Divinação druídica

Hippolytus (170 235), Philosophúmena (“Ensinamentos Filosóficos”;clip8_51b título alternativo: Katà pasôn hairéseon élenkhos/Refutatio Omnium Haeresium, i. e., “Refutação de Todas as Heresias”), I, 22:

“E os druidas célticos exploraram com a máxima minúcia a filosofia pitagórica depois que Zamolxis, trácio de nascimento, um servo de Pitágoras, tornou-se para eles o fomentador dessa doutrina. Eis que, após a morte de Pitágoras, Zamolxis, para lá dirigindo-se, tornou-se-lhes o desenvolvedor dessa filosofia. Os celtas consideram-nos profetas e videntes em razão de lhes predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica, a respeito de cujos métodos não ficaremos em silêncio, uma vez que alguns neles encontraram inspiração para heresias; os druidas, no entanto, recorrem também a ritos mágicos.”

Seathrún Céitinn, em Foras Feasa ar Éirinn (“Alicerce do Conhecimento sobre a Irlanda”), §46, escreveu:

“Quanto aos druidas, o uso que faziam dos couros dos touros oferecidos em sacrifício era guardá-los a fim de fazer conjuros ou lançar geasa sobre demônios. E muitas eram as formas em que lhes impunham geasa, tais como olhar fixamente suas próprias imagens na água (1), ou contemplar as nuvens do céu (2), ou escutar atentamente o barulho do vento ou o chilrear dos pássaros (3). Porém, quando falhavam todos esses recursos e viam-se obrigados a medidas extremas, o que faziam era formar cercados circulares de sorveira e lançar em cima o que fora oferecido em sacrifício, colocando o lado que estivera junto à carne mais elevado e confiando em suas geasa para chamar os demônios e deles obter informação (4), tal como hoje em dia faz no circo o prestidigitador, de onde vem o antigo ditado desde então corrente que diz ter alguém ‘ido ao seu cercado do conhecimento (5)’ quando fez o máximo para obter uma informação.”

(1) deochnaireacht é a divinação pela observação dos movimentos na água ou em outros líquidos. B.
(2) néaladóireacht é a divinação pela observação das nuvens. B.
(3) dreanaireacht é a divinação pelo voo dos pássaros. B.
(4) fáistine é a palavra irlandesa para divinação em geral. B.
(5) cliatha fis em irlandês. B.

Hippolytus e Céitinn aparentemente escreveram sobre o mesmo tema: druidas. Mas apenas aparentemente. Hippolytus foi um romano do séc. III e retirou informações de obras hoje perdidas de autores clássicos. Essas obras, quando Hippolytus as consultou, já eram velhas de séculos. Seathrún Céitinn (Geoffrey Keating) foi um poeta, historiador e padre católico irlandês do séc. XVII. As fontes que ele usou para escrever a Foras Feasa ar Éirinn também estão desaparecidas em grande parte ou sequer chegam a ser conhecidas. Obviamente, tendo vivido no séc. XVII, sua chance de possuir conhecimento direto das práticas dos druidas é ainda mais remota que a de Hippolytus. Ambos repetem não algo que tivessem visto, mas algo que leram em fontes que achavam merecedoras de crédito.

Tendo essas circunstâncias em mente e desconsiderando o fato de que Hippolytus refere-se aos druidas gauleses e Céitinn, aos irlandeses (que não são de jeito nenhum a mesma coisa, nem geográfica nem cronologicamente), fica ao menos para mim a impressão:

1) de que “ritos mágicos” não eram a primeira opção para os druidas gauleses, porém os “cálculos e números conforme a arte pitagórica”;
2) de que ritos envolvendo os couros de animais sacrificados não seriam a primeira opção para os druidas irlandeses.

Bellouesus /|\ (Druidismo Brasil, # 20.035, 04/09/2011)

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