita no Tochmarc Etaine (“O Galanteio a Etain”, M. Egerton 1782, fo. 118a2):

Ba tromm immorro laisin druid dicheilt Étainiu fair fri se blíadna, co ndernai iarsin .iiii. flescca ibuir, ocus scripuidh oghumm inntib, 7 foillsigthir dó triana eochraib écsi 7 triana oghumm Etain do bith i Síth Breg Leith iarna breth do Midir inn.

Eis que pareceu penoso ao mago [o druida Dalan] que Etain dele permanecesse oculta por seis anos; assim, eles fez quadro bastões de teixo e neles escreveu o ogham. E por meio das suas chaves do conhecimento e através do ogham foi-lhe revelado que Etain estava no Síd de Bri Leith, para onde fora levada por Midir.

* Nos textos em gaélico antigo e medieval, usava-se um caractere semelhante ao algarismo 7 para representar a conjunção ocus/agus, “e”.

A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma, Parte 2

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A Doutrina Druídica sobre a Morte e o Destino da Alma, Parte 2

Bellou̯esus Īsarnos

[…] et ridiculosis magorum fabulationibus dicentium in auium substantia maiores suos saecula peruolasse, assensum praestare uidebimur.

Augustinus Hibernicus
De Mirabilibus Sacrae Scripturae

Saluete, omnes peregrini! Folgo por encontrar-vos novamente e é um grande gáudio o vosso interesse pelas elocubrações do meu cérebro, oriundas algumas de sã reflexão e outras, quiçá a maioria delas, de “um pedaço de bife mal digerido, um grão de mostarda, um naco de queijo ou um pedaço meio cru de batata”, como disse Ebenezer Scrooge, o epicurista.

Temos no Brasil o hábito de fazer rodeios antes de abordar qualquer assunto, perguntar sobre o cão, o gato e o papagaio, comentar sobre o tempo e oferecer café. Do café ‒ gosto do meu igual à minha magia: quente, forte e negro ‒ podeis servir-vos, ali está; todo o resto coloca-me em desespero e peço-vos licença para o dispensar.

Pois bem, dissemos anteriormente que a identificação do ensinamento dos druidas gauleses sobre o destino post mortem da alma humana à doutrina pitagórica da metempsicose foi uma interpretação inexata realizada pelos próprios helenos, que traduziram o pensamento druídico nos termos mais familiares ao seu entendimento. Em resumo, vimos que os druidas gauleses (ao menos, a parcela deles que se dignou informar alguma coisa aos gregos curiosos) afirmavam a continuação da existência in orbe alio (em outro mundo), com outro corpo adequado à nova condição.

Examinaremos neste encontro o que certos registros dos celtas das Ilhas Britânicas e da Irlanda deixam-nos entrever a respeito do mesmo tema. Tinham, acredito, concepções bastante próprias aqueles ilhéus.

Em seu livro The Faery Faith in Celtic Countries (fantástica coleção de relatos sobre criaturas élficas na Irlanda, Bretanha, Gales e Cornualha, publicado em 1911), Walter Yeeling Evans-Wentz registrou depoimentos de vários nativos que professavam discretamente a crença num tipo de reencarnação como parte de um conjunto de ensinamentos transmitidos oralmente desde época que seria impossível precisar. Assim como a própria crença na existência e poderes das fadas é sobrevivência do passado pagão, também o seria a fé na pluralidade das existências. Portanto, para além do que esteja registrado na literatura medieval, esses depoimentos são também eco, embora débil, de uma crença antiga.

Aqueles habituados às leituras sobre druidas e espiritualidade celta (vós todos, pois não?) já terão lido alguma vez que os antigos celtas ensinavam que a alma de uma pessoa reencarnaria dentro do seu próprio clã. Ou então que seria possível renascer como elemento da paisagem, como pedra, árvore, ou um bicho qualquer à la pythagoricienne. Não compro nenhuma dessas ideias e acho que tenho motivos para duvidar delas.

Primeiramente, lembro-me no momento de apenas duas passagens que corroborariam a crença num “renascimento” dentro do próprio clã a que se pertença. A primeira está num poema chamado Moí coire coir goiriath, geralmente referido como Coirí Filidechta (“Caldeirões da Poesia”), atribuído ao druida milesiano Amhairghin Glúingeal, e diz ser o conhecimento transmitido por meio das linhas de sangue, embora não se manifeste igualmente em todos os descendentes. Mas é uma passagem de difícil interpretação:

Ciarm i tá bunadus ind airchetail i nduiniu; in i curp fa i n-anmain? As-berat araili bid i nanmain ar ní dénai in corp ní cen anmain. As-berat araili bid i curp in tan dano fo-glen oc cundu chorpthai .i. ó athair nó shenathair, ol shodain as fíru ara-thá bunad ind airchetail 7 int shois i cach duiniu chorpthu, acht cach la duine adtuíthi and; alailiu atuídi.

Onde se encontra a raiz da poesia numa pessoa: no corpo ou na alma? Dizem alguns que está na alma, pois o corpo nada faz sem a alma. Dizem alguns que está no corpo, onde se aprendem as artes, transmitidas por meio dos corpos de nossos ancestrais. Diz-se que essa é a verdade que permanece na raiz da poesia, e a sabedoria na ancestralidade de cada pessoa não provém do céu setentrional para cada um, mas para cada outra pessoa.

A outra passagem relevante vem, se me não falha a memória, do Táin Bó Cúailgne. É um trecho em que os Ultu discutem a respeito de Cúchulainn não ter ainda uma esposa. Declaram explicitamente que, se ele não tiver um filho, não haverá possibilidade de que lhes retorne depois da morte, ou seja, reencarnado em um dos seus descendentes. Mas a interpretação também pode ser que as suas habilidades guerreiras passariam geneticamente ao filho. Parece-me que as duas passagens referem-se à transferência das capacidades, não da personalidade do ancestral.

De qualquer modo, estamos a pensar em termos humanos. Talvez eu faça uma interpretação demasiado literal dos termos da questão, mas como se supõe, por exemplo, que uma pessoa possa “renascer” como pedra? Qual fenômeno geológico determinaria o surgimento de uma pedra para abrigar um espírito errante? Ou não é necessário que seja uma nova pedra e o espírito poderia simplesmente passar a habitar um mineral já existente? Como se daria isso? Voluntariamente? Pelo concurso de uma vontade alheia?
Raciocinemos, enquanto não incidir imposto sobre o pensar. Se voluntariamente, ao perceber que se esgota a sua vida, o indivíduo determina que o seu espírito migre à pedra (parece-vos absurdo? Também a mim), onde passará a habitar. Mas também pode ser que tome essa decisão já no estado de erraticidade. Se dirigido por uma vontade alheia, esta possuirá poderes que lhe permitam ligá-lo à pedra, o que não faria de forma espontânea. E quanto tempo deverá durar esse estado? Para sempre, por um número determinado de anos? Ou deverá permanecer na pedra até que se verifique dado evento? Até que a erosão a destrua, até que vire pó? Seja qual for o caso, é perceptível que não se trata da simples continuidade da existência. Na passagem da alma humana a um objeto inanimado (voluntária ou não) interferirão as ações de uma ciência obscura.

Renascer como animal parece-me hipótese ainda mais distante. Sem entrar em minúcias, todos os seres vivos são dotados de espírito (grosso modo, a força vital que liga a alma ao veículo físico), mas não todos possuem alma (capacidade abstrata de autopercepção). Não obstante, a alma humana é de tal densidade que não se amoldaria a um espírito animal, ainda que este possuísse o tipo de alma próprio da sua espécie. Mesmo entre os pitagóricos da Antiguidade a possibilidade do renascimento humano num corpo animal suscitava discussão. Nos primórdios do período bizantino (séc. IV EC), chegou-se a esta conclusão:

A transmigração das almas, porém, se ocorre entre seres racionais, tornam-se elas as almas de corpos específicos; se, contudo, para um irracional, seguem-no exteriormente do mesmo modo que os nossos dáimons regentes assistem-nos em suas ações benévolas (1).

Antes que alguém precipitadamente me acuse (não há de faltar quem o faça) de afirmar a superioridade humana, devo esclarecer que o pé não é menos importante do que a mão, mas a função do pé não é igual à função da mão. Pelos olhos do ser humano, todos os elementos do mundo contemplam e refletem sobre si mesmos usando instrumentos que outras formas de vida não desenvolveram, ainda que partilhem da mesma origem que a humana e estejam sujeitas a ciclos existenciais semelhantes.

Levando em conta que a tradição céltica nativa não continha a noção de pecado e consequente julgamento, como antes vimos, cabe questionar qual seria, do seu ponto de vista, a necessidade de renascer neste mundo. Na verdade, os gaélicos da Irlanda – […] the men that God made mad, / For all their wars are merry, / and all their songs are sad – apresentam-nos motivos não despidos de certa razoablidade.

Na literatura irlandesa medieval, a reencarnação surge como excepcionalidade que serve a um propósito específico.

A primeira menção está nos relatos sobre o rei Mongán mac Fiachnai (séc. VII EC).

Outro rei, Mongán, que nada tinha de mítico, pois viveu na época histórica e morreu em 625, teve também três pais, dos quais dois deuses. Seu pai legal, o Rei Fiachna, partira para guerrear em Alba (Escócia), contra os Saxões. Deixou na Irlanda a esposa. Esta recebe a visita de um homem imponente que lhe revela que seu marido será morto em combate no dia seguinte, a menos que ela consinta que ele lhe dê um filho. Para salvar o marido, a esposa consente e o marido é miraculosamente salvo!

A criança veio ao mundo e, quando tinha três dias, o imponente personagem, que outro não era senão o deus Manannán (2), veio procurá-lo para criá-lo em seu reino, a Terra da Promessa, até que chegasse à juventude.

Uma outra versão pretende que, a despeito das aparências, Mongán era a reencarnação do herói Fionn Mac Cumhaill, mas não queria que o soubessem. Advirta-se que este desenvolvimento, tão lisonjeiro para Mongán, ocorria em plena era cristã (3)!

O eminente Prof. Jubainville refere o mesmo episódio:

O maravilhoso nascimento de Mongán e o papel que desempenha em sua lenda o deus Manannán mac Lir não são os únicos pontos sobre os quais esse relato mítico nos faz conhecer as crenças fundamentais da religião céltica. Há nessa lenda dois pontos que merecem igualmente um estudo atento. Um é que Find, morto no fim do terceiro século, não tinha, nesse entremeio, deixado de viver, tinha conservado sua personalidade e que ele retorna a este mundo dois séculos após sua morte, tendo obtido, por meio de seu segundo nascimento, um novo corpo.

O segundo ponto é a aparição de Cailte. Este não nasceu uma segunda vez. Não fica inicialmente claro como, tendo com a morte deixado seu corpo na tumba na Irlanda, ele volta do país dos mortos com uma forma física que ninguém diferencia daquela do restante dos humanos. O que há de certo é que, de acordo com a lenda irlandesa, ele voltou para cá visível a todos os olhos, falando uma língua que todos entenderam. Ou essa lenda não tem por base uma crença peculiar dos irlandeses (4), pois na França, ainda hoje, entre o povo, persiste o temor dos espectros. A crença nos fantasmas é então uma doutrina céltica e um pouco mais adiante indicaremos alguns desenvolvimentos (5).

Passemos a outra possibilidade. Com notável frequência encontraremos nas lendas o fenômeno céltico da mutação de forma (6), realidade que, para os irlandeses, era tão natural quanto, para nós, modernos, são as estruturas moleculares: essa era, simplesmente, a condição do mundo. Mutação de forma era a capacidade que determinado ser possuía de se transformar, algo que, em muito, transcendia a metamorfose causada pelo riastrad (“furor guerreiro” ou “espasmo disforme” que dava a Cúchulainn um aspecto de pesadelo). Vemos um exemplo esplêndido de mutação de forma no poema do pioneiro druida milesiano Amhairghin: inicialmente, é um estuário, depois uma onda, depois o mar, depois um touro, depois um falcão, etc. E, embora hoje em dia, o leitor possa entender tais gestos como metáforas, os irlandeses acreditavam que deuses, druidas, poetas e outros indivíduos em sintonia com o Síd pudessem viver experiências de mutação de forma.

Houve um autor da Alta Idade Média irlandesa apelidado Augustinus Hibernicus (“Agostinho, o Irlandês”; não deve ser confundido com Aurelius Augustinus Hipponensis, o bem conhecido Santo Agostinho) que no começo do séc. VII (contemporâneo do rei Mongán, portanto) escreveu um tratado conhecido como De Mirabilibus Sacrae Scripturae (“Sobre os milagres da Sagrada Escritura”). Nessa obra, o autor monástico faz uma pitoresca afirmação a respeito dos magos locais ao discutir a teoria da evolução (sim, na Irlanda do séc. VII discutia-se a evolução!). Para o Agostinho Irlandês, aceitar que uma espécie pudesse converte-se em outra (pois a crença na metamorfose entre espécies foi comum até bem entrada a Idade Média), seria o mesmo que aceitar:

[…] et ridiculosis magorum fabulationibus dicentium in auium substantia maiores suos saecula peruolasse, assensum praestare uidebimur.

[…] os mitos ridículos dos magos que dizem que seus antepassados voaram ao longo dos tempos na forma de pássaros.

O nosso “Agostinho” era um filósofo e teólogo com excelente domínio do latim clássico para um monge daquela época. Como não há precedentes nas doutrinas pré-cristãs de Roma, do Egito ou da Grécia, a suposição razoável é que ele se referisse aos magos irlandeses, isto é, aos druidas. Atentando ao latim (magorum… dicentium, “dos magos que dizem”), nota-se que o douto frade falava do presente, da época em que o texto foi escrito. Aparentemente, na Irlanda do séc. VII os magos (druidas) ainda estavam ativos e transmitindo um ensinamento da transmutação da alma humana em pássaros.

A assimilação da alma humana à imagem das aves teria profundas influências no futuro do simbolismo esotérico. Veja-se como passou à “Matéria da Bretanha”:

Bors, quando tiveres recebido o Grande Mestre, o Grande Companheiro, isto é, quando tiveres compartilhado do corpo de Nosso Senhor, começarás a compreender se Nosso Senhor conceder-te-ia encontrar o tesouro precioso que cabe aos cavaleiros de Jesus Cristo, os verdadeiros homens de valor nesta Busca. Não tinhas ido longe quando Nosso Senhor apareceu-te na forma de um pássaro e revelou-te a tristeza e a dor que sofrera por nós. Primeiramente te direi o que foi que viste. Quando a ave chegou à árvore que estava sem folha e fruto, olhou para os seus filhotes e viu que nenhum estava vivo. Ocupou então o seu lugar entre eles e começou a golpear com o bico seu próprio peito até que o sangue corresse; ela então morreu, enquanto os jovens pássaros reviveram com o seu sangue. A ave significa o Nosso Criador, que formou o homem à sua própria semelhança. E quando o homem foi expulso do paraíso por causa do seu próprio pecado, veio dar a uma terra onde nada havia senão morte, pois ali nada vivo existia. A árvore sem fruto e folhas significa o mundo, onde então nada havia senão tristeza e miséria e sofrimento. As jovens aves significam a raça humana, cujos membros eram então tão desamparados que estavam todos destinados ao inferno, tanto os bons quanto os maus, pois eram todos iguais em mérito. Quando o Filho de Deus contemplou isso, Ele subiu a árvore, isto é, a Cruz, e foi ali perfurado pelo bico de uma lança, isto é, pela ponta, no lado esquerdo até que o sangue esguichasse. Com esse sangue os filhotes reviveram, pois eram a Sua própria criação. Pois Ele libertou-os do inferno, onde tudo era morte e onde ainda não existe vida. Essa generosidade para o mundo, para mim, para ti e para todos os outros pecadores, Deus veio na forma de uma ave revelá-la a ti a fim de que não temas morrer por Ele mais do que Ele temeu morrer por ti (7).

Assim, os celtas acreditavam na imortalidade da alma (central no ensinamento druídico), mas não admitiam, como os pitagóricos, que, como regra geral (friso: como regra geral), as almas dos mortos, deixando o corpo que habitaram, ficassem neste mundo para animar um novo corpo.

Contudo, podem-se enumerar exceções a essa regra:

1) o nascimento de Mongán (visto acima): a reencarnação do herói Finn como Mongán, por intermédio do deus Manannán;
2) o nascimento de Étaín, filha de Etar: antes de ser a filha de Etar, Étaín já fora a filha de Aillil (mil e doze anos antes) e, depois disso, numa outra vida, fora esposa do deus Midir. Quando renasceu como filha de Etar, Étaín tornou-se esposa de Eochaid Airem, rei supremo da Irlanda, mas Midir, lembrando-se de sua antiga companheira, reclamou-a para si e levou-a consigo para o Outro Mundo. Esse relato chama-se Tochmarc Étáine, “Galanteio a Étaín”, sugiro que o leiais. Por vossa própria conta e risco.

De acordo com os relatos mitológicos, as possibilidades de “mudança de estado” para o ser humano, conforme a tradição, seriam:

1) metamorfose (que não é reencarnação) (8);
2) renascimento num outro mundo mais perfeito do que este e onde já habitam os Ancestrais do defunto e também os Deuses, sem a ocorrência de nenhum tipo de julgamento sobrenatural (objeto do nosso anterior encontro);
3) reencarnação em forma humana, para certos indivíduos em casos excepcionais.

Como os celtas desconheciam o conceito de “pecado” e não consideravam a necessidade de ajustar contas morais numa vida futura, não tinham porque admitir que as pessoas voltassem a este mundo como regra geral e para o resgate de débitos passados. Se admitirmos a reencarnação, teremos, portanto, de imaginar para ela outra classe de justificativa. Tal é, para mim, não o único, mas um dos mais significativos óbices a essa tese.

Se pensarmos bem, a partir do momento em que não se admite a reencarnação, pode-se entender que o espírito seja criado ao mesmo tempo que o corpo. Se o espírito for criado ao mesmo tempo que o corpo, não existirão experiências prévias, não haverá sabedoria anteriormente adquirida, ninguém será mais sábio (mais velho, mais experiente) que outrem. Existiria ainda a possibilidade da transmissão genética do conhecimento, como apontado no “Caldeirões da Poesia”. Quaisquer que sejam as questões que nos coloquemos ante o problema da reencarnação, esta permanecerá uma possibilidade que assoma timidamente da tradição antiga.

Admitindo-se que a reencarnação não seja obrigatória, tornar-se-á uma questão que envolve o principal dom outorgado pelo Universo ao ser humano: o livre-arbítrio. Uma vez que tenhamos eliminado a reencarnação compulsória (como necessidade de purificação), a única razão para que uma alma retorne a este mundo será o exercício do seu livre-arbítrio, por motivos que apenas ela bem conhece. A “Viagem de Bran Mac Febal” e a “Viagem de Máel Dúin” mostram-no. Nos dois relatos, grupos de homens escolhidos atravessam o oceano para chegar a um lugar de perfeição que acabam abandonando unicamente por sua própria vontade. Não são expulsos ou coagidos a partir de forma alguma. Fazem-no porque assim desejam, porque não estão ainda prontos para habitar no estado de absoluta tranquilidade que encontraram. Quando a sua inquietação chega ao máximo, eles entram no barco e vêm dar às praias deste mundo. Não precisariam fazê-lo, mas partem assim mesmo. Porque sentem uma necessidade íntima (9).

Tal é a diferença entre a “reencarnação céltica” e, digamos, a proposta pela doutrina kardecista: na primeira não há uma ênfase na necessidade de fazer reparações. Importante é a vontade de voltar para realizar outras coisas, provar a própria força, passar por novas experiências, aprender mais. A alma é impulsionada à frente pelo desejo de crescer. Sem este, haveria apenas uma eternidade apática e vazia no Outro Mundo. Seria algo como a noção que vulgarmente se tem do Céu cristão: és uma pessoa boa e santa. Morres. A tua alma vai para o Céu e passas o resto da eternidade enfiado numa camisa de dormir de design antediluviano a tocar harpa com os anjos. Que noção assustadora esse descanso eterno (10)!

Considerai, além disso, a alternância que se apresenta em todos os aspectos da concepção céltica do tempo: meio ano de escuridão (de Samhain a Beltane), meio ano de luz (o inverso), cada mês do calendário sequano com uma metade escura e outra luminosa, cada quinzena formada por uma sucessão de dias propícios e nefastos, cada noite com seu dia… Como seria possível conceber que a mente céltica – operando com ciclos de manifestação e de retorno ao não-manifesto – criasse a ideia de uma ida sem volta?

Voltando a atenção para o material galês, encontramos as ovelhas do conto de Peredur ab Efrawg (“Peredur, filho de York”), um dos romances arturianos associados aos Mabinogion. Ali está escrito:

E ele foi em direção a um vale, pelo meio do qual corria um rio. E as extremidades do vale eram cobertas de árvores e, em cada lado do rio, havia campinas planas. E, num lado do rio, viu um rebanho de carneiros brancos e, no outro lado, um rebanho de carneiros negros. E sempre que um dos carneiros brancos balia, um dos carneiros negros atravessava o rio e tornava-se branco; e quando um dos carneiros negros balia, um dos carneiros brancos atravessava o rio e tornava-se negro. E viu uma alta árvore ao lado do rio, uma metade da qual estava em chamas da raiz à copa e a outra metade era verdejante e cheia de folhas. E perto desse lugar viu um jovem sentado numa colina e dois galgos de peitos brancos e malhados, em coleiras, lado a lado. E estava certo de jamais ter visto um jovem de aspecto tão nobre como esse. E, na floresta do outro lado, Peredur escutou galgos a perseguir uma manada de cervos. E Peredur saudou o jovem e o jovem cumprimentou-o em retribuição. E havia três estradas que partiam da colina; duas delas eram estradas largas e a terceira era mais estreita. E Peredur perguntou ao jovem aonde as estradas levavam. “Uma delas vai ao meu palácio”, disse o jovem, “e aconselho-te que faças uma de duas coisas: ou prosseguires até o meu palácio, que está à tua frente e onde encontrarás a minha esposa, ou permaneceres aqui para veres os galgos a perseguir os cervos espantados da floresta à planície. E verás os melhores cães de caça que jamais contemplaste (e os mais corajosos numa caçada) abaterem-nos perto da água ao nosso lado; e, quando chegar a hora da refeição, virá meu pajem com meu cavalo encontrar-me e descansarás em meu palácio nesta noite’.

“Que o Céu te recompense, mas não posso demorar-me, pois devo seguir adiante”.

“A outra estrada conduz à cidade que fica perto daqui e onde comida e bebida podem ser compradas. E a estrada que é mais estreita que as outras vai em direção à caverna do Addanc”.

Abro parênteses: o Addanc é um monstro lacustre da mitologia de Gales. Sua descrição varia: às vezes é um crocodilo, um castor ou uma criatura semelhante a um gnomo. O lago em que ele mora também varia: alguns dizem que seria Llyn Llion, ou Llyn Barfog, perto da Ponte Brynberian, ou Llyn yr Afanc (que recebeu o nome do monstro), perto de Betws-y-Coed (significa “casa de oração na floresta”, uma cidadezinha no vale do Conwy, no noroeste de Gales). A grafia do nome também varia em galês moderno, a depender da fonte. O galês medieval usava avanc, o moderno usa afanc, que agora significa apenas “castor”. A forma avanc/afanc é usada no “Livro Vermelho de Hergest”. No conto de Peredur (em galês médio), do “Livro Branco de Rhydderch”, a criatura da caverna, como se viu, é chamada Addanc. A grafia mais comum, de longe, é afanc. Parênteses fechados.

Na Irlanda, a título de comparação, o tema foi tratado de forma semelhante, como se vê no conto Immram Curaig Maele Duin (“A Viagem de Barco de Máel Dúin”), já mencionado:

Cedo, na manhã do terceiro dia depois disso, avistam outra ilha, com uma paliçada de bronze no meio que dividia a ilha em duas partes e ali percebem ao longe grandes rebanhos de carneiros, um negro no lado de cá do cercado e um rebanho branco no lado mais distante. E viram um homem grande separando os rebanhos. Quando ele lançava um carneiro branco por cima da cerca deste lado para os carneiros negros, ele se tornava subitamente preto. Assim, quando ele lançava um carneiro negro sobre a cerca do lado mais distante, ele se tornava subitamente branco. “Isto que seria bom nós fazermos:”, disse Máel Dúin, “lancemos dois bastões na ilha. Se mudarem de cor, também decidiremos se desceremos à terra ou não”. Assim, atiraram um bastão de casca preta no lado onde estavam os carneiros brancos e ele se tornou imediatamente branco. Então, lançaram um bastão descascado no lado onde estavam os carneiros negros e ele se tornou imediatamente preto.

“Não afortunada foi essa experiência”, disse Máel Dúin. “Não desçamos à ilha. Sem dúvida, nossas cores não se sairiam melhor do que os bastões”.

Dois rebanhos de carneiros, negro um, branco o outro, separados por um obstáculo (rio, em “Peredur”, cerca de bronze em “Mael Dúin”); um indivíduo de aspecto notável observa-os (um jovem de aspecto nobre em “Peredur”, um homem grande em “Mael Dúin”); intercâmbio entre os elementos dos rebanhos (chamado em “Peredur”, lançados sobre a cerca em “Mael Dúin”). Aí está, creio, o intercâmbio das almas entre os mundos representado quase com as mesmas metáforas nas duas margens do Mar da Irlanda. Somente a origem num fundo comum poderia explicar tal semelhança.

A árvore do conto galês sem dúvida remete às crenças escatológicas dos druidas. Strabōn, geógrafo, historiador e filósofo, referiu que os druidas “e outros como eles” proclamavam a imortalidade da alma e do mundo; contudo, julgavam que, num futuro indeterminado, ocorreria uma conflagração dos elementos na qual o fogo e a água prevaleceriam sobre todo o resto (11). Assim como no começo o Universo surgiu da interação entre os opostos, descritos como fogo e água, no fim dos tempos essa troca cessará, a Roda Cósmica descontinuará o seu movimento, os opostos reinarão de costas um para o outro. A árvore que queima e floresce representa início e encerramento, a totalidade dos tempos.

O intercâmbio dos rebanhos, ovelha por ovelha, traz à lembrança uma velha prática dos gauleses: o sacrifício de substituição (embora não lhe corresponda com exatidão, reconheço). Gaius Caesar descreve-a:

A nação inteira dos gauleses é inteiramente devotada aos ritos supersticiosos e, por esse motivo, aqueles que se acham atingidos por doenças extremamente severas ou se encontram empenhados em guerras e perigos ou sacrificam homens como vítimas ou prometem que irão sacrificá-los e empregam os druidas como executores desses sacrifícios; pois pensam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida pela vida de um homem, o nume dos deuses imortais não se tornará propício e determinam a realização desse tipo de sacrifícios para propósitos públicos […] (12).

Nos contos dos Mabinogion (no Primeiro e Segundo Ramos, isto é, os contos de Pwyll e Branwen), encontra-se um personagem chamado Pendaran Dyfed.

No fim do mabinog de Pwyll, ele é um dos que estão à mesa do príncipe no momento em que Teyrnion Twrif Fliant devolve Pryderi a seus pais. Pwyll nomeia Pendaran e Teyrnion pais adotivos de Pryderi (dois pais, que moderno!).

No Segundo Ramo, Pryderi é um dos que acompanham Bran, o Abençoado, à Irlanda, na expedição contra o rei Matholwch por causa dos maus-tratos infligidos a Branwen. Ao partirem, Bran nomeia sete ministros para que tomem conta da Ilha da Grã-Bretanha enquanto ele estiver fora. Ora, o narrador afirma que Pendaran Dyfed permaneceu com esses sete como um jovem pajem. Depois, quando os guerreiros (apenas sete sobreviventes) voltam da batalha na Irlanda e descobrem que a Grã-Bretanha fora tomada por um usurpador e não sobrevivera nenhum dos ministros do rei Bran, o narrador novamente diz que Pendaran Dyfed, que tinha permanecido como um jovem pajem entre eles, conseguir escapar da matança realizada por Caraddawc entre os seguidores de Bran fugindo para a floresta. Não há menções posteriores a ele.

No Primeiro Ramo, Pendaran é importante o bastante para ocupar um lugar à mesa de Pwyll, íntimo e experiente o suficiente para que o príncipe lhe confiasse a educação do próprio filho. No Segundo Ramo, que se passa vários anos depois, Pryderi já está crescido o bastante para ir à guerra, mas Pendaran é um jovem pajem (um menino ou adolescente) na corte do Grande Rei. Como se explica a contradição, o que ela quer mostrar? Como se explica que, no Primeiro Ramo, Pendaran fosse um homem maduro ou idoso, mas um menino no Segundo Ramo? Imaginas a resposta? Talvez esteja implícita alguma ideia que a Igreja Romana desaprovasse?

Há uma miscelânea de possibilidades oferecidas pela tradição: nova vida com novo corpo noutro mundo; metamorfose; viagens entre os mundos; a volta a este mundo, sob o Sol dos mortais, para enfrentar novas batalhas. Qual dessas estradas conduz à verdade?

Não me arrisco a dizê-lo, pois seria absolutamente temerário. Seremos para sempre ignorantes das correntes de pensamento que um dia existiram no seio da corporação druídica e, ao largo, entre os povos célticos do passado. Nada saberemos da corrente dominante e das posições minoritárias, se realmente existiram. Podemos apenas entreter possibilidades.

Apesar disso, não me furtarei a declarar o meu juízo pessoal: o caminho da alma é sem fim e atravessa as planícies e terras dos Deuses e Ancestrais rumo a sua origem no Incriado. Albii̯os, o Mundo Celeste, está aberto a todos. Todas as naus atracarão nesse porto. Entretanto, marinheiro, se a inquietude habitar dentro de ti, se a harmonia não estiver ali solidamente estabelecida, não conseguirás permanecer naquela paragem onde tudo é equilíbrio. E isso não é nenhum tipo de punição – os Deuses não julgam, por isso não perdoam, nem punem -, mas uma lei natural: pares cum paribus facillime congregantur, “o semelhante junta-se ao semelhante”.

Nem todas as almas que empreendem a viagem alcançam a Terra da Juventude, Tír na n-Óg. Algumas ficam presas nas ilhas intermediárias e somente aquelas que voltam da Terra da Juventude para este mundo conseguem tirá-las de lá. Uma das funções da instrução espiritual (para não empregar o termo “iniciação”) é precisamente fornecer um mapa do caminho e ensinar a evitar os perigos da jornada. Por esse motivo é ela mais fácil para aqueles que já possuam esse conhecimento. Os demais podem passar por grandes dificuldades lutando contra os demônios de suas próprias mentes, jamais avançando além de um ponto em que serão libertados pelos que estiverem fazendo o caminho do retorno. Aquelas são as pessoas que não têm a oportunidade de usar o livre-arbítrio, aquelas para as quais a reencarnação será compulsória (no sentido de que não tiveram a oportunidade de fazer uma escolha, enquanto os que voltam da Terra da Juventude fazem-no voluntariamente).

Penso que considerar a escolha como fator determinante na questão do renascimento concilie as opiniões conflitantes, a saber, se o renascimento é neste mundo ou no Outro Mundo. Apenas no Outro Mundo, se a alma se achar pronta para isso. Neste também, se a alma, não suportando indefinidamente o contato com a perfeição (e a Verdade) ou por outro motivo, achar necessário que seja assim.

A Vida deu-nos o dom de escolher para a vida; por que a Morte, sua outra face, dele nos despojaria? Estará salvo aquele que puder escolher.

Agradeço a vossa companhia, mas ide agora. Estou velho e doem-me os ossos. As benção dos Deuses convosco.

(Escrito para a revista da Assembleia da Tradição Druídica Lusitana – ATDL)

Notas

1) Sallustius, Sobre os Deuses e o Mundo; Cap. XX, “A respeito da transmigração das almas e de como se diz que o racional é levado às naturezas irracionais”.

2) “Então, no dia seguinte, Bran saiu para o mar. O número de seus homens era três companhias de nove. Um de seus irmãos adotivos e companheiros foi colocado no comando de cada grupo de nove. Quando ele havia estado no mar por dois dias e duas noites, viu um homem numa carruagem que vinha em sua direção pelo mar, Esse homem também lhe cantou trinta estrofes, apresentou-se-lhe e disse que era Manannán mac Lir, e disse que lhe cabia ir à Irlanda depois de longos séculos e que um filho lhe nasceria, o próprio Mongán, filho de Fiachna – esse era o nome que teria” in Imram Brain maic Febail (“A Viagem de Bran Mac Febal”).

3) Olivier Launay. A Civilização dos Celtas. Rio de Janeiro: Otto Pierre Editores Ltda., p. 108-109.

4) “Meu pai costumava contar-nos uma história acerca de um vizinho que era muito amigo do padre da região. Na Irlanda, há toda uma mitologia sobre druidas e padres possuírem poder especial. Esse homem e o padre costumavam dar longos passeios. Um dia, o homem perguntou ao padre: ‘Onde estão os mortos?’ O padre disse-lhe para não lhe fazer perguntas como essa. Mas o homem insistiu, e, por fim, o padre disse: ‘Vou mostrar-te, mas não deves nunca contar a ninguém.’ É escusado dizer que o homem não cumpriu a palavra. O padre ergueu a mão direita. O homem olhou sob a mão erguida e avistou as almas dos falecidos em toda parte, tão cerradamente quanto o orvalho nas folhas de grama. Com frequência, a nossa solidão e segregação são o resultado de uma deficiência de imaginação espiritual. Esquecemos que não existe algo semelhante a espaço vazio. Todo espaço está repleto de presença, particularmente da presença daqueles que estão agora sob a invisível forma eterna” (O’Donohue, John. Anam Chara; um livro de sabedoria celta, São Paulo: Rocco, p. 205, 2000).

5) Jubainville, Marie-Henri d’Arbois de. Le Cycle Mythologique Irlandais et La Mythologie Celtique. Ernest Thorin, Éditeur, Paris, 1884.

6) Concordamos, portanto, com Agostinho [neste caso é Santo Agostinho], que nem demônios nem homens perversos podem seja criar ou realmente modificar as suas naturezas; porém, aqueles que Deus criou podem, quanto à aparência exterior, por Sua permissão, ser transformados, de modo que pareçam ser o que não são: os sentidos dos homens sendo assim enganados e adormecidos por estranha ilusão a fim de que tais coisas não sejam vistas como de fato existem, mas sejam estranhamente forçados pelo poder de algum espectro ou encantamento mágico a deitar seus olhos sobre formas irreais ou fictícias (Giraldus Cambresis, Topografia da Irlanda (c. 1188), Cap. XIX, “Das maravilhas da nossa época e primeiramente do lobo que conversava com um padre”).Trouxe esta citação porque as palavras usadas pelo autor ([…] ilusão […] encantamento mágico […]) são exatamente as mesmas presentes no “Quarto Ramo dos Mabinogion” para descrever os prodígios realizados pelo mago Gwydion fab Dôn (hud a lledrith, “magia e ilusão”), que também operava apenas mudanças exteriores. Parece ser o “sopro do dragão”, usado por Myrddin para transformar Uther no duque Gorlois.

7) La Queste del Gaint Grall (“A Busca do Santo Graal”, França, c. 1210).

8) […] ind eserghi di an id ainm, “metaformatio” .i. tarmchruthad, iann desmirecht na conricht […] ([…] a ressurreição, para a qual há o nome metaformatio, isto é, transformação, conforme o exemplo da forma do lobo […]). Essa passagem do relato Scéla na Esérgi (“Notícias da Ressurreição”, do Leabhar na hUidhri) é a mais antiga menção à licantropia na literatura irlandesa e reflete uma doutrina que não é a druídica, mas puramente pitagórica, a saber, a passagem da alma humana a outros animais, incluído o próprio homem (ressurreição = mudança de forma, tarmchruthad). Quanto aos druidas gauleses, não me parece excessivo relembrar, nas palavras de Caius Caesar, in primis hoc uolunt persuadere non interire animas, sed ab aliis post mortem transire ad alios, “são especialmente desejosos de persuadir que as almas não perecem, mas após a morte passam de um [entenda-se: homem] a outros”. Cabe diferenciar metensōmátōsis, “transformação de um corpo em outro”, que é a transmigração irlandesa, da metempsikhōsis dos druidas gauleses, a “passagem de uma alma humana para o corpo de outro ser humano” in orbe alio, “em outro mundo”.

9) “A saudade de casa tomou um deles, o próprio Nechtan, filho de Collbran. Seus parentes insistiram em pedir a Bran que voltasse à Irlanda com eles. A mulher disse que sua partida lhes traria arrependimento. Entretanto, eles foram e a mulher disse que nenhum deles deveria tocar a terra e que eles deveriam ir e apanhar o homem que haviam deixado na Ilha da Alegria”, lê-se no conto de Bran.

10) Peço escusas aos que tiverem melhor ideia das bem-aventuranças e deleites do Paraíso. Minha imagem estereotipada é proposital.

11) Rerum Geographicarum Libri XVII, IV, 4, 4.

12) Commentarii de Bello Gallico, VI, 16.