O Filelenismo Gaulês – parte 1

ANFIPOLISFilelenismo: interesse ou estima pelas coisas gregas.

As relações culturais e linguísticas entre celtas e gregos eram tão fortes que, ao menos a partir do séc. IV a. C., estes começaram a perguntar-se qual seria o origem desses laços. Diversas hipóteses foram propostas, misturando, como seria de se esperar, a mitologia e a história às primeiras observações etnográficas (1).

Sem sombra de dúvida, a teoria mais popular era aquela que associava o próprio Hēraklēs à Gallia:

Relata-se que Hēraklēs, depois de haver arrebatado o gado de Geryon de Erythea, vagueava pelo país dos celtas e chegou à morada de Bretannos, que tinha uma filha chamada Keltinē. Keltinē apaixonou-se por Hēraklēs e escondeu o gado, recusando-se a devolvê-lo a não ser que ele antes a satisfizesse. É certo que Hēraklēs estava muito ansioso para levar o gado em segurança para casa, porém estava muito mais impressionado pela beleza da jovem e concordou com seus desejos. E então, quando se completou o tempo, nasceu-lhes um filho chamado Keltos, de quem toda a raça céltica recebeu o nome.

Parthénios de Nicaea, gramático e poeta grego do séc. I a. E. C., Erotica Pathemata (“Das Aflições do Amor”, II, 30)

Na mitologia grega, esse heroi surge como um grande colonizador. É ele quem comunica aos bárbaros os valores da civilização. Por todos os lugares onde passa, instauram-se duas instituições principais, fundamentais para a civilização em sentido grego, a “pólis” e o sacrifício animal. Por isso, acreditava-se que Hēraklēs se tivesse aventurado pelas regiões ocidentais, além do mundo conhecido.

Depois de ter ultrapassado o estreito de Gibraltar, onde teria deixado como lembranças as colunas que levam seu nome, foi à conquista dos bois de Geryon para conduzi-los ao Ocidente. Cabe uma observação quanto a esse ponto: os bovinos são animais ligados de modo muito íntimo ao trabalho humano e oferendas agradáveis aos deuses olímpicos. Com sua passagem, esses animais marcam a fundação de vilas, cidades e santuários e a abolição do sacrifício humano.

Na Gallia, Hêraklês teria realizado outros trabalhos e deixado vários traços de sua passagem. O mais significativo é o de ordem amorosa, visto acima. O historiador grego Diódōros Sikeliṓtēs (Bibliotheca Historica, V, 24) acrescenta outras informações ao relato do poeta Parthénios:

Uma vez que temos estabelecido os fatos relativos às ilhas que se encontram nas regiões ocidentais, consideramos que não será estranho para nosso propósito discutir brevemente as tribos da Europa que estão próximas delas e que não mencionamos em nossos livros anteriores. Eis que a Kéltikē foi governada no passado, assim se conta, por um homem de renome, que tinha uma filha de estatura incomum e que de longe excedia em beleza a todas as demais donzelas. Mas ela, por causa de sua força física e beleza maravilhosa, era tão arrogante que se negava a cada homem que pretendia sua mão, pois acreditava que nenhum de seus pretendentes era digno dela. Então, no curso de sua campanha contra os Geryones (2), Hēraklēs visitou a Kéltikē e fundou ali a cidade de Alésia e a jovem, ao ver Hēraklēs, admirou sua intrepidez e superioridade corporal e aceitou seus abraços com toda avidez, os pais dela tendo dado o seu consentimento. Dessa união, ela deu à luz um filho chamado Gálates, que sobrepujou em muito todos os jovens da tribo em presença de espírito e força do corpo. E, quando ele tinha alcançado a idade adulta, subiu ao trono de seus pais, subjugou uma grande parte do território vizinho e realizou grandes feitos de guerra. Tornando-se famoso por sua bravura, ele chamou seus súditos gálatas ou gauleses de seu próprio nome e estes, por sua vez, deram seu nome a todos os da Galátia ou Gallia.

(2) Etnografia: ramo das ciências humanas que tem por objeto o estudo descritivo das etnias.
(3) No plural porque o rei Geryon era um gigante com três cabeças e corpo triplo até a cintura.

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