A Religião Céltica 2: os Deuses

clip2_118bEm uma conhecida passagem dos Commentarii de Bello Gallico (“Comentários sobre a Guerra da Gália”, VI, 17), Gaius Iulis Caesar define com precisão os deuses gauleses. Dirigindo-se a um público romano, Caesar  emprega teônimos romanos para indicar as funções e campos de atividade das divindades da Gália:

O principal deus dos gauleses é Mercúrio e há imagens dele em toda parte. Diz-se que é o inventor de todas as artes, o guia de cada viagem e jornada e o deus mais influente nos negócios e questões financeiras. Depois dele, adoram Apolo, Marte, Júpiter e Minerva. Esses deuses têm as mesmas áreas de influência que entre os outros povos. Apolo afasta as doenças, Minerva é a mais influente nos ofícios, Júpiter governa o céu e Marte é o deus da guerra.

Esse texto do séc. I a. E. C. deve ser interpretado à luz da narrativa arcaica irlandesa chamada Cath Maige Tuired (“Batalha da Planície dos Pilares”), que descreve os deuses hibérnicos ou chefes das Tuatha Dé Danann (“Tribos da Deusa Danu”?), permitindo a criação de uma tabela de corespondências entre estes e alguns teônimos gauleses conhecidos.

CaesarGáliaÉriu
Mercúrio – Lugus – Lug
Apolo – Belenos – Dian Cécht
Marte – Ogmios – Ogma
Júpiter – Taranis – Dagda
Minerva – Brigindu – Brigit

Todos os deuses são soberanos, isto é, dividem-se entre as funções sacerdotal (Júpiter) e guerreira (Marte), enquanto a terceira função (artesanal e produtiva) coloca-se sob o domínio comum. É por esssa razão que Caesar, ao não nomear nenhum deus artesão, atribui a Minerva (que o arcaísmo céltico não diferenciava de Juno e Vênus) a aprendizagem das técnicas artesanais, enquanto em Ériu Goibniu era o ferreiro divino e seus irmãos, Luchta e Credne, dominavam respectivamente a carpintaria e a ourivesaria. Não obstante, Caesar atribui a Apolo a medicina, ligada à terceira função.

Isso também explica porque o Dagda, que forma com Ogma, seu irmão, a grande divindade soberana dupla (luminosa e sombria, como o par Mitra/Varuna na Índia védica) possui entre seus atributos o caldeirão da abundância, a maça que dá a vida e a morte e a roda solar (aceitando-se sua identificação a Taranis como controlador do clima).

Porém, o correspondente céltico de Mercúrio é Lugus, o deus supremo do panteão gaulês. Lugus, no topo da hierarquia, está além de qualquer classificação, pois transcende todas as outras funções dos demais deuses. Quanto às centenas de teônimos gauleses e irlandeses,  apenas expressam sinônimos ou aspectos de alguma das cinco  grandes divindades soberanas.

Quando se mostra uma flutuação no sincretismo galo-romano, como se dá com um teônimo como Teutates (que é ora atribuído a Marte, ora a Mercúrio), isso revela que a percepção gaulesa não era capaz de identificar exatamente a qual deidade romana oficial uma de suas divindades correspondia. É necessário considerar igualmente o aviltamento funcional trazido pela pax romana (que suprimiu a classe guerreira) e a desintegração da organização politico-religiosa da sociedade céltica.

Bellouesus /|\

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