Arquivo mensal: maio 2013

Explorando as Origens do Ogham Céltico

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[Observação inicial do autor:] Infelizmente para a tese deste artigo, a ideia de que os nomes das letras ogâmicas referem-se a plantas é uma opinião minoritária entre os estudiosos. Caso fosse verdadeira e se as espécies de plantas lhes estivessem de fato atribuídas corretamente, minhas conclusões seriam válidas, porém devem de outra forma ser consideradas com ceticismo.

Curtis Clark

À primeira vista, o Ogham parece ser um fenômeno das ilhas célticas: os nomes estão na língua irlandesa (e muitos estão ainda em uso para as mesmas árvores) e virtualmente todas as inscrições ogâmicas são provenientes da Irlanda ou da Grã-Bretanha (embora alegadamente existam inscrições na Espanha setentrional e na América do Norte). Graves advoga uma origem muito mais antiga e sua evidência, em grande parte discutida pelos acadêmicos clássicos, tende a ligar o Ogham às culturas do Mediterrâneo oriental. Outros tentaram ligar o Ogham aos seguidores do culto da Grande Deusa da Europa antiga.

Evidência Linguística

Há três cognatos entre os nomes ogâmicos e os nomes ingleses para as mesmas árvores: “beith”, “birch” (bétula); “sail”, “sallow” (um sinônimo arcaico para “willow”, salgueiro); “iodhadh”, “yew” (teixo). Os nomes científicos foram baseados nos antigos nomes romanos dessas plantas, dando mais alguns cognatos: “beith”/“betula”; “sail”/“salix”; “coll”/“corylus”; ‘úr”/“erica”. Duas das árvores ogâmicas são também encontradas no alfabeto rúnico germânico: a bétula (“berkana”) e o teixo (“eihwaz”). Muitos desses nomes de árvores podem ser rastreados em outras línguas indo-europeias também. Inicialmente, então, o Ogham parece ter uma origem indo-europeia.

Evidência Botânica

Apesar disso, a evidência arqueológica aponta para a origem dos indo-europeus nas estepes ao norte dos mares Negro e Cáspio. As árvores eram muito incomuns nessas terras cobertas de pasto. Devem ter parecido ainda mais mágicas por essa razão, mas a maior parte das árvores ogâmicas não existe naquela região.

Onde elas existem então? Tutin e outros classificam a flora europeia em áreas geográficas que correspondem aos países da Europa na década de 1960. Ao olharmos a lista completa das plantas ogâmicas mais o visco comum, encontramos apenas quatro países que as possuem a todas: França, Alemanha, Suíça e Itália.

A Grã-Bretanha não possui o abeto prateado e a videira (ainda que esta seja ali cultivada) e a Irlanda também não os possui, nem o visco. A civilização da Europa antiga estava bem desenvolvida na Península Balcânica, que não possui a tojo. A Grécia não possui a bétula, o carvalho, o freixo, o tojo, a urze e ao Mediterrâneo oriental faltam ainda mais plantas. Se alguém tivesse de escolher uma região onde as plantas ogâmicas estivessem melhor representadas, essa seria o vale do rio Reno, lar da cultura de La Tène (Idade do Ferro), vista como ancestral dos celtas.

Se substituirmos o Quercus ilex pela Ilex aquifolia como azevinho e o Loranthus europaeus pelo Viscum album como visco, a Itália será o único país com todas as espécies e a Britânia e a Irlanda possuirão ainda menos.

Assim, o conjunto tradicional das árvores ogâmicas parece ser decididamente céltico, ainda que não uma herança dos primitivos indo-europeus. Existem evidências (a partir de correspondências como aquela entre o azevinho e o visco citada acima) de outras tradições arbóreas na Europa, talvez não célticas. Se essas árvores “alternativas” possuíam significados simbólicos equivalentes é algo que não pode ir além de conjeturas, não obstante as afirmações de Graves nesse sentido.

Fontes:

FRIEDRICH, Paul. Proto-Indo-European Trees; the arboral system of a prehistoric people. Univ. Chicago Press, 1970.
GRAVES, Robert. The White Goddess. 2ª. ed, Farrar, Strauss and Giroux, New York, 1966.
TUTIN, T. G., Heywood, V. H., Burges, N. A., Valentine, D. H., Walters, S. M. & Webb, D. A. Flora Europaea. Cambridge University Press, 1964.

Original

Tradução: Bellouesus /|\

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Letras Ogâmicas – Significados Básicos

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I-Aicme Beithe – Família da Bétula

B Beith (, bétula) >-,-< – Começos
L Luis (lus, sorveira-brava) >-,,-< – Proteção
F, V Fearn (fiarn, amieiro) >-,,,-< – Orientação
S Sail (sále, engula o e para não dizer sáli; salgueiro) >-,,,,-< – Lua, Feminilidade
N Nion (nían, não níã; freixo) >-,,,,,-< – Ligação, a Árvore do Mundo

>-,-,,-,,,-,,,,-,,,,,-<

II-Aicme hÚatha – Família do Espinheiro-Branco

H Uath (úa; espinheiro-branco) – >-‘-< – Purificação
D Dair (dúr, carvalho) – >-”-< – Força
T Tinne (tchínia, azevinho) – >-”’-< – Vitória, Justiça
C, K Coll (câll, não câu ou cáu; aveleira) – >-””-< – Inspiração, Intuição
Q Ceirt (kyert, maçã) – >-””’-< – Escolha

>-‘-”-”’-””-””’-<

III-Aicme Muine – Família da Vinha

M Muin (mun, vinha) – >-/-< – Profecia
G Gort (górt, hera) – >-//-< – Trajeto, labirinto
Ng nGéadal (niédl, giesta, samambaia, junco, caniço) >-///-< – Propósito, Direção
Z (St, Ts, Ss) Straif (stráf, espinheiro-negro) >-////-<– Luta, Negação
R Ruis (rúich, sabugueiro) – >-/////-< – Términos, Renovação

>-/-//-///-////-/////-<

IV-Aicme Ailmi – Família do Abeto

A Ailm (álm, abeto ou pinheiro) – >-|-< – Limpidez, Previsão
O Onn (on, tojo) – >-||-< – Recompensa, Coleta
U Úr (úr, urze) – >-|||-< – Cura
E Eadha (éia, sorveira ou álamo-tremedor ) >-||||-< – Resistência, Dificuldade
I Iodhadh (íio, teixo) – >-|||||-< – Renascimento

>-|-||-|||-||||-|||||-<

V-Aicme na Forfid – Família das Letras Adicionais

EA, CH, K Eabhadh (éva, álamo-tremedor) – >-x-< – Venerável, Templo
OI, TH Oir (ór, evônimo ou hera) – >-0-< – Prazer, Cumprimento
UI, IO, PH Uilleann (iúlin, madressilva) Phagos (fágâs, faia) – >-@-<– Segredos, Investigação
IA, P, PE Ifín (ífin, groselheira-espinhosa) – >-X-< – Entendimento, Gerações
AE, X, XI Eamhancholl (évancâll, hamamélis) – >-#-<– Viagem

Bellouesus /|\

Sobre Celtas e Druidas

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Sópatro (fim do séc. IV a. C.) (via Ateneu, 4.160):

Entre eles há o costume de, sempre que vitoriosos em batalha, sacrificar seus prisioneiros aos deuses. Assim, eu,
como os celtas, prometi aos divinos poderes queimar esses três falsos dialéticos como oferenda.

Timeu (começo do séc. III a. C.) (via Diodoro Sículo, 4.56):

Os historiadores apontam que os celtas que vivem às margens do Oceano honram os Dióscuros acima dos outros
deuses. Pois há uma antiga tradição entre eles de que esses deuses vieram do Oceano até eles.

Eudoxo de Rodes (fim do séc. III a. C.) (via Heliano, “Sobre os Animais”, 17.19):

Eudoxo diz que os celtas fazem o seguinte (e, se alguém pensar que seu relato é crível, deixai-o acreditar; se não,
deixai-o ignorá-lo). Quando nuvens de gafanhotos invadem seu país e danificam as colheitas, os celtas evocam
certas orações e oferecem sacrifícios com feitiços a pássaros – e os pássaros ouvem essas orações, chegam em bandos
e destroem os gafanhotos. Se, entretanto, um deles capturar um desses pássaros, sua punição, de acordo com ass leis
do país, é a morte. Se ele for perdoado e libertado, isso enfurece os pássaros e, para vingar a ave capturada, eles não
respondem se forem chamados outra vez.

Artemidoro de Éfeso (fim do séc. II a. C.) (via Estrabão, 4.4.6):

O seguinte relato, que Artemidoro contou sobre os corvos, é inacreditável. Há um certo porto na costa que, de
acordo com ele, chama-se “Dois Corvos”. Nesse porto, são vistos dois corvos, com suas asas direitas um pouco
brancas. Homens que estão em disputa sobre certas questões vão até lá, colocam uma prancha num lugar elevado e
então cada homem, separadamente, atira bolos de cevada. As aves voam e comem alguns dos bolos, mas espalham
outros. O homem cujos bolos foram espalhados vence a disputa. Embora essa história seja implausível, sua narração
sobre as deusas Deméter e Corê é mais crível. Ele diz que há uma ilha perto da Britânia onde sacrifícios são
realizados como aqueles na Samotrácia, para Deméter e Corê.

Tito Lívio (séc. I a. C.) (23.24):

(216 a. C.) Postúmio morreu lutando com todas as suas forças para não ser capturado vivo. Os gauleses
despojaram-no de todos os seus espólios e os boios levaram sua cabeça decepada em procissão ao mais sagrado de
seus templos. Lá ela foi limpa e o crânio nu foi adornado com ouro, de acordo com o costume deles. Foi usado
desde então como um vaso sagrado em ocasiões especiais e como uma taça ritual por seus sacerdotes e oficiais do
templo.

Nicandro de Cólofon (séc. II a. C.) (via Tertuliano, “Sobre a Alma”, 57.10):

Muitas vezes, diz-se, por causa das visões nos sonhos, que os mortos estão realmente vivos. Os nasamones recebem
oráculos ao permanecer perto das tumbas de seus pais, como Heráclides ou Ninfodoro ou Heródoto escrevem.
Também pela mesma razão, os celtas passam a noite perto das tumbas de seus homens famosos, como afirma
Nicandro.

Posidônio (séc. I a. C.) (via Diodoro Sículo, 5.28):

O ensinamento de Pitágoras prevalece entre os gauleses, de que as almas dos humanos são imortais e de que, após
um certo número de anos, eles viverão outra vez, com a alma passando a um outro corpo. Por causa dessa crença,
algumas pessoas nos funerais irão lançar cartas na pira fúnebre, de forma que os que morreram possam lê-las.

(via Diodoro Sículo, 5.31):

Os gauleses têm certos homens sábios e especialistas sobre os deuses chamados Druidas, bem como uma classe de
videntes altamente respeitados. Por meio de augúrios e sacrifícios de animais esses videntes predizem o futuro e
ninguém ousa escarnecer deles. Eles têm um método de adivinhação especialmente estranho e inacreditável para as
questões mais importantes. Tendo consagrado uma vítima humana, eles a golpeiam com uma faquinha na região
acima do diafragma. Quando o homem desfalece por causa do ferimento, eles interpretam o futuro pela observação
da natureza de sua queda, da convulsão de seus membros e, especialmente, do padrão do seu esguicho de sangue.
Nesse tipo de adivinhação, os videntes depositam grande confiança numa antiga tradição de observação.

É costume entre os gauleses jamais realizar um sacrifício sem que alguém perito nos caminhos divinos esteja
presente. Dizem que os que sabem a respeito da natureza dos deuses devem oferecer-lhes agradecimentos e fazer-
lhes pedidos, como se essas pessoas falassem a mesma língua dos deuses. Os gauleses, amigos e inimigos do mesmo
modo, obedecem a lei dos sacerdotes e bardos não somente em tempo de paz, mas também durante as guerras.
Frequentemente ocorre que, ao se aproximarem dois exércitos com espadas desembainhadas e lanças prontas, os
druidas andem entre os dois lados e parem a luta, como se tivessem lançado um encantamento sobre bestas
selvagens. Assim, mesmo entre os bárbaros mais selvagens, a fúria cede à sabedoria e o deus da guerra respeita as
Musas.

(via Diodoro Sículo, 5.32):

É de acordo com sua brutalidade e natureza selvagem que eles realizam práticas religiosas particularmente
ofensivas. Eles manterão alguns criminosos sob guarda por cinco anos, empalando-os então numa estaca em honra
de seus deuses, seguindo-se a incineração deles numa enorme pira, juntamente com muitas outras primícias.
Também usam prisioneiros de guerra como sacrifícios aos deuses. Alguns dos gauleses sacrificarão até mesmo os
animais capturados na guerra, seja matando-os, queimando-os ou abatendo-os com algum outro tipo de tortura.

(via Estrabão, 4.4.4-5):

Falando de modo geral, há entre os gauleses três grupos que são singularmente honrados: os Bardos, os Vates e os
Druidas. Os Bardos são cantores e poetas, enquanto os Vates supervisionam o ritos e examinam os fenômenos
naturais. Os Druidas também estudam os caminhos da natureza, mas aplicam-se às leis da moralidade também. Os
gauleses consideram os Druidas as mais justas das pessoas e, portanto, são confiados a eles os julgamentos das
disputas públicas e privadas. No passado, eles até mesmo paravam batalhas que estavam a ponto de começar e
punham fim às guerras. Casos de homicídio especialmente são entregues aos Druidas para julgamento. Eles
acreditam que, quando houver muitos criminosos condenados disponíveis para o sacrifício, então a terra irá
prosperar. Os Druidas e outros dizem que a alma humana e o universo são ambos indestrutíveis, mas, no fim,
apenas o fogo e a água prevalecerão.

(via Estrabão, 4.4.6):

Posidônio também diz que há uma pequena ilha no Oceano Atlântico, na foz do rio Loire, habitada por mulheres
da tribo dos Samnitae. Elas são possuídas por Dioniso e apaziguam esse deus por meio de cerimônias misteriosas e
outros tipos de rituais sagrados. Jamais homem algum vai a essa ilha, mas as mulheres velejam para o continente
para ter sexo com os homens, voltando então. A cada ano, as mulheres demolem o teto de um templo e
constroem-no outra vez antes do anoitecer, cada mulher levando uma carga para acrescentar ao telhado. Quem
quer que derrube sua carga é despedaçada pelas outras. Elas então carregam seus pedaços ao redor do templo
proferindo gritos de bacanal até que seu frenesi louco desapareça. E sempre acontece que aquela que está destinada
a sofrer esse destino seja derrubada por alguém.

Júlio César (séc. I a. C) (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, 6.13-14, 16-19):

Através de toda a Gália, há duas classes de pessoas que são tratadas com dignidade e honra. Isso não inclui as
pessoas comuns, que são pouco melhores do que escravos e nunca têm voz nos conselhos. Muitos desses alinham-se
voluntariamente com um patrono, seja por causa de um débito ou um pesado tributo ou por medo de um castigo de
alguma outra pessoa poderosa. Uma vez que tenham feito isso, terão abandonado todos os direitos e são pouco
mehores do que servos. As duas poderosas classe mencionadas acima são os Druidas e os guerreiros. Os Druidas
ocupam-se de questões religiosas, sacrifícios públicos e privados e divinação.

Uma grande quantidade de rapazes vem aos Druidas para instrução, tendo-os em grande respeito. Sem dúvida, os
Druidas são os juízes em todas as controvérsias públicas e privadas. Se qualquer crime foi cometido, se qualquer
homicídio foiperpetrado, se há quaisquer questões relativas a herança, ou qualquer controvérsia a respeito de limites, os Druidas decidem o caso e determinam as punições. Se qualquer um ignorar sua decisão, essa pessoa é banida de
todos os sacrifícios – uma punição extremamente severa entre os gauleses. Aqueles que são assim condenados são
considerados criminosos detestáveis. Todos se afastam deles e não lhes falarão, temendo algum dano por causa do
contato com eles e não recebem justiça nem honra por qualquer feito digno.

Entre todos os Druidas, há um que é o líder supremo, tendo a mais alta autoridade sobre o restante. Quando morre
o Druida chefe, quem quer que seja o mais digno sucede-o. Se houver muitos de igual reputação, segue-se uma
eleição por todos os Druidas, embora a liderança seja às vezes decidida pela força das armas. Em certa época do
ano, todos os Druidas se reúnem num lugar consagrado no territórios dos Carnutes, cuja terra é considerada o
centro da Gália. Todos vêm então de toda a terra e apresentam disputas e obedecem os julgamentos e decretos dos
Druidas. Diz-se que o movimento druídico começou na Britânia e foi então levado para a Gália. Ainda hoje,
aqueoles que desejam estudar seus ensinamentos com mais aplicação usualmente viajam para a Britânia.

Os Druidas são isentos do serviço militar e do pagamento de contribuições de guerra, ao contrário dos outros
gauleses. Tentados por tais vantagens, muitos jovens de boa vontade dedicam-se aos estudos druídicos, enquanto
outros são enviados por seus pais. Diz-se que, nas escolas dos Druidas, eles aprendem um grande número de versos,
tantos, na verdade, que alguns estudantes levam vinte anos em treinamento. Não é permitido escrever nenhum
desses ensinamentos sagrados, apesar de outras transações públicas e privadas serem muitas vezes registradas com
letras gregas. Acredito que eles praticam essa tradição oral por duas razões: primeira, para que o povo comum não
tenha acesso aos seus segredos e segundo, para fortalecer a faculdade da memória. Na verdade, a escrita muitas
vezes enfraquece a aplicação da pessoa em aprender e reduz a habilidade de memorizar. O ensinamento principal
dos Druidas é que a alma não perece, mas, depois da morte, passa de um corpo para outro. Por causa desse
ensinamento, de que a morte é somente uma transição, eles são capazes de encorajar o destemor nas batalhas. Eles
têm também um grande número de outros ensinamentos que passam aos jovens a respeito de coisas como o
movimento das estrelas, o tamanho dos universo e da terra, a ordem do mundo natural e o poder dos deuses
imortais.

Todos os gauleses são muito devotados à religião e, por causa disso, aqueles que são afligidos com alguma doença
terrível ou enfrentam perigos na batalha realizarão sacrifícios humanos ou, ao menos, prometerão fazê-lo. Os
Druidas são os ministros em tais ocasiões. Eles acreditam que, a menos que a vida de um homem seja oferecida
pela vida de outro, a dignidade dos deuses imortais será insultada. Isso é verdade para os sacrifícios públicos e para
os privados. Alguns construirão enormes figuras que enchem com pessoas vivas e então põem-lhes fogo, perecendo
todos nas chamas. Eles acreditam que a execução de ladrões e de outros criminosos é a mais agradável aos deuses,
mas, quando for reduzido o número de pessoas culpadas, eles matarão também os inocentes.

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que ele é o inventor de todas as
artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele,
adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros
povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da
guerra. Antes de uma grande batalha, eles frequentemente dedicarão os espólios a Marte. Se obtiverem sucesso,
sacrificarão todas as coisas vivas que tiverem capturado e os outros espólios que eles reúnem num só lugar. Entre
muitas tribos, você pode ver esses espólios reunidos num local consagrado. E é uma ocasião muito rara que alguém
ouse perturbar esses bens valiosos e ocultá-los em sua casa. Se isso acontecer, o perpetrador é torturado e punido
das piores formas imagináveis.

Todos os gauleses dizem que são descendentes do deus do escuro Mundo Inferior, Dis, e confirmam que esse é o
ensinamento dos Druidas. Por essa razão, eles medem o tempo pela passagem das noites, não dos dias. Aniversários
e os começos dos meses e anos começam todos à noite.

Os funerais dos gauleses são magníficos e extravagantes. Tudo que era querido pelo falecido é lançado na fogueira,
inclundo-se os animais. Num passado recente, eles iriam queimar também escravos fiéis e subordinados amados no
ponto culminante do funeral.

Cícero (séc. I a. C.) (“Sobre a Divinação”, 1.90):

A prática da divinação não é negligenciada mesmo pelos bárbaros. Eu sei que há Druidas na Gália porque eu
mesmo conheci um deles – Divicíaco da tribo dos Aedui, que era vosso convidado e altamente vos louvava. Ele
reclamava um conhecimento da natureza derivado do que os gregos chamam “physiologia” – a inquirição acerca das
causas e fenômenos naturais. Ele predizia o futuro usando o augúrio e outras formas de interpretação.

Plínio (séc. I d. C.) (“História Natural”, 16.249, 24.103-4, 29.52, 30.13):

Não posso esquecer de mencionar a admiração dos gauleses pelo visco. Os Druidas (que é o nome de seus homens
santos) não consideram nada mais sagrado do que essa planta e a árvore em que ela cresce, como se ela crescesse
somente em carvalhos. Eles adoram apenas em bosques de carvalhos e não realizarão ritos sagrados a menos que
um ramo dessa árvore esteja presente. Parece que os Druidas até mesmo tiraram seu nome de “drus” (a palavra
grega para “carvalho”). E, sem dúvida, eles pensam que tudo que cresce num carvalho é mandado do alto e é um
sinal de que a árvore era escolhida pelo próprio deus. O problema é que, na verdade, o visco raramente cresce em
carvalhos. Não obstante, eles o procuram com grande diligência e então o cortam somente no sexto dia do ciclo
lunar, pois a lua está então crescendo em poder, mas não está ainda a meio caminho no seu percurso (eles usam a
lua para medir não apenas os meses, mas também os anos e o seu grande ciclo de trinta anos). Na sua língua,
chamam o visco de um nome que significa “cura-tudo”. Realizam sacrifícios e refeições sagradas sob os carvalhos,
conduzindo dois touros brancos cujos chifres são amarrados pela primeira vez. Um sacerdote vestido de branco
então sobe na árvore e corta o visco com uma foice dourada, com a planta caindo num manto branco. Eles então
sacrificam os touros, enquanto oram para que o deus favoravelmente conceda próprio dom àqueles a quem ele o
deu. Acreditam que uma bebida feita com o visco restaurará a fertilidade do gado estéril e agirá como um remédio
contra todos os venenos. Tal é a devoção a negócios frívolos mostrada por muitos povos.

Semelhante à erva sabina é a planta chamada “selago”. Deve ser colhida sem instrumento de ferro, passando-se a
mão direita através da abertura da manga esquerda, como se a estivesses roubando. O colhedor, tendo primeiro
oferecido pão e vinho, deve vestir-se de branco e estar com os pés descalços e limpos. É levada num pedaço de
tecido novo. Os Druidas da Gália dizem que deve ser usada como proteção contra todo perigo e que a fumaça da
queima do “selago” é boa para as doenças dos olhos. Os Druidas também recolhem dos charcos uma planta
chamada “samolus”, que deve ser colhida com a mãe esquerda durante um período de jejum. É boa para as doenças
das vacas, mas aquele que a colhe não deve olhar para trás, nem colocá-la em lugar algum senão no cocho em os
animais bebem água.

Há um tipo de ovo que é muito famoso na Gália, mas ignorado pelos escritores gregos. Nos meses de verão, um
grande número de cobras se juntará numa bola que é mantida junta por sua saliva e uma secreção de seus corpos.
Os Druidas dizem que elas produzem esses objeto oval, chamado “anguinum”, que as cobras sibilantes lançam para
o ar. Ele deve ser apanhado, assim dizem eles, num manto antes de alcançar o chão. Mas seria melhor que você
tivesse um cavalo preparado, porque as cobras irão caçar você até que sejam impedidas por algum curso de água.
Um “anguinum” genuíno flutuará contra a correnteza, mesmo se coberto de ouro. Porém, como é usual para os
homens santos do mundo, os Druidas dizem que ele somente pode ser apanhado durante uma fase da lua
específica, como se as pessoas pudessem fazer a lua e as serpentes trabalharem juntas. Eu próprio vi um desses ovos
– era uma pequena coisa arredondada, como uma maçã, com uma superfície cheia de indentações semelhantes às
dos braços de um polvo. Os Druidas valorizam-no grandemente. Dizem que é um grande auxílio nas ações judiciais
e ajudará a ganhar a boa vontade de um governante. Que isso é uma total falsidade mostra-se por um homem da
tribo gaulesa dos Vocontii, um cavaleiro romano, que manteve um escondido em seu manto durante um julgamento
ante o imperador Cláudio e foi executado, até onde posso saber, unicamente por esse motivo.

Ritos bárbaros eram encontrados na Gália até uma época de que eu mesmo posso lembrar. Pois foi então que o
imperador Tibério passou um decreto por meio do Senado colocando fora da lei os seus Druidas e essas espécies de
adivinhos e médicos. Mas por quê menciono isso a respeito de uma prática que cruzou o mar e alcançou os confins
da terra? Pois mesmo hje a Britânia realiza ritos com tal cerimônia que você poderia achar que foram eles a fonte
dos extravagantes persas. É maravilhoso como povos distantes são tão semelhantes em tais práticas. Mas podemos,
ao menos, ficar satisfeitos de que os romanos tenham eliminado o culto assassino dos Druidas, que ensinavam
serem o sacrifício humano e o canibalismo ritual o mais elevado tipo de devoção religiosa.

Suetônio (“Cláudio”, 25):

Cláudio destruiu a horrível e inumana religião dos Druidas gauleses, que havia sido apenas proibida aos cidadãos
romanos sob Augusto. (41-54 d. C.)

Lucano (séc. I d. C.) (“Guerra Civil”, 1.444-46, 450-58):

Cruel Teutates, deleitado pelo sangue temível, horrível Esus com seus altares bárbaros,
e Taranis, mais cruel que a Diana Cítica.
ó Druidas, agora que a guerra acabou
retornais a vossos ritos bárbaros e modos sinistros.
Somente vós conheceis os caminhos dos deuses e poderes celestes, ou talvez o ignoreis totalmente.
Vós, que habitais nos bosques escuros e remotos,
dizeis que os mortos não procuram o reino silencioso de Érebo ou o pálido domínio de Plutão,
mas o mesmo espírito vive outra vez em um outro mundo
e a morte, se vossas canções são verdadeiras, não é senão o meio de uma longa vida.

Sílio Itálico (séc. I a. C.) (“Púnica”, 3.340-43):

Os celtas conhecidos como “hiberi” também vieram.
Para eles é glorioso cair em combate,
mas consideram errado cremar um guerreiro que morre desse modo.
Eles acreditam que ele será transportado aos deuses se seu corpo,
jazendo no campo de batalha, for devorado por um abutre faminto.

História Augusta” (séc. IV d. C.)

(Alexandre Severo 59.5): A Druidesa exclamou para ele quando ele chegava, “Vai em frente, mas não esperes a
vitória ou deposites confiança em teus soldados.” (235 d. C.)

(Numeriano 14): Enquanto Diocleciano era ainda um jovem soldado, ele estava hospedado numa taverna na terra
dos tongri, na Gália. Todo dia ele tinha de acertar as contas com sua senhoria, uma Druidesa. Um dia ela disse:
“Dicleciano, tu és ganancioso e sovina!” Zombeteiramente, ele lhe respondeu: “Então eu serei mais generoso
quando for imperador.” “Não rias”, ela disse, “pois será imperador depois de matares o javali.”

(Aureliano 43.4): Em certas ocasiões, Aureliano consultava as druidesas gaulesas para descobrir se os seus
descendentes continuariam a governar ou não. Elas disseram-lhe que nome algum seria mais famoso que os da
linha de Cláudio. E, sem dúvida, o atual imperador, Constâncio, é um descendente dele. (270 d. C.)

Ausônio (fim do séc. IV d. C.) (4.7-10, 10.22-30):

Descendes dos Druidas de Bayeux, se verdadeiras são as histórias a teu respeito,
e traças tua sacra ancestralidade e renome do templo de Belenus.
Tampouco esquecerei o ancião
com o nome de Febício.
Embora ele fosse sacerdote do deus Belenus, não recebeu qualquer vantagem da posição. Mas, apesar disso, esse,
que descende, diz-se, dos Druidas da Bretanha, recebeu uma cátedra em Bordeaux com a ajuda de seu filho.

Inscrição de Botorrita (fim do séc. II, começo do séc. I a. C.):

A Eniorosis e Tiato de Tiginos dedicamos trecaias e a Lugus dedicamos arainom.
A Eniorosis e a Equaesos, ogris erige coberturas de olga e a Lugus erige coberturas de tiasos.

Inscrição de Chamalières (c. 50 d. C.):

Invoco o deus Maponos arueriitis. Por meio da magia dos deuses do Mundo Inferior.
C. Lucios Floros, Nigrinos, o orador, Aemilios Paterinos, Claudios Legitumos, Caelios Pelignos, Claudios Pelignos,
Marcios Victorinos e Asiaticos, filho de Adsedillos…
O juramento jurarão – o pequeno se tornará grande, o curvado se tornará reto, e, embora cego, eu verei. Com esta
tábua de encantamento isso será…
luge dessummiiis luge dessumiis luge dessumiiis luxe.

Inscrição de Larzac (c. 90 a. C.):

Olhai:
– um encantamento mágico de mulheres
– o ritual deles, nomes do Mundo Inferior
– a profecia da vidente que tece este encantamento
A deusa Adsagsona devolve Severa e Tertionicna enfeitiçadas e amarradas.

Patrício (séc. V a. C.), “Confissão”:

É notável que os irlandeses tornaram-se, sem dúvida, um povo do Senhor e filhos de Deus. Essas pessoas que, até
agora, não tinham conhecimento de Deus, mas adoravam ídolos e seguiam práticas religiosas repulsivas.

Irlanda alto-medieval

– séc. VI d. C.: Juramentos serão proferidos em presença dos druidas (“druid”, em irlandês antigo)
– séc. VII d. C.: Somente o druida tem os mesmos direitos de um “boaire” (um nobre, proprietário de grandes
rebanhos)
– séc. VIII d. C.: Protege-me dos encantamentos de mulheres, ferreiros e druidas…

Bellouesus /|\ (compilação)

Tempestarii

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Plerosque autem vidimus et audivimus tanta dementia obrutos, tanta stultitia alienatos, ut credant et dicant, quandam esse regionem quae dicatur MAGONIA, ex qua naves veniant in nubibus, in quibus fruges quae grandinibus decidunt et tempestatibus pereunt, vehantur in eandem regionem, ipsis videlicet nautis aëreis dantibus pretia tempestariis, et accipientibus frumenta vel ceteras fruges. Ex his item tam profunda stultitia excoecatis, ut hoc posse fieri credant, vidimus plures in quodam conventu hominum exhibere vinctos quatuor homines, tres viros et unam feminam, quasi qui de ipsis navibus ceciderint: quos scilicet, per aliquot dies in vinculis detentos, tandem collecto conventu hominum exhibuerunt, ut dixi, in nostra praesentia, tanquam lapidandos. Sed tamen vincente veritate post multam ratiocinationem, ipsi qui eos exhibuerant secundum propheticum illud confusi sunt, sicut confunditur fur quando deprehenditur.

“Temos visto e ouvido muitos homens mergulhados em tamanha estupidez, afundados em tais profundezas de loucura a ponto de acreditarem que há uma certa região chamada Magonia, de onde naus singram as nuvens a fim de restituir àquela região aqueles frutos da terra que são destruídos por granizo e tempestades, os marinheiros oferecendo retribuições aos magos das tempestades (tempestarii) e recebendo eles próprios grãos e outros produtos. Em razão do número daqueles cujo cego destino era profundo o bastante para permitir-lhes acreditarem fossem possíveis tais coisas, vi diversas exibições, num certo ajuntamento de pessoas, de quatro pessoas algemadas, três homens e uma mulher, que disseram terem caído desses mesmos navios; depois de os manterem em cativeiro por alguns dias, trouxeram-nos diante da multidão reunida em nossa presença, como dissemos, para serem apedrejados. Porém, a verdade prevaleceu.”

Esse é um trecho de um livro chamado De Grandine et Tonitrua (“Sobre o Granizo e as Trovoadas”), escrito por São Agobardo (c. 779-840), um espanhol que foi arcebispo de Lyon (a antiga Lugdunum). É um parágrafo interessante por várias razões.

Primeiramente, o nome Magonia, que pode ser decomposto nos seguintes elementos:

a) mag – magos, “planície” em gaulês, o gaélico mag;
b ) – on – sufixo que se encontra comumente nos nomes das divindades célticas, como Map-on-os, Ep-on-a, Corn-on-os, Tigern-on-os, Rigant-on-a;
c) – ia – sufixo que forma nomes de lugares, existe em céltico antigo, bem como em latim: Hispan-ia, Britann-ia, Graec-ia, Ital-ia.

Assim, Mag-on-ia, “Lugar da Grande Planície Divina”, um impressionante fóssil da velha língua gaulesa, desaparecida desde o séc. VI, em uso no séc. IX. E também uma importante analogia com a Irlanda. Um dos nomes gaélicos para o Outro Mundo é justamente Mag Mór, “Grande Planície”.

Os navios dos magos das tempestades, navegando entre as nuvens, também fazem lembrar a mitologia irlandesa:

Ad-beraid, imorro, aroile do seanchaidib conid a n-dluim ciach tistais Tuatha De Danann i n-Erind. Ocus ni h-ead on, acht a longaib na morloinges tangadar, ocus ro loiscsed a longa uili iar tuidecht i n-Erind. Ocus is don dluim ciach bai dib side, at-dubradar aroile conid a n-dluim chiach tangadar. Ocus ni h-ead iar fir . Ar is iad so da fhochaind ara r’ loiscsead a longa na r’ fhagbaidis fine Fomra iad do fodail forro, ocus na ro thisad Lug do cosnum rigi fri Nuagaid.

“Entretanto, alguns dos historiadores dizem que os Tuatha Dé Danann chegaram a Ériu em uma nuvem de névoa. Mas isso não foi assim, pois eles vieram numa grande frota de navios e, depois de chegarem a Ériu, queimaram todas as suas naus. E, pela nuvem de fumaça que delas subiu, disseram alguns que eles chegaram em uma nuvem de névoa. Isso, porém, não é verdade, pois houve duas razões para que queimassem seus barcos: para que a raça dos Fomoráig não pudesse encontrá-los para fazer pilhagem e para que Lugh não pudesse vir combater Nuada pela soberania.” (Tuath De Danand na set soim, “As Quatro Jóias das Tuatha Dé Danann”)

Aparentemente, Agobardo esbarrou em uma sobrevivência popular da antiga religião céltica. Os conhecedores das lendas irlandesas não terão dificuldade em descobrir outros pontos de semelhança entre essa peculiar crença dos gauleses medievais e as opiniões dos gaélicos sobre seus deuses ancestrais.

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Pagãos, gentios, apóstatas

Isidorus Hispalensis (São Isidoro de Sevilha, c. 560 – 04/04/636). Trecho de sua obra Etymologiae (ou Origines):ISIDORUS

L. VIII, C. X, §§ i-v: De paganis

Pagani ex pagis Atheniensium dicti, ubi exorti sunt. Ibi enim in locis agrestibus et pagis gentiles lucos idolaque statuerunt, et a tali initio vocabulum pagani sortiti sunt. Gentiles sunt qui sine lege sunt, et nondum crediderunt. Dicti autem gentiles, quia ita sunt ut fuerunt geniti, id est, sicut in carne descenderunt sub peccato, scilicet idolis servientes et necdum regenerati. Proinde gentiles primitus nuncupantur: ipsi dicuntur Graece Ethnici. Ethnici ex Graeco in Latinum interpretantur gentiles. Éthnos enim Graece gens dicitur. Post fidem autem non debere vocari gentes sive gentiles eos qui ex gentibus credunt; sicut post fidem dici iam non potest Iudaeus, testante Paulo Apostolo et dicente iam Christianis: “Quoniam cum gentes essetis”, hoc est, infideles. Apostatae dicuntur, qui post baptismum Christi susceptum ad idolorum cultum et sacrificiorum contaminationem revertuntur. Est autem nomen Graecum.

L. 8, C. 10, §§ 1-5: Sobre os pagãos

Os pagãos chamam-se pagani em razão das vilas, pagi, de Atenas (1), onde se originaram. Lá, em localidades do interior e vilas, os gentios formaram bosques e ídolos. Assim iniciando, os pagãos obtiveram seu nome. Gentios são aqueles que existem sem a Lei e ainda não acreditaram. São chamados gentiles porque são tal como nasceram, geniti, isto é, por servirem ídolos haviam caído sob o pecado na carne e não haviam ainda renascido. Os gentios são chamados ethnici em grego, pois em grego éthnos significa gens, uma nação ou povo. Depois de obter a fé, os povos ou nações não devem ser chamados gentes ou gentiles (2); assim como, após obter a fé, um indivíduo não mais pode ser chamado “judeu”, como testifica o apóstolo Paulo ao falar daqueles que se converteram ao cristianismo: quoniam cum gentes essetis (“desde quando éreis pagãos”, I Cor., 12, 2), isto é, infiéis. Apóstatas, apostatae, retornam à adoração dos ídolos e à contaminação do sacrifício depois de ter recebido o batismo de Cristo. É um nome grego (3).

(1) É do latim, não do grego, o termo paganus < pagus, uma localidade do interior, derivado do verbo pangere, fixar-se firmemente, demarcar fronteiras.
(2) Gentiles < L. gens + -ilis, relativo ou pertencente a uma gens romana; gens, raça tribo.
(3) Gr. apostátēs, desertor.

Uma curiosidade: Isidoro, arcebispo de Sevilha, é o santo padroeiro da Internet.

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O Cerco a Massalía

ATHENAMarcus Iunianus Iustinus, Historiarum Philippicarum T. Pompeii Trogi Libri XLIV in Epitomen Redacti, L. XLVIII, 5:

Cum igitur Massilis et fama rerum gestarum et abundantia opum et uirium gloria uirente floreret, repente finitimi populi ad nomen Massiliensium delendum uelut ad commune extinguendum incendium concurrunt. Dux consensu omnium Catumarandus regulus eligitur. Qui cum magno exercitu lectissimorum uirorum urbem hostium obsideret, per quietem specie toruae mulieris, quae se deam dicebat, exterritus ultro pacem cum Massiliensibus fecit, petitoque ut intrare illi urbem et deos eorum adorare liceret cum in arcem Mineruae uenisset, conspecto in porticibus simulacro deae, quam per quietem uiderat, repente exclamat illam esse, quae se nocte exterruisset, illam, quae recedere ab obsidione iussisset. Gratulatusque Massiliensibus, quod animaduerteret eos ad curam deorum inmortalium pertinere, torque aureo donata dea in perpetuum amicitiam cum Massiliensibus iunxit.

Depois de algum tempo, quando Massalía estava no auge de seu renome, bem como em razão da fama de suas proezas e da abundância de sua riqueza e da reputação de seu poderio, os povos vizinhos subitamente conspiraram para erradicar o próprio nome de Massalía do mesmo modo como se uniriam para extiguir um incêndio que os ameaçasse a todos. Catumarandus, um de seus potentados, foi unanimemente escolhido general, o qual, durante o cerco à cidade inimiga com um grande exército de tropas escolhidas, foi amedrontado em seu sono pela visão de uma mulher de aparência ameaçadora que lhe disse ser uma deusa e por sua própria iniciativa fez a paz com os massaliotas. Tendo solicitado permissão para adentrar a cidade e oferecer adoração a seus deuses e tendo chegado ao santuário de Minerva e contemplado no pórtico a estátua da deusa que vira em seu sono, prontamente exclamou que “fora ela quem o havia aterrorizado à noite; fora ela quem lhe ordenara levantar o cerco”; então, felicitando os massaliotas por encontrarem-se sob a proteção, como lhe parecia, dos deuses imortais, e oferecendo um torque de ouro à deusa, firmou com eles uma aliança perene.

Comentário: Gnaeus Pompeius Trogus, o autor da obra resumida (in Epitomen Redacti) por M. Iunianus Iustinus, foi um historiador gaulês da tribo dos Vocontii, na Gallia Narbonensis, aproximadamente um contemporânio de Titus Liuius. O avô dele serviu Pompeius Magnus na guerra contra Sertorius e o pai foi o secretário e intérprete de G. Iulius Caesar durante a guerra gaulesa.

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Interpretando o Diagrama de Fionn‏

A O Diagrama de Fionn

diafionn

B Fintan Mac Bóchra, em Suidiugud Tellaich Temra:

B.1 Norte – Tuadus

Batalha (Cath) e Determinação

Batalhas, disputas, audácia, locais incultos, lutas, arrogância, inutilidade, orgulho, capturas, ataques, severidade, guerras, conflitos.

B.2 Leste – Airthis

Prosperidade (Bláth) e Mudança

Prosperidade, suprimentos, colméias, torneios, feitos de armas, chefes de família, nobres, prodígios, bom costume, boas maneiras, esplendor, abundância, dignidade, força, riqueza, administração da casa, muitas artes, muitos tesouros, cetim, sarja, seda, trajes, hospitalidade.

B.3 Sul – Dess

Música (Séiss) e Poesia

Cachoeiras, feiras, nobres, saqueadores, conhecimento, sutileza, ofício dos músicos, melodia, ofício dos menestréis, sabedoria, honra, música, aprendizagem, ensino, ofício dos guerreiros, jogo de fidchell, veemência, ferocidade, arte poética, advocacia, modéstia, código, séquito, fertilidade.

B.4 Oeste – Íaruss

Conhecimento (Fis) e Druidismo

Sabedoria, alicerce, ensinamento, pacto, julgamento, crônicas, conselhos, relatos, histórias, ciência, decoro, eloqüência, beleza, modéstia, generosidade, abundância, riqueza.

B.5 Centro – Mide

Soberania (Flaith)

Fírinne (justiça, verdade, integridade) [não está no texto, mas fírinne é a qualidade primordial associada a flaith, como mostra o Audacht Morainn]

Realeza Reis, mordomos, dignidade, primazia, estabilidade, instituições, esteios, destruições, ofício de guerreiros, ofício de condutores de carruagens, soldadesca, principados, grandes reis, ofício dos mestres-poetas, hidromel, generosidade, cerveja, renome, grande fama, prosperidade.

C Seathrún Céitinn, em Foras Feasa ar Éirinn:

C.1 Norte (província: Ulaid, Ulster; fortaleza real: Tailtiu; Lughnasadh)

C.2 Leste (província: Laighin, Leinster; fortaleza real: Tara; festim de Tara a cada três anos)

C.3 Sul (província: Mumhan, Munster; fortaleza real: Tlachtgha; Samhain)

C.4 Oeste (província: Connacht; fortaleza real: Uisnech; Beltaine)

C.5 Centro (província: Mide, Meath)

D. Strábo:n de Amáseia, em Geo:graphiká: especializações dos druidas lato sensu:

Poesia sacra: bardos – Molad (louvor)
Outros gêneros literários: bardos – Airchetal (poesia)
Administração/supervisão dos elementos do culto: vates – Iress* (religião)
Estudo amplo da natureza: vates e druidas strictu sensuInne** (natureza)
Filosofia moral: druidas strictu sensuAicned*** (essência)

* Iress é religião formal, credo, fé; tem sentido muito próximo a creitem (fé, crença, credeamh na forma mais recente).

** Inne é natureza física, significado, entranhas, o meio físico pelo qual algo ocorre.

*** Aicned significa natureza também, mas como essência, mente ou qualidade, como quando se menciona a natureza individual de alguém.

Reunindo A, B, C e D:

1

Batalha (Cath) e Determinação – Tuadus, norte (província: Ulaid; fortaleza real: Tailtiu; Lughnasadh)

Batalhas, disputas, audácia, locais incultos, lutas, arrogância, inutilidade, orgulho, capturas, ataques, severidade, guerras, conflitos.

Aicme B

-,-, B, beith  – Cath Molad
-,,-, L, luis Cath Airchetal
-,,,-, F, fearnCath Iress
-,,,,-, S, sailleCath Inne
-,,,,,-, N, nuinCath Aicned

2

Prosperidade (Bláth) e Mudança – Airthis, leste (província: Laighin; fortaleza real: Tara; festim de Tara a cada três anos)

Prosperidade, suprimentos, colméias, torneios, feitos de armas, chefes de família, nobres, prodígios, bom costume, boas maneiras, esplendor, abundância, dignidade, força, riqueza, administração da casa, muitas artes, muitos tesouros, cetim, sarja, seda, trajes, hospitalidade.

Aicme H

-‘-, H, úathBláth Molad
-”-, D, duirBláth Airchetal
-”’-, T, tinneBláth Iress
-””-, C, collBláth Inne
-””’-, Q, ceirtBláth Aicned

3

Música (Séiss) e Poesia – Dess, sul (província: Mumhan; fortaleza real: Tlachtgha; Samhain)

Cachoeiras, feiras, nobres, saqueadores, conhecimento, sutileza, ofício dos músicos, melodia, ofício dos menestréis, sabedoria, honra, música, aprendizagem, ensino, ofício dos guerreiros, jogo de fidchell, veemência, ferocidade, arte poética, advocacia, modéstia, código, séquito, fertilidade.

Aicme M

-/-, M, muinSéiss Molad
-//-, G, gortSéiss Airchetal
-///-, Ng, gétalSéiss Iress
-////-, St, straif Séiss Inne
-/////-, R, ruisSéiss Aicned

4

Conhecimento (Fis) e Druidismo – Íaruss, oeste (província: Connacht; fortaleza real: Uisnech; Beltaine)

Sabedoria, alicerce, ensinamento, pacto, julgamento, crônicas, conselhos, relatos, histórias, ciência, decoro, eloqüência, beleza, modéstia, generosidade, abundância, riqueza.

Aicme A

-|-, A, ailmFis Molad
-||-, O, onnFis Airchetal
-|||-, U, úrFis Iress
-||||-, E, edad  – Fis Inne
-|||||-, I, idadFis Aicned

5

Soberania (Flaith) – Mide, o centro (província: Mide)

Realeza Reis, mordomos, dignidade, primazia, estabilidade, instituições, esteios, destruições, ofício de guerreiros, ofício de condutores de carruagens, soldadesca, principados, grandes reis, ofício dos mestres-poetas, hidromel, generosidade, cerveja, renome, grande fama, prosperidade.

Forfeda

-x-, EA, ebhadh
-0-, OI, ór
-@-, UI, uilleand
-X-, IO, iphin
-#-, AE, emancholl

Os forfeda, com exceção de emancholl, espalham-se pelo diagrama entre airchetal e iress.

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