Arquivo mensal: janeiro 2016

1 A Doutrina Druídica da Alma

1.1 Aristóteles, “Ética a Eudemo”, III, 1, 22-25

Assim como um homem não é corajoso ao enfrentar provações extraordinárias em meio à ignorância destas (por exemplo, se, em razão da loucura, ele suportou a descarga de um relâmpago) nem tampouco se o faz movido por uma paixão, ainda que totalmente ciente da gravidade do perigo, como os celtas que tomam armas e investem contra as ondas […]

1.2 Aristóteles, “Ética a Nicômaco”, III, 7, 7.

[…] Porém devemos considerar como insanos, ou melhor, como insensíveis à dor, aqueles que nada temem, nem os temores de terra nem as inundações, como dizem a respeito dos celtas […]

1.3 Arriano, “Anábase de Alexandre”, I, 4, 7.

Aos celtas, ele perguntou o que, dentre todas as coisas mortais, temiam mais, acreditando que a grandeza do seu renome tivesse chegado mesmo aos celtas e além e que estes declarariam temê-lo mais que tudo. A sua resposta, no entanto, foi-lhe surpreendente, pois, vivendo numa região inóspita, distante de Alexandre, e vendo que a invasão dirigia-se a outras terras, disseram que o seu maior medo era que o céu lhes caísse em cima. Declarou-os então seus amigos, celebrou uma aliança, e mandou-os de volta aos seus, observando com divertimento: “Como são fanfarrões esses celtas!”

1.4 Diodoro da Sicília, “Biblioteca Histórica”, V, 28.

Convidam também os estrangeiros a seus banquetes e, depois da refeição, perguntam-lhes quem são, que necessidade os trouxe. De hábito, durante o repasto, a respeito dos primeiros assuntos discutidos entram em disputa verbal, depois chegam a provocações e, por fim, a combates singulares onde se vê como lhes é indiferente a perda da vida. Ocorre que entre eles prevalece o ensinamento de Pitágoras, segundo o qual é uma realidade que as almas dos homens são imortais e que, depois de certo número de anos, cada alma volta à vida entrando noutro corpo. É também por esse motivo que, durante os funerais, há quem lance na pira cartas escritas aos mortos, como se estes as fossem ler.

1.5 Horácio, “Odes”, IV, 14.

[…] a Ibéria belicosa, os gauleses impassíveis ante a morte, obedecem, Augusto, a tuas leis.

1.6 Jâmblico de Cálcis, “Vida de Pitágoras”, 30.

Ainda hoje, todos os gauleses, os tribales e a maior parte dos bárbaros ensinam aos seus filhos que a alma daqueles que morrem não é destruída, mas subsiste; que não é necessário temer a morte, mas que se deve enfrentar os perigos com resoluta energia.

1.7 Júlio César, “Comentários sobre a Guerra da Gália”, VI, 13-14.

O ensinamento principal dos druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas.

1.8 Júlio César, “Comentários sobre a Guerra da Gália”, VI, 18.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis Pater, e confirmam que esse é o ensinamento dos druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

1.9 Lucano, “Farsália”, L. I, v. 392-465.

[…] e aqueles que com sangue maldito pacificam o selvagem Teutates, de Esus os santuários hórridos, e os altares de
Taranis, cruéis como aqueles amados pela Diana dos Citas.
Também vós, Bardos, que por vossos louvores
Escolheis as almas valentes daqueles que pereceram em batalha
Para conduzi-los a uma morada imortal, espalhastes agora sem temor
Vossos cantos incontáveis.
E vós, ó Druidas, depostas as armas,
a ritos bárbaros e a costumes retornais sinistros.
A vós somente os deuses e numes celestes
é dado conhecerdes ou não os conhecerdes; bosques retirados
vossas moradas e florestas longínquas;
se veraz quanto cantais, dos homens as sombras
não as silentes moradas de Érebo e do profundo Dis
os reinos pálidos buscam: dirige-os o sopro da vida
a outro mundo; de uma longa vida, se quanto cantais
conheceis, a morte é o meio.

1.10 Pompônio Mela, “Descrição do Mundo”, III, 2, 18.

Um de seus [dos druidas] preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

1.11 Estrabão, “Geografia”, VII, 3, 8.

Ptolomeu, filho de Lagos, relata que, no curso dessa campanha, os celtas das margens do Adriático encontraram-se com Alexandre a fim de com este firmar relações de amizade e hospitalidade. O rei, que os acolheu com cordialidade, perguntou-lhes, já afetados pelos vapores no vinho, o que mais temiam, convencido que diriam ser ele mesmo; entretanto, responderam-lhe que não temiam ninguém, que temiam somente a queda do céu sobre suas cabeças, mas prezavam acima de tudo a amizade de um homem como ele.

1.12 Estrabão, “Geografia”, IV, IV, 4.

Os druidas e outros como eles proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

1.13 Valério Máximo, “Ditos e Feitos Memoráveis”, II, 6, 10-11.

Deixando Marselha, encontramos este antigo costume dos gauleses. Estes dizem que muitas vezes se emprestavam somas de dinheiro a ser pagas no mundo inferior, pois estavam convencidos de que as almas são imortais. Diria que são tolos esses homens vestidos de calças, caso sua opinião não fosse a mesma de Pitágoras com seu manto. Se a filosofia dos gauleses trai seu amor ao lucro e à usura, a dos cimbros e celtiberos exala paixão e coragem. Estes de fato estremecem de alegria no campo de batalha, na esperança de encontrar um fim glorioso e abençoado. Quando adoecem, ficam tristes como as pessoas condenadas a uma morte vergonhosa e miserável. Os celtiberos também consideram como um ultraje sobreviver em batalha àquele a cuja existência dedicaram a sua.

1.14 Anônimo, “Eklogai siue Chrestomatia Graeca”, IV, 14-16.

Entre todos os celtas, três classes há que são particularmente honradas: os bardos, que são poetas de hinos, os vates, sacrificadores e intérpretes da natureza e os druidas, que, além da ciência da natureza, estudam também a filosofia moral e possuem grande reputação de justiça. Esses druidas professam que as almas são imperecíveis, bem como o mundo, mas que, um dia, o fogo e a água dominarão.

Bellouesus /|\

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