Arquivo mensal: outubro 2013

Druida e drui

anglesey-druids

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, III, 15: Estes afirmam conhecer o tamanho e a forma do mundo, os movimentos dos céus e a vontade dos deuses. Ensinam muitas coisas aos mais nobres da nação em um período de formação que dura até vinte anos, encontrando-se em segredo, seja numa gruta ou em bosques isolados. Um de seus preceitos chegou ao conhecimento comum, a saber, que as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos e isso foi permitido manifestamente porque torna a multidão mais pronta para a guerra e é também por essa razão que queimam ou enterram com seus mortos coisas que lhes seriam apropriadas em vida e que, em tempos passados, até costumavam adiar a conclusão de negócios e o pagamento das dívidas até sua chegada ao outro mundo e havia alguns que se lançavam de bom grado às piras funerárias de seus parentes para com estes compartilhar a nova vida.

Caius Iulius Caesar, Commentarii de Bello Gallico, VI, 14: Os druidas obtiveram a isenção do serviço militar e não pagam os tributos que aos demais impendem; estão isentos do serviço militar e de todo tipo de taxas. Tentados por tais vantagens, muitos espontaneamente se dedicam aos estudos druídicos, enquanto outros são enviados por seus pais ou outras pessoas próximas. Diz-se que são ali ensinados versos em grande número. Por essa razão, permanecem alguns até vinte anos no aprendizado. E não consideram ser lícito confiar à escrita o ensinamento, embora em todos os outros assuntos públicos e privados sirvam-se das letras gregas. Acredito que praticam essa tradição por duas razões: primeira, para que o povo comum não tenha acesso aos seus ensinamentos e segunda para que os que aprendem não descuidem de fortalecer a memória, confiados nas letras. Pois muitas vezes acontece que a escrita enfraqueça a aplicação da pessoa em aprender e reduza a habilidade de memorizar. Aqueles [i. e., os  druidas] desejam sobretudo persuadir de que as almas não perecem, mas, após a morte, passam de um corpo a outro, e por esse modo julgam excitar ao máximo o destemor nas batalhas e o desprezo ao medo da morte. Possuem também um grande número de outros ensinamentos que transmitem à juventude a respeito de coisas como o movimento das estrelas, o tamanho do universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses imortais.

Pomponius Mela, De Chorographia, III, 14-15: Restam ainda traços de costumes atrozes não mais praticados e, conquanto agora se abstenham de matança aberta, ainda derramam o sangue de vítimas levadas ao altar. Possuem, contudo, seu próprio tipo de eloquência e professores de sabedoria, druidas.

Strabon, Geographica, L. IV, Cap. 4, §4: Entre todos os povos gauleses, sem exceção, encontram-se três grupos que são objetos de honras extraordinárias, a saber, os Bardos, os Vates e os Druidas, ou seja, Bardos, os cantores sagrados e poetas, Vates, os que se ocupam das coisas do culto e estudam a natureza, Druidas, que, além do estudo da natureza, ocupam-se também da filosofia ética. Estes últimos são considerados os mais justos dos homens e, por essa razão, confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas; antigamente, até mesmo as questões de guerra eram submetidas a seu exame e algumas vezes foram vistos a impedir as legiões inimigas já a ponto de sacar as armas. Porém, o que especialmente lhes compete é o julgamento dos crimes de homicídio e deve-se observar que, quando são frequentes as condenações por esse tipo de crime, veem nisso um sinal de abundância e de fertilidade para o país. Os Druidas proclamam a imortalidade da alma e do mundo, o que não os impede de acreditar que o fogo e a água um dia prevalecerão sobre todo o resto.

Diodorus Siculus, Bibliotheca Historica, V, 31: Os gauleses fazem, do mesmo modo, uso de adivinhos, considerando-os merecedores do maior acatamento e esses homens predizem o futuro por meio do voo ou dos gritos das aves e da matança de animais sagrados e todos lhes são subservientes. Observam também um costume que é especialmente surpreendente e inacreditável quando desejam saber algo a respeito de questões de grande importância. Em tais casos, pois, votam à morte um ser humano e cravam uma adaga na região acima do diafragma e, ao cair a vítima vulnerada, do modo de sua queda e dos espasmos de seus membros leem o futuro, bem como do fluir de seu sangue, tendo aprendido a depositar confiança em uma antiga e de há muito praticada observância de tais matérias e é um costume deles que ninguém realize um sacrifício sem um ‘filósofo’, pois ações de graças devem ser oferecidas aos deuses, dizem, pelas mãos de homens que sejam experientes na natureza do divino e que falam, por assim dizer, a língua dos deuses e é pela intermediação de tais homens, eles pensam, que do mesmo modo as bençãos devem ser buscadas. Tampouco é somente nas necessidades da paz, mas também em suas guerras, que obedecem, acima de todos os outros, a esses homens E a seus poetas cantores e tal obediência é observada não somente por seus amigos, mas também por seus inimigos; muitas vezes, por exemplo, quando dois exércitos aproximam-se um do outro com espadas desembainhadas e lanças projetadas para frente, esses homens [Bellouesus: isto é, os ‘filósofos’ e seus poetas cantores] posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar, como se tivessem lançado um encantamento sobre animais selvagens. Desse modo, mesmo entre os mais ferozes bárbaros, o furor dá lugar à sabedoria e Ares é sobrepujado pelas Musas.

Assim, os druidas resumidamente:

a) não participam de guerras (” obtiveram a isenção do serviço militar”);
b) seu patrimônio é livre de impostos (“e não pagam os tributos que aos demais impendem”);
c) são contrários às guerras (“posicionam-se entre eles e obrigam-nos a parar”);
d) escolhem espontaneamente ser druidas ou são levados a esse estudo por familiares próximos, por vezes com vistas às vantagens do ofício;
e) são professores;
f) atravessam um longo período de treinamento;
g) são letrados, embora optem por manter na oralidade a maior parte do conhecimento;
h) ensinam geografia (“o tamanho e a forma do mundo”), astronomia (“o movimento das estrelas”), biologia, química, física (“a ordem do mundo natural”, “estudo da natureza”), teologia (“o poder dos deuses imortais”, “a vontade dos deuses”), retórica e oratória (“eloquência e professores de sabedoria”), ética (” filosofia ética”);
i) professam a imortalidade da alma humana (“as almas são eternas e há outra vida junto aos mortos”, “após a morte, passam de um corpo a outro”, “proclamam a imortalidade da alma e do mundo”);
j) árbitros em questões legais (“são considerados os mais justos dos homens e por essa razão confia-se-lhes a decisão de todas as dissensões, sejam públicas ou privadas”).

Drui (singular de druid) parece ter sido uma designação geral na Irlanda ou os irlandeses não tinham uma divisão precisa como na Gália. A mesma palavra pode ter existido na Europa continental como um termo geral. Quando os druidas emergiram como movimento distinto (na minha opinião por volta do séc. VI a. C.), podem ter se apropriado dela como designação particular. Depois da ocupação romana, quando o druidismo se tornou ilegal, o nome “druida” voltou ao uso comum.

Os druidas da Gália, talvez imitando alguma estrutura organizacional grega (a pitagórica, especificamente), chegaram a um nível de especialização funcional que os irlandeses não conheceram. Um exemplo é a passagem dos Comentários: “entre todos os druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre o druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma eleição por todos os druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do ano, todos os druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos carnutos, cuja terra é considerada o centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos druidas”. Desse trecho de Caesar saiu o arquidruida de tantas ordens atuais. A Irlanda nunca teve nada parecido.

Bellouesus /|\

Anúncios

Quem criou a expressão “interpretatio romana”?

Gaius_Cornelius_TacitusFoi Publius (ou Gaius) Cornelius Tacitus (c. 56 d. C. – após 117) na obra Germania, 43.4:

Apud Narhaualos antiquae religionis lucus ostenditur. Praesidet sacerdos muliebri ornatu, sed deos interpretatione Romana Castorem Pollumcemque memorant. Ea uis numini, nomen Alcis. Nulla simulacra, nullum peregrinae superstitionis uestigium; ut fratres tamen, ut iuuenes uenerantur.

Entre os Naharvali encontra-se um bosque, centro da religião antiga. Um sacerdote, trajado em vestes femininas, ali preside, porém os deuses lá celebrados, conforme a tradução romana, são Castor e Pollux. Tal, ao menos, é o poder manifestado pela divindade, cujo nome é Alcis. Não há imagens, tampouco traço de qualquer superstição estrangeira; não obstante, adoram esses deuses como [i. e., com o aspecto de] irmãos e rapazes.

Tradução: Bellouesus /|\

Quanto custam os serviços de um druida?

moghruithSe me perguntassem qual o preço do trabalho de um druida… Bem, posso mostrar a tabela de honorários da OAB, mas a tabela de honorários dos druidas, se algum dia existiu, está fora de alcance há muito tempo. No entanto, caro leitor, considerando o que está abaixo você poderá ter uma ideia do quanto precisaria desembolsar pela cooperação de um druida qualificado:

Trecho de O Cerco a Druim Damhghaire (Forbuis Droma Damhghaire, na tradução inglesa chamado The Siege of Knocklong), do Livro de Lios Mór (nome antigo: Leabhar Mhic Cárthaigh Riabhaigh; Irlanda, compilado por volta de 1480).

A ação ocorre no reinado de Cormac Mac Airt (Grande Rei da Irlanda no séc. III d. C.). Cormac deseja cobrar do povo de Mumhan um pesado e injusto imposto. Fiachu Muillethan, o rei provincial, chama o poderoso druida Mogh Ruith em seu auxílio. O emissário pergunta ao druida qual seria o preço do serviço:

“Não que eu não tenha o direito de exercer a realeza [diz o druida]. Porém, não é isso que lhes pedirei se os ajudar. Não penso que estejam sendo atingidos por uma praga de que eu não os possa livrar, pois meu mestre, Síomón mac Guill mac Iargaill, bem como Peadar, prometeram-me que eu nunca falharia em minha arte enquanto vivesse”.

“Dize-me”, falou Dil [o emissário], “qual pagamento e que presente desejas, se te encarregares de levar-lhes socorro?”

“É simples”, diz Mogh Ruith, “cem vacas do rebanho, cuja pelagem seja branca e brilhante e que estejam dando leite; cem porcos bem cevados; cem fortes bois de carga; cem cavalos de corrida; cinquenta belos mantos, brancos e macios; além disso, a filha do mais importante chefe do leste, ou a do que estiver logo abaixo dele, para dar-me filhos, pois eu próprio sou bem nascido pelo lado dos meus pais e quero que meus filhos sejam igualmente bem nascidos pelo lado de sua mãe, embora seja com relação a minha família que se julgará a nobreza dos jovens príncipes de nobre raça; [que tenham] o primeiro lugar no comando da cavalaria do rei de Mumhan, de forma que meu sucessor tenha perpetuamente a posição de rei provincial e que jamais infrinjam essa condição, porém cumpram tudo que me foi prometido; que o rei de Mumhan escolha seu conselheiro e confidente dentre minha descendência. Se seguidos forem seus conselhos, assegurar-lhe-ão a vitória; se ele repetir a quem quer que seja os segredos que lhe confiou o rei sem o consentimento deste, que seja destituído e condenado à morte; que meus descendentes recebam acesso à assembleia, que os três homens que se sentam diante do rei sejam escolhidos entre eles, bem como aquele que fica a sua direita. Que me sejam dadas terras em Mumhan à minha escolha, abarcando toda a superfície que meu servos puderem percorrer em um dia, sem que os reis de Mumhan possam ter representantes, tomar reféns ou exercer a soberania sobre essa terra e sem que possam pedir ao meu sucessor outra garantia além de seu chicote colocado a seu [do rei] serviço ou de o rei de Mumhan fechar a mão em volta de seu tornozelo. Penso que minha estirpe não tenha jamais demonstrado fraqueza ou covardia, porém recomendo-lhe que faça aliança com o rei de Mumhan e por ele combata, a fim de comprometê-lo e de tornar reconhecida sua fidelidade, de modo  a fazer jus ao pagamento que me foi prometido. Se concordarem com tudo isso, que Mogh Corb mac Cormaic Meic Aililla Oluim, bem como Donn Dairine e os outros nobres de  Mumhan venham ao meu encontro em nome da província de Mumhan e que garantam o cumprimento dessas cláusulas. Em pessoa partirei com eles e, pela força de minha palavra, libertá-los-ei desse mal.”

Observações:

1a. Obviamente, Mogh Ruith não é para quem tem somente uma carroça e um pote de barro.

2a. Mogh Ruith diz que teria direito de exercer ele próprio a realeza, mas não pede essa posição como recompensa. Ele pede bens, uma mulher de linhagem real, terras independentes da autoridade do rei provincial e uma posição privilegiada para seus descendentes.

3a. A menção a cláusulas não é gratuita. Esse é um contrato oral, que tem como garantia testemunhas (“Mogh Corb mac Cormaic Meic Aililla Oluim, bem como Donn Dairine e os outros nobres de  Mumhan”) que teriam o compromisso de impor o cumprimento do pacto se este não fosse voluntariamente adimplido pelo contratante. O nome para esse tipo de garantia é macc e é próprio de contratos de longa duração, que estabelecem relações semi-permanentes ou de alto risco.

Bellouesus /|\

Posidonius e o Druida

Rowan Williams

Espinhaços ósseos, moldados, imaginarias, por desajeitados polegares,
Sardas, pelos ruivos e grandes olhos astigmáticos;
Rouca a voz, eloquente, não grave.
Bem. Pessoas como tu, ele diz, vêm em busca de segredos.
Daquilo que aprendemos de Pitágoras. De um eco consolador
De vossa doce doutrina [a emanar] das cavernas intocadas
De pobres primitivos [como nós]. (Inclina-se para mim.) Agrada-te
O que tenho a mostrar-te? Em sua mão espalmada
Uma faca com cabo de osso, manchada e polida.
Vosso logos é uma criança, ele diz, a tagarelar para si mesma
Enquanto brinca na areia. Sou um nadador.
Sou salmão e foca. Minhas correntezas
São feitas de muitos fluidos, balouçantes planos escuros
por onde viajo calmo como se a dormir, ou onde
pulo como a prata. O mar. Chuva na pele
E suor. Lágrimas e o rio sobre as pedras.
Meu sangue e o teu: a maré que vibra sob a pele
Ou no pulsar da veia cortada,
Ou do meu membro, ou do teu, ou ainda a urina
Do homem enforcado, que estremece entre as folhas,
Cujos movimentos falam-me. Acima dessas ondas
Aprendo a deslizar minhas mãos e nessas fontes
Minha língua explora, bebe palavras.

Pego a faca;
Como se esfregasse os dedos numa inscrição desgastada
Leio-a. Na mente com brevidade: descampados planos,
Uma estrada reta que corre ao limite das coisas, sombrias
Carroças estranhas apinhadas de pessoas silenciosas,
Sabedoras e ignorantes do que é esta jornada
A que foram enviadas por sangue e sabedoria e
Lúgubres águas silentes, e atinjo ofegante a margem,
as crianças e a areia, o ruído e a insegurança,
duna, mastros e inconsistência, porém ainda o alicerce
adequado a seres que falam.

Rowan Douglas Williams, Barão Williams de Oystermouth
Poeta e teólogo
Bispo de Canterbury e Primaz de Toda a Inglaterra de 2002 a 2012
Membro da Gorsedd Beirdd Ynys Prydain
Marido e pai

Tradução: Bellouesus /|\

Fergus e o Druida

yeatsWilliam Butler Yeats (1865-1939)

Fergus: Este dia inteiro tenho te perseguido nos rochedos
E mudaste e escorreste de uma forma a outra,
Primeiro como um corvo em cujas asas antigas
Quase nenhuma pena restou; aparentaste ser então
Uma doninha movendo-se de uma para outra pedra
E agora, por fim, assumes uma forma humana,
Um descarnado homem cinzento meio perdido na noite que cai.

Druida: O que farias, rei dos orgulhosos reis do Ramo Vermelho?

Fergus: Isto eu diria, ó mais sábia das almas viventes:
Conchubar jovem e arguto sentou-se perto de mim
Enquanto eu dava julgamento e suas palavras foram doutas
E o que para mim era opressão infinita
Fácil lhe parecia, então a coroa coloquei
Em sua cabeça para afastar minha tristeza.

Druida: O que desejas, rei dos orgulhosos reis do Ramo Vermelho?

Fergus: Um rei e orgulhoso! E essa é minha aflição.
Celebro em meio ao meu povo na colina
E cruzo as matas e conduzo as rodas de minha carruagem
Pelas margens alvas do mar que murmura.
E sinto ainda assim o peso da coroa em minha cabeça!

Druida: O que desejas, Fergus?

Fergus: Não mais ser rei,
Porém aprender a sabedoria visionária que é a tua.

Druida: Vê meu ralo cabelo grisalho e faces escavadas
E estas mãos que não podem erguer a espada,
Este corpo que estremece como caniço soprado pelo vento.
Mulher alguma me amou, homem nenhum buscou minha ajuda.

Fergus: Um rei não é senão um obreiro insensato
Que malbarata seu sangue para ser o sonho alheio.

Druida: Pega, se o desejares, este saquinho de sonhos;
Solta a corda e eles enrolar-se-ão ao teu redor.

Fergus: Vejo minha vida ir descambando como um rio,
De transformação em transformação; muitas coisas fui:
Uma gota verde na onda, uma cintilação de luz
Numa espada, um pinheiro numa colina,
Um velho escravo triturando num moinho pesado,
Um rei sentado numa cadeira de ouro –
E foram grandes e miraculosas todas essas coisas!
Mas agora, sabendo tudo, em nada mudei.
Ah, druida, druida, como são grandes as malhas de pesar
que jazem ocultas nesta coisinha de cor triste!

Tradução: Bellouesus /|\

Contos de Mongan

MONGAN

O Nascimento de Mongan

Fiachna Lurga, o pai de Mongan, era o único rei da província. Ele tinha uma amigo na Escócia, a saber, Aedan, o filho de Gabran. Veio para ele uma mensagem de Aedan. Veio uma mensagem de Aedan pedindo que ele fosse em seu socorro.

Ele estava em guerra com os saxões. Um terrível guerreiro fora trazido por eles para consumar a morte de Aedan em batalha. Então Fiachna atravessou o mar, deixando sua rainha em casa. Enquanto as multidões estavam combatendo na Escócia, um homem de nobre aparência veio à esposa dele em sua fortaleza, em Ráth Mhór de Muigh Line. No momento em que ele chegou não havia muitos na fortaleza. O estranho pediu à mulher para arranjar um lugar de encontro.

A mulher disse que não havia no mundo posses ou tesouros pelos quais ela fizesse qualquer coisa para trazer desgraça à honra de seu marido. Ele perguntou se ela faria isso para salvar a vida de seu marido. Ela disse que, se o visse em perigo e dificuldade, ela o ajudaria com tudo que estivesse em seu poder. Então ele disse que ela deveria fazer isso, “pois teu marido está em grande perigo. Um homem terrível foi trazido contra ele e ele morrerá por sua mão. Se nós, tu e eu, fizermos amor, disso terás um filho. Esse filho será famoso, ele será Mongan. Eu irei à batalha que será travada amanhã na terceira hora, de forma a salvar Fiachna e eu derrotarei o guerreiro diante dos olhos dos homens da Escócia. E contarei a teu marido nossas aventuras e que foste tu quem me mandou em seu auxílio.”

Assim foi feito. Quando um exército se deteve na frente do outro, os barcos viram um homem de nobre aparência diante do exército de Aedan e Fiachna. Ele foi na direção de Fiachna especificamente e contou-lhe sobre a conversação com sua esposa no dia anterior e que lhe prometera vir em seu auxílio naquela hora. Portanto, ele foi na frente do exército contra o outro e derrotou os guerreiros, de modo que Aedan e Fiachna venceram a batalha.

E Fiachna voltou a seu próprio país e a mulher estava grávida e deu à luz um filho, o próprio Mongan, filho de Fiachna. E ele agradeceu a sua esposa pelo que ela fizera por ele e ela confessou todas as suas aventuras. De forma que esse Mongan é um filho de Manannan mac Lir, embora seja chamado Mongan, o filho de Fiachna. Pois quando o estranho separou-se dela pela manhã, ele deixou uma estrofe com a mãe de Mongan, dizendo:

Vou para casa,
A pura manhã aproxima-se pálida.
Manannan, de Lir o filho,
É o nome do que veio a ti.

Uma Lenda de Mongan

Eis que certa vez quando Forgall, o poeta, estava com Mongan, este, numa certa hora do dia, saiu à frente da sua fortaleza, onde ele encontrou um aprendiz de bardo estudando sua lição. Disse Mongan:

Tudo está em falta
Numa capa de pano de saco.
Na época certa alcançarás
O fim de teus estudos.

Mongan apiedou-se do estudioso, que vestia uma capa de pano de saco. Ele quase não tinha com que se manter.

A fim de saber se ele seria um mensageiro fiel e bom, ele lhe disse: “Vai agora até alcançares o monte encantado de Lethet Oidni e traze uma pedra preciosa que lá tenho e para ti mesmo toma uma libra de prata branca, na qual há doze onças. Destas obterás auxílio. Daqui essa é tua viagem a Cnocc Bane. Terás boas-vindas no monte encantado de Cnocc Bane por minha causa. De lá, para Duma Granerit. De lá, para o monte encantado de Lethet Oidni. Toma a pedra para mim e vai à correnteza do Lethet Oidni, onde encontrarás uma libra de ouro, em que há nove onças. Traze-a contigo para mim.”

O estudioso seguiu a sua jornada. No monte encantado de Cnocc Bane ele encontrou um casal de nobre aspecto. Eles deram grandes boas-vindas ao mensageiro de Mongan. Esse era o seu dever. Ele prosseguiu. Encontrou um outro casal em Duma Granerit, onde recebeu as mesmas boas-vindas. Ele foi ao monte encantado de Lethet Oidni, onde novamente encontrou um outro casal. Deram grande boas-vindas a um homem de Mongan. Ele foi recebido muito hospitaleiramente, como nas outras noites.

Havia um quarto maravilhoso no lado da morada do casal. Mongan lhe dissera que ele deveria pedir sua chave. Ele assim fez. A chave foi-lhe trazida. Ele o abriu. Fora-lhe dito que nada pegasse da casa, senão aquilo pelo que fora enviado. Ele assim fez. A chave ele devolveu ao casal. Sua pedra, entretanto, e sua libra de prata ele levou consigo. Ele foi em seguida à correnteza do Lethet Oidni, de onde ele pegou sua libra de ouro. Ele voltou a Mongan, a quem ele deu sua pedra e ouro. Ele mesmo pegou sua prata. Essas foram suas perambulações.

Uma lenda da qual se conclui que Mongan era Finn Mac Cumaill

Mongan estava em Ráth Mhór de Muigh Line, em seu domínio. Veio a ele Forgall, o poeta. Por causa dele mais de um casal já se queixara a Mongan. Toda noite o poeta recitaria uma história para Mongan. Tão grande era seu conhecimento que assim estiveram de Samhain a Beltane. Ele recebia presentes e comida de Mongan.

Certo dia, Mongan perguntou a seu poeta qual fora a morte de Fothad Airgdech. Forgall disse que ele fora morto em Dubhthoire, em Laighin. Mongan disse que isso era falso. O poeta disse que iria satirizá-lo com suas zombarias e que satirizaria seu pai, sua mãe e seu avô e que cantaria feitiços sobre as águas deles, de modo que o peixe não fosse apanhado na foz de seus rios. Ele cantaria sobre suas florestas a fim de que estas não dessem fruto, sobre suas planícies, a fim de que estas ficassem para sempre estéreis de qualquer produção. Mongan prometeu dar-lhe todas as coisas preciosas que desejasse até o valor de sete donzelas escravas, ou duas vezes sete donzelas escravas, ou três vezes sete. Por fim, ofereceu-lhe um terço, ou a metade da sua terra, ou toda a sua terra. Finalmente, qualquer coisa que ele quisesse, exceto sua própria liberdade e a de sua esposa, Breothigernn, a menos que ele fosse redimido antes do final de três dias. O poeta recusou tudo, a não ser com relação à mulher. Por causa de sua honra Mongan consentiu. Com isso a mulher ficou cheia de tristeza. A lágrima não foi retirada de seu rosto.

Mongan não lhe disse para não ficar triste, o socorro certamente viria para eles. Assim, o terceiro dia chegou. O poeta começou a impor seu compromisso. Mongan lhe disse para esperar até o anoitecer. Mongan e a esposa estavam em seu pavilhão. A mulher chorava ao ver que sua entrega se aproximava e ela não via nenhuma ajuda. Mongan disse: “Não fiques triste, mulher. Aquele que agora mesmo está vindo em nosso auxílio, ouço seus pés no Labrinne.”

Eles esperaram um pouco. Outra vez a mulher chorou. “Não chores, mulher! Aquele que está agora vindo em nosso auxílio, ouço seus pés no Main.”

Assim, eles estavam esperando a cada duas rondas do dia. Ela iria chorar e ele diria ainda: “Não chores, mulher. Aquele que está vindo em nosso auxílio, ouço seus pés no Laune, no Loch Leane, no Rio Estrela da Manhã entre os Ui Fidgente e os Arada, no Suir em Mag Femin, em Munster, no Echuir, no Bhearú, no Life, no Bhóinn, no Dé, no Tuarthesc, no Lago Cairlinn, no Nid, no Rio Rí, no Rio Lame diante de Ráth Mhór.”

Quando a noite caiu sobre eles, Mongan estava em seu sofá no palácio e sua esposa estava à sua direita e muito triste. O poeta os estava intimando por suas garantias e obrigações. Enquanto eles estavam lá, anunciou-se que um homem se aproximava do recinto pelo sul. Sua capa estava enrolada em volta dele e, na sua mão, um cabo de lança sem a ponta, o qual não era pequeno. Com esse cabo ele saltou as três fortificações, de modo que aterrisou no meio do recinto, dali saltou para o meio do palácio e dali para o espaço entre Mongan e a parede atrás de sua almofada. O poeta estava no fundo da casa atrás do rei. A questão foi levantada na casa diante do guerreiro que chegara.

“Qual é a questão aqui?”, disse ele.

“Eu e aquele poeta lá”, disse Mongan, “fizemos uma aposta sobre a morte de Fothad Airgdech. Ele disse que foi em Dubhthoire, em Laighin. Eu disso que isso era falso.”

O guerreiro disse que o poeta estava errado.

“Isso será provado. Nós estávamos contigo, com Finn”, disse o guerreiro.

“Psst!”, disse Mongan. “Isso não está certo.”

“Estávamos com Finn, então”, disse ele. “Viemos da Escócia. Encontramo-nos com Fothad Airgdech lá longe, no Rio Lame. Ali lutamos uma batalha. Eu fiz um arremesso contra ele, de forma que a lança passou através dele e atingiu a terra além dele e deixou sua cabeça de ferro cravada na terra. Aqui está o cabo que estava naquela lança. A pedra nua de que fiz aquele arremesso será encontrada e a cabeça de ferro será achada na terra e a tumba de Fothad Airgdech será encontrada um pouco a leste dela. Uma arca de pedra está sobre ele ali na terra. Lá, em cima da arca, estão suas duas pulseiras de prata e seus dois braceletes e seu torque de

prata. E perto da sua tumba há um pilar de pedra. E no fim do pilar que está na terra há uma inscrição em ogham. Isto é o que ela diz: ‘Este é Eochaid Airgdech. Cailte me matou em um combate contra Finn.'”

Eles foram com o guerreiro. Tudo então foi encontrado daquele modo.

Era Cailte, o filho adotivo de Finn, que viera até eles. Mongan, contudo, era Finn, embora ele não permitisse que isso fosse dito.

Fonte: todos os textos são do Leabhar na hUidhre (“Livro da Vaca Parda”), manuscrito irlandês do começo do séc. XII.

O Nascimento de Mongan (texto original)

Uma lenda da qual se conclui que Mongan era Finn Mac Cumaill (texto original)

Tradução: Bellouesus /|\

O Teixo dos Filhos Briguentos

TEIXOQue um de vós me pergunte a história do maravilhoso teixo: porque somente ele é chamado o Teixo dos Filhos Briguentos?

De qual madeira é a venenosa, bela árvore – objeto de tal traição? Qual a natureza da amizade que existia antes que os filhos briguentos lhe dessem o seu nome?

De seu território Aillil escolheu este prado para pastagem de seus cavalos: de Dun Clare a Dun Gair, de Ane a Dun Ochair.

Ao pequeno povo do síd desagradou esta invasão da sua terra; eles costumavam destruir o pasto a cada Samhain – narrativa nenhuma igual a esta!

Aillil chegou com Ferchess mac Comman para ver a fina grama; enxergaram na planície três vacas e três pessoas pastoreando-as.

“Estes são os ladrões!”, disse Aillil arrogantemente. “Uma mulher e dois homens, sem dúvida, e suas três vacas mochas.”

“São eles que esmagam a grama e consomem nossa propriedade para roubar-nos, cantando a doce música do síd para levar ao sono a raça de Adão.”

“Se eles estão cantando a música do síd“, disse Ferchess mac Comman, “não nos aproximemos mais até colocarmos um pouco de cera em nossas orelhas!”

Eles não podiam ouvir a doce música depois de colocar cera em suas orelhas. Subitamente, cada grupo viu o outro: um encontro surpreendente!

Furiosamente, Eogabul do síd e Aillil agarraram-se homem a homem; Eogabul foi abatido e Aine do síd foi derrotada.

Aillil veio a Aine, sobrepujou-a e deitou-se em cima dela; ele a conheceu então, não com consentimento, mas pela força.

Aine voltou sua faca contra Aillil, não é um testemunho mentiroso meu! Ela cortou fora sua orelha direita da cabeça que pendia sobre ela, de forma que ele posteriormente foi chamado Aillil Orelha-nua.

Isso então enfureceu Aillil; ele lançou sua lança contra Aine; ele não a honrou, deixou-a morta.

Quanto a Ferchess, ninguém jamais escapou dele depois de ele ter desembainhado sua arma sem receber ferimentos e machucaduras, mesmo que fosse uma demonstração amistosa de suas habilidades de guerra.

Fer Fi retirou-se para o monte-síd onde seus parentes viviam; muitas foram as lamentações por causa das mortes de Aine e Eogabul.

No dia seguinte, na aurora, as multidões montadas do síd saíram; eles queimaram Dun Clare e Dun Crott, causaram uma labareda destruidora.

“Vamos para Dun Ochair Mag”, disseram eles entre si mesmos. “Vamos matar Aillil em sua casa e a filha de Conn das Cem Batalhas.”

“Não temos reclamações quanto à bela filha de Conn”, disse Fer Fi, filho de Eogabul. “Não sem perigo, mas pela coragem vingarei meu pai.”

Fer Fi viajou para o oeste com Aeblean, seu irmão; eles imaginaram uma estratégia que fosse honrosa para eles, formaram o Teixo dos Filhos Briguentos.

O lugar em que eles criaram a árvore ficava em Ess Mage dos grandes clãs; vieram três à árvore que a desejavam para si mesmos: Mac Con, Cian e Eogan.

Mac Con reclamou-o imediatamente, tanto a velha madeira, quanto o broto verde; Cian exigiu-o desde a semente, tanto os ramos retos quanto os tortos.

Com não menos abrangência foi ela reivindicada por Eogan, que requereu tudo que cresceu em cima do chão e tudo que cresceu embaixo.

Tais foram as disputas dos homens, os filhos de uma só mãe; cada valente exigia a árvore inteira para si mesmo.

“Aceitarei o julgamento de teu pai”, disse Mac Con da Espada Vermelha. “Quer ele a conceda a ti ou a mim, não apelarei seu eu perder.”

Então Aillil deu seu julgamento severo; Mac Con ficou grandemente aborrecido por esse motivo.

Aillil conferiu o teixo a Eogan e fez pouco caso de Mac Con. Para vingar-se, Mac Con então desafiou Aillil a uma batalha; assim foi, sem demora, que a Batalha de Cenn Febrat foi combatida.

Mac Con foi ferido ali e, depois disso, ficou manco, um triste negócio; Da Dera, o bobo de Darine, caiu às mãos de Cairpre.

Esse conflito provocou a furiosa batalha de Mag Mucrama da grama vermelha; na terça-feira foi lutada, onde caíram as cabeças da Irlanda.

Assim caiu Art mac Conn, Grande Rei da Irlanda, o invicto; ali caíram temivelmente os sete belos filhos de Aillil.

Lá foi ferido Lug Laga, que realizou o feito audacioso: ele matou Art mac Conn, o Belo, e Benne Britt dos britanos.

Ali caíram o vingativo Mac Con e Ferchess mac Comman e Sadb, filha de Conn, pelo veneno do belo teixo.

Não é árvore nenhuma, porém uma aparição do síd, sua natureza não é deste mundo; não de madeira é seu tronco, mas de trevas horrendas.

A árvore deu abrigo contra os ventos cortantes, o suficiente para trezentos guerreiros; sua madeira na época adequada seria o bastante para uma casa, era uma proteção contra todos os perigos.

Ele está misteriosamente escondido pelos síde com astuta habilidade.

Somente um em uma centena é azarado o suficiente para encontrá-lo; é então uma duradoura descoberta do infortúnio.

Do norte e do sul caíram guerreiros pelo veneno do teixo de ramos avermelhados; do leste e do oeste eles caíram – não queirais mais me perguntar o porquê.

Tradução: Bellouesus /|\

Fonte: Lebor Laignech, Iarfaiged nech acaib dam (atribuído a Cormac mac Cuilennáin).