Contos de Mongan

MONGAN

O Nascimento de Mongan

Fiachna Lurga, o pai de Mongan, era o único rei da província. Ele tinha uma amigo na Escócia, a saber, Aedan, o filho de Gabran. Veio para ele uma mensagem de Aedan. Veio uma mensagem de Aedan pedindo que ele fosse em seu socorro.

Ele estava em guerra com os saxões. Um terrível guerreiro fora trazido por eles para consumar a morte de Aedan em batalha. Então Fiachna atravessou o mar, deixando sua rainha em casa. Enquanto as multidões estavam combatendo na Escócia, um homem de nobre aparência veio à esposa dele em sua fortaleza, em Ráth Mhór de Muigh Line. No momento em que ele chegou não havia muitos na fortaleza. O estranho pediu à mulher para arranjar um lugar de encontro.

A mulher disse que não havia no mundo posses ou tesouros pelos quais ela fizesse qualquer coisa para trazer desgraça à honra de seu marido. Ele perguntou se ela faria isso para salvar a vida de seu marido. Ela disse que, se o visse em perigo e dificuldade, ela o ajudaria com tudo que estivesse em seu poder. Então ele disse que ela deveria fazer isso, “pois teu marido está em grande perigo. Um homem terrível foi trazido contra ele e ele morrerá por sua mão. Se nós, tu e eu, fizermos amor, disso terás um filho. Esse filho será famoso, ele será Mongan. Eu irei à batalha que será travada amanhã na terceira hora, de forma a salvar Fiachna e eu derrotarei o guerreiro diante dos olhos dos homens da Escócia. E contarei a teu marido nossas aventuras e que foste tu quem me mandou em seu auxílio.”

Assim foi feito. Quando um exército se deteve na frente do outro, os barcos viram um homem de nobre aparência diante do exército de Aedan e Fiachna. Ele foi na direção de Fiachna especificamente e contou-lhe sobre a conversação com sua esposa no dia anterior e que lhe prometera vir em seu auxílio naquela hora. Portanto, ele foi na frente do exército contra o outro e derrotou os guerreiros, de modo que Aedan e Fiachna venceram a batalha.

E Fiachna voltou a seu próprio país e a mulher estava grávida e deu à luz um filho, o próprio Mongan, filho de Fiachna. E ele agradeceu a sua esposa pelo que ela fizera por ele e ela confessou todas as suas aventuras. De forma que esse Mongan é um filho de Manannan mac Lir, embora seja chamado Mongan, o filho de Fiachna. Pois quando o estranho separou-se dela pela manhã, ele deixou uma estrofe com a mãe de Mongan, dizendo:

Vou para casa,
A pura manhã aproxima-se pálida.
Manannan, de Lir o filho,
É o nome do que veio a ti.

Uma Lenda de Mongan

Eis que certa vez quando Forgall, o poeta, estava com Mongan, este, numa certa hora do dia, saiu à frente da sua fortaleza, onde ele encontrou um aprendiz de bardo estudando sua lição. Disse Mongan:

Tudo está em falta
Numa capa de pano de saco.
Na época certa alcançarás
O fim de teus estudos.

Mongan apiedou-se do estudioso, que vestia uma capa de pano de saco. Ele quase não tinha com que se manter.

A fim de saber se ele seria um mensageiro fiel e bom, ele lhe disse: “Vai agora até alcançares o monte encantado de Lethet Oidni e traze uma pedra preciosa que lá tenho e para ti mesmo toma uma libra de prata branca, na qual há doze onças. Destas obterás auxílio. Daqui essa é tua viagem a Cnocc Bane. Terás boas-vindas no monte encantado de Cnocc Bane por minha causa. De lá, para Duma Granerit. De lá, para o monte encantado de Lethet Oidni. Toma a pedra para mim e vai à correnteza do Lethet Oidni, onde encontrarás uma libra de ouro, em que há nove onças. Traze-a contigo para mim.”

O estudioso seguiu a sua jornada. No monte encantado de Cnocc Bane ele encontrou um casal de nobre aspecto. Eles deram grandes boas-vindas ao mensageiro de Mongan. Esse era o seu dever. Ele prosseguiu. Encontrou um outro casal em Duma Granerit, onde recebeu as mesmas boas-vindas. Ele foi ao monte encantado de Lethet Oidni, onde novamente encontrou um outro casal. Deram grande boas-vindas a um homem de Mongan. Ele foi recebido muito hospitaleiramente, como nas outras noites.

Havia um quarto maravilhoso no lado da morada do casal. Mongan lhe dissera que ele deveria pedir sua chave. Ele assim fez. A chave foi-lhe trazida. Ele o abriu. Fora-lhe dito que nada pegasse da casa, senão aquilo pelo que fora enviado. Ele assim fez. A chave ele devolveu ao casal. Sua pedra, entretanto, e sua libra de prata ele levou consigo. Ele foi em seguida à correnteza do Lethet Oidni, de onde ele pegou sua libra de ouro. Ele voltou a Mongan, a quem ele deu sua pedra e ouro. Ele mesmo pegou sua prata. Essas foram suas perambulações.

Uma lenda da qual se conclui que Mongan era Finn Mac Cumaill

Mongan estava em Ráth Mhór de Muigh Line, em seu domínio. Veio a ele Forgall, o poeta. Por causa dele mais de um casal já se queixara a Mongan. Toda noite o poeta recitaria uma história para Mongan. Tão grande era seu conhecimento que assim estiveram de Samhain a Beltane. Ele recebia presentes e comida de Mongan.

Certo dia, Mongan perguntou a seu poeta qual fora a morte de Fothad Airgdech. Forgall disse que ele fora morto em Dubhthoire, em Laighin. Mongan disse que isso era falso. O poeta disse que iria satirizá-lo com suas zombarias e que satirizaria seu pai, sua mãe e seu avô e que cantaria feitiços sobre as águas deles, de modo que o peixe não fosse apanhado na foz de seus rios. Ele cantaria sobre suas florestas a fim de que estas não dessem fruto, sobre suas planícies, a fim de que estas ficassem para sempre estéreis de qualquer produção. Mongan prometeu dar-lhe todas as coisas preciosas que desejasse até o valor de sete donzelas escravas, ou duas vezes sete donzelas escravas, ou três vezes sete. Por fim, ofereceu-lhe um terço, ou a metade da sua terra, ou toda a sua terra. Finalmente, qualquer coisa que ele quisesse, exceto sua própria liberdade e a de sua esposa, Breothigernn, a menos que ele fosse redimido antes do final de três dias. O poeta recusou tudo, a não ser com relação à mulher. Por causa de sua honra Mongan consentiu. Com isso a mulher ficou cheia de tristeza. A lágrima não foi retirada de seu rosto.

Mongan não lhe disse para não ficar triste, o socorro certamente viria para eles. Assim, o terceiro dia chegou. O poeta começou a impor seu compromisso. Mongan lhe disse para esperar até o anoitecer. Mongan e a esposa estavam em seu pavilhão. A mulher chorava ao ver que sua entrega se aproximava e ela não via nenhuma ajuda. Mongan disse: “Não fiques triste, mulher. Aquele que agora mesmo está vindo em nosso auxílio, ouço seus pés no Labrinne.”

Eles esperaram um pouco. Outra vez a mulher chorou. “Não chores, mulher! Aquele que está agora vindo em nosso auxílio, ouço seus pés no Main.”

Assim, eles estavam esperando a cada duas rondas do dia. Ela iria chorar e ele diria ainda: “Não chores, mulher. Aquele que está vindo em nosso auxílio, ouço seus pés no Laune, no Loch Leane, no Rio Estrela da Manhã entre os Ui Fidgente e os Arada, no Suir em Mag Femin, em Munster, no Echuir, no Bhearú, no Life, no Bhóinn, no Dé, no Tuarthesc, no Lago Cairlinn, no Nid, no Rio Rí, no Rio Lame diante de Ráth Mhór.”

Quando a noite caiu sobre eles, Mongan estava em seu sofá no palácio e sua esposa estava à sua direita e muito triste. O poeta os estava intimando por suas garantias e obrigações. Enquanto eles estavam lá, anunciou-se que um homem se aproximava do recinto pelo sul. Sua capa estava enrolada em volta dele e, na sua mão, um cabo de lança sem a ponta, o qual não era pequeno. Com esse cabo ele saltou as três fortificações, de modo que aterrisou no meio do recinto, dali saltou para o meio do palácio e dali para o espaço entre Mongan e a parede atrás de sua almofada. O poeta estava no fundo da casa atrás do rei. A questão foi levantada na casa diante do guerreiro que chegara.

“Qual é a questão aqui?”, disse ele.

“Eu e aquele poeta lá”, disse Mongan, “fizemos uma aposta sobre a morte de Fothad Airgdech. Ele disse que foi em Dubhthoire, em Laighin. Eu disso que isso era falso.”

O guerreiro disse que o poeta estava errado.

“Isso será provado. Nós estávamos contigo, com Finn”, disse o guerreiro.

“Psst!”, disse Mongan. “Isso não está certo.”

“Estávamos com Finn, então”, disse ele. “Viemos da Escócia. Encontramo-nos com Fothad Airgdech lá longe, no Rio Lame. Ali lutamos uma batalha. Eu fiz um arremesso contra ele, de forma que a lança passou através dele e atingiu a terra além dele e deixou sua cabeça de ferro cravada na terra. Aqui está o cabo que estava naquela lança. A pedra nua de que fiz aquele arremesso será encontrada e a cabeça de ferro será achada na terra e a tumba de Fothad Airgdech será encontrada um pouco a leste dela. Uma arca de pedra está sobre ele ali na terra. Lá, em cima da arca, estão suas duas pulseiras de prata e seus dois braceletes e seu torque de

prata. E perto da sua tumba há um pilar de pedra. E no fim do pilar que está na terra há uma inscrição em ogham. Isto é o que ela diz: ‘Este é Eochaid Airgdech. Cailte me matou em um combate contra Finn.'”

Eles foram com o guerreiro. Tudo então foi encontrado daquele modo.

Era Cailte, o filho adotivo de Finn, que viera até eles. Mongan, contudo, era Finn, embora ele não permitisse que isso fosse dito.

Fonte: todos os textos são do Leabhar na hUidhre (“Livro da Vaca Parda”), manuscrito irlandês do começo do séc. XII.

O Nascimento de Mongan (texto original)

Uma lenda da qual se conclui que Mongan era Finn Mac Cumaill (texto original)

Tradução: Bellouesus /|\

Anúncios

Uma ideia sobre “Contos de Mongan

  1. Pingback: Aprender sobre Druidismo | cezinha – vate

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s