Aithbe damsa bés mora (“O Lamento da Anciã de Beare”)

lamentoPoema medieval irlandês, escrito entre c. 775–825

A Anciã de Beare disse isto quando a senilidade a envelheceu:

A vazante chegou para mim como para o mar,
a velhice me deixou melancólica.
Embora eu possa me entristecer por isso,
ela se achega com alegria a sua comida.
Sou Buí, a Anciã de Beare:
eu costumava usar um vestido que sempre se renovava.
Hoje ele caiu de mim por causa de minha pobre condição
para que eu não tivesse sequer um trapo para vestir.
São as riquezas
que amais e não as pessoas.
Quanto a nós, quando vivíamos,
era as pessoas que amávamos.
Amadas eram as pessoas
cujas planícies percorremos.
Passamos bem entre elas
e depois elas se gabaram pouco.
Sem dúvida, hoje sois bons em pretensões
e não sois generosos em conceder a reivindicação:
embora seja pouco o que entregais,
grandemente vos gabais.
Carruagens rápidas
e cavalos que arrebatam os prêmios:
houve, durante um tempo, um dilúvio deles,
uma benção para o Rei que os concedeu!
Meu corpo, cheio de amargura,
procura ir para um abrigo onde seja conhecido:
quando o Filho de Deus achar que é hora
que Ele  venha levar seu depósito.
Quando meus braços forem vistos,
tão ossudos e finos…
O trabalho que costumavam fazer era agradável:
costumavam estar sobre reis gloriosos.
Quando meus braços forem vistos,
tão ossudos e finos…
Eles não são, eu declaro,
dignos de levantarem-se em volta de jovens atraentes.
As donzelas são alegres
quando chegam ao Dia de Maio.
A tristeza é mais apropriada para mim.
Não sou apenas miserável, mas uma velha.
Não falo palavras adocicadas,
carneiros não são abatidos para o meu casamento,
meu cabelo é escasso e cinzento,
ter um pobre véu sobre ele não causa desgosto.
Ter um véu branco
em minha cabeça não me causa tristeza.
Muitas coberturas de toda cor
estiveram em minha cabeça ao bebermos boa cerveja.
Não invejo ninguém que seja velho,
exceto apenas Feimen:
quanto a mim, vesti o traje de uma idosa.
A safra de Feimen ainda é amarela.
A Pedra dos Reis em Feimen,
a Morada de Rónán em Bregun,
faz tempo que tempestades atingiram suas faces,
mas elas não são mirradas e velhas.
Sei o que elas estão fazendo:
fazem fileiras e fileiras,
os caniços de Ath Alma,
fria é a morada onde dormem.
Ai de mim,
que não viajo no mar da juventude!
Muitos anos da minha beleza partiram,
pois minha libertinagem se esgotou.
Ai de mim!
Agora, qualquer cerração que haja,
tenho de vestir meu casaco mesmo quando brilha o sol:
a idade está em mim, eu própria o reconheço.
O verão da juventude em que estivemos
gastei com o seu outono;
o inverno da velhice que sobrepuja a todos,
seus primeiros meses chegaram para mim.
Gastei minha juventude no começo;
estou satisfeita com minha decisão.
Embora meu pulo por cima do muro tenha sido pequeno,
o manto não estaria ainda novo.
Delicioso é o manto verde
que meu Rei estendeu sobre Drumain.
Nobre é aquele que o distende totalmente:
cobriu com lã depois de um pano duro.
Sem dúvida estou fria.
Cada semente está fadada a decair.
Depois de festejar com velas brilhantes,
ficar na escuridão de um oratório!
Tive meu dia com os reis,
bebendo hidromel e vinho.
Bebo agora soro de leite e água
entre velhas bruxas enrugadas.
Que uma xicarazinha de soro seja minha cerveja;
possa tudo que me apoquentar ser a vontade de Deus.
Orando a ti, ó Deus vivo,
possa eu dar…(?) contra a fúria.
Vejo em meu manto as manchas da idade;
minha razão começou a enganar-me;
cinzento é o cabelo que cresce em minha pele;
a decadência de um árvore antiga é como esta.
Meu olho direito foi tomado de mim
para ser vendido por uma terra que nunca será minha;
o olho esquerdo também foi tomado
para fazer minha reivindicação pela terra mais segura.
Há três inundações
que chegam perto do forte de Ard Ruide:
uma enchente de guerreiros, uma enchente de corcéis,
uma enchente de galgos de propriedade dos filhos de Lugaid.
A onda da cheia
e a da rápida vazante:
o que a onda da cheia vos traz
a onda da vazante leva de vós.
A onda da cheia
e aquela segunda onda que é a vazante:
tudo veio para mim
para que eu soubesse reconhecê-las.
A onda da cheia,
possa o silêncio do meu celeiro não chegar até ela!
Embora meu cortejo na escuridão seja grande,
uma mão foi lançada sobre todos eles.
Tivesse o Filho de Maria
o conhecimento de que estaria sob o poste do meu celeiro!
Ainda que não tivesse praticado a liberalidade de nenhum outro modo,
eu nunca disse “não” a ninguém.
É totalmente triste
(o homem é a mais baixa de todas as criaturas)
que a vazante não fosse vista
como o fora a enchente.
Minha enchente
guardou bem o que foi depositado comigo.
Jesus, Filho de Maria, preservou-o
até a vazante, de modo que não estou triste.
Está bom para uma ilha do grande mar:
a cheia chega a ela depois de sua vazante;
quanto a mim, não espero
cheia nenhuma depois de a vazante vir para mim.
Hoje quase não há
uma habitação que eu possa reconhecer;
aquilo que estava na enchente,
está tudo diminuindo.

Fonte

Tradução: Bellovesos /|\

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s