Arquivo mensal: junho 2014

Divinação druídica

Hippolytus (170 235), Philosophúmena (“Ensinamentos Filosóficos”;clip8_51b título alternativo: Katà pasôn hairéseon élenkhos/Refutatio Omnium Haeresium, i. e., “Refutação de Todas as Heresias”), I, 22:

“E os druidas célticos exploraram com a máxima minúcia a filosofia pitagórica depois que Zamolxis, trácio de nascimento, um servo de Pitágoras, tornou-se para eles o fomentador dessa doutrina. Eis que, após a morte de Pitágoras, Zamolxis, para lá dirigindo-se, tornou-se-lhes o desenvolvedor dessa filosofia. Os celtas consideram-nos profetas e videntes em razão de lhes predizerem certos eventos futuros por meio de cálculos e números conforme a arte pitagórica, a respeito de cujos métodos não ficaremos em silêncio, uma vez que alguns neles encontraram inspiração para heresias; os druidas, no entanto, recorrem também a ritos mágicos.”

Seathrún Céitinn, em Foras Feasa ar Éirinn (“Alicerce do Conhecimento sobre a Irlanda”), §46, escreveu:

“Quanto aos druidas, o uso que faziam dos couros dos touros oferecidos em sacrifício era guardá-los a fim de fazer conjuros ou lançar geasa sobre demônios. E muitas eram as formas em que lhes impunham geasa, tais como olhar fixamente suas próprias imagens na água (1), ou contemplar as nuvens do céu (2), ou escutar atentamente o barulho do vento ou o chilrear dos pássaros (3). Porém, quando falhavam todos esses recursos e viam-se obrigados a medidas extremas, o que faziam era formar cercados circulares de sorveira e lançar em cima o que fora oferecido em sacrifício, colocando o lado que estivera junto à carne mais elevado e confiando em suas geasa para chamar os demônios e deles obter informação (4), tal como hoje em dia faz no circo o prestidigitador, de onde vem o antigo ditado desde então corrente que diz ter alguém ‘ido ao seu cercado do conhecimento (5)’ quando fez o máximo para obter uma informação.”

(1) deochnaireacht é a divinação pela observação dos movimentos na água ou em outros líquidos. B.
(2) néaladóireacht é a divinação pela observação das nuvens. B.
(3) dreanaireacht é a divinação pelo voo dos pássaros. B.
(4) fáistine é a palavra irlandesa para divinação em geral. B.
(5) cliatha fis em irlandês. B.

Hippolytus e Céitinn aparentemente escreveram sobre o mesmo tema: druidas. Mas apenas aparentemente. Hippolytus foi um romano do séc. III e retirou informações de obras hoje perdidas de autores clássicos. Essas obras, quando Hippolytus as consultou, já eram velhas de séculos. Seathrún Céitinn (Geoffrey Keating) foi um poeta, historiador e padre católico irlandês do séc. XVII. As fontes que ele usou para escrever a Foras Feasa ar Éirinn também estão desaparecidas em grande parte ou sequer chegam a ser conhecidas. Obviamente, tendo vivido no séc. XVII, sua chance de possuir conhecimento direto das práticas dos druidas é ainda mais remota que a de Hippolytus. Ambos repetem não algo que tivessem visto, mas algo que leram em fontes que achavam merecedoras de crédito.

Tendo essas circunstâncias em mente e desconsiderando o fato de que Hippolytus refere-se aos druidas gauleses e Céitinn, aos irlandeses (que não são de jeito nenhum a mesma coisa, nem geográfica nem cronologicamente), fica ao menos para mim a impressão:

1) de que “ritos mágicos” não eram a primeira opção para os druidas gauleses, porém os “cálculos e números conforme a arte pitagórica”;
2) de que ritos envolvendo os couros de animais sacrificados não seriam a primeira opção para os druidas irlandeses.

Bellouesus /|\ (Druidismo Brasil, # 20.035, 04/09/2011)

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Druidismo: como e para quê?

frankensweaterSem usar de uma verbosidade desnecessária ou recorrer a bibliografias extensas, cabe definir o Druidismo como uma dentre as muitas formas possíveis de interação entre o homem e o mundo. O mundo é a matéria-prima do Druidismo. O Druidismo é possível hoje porque se encontra inteiro no mesmo lugar de onde foi laboriosamente extraído no passado: ao nosso redor. Se não for encontrado a cada momento em todo recanto, inútil será buscá-lo em qualquer fonte.

Mas que se observe isto: o mundo que hoje nos serve de mestre já não é o dos antigos celtas e as lições que ele tem a ensinar não podem ser iguais às dos antigos. O passado já teve sua vez. As palavras dos velhos cronistas, passadas de geração em geração, e os restos exumados pela pá do arqueólogo não nos ensinam o que fazer ou como fazê-lo. Essas informações trazem ao Druidismo apenas uma indicação de como podemos olhar a realidade que nos cerca. Em certos casos, até sugerem uma conclusão.

O estado altamente fragmentário dos dados disponíveis não nos assusta nem preocupa. Aquilo que faltar será fornecido pela mesma Vida que antes nos proveu.

Qual a busca do Druidismo? Essa é uma pergunta cuja resposta apresenta possibilidades de variação em número tão elevado quanto o das definições de “Druidismo”. No entanto, alguns objetivos comuns podem ser apontados:

– Resolver conflitos de forma não-violenta;
– Definir a posição do ser humano no mundo e a necessidade da ética no relacionamento do homem com o homem e com todas as outras espécies;
– Propor formas de produção e de consumo que não agridam o meio-ambiente;
– Enfatizar a responsabilidade individual e a autodeterminação;
– Promover a valorização do ensino, do conhecimento, do estudo e a meritocracia;
– Valorizar a discussão e a participação ampla em questões de interesse coletivo.

Ideias como essas (e outras que não foram citadas) abrigam-se sob o rótulo “Druidismo”. Quem declara “sigo o Druidismo”, declara ser partidário dessas mesmas ideias.

Os rótulos são importantes na medida em que descrevem com precisão o conteúdo. Quando você se adequa ao conteúdo, passa a merecer o rótulo, não o contrário. Mas isso a gente acaba descobrindo, é só questão de tempo. Às vezes leva menos, às vezes, um pouco mais.

Bellouesus /|\

Os Três Círculos da Manifestação

ill-337Os Três Círculos da Manifestação fazem parte do sistema do Barddas, criado no séc. XVIII por Iolo Morganwg e ainda usado por um bom número de ordens druídicas atuais. Os três mundos ou reinos são nele apresentados como círculos concêntricos, que se chamam:

1. Abred (a Criação Material), que possui os círculos interiores de:

1.1.a Annwn (o Abismo Primordial, de onde a vida emana de forma inconsciente);

1.1.b Gobren (a Injustiça ou Provação, onde a vida inconsciente surgida em Annwn enfrenta todos os tipos de provações e descobre o destino ou direção que seguirá no plano seguinte);

1.1.c Kenmil (a Crueldade, onde a vida, que havia surgido inconsciente em Annwn e aprendido a reagir em Gobren, adquire sensibilidade).

Esses três círculos correspondem à existência mineral, vegetal e animal. Formam o mundo chamado 1.1. Ank (Fatalidade), onde a vida encontra-se submetida ao destino.

O aspecto invisível de Ank manifesta-se como 1.2. Ankou ou Ankoun, incorporando todos os fenômenos da vida subconsciente. Corresponde ao Plano Astral do ocultismo.

Além de Abred, está 3. Gwynfyd, o Mundo Branco, o reino celestial dos espíritos e divindades acima de nós e/ou na fronteira externa do círculo de Abred, o lar da humanidade. Se a vida, saída de Annwn, que adquiriu sua individualidade no círculo de Abred, não estiver pronta para adentrar Gwynfyd, não possuindo afinidade com as condições de vida nesse plano, obrigatoriamente continuará a viajar pelos círculos de Abred, submetida a Ank.

Na fronteira exterior de Gwynfyd está 3. Ceugant, o Mundo Vazio, onde se encontra exclusivamente a Existência Primordial, que reúne todos os opostos (Ser/Não-Ser, Vida/Morte) e onde nenhum outro ser pode entrar, uma vez que a ninguém é dado, simultaneamente, existir e não existir.

O esquema dos Três Mundos ou Círculos é assim:

1 Abred

1.1 Ank

1.1.a Annwn
1.1.b Gobren
1.1.c Kenmil

1.2 Ankou

2 Gwynfyd

3 Ceugant

O Barddas descreve a viagem espiritual da alma como uma migração que inicia em Annwn, o Mundo Inferior, atravessando Abred, onde experimenta a vida de todas as espécies de criaturas vivas, de fungos a insetos, plantas e animais, tornando-se finalmente um ser humano.

Como humanos, podemos avançar para Gwynfyd e nos tornarmos divinos ou retornar à forma pré-humana e repetir a tentativa. Talvez essa ideia tenha surgido da observação feita por Caesar: “Aqueles [i. e., os druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte” (Commentarii de Bello Gallico, VI, 14).

Esses três círculos correspondem também ao meio-ambiente físico: o céu acima de nós, a terra onde estamos, a água do mar que se estende para as profundezas. O céu e o sol são obviamente o reino celestial, pois encontram-se acima de nós. Na mitologia irlandesa, os deuses chegam em barcos que voam pelo ar e o mar comumente estava associado ao Mundo Inferior e a passagens de/para Tír na nÓg.

Há narrativas que contam viagens de barco para as ilhas do Outro Mundo, chamadas imramma, como a de Bran, filho de Febal. O poeta galês Taliesin descreve a viagem marítima de Arthur em busca do caldeirão de Annwn. Na Irlanda, é necessário cruzar o rio Bóinne para alcançar Sí an Bhrú, partindo de Temair na Rí. O mundo físico, desse modo, replica a cosmologia. Igualmente o entendimento científico da evolução conta, a seu próprio modo, o mesmo relato sobre nossa migração espiritual: nossos ancestrais pré-humanos emergiram do mar, na terra assumiram a forma humana e agora, graças à tecnologia, somos capazes de voar pelo céu.

Quando os três círculos encontram-se alinhados, como se dá na câmara de Brú na Bóinne no solstício de inverno pela interação entre a luz do sol, a terra e o próprio síd, o tempo renova-se e a vida, graças à crescente energia do sol, recebe o poder de continuar. Esse evento não é isolado e permanente, porém cíclico, essencialmente uma repetição do ato original da criação, repetição pela qual esta se torna um processo contínuo e em permanente realização.

Bellouesus /|\ (Druidismo Brasil, # 20.707, 28/07/2012)