Druida e drui

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Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, III, 15: Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, VI, 14: Os druidas obtiveram a isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os  druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pomponius Mela, De Chorographia, III, 14-15: Restam ainda traços de costumes atrozes não mais praticados e, conquanto agora se abstenham de matança aberta, ainda derramam o sangue de vítimas levadas ao altar. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas.

Strabon, Geographica, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participam de guerras (” obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio é livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais impendem”);
c) são contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhem espontaneamente ser druidas ou são levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) são professores;
f) atravessam um longo período de treinamento;
g) são letrados, embora optem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinam geografia (“o tamanho e a forma do mundo”), astronomia (“o movimento das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” voltou ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica, especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”. Desse trecho de Caesar saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

Bellouesus /|\

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2 ideias sobre “Druida e drui

  1. caeritaobi

    d) A Morrígu

    Também Morrígan, Mórríghean, Mór-Ríogain, seu nome significa “Rainha Fantasma” ou “Grande Rainha”. É a deusa irlandesa da morte no campo de batalha, magia e soberania que ajudou as Tuatha Dé Danann nas duas batalhas de Magh Tuireadh. Não raro ela é apresentada como uma tríade de deusas, todas irmãs, sendo Badb, Macha e Nemain / Badb, Macha e Anand as combinações mais comuns, caso em que o grupo é designado pelo plural “Morrígna”. Sua forma favorita (embora não aúnica) é o corvo, que ela assumiu para pousar no ombro do moribundo Cúchulainn, o grande heroi de Uladh (10), quando este foi finalmene vencido e morto na guerra (11) contra a rainha Medb de Connacht (12). Cúchulainn não havia somente recusado o amor da Morrígu, mas chegou mesmo a agredi-la, o que selou o seu destino trágico.

    10) Ulster, a província ao norte da Irlanda. 11) Trata-se do Táin Bó Cuailgne (“O Ataque às Vacas de Cúailgne”), o grande épico da literatura irlandesa medieval. 12) Connaught, a província a oeste da Irlanda.

    Resposta
  2. Pingback: Aprender sobre Druidismo | cezinha – vate

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