Arquivo mensal: agosto 2015

O Furor do Espectro (Baile in Scáil)

lettercerto dia, Conn estava em Tara, depois de derrotar os reis. De manhã cedo, ele subiu à fortificação real de Tara, antes do nascer do sol, junto com seus três druidas, Mael e Bloc e Bluicne, e seus três fili [poetas], Ethain e Corb e Cesarn. Pois esse grupo costumava levantar-se todo dia para vigiar, não fossem os homens do sídhe [fadas; Tuatha Dé Danann] capturar a Irlanda sem que eles percebessem.

Era para a rampa que ele costumava ir sempre e ele topou com uma pedra sob seus pés e pisou nela. A pedra gritou sob seus pés, de modo que se ouviu em toda a Tara e por Brega. Então, Conn perguntou a seus druidas porque a pedra tinha gritado, qual era o seu nome, de onde viera e para onde iria e porque viera a Tara. O druida disse a Conn que não lhe diria o nome até que se passasem cinquenta e três dias. Quando esse número se completou, Conn perguntou ao druida novamente.

Então o druida disse: “Fál [destino] é o nome da pedra. É da ilha de Fál que ela foi trazida. É em Tara da terra de Fál que ela foi colocada. É na terra de Tailtiu que permanecerá até o Dia do Julgamento. E é nessa terra que haverá uma assembleia festiva durante o tempo em que existir realeza em Tara. E o governante que não a encontrar [ou deixá-la?] no último dia da assembleia será um homem condenado nesse ano. Fál gritou sob teus pés hoje”, disse o druida, “e profetizou. O número dos gritos que a pedra lançou é o número de reis que de tua raça virão até o Dia do Julgamento. Não serei eu quem te dirá seus nomes”, disse o druida.

Então eles viram uma grande névoa ao seu redor, de forma que não sabiam aonde estavam indo por causa da vastidão das trevas que caíram sobre eles. Ouviram o ruído de um cavaleiro aproximando-se deles. “Ai de nós”, disse Conn, “se ele nos levar a uma terra desconhecida!” Então o cavaleiro fez três arremessos de lança contra eles e o último chegou até eles mais rápido que o primeiro. “Está se erguendo para ferir um rei”, disse o druida, “quem quer que faça um arremesso contra Conn em Tara!” Então o cavaleiro cessou seus arremessos e aproximou-se deles e deus as boas-vindas a Conn e convidou-o para acompanhá-lo a sua morada.

Eles então prosseguiram até chegarem a uma planície e ali havia uma árvore dourada. Lá havia uma casa com um poste central de findruine [uma liga metálica branca] com trinta pés de comprimento [914,4 m]. Entraram na casa e viram ali uma jovem e uma coroa de ouro estava em sua cabeça. Havia uma tina de prata com argolas de ouro em volta, cheia de cerveja vermelha. Havia uma caneca de ouro na sua borda e uma taça de ouro diante dela. Viram o próprio scál [espectro] na casa, diante deles em seu trono. Jamais houve em Tara um homem do seu tamanho ou da sua formosura, por causa da beleza de suas formas e da maravilha de sua aparência.

Ele lhes respondeu e disse: “Não sou um fantasma, nem um espectro. Vim por causa de minha fama entre vós, desde a minha morte. E sou da raça de Adão: meu nome é Lugh, filho de Eithliu, filho de Tigernmas. É por este motivo que vim: para relatar-te a duração de teu reinado e de cada rei que haverá em Tara.”

E a garota que se sentava diante deles na casa era a Soberania da Irlanda e foi ela quem deu a Conn sua refeição: a costela de um boi e a costela de um javali. A costela do boi tinha vinte e quatro pés de comprimento e oito pés entre seu arco e o chão. Quando a garota começou a distribuir as bebidas, ela disse: “A quem será dada esta taça?” e o espectro lhe respondeu.

Quando ela tinha nomeado cada governante até o Dia do Julgamento, eles entraram na sombra do espectro, de modo que não viram nem o recinto, nem a casa. A tina e a caneca de ouro e a taça foram deixadas com Conn. E daí vêm os relatos de O Sonho do Espectro e A Aventura e Viagem de Conn.

Texto irlandês

Tadução: Bellouesus /|\

Nota: o texto foi traduzido até a frase Is de sin atá Aisling an Scáil et Egtrai & Targraide Cuind. A partir desse ponto, segue-se uma relação dos reis irlandeses, que foi omitida.

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As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann II

4_jewelsAntes de aportar em Ériu (nome nativo da Irlanda), as Tuatha Dé Danann estiveram nas ilhas ao norte do mundo (i n-insib tūascertachaib in domain) a peregrinar por quatro cidades, ut cecinit poeta, Falias, Gorias, Findias e Murias.

Em cada uma dessas cidades, as Tuatha Dé aprenderam as artes místicas, ou seja, as artes dos druidas (druidecht), conhecimento (fis), profecia (fáistine) e habilidades mágicas (amainsecht) sob a orientação de quatro magos (ceithri fiseda), a saber, Morfessa de Falias, Esras de Gorias, Uiscias de Findias e Semias de Muirias. Cada um desses mestres deu-lhes um talismã.

Morfessa de Falias deu a Lia Fail, ou seja, a Pedra de Fal, que gritaria ao ser pisada pelo rei que legitimamente tomasse a soberania de Ériu (fláith Érenn).

Esras de Gorias deu a Sleg Loga, ou seja, a Lança de Lug, capaz de assegurar a vitória daquele que a empunhasse.

Uiscias de Findias deu a Claideb Nuadat, ou seja, a Espada de Núadu, que, uma vez desembainhada, jamais deixaria de atingir o oponente.

Semias de Muirias deu o Coiri in Dagda, ou seja, o Caldeirão do Dagda, do qual nenhum bando de guerreiros valentes afaster-se-ia sem ter encontrado todo o alimento que desejasse.

Por essa razão, esses presentes foram chamados ceithri haisceda Tuaithi De Danand, os quatro dons das Tuatha Dé Danann.

Leia também: As Quatro Joias das Tuatha Dé Danann I.

Bellouesus /|\

A Verbena

verbenaHiera botane (“planta sagrada”) – Aristereon/peristereonVerbena (Verbena officinalis L.)

Vtraque sortiuntur Galli et praecinunt responsa, sed Magi utique circa hanc insaniunt: hac perunctos impetrare quae uelint, febres abigere, amicitias conciliare nullique non morbo mederi. Colligi debere circa canis ortum ita, ne luna aut sol conspiciat, fauis ante et melle terrae ad piamentum datis; circumscriptam ferro effodi sinistra manu et in sublime tolli; siccari in umbra separatim folia, caulem, radicem. aiunt, si aqua spargatur triclinium, in qua maduerit, laetiores convictus fieri. Adversus serpentes conteritur ex vino.

Caius Plinius Secundus, “Naturalis Historia”, XXV, 59, 106-107

“Os gauleses empregam uma e a outra [Plinius refere-se às duas variedades da verbena, macho e fêmea] para tirar as sortes e prever o futuro. Porém, sobretudo os magos [provavelmente se refere aos vates ou mesmo aos druidas] afirmam loucuras sobre essa planta: dizem que obterá o que quiser quem a esfregar no corpo, que afasta as febres, que concilia as amizades, que cura toda doença; que é necessário colhê-la antes da ascensão do Cão [isto é, da ascensão helíaca de Sirius, alpha Canis Maioris], de modo a não ser visto nem pela Lua nem pelo Sol e depois que favos de mel e mel tenha sido oferecidos à terra como expiação; que é preciso traçar um círculo ao redor dela com ferro, agarrando-a então com a mão esquerda, que deve ser levantada, para depois deixá-la secar na sombra, folhas, caule e raiz em separado. Acrescentam ainda que, se um divã de jantar [triclinium] for borrifado com água onde ela tenha sido imersa, os convidados ficarão mais alegres. Essa plana é macerada no vinho como remédio contra as picadas de serpentes”.

Comentário

Esse trecho da “História Natural” levanta pontos interessantes sobre a medicina gaulesa. Primeiramente, fica claro que, além das propriedades terapêuticas das ervas, aprendidas pelo uso, a ação das plantas estava ligada igualmente ao seu aspecto simbólico e revestia-se de aspectos mágico-rituais que escapam aos textos onde apenas as suas propriedades farmacológicas são mencionadas. Essa planta, a verbena, devia ser colhida num momento liminal para oferecer o máximo do seu efeito mágico-curativo. A ascensão helíaca de um estrela é o momento em que esta se encontra acima do horizonte imediatamente antes do nascer do sol. Assim, a verbena devia ser colhida nem durante a noite fechada nem durante o dia claro, mas na transição entre um e outro, depois se realizando uma oferenda piacular à terra pela profanação. As ervas pertencem à terra, que as nutre através das raízes, e não podem ser arrancadas levianamente de sua dona. O círculo traçado com ferro ao redor da verbena provavelmente tinha a função de impedir a aproximação de espíritos irados pela ousadia humana. Se para colher uma simples planta era necessário oferecer uma expiação de mel e recorrer a medidas protetivas, imagine os sacrifícios a ser oferecidos e os encantamentos a ser feitos pelos que abriam túneis fundos em busca de metais e pedras preciosas. A planta devia ser colhida com a mão esquerda, ou seja, a mão que para a maioria das pessoas não é a dominante ou de uso comum, e afastada do contato com o solo de onde foi arrancada, assim como o visco cortado do carvalho não podia tocar o chão. Outro autor, Marcellus Empiricus, permite-nos entrever ainda que a cura pelas plantas exigia outro procedimento para o seu sucesso: a recitação de fórmulas mágicas invocando o poder das deidades e, por analogia com outras culturas, as virtudes inerentes à própria planta.

Bellouesus /|\