Muirgheal

weepingwillow

“Qual é então a raiz da poesia e de toda as outras formas de sabedoria? Não é difícil. Três caldeirões nascem em cada pessoa, isto é, o Caldeirão da Incubação, o Caldeirão do Movimento e o Caldeirão da Sabedoria.

“O Caldeirão do Aquecimento (Coire Goiriath) nasce virado para cima numa pessoa desde o começo. Distribui sabedoria às pessoas na sua juventude.

“O Caldeirão da Vocação (Coire Érmai), no entanto, aumenta depois de virar. Isso significa que ele nasce virado de lado numa pessoa.

“O Caldeirão da Sabedoria (Coire Sois) nasce sobre seus lábios (virado para baixo) e distribui sabedoria em cada arte, além da (em acréscimo à) poesia”.

Atribuído a Amergin Joelho Brilhante

Muirgheal acomodou-se sob o salgueiro na encosta da colina, a pequena árvore perdida num mar verde. Observou as formas das nuvens até que o espelho de turquesa do céu começasse a tingir-se de vermelho no horizonte. Pela cortina esfarrapada dos ramos pendentes, a menina esquadrinhava a distância e via a terra vestir-se com o manto da noite em muda lucidez.

O dia partiu sem um sussurro, deixando para trás campos castanhos e o salgueiro tristonho de ramos encurvados sob o firmamento inalcançável. O dia partiu em silêncio, escorreu pelas folhas, enquanto Muirgheal fitava o horizonte, sua mente dançando com o vento que não conhece fadiga.

A menina cruzou frouxamente as pernas e endireitou a espinha, observando o ritmo de sua respiração, sem tentar alterá-lo. A simples atenção ao fluxo tornou as inalações mais completas e profundas. Cruzou as mãos sobre seu ventre, cobrindo o Caldeirão do Aquecimento, e sua mente dirigiu a correnteza da respiração para esse ponto, permitindo que vertesse dentro do vaso interno. As inalações e exalações tornaram-se mais rápidas, porém igualmente profundas e plenas, até que não houvesse mais espaço em seus pulmões. Ela sentiu a agitação nas águas do caldeirão e seu vapor subindo.

Levou então as mãos ao centro do peito, à região do coração, onde se posiciona o Caldeirão da Vocação. Os vapores subiam do ventre para esse local sob suas mãos e o córrego de ar agora desaguava ali. Muirgheal viu o grande receptáculo não totalmente emborcado, não completamente em pé, e inalou profundamente, exalando depressa como alguém que suspira. Envolvido pelas emanações do Caldeirão do Aquecimento e recebendo o jato prateado do novo sopro, o vaso do coração aproximava-se da posição ereta. Um fumo tênue já subia de seu conteúdo.

Muirgheal segurou sua cabeça com as duas mãos e deixou que o ar enchesse seu crânio, sede do Caldeirão da Sabedoria. Viu então uma grande luz, o salgueiro envolvido pelo poente e a menina sentada embaixo dele numa pele de veado. E percebeu nesse instante que tinha feito o bastante para um só dia, pois os cenários do seu desejo tinham se sobreposto a sua realidade. Turlach, seu tutor, já a advertira: “Iluminar-se não é contemplar figuras de luz, mas fazer a escuridão consciente”.

Ela sacudiu as pernas, comeu um pedaço de pão e tomou um gole de água do odre em seu alforje. Levantou-se, recolheu a pele que lhe servira de tapete e voltou para ajudar sua mãe adotiva com o jantar.

Bellouesus /|\

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