Noções de Mitologia Gaulesa

Noções de Mitologia Gaulesa

Bellou̯esus Īsarnos

Os mitos dos celtas da Gália, suas lendas pseudo-históricas, suas epopeias nacionais e genealogias deveriam servir como fundamento a todas as formas de saber, ao elementar, dispensado à plebe, bem como ao ensino erudito reservado aos discípulos e aos futuros mestres. Conservada em longos poemas versificados a fim de facilitar sua aprendizagem, a mitologia gaulesa, porque os historiadores e geógrafos gregos não a puderam ou não souberam registrar, caiu quase totalmente no esquecimento. Entretanto, o filósofo Lucius Annaeus Cornutus (na obra Theologiae Graecae Compendium), no começo da era cristã, considerava-a tão rica e variada que não hesitava em colocá-la em nível igual ao da mitologia grega.

nocoes1A mitologia gaulesa deixou alguns traços tangíveis, embora enigmáticos, em obras de arte figurativa de que a maior parte, infelizmene, é bastante tardia. Uma das mais antigas encontra-se numa bainha de espada do período halstattiano que representa uma expedição guerreira e em cuja extremidade dois personagens fazem girar uma roda tão alta quanto eles. Outras bainhas com relevos, provenientes de Cernon-sur-Coole (departamento de Marne, no nordeste da França), por exemplo, ou joias, como as de Erstfeld, na Suíça, mostram animais fantásticos ou seres semi-humanos com rostos ameaçadores, comumente devorando uns aos outros e aparentemente surgindo ou afundando em meio a um entrelaçado vegetal. As obras tardias, sendo mais realistas, demonstram mais sua relação com os relatos míticos cujas cenas principais talvez representem. O mais célebre de tais objetos é, evidentemente, o caldeirão de Gundestrup, composto de treze placas com relevos. As cinco placas que formam a borda interior representam verdadeiras cenas que, apesar de enigmáticas, permitem discernir elementos recorrentes da mitologia céltica: o personagem agachado, as galhadas de cervo, o torque, a serpente. Diversas situações parecem reportar-se diretamente a histórias ou lendas: um homem combate uma espécie de grifo ereto, um personagem agachado e coroado com uma galhada de cervo segura uma serpente em uma mão, outro indivíduo cavalga um golfinho, um gigante parece mergulhar um homem de cabeça para baixo no que parece ser uma banheira ou caldeirão.

nocoes2O pilar chamado “dos Marinheiros” (Pilier des Nautes), cujos blocos foram descobertos no coro da catedral de Notre-Dame de Paris, ainda que datados do começo da era cristã, mostram ao menos duas cenas da mitologia gaulesa onde a relação com as divindades é, nesse caso, claramente estabelecida, uma vez que, na face de cada um dos blocos, indica-se o nome da divindade representada. Sobre o primeiro, que traz o nome Esus, vê-se um homem de perfil no ato de podar uma árvore. Essa cena pode ter sido um tema comum, pois reaparece de forma muito semelhante, numa estela descoberta em Trèves. A segunda cena traz a inscrição gaulesa TARVOS TRIGARANVS, ou seja, “touro com as três garças”, e mostra uma árvore diante da qual se vê um touro de perfil em cujo dorso pousam três garças que se misturam à folhagem da árvore, como se a imagem esculpida tentasse explicar o nome da divindade.

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Outros vestígios da mitologia gaulesa foram descobertos onde não se esperaria: na própria mitologia romana. Graças a George Dumézil, sabe-se que o historiador Titus Liuius enriqueceu a história obscura dos primeiros séculos de Roma com a ajuda de relatos lendários que eram, na verdade, verdadeiros mitos. Encontram-se entre eles temas tipicamente gauleses que foram reintepretados. Assim é que, na batalha de Sentinum (295 a. C., Terceira Guerra Samnita), exatamente antes do confronto, Titus Liuius narra o aparecimento de uma corça perseguida por um lobo (Ab Vrbe Condita Libri, X, 27):

Tertio die descensum in campum omnibus copiis est. Cum instructae acies starent, cerua fugiens lupum e montibus exacta per campos inter duas acies decurrit; inde diuersae ferae, cerua ad Gallos, lupus ad Romanos cursum deflexit. Lupo data inter ordines uia; ceruam Galli confixere. Tum ex antesignanis Romanus miles “illac fuga” inquit “et caedes uertit, ubi sacram Dianae feram iacentem uidetis; hinc uictor Martius lupus, integer et intactus, gentis nos Martiae et conditoris nostri admonuit.”

“No terceiro dia, todas as tropas desceram à planície. Enquanto os exércitos esperavam imóveis em ordem de batalha, uma corça, caçada por um lobo das montanhas, correu atravessando a planície por entre os dois exércitos; os animais, então, tomando diferentes direções, a corça em direção ao gauleses, o lobo rumo aos romanos virou seu curso, que para ele abriram caminho; os gauleses mataram a corça, ante o que um dos soldados romanos disse: ‘Para aquele lado, onde vedes um animal sagrado a Diana jazer abatido, fuga e matança caberão; neste lado, o lobo vitorioso de Marte, seguro e incólume, lembra-nos de nosso fundador e de nossa descendência daquela divindade.’”

É fácil reconhecer a loba, animal totêmico de Roma, e concluir, por analogia, que a corça era sagrada aos gauleses.

Outro episódio ainda mais famoso mostra não apenas o influxo do mito sobre a história, mas também o desvio da figura mitológica gaulesa ao serviço da causa romana. O corvo que vem salvar o jovem tribuno Valerius ao atacar com o bico o gigante gaulês que o enfrenta é a própria personificação da vitória (Titus Liuis, Periochae, VII, 10; o relato situa-se no ano no ano 403 a. C., que corresponde a 350 da fundação de Roma):

M. Valerius tribunus militum Gallum, a quo provocatus erat, insidente galeae corvo et unguibus rostroque hostem infestante occidit et ex eo Corvi nomen accepit, consulque proximo anno, cum annos XXIII haberet, ob virtutem creatus est.

“O tribuno militar Marcus Valerius matou um gaulês por quem fora desafiado no momento em que um corvo empoleirou-se na crista [do seu elmo] e atacou o seu oponente com o bico e as patas; por essa razão, Marcus Valerius aceitou o sobrenome Coruus [‘corvo’]. Por causa de sua coragem, ele foi feito cônsul no ano seguinte, quando tinha vinte e três anos.”

Como último exemplo, cito o enfrentamento fantástico entre o general Lucius Posthumius Albinus e a tribo dos Boii, ocorrido na floresta chamada Litana (216 a. C., Gallia Cisalpina, norte da Itália), igualmente narado por Titus Liuis (Ab Vrbe Condita Libri, XXIII, 24):

Cum eae res maxime agerentur, noua clades nuntiata aliam super aliam cumulante in eum annum fortuna, L. Postumium consulem designatum in Gallia ipsum atque exercitum deletos. Silua erat uasta- Litanam Galli uocabant— qua exercitum traducturus erat. Eius siluae dextra laeuaque circa uiam Galli arbores ita inciderunt ut immotae starent, momento leui impulsae occiderent. Legiones duas Romanas habebat Postumius, sociumque ab supero mari tantum conscripserat ut uiginti quinque milia armatorum in agros hostium induxerit. Galli oram extremae siluae cum circumsedissent, ubi intrauit agmen saltum, tum extremas arborum succisarum impellunt; quae alia in aliam, instabilem per se ac male haerentem, incidentes ancipiti strage arma, uiros, equos obruerunt, ut uix decem homines effugerent. Nam cum exanimati plerique essent arborum truncis fragmentisque ramorum, ceteram multitudinem inopinato malo trepidam Galli saltum omnem armati circumsedentes interfecerunt paucis e tanto numero captis, qui pontem fluminis petentes obsesso ante ab hostibus ponte interclusi sunt. Ibi Postumius omni ui ne caperetur dimicans occubuit. Spolia corporis caputque praecisum ducis Boii ouantes templo quod sanctissimum est apud eos intulere. Purgato inde capite, ut mos iis est, caluam auro caelauere, idque sacrum uas iis erat quo sollemnibus libarent poculumque idem sacerdoti esset ac templi antistitibus. Praeda quoque haud minor Gallis quam uictoria fuit; nam etsi magna pars animalium strage siluae oppressa erat, tamen ceterae res, quia nihil dissipatum fuga est, stratae per omnem iacentis agminis ordinem inuentae sunt.

“Enquanto ativamente ocupado com tais questões, chegou-lhe conhecimento de um novo desastre – a sorte nesse ano amontoando uma calamidade sobre a outra -, a saber, que Lucius Posthumius, cônsul eleito, fora destruído com todo o seu exército na Gália. Ele teria que atravessar suas tropas por uma grande floresta que os gauleses chamavam Litana. À direita e à esquerda de seu caminho, os nativos tinham serrado as árvores de tal modo que estas continuassem em pé, mas caíssem quando empurradas pela menor força. Posthumius tinha consigo duas legiões romanas e recrutara, além disso, um tão grande número de aliados ao longo do Mar Adriático, que conduziu ao país do inimigo vinte e cinco mil homens. Assim que seu exército entrou na floresta, os gauleses, que se haviam posicionado em suas orlas mais externas, empurraram as árvores serradas mais externas que, caindo sobre as mais próximas e estas sobre as outras que permaneciam vacilando e quase não conseguiam ficar em pé, esmagaram armas, homens e cavalos de forma indiscriminada, de forma que quase nem dez homens conseguiram escapar. Muito deles, sendo, pois, mortos pelos troncos e pelos ramos quebrados das árvores, os gauleses que cercaram a floresta por todos os lados mataram todo o restante com armas, tomado de pânico por um desastre tão inesperado. Um número muito pequeno, que tentava escapar por uma ponte, foi aprisionado, sendo interceptado pelo inimigo que antes deles apossara-se dela. Ali Posthumius caiu, lutando com toda a sua força para não ser capturado. Os Boii cortaram sua cabeça, e carregaram-na e aos espólios que roubaram de seu corpo em triunfo ao mais sagrado templo que possuíam. Depois disso, limparam a cabeça de acordo com seu costume e, tendo coberto o crânio com ouro batido, usaram-no como cálice para libações em seus festivais solenes e taça de beber para seus altos sacerdotes e outros ministros do templo. Os espólios obtidos pelos gauleses não foram menores do que a vitória. Pois, embora um grande número de animais tenha sido esmagado pelas árvores que caíam e outras coisas se tenham dissipado na fuga, tudo o mais foi encontrado espalhado por toda a linha da tropa caída.”

Os detalhes mais ou menos realistas desse combate incomum lembram um tema mítico muito apreciado nas lendas célticas insulares, o da floresta guerreira.

O inverso igualmente é verdadeiro: a mitologia gaulesa toma de empréstimo ou divide com seus vizinhos os herois que considera ter viajado pela Gália. Diodoro Sículo relata que Hércules fundou a cidade de Alésia. De modo geral, atribuem-se a esse heroi grego todos os melhoramentos trazidos aos costumes bárbaros, a abolição dos sacrifícios humanos, a criação de estradas, o respeito aos estrangeiros, etc. O mesmo Diodoro também indica que os Argonautas teriam visitado as margens do Oceano, instalando nessa região o culto dos Dióscuros.

Esses exemplos um tanto heterogêneos confirmam a afirmação de Cornutus sobre a mitologia gaulesa. No entanto, a melhor prova da riqueza desta pode ainda hoje ser encontrada nas lendas irlandesas, que são descendentes distantes, separados por mil anos, dos mitos célticos que se difundiram extensamente nos últimos séculos anteriores à era cristã. Esses relatos, de uma variedade surpreendente, lembram não somente as epopeias de herois de tipo grego, tais como Cúchulainn, mas também todos os aspectos da vida quotidiana, das crenças, da história dos povos e dos reinos, o alcance imenso do saber confiado pelos celtas à mitologia.

Referências:

Vendryes, J. La Religion des Celtes.
Hatt, J.-J. Mythes e Dieux de la Gaule.
Brunaux, J.-L. Les Religions Gauloises.
Duval, P. M. Les Dieux de la Gaule.
Titus Liuius Patauinus. Ab Vrbe Condita Libri.

 

 

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Autor: Belloṷesus

Vicanti bledianon in sentu druuidon

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