Como o Táin Bó Cúailnge foi recuperado

Táin Bó CúailngeEm dias há muito passados, num tempo que já está muito lá atrás, Guaire, o rei de Connacht, organizou um grande encontro de poetas. O rei era famoso pela generosidade, porém esse encontro foi um teste para a sua benevolência; os poetas comeram e beberam absolutamente tudo o que viram. Eis que, mesmo nos tempos mais difíceis, a poesia foi considerada pelos irlandeses como um tesouro preciosíssimo; contudo, esses poetas tinham abusado da sua posição. Marban, o irmão do rei, aborrecido porque as exigências e o apetite dos convidados tinham consumido o seu porco favorito, decidiu lançá-los ao descrédito.

Ele declarou que a avó da esposa do seu servo era bisneta de um poeta. Mesmo com essa conexão distante com a arte, o servo mostrou saber mais do que todos os outros poetas. Fez-lhes perguntas e solicitou-lhes atuações que não puderam realizar. Por fim, desafiou-os: “Narrai o mais famoso e celebrado conto da Irlanda, o ‘Táin Bó Cúailnge’.” Houve um longo silêncio. Então, os poetas tiveram de admitir que ninguém dele sabia senão poucos fragmentos. A história se perdera.

O bardo-chefe, Senchán Torpeist, decidiu recuperar a narrativa e a honra dos poetas. O conto fora escrito e levado por um bardo para o continente. Um grupo dos seguidores de Senchán, incluindo Muirgen, seu filho, partiu para o leste, em busca do Táin desparecido. Viajaram até as proximidades do túmulo de Fergus mac Roich e da sua pedra, em Énloch de Connacht, embora não o soubessem.

Sozinho, enquanto os demais buscavam um lugar para pernoitar, Muirgen sentou-se recostado na pedra e percebeu as linhas nela cinzeladas. Ele pronunciou as letras ogâmicas e juntou fid com fid: “Pedra de Fergus mac Roich”. Muirgen cantou um poema para a pedra, como se estivesse falando com o próprio Fergus, heroi do Táin, e uma grande névoa ergueu-se ao seu redor. Quando os seus companheiros voltaram para buscá-lo, a bruma densa e gélida quase não permitia que respirassem na sua proximidade. Tentaram de algum modo alcançar o seu companheiro, mas, tomados de perplexidade, nada puderam fazer além de esperar longe da enregelante muralha de névoa.

Passados três dias, o nevoeiro recuou e Muirgen surgiu, tomado de grande alegria. Contou-lhes que Fergus Mac Roich lhe aparecera, trajando um manto verde sobre uma túnica vermelha e portando um grande espada com punho de bronze. O espírito de Fergus contara a Muirgen todo o relato do Táin, invocando ainda outros participantes há muito esquecidos como testemunhas.

O grupo de poetas voltou e uma multidão reuniu-se para ouvir a história. O salão real estava perfeitamente silencioso enquanto Muirgen conjurava os episódios do Táin. Todos puderam ouvir o brado guerreiro de Cúchulainn, sentir o cheiro do fogo da batalha e o aço frio das armas.

Esse conto sobrevive ainda hoje, posto por escrito pelos monges de Clonmacnoise, que suas almas recebam uma benção por isso.

Bellouesus /|\

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