Arquivo mensal: outubro 2016

Encantamento contra Enfermidades

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bonfire

Prepare-se da forma costumeira. Comece quando sentir que está pronto.

Belenos da longa cabeleira,
Belenos que tudo prevê,
Belenos da lança prateada,
Belenos dos corvos,
Belenos dos belos cabelos,
Belenos possuidor da décima parte,
Belenos diante de quem todos são iguais,
Belenos dos presságios divinos,
Belenos afastador do mal.

Belenos Iluminado, abre-me o caminho! (Libação de água)

Belenos dador de saúde,
Belenos brilhante,
Belenos nascido da luz,
Belenos protetor dos pastores,
Belenos caçador,
Belenos das boas profecias,
Belenos guia do destino,
Belenos comandante,
Belenos auxiliador.

Belenos Iluminado, abre-me o caminho! (Libação de mel)

Fogueira

Tradicionalmente, este encanto se faz com madeira de carvalho.

Acenda a fogueira.

Você vai amarrar um fio roxo de material natural (como lã ou algodão) ao redor da pessoa ou de uma imagem consagrada dela ou de um objeto que tenha estado em contato próximo com ela durante certo tempo. Dê um nó e diga: Eu te amarro para a cura. Desamarre o nó e lance-o ao fogo, dizendo: Ao fogo lanço este mal para que seja consumido como este fio é consumido. Que desapareça na fumaça!

Quando a maior parte da madeira estiver reduzida a pedaços brilhantes de carvão em brasa, apanhe um cuidadosamente com um par de pinças ou uma pá e atire-o imediatamente num riacho ou num pote de água fria. Ele irá chiar e estalar. Enquanto isso, visualize o mal que deixa o corpo da pessoa afetada. Repita a operação mais três vezes.

Bellouesus /|\

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Meu Bastão

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meusbastao

Pois bem, este é o meu bastão. Aliás, é o bastão que fiz especificamente para ser usado no procedimento divinatório que será futuramente examinado, o que todos devem fazer, quer já possuam um bastão ritual ou não. Logo, a pergunta “Já tenho isso; preciso fazer outro?” já está respondida. Sim, você precisa.

O comprimento segue a indicação clássica: do cotovelo à ponta do dedo médio do usuário. Um bastão ritual pode ter qualquer comprimento, porém esse é tido como o ideal. Como diz um colega, “você vai usar um bastão ritual, não um poste”.

Ele foi lixado até ficar com a superfície perfeitamente suave, mas essa é a minha preferência pessoal. Se você quiser manter a casca, tudo bem. A tinta é acrílica para madeira, aplicada com um pincel bem fino.

Os caracteres são os do alfabeto grego, usado pelos gauleses antes da adoção do alfabeto romano. Todas as letras do alfabeto grego eram usadas para escrever em gaulês, exceto phi (Φ) e psi (Ψ). O sigma (Σ) tinha uma forma semelhante a um C (sigma lunar), enquanto o ômega (Ω) mostrava a forma que hoje corresponde à minúscula (ω).

gregouncial

Peças célticas com letras gregas formando inscrições aparentemente sem sentido foram encontradas na Europa Oriental, apontando para o uso oracular ou talismânico dos caracteres. Além disso, qualquer alfabeto, por si mesmo, é algo mágico. Seus sinais simples registram a voz e fixam o pensamento, ambos imateriais, conservando para quem souber interpretá-los até mesmo os pensamentos de pessoas há muito desaparecidas.

Assim, o alfabeto é um exemplo familiar de “magia natural” (tão familiar que deixamos de pensar nele como “magia”) e foi a minha escolha para este bastão. Mas não precisa ser a sua.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Rito Divinatório

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omago

O estudo de qualquer tema examinado no Nemeton Beleni deve ser precedido pela Oração antes dos Estudos, inclusive este que você agora está lendo. Portanto, pare e recite a oração.

O uso de qualquer ferramenta divinatória pela sistemática adotada pelo Nemeton Beleni abrange necessariamente os seguintes passos:

1o. A Primeira Invocação
2o. Runā antes da Oração
3o. A Invocação do Iluminador
4o. 5 Divinação propriamente dita conforme o método escolhido.

Pela leitura de “A Invocação do Iluminador”, você terá compreendido que a divinação ocorre dentro dela. Quando a ferramenta divinatória possuir um rito próprio, este será realizado dentro do rito divinatório geral (Invocação do Iluminador), “aninhado” dentro dele como uma matriosca dentro da outra.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Oração antes dos Estudos

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A recitação desta prece deve sempre anteceder o estudos, meditações e quaisquer práticas ligadas às atividades do Nemeton Belenī, por mais corriqueiras e banais que pareçam, e ser acompanhada pelo gesto da Aveleira.

Coll, a Aveleira, representa o Conhecimento e a Inspiração que devem ser buscados pelo estudante a cada momento. Faça do seu tempo de estudo uma oferenda aos Deuses, dedicada a refletir a respeito deles e honrá-los.

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Gaulês Antigo

Molātūs Dedmē Ollodagāi Krundyūi!

Ā Lugus, Ilukerdānon Magale,
Ā Belene, Andeu̯ātis U̯eri̯akkī,
Ā Brigindū, Mātīr Ouξamā Rou̯iđđous,
Ā Taranus, Bremī Nemomarkāke,
Ā Toutatis, Au̯ete Rii̯otātos Eξobne.
Bii̯etū sin su̯adū Komenonāi Dēu̯obok ollobo en Bitubi Tribi.

Gaulês Moderno

Mólath A Rhéith hOldhái In Olvithu!

Lúi, Maial Cerdhlé Élu
Bélen, Gwáth Már ach Gwir’iach
Brín, Máthir hUcham Gwísu Már
Taran, Marchis Nemeth en Gharghar
Tóthath, Diadhrethíath Riúas Echovn
O bí sin súadh a Wenvethan Dhéach ach a Dhéié ol en in Trí Bithúé

Tradução

Louvor à Lei Perfeita do Universo!

Ó Lugus, Príncipe das Múltiplas Artes,
Ó Belenos, Grande Profeta e Curador,
Ó Brigindū, Mãe Nobilíssima do Grande Conhecimento,
Ó Taranus, Cavaleiro Celeste de Voz Potente,
Ó Toutatis, Defensor Valente da Liberdade.
Que isto seja agradável à Memória Divina e a todos os Deuses nos Três Mundos (1).

Comentários

a) Lugus

Lugus, também chamado Lug ou Lugh (proto-céltico: *luco-, “lince/lobo” ou *leuk-, “claro, brilhante”), é um dos principais deuses da antiga religião dos povos célticos. Provavelmente, é a divindade que Iulius Caesar identificou ao romano Mercurius (o Hermes helênico). Seu culto foi difundido em todo o antigo mundo céltico, e o seu nome ocorre como elemento de muitos topônimos na Europa continental e nas Ilhas Britânicas, tais como Lyon, Laon, Leiden e Carlisle (antigamente Luguuallium, “Forte no deus Lugus”).

De acordo com a tradição irlandesa, Lug Lámfota (“Lug do Braço Longo”) foi o único sobrevivente de trigêmos com o mesmo nome. Pelo menos três dedicatórias a Lugus na forma plural, Lugoues, são conhecidas da Europa continental e a afinidade dos celtas com formas tríplices sugere que três deuses foram da mesma forma contemplados nessas dedicatórias. O filho de Lug, ou o próprio Lug renascido (de acordo com a crença irlandesa), foi o grande herói de Uladh, Cúchulainn (“Cão de Culann”).

Em Gales, como Lleu Llaw Gyffes (“Lleu da Mão Hábil”), acreditava-se também que ele tivera um nascimento estranho. Sua mãe era a deusa virgem Aranrot (2) (“Roda de Prata”). Quando o tio dela, o grande mágico Math, testou a sua virgindade por meio de uma vara mágica, ela em seguida deu à luz um menino que foi imediatamente levado por seu tio Gwydion e criado por ele. Aranrot então procurou repetidamente destruir o seu filho, mas sempre foi impedida pela magia poderosa de Gwydion; ela foi forçada a dar um nome ao menino e proporcionar-lhe armas; finalmente, como sua mãe lhe negasse uma esposa, Gwydion e Math criaram para Lleu uma mulher feita de flores.

Lug também era conhecido na tradição irlandesa como Samildánach (“hábil em todas as artes”). A variedade de seus atributos e a grandeza com que o seu festival, Lughnasadh (fixado a 1º. de agosto), era comemorado na Irlanda e na Grã-Bretanha indicam que Lugus é uma das mais poderosas e impressionantes de todas as antigas divindades célticas.

b) Belenos

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Primeiramente, apesar das associações do seu nome com o fogo ou o Sol, Belenos não era um deus solar. Na verdade, não há evidência de que o Sol tenha sido adorado como tal pelos celtas, ainda que o seu uso na iconografia religiosa fosse frequente. Mais de três dezenas de dedicatórias testemunham o culto a Belenos, um número incomumente elevado para uma religião notável pelo número e diversidade dos nomes e epítetos das suas deidades. O culto de Belenos foi praticado na Itália setentrional (Gália Cisalpina), Noricum (3), Alpes Orientais, Gália meridional e provavelmente na Grã-Bretanha.

Analisando a etimologia do nome de Belenos, o eminente Xavier Delamarre o traduz como “Senhor do Poder”:

belo-, bello-, “forte, poderoso”

Termos e tema frequente em NP [noms de personne, “nomes pessoais, teo-/antropônimos”]: Belinos, Belinicos, Belisama, Bellus, Bellona, Bello-gnati, Bello-rix, Bello-uacus, Bello-uaedius, Bello-uesus, H1 384-95, KGP 147, RDG 28. Os NR [noms de rivière, “nomes de rio, hidrônimos”] Bienne e Biel (Suíça) remontam a *Belenā. A forma Belisama mostra que se relaciona a um superlativo de um tema belo- ou beli-, do qual bello- seria a forma hipocorística. O fato de que Belenos seria, segundo a interpretação romana, o Apolo gaulês, divindade “solar”, levou a que essa designação fosse compreendida como “o luminoso, o brilhante”, cf., p. ex., de Vries 45: “O Apolo gaulês, possui, igualmente, estreitas ligações com o sol; seu epíteto Belenus seria o bastante para indicá-lo”. Faz-se a seguinte interpretação etimológica pelas raízes i.-e. [indo-europeias] imaginárias *gwel- “brilhar” (há um *ĝwelH- “queimar”, nicht ganz sicher [“não muito seguro”] no LIV 151, sânscrito jválati) ou o incerto *bhal: grego phálos “branco”, armênio bal “palidez”, sânscrito balâkâ “guindaste”, gótico bala “cinzento”, letão báltas, “branco”, eslavo antigo belo “id.”, que pressupõem, em todo caso, uma raiz *bhēl- / *bhǝl- [*bheh1l- / *bhh1l-] ou, graças à magia das “laringeais” com metátese *bhelH- (Stübr 120), mas não *bhel-; portanto, a raiz significa de modo constante “branco, cinzento, pálido”, porém não “brilhante”; veja-se o apanhado de Pokorny IEW 118-19. O provençal belé, belet “relâmpago”, FEW 1, 322, não é o bastante para criar-se uma palavra gaulesa. Sem dúvida por causa da geminação, K. H. Schmidt, KGP 147, terá visto em bello- uma forma curta de belatu-, o que me parece muito improvável.

Como se deve partir de uma base belo- ou beli-, segundo implicam os derivados Belinos, Belisama, parece-me preferível, por razões estritamente linguísticas, aproximá-la da raiz belo-, “força, forte”: sânscrito bálîyân, “mais forte”, bálisthah “o mais forte” (= balisamo- com a divisão dialetal regular do sufixo do superlativo, Porzig 99), grego beltíōn, béltistos “melhor, mais” (por *belíōn, bélistos), latim dē-bilis “baixo”, eslavo antigo boljiji “maior”, IEW 96, palavra que em geral serve para assegurar a existência do fonema b- em indo-europeu, Mayrhofer Idg. Gramm. I/2, 99. Assim, a designação Belisama deve ser compreendida como “A Muito Poderosa” e não como “A Muito Brilhante”, Belinos “O Senhor do Poder” (Bellona é, entre os Insubrii e os Scordisci, uma deusa da guerra, A. Reinach RC 34 [1913], 255, teônimo latino?) e Bello-uesus seria um composto dvandva + ou – “Forte e Bom” (4).

Embora não seja possível afirmá-lo com total certeza. Belenos é também a divindade associada ao festival gaélico chamado Beltane (5) (1º. de maio), tido como celebração da fertilidade, mas que era na realidade uma cerimônia de proteção realizada pelos druidas, como se entende deste trecho do Sanas Chormaic (6):

Belltaine .i. bil tene .i. tene soinmech .i. dáthene dognítis druidhe triathaircedlu (no cotinchetlaib) móraib combertis nacethrai arthedmannaib cacha bliadna cusnaténdtibsin [na margem esquerda: .[l]eictis nacethra etarru].

Belltaine, isto é, bil-tene, isto é, “fogo afortunado”, isto é, dois fogos que os druidas costumavam fazer com grandes encantamentos e eles costumavam trazer o gado como uma proteção contras doenças de cada ano a esses fogos [na margem esquerda: costumavam conduzir o gado entre eles.

Ligado à luz e ao poder de curar, Belenos é provavelmente o deus gaulês que Iulius Caesar identificou a Apolo, porém não o deus esteta dos helenos, o Apolo Muságeta (“condutor das musas”). Caesar explica a ideia que os gauleses faziam de Apolo: “Apolo afasta as doenças”. O Apolo gaulês é iátros (“médico”) e mântis (“adivinho”), o deus da cura e da profecia.

c) Brigindū

O que foi dito sobre Brigit nos Comentários ao Texto 2, letra “h” (7), pode ser extrapolado para Brigindū/Brigindonā/Brigantyā, porém com aspectos guerreiros mais pronunciados face à identificação com Victoria (a grega Nikē), personificação da vitória na guerra, em jogos atléticos e também sobre a morte, e Minerua (a grega Athēnā), deusa da sabedoria e protetora das artes (incluindo-se a magia, quando Brigindū passa a chamar-se Briχtā, “Magia, Encantamento”) e ofícios, do comércio e da estratégia.

d) Taranus/Taranis

O deus do trovão, adorado sobretudo na Gália, na Gallaecia (8), nas Ilhas Britânicas, na Renânia e no vale do Danúbio. O poeta romano Lucanus (9), na obra Pharsalia, citou Taranis como parte de uma tríade divina, cujos outros integrantes eram Esus e Toutatis.

Assim como o ciclope Brontes (“Trovão”) da mitologia grega, Taranis estava associado à roda. Iconograficamente, Taranis era representado em imagens provenientes da Gália como um homem barbado, carregando um raio numa das mãos e uma roda na outra. É claro o sincretismo com o deus romano Iuppiter.

O nome, tal como registrado por Lucanus, não possui atestação epigráfica, mas variantes, como Tanarus, Taranucno-, Taranuo- e Taraino- são conhecidas. Conforme informação prestado por Máksimos de Tyros (10) (Lógoi, “Discursos”, VIII, 8) o Zeus gaulês era adorado não sob a forma humana, mas como um carvalho: Κελτοὶ σέβὅσι μέν Δία, ἄγαλμα δὲ Διὸϛ Κελτὶκὸν ὑψηλὴ δρῦϛ (“os celtas sem dúvida adoram Zeus, porém honram-no sob a forma de um alto carvalho”).

e) Toutatis/Teutatis

“Deus da Tribo” (teuta/touta). Toutatis, como dito anteriormente, integra uma trindade de deuses mencionados pelo poeta romano Lucanus, juntamente a Esus e Taranus/Taranis. O comentador medieval de Lucanus (nos Commenta Bernensia [11] ) identifica Toutatis a Mercurius, Esus a Mars e Taranis a Dispater (Pluto). Caesar, no entanto, menciona (Commentarii de Bello Gallico, VI, 17) cinco deuses como sendo os mais importantes para os gauleses: Mercurius (Lugus, Lugh?), seguido de Apollo (Maponos, Esus, Belenos?), Mars (Toutatis?), Iuppiter (Taranis) e Minerua (Brigindu, Brigantia, Brigit?).

Considerando que são deuses de culturas diferentes, apresentando apenas certos traços em comum (o que teria permitido a aproximação), é difícil pretender uma identificação completa. Mesmo entre os deuses gregos e romanos havia discrepâncias.

O nome Toutatis deriva de *teutā (proto-céltico)/toutā (gaulês), “tribo, povo”, equivalente ao irlandês tuath, ao galês tud e origem do alemão Deutsch. Se correta a equivalência com Mars, Toutatis é um deus da guerra (protetor das fronteiras tribais) e da fertilidade (faz crescer as lavouras). Também pode ser um título para diferentes deuses tribais (cada tribo teria o seu Toutatis).

f) Komenonā

Divindade alegórica, é a personificação da Memória (12). Corresponde à grega Mnēmosýnē, deusa da memória e da lembrança, inventora da palavra e da linguagem, mãe das Musas.

Em uma cultura como a céltica, onde a transmissão do conhecimento se dava pela oralidade, Komenonā representa a qualidade fundamental para a preservação dos relatos históricos, das sagas dos heróis e dos mitos divinos. Desse modo, além de ser a Memória Divina, Komenonā é também a Senhora do Tempo e do Conhecimento.

g) Os Três Mundos, a Árvore do Mundo

Um dos conceitos mais importantes na mitologia pré-cristã indo-europeia (onde se inserem os celtas) era a “Árvore do Mundo” (13) (o carvalho ou alguma espécie de pinheiro). Os três níveis do Universo localizavam-se na árvore: o céu em sua copa, reino das divindades e corpos celestiais; o reino dos mortais em seu tronco; o reino dos mortos nas raízes. Esse era o eixo vertical da Árvore do Mundo.

O eixo vertical tinha seu paralelo na organização horizontal (ou geográfica) do mundo. O mundo dos deuses e mortais situava-se no centro da terra (considerada achatada), cercada pelo mar, além do qual se estendia a terra dos mortos, para onde as aves voavam no inverno e de onde retornavam na primavera. É importante observar que essa concepção encerrava a ideia de que uma massa de água devia ser atravessada para chegar-se ao reino dos mortos.

O eixo horizontal dividia-se nos quatro pontos cardeais, representando os quatro ventos principais. A Árvore do Mundo unia os dois eixos, o vertical (Mundo Superior, Médio e Inferior) e o horizontal (norte, leste, sul e oeste).

Cosmologias semelhantes podem ser encontradas entre outras culturas indo-europeias (como os germânicos e eslavos), possivelmente entre os celtas também. Mas, no caso destes, tal conclusão depende de analogia e interpretação, uma vez que não há nenhum testemunho direto endógeno (dos próprios celtas) ou exógeno (de outra cultura contemporânea) a respeito.

Textos medievais permitem entrever que, os irlandeses concebiam uma divisão tripla do Cosmo: Neamh (Céu), Talamh (Terra) e Mor (Mar) (14).

O Céu

Está associado aos corpos celestes: o Sol, a Lua, as estrelas. É o reino onde habitam os Deuses e Deusas e liga-se aos ciclos e padrões celestes. Os corpos celestes não eram considerados deidades em si mesmos, mas reflexos de tipos de poder associados a divindades específicas. Os fogos do Sol estavam associados à forja e à inspiração. O Céu traz prenúncios do futuro. O Espírito da Criação reside em Magh Mór (a Grande Planície ou Mundo Celeste), ou seja, Neamh (o Céu). Quatro maighne (planícies) são as suas divisões, isto é, …

1 Magh Findargat (Planície da Prata Brilhante), fonte de Luz e de Esperança;
2 Magh Mell (Planície das Delícias), nascedouro da Inspiração e da Criatividade;
3 Magh Iongnadh (Planície dos Milagres), abundante em Maravilhas e Espantos;
4 Sen Magh (Planície Antiga), sede das Origens e da Sabedoria.

A Terra

O mundo terrestre, ocupado pelos vivos, contém reflexos do Mundo Celeste e do Mundo Inferior. Essas influências podem ser imaginadas como três zonas (sendo três um número sagrado): a zona superior associada ao clima, ao voo dos pássaros, augúrios celestes e aos elementos e poderes do Ar, a zona intermediária divide-se nas Quatro Direções e Quadrantes cada um com seus Poderes e Guardiães) e a zona inferior, contendo as profundezas do mar, cavernas montes sepulcrais, colinas ocas e fontes sagradas. Essa zona é a morada dos Sídhe e dos Espíritos ligados aos Portais do Mundo Inferior. Para os celtas, as influências do Céu e do Mundo Inferior mesclavam-se em suas vidas sobre a Terra Média. O Espírito do Ser reside em Bith (Mundo), isto é, Mide (o Mundo Médio), ou seja, Talamh cé (“esta Terra”). Quatro arda (direções) são as suas divisões, isto é, …

1 Airthis (leste), fonte de Prosperidade (Bláth) e Mudança;
2 Teissus (sul), nascedouro de Música (Séiss) e Poesia;
3 Íaruss (oeste) abundante em Conhecimento (Fis) e Magia;
4 Tuadus (norte), sede da Batalha (Cath) e da Determinação.

O Mar

O Mundo Inferior é o reino dos Ancestrais e de Divindades ligadas ao mistério da vida surgindo da morte. O Espírito dos Ancestrais reside em Tír Andomain (o Mundo Inferior), ou seja, Mor (o Mar). Quatro tíortha (territórios) são as suas divisões, isto é, …

1 Tír na mBeo (Terra dos Vivos), fonte de Eternidade e Conhecimento Antigo;
2 Tír na mBan (Terra das Mulheres), nascedouro de Beleza e Prazer;
3 Tír fo Thuinn (Terra sob as Ondas), abundante em Temor e Percepção;
4 Tír na nÓg (Terra da Juventude), sede dos Anseios e da Renovação.

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Bilí (“árvores sagradas” em irlandês antigo, bile no singular) eram grandes árvores associadas a locais onde ocorriam as cerimônias de entronização dos reis irlandeses, sendo elas próprias simbólicas da autoridade do monarca, uma vez que de seus ramos provavelmente era cortada a slat na righe (“bastão da realeza”) durante a sagração do rei.

Bellouesus /|\

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Notas:

1) Áudio disponível em <https://soundcloud.com/user197250276/oracao-antes-dos-estudos>. Acesso em 22 dez. 2015.

2) “Roda de Prata” é a tradução mais comum do nome Arianrhod. A grafia antiga do nome, usada acima (Aranrot), mostra que se trata de uma hipótese equivocada, pois arian(t), “prata”, não é o elemento que se acha no nome da mãe de Lleu, e sim aran, que se traduz deste modo: “Aran, s. f. – pl. t. au (ar) A high place; alp. It is the name of several of the highest mountains in Britain” (Owen, William. A Dictionary of the Welsh Language, Explained in English. Londres, 1803, v. I, p. 279). Portanto, aran rot é “montanha da roda ou monte circular/redondo” e não “roda de prata” (arian rhod).

3) Província romana que incluía a Áustria e parte da Eslovênia modernas.

4) Delamarre, Xavier. Dictionaire de la Langue Gauloise; une approche linguistique du vieux-celtique continental. 2 ed., Errance, Paris, 2003, p. 72.

5) Lá Bealtaine (gaélico irlandês), Là Bealltainn (gaélico escocês), Laa Boaltinn/Boaldyn (manês) e ainda Beltaine e Beltine.

6) Sanas Chormaic (“Narrativa/Glossário de Cormac”), atribuído a Cormac Ua Cuileannáin (séc. X), bispo e rei de Caisel (Cashel, Co. Tipperary), é um glossário irlandês antigo que explica as etimologias de mais de 1.400 palavras que, na época de sua composição, já estavam obsoletas ou eram de difícil interpretação.

7) O texto em questão é o seguinte:

Brigit .i. banfile ingen inDagdai. iseiside Brigit baneceas (no be neicsi) .i. Brigit bandee noadradís filid. arba romor 7 baroán afrithgnam. isairesin ideo eam (deam) vocant poetarum hoc nomine cujus sorores erant Brigit be legis Brigit bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena inDagdai insin. de quarum nominibus pene omnes Hibernenses dea Brigit vocabatur. Brigit din .i. breo-aigit no breo-shaigit.

Brigit isto é, uma poetisa, filha do Dagda. Essa é Brigit, a sábia [mulher da sabedoria], isto é, Brigit, a deusa a quem os poetas adoravam, pois muito grande e muito famosa era a proteção que concedia. Assim, é por essa razão que chamam sua deusa dos poetas por esse nome, cujas três irmãs eram Brigit, a médica [mulher da arte da cura], Brigit, a ferreira [mulher da forja], de cujos nomes todos os irlandeses denominavam uma deusa Brigit. Brigit, breo-aigit ou breo-shaigit [“seta flamejante”].

Seu nome é grafado de várias formas: Brigid, Brighid, Bríg, Bride. Como indica o texto acima, Brigit é uma deusa da poesia, da metalurgia e da arte de curar (baneceas, be legis, bé goibnechta .i. bandé .i. trihingena in Dagdai, “mulher da sabedoria, mulher da cura, mulher da forja, isto é, uma deusa, ou seja, três filhas do Dagda”, bandee noadradís filid, “deusa a quem os poetas adoravam”). A forma do nome em proto-céltico seria *Briganti, significando “A Sublime”, “A Enaltecida”, “A Elevada”, derivada do adjetivo indo-europeu *bhergh, “alto”. É equivalente à Brigantia romano-céltica, deusa tutelar da federação de tribos conhecida como Brigantes, que dominou o norte da atual Inglaterra e foi identificada a Victoria Caelestis e Minerua. Na Gália, seu nome era Brigindo ou Brigandu. No conto “A Segunda Batalha de Mag Tuired”, Brigit é a esposa de Bres mac Elathan, o rei meio fomoir que veio a governar as Tuatha Dé e acabou deposto em razão de sua mesquinhez. O casal teve um filho, Ruadán, que, combatendo pelos Fomoirí, foi morto ao tentar matar o deus ferreiro Goibniu. O lamento de Brigit por seu filho teria sido o primeiro keening ouvido na Irlanda. O festival chamado Imbolc (1o. de fevereiro), que celebra a estação do nascimento e do aleitamento dos cordeiros, está associado a Brigit em seu papel como deusa da fertilidade. Ela se liga também ao fogo, tanto em sentido concreto (o fogo da lareira) como metafórico (o fogo da inspiração). Brigit era a deusa tutelar dos Laighin, o grupo de tribos que deu nome ao Cúige Laighean e é nessa região que a “Geografia” de Ptolomeu situou os Brigantes da Irlanda. Santa Brighid, importantíssima santa irlandesa (chamada “mãe adotiva de Cristo” e “Maria dos gaélicos”), parece ter herdado muitos atributos da antiga deusa: o mesmo nome; celebração no mesmo dia; ambas padroeiras dos poetas, ferreiros e curadores, ambas ligadas a aspectos da fertilidade e da agricultura (Santa Brighid é protetora do gado e suas vacas produziam enormes quantidades de leite), além de uma forte ligação com o fogo.

8) Gallaecia ou Callaecia em latim (Galécia em português) é o nome da região localizada no noroeste da antiga Hispania romana, território que corresponde aproximadamente ao da moderna região norte de Portugal, somado à Galícia, Astúrias e Leão na Espanha.

9) Marcus Annaeus Lucanus, poeta romano (03/11/39 – 30/04/65 d. C.).

10) Máksimos de Tyros, retórico e filósofo grego, viveu na época dos Antoninos e do imperador Commodus (fim do séc. II d. C.).

11) Também conhecidos como “Escólios de Berna”, são comentários ou notas escritos nas margens de um manuscrito do séc. X preservado na Burgerbibliothek de Berna, Suíça. Esses comentários relacionam-se a textos latinos clássicos, incluindo o De Bello Ciuili (Lucanus), as Eclogae e os Georgicā (Vergilius). O comentário elabora uma referência de Lucanus aos sacrifícios humanos realizados pelos druidas a Toutatis (Mercurius), Esus (Mars) e Taranis (Iuppiter), explicando que as vítimas de Toutatis eram afogadas num caldeirão (cena que pode ser vista no “Caldeirão de Gundestrup”), ao passo que as vítimas de Esus eram enforcadas numa árvore e as de Taranis, queimadas.

12) Galo-britônico koman, komenos (subst. neutro de tema em nasal), cf. irlandês antigo cuimne, irlandês moderno cuimhne, galês cof, córnico kov, bretão koun.

13) Prennon Bitous (gaulês antigo), Pren in Bithu (gaulês moderno).

14) Esta é um interpretação altamente especulativa.

A Invocação do Iluminador

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Ponha no altar um cálice de vinho branco (1), juntamente com o instrumento divinatório invoilu(2) escolhido. Usando o punhal cerimonial (3), delimite o perímetro da área de trabalho. Este é o templum, espaço separado para a observação dos oráculos. Acomode-se diante do altar numa cadeira ou mesmo sentado numa almofada no chão. Com o bastão, lentamente descreva três círculos ao redor do instrumento divinatório que será usado.

“Belenos Brilhante (4),
Clareia minha mente com a tua luz.
Belenos Auxiliador,
Guia meus passos neste caminho.
Belenos Profeta,
Inunda-me com a tua centelha”.

Erga o cálice em saudação à divindade e beba um gole:

“Um para a magia”.

Beba outro gole:

“Um para o poder”.

Beba um terceiro gole:

“Um para a visão”.

Coloque o cálice no altar ao lado do bastão. Respire profundamente algumas vezes e relaxe antes de começar a divinação.

Depois de terminá-la, toque suavemente o bastão no altar três vezes.

“Belenos Brilhante, Belenos Auxiliador, Belenos Profeta,
Agradeço-te pela tua presença e inspiração neste dia.
Que eu seja sempre guiado à verdade pela tua voz”.

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Notas:

1) Preferível por ser uma bebida mais refinada, mas também pode ser vinho tinto ou hidromel.

2) Ogham, runas, tarot, pedras divinatórias ou outro qualquer.

3) Caso possua esse instrumento. Se não, pode ser substituído no momento pelo dedo indicador da sua mão dominante.

4) Se você escolher outra divindade como inspiradora da divinação, modifique a palavras da invocação de acordo.

Orientações para a Confecção do Bastão Divinatório

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bastao11 A escolha da madeira
2 Desperte o bastão
3 Trabalhando a forma
4 Adornos
5 Proteção
6 Encantando o bastão
6.1 Aterrar e coroar o bastão

1 A escolha da madeira

Madeira caída pode ser usada, mas não é a melhor escolha uma vez que, tendo caído espontaneamente da árvore, trata-se de uma parte que já deve ter começado a apodrecer.

Uma ótima opção seria encontrar um pedaço que tenha se separado da árvore em razão de uma tempestade (madeira de tempestade). Tempestades são momentos em que a natureza desencadeia grandes poderes de mudança.

Se você optar por madeira viva (que você vá cortar de uma árvore), peça permissão à planta simplesmente mentalizando a pergunta e aquietando a sua mente para sentir o “Sim” ou o “Não” da árvore.

Há muito poder em madeira que tenha sido atingida por um raio, porém não é aconselhável a alguém não habituado ao uso de instrumentos mágicos fazer um bastão com madeira de trovão.

Sempre que possível, dê algo em retribuição à floresta ou à árvore que forneceu o seu bastão. Um pequeno cristal, uma moeda (cobre não, pois pode ser danoso às árvores). Até mesmo água serve. As plantas certamente apreciarão.

2 Desperte o bastão

Acorde-o. Segure-o em suas mãos e imagine-o como uma criatura de belas formas como a árvore que o presenteou a você e cuja vida está desperta dentro da madeira e começa a respirar, um pequeno ser cujo único propósito é realizar alegremente a sua tarefa ritual. Veja-o no curso do dia como uma entidade que o segue ou cuja presença seja apenas sentida, ainda que fora da vista. Tente sentir a presença dele. Lembre-se, contudo, desta observação importantíssima: esse ser é um servidor. Não se apegue a ele. Não lhe dê nome, voz ou personalidade.

3 Trabalhando a forma

Talvez você tenha ideia de como quer que o seu bastão se pareça, talvez não. De qualquer modo, comece a trabalhá-lo sem ficar preso à intenção inicial e permita ao bastão escolher a sua própria forma por meio das suas mãos. Trabalhe silenciosamente e com calma. Se tiver uma ideia, use-a e poderá descobrir que ela é capaz de tomar vida própria.

Você não confeccionará um único bastão, mas vários, e usará em cada nova criação as informações obtidas com os bastões anteriores.

Evite, se possível, o uso de ferramentas elétricas para esculpir a madeira. Dê preferência a tornos manuais, raspadeiras, facas, canivetes e lixas.

4 Adornos

O bastão pode ser enfeitado com cristais, conchas, penas, fios de metal, tiras de couro e inscrito com quaisquer símbolos e caracteres. Há somente ume regra e esta é absoluta: qualquer elemento utilizado deve ter um significado definido para o usuário e tal significado não deve restringir-se à estética. O bastão é um instrumento mágico, não uma peça de exibição.

5 Proteção

Física e energeticamente, é útil fazer uma bolsa ou capa para o bastão, de preferência de materiais naturais. As cores azul, púrpura e preta são indicadas, porém a escolha pode levar em consideração a finalidade do bastão. A madeira pode ser impermeabilizada com óleos (como o óleo de tungue, também chamado óleo chinês ou dinamarquês) e ceras (como a de carnaúba).

Até este ponto, a preparação física do bastão.

6 Encantando o bastão

Respire profundamente pelas narinas, encha completamente os pulmões. Retenha por alguns segundos. Expire pela boca até esvaziar completamente os pulmões. Prenda a respiração por alguns segundos.

Repita nove vezes e durante esse tempo não tente bloquear os seus pensamentos, mas não se concentre particularmente em nenhum deles.

Pegue o seu bastão. Imagine-o como uma criança que olha para você e lhe pergunta “O que você quer que eu faça?”. Responda com a verdade do seu coração. Jamais tente enganar os seus instrumentos mágicos.

Com as duas mãos, segura o bastão na altura dos seus lábios e, para que a madeira sinta a vibração da sua voz, sussurre vinte e sete vezes:

SOITON ANDERON BRICTON UXERON (1)

a magia dos de baixo, o encantamento dos de cima

6.1 Aterrar e coroar o bastão

Segure-o com a ponta superior voltada para o céu. Imagine que a base do bastão deita raízes para dentro do chão, raízes cada vez mais grossas e que penetram mais e mais fundo na terra. Imagine que as raízes recolhem energia e faça-a subir pelo corpo do bastão, do mesmo modo que as raízes de uma árvore juntam água e nutrientes do solo e lançam-nos para o tronco. Observe essa energia ser armazenada e subir pelo bastão, jorrando pela ponta na forma de uma corda.

Veja-a subir em direção ao céu, tão alto que se perca no firmamento, onde os Deuses residem, onde há um castelo com um gigante, uma harpa encantada que produz música sozinha e uma ave que põe ovos de ouro. Nesse lugar mágico, prenda a corda de energia por um momento em qualquer suporte, depois a deixe fluir suavemente de volta para o bastão.

Use o instrumento. Direcione a energia da base para a ponta. Se quiser, pode usar outro bastão ou a ponta do seu dedo para dirigir a energia do fundo do bastão para a ponta e além desta.

Bellouesus /|\

1) Áudio: <https://soundcloud.com/user197250276/soiton-anderon>. Data: 15 dez. 2015.

Quaisquer perguntas somente serão respondidas pelo e-mail nemetonbeleni@gmail.com ou pelo fórum Nemeton Beleni.

Runā antes da Oração

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runaantesA runā (segredo) é uma oração curta que prepara o indivíduo para outro rito. Deve ser dita em voz baixa e cadenciada como as ondas do mar, de preferência em local quieto e retirado, em área fechada ou ao ar livre, ou, se possível, às margens do mar ou de um rio.

Ergo minhas mãos sob o olhar de Sukellos que me formou,
Sob o olhar de Lugus que me fez livre,
Sob o olhar de Maponos que me fez puro, em amizade e alegria.

Dai-me prosperidade em minha necessidade:

O amor de Eponā,
A amizade de Brigindū,
A sabedoria de Ogmi̯os,
A bênção de Nantosu̯eltā.
O temor de Nemetonā,
A vontade de Nodenđ,

Para que no Mundo do Três eu faça
como fazem em Albii̯os Deuses e Ancestrais.
Em cada sombra e luz, em cada dia e noite,
dai-me vosso poder e proteção.

Comentários

i) Nōdenđ (Nodens)

O caractere final no nome Nōdenđ representa uma letra que os romanos denominaram tau gallicum (“t gaulês”). Na época em que os gauleses escreviam a sua língua usando o alfabeto grego, o som do tau gallicum costumava ser representado por um theta duplo, ΘΘ, ou por um delta, Δ, cortado por uma pequena barra horizontal. Com o alfabeto latino, usava-se um s duplo, SS, cortado por uma barra horizontal, ou um D, cortado por uma barra horizontal.

Na verdade, a grafia era bastante variada:

Latim: t, tt, th, tth, d, dd, d, dd, ts, ds, s, ss, ss, sc, sd, st
Grego: θ, θθ, σ, σσ, σθ, τ, ττ
Etrusco: san, dzeta (também sigma?)

O valor fonético exato do tau gallicum, uma inovação gaulesa para atender uma necessidade da língua gaulesa, não é conhecido com exatidão. A opinião mais aceita atualmente é que o som desse caractere seria o de uma africada geminada, /ts/. Assim, a pronúncia de Nōdenđ seria algo como Noo-dents, genitivo Nōdentos, cf. latim Nodens, Nodentis.

Cultuado na Grã-Bretanha e na Gália, a interpretação romana (interpretatio romana) identificou Nōdenđ a Mars (Marte), deus da guerra, mas também da agricultura (Mars Pater, “Pai Marte”), bem como a Mercurius (Mercúrio) e Neptunus (Netuno). A identificação de Nōdenđ ao romano Mars lembra-nos que o rei guerreiro Nuada Airgetlam dele descende, ao passo que a perda do braço de Nuada tem paralelo na mesma mutilação sofrida pelo germânico Tyr, também identificado a Mars. Assim como Nuada foi sucedido no trono por Lugh, talvez Lugus tenha ocupado uma posição que um dia foi de Nōdenđ.

Uma das interpretações do nome de Nōdenđ é “apanhador”, ligando-o à pesca e à caça. Nas ruínas do seu santuário no complexo de Lydney Park (Gloucestershire, Inglaterra), há mosaicos com imagens de golfinhos, peixes e monstros marinhos. Esse santuário era um edifício imponente em estilo clássico, que a arqueologia tem interpretado como destinado a abrigar peregrinos enfermos que ali dormiriam na esperança de que uma cura lhes fosse revelada em sonho pelo deus. Numerosos objetos encontrados no local (inclusive imagens de cães, associados à cura) atestam que Nōdenđ, além de guerreiro e provedor de alimento, era reverenciado também como deus terapeuta.

Bellouesus /|\

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