Oração antes dos Estudos

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A recitação desta prece deve sempre anteceder o estudos, meditações e quaisquer práticas ligadas às atividades do Nemeton Belenī, por mais corriqueiras e banais que pareçam, e ser acompanhada pelo gesto da Aveleira.

Coll, a Aveleira, representa o Conhecimento e a Inspiração que devem ser buscados pelo estudante a cada momento. Faça do seu tempo de estudo uma oferenda aos Deuses, dedicada a refletir a respeito deles e honrá-los.

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Gaulês Antigo

Molātūs Dedmē Ollodagāi Krundyūi!

Ā Lugus, Ilukerdānon Magale,
Ā Belene, Andeu̯ātis U̯eri̯akkī,
Ā Brigindū, Mātīr Ouξamā Rou̯iđđous,
Ā Taranus, Bremī Nemomarkāke,
Ā Toutatis, Au̯ete Rii̯otātos Eξobne.
Bii̯etū sin su̯adū Komenonāi Dēu̯obok ollobo en Bitubi Tribi.

Gaulês Moderno

Mólath A Rhéith hOldhái In Olvithu!

Lúi, Maial Cerdhlé Élu
Bélen, Gwáth Már ach Gwir’iach
Brín, Máthir hUcham Gwísu Már
Taran, Marchis Nemeth en Gharghar
Tóthath, Diadhrethíath Riúas Echovn
O bí sin súadh a Wenvethan Dhéach ach a Dhéié ol en in Trí Bithúé

Tradução

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste de Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos (1).

Comentários

a) Lugus

Lugus, também chamado Lug ou Lugh (proto-céltico: *luco-, “lince/lobo” ou *leuk-, “claro, brilhante”), é um dos principais deuses da antiga religião dos povos célticos. Provavelmente, é a divindade que Iulius Caesar identificou ao romano Mercurius (o Hermes helênico). Seu culto foi difundido em todo o antigo mundo céltico, e o seu nome ocorre como elemento de muitos topônimos na Europa continental e nas Ilhas Britânicas, tais como Lyon, Laon, Leiden e Carlisle (antigamente Luguuallium, “Forte no deus Lugus”).

De acordo com a tradição irlandesa, Lug Lámfota (“Lug do Braço Longo”) foi o único sobrevivente de trigêmos com o mesmo nome. Pelo menos três dedicatórias a Lugus na forma plural, Lugoues, são conhecidas da Europa continental e a afinidade dos celtas com formas tríplices sugere que três deuses foram da mesma forma contemplados nessas dedicatórias. O filho de Lug, ou o próprio Lug renascido (de acordo com a crença irlandesa), foi o grande herói de Uladh, Cúchulainn (“Cão de Culann”).

Em Gales, como Lleu Llaw Gyffes (“Lleu da Mão Hábil”), acreditava-se também que ele tivera um nascimento estranho. Sua mãe era a deusa virgem Aranrot (2) (“Roda de Prata”). Quando o tio dela, o grande mágico Math, testou a sua virgindade por meio de uma vara mágica, ela em seguida deu à luz um menino que foi imediatamente levado por seu tio Gwydion e criado por ele. Aranrot então procurou repetidamente destruir o seu filho, mas sempre foi impedida pela magia poderosa de Gwydion; ela foi forçada a dar um nome ao menino e proporcionar-lhe armas; finalmente, como sua mãe lhe negasse uma esposa, Gwydion e Math criaram para Lleu uma mulher feita de flores.

Lug também era conhecido na tradição irlandesa como Samildánach (“hábil em todas as artes”). A variedade de seus atributos e a grandeza com que o seu festival, Lughnasadh (fixado a 1º. de agosto), era comemorado na Irlanda e na Grã-Bretanha indicam que Lugus é uma das mais poderosas e impressionantes de todas as antigas divindades célticas.

b) Belenos

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Primeiramente, apesar das associações do seu nome com o fogo ou o Sol, Belenos não era um deus solar. Na verdade, não há evidência de que o Sol tenha sido adorado como tal pelos celtas, ainda que o seu uso na iconografia religiosa fosse frequente. Mais de três dezenas de dedicatórias testemunham o culto a Belenos, um número incomumente elevado para uma religião notável pelo número e diversidade dos nomes e epítetos das suas deidades. O culto de Belenos foi praticado na Itália setentrional (Gália Cisalpina), Noricum (3), Alpes Orientais, Gália meridional e provavelmente na Grã-Bretanha.

Analisando a etimologia do nome de Belenos, o eminente Xavier Delamarre o traduz como “Senhor do Poder”:

belo-, bello-, “forte, poderoso”

Termos e tema frequente em NP [noms de personne, “nomes pessoais, teo-/antropônimos”]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, “nomes de rio, hidrônimos”] Bienne e Biel (Suíça) remontam a *Belenā. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade “solar”, levou a que essa designação fosse compreendida como “o luminoso, o brilhante”, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- “brilhar” (há um *ĝwelH- “queimar”, nicht ganz sicher [“não muito seguro”] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos “branco”, armênio bal “palidez”, sânscrito balâkâ “guindaste”, gótico bala “cinzento”, letão báltas, “branco”, eslavo antigo belo “id.”, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhēl- / *bhǝl- [*bheh1l- / *bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante “branco, cinzento, pálido”, porém não “brilhante”; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet “relâmpago”, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, “força, forte”: sânscrito bálîyân, “mais forte”, bálisthah “o mais forte” (= balisamo- com a divisão dialetal regular do sufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíōn, béltistos “melhor, mais” (por *belíōn, bélistos), latim dē-bilis “baixo”, eslavo antigo boljiji “maior”, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como “A Muito Poderosa” e não como “A Muito Brilhante”, Belinos “O Senhor do Poder” (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – “Forte e Bom” (4).

Embora não seja possível afirmá-lo com total certeza. Belenos é também a divindade associada ao festival gaélico chamado Beltane (5) (1º. de maio), tido como celebração da fertilidade, mas que era na realidade uma cerimônia de proteção realizada pelos druidas, como se entende deste trecho do Sanas Chormaic (6):

Belltaine .i. bil tene .i. tene soinmech .i. dáthene dognítis druidhe triathaircedlu (no cotinchetlaib) móraib combertis nacethrai arthedmannaib cacha bliadna cusnaténdtibsin [na margem esquerda: .[l]eictis nacethra etarru].

Belltaine, isto é, bil-tene, isto é, “fogo afortunado”, isto é, dois fogos que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos e eles costumavam trazer o gado como uma proteção contras doenças de cada ano a esses fogos [na margem esquerda: costumavam conduzir o gado entre eles.

Ligado à luz e ao poder de curar, Belenos é provavelmente o deus gaulês que Iulius Caesar identificou a Apolo, porém não o deus esteta dos helenos, o Apolo Muságeta (“condutor das musas”). Caesar explica a ideia que os gauleses faziam de Apolo: “Apolo afasta as doenças”. O Apolo gaulês é iátros (“médico”) e mântis (“adivinho”), o deus da cura e da profecia.

c) Brigindū

O que foi dito sobre Brigit nos Comentários ao Texto 2, letra “h” (7), pode ser extrapolado para Brigindū/Brigindonā/Brigantyā, porém com aspectos guerreiros mais pronunciados face à identificação com Victoria (a grega Nikē), personificação da vitória na guerra, em jogos atléticos e também sobre a morte, e Minerua (a grega Athēnā), deusa da sabedoria e protetora das artes (incluindo-se a magia, quando Brigindū passa a chamar-se Briχtā, “Magia, Encantamento”) e ofícios, do comércio e da estratégia.

d) Taranus/Taranis

O deus do trovão, adorado sobretudo na Gália, na Gallaecia (8), nas Ilhas Britânicas, na Renânia e no vale do Danúbio. O poeta romano Lucanus (9), na obra Pharsalia, citou Taranis como parte de uma tríade divina, cujos outros integrantes eram Esus e Toutatis.

Assim como o ciclope Brontes (“Trovão”) da mitologia grega, Taranis estava associado à roda. Iconograficamente, Taranis era representado em imagens provenientes da Gália como um homem barbado, carregando um raio numa das mãos e uma roda na outra. É claro o sincretismo com o deus romano Iuppiter.

O nome, tal como registrado por Lucanus, não possui atestação epigráfica, mas variantes, como Tanarus, Taranucno-, Taranuo- e Taraino- são conhecidas. Conforme informação prestado por Máksimos de Tyros (10) (Lógoi, “Discursos”, VIII, 8) o Zeus gaulês era adorado não sob a forma humana, mas como um carvalho: Κελτοὶ σέβὅσι μέν Δία, ἄγαλμα δὲ Διὸϛ Κελτὶκὸν ὑψηλὴ δρῦϛ (“os celtas sem dúvida adoram Zeus, porém honram-no sob a forma de um alto carvalho”).

e) Toutatis/Teutatis

“Deus da Tribo” (teuta/touta). Toutatis, como dito anteriormente, integra uma trindade de deuses mencionados pelo poeta romano Lucanus, juntamente a Esus e Taranus/Taranis. O comentador medieval de Lucanus (nos Commenta Bernensia [11] ) identifica Toutatis a Mercurius, Esus a Mars e Taranis a Dispater (Pluto). Caesar, no entanto, menciona (Commentarii de Bello Gallico, VI, 17) cinco deuses como sendo os mais importantes para os gauleses: Mercurius (Lugus, Lugh?), seguido de Apollo (Maponos, Esus, Belenos?), Mars (Toutatis?), Iuppiter (Taranis) e Minerua (Brigindu, Brigantia, Brigit?).

Considerando que são deuses de culturas diferentes, apresentando apenas certos traços em comum (o que teria permitido a aproximação), é difícil pretender uma identificação completa. Mesmo entre os deuses gregos e romanos havia discrepâncias.

O nome Toutatis deriva de *teutā (proto-céltico)/toutā (gaulês), “tribo, povo”, equivalente ao irlandês tuath, ao galês tud e origem do alemão Deutsch. Se correta a equivalência com Mars, Toutatis é um deus da guerra (protetor das fronteiras tribais) e da fertilidade (faz crescer as lavouras). Também pode ser um título para diferentes deuses tribais (cada tribo teria o seu Toutatis).

f) Komenonā

Divindade alegórica, é a personificação da Memória (12). Corresponde à grega Mnēmosýnē, deusa da memória e da lembrança, inventora da palavra e da linguagem, mãe das Musas.

Em uma cultura como a céltica, onde a transmissão do conhecimento se dava pela oralidade, Komenonā representa a qualidade fundamental para a preservação dos relatos históricos, das sagas dos heróis e dos mitos divinos. Desse modo, além de ser a Memória Divina, Komenonā é também a Senhora do Tempo e do Conhecimento.

g) Os Três Mundos, a Árvore do Mundo

Um dos conceitos mais importantes na mitologia pré-cristã indo-europeia (onde se inserem os celtas) era a “Árvore do Mundo” (13) (o carvalho ou alguma espécie de pinheiro). Os três níveis do Universo localizavam-se na árvore: o céu em sua copa, reino das divindades e corpos celestiais; o reino dos mortais em seu tronco; o reino dos mortos nas raízes. Esse era o eixo vertical da Árvore do Mundo.

O eixo vertical tinha seu paralelo na organização horizontal (ou geográfica) do mundo. O mundo dos deuses e mortais situava-se no centro da terra (considerada achatada), cercada pelo mar, além do qual se estendia a terra dos mortos, para onde as aves voavam no inverno e de onde retornavam na primavera. É importante observar que essa concepção encerrava a ideia de que uma massa de água devia ser atravessada para chegar-se ao reino dos mortos.

O eixo horizontal dividia-se nos quatro pontos cardeais, representando os quatro ventos principais. A Árvore do Mundo unia os dois eixos, o vertical (Mundo Superior, Médio e Inferior) e o horizontal (norte, leste, sul e oeste).

Cosmologias semelhantes podem ser encontradas entre outras culturas indo-europeias (como os germânicos e eslavos), possivelmente entre os celtas também. Mas, no caso destes, tal conclusão depende de analogia e interpretação, uma vez que não há nenhum testemunho direto endógeno (dos próprios celtas) ou exógeno (de outra cultura contemporânea) a respeito.

Textos medievais permitem entrever que, os irlandeses concebiam uma divisão tripla do Cosmo: Neamh (Céu), Talamh (Terra) e Mor (Mar) (14).

O Céu

Está associado aos corpos celestes: o Sol, a Lua, as estrelas. É o reino onde habitam os Deuses e Deusas e liga-se aos ciclos e padrões celestes. Os corpos celestes não eram considerados deidades em si mesmos, mas reflexos de tipos de poder associados a divindades específicas. Os fogos do Sol estavam associados à forja e à inspiração. O Céu traz prenúncios do futuro. O Espírito da Criação reside em Magh Mór (a Grande Planície ou Mundo Celeste), ou seja, Neamh (o Céu). Quatro maighne (planícies) são as suas divisões, isto é, …

1 Magh Findargat (Planície da Prata Brilhante), fonte de Luz e de Esperança;
2 Magh Mell (Planície das Delícias), nascedouro da Inspiração e da Criatividade;
3 Magh Iongnadh (Planície dos Milagres), abundante em Maravilhas e Espantos;
4 Sen Magh (Planície Antiga), sede das Origens e da Sabedoria.

A Terra

O mundo terrestre, ocupado pelos vivos, contém reflexos do Mundo Celeste e do Mundo Inferior. Essas influências podem ser imaginadas como três zonas (sendo três um número sagrado): a zona superior associada ao clima, ao voo dos pássaros, augúrios celestes e aos elementos e poderes do Ar, a zona intermediária divide-se nas Quatro Direções e Quadrantes cada um com seus Poderes e Guardiães) e a zona inferior, contendo as profundezas do mar, cavernas montes sepulcrais, colinas ocas e fontes sagradas. Essa zona é a morada dos Sídhe e dos Espíritos ligados aos Portais do Mundo Inferior. Para os celtas, as influências do Céu e do Mundo Inferior mesclavam-se em suas vidas sobre a Terra Média. O Espírito do Ser reside em Bith (Mundo), isto é, Mide (o Mundo Médio), ou seja, Talamh cé (“esta Terra”). Quatro arda (direções) são as suas divisões, isto é, …

1 Airthis (leste), fonte de Prosperidade (Bláth) e Mudança;
2 Teissus (sul), nascedouro de Música (Séiss) e Poesia;
3 Íaruss (oeste) abundante em Conhecimento (Fis) e Magia;
4 Tuadus (norte), sede da Batalha (Cath) e da Determinação.

O Mar

O Mundo Inferior é o reino dos Ancestrais e de Divindades ligadas ao mistério da vida surgindo da morte. O Espírito dos Ancestrais reside em Tír Andomain (o Mundo Inferior), ou seja, Mor (o Mar). Quatro tíortha (territórios) são as suas divisões, isto é, …

1 Tír na mBeo (Terra dos Vivos), fonte de Eternidade e Conhecimento Antigo;
2 Tír na mBan (Terra das Mulheres), nascedouro de Beleza e Prazer;
3 Tír fo Thuinn (Terra sob as Ondas), abundante em Temor e Percepção;
4 Tír na nÓg (Terra da Juventude), sede dos Anseios e da Renovação.

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Bilí (“árvores sagradas” em irlandês antigo, bile no singular) eram grandes árvores associadas a locais onde ocorriam as cerimônias de entronização dos reis irlandeses, sendo elas próprias simbólicas da autoridade do monarca, uma vez que de seus ramos provavelmente era cortada a slat na righe (“bastão da realeza”) durante a sagração do rei.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Notas:

1) Áudio disponível em <https://soundcloud.com/user197250276/oracao-antes-dos-estudos>. Acesso em 22 dez. 2015.

2) “Roda de Prata” é a tradução mais comum do nome Arianrhod. A grafia antiga do nome, usada acima (Aranrot), mostra que se trata de uma hipótese equivocada, pois arian(t), “prata”, não é o elemento que se acha no nome da mãe de Lleu, e sim aran, que se traduz deste modo: “Aran, s. f. – pl. t. au (ar) A high place; alp. It is the name of several of the highest mountains in Britain” (Owen, William. A Dictionary of the Welsh Language, Explained in English. Londres, 1803, v. I, p. 279). Portanto, aran rot é “montanha da roda ou monte circular/redondo” e não “roda de prata” (arian rhod).

3) Província romana que incluía a Áustria e parte da Eslovênia modernas.

4) Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

5) Lá Bealtaine (gaélico irlandês), Là Bealltainn (gaélico escocês), Laa Boaltinn/Boaldyn (manês) e ainda Beltaine e Beltine.

6) Sanas Chormaic (“Narrativa/Glossário de Cormac”), atribuído a Cormac Ua Cuileannáin (séc. X), bispo e rei de Caisel (Cashel, Co. Tipperary), é um glossário irlandês antigo que explica as etimologias de mais de 1.400 palavras que, na época de sua composição, já estavam obsoletas ou eram de difícil interpretação.

7) O texto em questão é o seguinte:

Brigit .i. banfile ingen inDagdai. iseiside Brigit baneceas (no be neicsi) .i. Brigit bandee noadradís filid. arba romor 7 baroán afrithgnam. isairesin ideo eam (deam) vocant poetarum hoc nomine cujus sorores erant Brigit be legis Brigit bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena inDagdai insin. de quarum nominibus pene omnes Hibernenses dea Brigit vocabatur. Brigit din .i. breo-aigit no breo-shaigit.

Brigit isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Essa é Brigit, a sábia [mulher da sabedoria], isto é, Brigit, a deusa a quem os poetas adoravam, pois muito grande e muito famosa era a proteção que concedia. Assim, é por essa razão que chamam sua deusa dos poetas por esse nome, cujas três irmãs eram Brigit, a médica [mulher da arte da cura], Brigit, a ferreira [mulher da forja], de cujos nomes todos os irlandeses denominavam uma deusa Brigit. Brigit, breo-aigit ou breo-shaigit [“seta flamejante”].

Seu nome é grafado de várias formas: Brigid, Brighid, Bríg, Bride. Como indica o texto acima, Brigit é uma deusa da poesia, da metalurgia e da arte de curar (baneceas, be legis, bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in Dagdai, “mulher da sabedoria, mulher da cura, mulher da forja, isto é, uma deusa, ou seja, três filhas do Dagda”, bandee noadradís filid, “deusa a quem os poetas adoravam”). A forma do nome em proto-céltico seria *Briganti, significando “A Sublime”, “A Enaltecida”, “A Elevada”, derivada do adjetivo indo-europeu *bhergh, “alto”. É equivalente à Brigantia romano-céltica, deusa tutelar da federação de tribos conhecida como Brigantes, que dominou o norte da atual Inglaterra e foi identificada a Victoria Caelestis e Minerua. Na Gália, seu nome era Brigindo ou Brigandu. No conto “A Segunda Batalha de Mag Tuired”, Brigit é a esposa de Bres mac Elathan, o rei meio fomoir que veio a governar as Tuatha Dé e acabou deposto em razão de sua mesquinhez. O casal teve um filho, Ruadán, que, combatendo pelos Fomoirí, foi morto ao tentar matar o deus ferreiro Goibniu. O lamento de Brigit por seu filho teria sido o primeiro keening ouvido na Irlanda. O festival chamado Imbolc (1o. de fevereiro), que celebra a estação do nascimento e do aleitamento dos cordeiros, está associado a Brigit em seu papel como deusa da fertilidade. Ela se liga também ao fogo, tanto em sentido concreto (o fogo da lareira) como metafórico (o fogo da inspiração). Brigit era a deusa tutelar dos Laighin, o grupo de tribos que deu nome ao Cúige Laighean e é nessa região que a “Geografia” de Ptolomeu situou os Brigantes da Irlanda. Santa Brighid, importantíssima santa irlandesa (chamada “mãe adotiva de Cristo” e “Maria dos gaélicos”), parece ter herdado muitos atributos da antiga deusa: o mesmo nome; celebração no mesmo dia; ambas padroeiras dos poetas, ferreiros e curadores, ambas ligadas a aspectos da fertilidade e da agricultura (Santa Brighid é protetora do gado e suas vacas produziam enormes quantidades de leite), além de uma forte ligação com o fogo.

8) Gallaecia ou Callaecia em latim (Galécia em português) é o nome da região localizada no noroeste da antiga Hispania romana, território que corresponde aproximadamente ao da moderna região norte de Portugal, somado à Galícia, Astúrias e Leão na Espanha.

9) Marcus Annaeus Lucanus, poeta romano (03/11/39 – 30/04/65 d. C.).

10) Máksimos de Tyros, retórico e filósofo grego, viveu na época dos Antoninos e do imperador Commodus (fim do séc. II d. C.).

11) Também conhecidos como “Escólios de Berna”, são comentários ou notas escritos nas margens de um manuscrito do séc. X preservado na Burgerbibliothek de Berna, Suíça. Esses comentários relacionam-se a textos latinos clássicos, incluindo o De Bello Ciuili (Lucanus), as Eclogae e os Georgicā (Vergilius). O comentário elabora uma referência de Lucanus aos sacrifícios humanos realizados pelos druidas a Toutatis (Mercurius), Esus (Mars) e Taranis (Iuppiter), explicando que as vítimas de Toutatis eram afogadas num caldeirão (cena que pode ser vista no “Caldeirão de Gundestrup”), ao passo que as vítimas de Esus eram enforcadas numa árvore e as de Taranis, queimadas.

12) Galo-britônico koman, komenos (subst. neutro de tema em nasal), cf. irlandês antigo cuimne, irlandês moderno cuimhne, galês cof, córnico kov, bretão koun.

13) Prennon Bitous (gaulês antigo), Pren in Bithu (gaulês moderno).

14) Esta é um interpretação altamente especulativa.

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