Ogham das Árvores Brasileiras

2

Publicado originalmente na lista Druidismo Brasil do Yahoo em 27/01/2008.

O que se segue é uma proposta de alfabeto ogâmico com árvores nativas do Brasil. Percorri nas últimas semanas [Obs.: este texto é de 2005.] vários tratados de botânica, analisando a flora arbórea brasileira e escolhendo, de acordo com sua importância em cada região e qualidades paisagísticas, os espécimes que formariam as famílias deste Ogham brasileiro.

Tive, é claro, de fazer algumas alterações relativamente ao Ogham irlandês, as quais ora submeto  apreciação de todos.

Na terceira família de consoantes, a Raça do Mate (que no Ogham irlandês corresponderia a Aicme Muine, Raça da Vinha), substituí a consoante ng (ngéadal, o junco), pelo nh português, uma vez que o ng não teria utilidade em nosso idioma. Pelo mesmo motivo, substituí o st (straif, o espinheiro-negro), pelo z, o que não deve causar espécie, uma vez que o z é também um das transliterações atribuídas a esse caractere.

Em relação à letra z, tive de representá-la pelo zimbro (junípero), que, embora não pertença à flora nativa, está bem aclimatado no Brasil e é utilizado na medicina popular. A madeira e as bagas do zimbro em infusão, decocção ou óleo aplicam-se contra asma, bronquite, acidez, má digestão e hidropsia, tendo
também valor diurético. Os antigos tratados de magia (como o Magus, de Francis Barrett), mencionam que as bagas do zimbro, misturadas ao tomilho, compõem um incenso que provoca visões. Nas terras célticas, era plantado junto às portas para desencorajar os ladrões e acreditava-se que suas bagas secas, enfiadas num cordel, tinham a capacidade de atrair o amor.

Considerando todas essas propriedades, penso que o zimbro possa ser bem recebido neste Ogham. E foi também esse o critério que me guiou ao eleger a romã (quantas vezes já a usei para aliviar uma inflamação da garganta?) para representar a letra r.

Mantive a letra h, ainda que seja muda em português, unicamente porque é necessária para compor o grupo lh. Isso unicamente porque não há, até onde sei, uma só árvore ou erva cujo nome em português comece com o som representado pelo lh. Escolhi a hortelã (menta), que também não é nativa do Brasil, para representar o h, por causa de sua difusão e amplo uso medicinal e culinário em todo o território nacional.

O q é a quaresmeira. Deve ser utilizado para registrar apenas o som que se ouve em QUA-resmeira, fre-QÜEN-te e e-QÜI-no, ou seja, /kw/. Para o som que se ouve em QUE ou QUÍ-mica, usa-se o c,castanheira, que soa sempre como /k/, nunca como /s/.

No ogham irlandês, as Forfeda (Letras Adicionais) representam ditongos e sons consonantais. Usei esse grupo para representar sons consonantais que são importantes em português e que não são contemplados no Beth-Luis-Nion.

Raça do Bacuri

B – bacuri
L – licuri
F – figueira-branca
S – sapucaia
N –naiá

Raça da Hortelã

H – hortelã
D – dima
T – tucumã
C – castanheira
Q – quaresmeira

Raça do Mate

M – mate
G – goiaba
Nh – nhacatirão
Z – zimbro
R – romã

Raça da Araucária

A – araucária
O – orabutã
U – urucum
E – embaúba
I – ipê-amarelo

Letras Adicionais

Ch – chal-chal
Gü – guaxupita
J – jacarandá
P – pitanga
V – varova

I. Raça do Bacuri

B – BACURI

Nome científico: Platonia insignis

Onde é encontrada: Região Amazônica e Nordeste do país, na floresta pluvial. É particularmente frequente no baixo Amazonas e Ilha do Marajó.

Outros nomes: bakuri, bacuri-açu, bacurizeiro, bacuri-grande, landirana (BA).

L – LICURI

Nome científico: Syagrus coronata

Onde é encontrada: Pernambuco até o sul da Bahia, na mata pluvial atlântica.

Outros nomes: aricuri, uricuri, nicuri, alicuri.

F – FIGUEIRA-BRANCA

Nome científico: Ficus guaranitica

Onde é encontrada: Rio de Janeiro, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Goiás, São Paulo e norte do Paraná, principalmente na floresta semidecídua da bacia do Paraná. Existem outras espécies de ficus denominadas popularmente de “figueira-branca”, todas muito parecidas com essa.

Outros nomes: figueira, figueira-brava, mata-pau, figueira-mata-pau.

S – SAPUCAIA

Nome científico: Lecythis pisonis

Onde é encontrada: Ceará até o Rio de Janeiro,na floresta pluvial atlântica. É particularmente frequente no sul da Bahia e norte do Espírito Santo.

Outros nomes: castanha-sapucaia, sapucaia-vermelha, cumbuca-de-macaco, marmita-de-macaco, caçamba-do-mato.

N – NAIÁ

Nome científico: Attalea dubia

Onde é encontrada: Rio de Janeiro até Santa Catarina, na floresta pluvial  da encosta e da planície atlântica.

Outros nomes: indaiá, palmeira-indaiá, coqueiro-indaiá, palimito-de-chão (RJ), indaiá-guaçu, inaiá, camarinha, anajá.

II. Raça da Hortelã

H – HORTELÃ

Nome científico: Mentha piperita

Onde é encontrada: não pertence à flora nativa.

Outros nomes: menta.

D – DIMA

Nome científico: Croton lanjowensis

Onde é encontrada: região amazônica, principalmente no estado da Amazônia, na mata pluvial de terra firme.

Outros nomes: dima-branca.

T – TUCUMÃ

Nome científico: Astrocaryum vulgare

Onde é encontrada: estado do Pará, na floresta amazônica de terra firme.

Outros nomes: tucumã-do-pará.

C – CASTANHEIRA

Nome científico: Bertholletia excelsa

Onde é encontrada: em toda a região amazônica, incluindo os estados  de Roraima, Acre e Amazônia.

Outros nomes: castanha, castanha-do-pará, castanha-verdadeira, castanheiro, castanha-do-brasil,
amendoeira-da-américa, castanha-mansa.

Q – QUARESMEIRA

Nome científico: Tibouchina granulosa

Onde é encontrada: Bahia, Rio de Janeiro, São Paulo e Minas Gerais, principalmente na floresta pluvial da encosta atlântica. Existe uma variedade dessa espécie que produz flores róseas.

Outros nomes: flor-de-quaresma, quaresmeira-roxa, quaresma.

III. Raça do Mate

M – MATE

Nome científico: Ilex paraguariensis

Onde é encontrado: Mato Grosso do Sul, São Paulo até o Rio Grande do Sul nas matas de altitude (400-800m). É particularmente frequente na mata dos pinhais dos três estados sulinos.

Outros nomes: erva-mate, erveira, congonha, erva, erva-verdadeira, erva-congonha.

G – GOIABA

Nome científico: Psidium guayava

Onde é encontrada: Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul, na floresta pluvial atlântica. Ocorre também de maneira espontânea em quase todo o país.

Outros nomes: guava, goiabeira, goiabeira-branca, goiaba-pera, goiaba-branca, goiaba-vermelha, araçá-goiaba, araçá-guaçu, guaiaba, guaiava, araçá-guaiaba.

Nh – NHACATIRÃO

Nome científico: Miconia cinnamifolia

Onde é encontrada: Bahia até Santa Catarina, principalmente na floresta pluvial da encosta atlântica.

Outros nomes: jacatirão, jacatirão-açu, jacatirão-de-copada, carvalho-vermelho, casca-de-arroz.

Z – ZIMBRO

Nome científico: Juniperus communis

Onde é encontrado: não pertence à flora nativa.

Outros nomes: junípero.

R – ROMÃ

Nome científico: Punica granatum

Onde é encontrada: não pertence à flora nativa.

Outros nomes: romãzeira.

IV. Raça da Araucária

A – ARAUCÁRIA

Nome científico: Araucaria angustifolia, Bert.

Onde é encontrada: Minas Gerais e Rio de Janeiro até o Rio Grande do Sul em regiões de altitudes acima de 900m (no sul, acima de 500m).

Outros nomes: parana-pine, curi, curiúva, pinheiro-do-paraná, pinheiro, pinho, cori, pinho-brasileiro,
pinheiro-brasileiro, pinheiro-são-josé, pinheiro-macaco, pinheiro-caiová, pinheiro-das-missões.

O – ORABUTÃ

Nome científico: Caesalpinea echinata

Onde é encontrada: Ceará ao Rio de Janeiro, na floresta pluvial atlântica, sendo particularmente frequente no sul da Bahia e norte do Espírito Santo.

Outros nomes: pau-brasil, ibirapitanga, brasileto, ibirapiranga, ibirapita, ibirapitã, muirapiranga, pau-rosado, pau-de-pernambuco.

U – URUCUM

Nome científico: Bixa orellana

Onde é encontrada: região amazônica até a Bahia, na floresta pluvial, geralmente ao longo de rios, largamente cultivada nas florestas pelos indígenas.

Outros nomes: urucu, colorau, açafroa, açafroeira-da-terra (BA).

E – EMBAÚBA

Nome científico: Cecropia glazioui

Onde é encontrada: encontradas na Mata Atlântica, em matas ciliares e bordas de capões.

Outros nomes: umbaúba, árvore da preguiça, pau de lixa, caixeta, imbaíba, ambaíba, baibeira, torém.

I – IPÊ-AMARELO

Nome científico: Tabebuia alba

Onde é encontrado: Rio de Janeiro, Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, na floresta semidecídua de altitude.

Outros nomes: ipê-da-serra, ipê-amarelo-da-serra, ipê-mandioca, ipê-branco, ipê-tabaco, ipê-mamona.

V. Letras Adicionais

Ch – CHAL-CHAL

Nome científico: Allophylus edulis

Onde é encontrada: região amazônica até o Ceará, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Bahia, Rio de janeiro até o Rio Grande do Sul, principalmente na floresta pluvial e semidecídua.

Outros nomes: vacum, vacunzeiro, chala-chala, baga-de-morcego, fruta-de-pombo, murta-branca, fruta-de-pavó, fruta-de-paraó, murta-vermelha.

Gü – GUAXUPITA

Nome científico: Esenbeckia grandiflora

Onde é encontrada: Rio de Janeiro e Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, principalmente na floresta latifoliada semidecídua.

Outros nomes: canela-de-cutia, pau-de-cutia.

J – JACARANDÁ

Nome científico: Jacaranda angustifolia

Onde é encontrado: Minas Gerais, Goiás, Mato Grosso do Sul, Mato Grosso, São Paulo até o Paraná, principalmente na floresta latifoliada semidecídua da bacia do Paraná. É muito semelhante à espécie exótica Jacaranda mimosaefolia (jacarandá mimoso) nativa do norte da Argentina.

Outros nomes: caroba, jacarandá-de-minas, caivá, jacaranda-branco, caroba-branca, pau-de-colher, pau-santo, carobeira, jacarandá-preto, mulher-pobre.

P – PITANGA

Nome científico: Eugenia uniflora

Onde é encontrada: Minas Gerais até o Rio Grande do Sul, na floresta semidecídua do planalto e da bacia do rio Paraná.

Outros nomes: pitangueira, pitangueira-vermelha, pitanga-roxa, pitanga-branca, pitanga-rósea, pitanga-do-mato.

V – VAROVA

Nome científico: Prunus sellowii

Onde é encontrada: Rio de Janeiro ao Rio Grande do Sul na mata pluvial atlântica e Minas Gerais e Mato Grosso do Sul até o Rio Grande do Sul nas florestas semidecíduas.

Outros nomes: pessegueiro-bravo, pessegueiro-do-mato, miguel-pintado, coração-de-negro, marmelo-do-mato, coração-de-bugre, varoveira.

Podem-se formar os nomes das letras com a consoante inicial mais uma só vogal, ou, no caso das vogais, apenas com o som da própria vogal, como em português. Teríamos assim: ba, li, fi, sa, na; hor, di, tu, ca,
qua; ma, go, nha, zi, ro; a, o, u, e, i; cha, gua, ja, pi, va.

Bellouesus /|\

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s