Arquivo mensal: setembro 2015

Oração a Selene para qualquer feitiço

XXVII. Oração a Selene para qualquer feitiço (Papyri Graecae Magicae, IV.2785-2890)

Vem a mim, ó senhora amada, Selene de face tripla,
Ouve bondosamente os meus cantos sagrados;
Ornamento da noite, jovem, que luz trazes aos mortais,
Ó filha da aurora que montas touros bravios,
Ó rainha, que tua carruagem diriges num percurso apropriado
Junto a Hélios, que com as formas triplas
Das três Kárites danças em júbilo
Com as estrelas. És a justiça e os fios da Moira:
Klotho e Lakhesis e Átropos
Com três cabeças, és Perséphone, Megaira,
Allekto, das muitas formas, que munes as tuas mãos
Com candeeiros temíveis e sombrios, que agitas as tuas madeixas
De serpes assustadoras na tua fronte, que soas
O urro dos touros das tuas bocas, cujo ventre
Enfeita-se com as escamas de coisas que deslizam
Com fileiras de serpentes venenosas a descer pelas costas,
Tuas costas amarram-se com cadeias horrendas;
Aquela que grita na noite, com face de touro, amante da solidão
Com cabeça de touro, tens olhos de touro, a voz
Dos cães; ocultas as tuas formas em corpos de leões,
Teu tornozelo tem a forma do lobo, cães ferozes são caros
A ti, portanto és chamada Hékate,
A dos muitos nomes, Mene, cortando o ar
Como Ártemis lançadora de dardos, Perséphone,
Abatedora de gamos, a que brilha na noite, a que ressoa triplamente,
De três cabeças, Selene das três vozes,
Das três extremidades, das três faces, dos três pescoços
E Deusa das Vias Triplas, que guardas
Incansável fogo flamejante em cestos triplos
E tu, que frequentemente assombras o caminho triplo
E governas as décadas triplas, a mim
Que te estou chamando sê benigna e com gentileza
Dá-me atenção, tu, que proteges o mundo amplo
À noite, ante quem os demônios estremecem em pavor
E fremem os deuses imortais, deusa que
Exaltas os homens, tu, dos muitos nomes, que trazes
Uma bela prole, dos olhos de touro, com chifres, Mãe dos Deuses
E Homens, Mãe de Todas as Coisas,
Pois frequentas o Olimpo e o abismo
Amplo e ilimitado atravessas. O começo
E o fim tu és e sozinha tudo governas.
Pois todas as coisas vêm de ti e em ti
Todas as coisas, ó Eterna, chegam ao fim.
Como cinturão perene ao redor dos teus templos
Vestes as Correntes de Kronos, inquebráveis
E inamovíveis, e seguras
Em tuas mãos um cetro áureo. Em volta do teu cetro
As letras o próprio Kronos escreveu e deu-te
para usar a fim de que tudo permaneça firme.
Punidora e punida, Mestra da Humanidade
e Mestra do Poder, o Caos também governas.
Salve, ó deusa, e atende aos teus epítetos,
Queimo para ti estes aromas, ó Filha de Zeus,
Lançadora de Dardos, Celestial, Deusa dos Portos,
Tu, que vagueias pelas montanhas, Deusa das Encruzilhadas,
Ó Ctônica e Noturna e Infernal,
Deusa da treva, silenciosa e assustadora,
ò tu que tens o teu repasto entre as tumbas,
Noite, Escuridão, Amplo Caos: a necessidade
és tu, difícil de fugir; és a Moira e
a Erínia, Tormento, Justiça e Destruidora,
E manténs Kérberos acorrentado, com escamas
De serpentes és sombria, ó tu com o cabelo
De serpentes, envolta em serpentes, bebedora de sangue,
Que trazes morte e destruição e que te banqueteias
Com corações, Comedora de Carne, que devoras os mortos
Prematuros e tu que fazes ressoar o pranto
E espalhas a loucura, vem aos meus sacrifícios
E agora pra mim resolve esta questão.

Oferenda para o rito: para fazer o bem, ofereça estoraque, mirra, sálvia, franquincenso, um cesto de frutas; mas, para causar dano, ofereça partes de um cachorro e de um bode malhado (ou, de modo semelhante, de uma virgem morta prematuramente).

Encantamento protetivo para o rito: pega uma magnetita e grava nela uma Hécate de três faces. E a face do meio deve ser a de uma mulher jovem usando chifres e a esquerda, a de um cão e a da direita, a de um bode. Depois de gravar a imagem, limpa-a com natrão e água e mergulha-a no sangue de alguém que tenha morrido uma morte violenta. Faze então uma oferenda de comida e dize o mesmo feitiço no momento do ritual.

Hans Dieter Betz (ed.). The Greek Magical Papyri in Translation Including the Demotic Spells. Chicago: The University of Chicago Press, 1986.

Tradução do inglês: Bellouesus /|\

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