Arquivo mensal: outubro 2014

Natririxs

serpentkingTranstornados pela morte de seus pais, dois irmãos decidiram renunciar ao mundo e viver em cabanas isoladas às margens do Tanaros. O irmão mais velho construiu a sua a um arepennis de distância da morada do mais novo.

Certo dia, Natririxs, o rei das serpentes, saiu do rio e rastejou nas proximidades. Ele não era uma serpente comum, pois levava em sua garganta uma joia mágica capaz de conceder desejos e por essa razão era chamado Moinimonis (Pescoço Precioso). Além disso, dominava o poder de assumir qualquer forma. Nesse dia, percorrendo as margens do Tanaros na forma de um ser humano, ele chegou à morada do irmão mais novo e saudaram um ao outro. Ao ser convidado, Natririxs entrou na cabana para conversar com o solitário. Tiveram uma conversação interessante e tornaram-se bons amigos. Assim, abraçaram-se antes da despedida.

Depois de alguns encontros, o rei-serpente abandonou sua forma humana e surgiu diante do eremita em sua forma ofídica original, o que assustou o rapaz. Antes de partir, a serpente abraçou-o da forma como o fazem as serpentes.

O medo causado pelo abraço da serpente foi tão forte que o rapaz depois perdeu o apetite, empalideceu e adoeceu. Dias depois, quando o irmão mais velho o visitou e percebeu sua aparência abatida e atitude arredia, perguntou-lhe o que subitamente destruíra sua saúde e, tendo escutado a história toda, ponderou que qualquer um poderia ser aliviado da presença de outrem ao solicitar-lhe a mais preciosa de suas posses. Como o bem mais precioso da serpente era a sua joia, se o rapaz a solicitasse a serpente não retornaria.

No dia seguinte, quando a serpente estava se despendindo do seu amigo, este lhe pediu sua jóia. A serpente, por sua vez, disse-lhe adeus sem abraçá-lo ou beijá-lo. No segundo dia igualmente, quando Natririxs surgiu diante dele, o rapaz outra vez pediu a sua joia. A serpente então saiu sem

entrar na cabana. Na terceira vez, quando o solitário viu Moinimonis saindo do rio, gritou-lhe: “Amigo, dá-me a tua joia!”

A serpente disse então:

“A melhor comida e bebidas finas tenho em abundância,
através da joia que desejas.
É demais o que pedes
e não te posso conceder.
Não te visitarei novamente
enquanto eu viver”.

Com essas palavras, o rei-serpente mergulhou no rio e nunca mais voltou ao eremita.

Embora assustado, o rapaz apreciava o rei-serpente e sua ausência o fez sofrer mais do que o medo e, em poucos dias, ele parecia outra vez doente.

Certo dia, o irmão mais velho fez uma visita a seu irmão e encontrou-o aborrecido e indisposto. Compreendendo a razão de sua tristeza, procurou animá-lo dizendo:

“Sentir a falta de alguém cuja afeição desejas
quando as solicitações tornaram-te detestável a seus olhos.
Solicitar a joia tornou a serpente desconfortável
e por isso ela sumiu para não mais voltar.”

Essas palavras verdadeiras pacificaram a mente do irmão mais jovem, que parou de sentir-se aborrecido e voltou a concentrar-se em seus afazeres.

Bellouesus /|\

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Bellouesus /|\

A Roda da Fortuna e o Deus Gaulês dos Solstícios

A Roda da Fortuna está ligada ao movimento, às mudanças bruscas de comportamento, à terra e à viagem; em termos simbólicos, à viagem do sol. Ela indica também o perigo de a evolução do homem ser interrompida. No deus gaulês que presidia as festas dos solstícios, encontramos a mesma simbologia do movimento circular e a relação roda-sol levante, roda-sol poente. Eis porque o mito desse deus gaulês continuava a viver nesse arcano do tarô.

Ao chegar a esta carta, o Mago deve estabelecer o equilíbrio, tornar-se o piloto dessa roda que se assemelha a um timão.

O Mito do Deus Gaulês dos Solstícios

A roda é um símbolo milenar. Na Índia, o deus Shiva faz girar em torno do seu dedo indicador direito uma roda cósmica, representação do sol. Os primeiros vestígios da roda, símbolo solar, são encontrados na Mesopotâmia. Um hino gravado numa pedra  em caracteres cuneiformes diz o seguinte:

Com a mão direita, sustento o meu disco de fogo.
Com a esquerda, seguro o meu disco de morte.
O sol, de cinquenta faces, a arma erguida da minha divindade,
Eu o sustento.
O valente que atravessa as montanhas, o sol,
Cuja ação não cessa, eu o sustento.
A arma que, com a sua força imensa, enche o país de terror.
Em minha mão direita, poderosamente, o projétil de ouro
E de ônix, eu o sustento.

O ouro e o ônix, o sol e a pedra, símbolo da terra, misturam-se nesse antiquíssimo canto.

No Egito, uma roda girava nos templos. Os caleidoscópios tibetanos de orações têm a forma de rodas. Os gregos conheciam a Roda da Fortuna; a ela se prendia um pássaro, ou a sua representação, e em seguida girava-se a roda com toda a velocidade para que dela emanassem, entre outras, virtudes afrodisíacas. Em Roma, a festa da Roda da Fortuna ocorria no dia 24 de junho. Ela homenageava os viajantes e tinha como símbolo um timão.

Na Gália, um pequeno deus barbudo, atarracado, de pernas tortas e pés calçados solidamente fincados na terra, tinha na mão direita uma roda, que ele erguia bem acima da cabeça, e parecia proteger um pequeno ser frágil, mulher ou criança, agachado à sua esquerda. Sua espessa cabeleira descia-lhe até os ombros. Às vezes, um pássaro apoiava-se a seus pés. Sua roda possuía seis raios. Foram encontradas algumas estatuetas desse deus em Allier; elas podem ser vistas no museu de Saint-Germain, no Louvre e no museu Calvet, em Avignon.

As festas presididas por esse deus ocorriam nos solstícios de inverno e de verão, “as portas do Norte e do Sul”, uma espécie de cerimônias agrárias do fogo celebradas em toda a Europa primitiva. Nos calendários rúnicos, o dia 25 de dezembro era caracterizado por uma roda. As festas que marcavam o solstício de inverno, a porta do Norte, tinham início no dia 25 de dezembro e duravam doze dias, encerrando-se a 6 de janeiro. No decorrer desse período, imobilizavam-se todas as rodas, os carros não circulavam mais. Todas as representações do sol deviam ser imóveis. Os viajantes interrompiam sua jornada durante todo esse período Pegavam-se as ervas colhidas na época de São João e faziam-se com elas tisanas que agissem sobre a circulação do sangue. Os camponeses observavam com atenção o comportamento do tempo nesses doze dias e previam o do ano seguinte, cada dia correspondendo a um mês. Se houvera chuva no terceiro dia, março seria um mês chuvoso etc. Os reis, representantes do astro solar na terra, não deviam mostrar-se, sendo substituídos por suas efígies.

Durante esse período do ano, todos ficavam atentos aos caprichos da natureza. O décimo segundo dia era o cenário da festa propriamente dita. Comia-se uma bolacha de farinha de cereais e favas. Nos outros dias do ano, esse alimento estava reservado aos mortos, mas, no dia 6 de janeiro, os vivos festejavam com seus finados a partida do sol para o portal do Sul. Giravam-se as rodas com muita velocidade e acendiam-se grandes fogueiras; de modo geral, essa era tarefa de responsabilidade dos pastores e dos ferreiros. Era preciso levantar-se cedo para ver o sol subir no horizonte; depois vestia-se uma roda de palha e de ramagens, roda que era girada como uma coroa na ponta de um grande bastão. Todos os assistentes, formando uma roda, giravam no sentido inverso. No início do séc. XX, na Polônia, nessa data de 6 de janeiro, apagavam-se todos os fogos; em seguida, fixava-se um roda numa estaca e os jovens da cidade giravam-na até que surgisse fogo do atrito da madeira tenra da roda com a madeira mais dura da estaca.

Na Bretanha, a roda muitas vezes era substituída por um timão que em seguida era guardado até a festa de São João.

No séc. VII, Santo Elói insurgiu-se contra as festas do solstício. Para desviar o sentido dessa cerimônia de inverno, a Igreja instaurou, na mesma data, a Epifania; mas a imaginação popular misturou os reis magos, a bolacha, a roda, as favas e as danças, e a comemoração da visita dos três reis magos manteve sempre um pequeno lado pagão.

No momento do solstício de verão, como as horas em que o sol brilha iriam diminuir, acompanhava-se o astro à porta do Sul através de festas dignas do seu reinado. Na véspera, antes da meia-noite, as velhas e os curandeiros colhiam as ervas sagradas. No norte da Gália, tratava-se da drosera [Drosera rotundifolia; tb. chamada rorela e sundew], que cresce nas turfeiras e à margem dos pântanos, planta antiespasmódica; do feto macho que, colhido em São João, tinha o poder de tornar invisível; e da Artemísia, que protegia da epilepsia. No sul, tratava-se do hissopo, considerado uma panaceia; da betônica, do alho selvagem, do tomilho, do alecrim e do orégano. As folhas eram separadas dos talos e das raízes; as primeiras eram reservadas aos males da alma; os últimos, aos males do corpo.

No dia de São João, acendiam-se grandes fogueiras nas colinas, e assim, de topo em topo, os braseiros se correspondiam. Eles deviam durar o maior tempo possível, já que sua extinção significava o fim dos festejos. Jogavam-se neles a roda do inverno e a árvore de maio; depois, fabricava-se outra roda, maior, enrolada em palha e estopa e guarnecida de flores de cores vivas. Toda iluminada, ela era lançada de certa altura, e os jovens a perseguiam. Esse costume ainda existia no começo do século e, no sul, a roda era denominada estrela dos pastores. O senhor Tessier, subprefeito de Thionville, escreveu no dia 23 de junho de 1822: “Uma velha roda, estragada e fora de uso. Ela é enrolada com palha e estopa, que a ocultam. É levado ao cume de uma montanha ou de uma colina, caso o país seja plano; ateia-se fogo e ela é rolada com violência. Se em determinado ano a roda flamejante é negligenciada, os animais, em movimentos convulsivos, dançam nos estábulos, seu sangue apodrece e torna-os loucos. Cada habitante tem um archote e segue a roda; há um guia com uma tocha e grandes gritos são emitidos. É preciso chegar ao Mosela e aí apagar o que resta; devem-se evitar as cavidades. Se os guias afastam a roda dos vinhedos e conseguem desviar-se deles, isso é sinal de boa colheita” (Mémoires de la Societé des Antiquaires de France, 1823, vol. V, B. N).

Em vão a igreja tentou apropriar-se dessa festa, que permaneceu mágica e pagã. Se meio proibia os casamentos, junho tomava-os sob sua proteção. As velhas davam às jovens um talo de hissopo e um pouco de orégano. Estas colocavam-nos sob o travesseiro e recitavam antes de adormecer:

Suplico ao bem-aventurado São João
E à lua e seu crescente
Que em sonhos me deixem ver
Aquele que em minha vida desposarei
E o ofício que ele sabe fazer
Que o venha executar diante de mim.

Após acrescentarem, com educação, um “Obrigada, São João”, elas adormeciam rapidamente para poderem ver, em sonhos, o futuro marido.

No dia que sucedia à festa de São João, procuravam-se tesouros escondidos pelos gênios, durante a noite, sob grandes pedras; na Bretanha, sob os menires, no sul, sob pedras muito brancas. Algumas vezes, no decorrer da noite, as galinhas eram colocadas do lado de fora para porem ovos de ouro. Recolhia-se também o orvalho da noite, pois ele podia curar tudo.

Resquícios Populares

No séc. VI existia uma fórmula de cura que foi usada até o século X, nas cidades e aldeias. Tomando-se o orvalho recolhido na manhã do dia de São João, a fim de curar as hemorragias, pronunciavam-se estas palavras: “Quando Jesus foi batizado (sinal da cruz) o Jordão recuou, pois Jesus disse a João (sinal da cruz) diz ao Jordão detém-te pois o Senhor veio para o meio de nós e logo as ondas se detiveram (sinal da cruz)”. Parece que isso era infalível.

A Bretanha conservou por muito tempo os antigos costumes. Tristan Corbière, em 1884, fala da cerimônia que era celebrada, uma vez por ano, no solstício de verão, na capela de Pouldavid, em Saint-Théogonec. Existem testemunhos semelhantes acerca de uma igreja em Douarnenez. Os fiéis entravam na capela para assistirem à missa solene. Durante o ofício, uma grande roda, ou um timão fixado na abóbada, era manobrada pelo cura graças a uma corda presa à mão direita da estátua em granito do santo Tu-Pé-Du. A roda era guarnecida de uma sineta colorida. O sacerdote mandava que todos girassem essa roda da fortuna e isso custava a cada um dois vinténs. O consulente devia ter refletido bastante sobre a pergunta que desejava formular. Com um movimento impresso à corda, a roda começava a girar, sendo depois parada com um bastão pelo sacerdote. De acordo com a posição da sineta, à direita ou à esquerda do santo, a resposta era afirmativa ou negativa. Teria o pequeno deus gaulês se reencarnado no Tu-Pé-Du bretão?

Hoje, na Grécia, no dia 1º. de maio, todos os habitantes da aldeias e das cidades vão ao campo para colher flores com as quais tecer coroas. Eles as colocam na parte de cima de suas portas de entrada. Depois, no dia de São João,  lançam essas coroas ao fogo para purificarem o ar e impedirem a propagação da malária pelos mosquitos.

No dia da Epifania, na maioria das ilhas, uma procissão conduzida pelo déspota ortodoxo percorre o quebra-mar. Depois, o pope solta uma pomba e joga a cruz nas águas do porto. Os pescadores mergulham para recuperá-la. Há pouco tempo, o homem que resgatara a cruz caminhava pela aldeia ostentando-a numa bandeja coberta de flores. Os habitantes depositavam nela dinheiro. Mas as autoridades religiosas, constatando que esse dinheiro acabava parando nos bolsos dos donos de botequins, proibiram recentemente o pedido de esmolas. Através dessa cerimônia, a pomba, símbolo da alma que voa, purifica o ar, enquanto a cruz, a matéria, faz o mesmo com a água.

Outras crenças um tanto loucas: os habitantes de Estrasburgo são capazes de jurar que as imagens da sua catedral voam nas noites de São João.

No Var, em Gonfaron, os asnos voam nos dias 26 de dezembro e 23 de junho. Sabiamente, os aldeões esperam, olhando para o alto, na praça principal, onde são servidos sanduíches e bebidas geladas. Eles aguardam para ver passar um desses asnos. Não se desencorajam e são formais: os asnos voam, mas os olhos dos turistas nem sempre são capazes de vê-los!

Fonte: Dicta & Françoise. Mitos e Tarôs: a viagem do mago. São Paulo: Pensamento, 1995, pp. 100-106.

Uma herbalista pouco conhecida: Locusta da Gália

locustaUma herdeira da ciência dos vates na Roma do séc. I?

Locusta nasceu no séc. I E. C. na Gália romana. Em seus primeiros anos, Locusta aparentemente aprendeu muito sobre as ervas de seu país. Ao chegar a Roma, Locusta descobriu que as pessoas em seu círculo eram gananciosas e cheias de cobiça. Naqueles dias, havia muitas pessoas em Roma que desejavam apressar a morte de seus rivais ou de parentes ricos; tais mortes, contudo, teriam de parecer naturais. Locusta forneceu-lhes os meios para atingir seus objetivos – tornou-se uma envenenadora profissional. Embora tenha sido presa por outras atividades, possuía alguns clientes influentes que a ajudavam a sair da prisão rapidamente.

Por volta do ano 54 E. C., Locusta foi chamada em segredo pela imperatriz Agripina, quarta mulher do imperador Claudius. Agripina tinha desejos muito claros: Nero, seu filho de um casamento anterior, deveria ser o imperador de Roma. Assim, Claudius, então com 64 anos, tinha de morrer. É nessa parte que Locusta entra.

Agripina sabia que Claudius adorava cogumelos. Também sabia que o imperador tinha provadores. As duas mulheres elaboraram um plano. Certa tarde, quando o auxiliar mais chegado do imperador estava doente, Agripina subornou o provador para ficar fora do caminho e Locusta envenenou uma grande porção de cogumelos. Depois de servir ao imperador muito vinho, Agripina trouxe ela própria os cogumelos envenenados a Claudius. Sem suspeitar de nada, Claudius devorou as guloseimas envenenadas.

Logo, o imperador estava se dobrando com dores de estômago, falta de ar e sem conseguir falar. Agripina, esposa dedicada, agitava-se freneticamente a sua volta com fingida preocupação. Poderia o amado imperador ter comido algo que não caísse bem? Locusta havia pensado numa segunda arma que Agripina iria então usar, uma pena com outra dose letal de veneno. Em sua aparente agitação para ajudar o marido tomado de dores, Agripina meteu a pena envenenada em sua garganta, com a falsa intenção de fazê-lo expelir do estômago a substância tóxica.

Em 13 de outubro do ano 54 E. C., o imperador Claudius morreu e Nero, então com 16 anos, foi nomeado imperador. Agripina estava mais do que satisfeita. Quanto a Locusta, foi jogada ao cárcere e recebeu sentença de morte.

Nero, entretanto, possuía seus próprios rivais e medos. Claudius tinha um filho de 14 anos de um casamento anterior, chamado Britannicus. Nero sabia que Britannicus também tinha pretensões ao trono e precisava certificar-se de que Britannicus não iria atrapalhá-lo. Sorrateiramente, poucos meses depois de tornar-se imperador, Nero ordenou que Locusta fosse libertada da prisão e imaginou um novo plano para as habilidades da envenenadora.

Num jantar de família ao entardecer, o vinho foi trazido e derramado nos cálices. Os provadores de comida testaram a bebida das taças e passaram-nas aos convidados. Nero, Agripina, sua mãe, vários outros parentes e o jovem Britannicus, estavam todos completamente ignorantes quanto ao estratagema. Quando Britannicus tomou um bole de vinho, devolveu o cálice ao provador, reclamando que a bebida estava muito quente. O provador de comida adicionou um pouco de água fria ao vinho e devolveu-o ao menino. Dessa vez, porém, o provador tinha esquecido de provar a água fria e limpa que fora adicionada à taça de Britannicus – e foi ali que Locusta tinha vertido sua poção venenosa.

Assim que Britannicus caiu em convulsões, Nero calmamente lembrou aos convidados que Britannicus sofria de epilepsia e recusou-se a chamar qualquer ajuda para o rapaz que estertorava. A ansiedade de Agripina era terrível! Ela sabia exatamente o que seu filho estava fazendo, pois reconheceu a armação e compreendeu que tudo tinha sido feito sem consultá-la. Ela começou a comer seu jantar com calma, tendo cuidado para não denunciar em seu rosto o terror que enchia seu coração, pois sabia que poderia ser o próximo alvo. Os demais membros da família logo aceitaram a calma de Nero e retornaram cautelosamente à refeição vespertina, enquanto o garoto rastejava e torcia-se no chão. Ninguém teve a coragem ou foi tolo o bastante para fazer qualquer coisa em favor de Britannicus contra o desejo do imperador.

Por fim, Nero chamou os escravos para removerem Britannicus do aposento. O pretenso rival do imperador morreu poucas horas depois e foi apressadamente sepultado naquela mesma noite, apesar de uma grande tempestade e dos boatos que se espalharam de uma ponta a outra de Roma.

Tendo o imperador Nero como um de seus clientes satisfeitos, Locusta desfrutou do rápido crescimento de sua reputação e riqueza. O imperador cumulou-a com terras, dinheiro, presentes e o perdão completo por todos os envenenamentos de que fora acusada em anos passados. Houve outras recomendações do palácio e mais encomendas. Locusta estava muito ocupada com seu trabalho de envenenadora de aluguel e chegou a abrir uma escola para passar a outras seu conhecimento de ervas e toxinas, realizando testes em animais e criminosos condenados.

Com o patrocínio do imperador, Locusta gozou de um período de grande sucesso comercial. Isso até o Senado Romano finalmente ter a coragem de condenar Nero à morte em 68 E. C. Locusta previdentemente fornecera a Nero um kit de envenenamento para si mesmo, contudo, na confusão do momento, Nero perdeu-o. Antes que pudesse ser trazido ante o Senado para ser julgado pela multidão de seus crimes, Nero encontrou a morte com sua própria adaga.

Locusta, após a queda de Nero, tentou continuar sua atividade com a maior discreção. Porém, devido a sua enorme reputação como envenenadora profissional não mais apoiada pelo favor do soberano, a gaulesa foi executada pouco depois, naquele mesmo ano.

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